Open-access As visitas de Oppenheimer ao Brasil, em 1953 e 1961, seu contexto e repercussões

Oppenheimer’s visits to Brazil, in 1953 and 1961, its context and repercussions

Resumo

Robert Oppenheimer, conhecido pela sua atuação no Projeto Manhattan que conduziu à produção da bomba atômica, esteve por duas vezes no Brasil. Na primeira vez, em 1953, veio a convite do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), que buscava valorizar a pesquisa e dar destaque à sua atuação institucional. Fez seminários e palestras, visitou instituições científicas e concedeu diversas entrevistas. Havia grande interesse do público sobre a área de física nuclear e a produção de armas atômicas; Oppenheimer era o físico de maior destaque mundial naquele momento. Na Academia Brasileira de Ciências (ABC), Oppenheimer fez uma comunicação científica e, no CNPq, discutiu sobre ciência e educação no Brasil. Retornou ao Brasil em 1961, em viagem patrocinada pela OEA, após a tormenta política que o atingiu. Nesta visita ao Rio de Janeiro fez seminários no CBPF, participou de debate na Marinha e deu entrevistas. Recebeu a comenda Cruzeiro do Sul do governo brasileiro, foi recepcionado no CNPq e falou na ABC sobre cultura e ciência. O objetivo deste artigo é descrever os principais acontecimentos das visitas de Oppenheimer ao Brasil, analisar suas motivações e eventuais repercussões, bem como ideias e proposições que ele aqui expôs.

Palavras-chave:
Oppenheimer; História da ciência no Brasil; Armas atômicas


Abstract

Robert Oppenheimer, known for his role in the Manhattan Project that contributed to the production of the atomic bomb, was in Brazil twice. The first time, in 1953, came the invitation from the National Research Council (CNPq), which sought to value research and highlight its institutional performance. He gave seminars and lectures, visited scientific institutions and gave several interviews. There was great public interest in the area of nuclear physics and the production of atomic weapons; Oppenheimer was the most prominent physicist in the world at that time. At the Brazilian Academy of Sciences (ABC), Oppenheimer gave a scientific communication and, at CNPq, he discussed science and education in Brazil. He returned to Brazil in 1961, on a trip sponsored by the OAS, after the political storm that hit him. On this visit to Rio de Janeiro he gave seminars at the CBPF, participated in debates at the Navy and gave interviews. He received the Cruzeiro do Sul commendation from the Brazilian government, was welcomed at the CNPq and spoke on ABC about culture and science. The objective of this article is to describe the main events of Oppenheimer’s visits to Brazil, analyze his motivations and possible repercussions, as well as the ideas and propositions he presents here.

Keywords:
Oppenheimer; History of science in Brazil; Atomic weapons


1. Introdução

O físico norte-americano Julius Robert Oppenheimer (1904–1967), famoso pela sua atuação como diretor do Laboratório Científico de Los Alamos, no Projeto Manhattan, que conduziu à produção da primeira bomba atômica, esteve por duas vezes no Brasil. Sua trajetória pessoal foi apresentada recentemente em telas de cinema de todo o mundo, com o filme Oppenheimer1, e amplamente discutidos os aspectos políticos, científicos e éticos de sua atuação, bem como o seu contexto. Oppenheimer esteve no Brasil, em 1953, a convite do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), que havia sido criado dois anos antes e a quem interessava trazer cientistas reconhecidos mundialmente ao Brasil como forma de destacar e valorizar a sua atuação no apoio institucional à pesquisa científica. Oppenheimer estava, então, no auge de sua fama e ainda não havia sido perseguido politicamente e destituído de suas funções em altas comissões do governo norte-americano, o que se daria no ano seguinte, embora já estivesse defendendo proposições contrárias à corrida armamentista nuclear.

Oppenheimer retornou ao Brasil em 1961, em viagem patrocinada pela OEA, após a tormenta política que o atingiu, mas ainda com grande prestígio nos meios científicos, e seis anos antes de seu falecimento. Essas vindas de Oppenheimer ao Brasil não são consideradas, ou são apenas ligeiramente mencionadas, nas suas principais biografias ou em livros sobre o período [1, 2, 3, 4], mas tiveram importância local, dentro do contexto da ciência brasileira da época. Vamos rememorar os principais acontecimentos das visitas de Oppenheimer ao Brasil, suas repercussões e as ideias que ele aqui expôs e defendeu.2

Não é nosso propósito fazer uma análise mais aprofundada nem entrar em grandes detalhes sobre a situação política do país nem da ciência brasileira no período das visitas de Oppenheimer ao Brasil, em particular no que se refere à política nuclear, então incipiente. Existem já vários e bons livros e trabalhos referentes ao tema e remetemos o leitor para alguns deles [5, 6, 7, 8, 9, 10, 11]. No entanto, para se entender melhor os aspectos, motivações e repercussões das visitas, vamos destacar de forma sintética, no período das visitas de Oppenheimer, alguns dos acontecimentos principais relativos à questão nuclear, que refletem as grandes questões e debates existentes no país e na comunidade científica acerca da política nuclear e da ciência no Brasil, em particular as relações com os EUA e o contexto da Guerra Fria.

Após a II Guerra Mundial o mundo inteiro passou por um período de grandes transformações econômicas, políticas e sociais que também atingiram, e profundamente, a ciência. Ao seu uso para o desenvolvimento da tecnologia militar, que afetou profundamente as relações entre a ciência e a sociedade, se seguiu a percepção de que o conhecimento científico e, em particular, a energia nuclear, poderia gerar impactos na economia dos países industrializados e, também, ajudar na superação do atraso dos países subdesenvolvidos. No Brasil surgiu um importante movimento político de valorização do desenvolvimento nacional que favoreceu o desenvolvimento da pesquisa em diversas áreas do conhecimento científico, já que a ciência e a tecnologia eram vistas como instrumentos essenciais para o avanço do país. Segundo Schwartzmann [1, cap. 8, p. 3]:

Era muito grande, nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, o otimismo em relação ao papel positivo que a ciência e a tecnologia poderiam desempenhar para elevar os países latino-americanos a patamares socioeconômicos mais satisfatórios. A guerra, tendo demonstrado a força da ciência e da tecnologia para a destruição, animou em todos a esperança de que esse mesmo poder viesse a ter um impacto benéfico, desde que orientado corretamente. Tal ideia parecia confirmar-se com a onda de inovações e transformações tecnológicas que ocorriam na indústria e na agricultura. A visão de que a ciência e as universidades poderiam exercer um papel positivo na conquista de transformações socioeconômicas fazia parte da ideologia “desenvolvimentista”, que emanara dos trabalhos da Comissão Econômica da Nações Unidas para a América Latina (CEPAL).

Nos Quadros 1 e 2 sintetizamos os principais acontecimentos na ciência brasileira e os acordos atômicos referentes à interação entre o Brasil e os EUA nos anos que antecederam imediatamente às visitas de Oppenheimer e no período delas [8, 9, 10]. Ao longo de todo este período de duas décadas, e de forma simplificada, disputaram e alternaram-se no Brasil duas posições políticas antagônicas, em um jogo constante de marchas e contramarchas [8]: a linha norte-americana, alinhada a interesses econômicos e políticos daquela nação; e a linha nacionalista, que defendia uma política nuclear autônoma para o País e interações também com outros países. Entre 1940 e 1955, o Brasil, a partir de acordos secretos ou pelo menos camuflados com os EUA, manteve uma relação de dependência grande e de submissão ao papel de exportador de materiais estratégicos, em particular areias monazíticas. A partir da atuação da Comissão de Inquérito do Congresso Nacional sobre questão nuclear, em 1956, muitos fatos, até então ocultos sobre os acordos do Brasil com os EUA, foram revelados e isto deslanchou um movimento na opinião pública que fortaleceu, nos anos seguintes, posições mais nacionalistas. Dentro deste contexto, ocorreria a segunda visita de Oppenheimer em 1961. No entanto, em 1964, com a deflagração do golpe civil-militar, a situação geral do país, em particular nos campos da ciência e da política nuclear, sofreria grandes mudanças.

Quadro 1
Principais acontecimentos na área nuclear de 1940 a 1953.
Quadro 2
Principais acontecimentos nos área nuclear entre 1954 e 1964.

Em 1953, o CNPq, que havia sido criado em 1951 no bojo do movimento com viés nacionalista que reuniu cientistas, militares e alguns empresários [10, 12], convidou e patrocinou a primeira viagem de Oppenheimer ao Brasil. O CNPq estava em um processo de fortalecimento institucional e de implantação de uma política de apoio à ciência no Brasil. Por isto, em seus primeiros anos, convidou grandes e experientes cientistas e professores do exterior, a maioria dos EUA ou da Europa, para se fortalecer e para proporcionar aos pesquisadores brasileiros maior intercâmbio internacional, especialmente na área da física atômica. No ano anterior, por exemplo, havia convidado o prêmio Nobel de Física, Isidor Isaac Rabi, amigo de Oppenheimer e que havia atuado também no Projeto Manhattan [13].3

Oppenheimer era certamente um dos físicos de maior expressão e prestígio científico e político naquele momento e aqui veio para realizar seminários e conferências sobre os temas de sua especialidade e expertise. Havia, na época, grande interesse internacional e local no desenvolvimento das pesquisas no domínio atômico e nuclear. O Almirante Álvaro Alberto, que como presidente do CNPq convidou Oppenheimer para sua vinda, estava na Europa, no início da visita de Oppenheimer, buscando estabelecer cooperação com a Alemanha e a França no terreno nuclear. Essa viagem resultaria no episódio das centrífugas adquiridas pelo Brasil, na Alemanha, cuja vinda foi bloqueada por ações do UK e EUA, inclusive com a atuação da AEC daquele país [8, p. 32].

