RESUMO
O artigo utiliza a análise de correspondências múltiplas (ACM) — método estatístico empregado por Bourdieu como extensão da análise sociológica — para investigar as relações entre capitais culturais e econômicos e os índices de desempenho dos participantes do ENEM de 2022. O objetivo foi compreender em que medida esse exame contribui para a reprodução/redução das desigualdades sociais. Tomando como recorte o estado de Alagoas, os resultados revelam haver reprodução das desigualdades de acesso ao capital cultural institucionalizado que pode ser convertido em acesso ao ensino superior por meio do Sistema de Seleção Unificada (SISU). Mais especificamente, há forte correlação entre perfis socioculturais dos pais, local de residência e notas no exame. É destacada a necessidade de intervenções culturais estatais abrangentes e duradouras que envolvam não apenas os jovens e a escola, mas também a família e o ambiente social desses estudantes.
Palavras-chave:
Exame Nacional do Ensino Médio; Capital Cultural; Reprodução Social; Ensino Superior
ABSTRACT
The article uses multiple correspondence analysis (MCA) — a statistical method employed by Bourdieu as an extension of sociological analysis — to investigate the relationships between cultural and economic capital and the performance indices of the 2022 ENEM participants. The objective was to understand to what extent this examination contributes to the reproduction/reduction of social inequalities. Taking the state of Alagoas as a clipping, the results reveal that there is a reproduction of inequalities in access to institutionalized cultural capital that can be converted into access to higher education through the Unified Selection System (Sistema de Seleção Unificada — SISU). More specifically, there is a strong correlation between parents’ sociocultural profiles, place of residence, and exam scores. The need for comprehensive and lasting state cultural interventions that involve not only young people and the school, but also the families and social environment of these students is highlighted.
Keywords:
National High School Exam; Cultural Capital; Social Reproduction; Higher Education
RESUMEN
El artículo utiliza el Análisis de Correspondencias Múltiples (MCA) — método estadístico empleado por Bourdieu como extensión del análisis sociológico — para investigar las relaciones entre el capital cultural y económico y los índices de desempeño de los participantes del ENEM 2022. El objetivo fue comprender en qué medida este examen contribuye a la reproducción/reducción de las desigualdades sociales. Tomando como recorte el estado de Alagoas, los resultados revelan que existe una reproducción de las desigualdades en el acceso al capital cultural institucionalizado que puede ser convertida en acceso a la educación superior a través del SISU. Más específicamente, existe una fuerte correlación entre los perfiles socioculturales de los padres, el lugar de residencia y los puntajes de los exámenes. Se destaca la necesidad de intervenciones culturales estatales integrales y duraderas que involucren no solo a los jóvenes y a la escuela, sino también a las familias y al entorno social de estos estudiantes.
Palabras clave:
Examen Nacional de Educación Secundaria; Capital Cultural; Reproducción Social; Enseñanza Superior
INTRODUÇÃO
Durante muito tempo a educação formal foi concebida como um instrumento infalível de ascensão social, apresentando a escolarização como uma solução para os problemas das desigualdades socioeconômicas. A escola pública, gratuita, democrática e meritocrática parecia desempenhar seu papel como uma instituição imparcial, assegurando a todos igualdade de oportunidades educacionais (Nogueira e Nogueira, 2002). Essa concepção esteve presente nas perspectivas funcionalistas e evolucionistas, notavelmente influenciadas pelas ideias de Émile Durkheim (1858–1917). Contudo, as teorias críticas e reprodutivas contestaram essa concepção.
Os sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (2016; 2018), em A reprodução (1970) e Os herdeiros (1964), ao analisarem a educação formal francesa, identificaram contradições inerentes ao sistema de ensino e sua alegada neutralidade, que supostamente garantiria uma educação acessível e igualitária a todos. Suas análises permitiram-lhes inferir que, em vez de promover igualdade e transformações sociais, a escola francesa perpetuava as desigualdades e legitimava os privilégios sociais (Nogueira e Nogueira, 2002).
Assim, para Bourdieu (2015a), o modelo de ensino analisado acabava por perpetuar as desigualdades sociais. Ao buscar explicar a reprodução social por meio do sistema de ensino, ele demonstrou como certas classes sociais apresentavam desempenhos superiores em relação a outras. Isso foi explicado pelo exame dos tipos de conhecimentos e disposições para certas práticas sociais que os estudantes já haviam adquirido em ambientes externos à escola, em contraste com os conhecimentos valorizados e desvalorizados pelo sistema escolar.
O desvendamento das reproduções sociais por meio da educação tem orientado uma série de esforços para mitigar esse problema. No Brasil, mais recentemente, em 2009, observou-se a integração entre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o Sistema de Seleção Unificada (SISU), juntamente com a adesão à lei n. 12.711/2012, que estabeleceu cotas a grupos historicamente desprivilegiados. Essas iniciativas foram destinadas a promover maior democratização do ensino no país (Oliveira, 2015; Lourenço, 2016). Desde então, o ENEM tem sido reconhecido como um dos principais meios de acesso ao ensino superior no Brasil. Segundo o Inep (2022a), na edição de 2022, 3.396.632 brasileiros se inscreveram para participar do exame, e, em 2023, 1.073.024 se inscreveram no SISU para concorrer a vagas em universidades públicas com base nos resultados do ENEM (Brasil, 2023a).
Oliveira (2015) argumenta que o ENEM pode ter desempenhado um papel significativo na inclusão das classes menos favorecidas no ensino superior, em parte por conta do tipo de questões utilizadas nos exames, que se concentram no raciocínio lógico e interpretação. Isso possibilita melhor desempenho para estudantes que não tiveram uma formação básica mais abrangente. No entanto, é importante considerar também o aumento da oferta de vagas no ensino superior nos últimos anos, bem como a adoção do exame como parte das ações afirmativas da Lei de Cotas, como fatores que podem ter contribuído para a acessibilidade.
Oliveira (2015) destaca que todas as políticas destinadas a democratizar o ensino superior devem incluir medidas para melhorar a educação básica e garantir um processo mais equitativo. Além disso, ele ressalta que simplesmente ampliar o acesso ao ensino superior na etapa de seleção não é eficaz, pois isso mantém as mesmas desigualdades estruturadas na formação básica dos estudantes.
