Open-access Uma análise marxista da formação da individualidade humana: Lucien Sève e o tema da constituição biográfica dos indivíduos

A marxist analysis of the formation of human individuality: Lucien Sève and the theme of the biographical constitution of individuals

Un análisis marxista de la formación de la individualidad humana: Lucien Sève y el tema de la constitución biográfica de los individuos

RESUMO

O objetivo do artigo é apresentar e analisar a contribuição do filósofo marxista Lucien Sève ao problema da constituição da individualidade humana. A obra pioneira do autor antecede o desenvolvimento do campo de estudos e pesquisas biográficas nos anos 1980, deixando um aporte teórico importante, porém pouco conhecido no Brasil. O artigo está organizado em três seções. A primeira traz elementos biográficos e contextuais sobre o autor e seus escritos. A segunda destaca especialmente uma marcante publicação no percurso intelectual e político de Lucien Sève, o livro Marxismo e teoria da personalidade. A terceira seção enfatiza a obra magna do autor, a tetralogia Penser avec Marx aujourd'hui, examinando o que Lucien Sève denomina de conceitos fundamentais da antropologia marxiana. O texto traz ao final algumas reflexões sobre o que foi apresentado e indicativos para o desdobramento das questões tratadas.

Palavras-chave:
Lucien Sève; Individualidade; Estudos biográficos; Marxismo; Atividade

ABSTRACT

The aim of the article is to present and analyse the contribution of Marxist philosopher Lucien Sève to the construction of the human individuality. The author's first work precedes the development of the field of biographical studies and research in the 1980s, leaving an important theoretical contribution, albeit little known in Brazil. The article is organized into three sections. The first section brings biographical and contextual elements of the author and his writings. The second especially highlights a remarkable publication in the intellectual and political path of Lucien Sève, the book Marxisme et théorie de la personnalité. The third section emphasizes the author's most important work, the tetralogy Penser avec Marx aujourd'hui, and examines what Lucien Sève called the fundamental concepts of anthropology in Marx. In the end, the article reflects on what was presented and brings indications for the unfolding of the issues dealt with in the text.

Keywords:
Lucien Sève; Individuality; Biographical studies; Marxism; Activity

RESUMEN

El objetivo del artículo es presentar y analizar la contribución del filósofo marxista Lucien Sève al problema de la constitución de la individualidad humana. El trabajo pionero del autor precede el desarrollo del campo de los estudios e investigaciones biográficas en la década de 1980, dejando una contribución teórica importante, pero poco conocida en Brasil. El artículo está organizado en tres secciones. La primera trae elementos biográficos y contextuales sobre el autor y sus escritos. La segunda sección destaca especialmente una publicación importante en la trayectoria intelectual y política de Lucien Sève, el libro Marxismo y Teoría de la Personalidad. La tercera sección hace hincapié en la obra magna del autor, la tetralogía Penser avec Marx aujourd'hui, que examina lo que Lucien Sève denomina los conceptos fundamentales de la antropología marxiana. El texto aporta al final algunas reflexiones sobre lo expuesto e indicaciones para el desarrollo de las cuestiones tratadas.

Palabras clave:
Lucien Sève; Individualidad; Estudios biográficos; Marxismo; Actividad

INTRODUÇÃO

A temática da formação humana — em sentido amplo — atravessa de ponta a ponta a filosofia e as ciências humanas. Nela interessa tanto o que constitui o humano quanto o que concorre para isso e os meios pelos quais tais processos têm lugar. A ideia de uma suposta natureza humana, da formação para a emancipação ou a ideologia dos dons, concepções estas dissimétricas e bastante distantes entre si em seus fundamentos, repousam sobre a iniciativa comum de caracterizar e definir o que compreende o humano e o que concorre para sua constituição.

Temática aberta e pluridisciplinar, ela recebe investimentos de diferentes disciplinas e abordagens teóricas. Talvez não haja grande autor e sistema teórico no qual a questão esteja ausente ou dela não se possa derivar certa compreensão do humano, do que o caracteriza e o reveste. Pode-se pensar aqui em figuras tão díspares como o filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712–1778), em seu Emílio (1999), ou no economista Adam Smith (1723–1790), autor da obra que inaugura o pensamento econômico moderno, A riqueza das nações (1996), para quem a existência de filósofos e lenhadores não deve ser buscada nas capacidades maiores ou menores de cada um, mas na dinâmica da divisão do trabalho.

Tudo isso que envolve a formação humana coloca, assim, em última análise, o problema da constituição humana. Isto é, o de conhecer o caráter próprio da humanidade — até mesmo em contraste com as demais espécies animais —, o que o engendra e lhe dá forma. Mas esta é apenas uma parte da dificuldade que envolve o referido problema. A outra parte reside em compreender como se passa de processos sociais genéricos para as formas singulares. Dizendo de outro modo, como processos sociais mais gerais se plasmam nos indivíduos e os constituem como indivíduos? Em suma, como os indivíduos se tornam indivíduos? Pelo que se depreende, a interrogação não é simples. Ela envolve pensar o indivíduo como outra coisa que uma instância replicativa do social ou habitus de classe.

Michel Legrand observa que autores como Cornelius Castoriadis e Pierre Bourdieu passaram por essa questão que envolve pensar as mediações entre as formas sociais mais gerais e o indivíduo. Mas Legrand nota que há uma armadilha nesse domínio, que diz respeito ao risco de se conceber o indivíduo social como uma sorte de decalque ou mero produto interiorizado das formas sociais e históricas mais gerais. Segundo Legrand, Castoriadis cai na armadilha; "para ele, o indivíduo social se constitui puramente e simplesmente pela apropriação dos tipos históricos do indivíduo" (Legrand, 1993, p. 502). Bourdieu percebe o problema, porém, o indivíduo social singular não sendo de seu interesse direto, ele não o trabalha; "há formulações explícitas nas quais ele diz, por exemplo: o habitus do indivíduo singular é um habitus singular, não é somente um decalque monótono de um habitus de classe" (Legrand, p. 1993, p. 502).

A armadilha à qual Legrand faz referência talvez seja uma das questões mais difíceis para as ciências humanas e sociais. Ela exige considerar a estrutura e, ao mesmo tempo, conceder lugar à agência humana. Para usar os termos de Thompson (1981), exige distinguir entre um todo estruturado (no qual o processo resta enclausurado) e um processo estruturado, no qual se está sujeito à força das instituições e das relações sociais, mas que continua aberto e só parcialmente determinado. Se retomarmos a metáfora da armadilha comentada por Legrand, pode-se dizer que Althusser cai nela, mas também, para Thompson, os autores da Escola de Frankfurt (cf. Thompson, 1981, p. 205). Questão a debater. Retornaremos mais adiante no texto sobre o caso de Louis Althusser.