A vinda de Oppenheimer ao Brasil não decepcionou, em absoluto, as expectativas do CNPq porque ela teve repercussão bastante ampla na mídia e, nas muitas entrevistas, palestras e encontros que o cientista deu aqui, ele sempre destacou a importância da ciência para a sociedade, elogiou a comunidade científica, o CNPq e as instituições locais, e enfatizou que o futuro do país residia na pesquisa científica. Além disso, ele realizou diversas palestras nas instituições científicas e teve conversas, algumas secretas na época, com cientistas e dirigentes científicos locais. É interessante destacar que Oppenheimer já tinha tido anteriormente várias interações com físicos brasileiros em Princeton, como Lattes, Tiomno e Leite Lopes [14], e com o próprio Álvaro Alberto, o que certamente facilitou as tratativas das viagens. Na segunda viagem de Oppenheimer, em 1961, ocorreu quando ele já havia sido destituído de todas suas funções oficiais no governo norte-americano na área nuclear, mas ainda era altamente influente na comunidade científica internacional, tanto que veio a convite da OEA, passando também pela Argentina, e era ainda muito respeitado no Brasil.

2. A Primeira Visita de Oppenheimer em 1953

2.1. Recepção e cobertura da mídia local

Como já mencionado, Oppenheimer foi convidado para vir ao Brasil, em 1953, por Álvaro Alberto, então presidente o CNPq, e sob os auspícios desta agência de fomento. Em 25 de junho de 1953, desembarcou no Rio de Janeiro, com sua esposa Katherine (Kitty) e seus dois filhos, Peter e Katherine (Toni), então com 12 e 9 anos, respectivamente (Figura 1). A permanência deles se estendeu até o dia 1° de agosto, quando retornaram aos EUA (Figura 2). A maior parte do tempo, esteve no Rio de Janeiro, mas visitou também São José dos Campos, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto. Sua visita foi amplamente coberta pela mídia brasileira, com centenas de notícias, muitas fotos e diversas entrevistas [15, 16, 17]. No mesmo dia de sua chegada ao Rio, foi recepcionado no CNPq e, nos dias seguintes participou de discussões e seminários no CBPF, deu entrevistas e visitou o Instituto de Biofísica e o INT. O programa previsto para as atividades de Oppenheimer no Brasil foi difundido por alguns jornais, como o Jornal do Commercio [15, p. 8], e dá uma dimensão da intensidade delas e dos locais por ele visitados. 4

Figura 1
Mídia carioca noticia a chegada de Oppenheimer e família [16, 17].
Figura 2
Documento de Oppenheimer para ingresso no Brasil. Acervo Arquivo Nacional/SIAN.

Em sua primeira entrevista no Brasil [17, p. 1 e 13], em 25/6/1953, Oppenheimer elogiou os jovens cientistas brasileiros e afirmou conhecer pessoalmente vários deles, a quem considerou excelentes pesquisadores. Sobre o desenvolvimento da bomba atômica na URSS disse: “Infelizmente temos que acreditar que os russos possuem bons técnicos de energia atômica, entre os quais vários de nacionalidade alemã, o que nos leva a supor que lá também já exista a bomba atômica”. Já se sabia, naquele momento, que ela havia sido desenvolvida e testada na URSS. Oppenheimer estimou, em uma resposta, que o custo de produção da primeira bomba atômica fora de cerca de 1 milhão de dólares [possivelmente falha do jornal, já que custou de 1 a 2 bilhões de dólares], e fez uma suposição acanhada sobre a industrialização da energia atômica: avaliou que se levaria ainda uns vinte anos para tal uso comercial. No entanto, já em junho de 1954 foi construída a primeira central nuclear, conectada à rede elétrica, em Obninsk (URSS). A segunda central em escala comercial seria a de Calder Hall, em Sellafield (UK), em outubro de 1956, e a terceira em Shippingport (EUA) em 1957.

2.2. A ida a São Paulo

Entre os dias 6 e 12 de julho de 1953, Oppenheimer esteve no Estado de São Paulo, acompanhado pelo presidente (em exercício) do CNPq, Orlando Rangel, e por seu diretor científico Joaquim da Costa Ribeiro. Visitou inicialmente o Centro Técnico de Aeronáutica, em São José dos Campos. Em São Paulo, a partir do dia 7, foi à USP (Laboratório de Física Nuclear, Instituto de Eletrotécnica, Escola Politécnica e Departamento de Física da FFLCH), além de ir ao IPT, ao Instituto Butantan e de dar uma entrevista coletiva. Na física da USP participou de um seminário e no Instituto de Engenheiros fez a palestra “O Progresso da Ciência”. Naquele final de semana visitou uma fazenda de café entre Limeira e Campinas [15, p. 8].

Em entrevistas à mídia paulista (Figura 3) [18, 19], Oppenheimer mencionou os 3 países já possuidores da bomba atômica: EUA, UK e URSS (esta, sem confirmações oficiais, segundo ele, já teria explodido quatro bombas experimentais e teria outras em estoque para um eventual terceira guerra mundial). Enfatizou, em seguida, a importância da energia atômica para fins pacíficos, assunto que o interessava mais, destacando aplicações na produção de medicamentos e de fertilizantes e apontando o possível aproveitamento da energia térmica, gerada em reatores e usinas atômicas, cuja dificuldade maior seria o alto custo e a complexidade dos equipamentos. Sobre a interdição de armas atômicas – nos EUA defendeu a posição do não desenvolvimento da bomba de hidrogênio – disse: “Sou homem de paz. Acredito na paz, a para isso as armas não são necessárias. E, como eu, há muita gente razoável que não precisa de metralhadoras, gás asfixiante ou armas atômicas para bem viver. Nessa gente, confio.” Não quis responder a uma pergunta sobre o casal Rosenfeld, que havia sido eletrocutado nos EUA sob a acusação de espionagem atômica.

Figura 3
Mídia noticia a visita e as falas de Oppenheimer em São Paulo [18, 19].

Oppenheimer destacou as importantes pesquisas que, a seu ver, estavam sendo realizadas nos laboratórios da USP. Citou explicitamente os laboratórios de Marcelo Damy e de Oscar Sala, no terreno experimental, e os trabalhos de alto nível do grupo de física teórica, afirmando: “em cada um desses lugares há coisas novas e desconhecidas e um programa demonstrando grande maturidade de imaginação” [19, p. 1]. Elogiou também outras instituições de pesquisa locais. Insistiu que se devia dar a maior atenção ao progresso da pesquisa científica, em particular apoiando os jovens pesquisadores, e que o Brasil se encontrava na vanguarda da América Latina. Sobre Cesar Lattes, havia comentado na sua primeira entrevista ali: “É um grande homem e um grande patriota. Conheço-o há longos anos, e as descobertas que fez e as que certamente fará futuramente o colocam em posição privilegiada no mundo da pesquisa nuclear. É um moço que honra o Brasil e está fazendo muito por sua pátria. Poderia estar trabalhando em qualquer país do mundo, mas, às muitas ofertas que recebeu, preferiu ficar em sua terra e treinar um grupo de cientistas para que o Brasil, em futuro próximo, tenha as reservas humanas necessárias para seu progresso no campo da pesquisa nuclear” [20, p. 7].

2.3. A comunicação na ABC

De volta ao Rio, no dia 14 de julho de 1953, Oppenheimer fez uma comunicação científica na ABC, em uma sessão ordinária que ocorreu no prédio da Escola Politécnica (atual IFCS), uma vez que a Academia não tinha sede própria naquele momento [21]. A recepção na ABC contou com a presença de cerca de 40 acadêmicos e convidados, inclusive Katherine Oppenheimer [22]. Ela foi presidida por Artur Moses, presidente da ABC, e teve entre os assistentes a presença de Guido Beck, Costa Ribeiro, Bernhard Gross, Fritz Feigl, Carlos Chagas Filho e Aristides Leão [23]. Nela, o físico norte-americano foi saudado por José Leite Lopes – que já interagira anteriormente com ele, em um período em que esteve em Princeton a convite do próprio Oppenheimer – que destacou suas importantes contribuições para a física e, também, o seu papel como professor universitário na formação da escola norte-americana de físicos [Anexo 1]. Anos depois, Leite Lopes escreveria um artigo para homenagear Oppenheimer, em nome da ABC, em dezembro de 1967, em função de seu falecimento [13].