Apesar de o SISU levar em consideração a realidade social dos seus participantes ao implementar o sistema de cotas, a seleção para o ensino superior ainda pode estar perpetuando as desigualdades sociais educacionais, resultando na concentração de estudantes em melhores condições socioeconômicas nos cursos relacionados às profissões com maior prestígio social e econômico. Assim, é crucial realizar avaliações constantes e diferenciadas, um esforço que estamos empreendendo neste artigo. Não pretendemos afirmar se o ENEM é importante ou não, mas sim destacar aspectos que possam orientar o seu aprimoramento.
Diversas pesquisas, com abordagens e metodologias distintas, identificaram correlações entre o desempenho dos estudantes no ENEM. Por exemplo, Silva et al. (2020) encontraram uma relação entre desempenhos mais baixos e frequência à rede estadual de ensino, assim como baixa renda familiar, enquanto desempenhos mais elevados foram associados à frequência em rede privada e federal de ensino, junto com renda familiar mais alta. Torres et al. (2020) demonstraram, por meio de modelagem de regressão, uma relação entre bom desempenho no ENEM de 2017 por parte de estudantes de escolas privadas do Rio Grande do Sul e melhores condições socioeconômicas familiares. Souza et al. (2022), ao explorarem dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) referentes ao ENEM aplicados no nordeste entre 2015 e 2019, observaram que a escolaridade dos pais, o tipo de escola e o acesso a ferramentas como celular, computador e internet foram fatores determinantes para bons resultados no exame. Jaloto e Primi (2021) constataram associação positiva entre melhor desempenho no ENEM de 2018 e frequência a escolas privadas, além de correlação significativa entre indicadores socioeconômicos favoráveis e notas mais altas; o que também concluíram Carmo, Heckler e Carvalho (2021) ao examinarem as 5% melhores e piores notas dos estudantes do Rio Grande do Sul na edição de 2019. Nessa mesma edição, Faillace, Britto e Costa (2023) também identificaram correlações entre perfis socioeconômicos e desempenho. Rocha et al. (2022), explorando os microdados de desempenho da Região Nordeste da área de matemática e suas tecnologias do ENEM, nos anos de 2017 a 2019, identificaram essas mesmas correlações. No entanto, nenhum desses estudos adotou uma abordagem multifatorial para investigar as correlações entre capitais culturais e econômicos com os resultados no exame, esforço que empreendemos nesta pesquisa.
Neste artigo, apresentamos os resultados de análises multifatoriais (ou análise de correspondência múltipla) de variáveis coletadas nos microdados do ENEM de 2022. Para melhor operacionalizar os dados e por algumas peculiaridades, realizamos um recorte espacial delimitado ao estado de Alagoas. Nosso objetivo foi analisar as correlações entre o desempenho na avaliação e o capital cultural e econômico dos participantes, bem como compreender as oportunidades de acesso dos indivíduos aos cursos de ensino superior por meio do SISU-2023. Para isso, confrontamos com as notas de cortes dos cursos oferecidos pela Universidade Federal de Alagoas. É importante ressaltar que o desempenho no ENEM é medido por uma nota, que pode ser utilizada pelo estudante para acessar o ensino superior por meio do SISU, dependendo da sua avaliação. Essa nota pode ser posteriormente convertida em ganhos sociais e econômicos. As cotas tornam essa conversão um pouco mais provável, embora também dependa da nota obtida no exame. Detalharemos mais adiante esse sistema de conversão entre nota, acesso ao ensino superior e ascensão social.
O aporte teórico-metodológico adotado se baseia em contribuições de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (2018), mais especificamente em suas análises de correspondências múltiplas (ACM)1 e reflexões teóricas em torno do sistema de reprodução social observado no exame do sistema educacional francês.
A ACM é um método estatístico que foi amplamente utilizado por Bourdieu em suas análises sociológicas por sua capacidade de avaliar correlações de efeitos múltiplos que ocorrem simultaneamente. A ACM permite "representar visualmente as relações entre as modalidades de variáveis categóricas por meio de proximidades e distâncias relativas em um espaço cartesiano de duas dimensões" (Bertoncelo, 2022, p. 24).
A importância desta pesquisa está em examinar se o ENEM pode promover a ascensão social das classes menos favorecidas ao proporcionar melhores condições de acesso ao ensino superior, ou se, ao negar esse acesso, perpetua as desigualdades sociais existentes. Embora se trate de um exame limitado ao estado de Alagoas, os resultados nos permitem refletir sobre os impactos do ENEM e do SISU sobre as condições culturais dos estudantes que permitam proporcionar ou não a redução das desigualdades sociais.
Além desta introdução e das considerações finais, este artigo está estruturado em duas seções distintas. A primeira seção é dedicada à fundamentação teórico-metodológica, na qual realizamos uma breve exposição da perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu com relação à educação, junto com algumas reflexões preliminares sobre o ENEM. Fazemos isso com o intuito de orientar as análises que serão apresentadas na última seção. Nesta mesma seção, também descrevemos os procedimentos metodológicos empregados na pesquisa. Na segunda seção, apresentaremos os resultados obtidos e as reflexões sociológicas que esses dados nos permitiram realizar.
PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
Nesta seção, apresentaremos as orientações teórico-metodológicas que guiam nossa coleta, sistematização e análises dos dados, fundamentadas na teoria disposicionalista de Bourdieu. Partimos do pressuposto de que os agentes sociais adquirem, ao longo de seus processos de socialização, disposições sociais com relação a práticas, gostos, valores, crenças e sentimentos. Essas disposições são moldadas por socializações diferenciadas, resultando em características específicas que são mais ou menos valorizadas socialmente, um critério arbitrariamente definido pela classe dominante. Nesse contexto, essa classe tende a privilegiar suas próprias disposições, ao passo que menospreza aquelas adotadas pelas classes trabalhadoras.
Bourdieu (2015b) introduz o conceito de capital cultural para descrever essas disposições sociais adquiridas no contexto da origem social dos estudantes, as quais determinam seu acesso a uma variedade de benefícios dentro do ambiente escolar. Esse conceito, denominado capital cultural, será fundamental para explicar o processo de reprodução e legitimação das desigualdades por meio da instituição educacional. O conceito de capital cultural é utilizado para designar as disposições culturais incorporadas e de relação com os bens de cultura considerados "legítimos" pela classe dominante. Neste contexto, adotamos os três estados de capital cultural propostos por Bourdieu (2015b): o capital incorporado, objetivado e institucionalizado.
No estado incorporado, o capital cultural se revela por meio das características duráveis do organismo e não pode ser transferido imediatamente; é transmitido hereditariamente de forma dissimulada. Ele só pode ser acumulado ao longo do tempo pelo próprio indivíduo e consiste no conjunto de práticas incorporadas. Esse tipo de capital molda a percepção do mundo pelo agente e a sua própria percepção dentro dele, influenciando suas formas de agir.2 Esse capital é adquirido por meio do contato com espaços sociais nos quais ele está presente, como escolas, teatros, museus, entre outros.