Nos anos 1980 um campo de pesquisa se abriu justamente buscando dar conta desta interrogação — como os indivíduos se tornam indivíduos? —, cujas obras pioneiras estão representadas nos estudos de Pineau e Marie-Michèle (2012 [1983]), Nóvoa e Finger (1988) e Pineau e Jobert (1989). Decorrem no período seguinte aos anos 1980 um importante número de estudos e pesquisas, delineando os contornos do campo de investigação sobre histórias de vida, dando conteúdo e forma ao que ficará conhecido como a abordagem biográfica. Um vasto conjunto de pesquisas se constituiu desde então, associado aos nomes Gaston Pineau, António Nóvoa, Pierre Dominice, Christine Josso, José González-Monteagudo, Christine Delory-Momberger, Hervé Breton, Maria Pesseggi e Elizeu Clementino, estes dois últimos brasileiros.

Neste ponto, o presente texto busca retomar a obra de um autor que está no debate inicial dos estudos biográficos, o filósofo Lucien Sève (1926–2020). Autor de uma obra pouco conhecida em nosso país, Lucien Sève foi, no entanto, uma leitura que fez parte da formação de muitos daqueles que no Brasil realizaram seus estudos em psicologia social no último quartel do século XX, notadamente por meio do livro Marxismo e teoria da personalidade e algumas outras poucas publicações do autor em língua portuguesa.1 Filósofo sui generis, Sève não se engajará na vida universitária, mas na militância política, sendo por décadas membro do comitê central do Partido Comunista Francês (PCF) e diretor das Éditions Sociales (1970–1982), editora vinculada ao PCF e destacada no campo da filosofia e das ciências sociais. Notável conhecedor da obra de Marx, ele será autor de uma vasta e erudita obra em torno do marxismo e da constituição da individualidade humana. Como destaca Legrand (1993), Lucien Sève foi quem melhor reteve e trabalhou o problema — já aludido — de que não se pode conceber o indivíduo como mera expressão da interiorização das formas sociais gerais. Esse aspecto interessa muito a área da educação, pois, como vimos, vai ao encontro de importantes questões que envolvem a formação humana. O objetivo do texto a seguir é apresentar e analisar a contribuição de Lucien Sève ao problema da constituição da individualidade humana. O artigo está organizado em três seções. A primeira seção traz elementos biográficos e contextuais sobre Lucien Sève e seus escritos. A segunda destaca especialmente uma obra-chave no percurso intelectual e político de Lucien Sève, o livro Marxismo e teoria da personalidade. A terceira seção enfatiza a obra magna do autor, a tetralogia Penser avec Marx aujourd'hui, para apresentar e discutir as contribuições de Lucien Sève ao tema das formas históricas da individualidade humana. O texto traz ao final uma síntese e algumas reflexões sobre o que foi apresentado.

A HISTÓRIA DE UMA QUESTÃO

É a personalidade em um sentido fundamentalmente original que está em questão aqui — dizia Lucien Sève ao retomar seus escritos 40 anos depois — pensada na perspectiva antropológica marxiana, o que quer dizer não amputada nem do conteúdo de suas atividades e nem de sua dupla temporalidade, aquela da história social e aquela da biografia pessoal, ela se torna então fascinante. (Sève, 2008, p. 514)

De fato, a constituição da personalidade — expressão do biográfico — é um tema fascinante. Por linhas indiretas, como veremos a seguir, o tema vai desde muito cedo cruzar o percurso intelectual de Lucien Sève.

"Eu lia avidamente tudo o que dizia respeito à biografia, colocando sob essa palavra tanto a narrativa subjetiva de uma vida, como seu curso objetivo", comenta Sève (2015, p. 9) sobre seu precoce interesse pelo biográfico. Estudante nas classes preparatórios para o ensino superior e sem mesmo completar 17 anos, é por meio da literatura que primeiramente ele se aproxima do tema da constituição da individualidade humana. São os romances de Stendhal (Henri-Marie Beyle) e depois a leitura do livro Goethe — uma densa obra biográfica escrita por Friederich Gundolf — que lhe oferecerão a porta de entrada para questões logo em seguida matizadas pela leitura de Sartre.

Em Goethe, Friedrich Gundolf apresenta o percurso biográfico do literato alemão em íntima relação com a formação de uma personalidade. Esse ponto, especialmente, chama a atenção de Lucien Sève, mas, ao mesmo tempo, esse aspecto destacável dá lugar a uma inquietação, pois a conceptualização de Gundolf do biográfico se fazia em torno de um termo-chave do livro, a noção de daïmon, reputada nomear a identidade original de um destino biográfico singular. Nesse ponto, pergunta-se Lucien Sève, "tratar-se-ia verdadeiramente de uma outra coisa do que uma virtude dormitiva, reenviando assim a um suposto elemento nativo de uma personalidade que eu pressentia antes provir de uma construção histórica?" (2015, p. 10). A leitura de Sartre reforçou essa desconfiança.

Recém-publicada na época, a obra datada de 1943, O ser e o nada de Jean-Paul Sartre, trazia uma ontologia do ser, de sua existência e liberdade impossíveis de serem definidas ex ante. Não havia a priori. A tarefa, diz Séve (2015), parecia então ser repensar Gundolf em uma perspectiva Sartriana, o que não era simples, a considerar que em A infância de um chefe — texto literário e tacitamente autobiográfico publicado por Sartre em 1939 — a determinação psicanalítica infantil parecia tornar difícil a livre escolha de si. Contudo, diz Sève, de um modo ou de outro o projeto a ser realizado ganhou forma para ele: "pensar a biografia" (2015, p. 10).

A essa altura, Lucien Sève ingressa em 1945 como aluno na prestigiada instituição situada na Rua d’Ulm em Paris, a Escola Normal Superior. Ele tem 19 anos e encontrará nessa instituição uma densa formação e um percurso naquela efervescente ambiência acadêmica, o que marcará duravelmente seu trabalho filosófico e seus posicionamentos políticos.

