Open-access REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA: ADAPTAÇÃO ACADÊMICA EM UNIVERSITÁRIOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA1

SYSTEMATIC LITERATURE REVIEW: ACADEMIC ADAPTATION IN UNIVERSITY STUDENTS WITH AUTISM SPECTRUM DISORDER

RESUMO

Um público diversificado tem chegado à universidade, principalmente em decorrência da democratização do Ensino Superior, incluindo também pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo o DSM-5-TR, o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado, mormente, por dificuldades na interação social, na comunicação e por comportamentos repetitivos e restritos. Assim sendo, infere-se que esses indivíduos podem encontrar maiores desafios para se adaptar ao contexto acadêmico. Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi verificar a produção científica sobre a Adaptação Acadêmica em estudantes com TEA no período de 2015 a 2023. A busca eletrônica de artigos nacionais e internacionais foi realizada nas bases de dados SciELO, PePSIC, ResearchGate, PubMed e Google Acadêmico, entre abril e junho de 2023, com base no protocolo PRISMA. Os resultados indicaram dez artigos que atenderam aos critérios de inclusão. Evidenciou-se a ausência de instrumentos para mensuração da Adaptação Acadêmica em universitários com TEA, além de dificuldades relacionadas ao contexto universitário, como a falta de acolhimento por parte do centro acadêmico e o desconhecimento do TEA por parte dos professores. Concluise que há necessidade de novas pesquisas sobre o tema, sugerindo-se que estudos prospectivos contemplem a construção de instrumentos ou a adaptação dos já existentes para essa população.

PALAVRAS-CHAVE:
Adaptação Acadêmica; Universitários; Transtorno do Espectro Autista.

ABSTRACT

A diverse audience has been entering universities, primarily due to the democratization of Higher Education, including individuals with Autism Spectrum Disorder (ASD). According to the DSM-5-TR, ASD is a neurodevelopmental disorder primarily characterized by difficulties in social interaction, communication, and by repetitive and restricted behaviors. Thus, it can be inferred that these individuals may face greater challenges in adapting to the academic context. In this regard, the objective of this study was to examine the scientific production on Academic Adaptation in students with ASD from 2015 to 2023. An electronic search for national and international articles was conducted in the SciELO, PePSIC, ResearchGate, PubMed, and Google Scholar databases between April and June 2023, based on the PRISMA protocol. The results indicated ten articles that met the inclusion criteria. The absence of instruments for measuring Academic Adaptation in university students with ASD was observed, as well as difficulties related to the university context, such as insufficient support from academic centers and a lack of awareness about ASD among professors. It is concluded that further research on this topic is necessary, suggesting that prospective studies focus on the development of instruments or the adaptation of existing ones for this population.

KEYWORDS:
Academic Adaptation; University students; Autism Spectrum Disorder.

1 INTRODUÇÃO

O ingresso na universidade marca o início de um período repleto de transformações, desafios e conquistas pessoais para os estudantes. Alguns se veem diante de mudanças como a saída de casa e o fato de terem de se afastar da família e dos amigos. Para a maioria deles, obter um diploma de nível superior significa realizar seus próprios sonhos e os de suas famílias. A Educação Superior pode proporcionar ascensão social e independência financeira ao ingressar no mercado de trabalho na área profissional escolhida. No entanto, frequentar a universidade representa, para o aluno, a necessidade de adotar uma nova postura diante dos estudos em relação à sua formação. A expectativa é que ele se envolva em tarefas acadêmicas cada vez mais complexas, acarretando o desenvolvimento de maior autonomia e responsabilidade (Almeida et al., 2016; Faria & Almeida, 2020; Soares et al., 2006).