Oppenheimer agradeceu à saudação e exprimiu sua satisfação em ser recebido pela ABC, que conhecia de longa data, à distância, acompanhando os trabalhos publicados nos seus Anais. Em seguida fez a sua comunicação científica: “Megalomorfos” [Anexo 2]. Ele propôs este nome para designar as partículas pesadas, que haviam sido recentemente descobertas, instáveis, e que se desintegravam em outras partículas de massa menor e com mais energia, sob a forma de fótons ou neutrinos. Segundo ele, as propriedades dessas partículas eram ainda pouco conhecidas e ignorava-se a razão profunda de sua existência e as interconexões existentes entre elas. Falou sobre a descoberta e as propriedades dessas partículas pesadas: o nêutron, os mésons “mi” e “pi”, as chamadas partículas V, e aquelas designadas por “tau”, “qui” e “kapa”. Acrescentou que pretendia apresentar estas ideias, com maior profundidade, em seminários no CBPF. Durante a discussão, Leite Lopes solicitou esclarecimentos sobre as partículas V. Oppenheimer respondeu que foram produzidas artificialmente no Bevatron de Brookhaven. A outra pergunta de Leite Lopes, respondeu que não foram observados prótons negativos nessas experiências [22]. A designação, proposta por Oppenheimer, de partículas megalomorfas, não sobreviveu ao tempo.

Nesta mesma sessão da ABC houve a apresentação de uma comunicação de Carlos Chagas Filho, trabalho feito em cooperação com Lauro Sollero e Maury Miranda, sobre “Utilização da acetilcolina durante a descarga da Narcinea brasiliensis”. Em seguida, Sergio Mascarenhas, então um pesquisador iniciante do grupo de Costa Ribeiro, apresentou a comunicação: “Interpretação do efeito Costa Ribeiro pela teoria da colisão molecular”, que foi comentada por Costa Ribeiro, Peter Weyl e Oppenheimer [22]. Poucos anos antes de seu falecimento, Sergio Mascarenhas, em uma conversa particular, declarou5 que havia ficado particularmente satisfeito com a intervenção positiva de Oppenheimer sobre seu trabalho, assim como ficara incomodado com a crítica que Richard Feynman fez a aspectos do trabalho de pesquisa do grupo. Os comentários críticos de Feynman, aos quais Sergio Mascarenhas se refere, possivelmente foram os que ocorreram em uma outra sessão da ABC, no dia 25 de agosto de 1953 [24], na qual o físico norte-americano estava presente, quando Armando Dias Tavares apresentou resultados experimentais relacionados com o efeito Costa Ribeiro e com o trabalho de Sergio Mascarenhas.

2.4. A ida a Belo Horizonte, a conferência no CNPq e o retorno aos EUA

No dia 16 de julho, Oppenheimer fez uma conferência na Escola Técnica do Exército (“O Progresso da Ciência”) [25] e participou, nos dias 17 e 18 de julho de seminários no CBPF. No dia 20/7 viajou para Belo Horizonte, onde visitou o Instituto de Pesquisas Radioativas (IPR), e fez palestra na Escola de Engenharia da UMG, no dia 23/7, com o mesmo tema de São Paulo [26, p. 6]. No final de semana seguinte visitou Ouro Preto.

Em sua última conferência, no CNPq em 28/7 [Figura 4], já no Rio de Janeiro, Oppenheimer apresentou um balanço positivo e otimista sobre as instituições de pesquisa que visitara em algumas cidades brasileiras, enalteceu bastante a atuação do CNPq e abordou três assuntos principais: as diversas responsabilidades que deveria ter um órgão como o CNPq, que era ao mesmo tempo uma agência de fomento e uma comissão de energia atômica; a importância e a situação do sistema educacional no Brasil e a questão específica da energia atômica. No final, respondeu a várias perguntas dos conselheiros do CNPq. O conteúdo integral de tal conferência encontra-se nos anais da reunião do Conselho Deliberativo do CNPq [27]. Após a fala de Oppenheimer, seguiu-se uma longa sessão de debates na qual usaram da palavra diversos conselheiros do CD do CNPq: Mario Pinto, Costa Ribeiro, o Consultor Jurídico do CNPq, Carlos Chagas Filho, Baptista Ferreira, Bernardino de Mattos e Orlando Rangel. Além de questões sobre o tema nuclear, grande parte da discussão se referiu à pesquisa, ensino, e às relações entre elas, e a necessidade de formação de pessoal qualificado.

Figura 4
Oppenheimer no CNPq. Arquivo CNPq.

No Anexo 3, colocamos uma interessante descrição da exposição de Oppenheimer, que foi feita por Joaquim da Costa Ribeiro, alguns dias depois, no programa “Pensando no Brasil”, que o CNPq fazia na Rádio MEC [28]. Ao falar sobre a necessidade de renovação educacional, Costa Ribeiro reproduziu, da exposição de Oppenheimer, uma interessante reflexão sobre o ensino de ciência: “Em ciência, aquele que ensina bem é o que traz para as suas aulas o espírito de sua própria pesquisa – nem todo bom cientista é um bom Professor, mas até hoje não encontrei nenhum bom Professor que não fosse um bom cientista – uma pessoa ativa na ciência, que poderá não estar fazendo coisas que interessem profundamente a todo mundo, mas pelo menos coisas em que ele está profundamente interessado. A melhor maneira de ensinar a ciência é ensiná-la sob forma de ação, fazendo recuar a obscuridade, criando situações de perplexidade e resolvendo-as respondendo aos paradoxos por soluções lógicas. O ensino da ciência não deve ser uma coisa morta, e acabada, mas deve antes ser considerado um uma forma de ação e como uma forma de aventura.”

Um registro histórico importante sobre esta visita, a ser explorado mais cuidadosamente em seu significado, consta do Arquivo Álvaro Alberto no Centro Interunidade de História da Ciência (CHC-USP) [29]. Trata-se do relato de uma reunião secreta de Oppenheimer com lideranças do CNPq, que ocorrera em 14/07/53, às 10:00 h, na sede do CNPq, estando presentes, além dele, o Coronel Orlando da Fonseca Rangel Sobrinho, o Tenente-Coronel David Rodolfo Navegantes, Joaquim da Costa Ribeiro, Bernhard Gross e o Major Werner Hjalmar Gross. O sumário é assinado pelo major. No alto, à direita do texto, há o carimbo: SECRETO. Pelo relato foram abordadas “várias questões referentes à ‘Bomba de Implosão’, objeto de estudos desse Conselho”. Inicialmente, Oppenheimer perguntou sobre “as experiências já realizadas, i.e., a natureza dos trabalhos que fundamentaram o mecanismo da bomba, como velocidade do jato, natureza do explosivo empregado, dimensões dos cones e, sobretudo, a constituição do sistema de iniciação. Foi, então, o Dr. Oppenheimer posto ao par dos trabalhos realizados, porém, em termos bastante vagos e gerais, de acordo com o estabelecido, previamente.”

Oppenheimer, apesar da atitude aparentemente franca em suas colocações, deixou de responder a algumas questões mais delicadas, em função possivelmente das limitações de suas funções na AEC norte-americana. Segundo o relato, ele disse, “taxativamente, que o problema principal, mais difícil, é a construção da bomba em si. É aí que residem as dificuldades essenciais. A questão da reação explosiva, propriamente dita, é secundaria, pois conhecem-se, aí, perfeitamente as reações em jogo, rendimentos, massas críticas etc”. Ele ressaltou novamente a dificuldade para a construção de um artefato nuclear: “Finalmente, declarou o Dr. Oppenheimer tratar-se, no caso da bomba, de engenho de dificílima construção, dadas as exigências mecânicas, com um mínimo de tolerâncias, a par de sérios problemas no tocante aos explosivos e iniciadores que, nos Estados Unidos, consumiram anos de trabalho de numerosas equipes de físicos, explosivistas, engenheiros e especialistas em eletrônica, acarretando enormes gastos” [29].

No dia 01/08, Oppenheimer deu sua última entrevista coletiva à imprensa e, neste mesmo dia, deixou o país [30, p. 1 e 7]. Nela, além de elogiar cientistas e instituições locais, salientou a importância do desenvolvimento do ensino de física no Brasil e a necessidade de se atrair jovens para a ciência. Destacou, e isto foi manchete em jornais, que na pesquisa científica residiria o futuro do Brasil [Figura 5]. Inquirido pelo repórter do Correio da Manhã, relutou um pouco, mas terminou por comentar sobre sua vertente poética e refez/improvisou um poema de sua lavra [Figura 6].

Figura 5
Matéria da mídia no final da visita de Oppenheimer em 1953 [30, p. 1].
Figura 6
Poema escrito por Oppenheimer para os leitores do Correio da Manhã [31, p. 12].

3. A Segunda Visita de Oppenheimer em 1961

3.1. A programação e as razões da visita

O retorno de Oppenheimer ao Brasil se deu em 1961, vindo da Argentina, onde ficara por cinco dias, e sob o patrocínio do Programa da Cátedras da OEA, em articulação com o CBPF e a Universidade do Brasil. Embora não seja difícil de ser discernido o papel de Oppenheimer como um porta-voz ainda qualificado do main stream norte-americano, no que tange aos interesses militares e geopolíticos, está por ser investigada com maior profundidade a motivação direta deste organismo, quase sempre sob controle estrito dos EUA, em patrocinar a vinda de Oppenheimer, bem como serem analisados os recados que ele aqui deixou junto às autoridades locais e ao público, que vão além dos importantes alertas pacifistas. Foi uma visita bem mais curta, na qual permaneceu no Rio de Janeiro entre 17 e 22 de setembro de 1961, em companhia de sua esposa, Katherine Oppenheimer.