No estado objetivado, o capital cultural se expressa pela posse de bens culturais, como escritos, pinturas, monumentos, entre outros, que podem ser transferidos entre indivíduos, mas que requerem a posse prévia de capitais culturais incorporados para sua utilização e valorização adequadas. A posse de um conjunto de obras de arte não apenas reflete o poder econômico do proprietário, mas também confere um valor simbólico por meio da posse de objetos que podem ou não fazer parte do repertório de manifestações artísticas valorizadas por uma classe dominante (Bourdieu, 2015b).
No estado institucionalizado, o capital cultural se manifesta por meio dos diplomas, os quais são valorizados como certificados de competências culturais, conferindo ao portador um valor convencional, estável e legalmente garantido (Bourdieu, 2015b). Esse capital cultural institucionalizado transforma o capital econômico em capital cultural por meio do mercado de trabalho e está associado, pelo menos em parte, à garantia de um retorno mínimo dos recursos investidos na trajetória educacional, tornando essa garantia o principal impulsionador desse investimento (Bourdieu, 2015b).
Além do capital cultural, Bourdieu também desenvolve o conceito de capital econômico, compreendido como bens materiais e simbólicos de valor monetário, incluindo a moeda. De acordo com Bourdieu, o capital cultural pode, em determinadas circunstâncias, ser transformado em capital econômico. Observando nosso objeto empírico, notamos que em alguns casos os agentes sociais buscam ascensão social por meio do capital cultural, que posteriormente seria convertido em capital econômico. Nessas trocas, os capitais culturais institucionalizados têm valores desiguais no mercado econômico. Por exemplo, alguns diplomas de cursos superiores têm uma conversão mais fácil em capital econômico (renda) do que outros, o que explica as diferenças nas disputas por vagas nos cursos e, consequentemente, na nota de corte. Em termos empíricos, o ENEM, por exemplo, representa uma forma de adquirir uma nota (capital cultural institucionalizado) que é usada como uma "moeda de troca" nas seleções para ingresso em cursos superiores (também um capital institucionalizado), onde os indivíduos podem adquirir capital cultural na expectativa de alcançar o capital cultural objetivado (o diploma) e, posteriormente, convertê-lo em capital econômico.
Assim,
A noção de capital cultural impôs-se, primeiramente, como uma hipótese indispensável para dar conta da desigualdade de desempenho escolar de crianças provenientes das diferentes classes sociais, relacionando o "sucesso escolar", ou seja, os benefícios que as crianças das diferentes classes e frações de classe podem obter no mercado escolar, à distribuição do capital cultural entre as classes e frações de classe (Bourdieu, 2015b, p. 81).
Nosso objetivo é examinar se o ENEM reduz ou reproduz as desigualdades de acesso ao ensino superior por meio da obtenção do capital cultural institucionalizado, representado pela pontuação alcançada no exame, e sua aplicação na competição pelo acesso às vagas nas instituições públicas de ensino superior. Para nossos testes, utilizamos as notas de corte da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).3
Esse processo ocorre no contexto de relações competitivas, especialmente entre diferentes classes sociais, uma vez que o valor desse capital cultural depende de sua escassez. Por essa razão, é comum observarmos grupos sociais historicamente privilegiados se posicionando contra a implementação de políticas de cotas nas universidades públicas. Assim, há uma constante luta entre os agentes pela conservação ou mudança de sua posição dentro do espaço social em que estão inseridos (Bourdieu, 2008).
Bourdieu (2015a) enfatiza que a influência do capital cultural no sucesso escolar da criança pode ser compreendida com base no conjunto dos capitais culturais presentes em sua família, abrangendo não apenas os elementos primários, mas toda a extensão do seu contexto familiar. Esses capitais culturais herdados conferem uma série de vantagens aos filhos das classes mais privilegiadas (Bourdieu, 2015a). Além disso, Bourdieu (2015a) argumenta que um sistema educacional que demanda dos estudantes uma série de capitais culturais essenciais para o desenvolvimento de suas habilidades acadêmicas só pode funcionar eficientemente se todos tiverem acesso a esses capitais culturais exigidos; caso contrário, o sistema estará sujeito à crise. A massificação da educação acaba exacerbando esse cenário, pois as escolas passam a ser cada vez mais compostas de estudantes desprovidos dessa herança cultural necessária. Bourdieu ressalta que os sistemas educacionais
tendem a reproduzir o sistema de arbitrários culturais característicos dessa formação social, isto é, o domínio do arbitrário cultural dominante, contribuindo por esse meio à reprodução das relações de força que colocam esse arbitrário cultural em posição dominante (Bourdieu e Passeron, 2016, p. 31).
Em contextos onde o acesso ao ensino superior é mediado por exames, como é o caso do Brasil, essas provas se tornam um instrumento de "separação" entre aqueles que adquiriram e aqueles que não adquiriram os capitais culturais necessários para ingressar no ensino superior, transformando assim as desigualdades educacionais em um meio de reprodução das desigualdades sociais. Dessa forma, os capitais culturais incorporados se convertem em capitais culturais institucionalizados (notas obtidas), os quais têm valor na determinação do acesso ao ensino superior. Esse acesso, por sua vez, contribui para ampliar o capital cultural incorporado dos estudantes admitidos, os quais posteriormente se converterão em capitais culturais institucionalizados na forma de certificados.
Para Bourdieu e Passeron (2016), toda ação pedagógica é, objetivamente, uma forma de violência simbólica, assim como qualquer exercício de poder que imponha e legitime uma interpretação em detrimento de outra, ocultando as relações de poder subjacentes a essa imposição. O sucesso da ação pedagógica dominante entre grupos e classes sociais decorre de diversos fatores, incluindo: o ethos pedagógico (sistema de disposições) internalizado pelos indivíduos; as sanções impostas por essa ação pedagógica às diferentes práticas pedagógicas familiares; o valor atribuído pelos mercados sociais aos produtos resultantes das práticas pedagógicas dominantes; o valor conferido ao capital cultural (bens culturais) transmitido pelas famílias, de acordo com sua conformidade com as normas impostas pela ação pedagógica dominante (Bourdieu e Passeron, 2016).