Ascender ao Ensino Superior pode acarretar desafios em diversas áreas da vida do estudante, como a integração com novos amigos e professores. Além disso, há a adaptação à nova rotina de estudos e, para alguns, o fato de estar longe da família. Tudo isso pode levá-lo a desistir de seus objetivos e abandonar a universidade. Ademais, as expectativas acadêmicas, as características sociodemográficas e de desenvolvimento, somadas aos aspectos relativos à qualidade das instituições, como infraestrutura, recursos e serviços, desempenham um papel importante nesse processo adaptativo (Faria & Almeida, 2020; Soares et al., 2006).

Dessa forma, entende-se que é um processo abrangente de integração do estudante, envolvendo suas vivências tanto no que tange ao aprendizado técnico quanto ao crescimento pessoal, emocional e interrelacional para o desempenho da futura carreira. Assim, quanto mais esses aspectos estiverem em harmonia, maior será o êxito do aluno em sua adaptação e trajetória acadêmica (Soares & Del Prette, 2015; Soares et al., 2019).

A Adaptação Acadêmica é descrita na literatura como uma combinação de diversos fatores que incluem aspectos sociais, pessoais e institucionais. As interações interpessoais do aluno com sua família, colegas e professores podem ser facilitadoras no processo de adaptação à universidade. Nesse sentido, quanto mais o estudante consegue interagir socialmente, mais bem adaptado ao contexto universitário estará (Porto & Soares, 2017; Soares et al., 2006).

O aluno que chega à universidade traz consigo experiências acadêmicas diversas, além de necessidades e expectativas que colocam as instituições diante do desafio de aprimorar a qualidade de seus projetos pedagógicos, sinalizando questões complexas e multifatoriais que envolvem a Adaptação Acadêmica (Monteiro & Soares, 2018). Para Souza et al. (2016) quanto mais o estudante tem consciência daquilo que quer da universidade, se dedica e se organiza a fim de alcançar seus objetivos, mais evidente se torna seu compromisso com o curso e com a futura carreira.

Nessa perspectiva, Farias et al. (2022) analisaram como variáveis pessoais, sociais e de Adaptação Acadêmica, bem como o envolvimento em atividades de natureza obrigatória e não obrigatória, influenciavam o coeficiente de rendimento escolar de 715 estudantes do primeiro ano do Ensino Superior. Os resultados da pesquisa indicaram que o rendimento acadêmico dos alunos se associa, em particular, aos projetos de carreira e à participação em atividades obrigatórias. Segundo os autores, a responsabilidade na realização das tarefas, tais como frequentar as aulas, realizar trabalhos, discutir com colegas sobre a graduação e fazer anotações, possui relevância no processo de adaptação e sucesso acadêmico.

Atualmente, há uma grande procura pelo Ensino Superior no Brasil, o que pode ser explicado tanto pela demanda gerada pelo crescimento da população jovem quanto pela necessidade da sociedade contemporânea de profissionais mais escolarizados (Porto & Soares, 2017). Assim, o acesso ao ensino aponta uma resposta a essa necessidade, ampliando as chances de se obter colocações mais competitivas no mercado de trabalho (Cervato-Mancuso & Silva, 2012).

Até a década de 1990, no Brasil, o Ensino Superior era destinado somente a uma parcela reduzida da população que conseguia ingressar na universidade (Porto & Soares, 2017). Observa-se um aumento de 35% no número de matrículas em Instituições de Ensino Superior entre 2010 e 2020, representando os cursos de bacharelado a maioria das matrículas, correspondendo a 2/3 do total (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira [Inep], 2021). De acordo com o Censo da Educação Superior de 2022, o número de alunos matriculados foi de 9.443 (Inep, 2023).

Esse crescimento foi impulsionado por uma maior democratização do acesso ao Ensino Superior, permitindo a entrada de estudantes com diferentes perfis socioculturais, incluindo negros, indígenas, adultos, mulheres, estudantes trabalhadores e pessoas com deficiência (Almeida, 2007; Faria & Almeida, 2020). Assim, o acesso ao Ensino Superior tem se tornado cada vez mais inclusivo, graças às políticas governamentais implementadas (Ministério da Educação, 2008), resultando em uma ampla diversidade de estudantes que chegam à universidade (Farias et al., 2022; Porto & Soares, 2017).

