RESUMO
Este artigo analisa os pressupostos epistemológicos apropriados da obra de Paulo Freire, autor mais citado em 165 trabalhos sobre formação continuada de professores, apresentados na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação - ANPEd (2008-2019). Identifica-se como uma pesquisa qualitativa documental bibliográfica apoiada nos recursos da historiografia. A leitura, orientada à extração das citações diretas do autor, possibilitou agrupamentos em torno das obras referenciadas, do tipo de publicação e dos núcleos conceituais. As apropriações de Freire revelam que a ideia de reflexão crítica sobre a prática integrou o núcleo teórico mais presente nos trabalhos, convergindo com os pressupostos de maior circularidade no período. Apontam o esvaziamento da dimensão política da obra freiriana na compreensão dos processos formativos docentes e a necessidade de aprofundamento acerca da epistemologia freiriana nas pesquisas sobre formação continuada.
Palavras-chave:
Formação Continuada de Professores; ANPEd; Paulo Freire; Produção Acadêmica
ABSTRACT
This article analyzes the appropriate epistemological assumptions on Paulo Freire’s work, the author most cited in 165 works on continuing teacher education presented at ANPEd (2008-2019). It a qualitative documentary bibliographical research study supported by the resources of historiography. The reading, guided by the extraction of direct citations of the author, made possible groupings around the referenced works, the type of publication and the conceptual nuclei. The appropriations of Freire reveal that the idea of a critical reflection on practice was part of the theoretical core most present in the works, converging with the assumptions of greater circularity in the period. It points to the emptying of the political dimension of Freire’s work in the understanding of teacher training processes and the need for a deeper understanding of Freire’s epistemology in research on continuing education.
Keywords:
Continuing Teacher Education; ANPEd; Paulo Freire; Academic Production
RESUMEN
Este artículo analiza los supuestos epistemológicos apropiados de la obra de Paulo Freire, el autor con más citas en 165 trabajos sobre formación continua del profesorado, presentados en la ANPED (2008-2019). Se identifica como una investigación bibliográfica documental y cualitativa, basada en los recursos de la historiografía. La lectura guiada para extraer las citas directas al autor permitió agrupaciones en torno a las obras referenciadas, el tipo de publicación y de los núcleos conceptuales. Las apropiaciones de Freire apuntan que la idea de reflexión crítica acerca de la práctica fue parte del núcleo teórico en las obras, confluyendo con los supuestos de mayor circularidad en el período. Señala el vaciamiento de la dimensión política de la obra de Freire en la comprensión de los procesos de formación docente y a la necesidad de una comprensión profunda de la epistemología de Freire en la investigación sobre educación permanente.
Palabras clave:
Formación Continua del Profesorado; ANPEd; Paulo Freire; Producción Académica
INTRODUÇÃO
Paulo Freire é, sem dúvida, um dos mais expressivos educadores brasileiros, e sua obra inspira a produção de conhecimento nas pesquisas em educação, sobretudo na pós-graduação. Reconhecido internacionalmente, Freire representa a perspectiva crítico-emancipatória, cujos pressupostos fundamentam a educação como prática da liberdade, no uso de uma prática dialética com a realidade e na formação da consciência crítica e política dos educandos.
A presença marcante de Freire nas pesquisas em educação no Brasil move os debates em torno de distintas temáticas, entre elas a formação de professores. A dimensão político-epistemológica do pensamento freiriano, que se mantém atual e global, é imprescindível aos processos educativos, razão pela qual entidades representativas da pós-graduação em educação, como a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), promovem esse debate e estimulam a apropriação de sua obra.
Ao acessarmos os 165 trabalhos sobre formação continuada de professores, apresentados nos Grupos de Trabalho (GT) das Reuniões da ANPEd (2026) entre 2008 e 2019, identificamos uma quantidade significativa fundamentada nas produções de Freire. No conjunto desses trabalhos, Freire foi o autor mais referenciado, com 68 citações, e frequente em todas as edições da ANPEd (2026) investigadas. Diante da expressiva presença de Freire nas pesquisas, analisamos os pressupostos apropriados de sua produção. Para isso, mapeamos as obras referenciadas e o tipo de publicação, as abordagens metodológicas praticadas e os demais autores citados, em textos que referenciam Freire.
A análise das maneiras de apropriação dos termos, conceitos e pressupostos freirianos nos trabalhos dos GT aponta indícios de como se têm constituído as práticas de pesquisa sobre formação continuada e como elas movem os debates no campo da formação de professores, demarcando os percursos da produção acadêmica sobre essa formação. Compreendidos como documentos, que são marcados por usos, os trabalhos trazem as marcas das operações feitas pelos pesquisadores para a compreensão de um objeto de investigação modalizado em uma conjuntura e, portanto, indicam uma historicidade social (Certeau, 2011).