A Ciência e Cultura da SBPC assim anunciou a visita próxima de Oppenheimer: “A vinda de Oppenheimer faz parte do programa de intercâmbio de professores que se realiza sob a responsabilidade da Organização dos Estados Americanos. O cientista ministrará uma série de seminários no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e proferirá uma conferência em São Paulo. Oppenheimer dirige, desde 1947, o Instituto de Estudos Avançados, de Princeton. Já presidiu a Sociedade Americana de Físicos e a Assessoria Científica do presidente dos Estados Unidos no governo Harry Truman. Conhecido como o “Pai da Bomba Atómica”, Oppenheimer desempenha intensa campanha, em seu país, contra a fabricação da bomba de hidrogénio, arma que qualifica de “imoral”. Por essa oposição, foi submetido a inquérito parlamentar, que teve repercussão internacional. Hoje, bate-se pela proscrição das armas nucleares” [32, p. 116].

A mesma revista, em número posterior, descreveu as atividades de Oppenheimer no Rio de Janeiro e sua interação com os físicos do CBPF [Figura 7]: “O cientista norte-americano John [Julius] Robert Oppenheimer em breve visita ao país, estagiou no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, onde, ministrou um seminário sobre um dos seus últimos trabalhos, ‘Teoria do Campo Unificado’.(…) Os organizadores do programa da visita de Oppenheimer ao Rio haviam incluído no roteiro uma conferência no auditório da Faculdade Nacional de Filosofia. Ele a cancelou, porém, tendo explicado que não poderia pronunciar duas conferências públicas. Falou apenas na Academia Brasileira de Ciências, sobre o tema ‘Algumas reflexões sobre a ciência e a cultura’. Oppenheimer manteve demorada palestra com seus colegas do Centro Brasileiro do Pesquisas Físicas, na sede desta instituição, em Botafogo. Foi uma conversa informal, da qual participaram numerosos cientistas. Depois, percorreu todas as instalações, manifestando-se, ao final, bem impressionado com os trabalhos que ali vêm sendo desenvolvidos. Domingo à noite, à beira da piscina do Copacabana Palace, palestrou longa e despreocupadamente com alguns cientistas brasileiros. Contou que a Argentina, pelo que pôde ver e informar-se, se está agigantando no domínio das ciências nucleares e prevê que, em futuro muito próximo, aquele país sobrepujará o nosso, tornando-se o líder da América Latina neste setor de capital importância para o desenvolvimento nacional. Na opinião do cientista, é admirável o trabalho que os cientistas argentinos veem desenvolvendo, entrosados com as autoridades governamentais, que parecem ter compreendido que a ciência constitui mola essencial do progresso” [34, p. 241].

Figura 7
Oppenheimer fazendo seminário no CBPF em 1961 [33, p. 116–117].

Oppenheimer visitou novamente o Instituto de Biofísica e, no dia 20/7 fez palestra, seguida de debate, no Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM) [Figura 8], no qual destacou que a ciência e a tecnologia constituem o maior poder de uma nação e manifestou a esperança de que o Brasil não desenvolvesse as “fantásticas” armas modernas nem se preocupasse com o lançamento de satélites com as mesmas finalidades. Afirmou ainda: “É minha esperança que as forças armadas deste país terão como função máxima manter o crescimento ordenado e criativo do país, seu desenvolvimento, seu senso de justiça, sua liberdade, suas tradições.” [35] Houve, a seguir, um debate entre ele e vários oficiais superiores da Marinha, entre os quais o Almirante Álvaro Alberto. Na palestra defendeu que o Brasil não deveria fabricar armas atômicas, e ela foi publicada em 24 de dezembro de 1961 no Jornal do Commercio [36, p. 16]. Em 4 de março do ano seguinte, publicava-se a notícia: “Brasil produzirá plutônio que conduz à bomba atômica”, a partir de entrevista com o então ministro de Minas e Energia, Gabriel Passos [37, p. 12].

Figura 8
Oppenheimer no Instituto de Pesquisas da Marinha em 1961. Fonte: IPqM.

Em sua visita ao IPqM, Oppenheimer escreveu no ‘Livro de Honra do IPqM’: “With good wishes for the high sucess of this Institute, and with admiration for the devoted officers who had created it”, desejando boa sorte e revelando sua admiração pelos oficiais que criaram o Instituto. Em sua conferência, afirmou: “Digo que os dólares gastos com uma educação e aprendizagem de nível superior são os dólares e os cruzeiros mais baratos que os senhores podem gastar. Renderão mais juros do que quaisquer outros. Parecem muito, e são muito; mas, comparados com o que é necessário para industrializar um País, educar um povo, e até construir um País de uma maneira que seja certa, constituem uma quantia muito pequena. Sem essas pessoas, que estejam bem treinadas, que tenham resolvido problemas difíceis e que possam resolver os seus problemas, os senhores tornarão o progresso futuro muito mais difícil. O que fizemos em 150 anos os senhores desejam fazer em 30 ou 50. Ninguém sabe se será possível, mas estou certo de que a maneira correta de se começar é criando-se uma elite de pessoas realmente bem-educadas e competentes às quais se possa passar o conhecimento que consegue excitar a imaginação e que permite realizar coisas” [35].

3.2. Condecoração e conferência sobre cultura e ciência na ABC

Oppenheimer foi condecorado, em 1961, pelo governo brasileiro com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no grau de Comendador [Figura 9]. Nesse mesmo dia, 20/09, foi homenageado com uma sessão extraordinária da ABC, à qual comparecerem cerca de 150 acadêmicos e convidados. Ali fez a conferência “Reflexões sobre cultura e ciência”, cujo conteúdo foi publicado no Jornal do Commercio [38, p. 16], em um fascículo da ABC e, no ano seguinte, na revista Ciência e Cultura da SBPC [39, p. 87 a 94].

Figura 9
Oppenheimer e San Tiago Dantas no Itamaraty. Acervo Correio da Manhã. Arquivo Nacional.

Em um texto sobre Oppenheimer, escrito muitos anos após o seu falecimento, Leite Lopes assim descreveu esta visita: “Em 1963 [de fato, 1961], foi convidado pela Organização dos Estados Americanos para, na qualidade de Professor Visitante, entrar em contato e realizar seminários em instituições de física na América Latina. No Brasil, Oppenheimer escolheu ser visitante no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, do qual tinha eu a honra de ser, no momento, Diretor Científico. Além de um seminário sobre a teoria de relatividade geral, Oppenheimer manteve conversações com homens de ciência e de governo, visitou instituições mostrando sempre grande interesse pelas nossas realizações e percebendo de imediato as nossas dificuldades. Informado sobre os planos que então vários cientistas e intelectuais formulávamos para a implantação de uma universidade nova e moderna na cidade de Brasília, fez questão de obter audiência com o Ministro da Educação para manifestar-lhe sua opinião e o peso de seu prestígio para que fosse levado a cabo o projeto e para que fossem convenientemente amparadas as instituições de pesquisa do Brasil. Recebeu, na oportunidade, das mãos do Ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas, a medalha Cruzeiro do Sul” [13].

3.3. Palestras no CNPq e no IPqM

Oppenheimer, foi recebido também, em sessão especial, pelo Conselho Nacional de Pesquisas e fez uma exposição curta na qual afirmou que o Brasil deveria privilegiar o aperfeiçoamento das pessoas de talento. A sessão no CNPq foi presidida pelo Almirante Otacílio Cunha, então presidente demissionário do Conselho. Leite Lopes, conselheiro do CNPq, fez a saudação ao visitante, ressaltando a sua personalidade de humanista, físico e sábio. Acrescentou: “Oito anos depois da sua primeira visita ao Brasil muitas coisas mudaram, mas este Conselho permanece fiel ao ideal do seu fundador, o Almirante Álvaro Alberto, de estimular a ciência, os cientistas, os laboratórios e assegurar a continuidade da ciência, estimulando a formação de jovens pesquisadores” [34, p. 242]. A alocução de Oppenheimer consta dos Anais do CNPq, em tradução de Jayme Tiomno),foi posteriormente publicada na revista Ciência e Cultura [34, p. 242–243] e está reproduzida no Anexo 4.

A cobertura da imprensa local a esta segunda visita de Oppenheimer, especialmente do Rio de Janeiro, foi novamente intensa. Em sua entrevista coletiva [Figura 10], no final de sua viagem, fez uma apreciação geral sobre a educação e a ciência no Brasil, insistindo sobre a “prioridade para o talento do homem”, ou seja, a importância da formação de pessoas qualificadas, e defendeu enfaticamente o uso pacífico da energia atômica [40, p. 1]. Acentuou também, como já fizera em sua exposição no CNPq, que as realizações práticas, no terreno da energia atômica, assim como o desenvolvimento na área espacial, com a fabricação de satélites, deveriam ter prioridade relativamente menor no Brasil, com a exceção única da exploração das matérias-primas, que seria de importância fundamental para se saber com o que se poderá contar no futuro.

Figura 10
Manchetes na mídia sobre as colocações de Oppenheimer [40, 41].

O Jornal do Commercio trouxe em manchete, acima da foto de Oppenheimer, a sua colocação: “Nem bomba, nem satélite” [41, p. 10]. Este posicionamento de Oppenheimer, que não colocava como prioridade brasileira nem o desenvolvimento da área nuclear, no domínio militar, nem da espacial, possivelmente reflete também, além de convicções próprias, recados que trouxera como visitante financiado pela OEA. Se sua vinda, bancada por esta organização, um tradicional bastião do pensamento dominante norte-americano, tinha entre seus objetivos explícitos este tipo de recomendação às elites científicas e governamentais brasileiras e/ou se eles refletem unicamente a própria visão de Oppenheimer, inserido ele mesmo dentro de uma política liberal que preconizava manter sob controle a América Latina, está ainda por ser mais investigado.