Notadamente, percebe-se um maior número de ingressantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), principalmente após a promulgação da Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA. Resultados da pesquisa de Silva et al. (2020) mostram que, comparado aos anos anteriores, o número de estudantes com TEA em 2016 aumentou para 1.217. Já em 2019, o número de matrículas de alunos com autismo foi de 1.823, sendo 34,34% maior em relação a 2018 (1.357 matrículas) e 650,20% maior em comparação a 2013 (243 matrículas) (Inep, 2014, 2019, 2020).

O TEA é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento que abrange um espectro caracterizado por comprometimentos na interação social e comunicação, bem como pela presença de interesses restritos e comportamentos repetitivos (American Psychiatric Association [APA], 2022). O diagnóstico é feito com base em critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), que avaliam déficits persistentes na comunicação e interação social em diversos contextos (critério A) e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (critério B).

Tanto a história atual quanto a história prévia pessoal são consideradas na avaliação desses critérios (APA, 2022). Embora as causas exatas do TEA não sejam conhecidas, é amplamente reconhecido que se trata de uma condição multifatorial, resultante da interação de fatores genéticos e ambientais (Lima et al., 2023). Devido a essas características, alguns indivíduos dentro do espectro podem, ao longo da vida, experienciar isolamento social em determinados contextos e situações específicas.

A literatura internacional aponta um considerável aumento nos índices de diagnóstico de TEA nos últimos 20 anos (Myers et al., 2018). Dados do National Longitudinal Transition Study-2 (NLTS2) (National Center for Special Education Research, 2011) mostram que cerca de um terço dos estudantes diagnosticados com TEA ingressam na universidade logo após concluírem o Ensino Médio, dos quais apenas 38% conseguem concluir a graduação (Newman et al., 2011; Shattuck et al., 2012). Muitos estudantes descobrem o diagnóstico somente na metade do curso ou após a conclusão.

Outros, mesmo tendo o diagnóstico, preferem não divulgá-lo, o que os leva a enfrentar desafios como a falta de interação social, dificuldade com trabalho em grupo e planejamento de horários e prazos, além da dificuldade na realização das provas por acharem que o tempo não é suficiente para responder a todas as questões. Além disso, alguns precisam mudar de residência e aprender a viver sozinhos e tomar suas próprias decisões. Tais aspectos dependem de habilidades de autorregulação e gestão das emoções, o que pode constituir um desafio para indivíduos com TEA (Assis et al., 2021).

Nesse sentido, considerando-se que a entrada no Ensino Superior é marcada por várias mudanças - que vão desde a configuração das práticas educacionais até as vivências entre estudantes - e levando-se em conta as características singulares dos indivíduos com TEA, esses estudantes podem estar enfrentando desafios sociais, emocionais, de vida independente, autoestima e comunicação, tanto dentro quanto fora da sala de aula (Adreon & Durocher, 2007; Gurbuz et al., 2019). Nessa perspectiva, um estudo realizado com três acadêmicos com TEA pertencentes ao curso de Medicina de uma universidade pública do norte de Minas Gerais identificou os principais desafios enfrentados, tais como o acolhimento, especialmente da direção acadêmica, a acessibilidade, a autonomia, as relações com os docentes e o professor de apoio na universidade (Lima et al., 2023).

Existem diversas razões pelas quais os alunos com autismo podem definir a experiência universitária como desafiadora, tais como interagir com os colegas e participar de trabalhos em grupo em um nível maior que os alunos sem autismo, sobretudo no que diz respeito às demandas acadêmicas e sociais, bem como ao planejamento da futura carreira. Segundo Cheriyan et al. (2021), em uma pesquisa participativa envolvendo indivíduos autistas e não autistas, poucos estudantes afirmaram ter adquirido habilidades específicas relacionadas à carreira durante a trajetória acadêmica.