Bourdieu (2015a) argumenta que a abordagem funcionalista da escola dissimula a influência da herança cultural transmitida pela família do estudante e seu impacto na trajetória escolar. A família desempenha um papel fundamental, especialmente nos primeiros anos da escolarização, ao determinar a variedade de recursos (tipos de capitais) investidos nos objetivos e conquistas futuras, além de contribuir para o desenvolvimento de determinada postura com relação à escola. Quando a escola trata todos os estudantes como iguais, ela não leva em conta as diferenças culturais entre eles e as desigualdades de classe, o que acaba por reproduzir as desigualdades já existentes. Apesar de não termos acesso às trajetórias dos agentes sociais analisados aqui, participantes do ENEM, buscamos, por meio dos questionários respondidos, variáveis indicativas de seus capitais econômicos e culturais, com o objetivo de observar se existem correlações entre esses capitais e as notas obtidas no exame.
Pierre Bourdieu e Passeron (2016) enfatiza que os exames são instrumentos que expressam os valores escolares e as preferências do sistema educacional. Eles conferem legitimidade a certos tipos de conhecimento e expressões, reforçando o valor e/ou mantendo a dominação cultural de determinadas formas de saber. Assim, por seu papel legitimador, não apenas a instituição escolar deve ser examinada, mas também os próprios exames.
Dessa forma, abordaremos o ENEM como instrumento valorativo operacionalizado pelo Estado. Partimos do pressuposto de que esse exame legitima o capital cultural por meio de sua institucionalização, ao atribuir notas e certificações que podem ser utilizados (convertidos) na disputa por vagas no ensino superior. A nota desse exame se configura em capital cultural institucionalizado, uma vez que é empregada como referência em diversos processos de classificação, tanto sociais quanto institucionais. Conforme observado por Bourdieu (2007), para as classes menos favorecidas, esse capital é utilizado como meio de ascensão social, ao passo que para as classes mais privilegiadas funciona como ferramenta para preservar sua posição na estrutura de classes. Como ressaltou Bourdieu (2015a) ao analisar o sistema educacional francês:
Ora, vê-se nas oportunidades de acesso ao ensino superior o resultado de uma seleção direta ou indireta que, ao longo da escolaridade, pesa com rigor desigual sobre os sujeitos das diferentes classes sociais. Um jovem da camada superior tem oitenta vezes mais chances de entrar na universidade do que o filho de um assalariado agrícola e quarenta vezes mais do que um filho de operário, e suas chances são, ainda, duas vezes superiores aquelas de um jovem de classe média (Bourdieu, 2015a, p. 41).
Sob essas premissas, realizamos uma análise qualiquantitativa. Nosso objetivo é investigar as correlações concomitantes entre os resultados obtidos pelos participantes do ENEM de 2022 no estado de Alagoas e um conjunto de aspectos de suas respectivas origens sociais. No ano em questão, 67.723 pessoas se inscreveram para realizar o exame em Alagoas (Inep, 2022c). A produção do nosso corpus de pesquisa teve início com a coleta de variáveis nos microdados do ENEM-2022 disponibilizados pelo Inep (2022c),4 os quais incluem as notas dos participantes no exame e os dados do questionário socioeconômico aplicado pelo INEP no momento da inscrição para o exame.
A escolha por recortar os dados do estado de Alagoas se justifica por compor, em termos de ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e da taxa de reprovação, o primeiro quartil, com os piores resultados do ensino médio em 2021. Alagoas tem uma taxa de aprovação (de 0,88%) pouco acima da média nacional (de 0,85%), e o quarto pior IDEB do país (nota 3,6) (Inep, 2022b). Por outro lado, Alagoas possui a maior taxa de pobreza do Brasil, correspondente a 51,7% de sua população (IBGE, 2021). Nesse sentido, o referido estado é um bom estudo de caso para os exames pretendidos.
O ano de 2022 foi escolhido por ser a edição mais recente do ENEM durante o período em que esta pesquisa foi conduzida. Para a análise, foram selecionadas as seguintes variáveis socioeconômicas dos participantes: tipo de escola (pública ou particular); localização da escola (rural e urbana); nível de escolaridade dos pais; ocupação dos pais; renda familiar; além das notas obtidas no exame.
Realizamos um recorte dos dados considerando apenas os estudantes de 17 a 19 anos que participaram do ENEM-2022 no estado de Alagoas. Esse recorte etário foi adotado porque as categorias nessa faixa etária apresentaram um índice de frequência mais alto (acima de 5%) no conjunto de dados, após a remoção das respostas dos participantes que não responderam ou marcaram a alternativa "não sei" em alguma das categorias das variáveis socioeconômicas utilizadas. Além disso, esse recorte proporciona a realização de uma análise qualitativa sobre um segmento populacional específico, o qual possui maior relação com os indicadores gerados pelas características socioeconômicas com base na teoria disposicionalista e no conceito bourdieusiano de capital cultural. Essa faixa etária (17 aos 19 anos) é particularmente relevante, pois durante esse período a socialização com os pais e com a escola ainda exerce um papel significativo na formação do capital cultural dos indivíduos. É um momento crucial em que os jovens estão finalizando o ensino médio e buscando a continuidade de seus estudos por meio do ensino superior, ao mesmo tempo que começam a considerar sua inserção no mercado de trabalho e a independência do apoio familiar para sua subsistência. Nesse período, é comum que eles recebam incentivos e possíveis orientações da família sobre o caminho acadêmico a ser seguido, o que influencia suas escolhas e possíveis sujeições. De qualquer forma, conduzimos uma ACM de averiguação utilizando os dados de todas as faixas etárias. Verificamos que incluir indivíduos de outras faixas etárias na análise não resultava em diferenças substanciais em comparação com os resultados obtidos na análise, que abrange apenas os participantes com idades entre 17 e 19 anos.
Seguindo esses parâmetros, restaram os registros de 7.855 participantes,5 que configuram o corpus desta pesquisa. Apesar de compreender que categorias de gênero interagem ou competem com as disposições de classe social, as categorias de gênero e cor dos indivíduos não foram consideradas para a extração dos dados.6 A não utilização dessas categorias se deu pela grande frequência de dados ausentes, aspecto que interfere na visualização dos dados gerados pelo método estatístico utilizado nesta pesquisa. Contudo, acreditamos que um esforço futuro centrado nas categorias de gênero e raça deva ser realizado.