Ademais, a ANPEd (2026), entidade acadêmico-científica consagrada, formada por pesquisadores em educação, reitera seu compromisso com a rigorosidade das produções apresentadas nas reuniões científicas nacionais organizadas, entre outras formas, em torno dos seus 23 GT temáticos, conteúdo que expressa o estado do conhecimento das pesquisas sobre a formação continuada no país. A partir de Certeau (1982), os autores dos trabalhos da ANPEd (2026) são sujeitos praticantes de diversos espaços educacionais, e seus textos são fabricações culturais resultantes de apropriações das experiências que circulam no campo da formação de professores.
Mesmo que tenhamos a demarcação do lugar (Certeau, 2011) instituído do GT-08 “Formação de Professores”, com seu objeto de pesquisa delineado em torno da formação de professores, observamos que o espaço (Certeau, 2011) das práticas de pesquisa não é unívoco, tampouco estável, visto que o tema da formação continuada tem circularidade nos entrelugares dos GT, mostrando que essa formação se coloca como emergente nas pesquisas e como um problema educacional.
Para a compreensão das epistemologias subjacentes às práticas de formação continuada, a comunidade acadêmica coloca em debate os temas, os problemas de investigação, as abordagens teórico-metodológicas e os resultados alcançados nas pesquisas. Em torno desses aspectos, nota-se a frequente problematização do desenvolvimento profissional e dos saberes docentes, da reflexão sobre a prática e da mudança na prática docente, elementos centrais do debate, em que a prática docente é colocada como ponto de partida e contexto para a formação continuada.
Centrada na epistemologia da prática, os pressupostos mais demarcados nas pesquisas consideram o professor como sujeito reflexivo, pressupõem a prática como ponto de partida da formação para ressignificar contextualmente a teoria. Com essa perspectiva, os depoimentos dos professores e os contextos institucionais de atuação e formação são priorizados, por meio de variadas fontes e procedimentos de pesquisa, com abordagens que privilegiaram as narrativas culturais e as subjetividades.
As demarcações das pesquisas produzem efeitos sobre as políticas de formação continuada no Brasil, em que o cenário acadêmico acena para uma parcela considerável de estudos com enfoque nos cursos, projetos e programas implementados em redes de ensino. Mostram, assim, que o debate se dá pautado por e em defesa de uma formação continuada institucionalizada, fundamental na qualificação do processo de ensino-aprendizagem, no desenvolvimento profissional docente, com foco na escola e em suas necessidades.
APROPRIAÇÕES E CIRCULARIDADE: PRESSUPOSTOS CERTEAUNIANOS NAS PESQUISAS SOBRE FORMAÇÃO CONTINUADA
Eleger Certeau como principal referência deste estudo possibilita demarcar os pressupostos e as práticas de pesquisa autorizadas, na compreensão do jogo das tensões sociais, políticas e epistemológicas que entremeiam a pesquisa sobre a formação continuada de professores nos trabalhos dos GT da ANPEd (2026).
Nessa perspectiva, as operações e esquemas de ação dos pesquisadores revelam a lógica científica presente na ordenação sociopolítica dos campos de pesquisa, espaços de práticas em que os quadros de referências garantem amparo, credibilidade e atestado de autenticidade à produção acadêmica, que se efetiva, sobretudo, na forma de citação.
Nesse sentido, a citação apresenta-se como “a arma absoluta do fazer crer” (Certeau, 2011, p. 263), já que citar é também assumir uma parte da cultura produzida por uma sociedade e lhe afiançar ao ser afiançado. Com efeito, citando, “o discurso transforma o citado em fonte de credibilidade e léxico de um saber” (Certeau, 1982, p. 99).
Com isso, partimos do emprego da citação para analisarmos os quadros de referência, as teorias em circulação e o modo como os conceitos foram apropriados - mapeamento que ressaltou a dinâmica investigativa, as posições privilegiadas, as que foram perdendo legitimidade e vitalidade e dando lugar a novas construções lógicas.
Nesse sentido, os conceitos são esquemas operatórios que, além de exercerem efeitos sobre o modo de perceber o objeto, explicitam as unidades históricas ou os níveis de análise praticados nas apropriações dos pesquisadores, revelam as formas de consumo ou uso dos fundamentos e dos procedimentos, observando os efeitos de sua circularidade nos debates dos GT.
Ao identificarmos Freire como o mais citado no conjunto de autores referenciados, analisamos os conceitos apropriados da sua teoria e o modo como as teorizações foram operadas, na expectativa do que a dinâmica investigativa dos trabalhos sobre a formação continuada de professores, apresentados na ANPEd (2026), possa dizer sobre as demarcações mais presentes nas pesquisas.
DEMARCAÇÕES FREIRIANAS NOS ESTUDOS DE REVISÃO DA LITERATURA SOBRE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES
Estudos de revisão da literatura sob distintas nomenclaturas, características e enfoques avaliam o acumulado na produção acadêmica (Vosgerau e Romanowski, 2014). Especialmente no campo da formação de professores, os resultados apontados por esses estudos com relação aos autores mais referenciados na década de 1990 demonstram que Freire foi pouco citado nas pesquisas sobre formação continuada de professores, tanto nas teses e dissertações quanto em artigos publicados e estudos apresentados em eventos científicos.