Gurbuz et al. (2019) aplicaram um questionário online a 26 alunos autistas e 158 alunos não autistas matriculados em universidades do Reino Unido para investigar experiências sociais e acadêmicas. Verificaram que os alunos autistas relataram desafios significativos e mais problemas de saúde mental do que os alunos não autistas. Segundo os autores, os grandes desafios se concentraram nos aspectos sociais da vida universitária, incluindo habilidades interpessoais, oportunidades de apoio social e níveis de consciência sobre TEA pelos demais integrantes da comunidade universitária.

Ressalta-se, ainda, que os alunos com autismo tiveram mais pensamentos de desistência, enfatizando a necessidade de apoio. Canal (2021) ressaltou que a capacitação dos docentes se coloca como uma necessidade urgente, de maneira que sua atuação junto aos alunos com TEA possa ocorrer de forma mais eficaz, considerando todas as diferentes necessidades desses estudantes. Isso significa desenvolver e ampliar conhecimentos sobre o processo de ensino e aprendizagem desses alunos.

Um dos critérios definidos pelo DSM-5-TR (APA, 2022) para o diagnóstico do TEA é a rigidez cognitiva e a inflexibilidade em aderir a novas rotinas, o que faz com que a pessoa com autismo precise de previsibilidade em seu dia a dia. Portanto, é fundamental que os acontecimentos sejam avisados com antecedência (APA, 2022). Isso faz com que o indivíduo se sinta seguro, tenha ciência de seus objetivos e saiba o que se espera que ele faça (Barbosa & Gomez, 2019). Dessa forma, segundo as autoras, um procedimento adequado em sala de aula seria o professor apresentar, no início do semestre, a ementa e o cronograma da disciplina, a fim de que o aluno com TEA possa se organizar, evitando, assim, a quebra de rotina.

Os resultados da revisão sistemática de Sanches e Freitas (2022) indicaram que os desafios enfrentados pelos estudantes envolvem principalmente metodologias de ensino e métodos de avaliação, além de questões socioemocionais, diagnóstico tardio, interações interpessoais limitadas e obstáculos ligados à informação, atitude e linguagem. As autoras destacaram ainda que o número limitado de estudos não reflete a realidade atual, na qual cada vez mais estudantes com TEA têm ingressado no Ensino Superior.

Outro estudo, realizado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), por Ferrari (2016), acompanhou um estudante autista em um curso superior. Os resultados evidenciaram a falta de professores e profissionais especializados, o desconhecimento sobre autismo por parte dos docentes, a falta de acessibilidade pedagógica e o preconceito como as principais dificuldades encontradas pelo universitário. O autor ressalta a necessidade de ampliar a divulgação dos direitos do autista, sugerindo maior fiscalização e exigência do cumprimento, por parte das instituições de ensino, das políticas públicas, a fim de que o estudante com TEA seja incluído de forma eficaz.

Desse modo, levando em consideração a literatura existente nessa área de pesquisa, é de suma importância identificar a produção nacional e internacional de conhecimento sobre os desafios e dificuldades da Adaptação Acadêmica de universitários com TEA. Nesse sentido, presente estudo tem como objetivo verificar a produção científica sobre Adaptação Acadêmica em estudantes com TEA no período de 2015 a 2023 para melhor compreensão e gerência do tema, visando contribuir com intervenções que possam acolher melhor esses estudantes.

A pergunta que norteia a pesquisa é: Existem na literatura estudos sobre Adaptação Acadêmica em estudantes com TEA? O marco temporal justifica-se tendo em vista a promulgação da Lei nº 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA e o consequente aumento de ingressantes com esse transtorno a partir de 2016 (Sanches & Freitas, 2022). Pretende-se detalhar os objetivos e os métodos de pesquisa utilizados em cada estudo e destacar os principais resultados e contribuições para a área, a fim de apontar lacunas existentes na literatura.