O ensino oferecido na Escola Normal Superior o instrui no universo da filosofia e permite um itinerário no qual Lucien Sève pode se dispor ao estudo da psicologia — tanto presente na formação inicial, nos dois anos de licence em filosofia, como nos dois anos de estudos especializados que habilitam à agrégation, o concurso que titula e ingressa os docentes no magistério de nível médio e superior na França. Mas, conforme suas próprias palavras, "durante os quatros anos que eu passei na Rue d’Ulm antes de sair agrégé de filosofia, eu estudei muito psicologia — na Sorbonne, pois nada era ensinado na Escola Normal" (2015, p. 11).

Na Sorbonne, diz Sève (2015), sob o termo aparentemente claro de psicologia prevalecia um ensino no qual a psicologia era assimilada ao estudo de funções ou condutas específicas — percepção, hábito, emoção, memória, atenção, vontade — e logo, portanto, a um psiquismo impessoal, nada distante do que poderia ser o estudo da psicologia animal. Conforme ele, a única disciplina que dizia algo de mais substantivo sobre a individualidade humana era a psicanálise, na qual o ensino na Sorbonne era pouco expressivo. No caso da Escola Normal Superior, naqueles anos de 1940, Sève relata que "era por si mesmos que alguns liam Freud na Rua d’Ulm, como Louis Althusser, que se tornou caïman [termo que designa o ex-aluno que passa a ser docente dos novos estudantes] de filosofia ou meu vizinho de mesa Michel Foucault, alguns também se preparando para Tornarem-se psicanalistas, como Didier Anzieu ou Jean Laplanche" (2015, p. 12). Sève guardará muitas reservas sobre a psicanálise2.

Se durante seu período de formação inicial Lucien Sève mostra interesse, mas também distanciamento crítico em relação à psicanálise, isso se deve em larga medida à leitura de Georges Politzer. Em 1947, a editora do partido comunista divulga, sob o título de La crise de la psychologie contemporaine, um livro contendo importantes textos já publicados pelo autor. É então que chega às mãos de Lucien Sève pela primeira vez uma análise crítica marxista sobre a psicologia e a psicanálise. No livro se podia ler que, para a psicologia se tornar uma ciência, seria preciso que ela se voltasse para seu verdadeiro objeto, que não seria outro que "o conjunto dos fatos humanos considerados em sua relação com o indivíduo humano, quer dizer enquanto estes constituem a vida de um homem e a vida dos homens" (Politzer, 1947, p. 112). Politzer fala em drama humano, a vida concreta tal como se exprime para o indivíduo: a doença, o trabalho, a paixão, o casamento, o crime etc. Na sequência, destacando o limite e a exigência postos à psicologia, Politzer anota o que está no cerne do problema: "A psicologia não detém de modo algum o ‘segredo’ dos fatos humanos, simplesmente porque esse ‘segredo’ não é de ordem psicológica" (1947, p. 120).

A leitura de Politzer foi decisiva para Lucien Sève — em suas palavras, "a leitura desse pequeno livro foi para mim como ser atingido por um raio, algo de uma estimulação intelectual sem igual" (2015, p. 12). Outra influência importante naquele momento de formação inicial foi a leitura dos escritos de Lénin. Uma publicação recente do Partido Comunista, no ano de 1948, trazia um conjunto de textos do revolucionário russo cuja leitura impacta Lucien Sève, até então apenas simpatizante do comunismo: "eu descobria com uma completa surpresa o alto nível teórico da política em Lênin" (2015, p. 14).

Nesse momento já está claro para Lucien Sève o que precisaria estar na base de seu programa de pesquisas: era preciso conhecer Marx e se apropriar de sua crítica à economia política. Essa leitura mais detida, mais fina, da obra marxiana pensada em conjunto com a problemática da constituição da individualidade humana vai resultar numa obra longamente gestada: Marxismo e teoria da personalidade.

MARXISMO E TEORIA DA PERSONALIDADE (1969)

Obra que consagrou o reconhecimento público de Lucien Sève, Marxismo e teoria da personalidade foi traduzida em mais de 20 línguas. O livro recebeu um vivo interesse. A originalidade do tema (o estudo da personalidade), sua proposição (pensar os fundamentos sócio-históricos do biográfico) e sua ancoragem teórica (o marxismo) chamavam a atenção de estudiosos de diferentes matizes. Serão destacados dois aspectos do livro: o debate que Lucien Sève trava com o marxismo de sua época, notadamente com a figura maior do período, Louis Althusser; e o quadro conceitual que naquele momento Lucien Sève esboça para tentar dar conta da problemática da constituição da individualidade humana.

Em sua força ou fragilidades, o marxismo francês é incompreensível sem a figura de Louis Althusser. Filósofo, docente da Escola Normal Superior de Paris, de quem foi ex-aluno, ele exercerá importante influência no cenário intelectual dos anos 1960 e 1970, construindo uma abordagem com repercussão para diversas áreas do conhecimento, como a própria área da educação. Dificilmente aqueles que no Brasil frequentaram as faculdades de educação nos anos de 1980 e 1990 não se viram, em um momento ou outro, diante do debate sobre as funções sociais da escola na sociedade capitalista. Longe de ser neutra, a escola seria um aparelho ideológico do estado, disseminadora da ideologia da classe dominante. Essa questão nos chega de Althusser, que publica, em junho de 1970, no número 151 da revista La Pensée, um famoso artigo sobre a ideologia e o que ele nomina de aparelhos ideológicos de estado, no qual ele inclui a igreja, a família, os sindicatos e outras instituições, entre elas a escola. Esse artigo foi republicado em um livro contendo textos do autor, em 1976 (cf. Althusser, 1976).

O litígio entre Althusser e Lucien Sève — figuras que nutriam amizade um pelo outro, mas sem minorar suas diferenças — se dá no desacordo entre os dois a respeito da interpretação da obra de Marx. Se Lucien Sève projetava pensar com Marx os fundamentos da constituição antropológica humana, Althusser concebia como equivocada qualquer tentativa de fundar em Marx uma perspectiva antropológica. Para Althusser, diz Lucien Sève, "somente a conceptualização rigorosa do materialismo histórico — forças produtivas, relações sociais, contradições de classe, superestruturas e formas de consciência social… — podia ser pertinente" (2015, p. 29). Logo, pois, um projeto de pensar a individualidade humana com base em Marx estaria fadado, desde o início, ao fracasso.