Conforme Carvalho e Simões (2002), entre os mais citados, entre 1990 e 1997, autores filiados ao approach emancipatório-político ou crítico-dialético - Cornelius Castoriadis, Lev Vigotski, Pierre Bourdieu, Henri Giroux, Henri Giroux e Peter Maclaren, Michael Apple - não incluíram Freire (Carvalho e Simões, 2002). Ao se debruçarem sobre o conceito de formação continuada como prática reflexiva, apoiaram-se nas obras de Donald Schön, Phillipe Perrenoud, Keneth Zeichner, António Nóvoa, Carlos Marcelo Garcia e Ángel I. Perez-Gómez.
De igual modo, Freire não integrou o conjunto dos autores mais citados nos estudos sobre o professor pesquisador apresentados nas edições do Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino (Endipe) entre 1994 e 2000 (Ventorim, 2005) - excetuando-se o IX Endipe, num conjunto de textos com presença expressiva de autores das ciências humanas e sociais, representativos das tendências materialistas histórico-dialéticas. Nesses estudos, o movimento do professor pesquisador retomou o interesse pela pesquisa-ação, com base nos estudos de Lawrence Stenhouse sobre a “pesquisa dos educadores” e, em diálogo com Freire, assumiu a proposição de pesquisa-participante, caracterizada pela imersão participativa do pesquisador na escola, como alternativa de qualificação da pesquisa acadêmica e da formação dos professores por meio da investigação sobre as práticas de ensino.
Ao final dos anos de 1990 e no início dos anos 2000, vasta produção acadêmica revelou um contexto marcado pela proletarização e desqualificação progressiva do professor e esvaziamento de sua condição intelectual (Gatti, 1998; Tanuri, 2000; Scheibe e Bazzo, 2001; Freitas, 2002). É nesse contexto que a consulta a Freire passa a ser fortalecida e, junto com ele, outros autores brasileiros passaram a ser mais citados nos estudos voltados à formação continuada de professores.
Em trabalhos apresentados no GT-08 da ANPEd (2026), entre 2003 e 2007, Alvarado-Prada, Vieira e Longarezi (2012) destacaram a posição de Freire entre os autores citados pelos estudos sobre o profissional reflexivo. Entretanto, sinalizaram que os textos deixam em aberto uma discussão mais política das concepções de formação, com análises mais críticas dos elementos ideológicos que subjazem a tais concepções.
Brzezinski (2014a) apresentou os autores nacionais mais consultados em teses e dissertações analisadas entre 2003 e 2007, segundo o critério de quantidade de anos de publicação das obras, em que Freire logrou a primeira posição (22 citações), seguido por Demerval Saviani, Miguel Arroyo, Bernardete Gatti, Iria Brzezinski, Selma Garrido Pimenta, Marli André, entre outros. Em um estudo exploratório, a autora salientou que o maior número desses estudos incluiu a formação continuada de professores “em serviço,” por meio da pesquisa colaborativa, assumindo a perspectiva dos estudos sobre o professor reflexivo ou da escola reflexiva. Com isso, o debate problematizou a prática pedagógica dos professores da escola básica com os formadores da universidade, no que concerne aos saberes engendrados no espaço escolar.
Entre 2008 e 2010, Brzezinski (2014b) identificou Freire como o autor com mais obras referenciadas (28 citações) em teses e dissertações, seguido por Demerval Saviani, José Carlos Libâneo, Ilma Passos de Alencastro Veiga, Iria Brzezinski, Pedro Demo, José Manuel Moran, dentre outros. Brzezinski (2014a, p. 12) elevou a obra de Freire como a produção nacional que “inaugurou o pensar acerca da escola reflexiva e qualificante, nos idos da década de 1960,” fundamentada no paradigma emancipatório contemporâneo que estimula o processo permanente de autoavaliação e de autoformação.
A análise dos trabalhos apresentados nas reuniões nacionais da ANPEd (2026) entre 2000 e 2018 por Shigunov Neto e Silva (2019) indicou, entre os mais citados no GT-08, António Nóvoa (37 citações), Maurice Tardif (25 citações) e Paulo Freire (18 citações). As apropriações da obra de Freire fundamentam estudos que tratam de questões sobre o processo de ensino-aprendizagem.
Nos contextos de disputa que marcam a formação continuada de professores, é válido ressaltar que a ênfase sobre a obra de Freire, pelos trabalhos apresentados na ANPEd entre 2008 e 2019, registra movimentos de resistência e de engajamento da comunidade acadêmica, em face da necessidade de fortalecimento de uma formação continuada crítica, reflexiva e emancipatória, uma vez que a ela vem se articulando um projeto de desenvolvimento organizacional com facetas alinhadas ao gerencialismo neoliberal da agenda econômica global.