As categorias relacionadas à escolaridade dos pais, renda familiar e ocupação dos pais e/ou responsáveis foram reorganizadas de modo a garantir que todas as categorias alcançassem frequência superior a 5%, com exceção das categorias "Escola Rural" (3,18%) e "Mãe — Grupo de Trabalho 3" (4,8%), as quais foram mantidas por sua relevância para as análises desta pesquisa. A categoria que aborda a ocupação dos pais e/ou responsáveis dos participantes demandou uma descrição mais detalhada. Isso se deve às limitações impostas ao tratamento dos dados em consequência da maneira como o INEP os agrupou, combinando modalidades de ocupações de trabalho divergentes (em relação ao seu caráter econômico) no mesmo grupo. No entanto, a utilização da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) (Brasil, 2010), permitiu-nos uma reorganização/reclassificação das categorias de forma mais precisa, coerente e colaborativa perante as análises pretendidas. Essas categorias selecionadas estão intrinsecamente ligadas aos conceitos de capital cultural e econômico, permitindo-nos relacioná-las, à luz das contribuições de Pierre Bourdieu, com o desempenho no ENEM.
O método empregado para calcular a média final dos participantes teve como base o cálculo realizado pela UFAL, conforme descrito no termo de adesão ao SISU para o período letivo de 2023.1 (Brasil, 2023b). Esse cálculo consiste na média aritmética da soma das notas obtidas nas áreas de conhecimento, adicionada à nota da redação. Para formular índices qualitativos sobre o desempenho dos participantes, utilizou-se o método de divisão do conjunto de notas em quartis,7 resultando em quatro partes/grupos, cada um representando percentis8 com 25% do conjunto dos dados, subdivididos de maneira crescente entre a menor e a maior nota. Para a classificação dos grupos foram utilizados os sinais de mais (+) e de menos (-) para representar, respectivamente, se os grupos/quartis possuem um conjunto de notas com maior ou menor valor. Os dados foram organizados mediante as 7.855 unidades válidas.
Na Tabela 1 apresentamos os índices de desempenho e suas respectivas legendas utilizadas na ACM.
Para projetar os cursos aos quais os indivíduos possuíam possibilidade de acesso por meio do SISU, utilizamos as notas de corte da primeira chamada dos classificados na ampla concorrência nos 109 cursos ofertados pela UFAL no SISU-2023. Nos casos em que os cursos eram ofertados em mais de um campus e/ou turno, utilizamos a média das suas notas de corte, o que reduziu o número total de cursos para 53. Posteriormente, dividimos o conjunto de valores das notas de corte em quartis, organizando os cursos em quatro grupos em ordem crescente de valor das notas de corte, refletindo assim diferentes níveis de prestígio social e concorrência. Vale ressaltar que, no ano de 2023, a UFAL ofereceu o total de 5.423 vagas distribuídas em 109 cursos para os 47.759 inscritos no SISU-2023. Na Tabela 2 apresentamos o resultado dos quartis.
Resultado da mediana, moda, e quartis do conjunto de notas de corte — 1ª chamada (ampla concorrência) SISU (2023).
Para alcançar nossos objetivos, realizamos uma ACM, técnica estatística de análise geométrica de dados que resulta na projeção da chamada "nuvem de pontos" dentro de um plano bidimensional. Essa análise possibilita a observação das posições dos indivíduos, categorias e suas modalidades em um gráfico, permitindo a compreensão das dimensões que estruturam as afinidades e contrastes entre as categorias incluídas no cálculo (Bertoncelo, 2022), mais especificamente nos permitindo uma análise relacional entre as características socioeconômicas dos participantes do ENEM-2022 e o desempenho obtido no exame. Trata-se de uma técnica que permite examinar influências múltiplas e de forma concomitantes de um conjunto de variáveis. Pierre Bourdieu foi um dos sociólogos que contribuíram para a difusão da ACM nas análises sociológicas, pois a via como uma técnica capaz de auxiliar na reconstrução das estruturas sociais e das relações de valores que fundamentam o espaço social, já que as influências sofridas pelos agentes sociais são diversas e concomitantes.
Recorremos à noção de espaço social para delinear um campo de competição que, neste contexto, diz respeito à transformação de capitais culturais e econômicos em capitais culturais institucionalizados, como evidenciado pelo desempenho no ENEM 2022. O indivíduo que detém esse capital institucionalizado pode empregá-lo como ferramenta para ingressar no ensino superior. Assim, o ENEM emerge como um validador de uma forma de capital cultural que, posteriormente, pode ser convertido em capital econômico, impactando a estratificação social.
Inspirados pelas reflexões de Bourdieu (2015b), conceituamos as variáveis "tipo de escola," "localização da escola," "escolaridade dos pais" e "ocupação dos pais" como indicadores de capitais culturais. Por outro lado, a variável "renda mensal familiar" representa o capital econômico, enquanto os índices de desempenho/nota no ENEM são considerados como indicadores de capital cultural institucionalizado/legitimado. Dessa forma, tornou-se possível explorar, por meio da ACM, como as variáveis e suas categorias se relacionam com as categorias ativas que estruturam o espaço investigado. As variáveis indicativas de capital cultural não se limitaram a aspectos da família por reconhecermos que os indivíduos experimentam universos culturais plurais não redutíveis à cultura familiar, como destacou Lahire (1998).
O ENEM-2022 E A RE(PRO)DUÇÃO DAS DESIGUALDADES SOCIAIS EM ALAGOAS
Nesta seção, os resultados da ACM e suas representações gráficas serão apresentados, visando observar as correlações entre os capitais culturais e econômicos com as notas do ENEM.
Na Tabela 3, são apresentadas as quantificações das frequências, contribuições e coordenadas das categorias na ACM. As contribuições indicam a taxa de contribuição das categorias para a inércia do eixo, enquanto as coordenadas explicam as posições das categorias dentro do eixo, permitindo identificar as relações de associação (sinais iguais) ou oposição (sinais contrários) entre elas. Destacamos em negrito as categorias com contribuições acima da média (0,035) e as coordenadas das categorias que possuem forte relação de oposição.
Dessa maneira, buscamos compreender com a devida ênfase o antagonismo gerado entre as modalidades, conforme suas posições dentro do plano fatorial formado pelos eixos 1 e 2 (coordenadas positivas ou negativas) e suas proximidades. Isso nos permite apreender as relações entre os capitais culturais objetivados, capitais econômicos e capitais culturais institucionalizados (notas), o que se reflete em condições variáveis para disputar espaço no ensino superior.
O resultado da ACM, que engloba todas as categorias mencionadas na Tabela 3, revela que o eixo 1 explica 51,06% da inércia (ou seja, as combinações possíveis entre as variáveis e modalidades), enquanto o eixo 2 explica 26,39%, totalizando 77,45%. Observa-se que o eixo 1 é o que melhor descreve as relações potenciais entre as variáveis analisadas.