O desacordo entre os dois filósofos marcava, de fato, irredutíveis diferenças de leitura da obra marxiana. Nesse embate crítico, no entanto, Lucien Séve soube tirar dos escritos de Althusser aquilo que avançava em relação à interpretação marxista corrente, especialmente em relação à compreensão de que os escritos do "jovem Marx" não podem ser meramente assimilados aos seus textos da maturidade. Todavia, as diferenças de compreensão entre os dois resta importante. Sève não endossa a ideia de corte epistemológico no pensamento de Marx defendido por Althusser, trazendo uma leitura mais nuançada da questão3. Ele observa, por exemplo, que o tema da alienação — diferentemente do que acredita Althusser — não está restrito às obras da juventude de Marx, como nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, fazendo-se presente e linha mestra de uma obra fundamental como O Capital, publicado por Marx em 1867.

De outra parte, para Lucien Sève, pode-se sim encontrar em Marx um quadro teórico-epistemológico capaz de fundar em bases sólidas a compreensão da individualidade humana. É nesse sentido que Sève fala em uma antropologia marxiana, não no sentido da antropologia como disciplina, mas como estudo da constituição humana. Para Sève, a antropologia marxiana é sobretudo uma antropologia do desenvolvimento humano, visto que se pode encontrar em Marx uma análise na qual a formação social é pensada em conjunto com a formação individual, cuja conexidade entre ambas não é nada simples de ser compreendida. Marx se interessou pela questão, enfatiza Lucien Sève. Ele sublinha que ao longo de sua obra Marx não se desviou em nenhum momento dessa direção, especialmente em O Capital, no qual "se esboça a curva do desenvolvimento completo do indivíduo social, desde as sociedades primitivas, caracterizadas ‘pela imaturidade do homem individual’, até o comunismo, em que se manifesta o ‘indivíduo integral’" (1974, p. 130).

Com essas heranças e munido de uma perspicaz crítica à tradição hegemônica na psicologia e na filosofia marxista, Lucien Sève pode, então, avançar um quadro conceitual para dar conta do objeto de suas reflexões.

Marxismo e teoria da personalidade pode ser considerada uma obra que apresenta o esboço de uma teoria da constituição da individualidade humana4. O primeiro elemento dessa teoria está nas consequências que Lucien Sève tira da obra de Marx, notadamente as Teses sobre Feuerbach, escritas em 1845. Lucien Sève chama a atenção especialmente para a 6ª tese. Nela, ao tratar da noção de essência humana em sua crítica a Feuerbach, Marx escreve: "Feuerbach dissolve a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não é uma abstração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais" (Marx, 2007, p. 534). O que Marx traz aqui não é de modo algum banal e não passa despercebido de Lucien Sève.

Enquanto a tradição filosófica concebia a essência em termos de idealidade presente no interior do ser e reputada a dizer o que, efetivamente, ele é, Marx faz um movimento inverso ao não procurar nada no interior do ser. A tradição grega, por exemplo, indaga sobre o que na idealidade do ser permanece quando tudo muda, ou indaga sobre a substância do ser. Com suas nuanças, a tradição idealista tem uma longa história. Ludwig Feuerbach dá continuidade a essa tradição, no que pergunta por um genérico "homem" e se coloca o problema de pensar o que compreende a sua essência. É assim que, em A essência do cristianismo, texto datado de 1841, Feuerbach se interroga: "Mas qual é então a essência do homem, da qual ele é consciente, ou que realiza o gênero, a própria humanidade do homem? A razão, a vontade, o coração" (Feuerbach, 2007, p. 36). Como veremos, a posição de Marx está no vértice oposto a esse gênero de raciocínio.

Marx não procura nada no interior do ser. Não há que se falar em essência humana como algo inerente ao ser. Para Marx não há nada a ser procurado no interior do ser porque o próprio da humanidade é uma realidade exterior. A esse respeito, Sève acorda especial relevância a um passo fundamental de Marx, a elaboração das teses sobre Feuerbach. Ele sublinha os sentidos expressos por Marx na 6ª tese sobre Feuerbach: "a essência humana não é uma abstração" e não é "intrínseca ao indivíduo isolado"; a essência humana, diz Marx, "é o conjunto das relações sociais" (Marx, 2007, p. 534). Logo, pois, o próprio do humano é externo ao indivíduo, compreendendo uma realidade mediada por técnicas, linguagens, instituições e práticas tecidas na concretude histórica. Esse vasto conjunto de relações sociais congrega o mundo propriamente humano. Ele institui as interfaces comuns entre os membros da espécie, mas, também, em determinado tempo histórico, inscreve relações que opõem os seres humanos uns contra os outros, como nas sociedades capitalistas. É aqui que o tema da alienação ganha importância na obra de Lucien Sève.

Para compreender o tratamento que o autor confere ao tema da alienação, é pertinente citar um dos escritos de Marx que Lucien Sève aprecia muito e ao qual retoma diversas vezes no livro. Trata-se de um trecho da carta que Marx escreve a Annenkov ao término do ano de 1846. Na carta, Marx sumariza os principais resultados de A ideologia alemã, obra escrita entre 1845 e 1846. Tratando da relação entre forças produtivas e história da humanidade, Marx observa que:

[…] toda força produtiva é uma força adquirida, o produto de uma atividade anterior […]. Pelo simples fato que toda geração posterior encontra as forças produtivas adquiridas pela geração anterior, que servem a ela como matéria-prima da nova produção, se forma uma conexidade na história dos homens, se forma uma história da humanidade, que é tanto mais história da humanidade quanto as forças produtivas dos homens e suas relações sociais tiverem crescido. Consequência necessária: a história social dos homens não é senão a história do seu desenvolvimento individual, quer eles tenham disso consciência, quer não a tenham. (Marx, 2019, p. 448)

Na carta destinada a Annenkov, Marx apresenta uma sorte de síntese e consequências de suas aquisições anteriores, as investigações presentes em A ideologia alemã, mas também nela se vê as implicações da 6ª tese sobre Feuerbach: o que é o próprio do ser humano é externo a ele. Disso resulta que nos tornamos efetivamente humanos por um processo de apropriação do mundo social, e cada nova geração — porque "se forma uma conexidade na história dos homens" (Marx, 2019, p. 448) — se defronta com esse fato inescapável, quer os seres humanos tenham consciência disto ou não. Em suma, "a história social dos homens não é senão a história do seu desenvolvimento individual" (Marx, 2019, p. 448).