2 MÉTODO

O delineamento deste estudo é de natureza qualitativa e foi realizado por meio de revisão sistemática da literatura, orientada pelo protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses - PRISMA (Galvão et al., 2015; Moher et al., 2009; Page et al., 2021), que fornece orientações de relatórios atualizados para esse tipo de revisão e reflete os avanços nos métodos para identificar, selecionar, avaliar e sintetizar estudos. O PRISMA consiste em uma lista de verificação expandida de 27 itens, que detalha as recomendações de relato para cada item. A revisão sistemática desempenha um papel fundamental ao analisar a produção de artigos em um campo específico do conhecimento, permitindo não apenas essa avaliação, mas também a possibilidade de mapear as instituições acadêmicas envolvidas, identificar as redes de pesquisadores, as linhas de pesquisa em andamento, os construtos investigados e os métodos utilizados (Chueke & Amatucci, 2015).

A busca eletrônica de artigos nacionais e internacionais foi realizada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC), ResearchGate, Publisher MEDLINE (PubMed) e Google Acadêmico no período de abril a junho de 2023. O conjunto de palavras-chave foi definido a partir de cinco categorias relacionadas à: (1) Adaptação Acadêmica/Academic Adaptation; (2) Transtorno do Espectro Autista/Autism Spectrum Disorder; (3) Interação Social/Social Interaction; (4) Futura Carreira/Future Career; e (5) Universitários/College Students. Utilizando-se os operadores booleanos “OR” e “AND”, a combinação dos termos para compor os descritores da pesquisa foi a seguinte: Adaptação Acadêmica “OR” integração acadêmica “OR” uiversitários “OR” universidade “AND” Transtorno do Espectro Autista “OR” TEA “OR” autismo “OR” autista “OR” autistas “OR” neurodiversidade “OR” neurodiversos “AND” interação social “AND” carreira, apresentadas em português e inglês.

Os critérios de inclusão utilizados para a seleção dos artigos foram: artigos empíricos em português e inglês, publicados entre 2015 e 2023, sobre a temática Transtorno do Espectro Autista e Adaptação Acadêmica. Já os critérios de exclusão consistiram em artigos repetidos nas bases de dados, artigos não disponíveis integralmente na internet, artigos de revisão da literatura e outras produções acadêmicas, como teses, dissertações e capítulos de livros.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram encontrados 77 registros (Figura 1) inicialmente, dos quais se eliminaram dois por pertencerem a mais de uma base de dados, restando 75. Após a leitura dos resumos, foram excluídos: artigos não disponíveis integralmente na internet (n = 13), artigos não relacionados ao tema proposto (n = 34), artigos de revisão (n = 8) e outras literaturas, como teses, dissertações e capítulos de livros (n = 10). As questões que nortearam a seleção ou exclusão dos achados foram: 1) O artigo é destinado a estudantes universitários com TEA? 2) O resultado teve por premissa reunir apenas os estudos que retinham o tema específico da revisão. Assim, dez artigos completos atenderam aos critérios da revisão, foram lidos integralmente e incluídos na revisão (Quadro 1).

Quadro 1
Caracterização dos artigos incluídos

Figura 1
Diagrama de fl uxo do processo de seleção de artigos encontrados na busca

O Quadro 1 apresenta os artigos incluídos na revisão após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, compondo assim a amostra do estudo. As pesquisas encontradas abrangeram estudos sobre Adaptação Acadêmica e variáveis correlatas, estudos de caso único, estudo de perspectiva sobre profi ssão e carreira, estudo sobre difi culdades acadêmicas, estudo sobre transição e Adaptação Acadêmica e estudo sobre vivências acadêmicas.