Apresentamos no Quadro 1 as abreviações das categorias para facilitar a visualização e otimizar o espaço na Figura 1 gerada pela ACM.
Por meio do espaço social projetado na Figura 1, observamos, de maneira geral, uma associação negativa entre as modalidades que representam maior posse de capitais culturais e as que representam o oposto. Isso mostra que, quanto mais frequentes forem as categorias dispostas nas coordenadas positivas do eixo 1, menos frequentes serão as modalidades dispostas nas coordenadas negativas do mesmo eixo. Essas associações distribuem as modalidades de forma que podemos considerar o lado positivo do eixo 1 como "+ capital cultural" e o lado negativo como "- capital cultural." As categorias mais próximas ao centro do gráfico são as mais comuns, enquanto as mais distantes do centro são mais raras. Além disso, as distâncias entre os pontos indicam o grau de correspondência (positiva) entre eles: quanto mais próximos, maior a relação; quanto mais distantes, menor a relação.
Podemos observar que as coordenadas negativas do eixo 1 estão dispostas as categorias em que há maior quantidade de indivíduos com desempenho inferior no ENEM. Estes são geralmente provenientes de escolas públicas, têm renda mensal familiar de até um salário-mínimo, são filhos de trabalhadores em ocupações com menor prestígio social e retorno econômico e possuem níveis de escolaridade até o ensino fundamental. Por outro lado, as coordenadas positivas concentram maior quantidade de indivíduos com melhor desempenho no ENEM, geralmente provenientes de escolas particulares urbanas, com renda familiar mensal acima de dois salários-mínimos, filhos de pais com ocupações de maior prestígio e retorno econômico e níveis de escolaridade igual ou maior que o ensino médio. Esses dados se tornam ainda mais preocupantes quando consideramos que muitos estudantes sem capital cultural e econômico não se inscreveram ou não compareceram ao exame. Como identificado por Macedo e Saporetti (2023) ao examinarem os dados do ENEM de 2019 e 2020, os estudantes que se inscreveram mas não compareceram ao exame eram predominantemente provenientes de escolas públicas, pardos/morenos, sem acesso a carro ou computador em casa e com renda familiar de no máximo dois salários-mínimos. Embora a pandemia da COVID-19 tenha impactado todos os estudantes brasileiros, seus efeitos foram mais severos para aqueles em situação de vulnerabilidade econômica e social (Macedo e Saporetti, 2023). Entretanto, essa situação não se limitou ao período da pandemia da COVID-19, pois pesquisa anterior, desenvolvida por Barros et al. (2019), que examinou as edições do ENEM de 2011 a 2017, já havia identificado que os indivíduos pertencentes aos estratos socioeconômicos mais baixos tiveram presença diminuta no conjunto total de participantes, o que corrobora a assertiva de que as classes populares "vivem sua desvantagem como destino pessoal" (Bourdieu e Passeron, 2018, p. 95). Isso porque a influência do meio familiar e do contexto social tende a desencorajar ambições percebidas como desmedidas (Bourdieu, 2015a), sendo o acesso ao ensino superior entendido como algo inalcançável.
Além das divergências destacadas pelas coordenadas das categorias, podemos identificar associações entre as categorias e suas proximidades, revelando três agrupamentos distintos (delimitados pelas elipses na Figura 1). Os dois agrupamentos localizados nas extremidades positivas e negativas do eixo 1 representam categorias menos comuns, com frequência mais baixa e uma relação de oposição acentuada.
No agrupamento das coordenadas negativas do eixo 1, encontramos predominantemente indivíduos com as menores notas no ENEM, provenientes de famílias com renda mais baixa e cujos pais têm níveis de escolaridade mais baixos, incluindo trabalhadores principalmente nas áreas agropecuária, florestal e da pesca. Por outro lado, na elipse situada na extremidade positiva do eixo 1, observamos em maior quantidade os indivíduos com as melhores notas no ENEM, provenientes de escolas particulares, com renda familiar mais alta e pais com formação acadêmica superior, muitos dos quais ocupam cargos de prestígio e com maior retorno econômico.
Diante da escassez dessas categorias e da clara divergência entre elas, é possível reforçar a afirmação de Bourdieu (2015a, p. 55), que destaca "a influência do meio familiar e do contexto social, que tendem a desencorajar ambições percebidas como desmedidas e sempre mais ou menos suspeitas de renegar as origens." As discrepâncias entre esses grupos sociais evidenciam a necessidade de maiores esforços necessários por parte dos indivíduos de classes menos privilegiadas para alcançar o ensino superior (Bourdieu, 2015b). No caso dos indivíduos de classes mais favorecidas, ainda que venham a obter baixos resultados, eles possuem mais e melhores condições para acessar o ensino superior por outros meios, como por exemplo os vestibulares de instituições de ensino superior. Nesse sentido, grupos socialmente privilegiados apresentam menor dependência do capital cultural para a obtenção de capital econômico.
Na elipse central do gráfico, encontramos os perfis mais comuns, representando o grupo populacional mais frequente no ENEM-2023. Esses indivíduos, em sua maioria, apresentam desempenho intermediário (entre positivo e negativo no ENEM), frequentaram escolas públicas (urbanas), têm renda familiar de até 2 salários mínimos e são filhos de trabalhadores assalariados, como vendedores do comércio, prestadores de serviços administrativos ou envolvidos na produção de bens e serviços, com formação acadêmica no ensino fundamental ou médio.
Como destacou Bourdieu (2015b), para que a família possa oferecer condições que possibilitem e/ou ajudem no êxito escolar dos seus filhos, é necessário que haja ao menos uma perspectiva de sucesso, um horizonte a ser vislumbrado. Essa situação é dramática, pois não podemos ignorar que um número grande de jovens desprovidos de capitais econômicos e culturais nem chegam a se inscrever no exame.
Os resultados dos testes corroboram as descobertas de estudos anteriores, como os de Torres et al. (2020), Carmo, Heckler e Carvalho (2021), Jaloto e Primi (2021), Souza et al. (2022), Rocha et al. (2022) e Faillace, Britto e Costa (2023), que identificaram correlações significativas entre o perfil socioeconômico dos pais, o tipo de escola frequentada e o desempenho nos exames do ENEM em edições anteriores. Esses achados destacam a contínua reprodução das desigualdades sociais por meio do capital cultural institucionalizado pelo Estado.