3.4. Repercussões e depoimentos de cientistas sobre as visitas de Oppenheimer

A cobertura da mídia brasileira a Oppenheimer, tanto na primeira visita como na segunda, foi altamente elogiosa ao seu papel como cientista e à sua atitude pacifista, em certa medida, e não se deixou seduzir pelos cantos macartistas. Mesmo em 1961, quando ele já havia sido perseguido e retirado de funções importantes na área nuclear pelo governo norte-americano, esta cobertura continuou no geral altamente favorável ao personagem, com sua competência no domínio da física nuclear sempre sendo destacada.

Uma matéria da revista Mundo Ilustrado [42, p. 14], em agosto de 1953, explorou a questão ética do uso da bomba atômica. Tinha o título “Duas cidades sacrificadas pedem paz de seus túmulos” e atribuiu a Oppenheimer o pensamento de que o invento da bomba atômica acabaria com as guerras. No dia 30 de setembro de 1961, a mesma revista publicou uma matéria de Hermínio Macedo com o título “Fabriquei a morte para poupar vidas”. Nela são reproduzidas frases de Oppenheimer em sua entrevista coletiva: “Não me sentirei culpado se amanhã explodir uma guerra atômica, apesar de sentir-me angustiado com tal perspectiva, pois faço parte da espécie humana e uma catástrofe de tal monta só poderia ser motivo de desolação para toda a Humanidade. Admito, em casos extremos, o emprego de armas atômicas, mas este não é um argumento válido contra o esforço de aboli-las.” [43, p. 52–53]. Possivelmente correlacionada com esta visão, a matéria do Jornal do Commercio de 24 de dezembro de 1961 estampava em manchete: “Brasil não deve fabricar armas atômicas: Oppenheimer” [36, p. 36].

Por outro lado, uma crítica dura e adjetivada ao seu papel político, como expoente do establishment norte-americano, surgiu da pena de Octávio Brandão, teórico e liderança histórica do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na coluna “A paz e a energia nuclear” no jornal popular A Luta Democrática [44, p. 4]:

“DIRIJO ESTAS PALAVRAS AO POVO BRASILEIRO, AOS CIENTISTAS. AO CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISAS FÍSICAS, AOS DRS. CESAR LATTES, JAIME TIOMNO E JOSÉ LEITE LOPES. O sr. Robert Oppenheimer acaba de chegar ao Brasil. Quem é? É um cientista que se colocou a serviço do capital monopolista e financeiro, parasitário e moribundo norte-americano. Dirigiu o laboratório atômico de Los Alamos, nos Estados Unidos. Contribuiu para a descoberta da bomba atômica. Tornou-se criminoso de guerra – responsável pelo arrasamento das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, pela matança de dezenas de milhares de homens. mulheres e crianças. Depois, Oppenheimer levou um pontapé. Foi atacado pela Comissão fascista MacCarthy, considerado suspeito, jogado fora como um bagaço e afastado de todo trabalho de pesquisa cientifica. Esta é a “liberdade” nos Estados Unidos. Tal o prêmio que o capital monopolista e financeiro concede aos seus cientistas e técnicos! Hoje Oppenheimer afirma não sentir nenhum remorso. Pelo sim, pelo não, condena a guerra nuclear. Mas quando pretende iniciar a ruptura total e definitiva com os seus cúmplices – os imperialistas norte-americanos?” [44, p. 4]

Uma pesquisadora argentina, Myriam Giambiagi, trabalhava no CBPF, em 1961, e interagiu com Oppenheimer. Ela deixou um depoimento sobre suas impressões, que refletem também o contexto da ciência e da sociedade da época em relação às questões de gênero e raça [45]: “Robert Oppenheimer passou pelo CBPF. Lembro quanto me chocou saber a idade dele, parecia 20 anos mais velho. Quando tiraram uma foto de Oppenheimer na frente do CBPF, para os jornais, saiu também o cara da carriola. Data desses dias meu primeiro rompante feminista. A embaixada americana convidou para um coquetel só para homens. Eu fiquei uma fera, porque Ricardo [Ferreira] e Mario [Giambiagi] estavam a fim de ir. Argumentei que se tivessem dito que os negros não entravam, nem passaria pela cabeça deles assistir. Consegui que não fossem. Soubemos depois que quem não tinha ido foi o próprio Oppenheimer. O convite foi feito dessa maneira para que a esposa dele não fosse” [45, p. 5].

Outro depoimento com reminiscências pessoais sobre a vinda de Oppenheimer, em 1961, vem do físico-químico Ricardo Ferreira em seu livro autobiográfico [46, p. 84]. “Em setembro de 1961, J. Robert Oppenheimer passou 15 dias [sic] como professor visitante do CBPF. Eu ocupava então a antiga sala de Cesar Lattes, e como esta era espaçosa e tinha um bureau sobrando, tive a oportunidade de compartilhar por alguns dias uma sala com Oppenheimer. Assim, por simples casualidade, passei cerca de dez dias em relativa intimidade com uma das personalidades científicas mais controvertidas do século XX.” Na realidade, a memória de Ricardo Ferreira deve tê-lo traído, muito anos depois, e ele estendeu o período de Oppenheimer no Rio de 6 para 15 dias. Ele conta também uma reminiscência relacionada com a esposa de Oppenheimer. “Kitty, sua mulher, era nitidamente de esquerda, e, infelizmente, uma alcoólatra. Lembro-me de um dia de tensão entre o casal, quando, com José Leite Lopes, fomos levá-los ao seu hotel em Copacabana, e quando ao passarmos pelas conhecidas Casas Gallo, ela pediu para pararmos para ela comprar uma garrafa de whiskey e ela, ao voltar a subir no carro, disse: ‘Não confiem neste nosso governo. Estão prontos para incendiar o mundo’. Palavras proféticas, se lembrarmos que estávamos há um ano apenas da crise dos mísseis em Cuba” [46, p. 85].

Leite Lopes descreveu posteriormente a sua interação com Oppenheimer, que se iniciara já em 1948 [13]: “Em 48 fiz o meu concurso para professor de Física Teórica e escrevi para Oppenheimer, então famoso, e que, depois da guerra, se tornou o diretor do Institute for Advanced Studies de Princeton. Pedi uma bolsa à Fundação Guggenheim, que é uma fundação que só dá bolsa para as Américas e só a especialistas que tenham doutorado. Pedi essa bolsa e escrevi para o Oppenheimer. Quando tinha terminado o concurso para professor recebi um telegrama do Oppenheimer avisando: “Welcome to membership”. (…) Fui para Princeton de novo, em 49, com a bolsa Guggenheim, trabalhar com Oppenheimer. Lattes ainda estava lá e veio da Califórnia a Princeton me visitar, conversamos muito. Estas conversas foram o ponto de partida para a criação do CBPF.”

Ele recordou as ocasiões em que esteve com o amigo, após 1953: “Estive ainda com Oppenheimer em outras ocasiões: em 1956, no Congresso Internacional de Física Teórica que se realizou em Seattle, nos Estados Unidos, e ao qual havia sido convidado juntamente com Jayme Tiomno; em 1960, no Congresso Internacional sobre Física das Altas Energias, em Rochester, nos Estados Unidos; em 1962, em Genebra, em Congresso análogo realizado no CERN. E, em 1963 [1961], no Rio de Janeiro. Ao longo de todos esses anos, dedicava-se Oppenheimer ao seu Instituto de Altos Estudos, escrevia sobre o papel da ciência no mundo moderno, pronunciava conferências em Paris, Londres, escreveu alguns livros tais como Science and the Common Understanding e The Open Mind. (…) Em 1964, Oppenheimer mostrou grande interesse pela sorte das instituições científicas no Brasil, pela sorte pessoal de vários cientistas, vários dos quais convidou para trabalhar no Instituto de Altos Estudos” [13].

Duas frases de Oppenheimer sobre o CNPq, em sua fala em sua sede, em 1953, ficaram marcadas e foram depois repetidas por dirigentes da agência em outras ocasiões6: “Se eu tivesse visitado o Brasil há dois ou três anos e tivesse a oportunidade de viajar como fiz, eu viria até vocês e imploraria que criassem um Conselho Nacional de Pesquisa, quase idêntico ao que existe agora. (…) Acredito que a formação deste Conselho de Pesquisa é a melhor coisa que poderia ter acontecido para o apoio à Ciência no Brasil.”

No cenário atual, infelizmente, a mensagem pacifista de Oppenheimer, recorrente nas suas visitas ao Brasil, continua válida, relevante, e merece ser enfatizada: “uma guerra atômica significará o extermínio da humanidade” [47, p. 1]. Que não se concretize.

Anexo 1 Saudação de Leite Lopes a Oppenheimer na ABC [22]

“O nosso presidente Artur Moses pediu-me que dissesse algumas palavras esta noite, dando-lhe as nossas boas-vindas a esta reunião. É evidente que o seu nome não necessita de apresentação aos nossos físicos. Conhecemos, todos, os seus trabalhos, que o distinguiram como um dos físicos teóricos proeminentes de seu país, os quais trouxeram importantes contribuições ao progresso dos nossos conhecimentos no campo correspondente: a teoria quântica das moléculas, problemas na teoria das colisões atômicas, problemas e discussão das dificuldades na teoria do pósitron, o teorema de Oppenheimer-Ehrenfest sobre a estatística dos núcleos atômicos, o processo Oppenheimer-Philips, a teoria da forte interação das forças nucleares, a teoria da produção múltipla de mésons, eletrodinâmica.