Ocorre que esse mundo social diz respeito às formas de produção e reprodução social, diz respeito propriamente ao universo científico e técnico da sociedade que integra o trabalhar e seu respectivo processo formativo, mas também ao universo da arte, da literatura e de todo um vasto conjunto de saberes e práticas, aspectos materiais e simbólicos, que integram o patrimônio da humanidade. Em uma sociedade capitalista e, pois, marcada pela clivagem entre classes sociais, o acesso pleno a esse patrimônio humano é reservado a alguns e não a todos. Esse ponto evoca a problemática da alienação em Lucien Sève.

A alienação se apresenta na obra de Lucien Sève em uma linha interpretativa diferente daquela comumente praticada na tradição marxista. Esta última tende a se basear nos assim chamados textos da juventude de Marx, notadamente em um texto não publicado em vida pelo autor alemão, os Manuscritos Econômico-Filosóficos, redigidos em 1844. Para Lucien Sève, nada mais equivocado que isso.

Ele observa que, ainda que se trate de um texto no qual se pode ver figurar a genialidade de Marx, trata-se de um texto ainda especulativo, texto no qual Marx ainda não constituiu base teórica e empírica para fundar sua argumentação. Não é inoportuno fazer notar a esse respeito que Marx está ainda em um momento muito inicial de seus estudos sobre economia política, lendo David Ricardo em segunda mão via Eugène Buret, desconhecendo as implicações da problemática da teoria do valor-trabalho e sem, por conseguinte, distinguir o próprio da sociedade capitalista (cf. Vatin, 2001; Alves, 2022).

Para Sève, à medida que Marx avança em seus estudos e se engaja no movimento dos trabalhadores, sua perspectiva muda ao longo do tempo em relação ao tema da alienação, indo de uma análise especulativa para uma análise fundada em aspectos sociais e históricos, cuja chave está na compreensão da produção objetiva do mundo humano nos distintos tipos de sociedade.

Assim, mantendo a atenção na problemática da alienação e observando que há na obra marxiana importantes transformações ao longo do tempo, Lucien Sève pode se afastar de uma análise fixada na relação direta entre um genérico trabalhador — porque ainda concebido abstratamente — e seu trabalho cujo caractere próprio na sociedade capitalista — é importante enfatizar isso — é naquele momento ignorado por Marx (cf. Alves, 2022). Por conseguinte, não se trata de conceber a alienação como um processo que se opera no trabalho produtivo pessoal, como perda de si ou de autoalienação (selbstentfremdung), termo para Lucien Sève absolutamente confusional e que desaparece nos escritos de O Capital. Em suma, "longe de ser uma abstrata alienação do homem que produz as formas de exploração capitalista, esta última é que dá origem às formas concretas de alienação" (Sève, 1974, p. 64).

A alienação deve, então, ser compreendida de acordo com o sentido que se expressa nas obras da maturidade de Marx: como um processo histórico-social de enorme envergadura, no qual uma classe social expropria a riqueza produzida por outra classe, a dos produtores diretos. O fundamento desse processo está em um ponto cardinal da formação do modo de produção capitalista: a produção de uma clivagem entre o trabalhador e os meios de produção. Vale aqui retomar um trecho dos Grundrisse citado por Lucien Sève, no qual Marx trata explicitamente do que está no fundamento do modo de produção propriamente capitalista e do que isso implica para o conjunto da sociedade:

…processo que separou uma multidão de indivíduos de suas relações afirmativas — de uma maneira ou de outra — anteriores com as condições objetivas do trabalho, que negou essas relações e, dessa maneira, transformou esses indivíduos em trabalhadores livres, esse mesmo processo liberou δῠνᾰμαι [potencialmente] essas condições objetivas do trabalho — território, matéria-prima, meios de subsistência, instrumentos de trabalho, dinheiro ou tudo isso junto — da vinculação anterior com os indivíduos agora delas dissociados. O mesmo processo que contrapõe a massa, na qualidade de trabalhadores livres, às condições objetivas de trabalho […]. (Marx, 2011, p. 669)

Disso resulta que tudo aquilo que é da condição material de existência (habitação, alimentação, saúde…) e produto do gênio humano (ciência, artes, tecnologias…) está, na sua própria base, desigualmente distribuído. Riqueza, material e simbólica, confiscada por uma classe. Logo, pois, do ponto de vista da constituição humana, o capitalismo segue "por meio do mais gigantesco desperdício de desenvolvimento individual (Marx, 2017, p. 126)", conforme uma bela passagem do livro III de O Capital que Lucien Sève aprecia citar.

Concebida por essa perspectiva, a constituição biográfica dos homens e mulheres ganha um fundamento importante na relação entre aspectos micro e macro, consubstanciada numa ancoragem teórica que estabelece mediação entre os aspectos estruturais de nossa sociedade e a formação da individualidade. A análise da constituição biográfica não se faz, a partir daqui, sem uma leitura crítica da sociedade. Resta, porém, compreender os modos de constituição biográfica da individualidade, cuja expressão é a personalidade. Nesse ponto se apresentam dois conceitos importantes em Marxismo e teoria da personalidade: o conceito de emprego do tempo e o conceito de ato.

O tempo — diz Marx (2010) novamente em uma passagem que Lucien Sève retoma diversas vezes — é o campo do desenvolvimento humano. Pensar a constituição da personalidade não pode ser, portanto, uma empreitada que desconsidere o tempo ou que o fixe em um esquema de análise não dialético, sem dinâmica. Sève pontua que a biografia se constitui no tempo, que ela é consubstanciada no tempo ao longo de uma vida, e que é preciso estudar a atividade da pessoa para que se possa efetivamente compreender sua constituição biográfica. Há nesse domínio uma dialética entre o indivíduo e o mundo social, e a dinâmica interna desse percurso formativo é, justamente, o que visa alcançar o conceito de emprego do tempo. Ele é a "infraestrutura real da personalidade desenvolvida" (p. 306), "sistema de relações temporais entre as diversas categorias objetivas da atividade de um indivíduo" (Sève, 1974, p. 307). Mas, para dar consequências teóricas e práticas ao que propõe o conceito de emprego do tempo, é preciso agregar outro, o de ato.

Antes de mais nada, diz Sève, "conhecer concretamente uma personalidade é, sobretudo, conhecer o conjunto de atos de sua biografia" (1974, p. 286). Os atos, segundo o autor, são o recurso mais pertinente para a delimitação teórica da biografia, matéria extensa, espraiada no tempo e de difícil delimitação. Diferentemente das noções de comportamento ou de conduta, noções correntes no âmbito da psicologia e esvaziadas de conteúdo social, o conceito de ato é preenchido por conteúdo social — seguir para a escola, ir ao trabalho, não ir porque se vai fazer greve… — em uma relação dialética de implicações recíprocas entre o indivíduo e o mundo social (humanidade objetiva).