Entendendo a importância de uma visualização clara da distribuição dos indivíduos no plano fatorial resultante da ACM, fornecemos na Figura 2 uma representação gráfica dos pontos correspondentes a cada indivíduo.
Para visualizarmos as possíveis oportunidades de acesso aos cursos pelos indivíduos por meio do SISU-2023 (primeira chamada/ampla concorrência), caso participassem do processo seletivo, primeiro apresentaremos na Tabela 4 as quantificações e agrupamentos resultantes da divisão das notas de corte em quartis, junto com seus respectivos indicadores de prestígio/concorrência. Em seguida, na Figura 3, apresentaremos um histograma das notas obtidas pelos indivíduos, destacando por meio de linhas os intervalos correspondentes a cada quartil gerado pela divisão das notas de corte nos cursos ofertados pela UFAL.
Classificação dos cursos com base na quartilização das notas de corte do Sistema de Seleção Unificada — SISU (2023) na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Cruzamento da distribuição das notas obtidas no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2022 com os quartis gerados pela quartilização das notas de corte do Sistema de Seleção Unificada — SISU (2023) dos cursos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Os dados apresentados na Tabela 4 e na Figura 3 demonstram que os indivíduos com desempenho inferior no ENEM (enem - - / enem - ), os quais, de acordo com os resultados da ACM, possuem menor acúmulo de capitais, seriam desclassificados em todos os cursos ou teriam acesso apenas aos cursos com mínimo prestígio/concorrência (1° quartil). Além disso, é evidente a significativa quantidade de desclassificados, que equivale à quantidade de "classificados" nos três primeiros quartis.
Os resultados destacam que os indivíduos alagoanos, dotados de capital cultural adquirido por meio de diferentes fontes, têm suas chances de adquirir capital cultural institucional ampliadas. Esse capital cultural institucional, por sua vez, possibilita o acesso a cursos com maior prestígio, o que pode ser convertido em capital econômico no futuro. Em resumo, a origem social do alagoano está fortemente relacionada com a quantidade de capital cultural acumulado, influenciando diretamente seu desempenho no ENEM. Esse desempenho, por sua vez, determina sua capacidade de ingressar na universidade, obter um diploma e, consequentemente, acessar o mercado de trabalho. Assim, há uma clara relação entre origem social e a perpetuação da atual estratificação social alagoana.
Em suma, a análise dos dados apresentados nas Figuras 1 e 3 sugere uma forte associação entre melhores resultados no ENEM e pertencimento às classes médias e altas. Os filhos de pais diplomados, com renda familiar mais elevada e frequentadores de escolas privadas, demonstram ter maiores chances de ingressar nos cursos mais concorridos oferecidos pela UFAL. É relevante ressaltar que esses cursos estão geralmente associados a profissões liberais, como medicina, psicologia, enfermagem, direito, odontologia e farmácia, que oferecem a possibilidade de atuação de forma independente (como autônomos). Nesse contexto alagoano, fica evidente a perenização da estrutura de classes e os privilégios derivados da institucionalização dos capitais culturais.
Dessa maneira, a ACM realizada com os dados socioeconômicos e as notas do ENEM revelam aspectos que ressaltam a potencial reprodução das desigualdades sociais. Fica evidente quem são os detentores do capital econômico capazes de adquirir capital cultural institucionalizado, representado pela nota no exame, e, consequentemente, de converter esse capital em acesso ao ensino superior alagoano (matrícula no curso), com maiores chances de posteriormente transformá-lo em capital econômico (via inserção no mercado de trabalho).
Para efetivar a democratização do acesso ao ensino superior, os resultados dos testes ressaltam a importância de o Estado facilitar a aquisição de bens que permitam a incorporação de capital cultural, tanto para os pais quanto para os estudantes, antes mesmo da participação destes no ENEM. Além disso, é fundamental reavaliar os conhecimentos valorizados no exame nacional como critérios essenciais para a entrada no ensino superior, levando em consideração as diversas origens sociais e culturais dos jovens. No entanto, é importante notar que as formas de aquisição do capital cultural não são automáticas ao acesso a bens culturais. Por exemplo, a posse de computadores não necessariamente se traduz em transmissão de capital cultural, podendo limitar-se à posse legal do equipamento, já que "o capital cultural é um ter que se tornou ser, uma propriedade que se fez corpo e tornou-se parte integrante da ‘pessoa,' um ‘habitus'" (Bourdieu, 2015b, p. 83). Isso significa que "o capital cultural só se transmite às custas de um gasto considerável de tempo, e um critério implícito das hierarquias culturais é a duração do tempo de aquisição" (Bourdieu, 2023, p. 223).
Por fim, destacamos que o ENEM, ao menos no caso alagoano, é um instrumento do Estado que contribui para dissimular uma falsa noção de acesso democrático, ocultando três aspectos: atua na conversão do capital cultural incorporado em capital cultural institucionalizado, reforçando a desvantagem dos estudantes que não tiveram acesso a capitais culturais objetificados ao longo de suas vidas escolares e extraescolares; oculta a incapacidade do Estado de oferecer ensino superior a todos, transferindo aos estudantes a responsabilidade ou culpa pelo acesso ao ensino superior; e legitima os herdeiros dos capitais institucionalizados, contribuindo para a reprodução das desigualdades educacionais e sociais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos destacam a necessidade de construir caminhos que levem as classes menos favorecidas ao ensino superior, superando as múltiplas camadas de desigualdade que permeiam as diferenças entre as classes sociais em Alagoas. Além disso, é crucial reconhecer as estratégias e formas de dominação empregadas pelas classes mais privilegiadas para preservar sua posição social e perpetuar as desigualdades sociais. Nesse contexto, esta pesquisa ressalta que uma política eficaz de acesso ao capital cultural institucionalizado deve abranger programas destinados ao acesso ao capital cultural objetivado. Isso implica não apenas garantir uma educação de qualidade, mas também envolver os pais dos estudantes, proporcionando-lhes condições e incentivos para cultivar um ethos (o que Bourdieu chamou de conatus)9 em seus filhos que os motive a buscar acesso à universidade e ascensão social.
Observamos também a relevância dos capitais culturais para a perpetuação dessa estrutura. Apesar de o ENEM ser concebido como um exame que supostamente oferece oportunidades igualitárias aos seus participantes, fica evidente que as chances de ascensão por meio do capital cultural institucionalizado, legitimado pelo exame, não se baseiam exclusivamente na meritocracia. Na verdade, a atribuição de "mérito" seria mais justa para os poucos participantes das classes menos favorecidas que conseguem alcançar bons resultados; trata-se de exceções à regra. Isso se deve ao fato de que os jovens pertencentes às camadas mais baixas da sociedade frequentemente precisam assegurar seu sustento antes mesmo de concluir o ensino médio, o que os coloca em desvantagem ao terem menos tempo e recursos para adquirir os capitais culturais necessários.