ABORDAGEM METODOLÓGICA
Este estudo acolhe os pressupostos da abordagem qualitativa, orientada pelos recursos da pesquisa histórica, referenciada em Certeau (1982; 2011), com base na metodologia documental bibliográfica, na análise dos 165 trabalhos resultantes de comunicação oral, disponibilizados no site da ANPEd (2026).
Trataremos os trabalhos como documentos que carregam as marcas das práticas culturais e sociais das pesquisas sobre a formação continuada de professores, com as singularidades produzidas nos espaços das táticas e invenções dos seus autores. Desse modo, nossa prática científica implica uma prática interpretativa pautada em agenciamentos sociais, por lidarmos com palavras vinculadas a um sistema de crenças e de poder, inscritas em uma “rede cujos elementos dependem estritamente uns dos outros, e cuja combinação dinâmica forma a história num momento dado” (Certeau, 1982, p. 72).
Sendo assim, prestigiamos os trabalhos apresentados em todos os GT da ANPEd (2026) como representantes dos discursos no campo da formação de professores, das práticas investigativas autorizadas pela comunidade acadêmica e negociadas em relações de força que tangenciam a constituição dos discursos nesse lugar social ocupado pela instituição e pelos pesquisadores.
Os procedimentos para a seleção dos trabalhos no site da ANPEd (2026), realizada por meio manual, foi ponderada da leitura dos títulos para a leitura das palavras-chave e dos resumos, adotando como referência os termos em uso pela comunidade acadêmica, que incluíram formação continuada, formação permanente, formação em serviço, programa de formação continuada, entre outros.
Entre os anos de 2008 e 2019 encontramos 3.424 trabalhos nos anais da ANPEd (2026), dentre os quais 502 pesquisaram a formação de professores (14,7%), parcela que inclui 165 investigações referentes à formação continuada. Os 165 estudos representam 4,8% do total de trabalhos apresentados na ANPEd (2026) e 32,9% dos trabalhos sobre formação de professores, entre 2008 e 2019.
APROPRIAÇÕES NAS ELABORAÇÕES CONCEITUAIS E SEUS NEXOS
As referências bibliográficas dos 165 trabalhos que investigaram a formação continuada de professores nos GT da ANPEd (2026) foram mapeadas, procedimento que permitiu chegar às produções acadêmicas mais referenciadas e localizar os dez primeiros autores que se destacaram, por ano, nas Reuniões Nacionais investigadas, a saber (Quadro 1).
Freire foi referenciado 68 vezes em 37 (22,4%) dos 165 trabalhos sobre formação continuada na ANPEd (2026), entre 2008 e 2019, e frequente em todas as edições investigadas. Apresentadas a quantidade de trabalhos que referenciaram Freire e a quantidade de citações ao autor nesses estudos, o gráfico a seguir demonstra a circularidade do autor entre os GT da ANPEd (2026). O GT-06, “Educação Popular,” reuniu 18 referências à obra de Freire, seguido do GT-08, com 16 referências, e do GT-18, “Educação de Pessoas Jovens e Adultas,” com 11 referências. Esses sãos os três GT em que a citação das teorizações freirianas foi maior.
Com relação à maior circularidade do autor, considerando-se o número de trabalhos, notamos que no GT-08 Freire foi referenciado em dez trabalhos, enquanto no GT-18, “Educação de Pessoas Jovens e Adultas,” e GT-06, “Educação Popular,” respectivamente, foi citado em cinco e quatro trabalhos. A circularidade nos campos de pesquisa, representados pelos distintos GT em que Freire foi citado, permite distinguir indícios que esboçam estratificações perceptíveis nos círculos relativamente homogêneos em torno dos conceitos, dos tipos de operações metodológicas e dos pressupostos delineados pelo escopo de debates dos GT, bem como nas redes de inter-relações (Certeau, 1982) entrançadas na conjuntura histórica das pesquisas sobre a formação continuada de professores. A obra freiriana teve circularidade em 13 GT da ANPEd, a saber (Figura 1):
Quantidade de trabalhos e citações de Paulo Freire por Grupo de Trabalho nas pesquisas sobre formação continuada - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação 2008-2019.
Com relação às obras de Freire, buscamos nas referências: obras citadas, tipo de publicação e tipo de autoria. As obras de Freire mais citadas foram Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, livro referenciado 17 vezes; Pedagogia do Oprimido, livro referenciado nove vezes; Extensão ou comunicação?, livro referenciado cinco vezes. Outras publicações, incluindo livros e capítulos de livros, são apresentadas no Quadro 2.
As 68 referências feitas aos estudos de Freire foram extraídas de 22 obras do autor, publicadas entre 1967 e 2015. Esses dados indicam a diversidade de conceitos apropriados nos trabalhos para dar sustentação às abordagens teórico-metodológicas dos estudos.