Em surdina, como se nota, o autor recorre a uma importante aquisição de Marx: homens e mulheres produzem o mundo e agem sobre ele, transformando-se nesse processo. Em seus escritos subsequentes Lucien Sève voltará a esse tema, especialmente na tetralogia Penser avec Marx aujourd'hui, conforme será discutido a seguir.

PENSAR COM MARX HOJE (2004 A 2021)

Publicada em quatro tomos entre 2004 e 2021, Penser avec Marx aujourd'hui é a obra magna de Lucien Sève. Em seu conjunto, essas publicações representam um convite a se retomar a obra de Marx — afinal, em suas várias versões, o marxismo dela se desserviu como dela se serviu — e, sobretudo, a pensar com Marx. Dizer que o marxismo se desserviu parece excessivo, mas esse é o espírito que Lucien Sève emprega em sua crítica. Para ele, parte da tradição marxista restou abaixo das aquisições de Marx, não acompanhando o melhor de seu pensamento.

Quanto à obra marxiana há deturpações aberrantes, como em Stálin, mas os problemas teóricos e práticos se contam em multidão. Sève não hesita em pontuá-los e debatê-los. A ideia corrente de que Marx não é um autor que considera o indivíduo, por exemplo, não é obra de nenhum autor liberal, embora autores, liberais ou não, possam endossar tal ideia5. Trata-se, antes, de uma concepção que se vulgariza do lado do próprio marxismo, alimentada, entre outros, por Althusser e seus epígonos.

Todavia, Penser avec Marx aujourd'hui não se resume a uma acurada análise crítica do marxismo. É também a obra em que Lucien Sève retoma suas aquisições teóricas em Marxismo e teoria da personalidade e em produções subsequentes, examinando o alcance do que foi desenvolvido e as objeções que lhe foram feitas. É igualmente a publicação na qual a concepção antropológica marxiana ganha maior densidade em seus escritos. A compreensão do processo de constituição biográfica dos homens e mulheres alcança, então, um novo patamar nas elaborações do autor. Para isso concorre seu crescente interesse pela obra de um psicólogo bielorrusso, notável conhecedor da obra de Marx, em relação à qual Lucien Sève identifica inúmeras convergências: Lev S. Vygotski (1896–1934).

Até os anos 1970 Vygotski era pouco conhecido na França. Sua mais importante obra, Pensamento e linguagem, somente terá seu texto integral publicado em 1985. O livro em sua versão integral foi traduzido para o francês por Françoise Sève, esposa de Lucien Sève, que possuía formação acadêmica especializada na língua russa. O livro original em russo foi emprestado por Alexis Leontiev, que era francófono, na ocasião de uma viagem do casal Sève à Moscou ao final dos anos 1970.

Vygotski era, assim, completamente desconhecido por Lucien Sève quando, nos anos 1960, este redige Marxismo e teoria da personalidade. Não deixa, então, de ser surpreendente que na compreensão das mediações entre sociedade e indivíduo, ambos tenham retido pontos semelhantes da obra de Marx e empenhado, sobre este aspecto, especial atenção à lógica dialética presente naqueles textos. Como vimos na seção anterior, Lucien Sève vai conferir singular importância à 6ª tese sobre Feuerbach — recordemos: "a essência humana não é uma abstração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais" (Marx, 2007, p. 534). Quarenta anos antes de Lucien Sève, Vygotski não fazia o contrário. Por volta de 1928-1931, ele podia assim escrever:

Modificando uma tese conhecida de Marx, nós podemos dizer que a natureza psíquica do homem representa o conjunto das relações sociais, transpostas para o interior em funções da personalidade e formas de sua estrutura. Nós não desejamos dizer que este é o sentido preciso da tese de Marx, mas vemos nela a expressão mais completa de tudo isso que nos conduz à história do desenvolvimento cultural. (Vygotski, 2004, p. 287)

Sève conta que se deparar com esses escritos de Vygotski foi para ele uma grata surpresa. Em suas palavras: "Não foi sem emoção que, me propondo a ler o texto do capítulo cinco de Histoire du développement des fonctions psychiques supérieures, eu descobri essa passagem" (Sève, 2002, p. 260). A "tese conhecida de Marx", mencionada por Vygotski, não é outra que a 6ª tese sobre Feuerbach, tese essa que, como vimos, havia assumido lugar cardinal em Marxismo e teoria da personalidade.

Não se trata apenas do encontro de referências comuns entre os dois autores, mas da partilha da mesma compreensão dialética do que está no fundamento das relações entre o mundo humano e a constituição da individualidade. É a obra de Marx que lega, para os dois autores, as bases para essa compreensão. Sem ela, as formulações teóricas se tornam incompreensíveis. Passagens geniais, como de um texto no qual Vygotski (2004, p. 236) argutamente observa que "[o] individual no homem não é o contrário do social, mas sua forma superior", passagem essa com franca afinidade com o trecho já citado da carta de Marx a Annenkov, não conseguem produzir sentido para quem as lê sem referência ao aporte marxiano. É Marx que instrui, no sentido próprio dessa palavra, ambos os autores na compreensão do caractere próprio da humanidade. Em seu conjunto, este é precisamente o aspecto que corresponde à antropologia teórica presente na obra marxiana, aspecto cardinal ao longo da obra de Lucien Sève.

Em Penser avec Marx aujourd'hui, Lucien Sève retoma em detalhe a questão. Ele aponta cinco conceitos antropológicos fundamentais na obra de Marx. Esses conceitos interessam muito, pois são essenciais para a compreensão do processo de constituição humana dos indivíduos. Vejamos cada um deles a seguir.

Atividade: em alemão Tätigkeit, a atividade deve ser compreendida como atividade produtiva,6 isto é, que se orienta em direção a um Tun, um fazer, um instituir de algo no mundo. "Mais do que Práxis", diz Sève, a Tätigkeit "inscreve imediatamente no agir uma produção material ou espiritual que é, por sua vez, produção de um objeto e simultaneamente autoprodução do sujeito em suas relações ativas com os outros" (2008, p. 81). Lucien Sève mostra que o termo Práxis vai praticamente desaparecer da obra marxiana após 1845. O termo que Marx vai conservar para tratar do que está no escopo dessas questões é o de Tätigkeit, o mesmo que nas décadas iniciais do século XX estará na base de importantes desenvolvimentos na psicologia soviética7.