Temos também notícia, através de seus discípulos e de seus trabalhos científicos de vigorosa contribuição que deu, como professor universitário, à formação da escola norte-americana de físicos. Este é um aspecto da sua experiência. de particular interesse para nós, pois começamos hoje. neste país, a enfrentar o problema de atrair Jovens para a carreira cientifica e de formá-los bem. a fim de que o desenvolvimento da ciência seja assegurado por um tal crescimento de valores humanos. Nos dias presentes, é sob a sua inspiração que uma grande soma de pesquisas em física teórica é realizada no Instituto de Altos Estudos de Princeton, que teve suas atividades consideravelmente aumentadas desde que o Professor Oppenheimer assumiu sua direção. Por estes motivos, estamos felizes em tê-lo esta noite em nossa companhia. Um tal intercâmbio de ideias com colegas do exterior é indispensável se desejarmos contribuir aos progressos de conhecimento e partilhar dos seus benefícios. É meu privilégio dar-lhe as boas-vindas a esta Academia.”

Anexo 2 A comunicação de Oppenheimer na ABC [22]

“Propunha este nome [Megalomorfos] para designar as partículas pesadas, recentemente descobertas, instáveis, dando ao desintegrar-se, outras partículas de massa menor e energia sob a forma de fótons ou neutrinos. As propriedades dessas partículas são ainda pouco conhecidas e ignoramos ainda a razão profunda de sua existência e as interconexões que existem entre elas. O cálculo teórico de sua vida média, segundo dados provisórios, dá resultados em desacordo com a experiência. Existe a indicação de regras de seleção que proíbem certas desintegrações e dificultam outras tornando-as mais lentas.

Em 1932 as partículas conhecidas eram o elétron e o próton, que são constituintes fundamentais da matéria e, por sinal, os únicos estáveis. Naquele ano, foi descoberto o nêutron, que também é constituinte dos núcleos atômicos. Quando está isolado, o nêutron é instável e desintegra-se dando como produtos um próton, um elétron e um neutrino. Neste processo, a vida média do nêutron é de cerca de 10 minutos. É uma transformação lenta, quando está em núcleos atômicos pesados, e é esta desintegração que torna o elemento radioativo com emissão de raios beta. Em núcleos leves a transformação não ocorre; é preciso que haja conservação de energia.

Em 1935, um físico teórico japonês, Yukawa, pouco conhecido na época, propôs que as forças de atração entre os constituintes do núcleo atômico – os prótons e nêutrons – eram devidas a uma nova partícula, de massa entre a do nêutron e a do elétron. Estas novas partículas foram chamadas mésons. Deveriam também ser instáveis. Foi notável a concordância qualitativa entre algumas propriedades das forças nucleares e algumas propriedades de tais mésons. Estes mésons de Yukawa foram descobertos somente em 1948 e hoje são chamados de mésons “pi”. Outra variedade, denominada mésons “mi”, mais leves que os primeiros, já havia sido detectada na radiação cósmica em 1936. Desintegram-se em méson “mi” e neutrino, com vida média de dez elevado a menos oito segundos.

Os mésons “mi”, por sua vez, se decompõem em um elétron e dois neutrinos e a vida média desta transformação é dez elevado a menos seis segundos. Existem também mésons “pi” sem carga elétrica, também preditos teoricamente, e mais tarde descobertos no laboratório. Decompõem-se em dois raios gama, com uma vida média de dez elevado a menos quinze segundos. É notável a propriedade chamada de “independência da carga”: nêutrons e prótons e mésons pi positivos, negativos e neutros apresentam entre si propriedades de atração, de produção e absorção de partículas, que não dependem da carga das partículas consideradas. Estas propriedades de simetria e invariância, gostaríamos de relacionar com propriedades mais profundas, de estrutura espaço-temporal, analogamente às leis de conservação de energia e momentum que resultam da inexistência de pontos privilegiados no espaço e no tempo.

Ultimamente, novas partículas mais pesadas foram descobertas por vários físicos, usando câmaras de Wilson e chapas fotográficas nucleares. São megalomorfos sobre os quais conhecemos hoje pouca coisa e compreendemos menos. A partícula V, assim chamada porque a sua descoberta foi feita ao detectarem-se traços em forma de V originando-se de um único traço em câmara de Wilson. A partícula V neutra é mais pesada que o próton e o nêutron e se decompõe num próton e um méson pi negativo. Tem uma vida média de dez elevado a menos dez segundos. Foram descobertas também partículas V carregadas.

Outros corpúsculos, recentemente batizados com as letras gregas tau, qui e kapa, têm massa maior que a do méson “pi” e menor que a do próton. Desintegram-se dando como produtos mésons “pi” e “mi”. Desejamos compreender estes megalomorfos, mas muito pouco progresso temos feito neste sentido. No Instituto de Altos Estudos de Princeton um jovem físico, Pais, fez recentemente um trabalho, que me parece um bom passo na direção correta. Ele formula novas ideias sobre a estrutura espaço-temporal dessas partículas que me parecem de grande interesse. Pretendo expor estas ideias de Pais no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Mais uma vez senhor Presidente, os meus agradecimentos por esta oportunidade honrosa de falar perante esta Academia”.

Anexo 3 Costa Ribeiro na Rádio MEC: A Conferência de Oppenheimer no CNPq [28]

“Esteve recentemente em nosso País, o eminente homem de ciência, pesquisador norte- americano, Prof. Robert Oppenheimer, atual diretor do Institute for Advanced Study de Princeton, que é, sem dúvida, um dos mais importantes centros de estudo de física teórica de todo o mundo. Antes de alcançar esta elevada posição, aquele cientista dedicou-se intensivamente a estudos teóricos relacionados com a física nuclear, tendo sido Diretor dos Laboratórios de Los Alamos, na época crucial em que aqueles Laboratórios estavam incumbidos de tarefas fundamentais no preparo das primeiras armas atômicas.

O Prof. Oppenheimer foi talvez dentre os cientistas de alto mérito que nos têm visitado ultimamente, um dos que mais se interessaram pelos problemas nacionais e pelos programas que estão sendo postos em execução pelo Conselho Nacional de Pesquisas para o desenvolvimento, no Brasil, da ciência pura, bem como de suas aplicações tecnológicas tão fundamentais para o nosso progresso material. É, pois, uma justa homenagem a tão ilustre figura, apreciar e comentar algumas das opiniões por ele manifestadas nos círculos científicos e culturais com que teve contacto entre nós, após as viagens que realizou e as visitas que fez a numerosos centros de estudo e de pesquisa de nosso País.

Pouco antes de regressar à sua Pátria, o Prof. Oppenheimer fez, perante o Plenário do Conselho Nacional de Pesquisas, interessantíssima exposição, na qual focalizou o resultado de suas observações e apresentou sugestões que nos parecem extremamente úteis e importantes para todos aqueles que trabalham pelo bem-estar de nossa Pátria, aos quais se dirige o programa “Pensando no Brasil”. Destacaremos hoje, apenas alguns tópicos daquela conferência relativos a problemas de educação, formação e aperfeiçoamento científico, visando o preparo intensivo de especialistas e pesquisadores, programa fundamental entre as atribuições do Conselho Nacional de Pesquisas.

Primeiramente, o Professor Oppenheimer chamou a atenção para a importância do auxílio à pesquisa desinteressada, salientando a dificuldade que há em obter uma compreensão generalizada do povo e dos governos para este tipo de atividade que, para muitos, são consideradas como atividades abstratas, improdutivas e que representam desperdício de recursos que poderiam ser melhor aplicados. “É fácil”, disse ele, “obter-se uma compreensão satisfatória das aplicações da ciência e finalidades específicas, mas é muito difícil conseguir uma compreensão do povo para a necessidade de pesquisar novas partículas na radiação cósmica ou os mecanismos de controle do crescimento normal dos seres vivos. E acrescentou que um dos problemas fundamentais para o desenvolvimento do auxílio à ciência numa democracia é o problema de fazer com que o povo aprecie, em seu justo valor, a própria ciência. “E este um dos problemas educacionais e culturais mais profundos na minha opinião”, disse ele.

A propósito do seu contato com os meios científicos e universitários brasileiros, declarou: “Em toda parte onde tenho estado, tenho visto belos trabalhos, trabalhos da mais alta qualidade, mas muito poucas pessoas empenhadas neles. Há excelentes cursos, mas muito poucos estudantes, e diria também relativamente poucos cursos. Suponho que se compararmos este país com o meu próprio país, esta é a mais flagrante diferença – o número imenso de situações universitárias que nós temos nos Estados Unidos – Professores, titulares, adjuntos e associados, assistentes e instrutores, centenas de “Colleges”, dezenas de universidades, currículos amplos e complexos. Não é esta uma situação que possa ser criada rapidamente, mas que penso que seria justificado que o Conselho Nacional de Pesquisas insistisse em que os currículos científicos das universidades no Brasil fossem modernizados, permitindo que as tarefas de ensino dos Professores pudessem ser limitadas de modo que o Professor universitário fosse também um pesquisador, e assim começara criar um futuro para aqueles cientistas que desejem viver no mundo da ciência. E acrescentou: “Em ciência, aquele que ensina bem, é o que traz para suas aulas o espírito de sua própria pesquisa – nem todo bom cientista é um bom Professor, mas até hoje não encontrei nenhum bom Professor que não fosse um bom cientista – uma pessoa ativa na ciência, que poderá não estar fazendo coisas que interessem profundamente a todo mundo, mas pelo menos coisas nas quais ele está profundamente Interessado. A melhor maneira de ensinar a ciência, é ensiná-la sob forma de ação, fazendo recuar a obscuridade. criando situações da perplexidade e resolvendo-as respondendo aos paradoxos por soluções lógicas”. E acrescentou: “O ensino da ciência não deve ser uma coisa morta, e acabada, mas deve antes ser considerado em uma forma de ação e como uma forma de aventura”.