A Adaptação Acadêmica pode ser caracterizada como um conjunto de processos que envolvem cognição, afetos e socialização. Esses fatores, quando em consonância, podem favorecer o sucesso do estudante em sua jornada universitária (Soares & Del Prette, 2015). Nessa etapa, é exigido do universitário um grande esforço para se adaptar ao contexto acadêmico, visto que ele precisa lidar com demandas diversas, além de desenvolver altos níveis de independência, iniciativa e autorregulação, marcando, assim, um período de desafios e conquistas (Almeida et al., 2016; Faria & Almeida, 2020; Soares et al., 2019).

Nas últimas décadas, o Ensino Superior passou por uma democratização, levando à entrada de um público diversificado nas universidades (Porto & Soares, 2017), o que inclui também universitários com TEA. Considerando os principais comprometimentos do TEA no campo da interação social e da comunicação, além de comportamentos repetitivos e interesses restritos, descritos no DSM-5-TR, percebe-se que, para esses alunos, a Adaptação Acadêmica pode ser mais desafiadora no que diz respeito à socialização, à gestão de emoções, à autoestima, à independência e à habilidade de se comunicar (Adreon & Durocher, 2007; APA, 2022; Gurbuz et al., 2019).

O presente estudo evidenciou pesquisas sobre vivências acadêmicas em sua maioria, seguidas de estudos de caso único, Adaptação Acadêmica e variáveis correlatas, perspectiva sobre profissão e carreira, dificuldades acadêmicas, transição e Adaptação Acadêmica. Todos versaram sobre a Adaptação Acadêmica de universitários com TEA, buscando compreender seus desafios, suas dificuldades, experiências e necessidades.

O estudo sobre Adaptação Acadêmica e variáveis correlatas (Aguilar & Rauli, 2020) aponta o estigma e o peso do diagnóstico como os principais desafios citados por universitários com TEA. No entanto, mesmo sendo estigmatizado ao expor o diagnóstico, o estudante sente-se aliviado por não ter de se submeter a relações desconfortáveis. Assim, entende-se que conhecer os desafios que esses alunos enfrentam pode contribuir para a promoção de medidas pedagógicas que visem facilitar a adaptação desse público. De acordo com Gurbuz et al. (2019), os baixos níveis de conscientização de outras pessoas também podem representar desafios significativos, dificultando ainda mais a adaptação ao novo ritmo de vida. Além disso, há dificuldades advindas das características próprias do transtorno, como a sobrecarga sensorial e emocional.

A ausência de rotina, a falta de previsibilidade com relação às avaliações, bem como a dificuldade de engajamento nas atividades coletivas, como a realização dos trabalhos em grupo, são aspectos negativos relacionados à Adaptação Acadêmica citados por estudantes nos estudos de caso único (Barbosa & Gomez, 2019; Oliveira & Abreu, 2019). Ressalta-se que o professor deve considerar as necessidades individuais de cada aluno ao planejar suas estratégias e flexibilizações, sejam eles autistas ou não. Para Canal (2021), a necessidade de capacitação dos docentes se destaca como prioridade, com vistas a aprimorar seu desempenho e atuação junto aos alunos com TEA. Esse processo deve levar em consideração as diversas necessidades e especificidades desses estudantes, o que implica o desenvolvimento e a ampliação de conhecimentos relacionados ao processo educacional, incluindo adaptações para melhor atender esse público.

Nota-se que o acesso da pessoa com autismo ao Ensino Superior não garante sua inclusão, sendo necessário um olhar direcionado para a compreensão da diversidade, de forma que todos tenham oportunidade de aprender, tendo suas diferenças e necessidades respeitadas. Nesse sentido, Sanches e Freitas (2022) ressaltam a importância do suporte acadêmico e não acadêmico para que esses estudantes tenham sucesso na trajetória universitária, destacando ainda a necessidade de pesquisas com o intuito de compreender a melhor forma de atender esse público, a fim de garantir seu sucesso na Educação Superior.