Mediação: a atividade demanda ser pensada em conjunto com seus mediadores. Em alemão Vermittlung, a mediação — pelo instrumento ou pelo signo —– compreende aspecto cardinal na constituição e na definição do que é próprio ao ser humano. Na relação entre o trabalhador e o objeto de trabalho, o meio de trabalho, terceiro termo dos componentes do processo de trabalho, ocupa um papel mediador. Ele é objetal e subjetal. O meio de trabalho é simultaneamente objetal — isto é, "uma coisa ou um complexo de coisas" (Marx, 2017, p. 256) — e subjetal — se tornando "órgão" que o trabalhador "acrescenta aos seus próprios órgãos corporais, prolongando sua forma natural…" (Marx, 2017, p. 256). A questão que envolve saber o que há de inédito nas atividades especificamente humanas ganha aqui um elemento de fundamental importância. Lucien Sève assinala a importância e o limite da obra de Marx sobre o tema, bem como a genialidade de Vygotski ao identificar o ponto essencial avançado por Marx:

Embora a obra marxiana (e engelsiana) contenha indicações estimulantes sobre a linguagem […], o único mediador das atividades humanas que Marx investe em uma análise aprofundada, ainda hoje ricamente sugestiva, é o meio de trabalho. Este ponto é um dos limites marcantes dessa obra quando lida reduzindo-a ao que nela está escrito. No entanto, como mostrou Vygotski, a reflexão marxiana sobre o instrumento constitui um pertinente ponto de partida para estudar as lógicas tão próximas quanto diferentes que são as do signo. Instrumento e signo, tomados em seu sentido mais genérico e em sua estreita cooperação não exclusiva de autonomia: estão nesse domínio dos modos decisivos de mediação que conferem especificidade às atividades propriamente humanas. (Sève, 2008, p. 95)

Reter o caractere próprio ao humano envolve, portanto, bem compreender que a atividade propriamente humana é mediatizada. Trata-se, fundamentalmente, de "atividades mediatizadas, e a cumulatividade histórica desse terceiro termo que implica essa mediação (Vermittlung) é o segredo de seu possível desenvolvimento exponencial" (Sève, 2008, p. 95).

Objetivação ou objetalização: em alemão Vergegenständlichung, diz respeito à produção social cumulativa dos elementos mediadores. "A inovação histórica capital por meio do qual a humanidade pouco a pouco saiu de sua animalidade", aponta Sève (2008, p. 98), situa-se "na dimensão que adquire a Vergegenständlichung da atividade — objetivação ou objetalização, conforme o caso — então que esta recorre de maneira sistemática a mediadores para melhor atingir seus fins" (Sève, 2008, p. 98). Ocorre que, "sendo objetivos, esses mediadores podem subsistir como tais, assim como seus produtos, para além das atividades subjetivas que os engendraram, resservindo para atividades novas onde se aperfeiçoam e se multiplicam" (Sève, 2008, p. 98). Este aspecto enceta a constituição cumulativa de um mundo propriamente humano. "Mundo de objetalizações físicas: ferramentas, paisagens, registros, equipamentos, instituições… e de objetivações simbólicas: linguagens, usos, saberes, imaginários, normas…" (Sève, 2008, p. 98).

Apropriação: em alemão Aneignung, diz respeito ao modo singular pelo qual os indivíduos, fazendo seu o mundo humano, se hominizam. "Altamente característico da humanidade desenvolvida, a Aneignung é produtora de efeitos antropológicos maiores" (Sève, 2008, p. 107). Ela é no ser humano radicalmente diferente do desenvolvimento dos demais animais, este último "consiste na maturação de funções psíquicas naturais específicas, de modo mais ou menos alargado pelas aprendizagens do meio: as funções nascem de dentro e se condicionam de fora" (Sève, 2008, p. 107), ao passo que "no pequeno ser humano essa lógica não é ausente no início, porém um destaque capital começa logo de partida a intervir: a entrada em relação com o psíquico socialmente objetivizado onde se manifestam não mais funções naturais, mas histórico-sociais" (Sève, 2008, p. 107). Aspecto crucial: "a aprendizagem não vem mais a condicionar de fora as funções já dadas do interior, mas a suscitar no interior a apropriação construtiva de funções socialmente externalizadas" (Sève, 2008, p. 107). Esse importante traço da humanidade integra, em sua base, a constituição dos processos biográficos e transfigura em indivíduos humanos socializados os vertebrados superiores que eles eram no início.

Alienação: em alemão Entfremdung, remete ao drama fundamental da vida humana nas sociedades de classes. A infinita singularidade psíquica e a infinita singularidade biográfica de cada um não excluem — a questão é eminentemente dialética — a sobredeterminação massiva das relações sociais cuja generalidade se impõe a todos. Não se trata, portanto, de optar por pensar as singularidades do indivíduo ou a generalidade das relações sociais. Ambas devem ser pensadas em conjunto e em contradição. Trata-se, para usar os termos de Fausto (1987), filósofo brasileiro que talvez tenha sido aquele que mais longe levou o debate sobre a dialética, de pensar a relação entre o posto e o pressuposto. A posição do biográfico pressupõe o conjunto das relações sociais, e esta última afeta a primeira.

Assim, em toda sociedade de classes, "a imensa maioria dos humanos passam a vida a trabalhar sem poderem se apropriar grande coisa das formas elevadas da humanitas. Como escreve Marx nos Grundrisse, desenvolvimento histórico, desenvolvimento político, arte, ciência, etc. movem-se acima deles nas altas esferas" (Sève, 2008, p. 109, grifo do autor). Isto quer dizer que homens e mulheres em nossa sociedade não podem se apropriar da massa de criações coletivas da qual eles mesmos são, em diferentes níveis, os próprios autores, "confiscação por uma classe estrangeira posicionalmente hostil aos seus interesses vitais" (Sève, 2008, p. 505, grifo do autor).

Como se pode depreender desses cinco conceitos descritos, a perspectiva de Marx é de decisiva originalidade e aporta uma contribuição incontornável para a compreensão do que constitui os seres humanos como tais, mas também do que se interpõe como barreira para essa constituição efetiva em nosso modo societal. Nesse sentido bastante preciso, com Lucien Sève se pode dizer que a alienação é também uma "frustração dos possíveis" (Sève, 2012, p. 35).