Freire integra, como primeiro autor, três produções em coautoria: Por uma pedagogia da pergunta, com Antonio Faundez, citada em dois estudos; Medo e Ousadia, com Ira Shor, com duas citações; e Pedagogia da Solidariedade, com Nita Freire e Walter Ferreira de Oliveira, obra referenciada em um estudo.
Num segundo momento, buscamos a íntegra dos trabalhos apresentados na ANPEd (2026), para mapearmos as abordagens metodológicas praticadas nos trabalhos e as citações diretas a Freire, observando os conceitos e o diálogo entre Freire e os autores mais referenciados junto com ele.
Os procedimentos seguiram da leitura orientada à extração das citações diretas feitas a Freire, auxiliada pelo software de pesquisa Mendeley (versão v1.19.4), que possibilitou o fichamento dos textos, objetividade e precisão nas buscas aos autores de referência, termos e conceitos e o cruzamento de dados.
As citações a Freire foram organizadas em planilhas do Excel, o que permitiu seu posterior agrupamento em torno dos núcleos conceituais, com base nas unidades semânticas apropriadas das teorizações freirianas. As abordagens metodológicas mais praticadas nas pesquisas que citaram Freire foram mapeadas bem como os autores mais citados com Freire.
A operação histórica, nessa perspectiva, consistiu em recortar e arrumar os termos, conceitos e pressupostos referenciados, em explicitar e analisar os nexos entre as citações e os contextos investigados, buscando demarcações frequentes nas apropriações dos pesquisadores, exceções e diferenças pertinentes, a relação que as regularidades mantêm com as particularidades, visando indicar as ausências e abrir lugar para as tendências e perspectivas futuras.
O mapeamento das apropriações das teorizações freirianas indicou as principais demarcações das perspectivas privilegiadas pelos pesquisadores dos trabalhos sobre formação continuada de professores na ANPEd (2026). Essas perspectivas abarcam múltiplos termos, conceitos e pressupostos, que incluem concepção de mundo, sociedade e educação, perspectiva de história, cultura, relações de poder, ciência e método, abordados em relação à formação permanente, termo utilizado pelo autor.
Agrupados em torno dos núcleos conceituais mais destacados nas citações diretas ao autor, observamos que as apropriações para a elaboração conceitual e seus nexos, identificadas nos trabalhos, se dão em torno dos seguintes termos, conceitos e pressupostos (Figura 2):
Apropriações a partir das teorizações de Paulo Freire nos trabalhos sobre formação continuada dos Grupos de Trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação 2008-2019.
As proposições conceituais, orientadas pela teoria freiriana, expuseram os sentidos produzidos sobre o objeto de pesquisa, efeitos sobre o modo de perceber o objeto e as unidades históricas ou os níveis de análise praticados, como detalhamos a seguir:
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• Consciência do inacabamento humano: expressa a relação existencial humana com o conhecimento, diante do qual os homens e mulheres se reconhecem inacabados e inconclusos e, portanto, precisam se colocar em abertura para aprender com o outro e com a crítica sobre o próprio conhecimento, processo que passa pela autoavaliação e pelo investimento na sua formação;
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• Formação docente e formação permanente: aliada à compreensão da realidade prática e suas múltiplas relações, a formação permanente é espaço privilegiado de diálogo sobre a educação e a escola, de aprendizagem da docência, de busca por conhecimentos, de reflexão crítica sobre a prática, de reconhecimento do professor como sujeito de sua prática. A formação permanente, segundo os trabalhos, é condição para a produção de saberes fundamentais na constituição da identidade docente, da socialização do conhecimento no aprender e ensinar em comunhão. Essa formação precisa estar alicerçada em rigorosidade metódica e ser sistematizada, a fim de que seja ampliada, politizada e epistemologicamente referenciada, como oportunidade de debate sobre os avanços científicos do conhecimento humano;
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• Reflexão crítica sobre a prática: assenta-se na problematização da experiência anterior, na seleção de conhecimentos mobilizados para a solução dos desafios enfrentados pelo professor e na disposição para a mudança, de modo que a formação deve instrumentalizar o professor a confrontar e recriar teoria e prática na produção da práxis educativa. A reflexão crítica leva à tomada de consciência e ao posicionamento político do professor como responsável pela transformação da própria prática;
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• Diálogo: percebido como movimento dos homens em direção à educação em comunhão, mediatizados pelo mundo, por meio de uma rede de aprendizagem em colaboração, na qual um ajuda o outro a desenvolver-se, e todos aprendem juntos;
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• Mudança/transformação da realidade social e intervenção no mundo: a formação permanente é um movimento coletivo em torno da educação, por isso a prática político-pedagógica deve ser séria e comprometida, baseada em múltiplos conhecimentos e no desenvolvimento de competência pessoal, técnica e política, em que se incluiu respeitar os saberes dos estudantes, considerar a estética e a ética da ação docente, aceitar o risco de aderir ao que é novo, aprender a atuar coletivamente, saber dialogar, dispor-se a pesquisar sobre o objeto de ensino e a escolher os métodos mais adequados;