Em relação à perspectiva de profissão e carreira, Cheriyan et al. (2021) destacam um baixo quantitativo de estudantes autistas relatando terem adquirido habilidades específicas relacionadas à carreira durante sua experiência universitária. Esses estudantes apresentam uma inclinação maior para buscar empregos acadêmicos, como professor e pesquisador, e uma menor disposição para seguir carreiras na área da saúde em comparação com seus colegas não autistas, expressando maior preocupação com a possibilidade de enfrentar discriminação. Para Faria e Almeida (2020), conquistar um diploma de nível superior significa, para muitos estudantes, a realização de seus próprios sonhos e dos sonhos de seus familiares. Ingressar no mercado de trabalho na área profissional escolhida pode proporcionar ascensão social e independência financeira.

O estudo sobre dificuldades acadêmicas (Lima et al., 2023) identificou demandas como a falta de acolhimento por parte do centro acadêmico, a necessidade de elaboração de provas com linguagem mais simples, adaptações em seminários e a falta de informação sobre TEA por parte dos professores no início de cada tutoria como as principais dificuldades encontradas pelos discentes. Isso reforça a necessidade de que as instituições se adaptem cada vez mais à realidade dos acadêmicos com TEA, assim como o corpo docente também precisa de maior capacitação para acolher esses estudantes, a fim de evitar constrangimentos. Para Sanches e Freitas (2022), os desafios enfrentados pelos universitários com autismo abrangem predominantemente métodos de ensino e de avaliação, além de outros pontos, como questões socioemocionais, atraso no diagnóstico, dificuldades nas interações interpessoais e barreiras relacionadas ao entendimento da linguagem.

As habilidades organizacionais, como a conclusão de trabalhos, a deficiência nas Habilidades Sociais, os desafios da participação social, as dificuldades em navegar pelas distâncias do local da palestra, a falta de ajuda material, assim como a falta de suporte para deficientes e a ausência de apoio acadêmico, são aspectos desfavoráveis relacionados no estudo sobre transição e Adaptação Acadêmica (Sefotho & Onyishi, 2021), sugerindo que o ambiente universitário pode ser avassalador. Entende-se que há uma maior necessidade de suportes acadêmicos, sociais, materiais e ambientais para estudantes com TEA no processo de transição para instituições de Ensino Superior.

Sanches e Freitas (2022) salientam a importância de divulgar amplamente os direitos do aluno com TEA, enfatizando a necessidade de maior fiscalização para que as instituições de ensino cumpram as leis vigentes, permitindo, assim, que esses indivíduos sejam incluídos em sua totalidade. Para Monteiro e Soares (2018), além das necessidades e expectativas, o aluno chega à universidade trazendo vivências acadêmicas variadas, o que desafia as organizações a ampliarem seus projetos pedagógicos de forma a contemplar questões complexas e multifatoriais que permeiam a Adaptação Acadêmica.

Segundo Cullen (2015), as necessidades sociais, como encontrar lugares para conhecer outras pessoas com interesses semelhantes, assim como a assistência nas interações sociais durante o trabalho e o apoio nas habilidades da vida diária, como pegar o ônibus, estão presentes no cotidiano dos universitários com TEA. Além disso, as interações sociais deficitárias podem se mostrar um fator complicador para a permanência na universidade (Olivati & Leite, 2019).

Para Porto e Soares (2017), as interações interpessoais do aluno com os colegas e professores desempenham um papel facilitador no processo de adaptação à universidade, no sentido de que, quanto mais socializado, mais adaptado será esse estudante.

Os estudos sobre vivências acadêmicas apontam ainda um alto grau de sucesso acadêmico, apesar do difícil começo no processo de adaptação às rotinas. Questões como isolamento, depressão e dificuldade na vida social universitária também são destacadas. Outro ponto importante é a experiência da moradia, pois os quartos individuais e as áreas separadas para o silêncio podem ter efeitos contraditórios. Por um lado, ajudam com as dificuldades sensoriais/ansiosas dos alunos; por outro, favorecem o isolamento, sugerindo a importância de oportunidades sociais para esses indivíduos (Gelbar et al., 2015). É importante ressaltar que, na universidade, as controvérsias entre o interesse pela graduação e o despreparo do contexto universitário apareceram como fatores geradores de angústia e ansiedade, associados às barreiras para permanência e à necessidade de conclusão do curso no prazo regulamentar (Olivati & Leite, 2019).