É importante ressaltar que o ENEM de 2022 ocorreu durante a pandemia da COVID-19, o que resultou na ausência de realização do exame por parte de estudantes com menos recursos econômicos e culturais (Macedo e Saporetti, 2023). Isso implica que os dados apresentados podem subestimar o problema identificado de reprodução das desigualdades no acesso ao capital cultural institucionalizado necessário para ingressar no ensino superior.
Este breve recorte sobre a obtenção de capitais institucionalizados para o acesso ao ensino superior em Alagoas por meio do ENEM demonstra que, apesar das políticas que visam mitigar os efeitos das desigualdades sociais, o ENEM continua sendo um instrumento de legitimação dessas disparidades. É crucial que essas estruturas socialmente estabelecidas e institucionalizadas sejam alvo de análises e investigações, e que seus resultados sejam projetados no espaço social. Isso nos permite identificar e examinar as bases que sustentam as desigualdades sociais, privando alguns de oportunidades para acumular capitais culturais e legitimando outros, que já são privilegiados, por meio da ideologia da meritocracia. Como apontado por Phillip Brown (1990), estamos diante de um sistema parentocrático, no qual o êxito acadêmico dos estudantes está cada vez menos associado ao seu mérito e esforço pessoal e cada vez mais dependente dos recursos financeiros e da habilidade estratégica de seus pais para promover sua competitividade educacional.
Embora esta pesquisa tenha se concentrado nos participantes do ENEM-2022 no estado de Alagoas, os dados encontrados corroboram os testes estatísticos apresentados por Silva et al. (2020) e Faillace, Britto e Costa (2023), os quais indicam que o ENEM tem sido insuficiente para promover mudanças nas estruturas da estratificação social. Contudo, como bem destacou Bourdieu (1983):
O conhecimento das leis sociais é condição para qualquer transformação do mundo social. Ninguém jamais pensou em reprovar Galileu por destruir o sonho do voo; pelo contrário, é porque Galileu descobriu a lei da gravidade que pudemos voar. É, em todo caso, na medida em que conhecemos as leis pelas quais o capital cultural é transmitido de uma geração para outra, que temos alguma chance de suspender parcialmente os efeitos desses mecanismos.
Consideramos que as reflexões aqui apresentadas contribuem para a superação das limitações do ENEM ao revelá-las e analisá-las criticamente. Considerando a urgência em mitigar as desigualdades sociais, as análises realizadas destacam a importância de políticas públicas que facilitem o acesso dos jovens e suas famílias aos capitais culturais necessários ao bom desempenho nos exames de acesso ao ensino superior. Além disso, um modelo de avaliação que considere o contexto histórico, socioeconômico e geográfico dos avaliados, valorizando suas experiências individuais, pode ser uma abordagem mais eficaz na busca pela equidade no acesso ao ensino superior. Essa abordagem exige uma reflexão sobre a natureza culturalmente arbitrária das classes sociais dominantes e uma reavaliação dos conhecimentos a serem valorizados no processo de avaliação. Desta maneira — talvez — seria possível romper com a "ideologia da meritocracia" presente no discurso do ENEM, a qual mascara seus impactos na perpetuação das desigualdades sociais, legitimando e naturalizando essa condição.
Os resultados aqui apresentados não ignoram a importância do ENEM e do SISU, já que, como destacaram Bourdieu e Passeron (2018, p. 93), "a política escolar das democracias populares pode tender a favorecer sistematicamente a entrada no ensino superior e o sucesso nos exames dos filhos de operários e agricultores. Mas o esforço de igualização permanece formal enquanto as desigualdades não forem efetivamente abolidas por uma ação pedagógica."
Os limites desta pesquisa nos impedem de examinar as trajetórias dos estudantes para compreender melhor os capitais objetivados e incorporados dos estudantes com os melhores e piores resultados. No entanto, oferece indícios que ressaltam a necessidade de esforços adicionais para, por exemplo, investigar quais elementos dos ambientes urbanos e familiares têm contribuído para a incorporação do capital cultural exigido no ENEM.
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1
A ACM é uma técnica estatística multivariada utilizada para analisar relações entre variáveis categóricas em um conjunto de dados. Essa análise permite identificar padrões e associações entre diferentes categorias de variáveis, representando visualmente essas relações em um espaço bidimensional. Por meio da ACM, é possível explorar a estrutura subjacente nos dados e identificar tendências e associações complexas que podem não ser imediatamente aparentes em uma análise univariada ou bivariada.
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2
Por isso, a teoria bourdieusiana é enquadrada como "disposicionalista," já que busca compreender as formas de pensar, sentir, crer e agir dos agentes sociais com base no social incorporado por eles.
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3
Importa destacar que os estudantes também podem converter suas notas no ENEM em ingresso no ensino superior, por meio do SISU, em universidades públicas (federais, estaduais e distritais) e institutos federais brasileiros de outros estados. Contudo, utilizamos as notas de corte dos cursos da Ufal como parâmetro de análise de possível conversão.
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4
Os resultados do questionário estão disponíveis ao público no formato de microdados (ods; xlsx). Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/enem/divulgados-microdados-do-enem-2022. Acesso em: 6 abr. 2026.
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5
Vale ressaltar que nenhum dos participantes utilizados na análise indicou ser "treineiro", termo atribuído aos participantes que ainda não podem ingressar no ensino superior por possuir menor idade ou não estar perto (um ano) de concluir o ensino médio.
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6
Bourdieu também não aprofundou sua análise especificando essas categorias, não as utilizando como parte de seus dados (Silva, 1995).
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7
Quartis são os valores que dividem um conjunto de dados em quatro partes iguais.
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8
Medida que divide a amostra (por ordem crescente dos dados) em cem partes, cada uma com uma percentagem de dados aproximadamente igual.
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9
Tendência de transmitir uma herança (de capitais de todos os tipos) de forma, não necessariamente, consciente (por isso, Bourdieu não denomina de projeto, mas de conatus, conceito emprestado de Espinoza).
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Financiamento:
O estudo não recebeu financiamento.
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
REFERÊNCIAS
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Editor/a responsável:
Terezinha Oliveira https://orcid.org/0000-0001-5349-1059




Fonte: Elaboração própria.
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