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• Dialética: em torno do ato de conhecer, problematiza-se a relação entre teoria e prática, conteúdos locais e globais, saberes advindos das classes populares, finalidades de intervenção na realidade. O processo dialético entre teoria e prática assenta-se na premissa de que toda prática tem uma teoria e, com base na sua prática, os educadores precisam reconhecer as teorias nela existentes. Também se constitui a abordagem metodológica de alguns estudos, como perspectiva epistemológica na produção do conhecimento;
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• Docência como espaço de ação política: na compreensão de que a práxis freiriana não separa o ato educativo do ato político, os trabalhos problematizaram as questões políticas e ideológicas no saber-fazer da formação; na concepção do professor como sujeito da própria prática; na conscientização que implica admitir a ausência de neutralidade na educação; na tomada de decisão em direção à análise crítica da prática, com abertura para a transformação; na acepção da escola como centro de recriação das culturas, centro de debates de ideias e de organização política, onde as classes populares vão sistematizando sua própria experiência;
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• Educação bancária: esse conceito é apropriado na crítica à educação formal, categorizada como “bancária” quando pautada na transferência hierarquizada de conteúdos aos estudantes, desvalorizando ou negando as suas culturas. Com essas reflexões, os trabalhos consideraram o papel da formação permanente em ajudar os professores a contextualizar e problematizar a realidade concreta dos jovens e adultos, com base na dimensão dialética entre a leitura do mundo, que antecede a leitura da palavra; no respeito aos saberes discentes; no desenvolvimento de práticas pedagógicas emancipatórias, voltadas ao exercício da atitude crítica e à afirmação da cidadania, fundamentada na construção de um ambiente educativo dialógico e historicamente contextualizado.
Considerando-se que a teoria freiriana não separa o ato educativo do ato político, observamos que as apropriações às teorizações, na maioria dos trabalhos, assumem as práticas de formação continuada e de pesquisa em sua dimensão política e filosófica, impondo-se à inserção na sua obra como princípio a ser vivido nas experiências investigadas. Entretanto, nas apropriações de alguns trabalhos, notamos o esvaziamento da dimensão política freiriana na compreensão dos processos formativos docentes, principalmente nos usos da concepção de diálogo e na ideia de inacabamento humano.
Em algumas demarcações, a concepção de diálogo parece restringir-se à conversa informal entre professores e não é explorada em suas potencialidades na produção do conhecimento ou como necessidade existencial humana, perspectivas assumidas pelo autor. Dessa forma, desconsidera-se a força da perspectiva dialógica freiriana, numa relação com a problematização, com a ideia de autoridade, de horizontalidade e de uma série de elementos que atravessam e possibilitam a leitura de mundo.
De igual modo, a ideia de inacabamento humano é abordada em dimensão pouco problematizadora dos contextos histórico e cultural, caminhando mais em direção à abertura individual à formação do que na perspectiva de produção coletiva do conhecimento. Em três estudos, o autor é indicado nas referências bibliográficas, porém não é citado no corpo dos textos.
As leituras baseadas em Freire, no GT-08, tiveram centralidade no pressuposto de que a formação continuada de professores se dá por meio da reflexão crítica sobre a prática. Dos dez trabalhos apresentados no GT-08, cinco se apropriaram dessa perspectiva e, de forma menos recorrente, discutiram a incompletude e o inacabamento humano diante do conhecimento (dois estudos), a constituição da docência no movimento dialético entre ensinar e aprender (dois estudos), a valorização das experiências dos professores como forma de produção de conhecimentos (um estudo) e a formação de competência pessoal, técnica, política, estética e ética na função docente (um estudo).
Para isso, destacam a necessidade do diálogo como forma de aprender com o outro (três estudos), assinalam a atuação docente como ato político (dois estudos), recusam os processos bancários de formação (dois estudos), acenam para a emancipação humana com base no pensar certo e atuam contra a manipulação e a falsa consciência de mundo (um estudo).
Com essas apropriações de Freire, no GT-08, apenas o pressuposto de reflexão crítica sobre a prática se apresentou como integrante do núcleo teórico em maior circularidade dentre os trabalhos, convergindo com os conceitos dos autores mais referenciados no período, António Nóvoa e Maurice Tardif, que também preceituam a formação continuada de professores como movimento que se dá pela reflexão sobre a prática.
Embora Freire seja o quarto autor mais citado no GT-08, e a ideia de reflexão mova o sentido que se atribuiu à formação continuada, a centralidade do debate sobre as práticas institucionalizadas de formação levou os autores dos trabalhos apresentados na ANPEd (2026) a elegerem pressupostos que tangenciam a profissionalização docente, os saberes docentes e a reflexão sobre a prática, nas relações que se estabelecem com os contextos das políticas na atuação docente, conceitos mais apropriados de Nóvoa, Tardif e García, do que de Freire. Com isso, podemos desperdiçar o potencial crítico da teoria freiriana, reconhecida internacionalmente, sobretudo por ser constituída no contexto brasileiro, na problematização de questões sobre o trabalho docente e o posicionamento político em face das contradições que o contexto atual impõe à formação, que poderiam fortalecer as pesquisas e práticas de formação continuada.