APONTAMENTOS FINAIS

Há alguns anos, em um congresso sobre formação de professores, Charlot (2003) dizia ao público presente que o ser humano somente se produz como tal em sua forma singular e socializada; "não é um terceiro homem, um terceiro social, um terceiro singular, ele é totalmente humano, totalmente social, totalmente singular (100% + 100% + 100% = 100%)". Em suma, em se tratando de ser humano, somando tudo não temos 300%, mas 100%. Não reside aí a dificuldade de se compreender o biográfico? Como vimos ao longo deste texto, a questão não é simples.

Um percurso biográfico é a inscrição no tempo do processo de constituição da individualidade humana. Nesse ponto, tanto uma perspectiva analítica excessivamente aderente ao indivíduo como uma perspectiva que, no vértice oposto, conduza à sua secundarização não conseguem dar conta do problema com o qual se defrontam. A obra de Lucien Sève aporta contribuições importantes nesse domínio. Para ele, a individualidade humana, sua forma e constituição, deve ser estudada e seriamente considerada pela filosofia e pelas ciências. Por outro lado, sua posição é de que não se deve economizar esforços na compreensão de suas determinações. De certo modo, sua obra é uma acurada reflexão sobre as determinações da constituição humana em nosso modelo societal.

Robusta em sua fundamentação teórica, a obra de Lucien Sève nos lega apenas alguns indicativos metodológicos a respeito da investigação da constituição biográfica da individualidade humana. A questão propriamente metodológica não foi o alvo principal das preocupações do autor. Este é um aspecto em aberto na obra e à espera de ser trabalhado.

Uma iniciativa nessa direção certamente envolve analisar as aquisições metodológicas do campo de pesquisas e estudos biográficos que se desenvolve desde os anos 1980, notadamente em relação ao importante lugar que eles concedem às narrativas e os modos de apreensão do que é narrado. Outra linha de ação envolve cruzar as contribuições de Lucien Sève com estudos e pesquisas que, atentas ao percurso biográfico dos sujeitos, buscam se valer de uma "investigação dialógica" (cf. Breton e Cunha, 2019, p. 63) para compreender suas experiências de vida e trabalho. Uma via bastante promissora que toca em diversas tradições de abordagens a respeito da relação entre trabalho e saber, de Paulo Freire às inovações de Ivar Oddone e sua equipe (cf. Oddone, Re e Briante, 1981) na Fiat de Turim nas décadas de 1960 e 1970.

Lucien Sève faleceu na França em março de 2020, aos 93 anos, vitimado pela COVID-19. Deixa uma extensa obra cuja profundidade e originalidade do pensamento ainda estamos longe de apreender integralmente. Ele faz parte de um raro universo de filósofos, como é também o caso de Yves Schwartz (cf. 1988; 2010; 2011), que abordam o trabalho e, mais amplamente, o mundo humano, com base na problemática legada pelo conceito de atividade (Tätigkeit). Ancoragem essa plena de consequências teóricas, epistemológicas e políticas quando o que está em jogo é a experiência dos homens e mulheres no trabalho.

  • 1
    O livro Marxismo e teoria da personalidade — no título original Marxisme et théorie de la personnalité, com primeira edição publicada em Paris pelas Éditions Sociales em 1969 (Sève, 1974) — foi publicado em língua portuguesa em Lisboa, em 1979. Iniciada em 1965, a referida obra deriva de um longo trabalho de elaboração por parte de Lucien Sève e integra um pequeno grupo de publicações do autor em língua portuguesa, quase todas em Portugal. Em 1989, em uma coletânea organizada por Paulo Silveira e Bernard Doray, foi publicado no Brasil o texto A personalidade em gestação (Sève, 1989). Nenhuma obra individual de Lucien Sève foi publicada no Brasil, com exceção do opúsculo Análises marxistas da alienação, publicado em São Paulo pela editora Mandacaru em (Sève, 1990), tendo como base a edição portuguesa do referido texto.
  • 2
    Em linhas gerais, Lucien Sève compreende como problemático o peso que a psicanálise confere às determinações da infância para a vida adulta, bem como compreende que nela está implícita a ideia de uma "natureza humana", perante a qual se torna difícil mediar as relações entre indivíduo e sociedade. A esse respeito, ver uma publicação coletiva organizada por Lucien Sève especialmente dedicada ao tema: Sève, Bruno e Clément (1974).
  • 3
    Uma análise do debate marxista no referido período pode ser vista em Alves (2021). Para uma análise do percurso histórico da problemática que envolve os Manuscritos de 1844, ver Musto (2019).
  • 4
    Este também foi o intuito de um importante autor brasileiro, Newton Duarte, que defendeu sua tese de doutorado em 1992, tratando, exatamente, do problema da constituição da individualidade humana. Intitulada A formação do indivíduo e a objetivação do gênero humano, a pesquisa busca pensar a formação do indivíduo tendo como base as mediações histórico-sociais que o determinam, cuja fundamentação o autor busca na tradição marxista. A tese percorre diversos pontos que Lucien Sève já havia desenvolvido sobre o mesmo tema ainda nos anos 1960. Nas referências consta uma única publicação de Lucien Sève, o texto Personalidade em gestação (Sève, 1989), leitura do qual o autor infelizmente não tira consequências maiores. Em 1993, a tese de Newton Duarte foi publicada em livro (Duarte, 1993).
  • 5
    Assim, em um livro sobre metodologia qualitativa na sociologia, livro que teve mais dez edições e compôs a formação de muitas e muitos estudantes de ciências sociais no Brasil, podia-se ler que "[a]ntes de proceder à discussão, cabe aqui a discussão entre a teoria de Marx — ou teoria marxiana — e/ou as teorias marxistas — dos seguidores de Marx. Parece-nos evidente que a primeira considera o indivíduo e o pequeno grupo como irrelevantes. O mundo de Marx não é um mundo de indivíduos e de significados individuais, mas um mundo de classes" (Haguette, 2000, p. 212).
  • 6
    Não confundir com o conceito marxiano de trabalho produtivo no processo de trabalho capitalista.
  • 7
    Uma discussão substantiva sobre a dupla Práxis-Tätigkeit não pode ser feita nos limites deste artigo. Sobre um aprofundamento da posição do autor sobre o tema da Práxis, cf. Sève (1980). Sobre a problemática que envolve a dupla Práxis-Poiesis, cf. Markus e Bidet (1991).
  • Financiamento:
    O estudo não recebeu financiamento.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    02 Maio 2023
  • Revisado
    08 Mar 2024
  • Aceito
    12 Mar 2024
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