Dentro desta linha de reflexão, uma das coisas que mais o impressionaram no Brasil, e sobre a qual teve oportunidade da externar sua opinião a várias pessoas da responsabilidade em nossos meios culturais, científicos e universitários, foi justamente a necessidade imprescindível de ampliar o quanto antes os quadros docentes e de auxiliares de ensino e de pesquisa em nossos institutos universitários a fim de criar melhores e mais amplas oportunidades àqueles que querem se dedicar à pesquisa e ao ensino, atividades que no seu entender devem estar intimamente relacionadas. Esse depoimento de um dos mais eminentes pesquisadores e homens da ciência do nosso tempo, deva calar profundamente no espírito de todos aqueles que têm qualquer parcela de responsabilidade na administração e na reorganização do ensino universitário em nosso País.

Resumindo suas impressões, disse ainda o Professor Oppenheimer: “Se eu tivesse visitado o Brasil dois ou três anos atrás, e tivesse tido a oportunidade de viajar, como agora, eu teria certamente sugerido que fosse criado aqui um Conselho Nacional de Pesquisas praticamente idêntico ao que atualmente existe. Encontrei por uma parte prova da intervenção hábil, precisa e construtiva deste órgão, sob a forma de equipamentos obviamente necessários, mas impossíveis de obter de outro modo; sob a forma da relatórios de pessoas que voltaram de viagens e de bolsas no exterior; sob a forma de visitantes científicos e técnicos, provenientes de todas as partes do mundo; sob a forma de novos currículos para estudos superiores; sob a forma de equipamentos de laboratórios, de bibliotecas de periódicos científicos contemporâneos e de inúmeras outras dispendiosas exigências para a pesquisa científica.”

Anexo 4 Alocução de Oppenheimer ao Conselho do CNPq em 1961 [34]

Penso que esta visita não teve apenas uma longa demora em se realizar – passaram-se 8 anos desde a primeira, mas que foi curta em duração. Prometo jamais vir aqui por tão curto tempo. Naquela época o Conselho era muito mais novo e seu presidente, o almirante Álvaro Alberto. Reunimo-nos nesta mesma sala para discutir o problema de promover o desenvolvimento da ciência e de suas aplicações neste País. Nossa discussão teve talvez ênfase naquele setor da ciência aplicada, que se chama energia atômica. Lembro-me de que, na época, já insistia em que a prioridade fundamental era a do desenvolvimento e aperfeiçoamento das pessoas de talento do País e que as realizações práticas, no terreno da energia atômica, deveriam ter prioridade relativamente menor, com a exceção única da exportação das matérias-primas, que têm, desde o início, uma importância fundamental para se poder saber com o que se poderá contar no futuro.

Pelo que sei, o caminho adotado pelo Conselho foi o do aperfeiçoamento do material humano do País. E estou convencido de que no mundo moderno não há nenhum outro caminho para a prosperidade senão um crescente desenvolvimento da educação e do treino de seus homens e o aperfeiçoamento de seus conhecimentos, aos quais este Conselho tem devotado o melhor de seus esforços.

Tenho pouco a acrescentar a isso, pois, se bem que tenha visto muito progresso, minha experiência ficou restrita a esta cidade; e seria errôneo pretende conhecer os problemas com os quais se defronta o Brasil. Mas, além da questão fundamental do auxiliar as pessoas que devotam a sua vida à ciência, poderia acrescentar duas questões que, naquela época, não teriam mini ido.

A primeira é que considero que as possibilidades de colaboração internacional são muito maiores hoje do que naquela época. Refiro-me à colaboração com meu País e com os da Europa, não apenas no setor da física, mas no de todas as ciências e estou certo de que o Brasil encontrará agora uma receptividade muito maior por parte desses países do que naquele momento em que nós, nos Estados Unidos, estávamos ainda .com os nossos próprios dispositivos relacionados com os problemas da energia atômica.

O segundo tipo de colaboração internacional decorre do fato de que o Brasil é atualmente dos países mais desenvolvidos do Hemisfério Sul e está cercado de nações que enfrentam dificuldades e problemas muito mais sérios de desenvolvimento e que estão ansiosos para receber auxílio do Brasil. Eu sei que esse auxílio já está sendo feito por parte de vossas universidades e de vossos centros de pesquisas. Não proponho que o Brasil sustente sozinho, economicamente esse auxílio, mantendo estudantes de outros países, mas acho que não podeis escapar da carga intelectual de receber esses estudantes e de orientá-los dentro de vossas instituições de ensino e pesquisas, pois este é o preço da liderança internacional.

A terceira observação que quero fazer é sobre alguma coisa que acredito todos vós compreendeis e que posso simbolizar com o fato que observei no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, durante a minha permanência de dois dias ali. Lá encontrei um técnico de nome François e que fabrica instrumentos de alta precisão e esmerado acabamento, para uso nas pesquisas do próprio Centro, do Instituto de Biofísica e de várias outras instituições. Isto representa não o resultado de educação universitária, mas uma parte indispensável do trabalho de pesquisa dos tempos atuais. A habilidade de utilizar as mãos aliada à habilidade de utilizar o cérebro, são indispensáveis no mundo de hoje.

Apesar de ser um físico teórico e de ter as melhores relações com os meus colegas físicos teóricos brasileiros, creio que se torna indispensável um grande apoio ao desenvolvimento da ciência experimental neste País. Certamente os físicos teóricos devem prosseguir os seus trabalhos no campo em que foram sucedidos, mas no treinamento de novos físicos é indispensável levar em consideração que a Física que não está em contacto direto com o laboratório não é tão boa e permanente quanto a que está ligada ao trabalho experimental. Os físicos que não tiveram um bom treinamento de laboratório, mesmo que venham a ser físicos teóricos, não terão tão grande sucesso. A física experimental exige muito mais dinheiro do que a física teórica, dinheiro para laboratório, técnicos e equipamentos que devem ser assegurados aos cientistas para que possam ter sucesso em seus trabalhos.

Não estou sugerindo que construam desde já esses enormes aceleradores que custam milhões e até centenas de milhões de dólares, mesmo porque, na fase atual do desenvolvimento científico do Brasil, seus pesquisadores não seriam em número suficiente para manejar esses aparelhos. O que acho indispensável é que seja dada grande atenção não apenas à formação dos cientistas, mas também à de técnicos e que a colaboração com outros países, mais ou menos desenvolvidos do que o Brasil, é não apenas uma possibilidade, mas também uma necessidade. Em particular, na América do Sul a colaboração entre o Brasil e a Argentina poderia dar os mais auspiciosos frutos. Apesar das grandes diferenças de estruturas, de muitos pontos de inferioridade e de muitos outros de superioridade, o Brasil tem, em seu vizinho do sul, um país de iguais possibilidades de desenvolvimento científico e tecnológico, e grandes benefícios resultarão para ambos os países se mantiverem e ampliarem a colaboração que já existe entre seus meios científicos.

Será extremamente facilitado esse aumento de intercâmbio se o Conselho de Pesquisas do Brasil conceder um auxílio comparável ao que, segundo fui informado, vai ser concedido pelo da Argentina para esse intercâmbio. Faço votos para que o Centro Latino-Americano de Matemática de Buenos Aires e o Centro Latino-Americano de Física do Rio de Janeiro, e muitos outros que espero apareçam no devido tempo, sejam elementos de polarização de um esforço de colaboração pelo progresso da América Latina, em que cada um realizará uma parte em benefício de todos.

Tenho consciência de que é uma tarefa extremamente difícil a de auxiliar pessoas que estão se iniciando em pesquisas, quando se tem um programa de pesquisas de alto nível já em desenvolvimento, mas estou certo de que, a longo prazo, esse sacrifício será pago, pois se devo pensar em termos de trabalho de uma cultura e não apenas de trabalho e progresso do um só país.