Freire é ator em tempos políticos complexos da história da educação brasileira, no século XX, que marcaram suas primeiras obras com um caráter político crítico à educação e aos contextos sociais. Freire explicita e sistematiza o conceito de reflexão, publicadas a partir de 1978, e sobre o qual acrescenta duas novas categorias, a crítica e a formação permanente, resultando na ideia da condição de inacabamento do ser humano e consciência desse inacabamento. Essas constatações demonstram que o pensamento de Freire está em debate antes da chegada das publicações de António Nóvoa, Maurice Tardif e Carlos Marcelo García ao Brasil, até mesmo como precursor de ideias como reflexividade crítica sobre a prática, apoiada numa análise emancipatório-política, no seu contexto sócio-político-econômico-cultural mais amplo.
Observamos, no conjunto dos GT da ANPEd (2026), os autores que são citados junto com Freire, diálogos que incluíram Nóvoa como o autor mais presente (Figura 3).
Autores referenciados três ou mais vezes em trabalhos sobre formação continuada que citam Paulo Freire nos Grupos de Trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação 2008-2019.
A interlocução entre Freire e Nóvoa dá-se, sobretudo, calcada na ideia de reflexividade crítica sobre a prática, conforme apontamos. Os demais autores mais citados junto com Freire foram Vera Maria Candau, Maria Isabel da Cunha e Maurice Tardif, interlocução que colocou em questão a didática, a docência e a prática pedagógica.
O debate apropria-se do pensamento de Paulo Freire e de Vera Maria Candau na compreensão da prática pedagógica e seus determinantes político-sociais, como objeto da didática intercultural, em que se articulam as dimensões humana, técnica e política, que tomam o “como fazer” articulado ao “para que fazer” e ao “por que fazer.” Com pressupostos de Candau, aponta-se a necessidade de repensar a formação inicial e continuada, considerando-se a condição de inacabamento humano, apontada por Freire, como movimento permanente ao longo da carreira docente, centrada na escola, na perspectiva de reflexão sobre as práticas.
A construção teórica dos trabalhos que articularam Paulo Freire e Maria Isabel da Cunha colocou em debate a docência na educação superior como atividade complexa, que exige saberes específicos, com forte componente de construção na prática. A reflexão sobre a naturalização da docência, em que o professor ensina com base na sua experiência como aluno, mantém a reprodução cultural dos conteúdos e forma menos professores e estudantes transformadores dessa realidade, visto que os sujeitos se reduzem à condição de objetos um do outro.
Na perspectiva do debate sobre a pluralidade dos saberes docentes, com Paulo Freire e Maurice Tardif, os trabalhos problematizam a prática pedagógica, cabendo à formação continuada tomá-la como objeto de reflexão crítica, estudos e pesquisas, no exercício das funções docentes em sala de aula, retirando o professor desse lugar de executor de técnicas em que é colocado em muitos programas educacionais no Brasil. As apropriações problematizam os saberes fundamentais à prática educativo-crítica ou progressista, como objeto de estudo e conteúdos obrigatórios à organização curricular da formação docente.
OPERAÇÕES METODOLÓGICAS PRATICADAS NOS TRABALHOS DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO
A circularidade dos pressupostos freirianos, no campo de pesquisa da formação de professores, parece implicar, de alguma forma, as práticas formativas e redefinir as abordagens de pesquisa no espaço concreto da escola e da sala de aula. Sendo o professor o sujeito da ação pedagógica, pesquisar com esses pressupostos instaurou debates sobre as metodologias qualitativas de pesquisa, para dar visibilidade às experiências de formação produzidas na dimensão microssocial, antes negligenciada pela lógica positivista.
As abordagens metodológicas praticadas nos estudos dos GT da ANPEd (2026) que tiveram Freire entre as referências indicam a prevalência de pesquisas qualitativas, do tipo (auto)biográficas e história de vida/narrativa (16%), pesquisa-ação (14%), estudo de caso (11%) e estudo bibliográfico (11%). Como técnicas de produção de dados, destacaram-se as pesquisas com entrevistas (13%) e com questionário (8%) e outras relacionadas na Figura 4.
Modalidades e técnicas de pesquisa praticadas tendo Paulo Freire como referência nos trabalhos sobre formação continuada nos Grupos de Trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação 2008-2019.
A teoria de Paulo Freire alicerçou o método dialógico de levantamento de problemas, elaborado com base em uma visão de mundo ancorada na curiosidade epistemológica. Freire é o idealizador da pedagogia crítica, cujas inferências destacam a reflexão crítica sobre a práxis pedagógica como princípio da formação permanente do professor e da pesquisa.