Em geral, as pesquisas trazem contribuições importantes para a compreensão do tema abordado neste estudo, colaborando para a tomada de decisões assertivas de forma que favoreçam a adaptação desses estudantes. No entanto, o baixo número de estudos encontrados, principalmente no âmbito nacional, já que, dos dez artigos incluídos, cinco eram estrangeiros, pode ser um indicativo da necessidade de maior produção acadêmica nessa área.

Embora a revisão tenha lançado luz sobre a temática, não foi identificado nenhum estudo sobre um instrumento específico para mensuração da Adaptação Acadêmica em universitários com TEA dentro do período abordado na pesquisa, o que pode ser considerado uma lacuna relevante. No cenário brasileiro, tal dado pode estar associado à visibilidade desses alunos após a promulgação das leis de inclusão pertinentes no país. Dessa forma, a elaboração de instrumentos ou a adaptação dos existentes para esse público em particular representaria uma contribuição tanto para os estudos qualitativos quanto para os quantitativos, possibilitando uma compreensão mais aprofundada do tema a partir da percepção dos estudantes sobre suas necessidades, motivações, desafios e expectativas, além da viabilidade de mensuração de construtos.

Cabe ressaltar que 50% dos estudos incluídos nesta revisão que abordaram a Adaptação Acadêmica em universitários com TEA foram de origem estrangeira, o que aponta uma incipiência dessa temática no cenário nacional, caracterizando um longo caminho a ser percorrido no sentido de melhorias no campo pedagógico, bem como na criação de um ambiente acolhedor e gerador de bem-estar para esses estudantes.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve por objetivo verificar a produção científica sobre Adaptação Acadêmica em estudantes com TEA no período de 2015 a 2023. Os resultados revelaram que existe carência de estudos relacionados ao tema investigado, bem como a ausência de instrumentos que mensurem a Adaptação Acadêmica em universitários com TEA. Embora o marco temporal tenha sido estabelecido a partir de 2015, em razão da promulgação das leis de inclusão no Brasil, a maioria dos artigos analisados é recente, o que pode ser um indicativo de maior interesse por pesquisas pertinentes ao assunto, evidenciando, assim, a relevância e a contribuição desta revisão sistemática.

As pesquisas destacaram que a falta de apoio e acolhimento no ambiente acadêmico, assim como a desinformação sobre as necessidades do estudante com TEA, podem ser consideradas uma lacuna que precisa ser preenchida na literatura nacional e internacional. Nesse sentido, novas pesquisas sobre o tema têm potencial para se desdobrarem a partir deste estudo, visto que todos os artigos analisados trouxeram resultados relevantes em relação à entrada, à inclusão e à adaptação do universitário com TEA, sinalizando as necessidades e os desafios encontrados nessa trajetória. Ressalta-se ainda que há um longo percurso a ser percorrido para que as universidades ofereçam condições adequadas, a fim de que esse estudante seja, de fato, incluído, adaptado e tenha suas necessidades atendidas.

Um dos critérios desta revisão foi excluir artigos que não fossem publicados integralmente na internet, o que pode constituir uma limitação, já que tais literaturas poderiam trazer contribuições significativas. Como perspectivas futuras, considera-se este estudo um facilitador na abertura de caminhos para novas pesquisas que visem à construção de instrumentos para mensuração da Adaptação Acadêmica em universitários com TEA, de modo que possam amparar e subsidiar pesquisas e, consequentemente, auxiliar as Instituições de Ensino Superior na tomada de decisões, auxiliando esses estudantes a melhor adaptarem-se à universidade.

RefeRências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Mar 2024
  • Revisado
    14 Out 2024
  • Aceito
    14 Mar 2025
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