Agradeço a este Conselho por esta recepção, congratulo-me com suas realizações e faço votos por maiores sucessos, e creio que posso falar não apenas em meu próprio nome, mas em nome de milhares de cientistas de meu país, quando afirmo que a sua experiência e a grande quantidade de acertos e erros por eles cometidos estará à disposição deste País, se não para orientar, pelo menos para auxiliá-lo e evitar erros do tipo dos que nós já cometemos

Referências

  • [1] K. Bird e M.J. Sherwin, American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer (Alfred A. Knopf, New York, 2005).
  • [2] D.C. Cassidy, J. Robert Oppenheimer and the American Century (Pi Press, New York, 2005).
  • [3] A. Pais, J. Robert Oppenheimer: A Life (Oxford University Press, Oxford, 2006).
  • [4] R. Rhodes, Dark Sun: The Making of the Hydrogen Bomb (Simon & Schuster, New York, 1995).
  • [5] N. Stepan, Gênese e Evolução da Ciência Brasileira (Artenova, Rio de Janeiro, 1976).
  • [6] J.L. Lopes, Ciência e libertação (Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1978).
  • [7] R.L.M. Morel, Ciência e Estado; A política científica no Brasil (T. A. Queiroz, São Paulo, 1979).
  • [8] C.R. Girotti, Estado Nuclear no Brasil (Editora Brasiliense, Rio de Janeiro, 1984).
  • [9] T. Malheiros, Histórias Secretas do Brasil Nuclear (WVA, Rio de Janeiro, 1996).
  • [10] A.M.R. Andrade, Físicos, mésons e política – A dinâmica da ciência na sociedade (Hucitec/Mast/CNPq, Rio de Janeiro, 1999).
  • [11] S. Schwartzman, Um espaço para ciência: a formação da comunidade científica no Brasil (Ministério de Ciência e Tecnologia, Brasília, 2001).
  • [12] A.A.P. Videira, 25 Anos do MCT: as raízes históricas da criação de um ministério (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Brasília, 2010).
  • [13] Flagrante de uma das reuniões do Simpósio de Física, Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 17 de julho de 1952, p. 9.
  • [14] J.L. Lopes, Oppenheimer: Contrastes e Conflitos e de uma Nova Era, disponível em: https://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/CS01496.2010_08_23_12_44_58.pdf
    » https://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/CS01496.2010_08_23_12_44_58.pdf
  • [15] Programa da Estada do Professor Oppenheimer no Brasil, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 05 de julho de 1953, p. 8.
  • [16] Chega ao Rio famoso cientista norte-americano, Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 26 de junho de 1953, p. 1.
  • [17] No Rio uma das maiores autoridades em energia atômica, A Noite, Rio de Janeiro, 25 de junho de 1953, p. 1 e 13.
  • [18] Acredito na paz e, para a paz, as armas não são necessárias, Correio Paulistano, São Paulo, 08 de julho de 1953, p. 1.
  • [19] Importantes pesquisas em São Paulo no campo da Física Nuclear, Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14 de julho de 1953, p. 1
  • [20] Entrevista do professor Robert Oppenheimer à imprensa paulista, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 de julho de 1953, p. 7.
  • [21] Oppenheimer e a Academia Brasileira de Ciências, Notícias da ABC, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2023, disponível em: https://www.abc.org.br/2023/08/25/oppenheimer-e-a-academia-brasileira-de-ciencias-por-ildeu-moreira/
    » https://www.abc.org.br/2023/08/25/oppenheimer-e-a-academia-brasileira-de-ciencias-por-ildeu-moreira/
  • [22] Ata da sessão ordinária da ABC, 14 de julho de 1953 (Acervo Academia Brasileira de Ciências, 1953).
  • [23] Academia Brasileira de Ciências, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 de julho de 1953, p. 9.
  • [24] Ata da sessão ordinária da ABC, 23 de agosto de 1953 (Acervo da Academia Brasileira de Ciências, 1953).
  • [25] Documento 01473-AA/PIT/216 (Centro de Memória, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Brasília).
  • [26] Conferência do professor Oppenheimer na Escola do Exército, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 24 de julho de 1953, p. 6.
  • [27] Anais da 162a Sessão CD CNPq, 28 de julho de 1953 (Centro de Memória, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Brasília, 1953), p. 33.
  • [28] Conselho Nacional de Pesquisas, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1953, p. 9.
  • [29] Documento 01019-AA/CNPq/087 (Centro Interunidade de História da Ciência, São Paulo, 1953). Disponível em: https://chc.fflch.usp.br/arquivo-almirante-alvaro-alberto
    » https://chc.fflch.usp.br/arquivo-almirante-alvaro-alberto
  • [30] Na pesquisa científica o futuro do Brasil, A Noite, Rio de Janeiro, 01 de agosto de 1953, p. 1 e 7.
  • [31] A Bomba Atômica e a Poesia, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 01 de agosto de 1953, p. 12.
  • [32] Oppenheimer no Brasil em setembro, Ciência e Cultura 13, 116 (1961).
  • [33] Oppenheimer, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1961, p. 114.
  • [34] J. Oppenheimer, Ciência e Cultura 13, 242 (1961).
  • [35] A. Galante, Oppenheimer fala à Marinha, disponível em: https://www.naval.com.br/blog/2023/07/30/oppenheimer-pai-da-bomba-atomica-visitou-o-instituto-de-pesquisas-da-marinha-do-brasil-em-1961/
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  • [36] Brasil não deve fabricar armas atômicas: Oppenheimer, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1961, p. 16.
  • [37] Brasil produzirá plutônio que conduz à bomba atômica, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 de março de 1962, p. 12.
  • [38] Oppenheimer: Reflexões sobre Cultura e Ciência, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 de outubro de 1961, p. 16.
  • [39] R. Oppenheimer, Ciência e Cultura 14, 87 (1962).
  • [40] Prioridade para o talento do homem, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1961, p. 1.
  • [41] O Brasil não deve fabricar a Bomba A, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 21 de setembro de 1961, p. 10.
  • [42] Duas cidades sacrificadas pedem paz de seus túmulos, Mundo Ilustrado 191, 14 (1961).
  • [43] H. Macedo, Mundo Ilustrado 197, 52 (1961).
  • [44] A Paz e a Energia Nuclear, A Luta Democrática, Rio de Janeiro, 21 de setembro de 1961, p. 4.
  • [45] M.M.S. Giambiagi, O CBPF que eu conheci (CBPF-CS-008/01, Rio de Janeiro, 2001).
  • [46] R. Ferreira, Vida de cientista: notas autobiográficas (Editora Átomo, Campinas, 2007).
  • [47] Guerra atômica será o fim da humanidade, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1961, p. 1.
  • 1
    Oppenheimer é um filme histórico dirigido por Christopher Nolan, lançado em 2023 com grande sucesso. É baseado no livro biográfico, vencedor do Prêmio Pulitzer, American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, escrito por Kai Bird e Martin J. Sherwin, em 2005 [1].
  • 2
    As principais fontes de informação para este artigo, além dos artigos e livros citados, são as Atas da Academia Brasileira de Ciências (ABC), de 1953 e 1961, e os periódicos que fizeram a cobertura das visitas de Oppenheimer ao Brasil e que podem ser encontrados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/.
  • 3
    Isidor I. Rabi ficou cerca de dois meses no Brasil, tendo feito conferências no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Ele participou, com Eugene Wigner e muitos físicos brasileiros, do Simpósio sobre Novas Técnicas de Pesquisa em Física, organizado pela ABC e com apoio do CNPq, em julho de 1952 [13, p. 9].
  • 4
    “Durante a sua permanência no Brasil, O Prof. Robert 0ppenheimer fará visitas, conferências e seminários em diversas instituições científicas desta Capital, São Paulo e Belo Horizonte. O programa organizado é colocado a seguir. Junho – Rio de Janeiro: Terça-feira [Quinta-feira], 25 – Recepção no CNPq; Sexta-feira, 26 – Debates no CBPF; Terça-feira, 30 – Visita ao Instituto de Biofísica – Visita ao Instituto de Tecnologia. Julho – São Paulo: Segunda-feira, 11 – Visita ao Centro Técnico de Aeronáutica, em São José dos Campos. Debates. Partida para São Paulo: Terça-feira, 7 – Entrevista à Imprensa e ao Serviço de Rádio – Visita dos Professores da Universidade – Visita ao Betatron – Gerador Van der Graaf e Laboratório de Alta Tensão do Instituto de Eletrotécnica; Quarta-feira, 8 – Visita ao Reitor da USP. Visita ao Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - Conferência geral no Instituto de Engenheiros sobre “0 Progresso da Ciência”; Quinta-feira, 9 – Visita ao Instituto Butantan; Sexta-feira, 10 – Visita à Escola Politécnica de São Paulo - Visita ao Departamento de Física. Seminário na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Cocktail oferecido pelo Reitor da USP; Sábado, 11 – Visita à Fazenda de Café de D. Laura Teixeira Leite, situada entre Limeira e Campinas. Rio de Janeiro: Terça-feira, 14 – Recepção na ABC; Quinta-feira, 16 – Conferência na Escola Técnica do Exército sobre “O Progresso da Ciência”; Sexta-feira, 17 e sábado, 18 – Seminário no CBPF. Ida para Belo Horizonte: Segunda-feira, 20 a quinta-feira, 23 – Visita aos institutos de pesquisas relacionados à Física. Conferência. Debates; Sexta-feira, 24 – Visita a Outro Preto. Rio de Janeiro: Terça-feira, 28 – Conferência na Reunião do Conselho Deliberativo do CNPq” [15, p. 8].
  • 5
    Conversa particular de Sergio Mascarenhas com o autor em julho de 2017, durante a Reunião Anual da SBPC em Belo Horizonte.
  • 6
    Ver, por exemplo, o documento 00599-AA/C/496, Inventário do Arquivo Álvaro Alberto, Centro Interunidade de História da Ciência (CHC-USP): Carta de Álvaro Alberto ao senador Ruy Carneiro, a respeito do projeto elaborado para a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, na qual anexa cópia datilografada das citações de Oppenheimer na sua palestra de 28/07/1953 no CNPq.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Jan 2025
  • Aceito
    24 Fev 2025
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