Os trabalhos revelaram a tendência de maior articulação da universidade com a escola pública, a ênfase na participação ativa do pesquisador na formação dos participantes, nos significados atribuídos à prática, no estudo de narrativas e metodologias sustentadas na ligação da pesquisa com a intervenção nos processos formativos, com o objetivo de promover transformações e contribuições à formação do professor em situação de pesquisa e à prática pedagógica.
Alinhada ao amplo espectro da pesquisa-ação, a maioria dos estudos investigou os fenômenos no processo de mudança promovido, contribuindo para a transformação de uma situação observada. Essas experiências de intervenção foram fundamentadas, em sua grande maioria, na perspectiva crítica, com a apropriação de referenciais e pressupostos da pesquisa dialética de Paulo Freire.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No que tange à compreensão das epistemologias dos debates, em se tratando dos autores mais referenciados, reconhecemos os fundamentos das ciências humanas e sociais como os mais presentes nas teorizações das pesquisas sobre formação continuada de professores. Entretanto, o debate sobre a formação continuada problematizou pouco suas relações com o trabalho docente e com as políticas educacionais, tendo enfatizado o debate sobre a profissionalização docente.
A perspectiva de desenvolvimento profissional, capturada pela lógica neoliberal, tem se concentrado no ideário abstrato e inalcançável de certificação de competências, privilegiando as estratégias de regulação do trabalho docente, a formação de professores orientada ao domínio de técnicas, as políticas definidas nos altos escalões, aos programas de formação em larga escala voltados para resultados nas avaliações internacionais.
Esses movimentos fundamentados no modelo produtivista econômico não deram conta da complexidade da ação docente, em suas múltiplas facetas, nas quais se consideram, de início, as condições de vida e de trabalho dos professores. Ao desvincular o debate sobre a formação continuada do trabalho docente, podemos abrir espaço para o avanço de práticas de formação continuada aligeiradas e instrucionais, fundamentadas na racionalidade técnico-instrumental e gerencialista, com aprofundamento da precarização do trabalho docente.
Diante disso, investir no potencial crítico-emancipatório da teoria freiriana, em estudos de perspectiva sócio-histórica e política, pode contribuir com pressupostos consoantes à realidade brasileira, que não se apresenta de maneira uniforme e igualitária para todos os professores. Nessa direção, reiteramos a necessidade do acolhimento a uma perspectiva de formação continuada que se dá no cerne da luta por reconhecimento social e condições de trabalho, como forma de constituição da identidade docente, pautada na análise das contradições das políticas, nos múltiplos contextos em que são praticadas.
Sinalizamos que Freire é referenciado com autores das tradições críticas e pós-críticas de pesquisa, em estudos ancorados nas epistemologias da prática e crítica. Dado o ecletismo nas apropriações da teoria freiriana, demarcado na multiplicidade de conceitos e pressupostos elencados, muitas vezes não apropriados na dimensão política que marca vida e obra do autor, assim como a reiteração de frases muito conhecidas e em circulação nos diversos campos de pesquisa em educação, apontamos como importante a vigilância epistemológica nas pesquisas sobre formação continuada de professores. Isso para que Freire não seja apropriado como uma nova retórica e reduzido à figura de estilo que “serve para tudo,” aplicável como utensílio decorativo (Certeau, 1982).
A teoria freiriana, apropriada em sua dimensão epistemológica, pode ajudar na contextualização crítica do problema, a problematizar e colocar em questão as práticas de pesquisa e de formação continuada entre escolas e universidades, sobretudo com a compreensão de que o conceito de diálogo, em Freire, fundamenta um método de pesquisa e exige uma postura política investigativa rigorosa e solidária na produção coletiva do conhecimento.
Diante da crise democrática em curso no Brasil, do desmonte das instituições públicas, do desprezo à comunidade científica, da violência ao pensamento divergente e da violação aos direitos humanos, o debate com Freire, na ANPEd (2026), fortalece o intuito de acautelar as políticas educacionais já constituídas e rebater as proposições insurgidas fora do debate acadêmico e do interesse social.
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Como citar este artigo:
ASTORI, Fernanda Bindaco da Silva; VENTURIN, Silvana. Apropriações epistemológicas de Paulo Freire nos debates sobre formação continuada de professores na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Revista Brasileira de Educação, v. 31, e310011, 2026. https://doi.org/10.1590/S1413-24782026310011
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Financiamento:
O estudo não recebeu financiamento.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis em https://educacao.ufes.br/pt-br/pos-graduacao/PPGE/teses-defendidas.
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Editor/a responsável:
Andressa Santos Rebelo https://orcid.org/0000-0003-1873-5622
Os dados de pesquisa estão disponíveis em https://educacao.ufes.br/pt-br/pos-graduacao/PPGE/teses-defendidas.





Fonte: Elaborada pelas autoras.
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