Open-access Desordenadoras formas de enunciação de si: Motivos de Proteo e a reflexão sobre a originalidade latino-americana

Disruptive forms of self-enunciation: The Motives of Proteo and some reflection on latin american originality

Resumo

Este texto analisa o livro “Motivos de Proteo”, de José Enrique Rodó, cujo longo processo de estruturação foi minuciosamente concebido, reescrito e compartilhado em cartas, consolidando uma rede literária com a finalidade de interconectar intelectuais de diversas partes do mundo em torno da reflexão latino-americana. Argumentamos, por meio da análise dos originais da obra, consultados no Arquivo do autor, que Rodó compila uma leitura sobre a originalidade do continente a partir de uma vasta coleção de livros e de ideias dispersas pelo mundo letrado internacional, conjeturando sobre as diversas formas de constituição da personalidade e a impossibilidade de se aprisionar o sujeito moderno em uma identidade fixa.

Palavras-chave
José; Enrique Rodó; originais de Motivos de Proteo; arquivo; América Latina; identidade

Abstract

This article aims to analyze the book “Motivos de Proteo”, written by José Enrique Rodó, whose long structuring process was shared in letters, consolidating a literary network with the purpose of interconnecting intellectuals from different parts of the world around Latin American reflection. We argue, through the analysis of the originals of the work, consulted in the author's Archive, and part of his correspondence, how Rodó compiles a reading about the continent's originality from a vast collection of books and ideas dispersed throughout the international literate world, conjecturing about the diverse forms of personality constitution and the impossibility of imprisoning the modern subject in an immovable identity.

Keywords
José; Enrique Rodó; the Motives of Proteo originals; archive Latin America; identity

1. Introdução1

O uruguaio José Enrique Rodó (1871-1917) integra uma geração de escritores que despontaram no final do século XIX e alvorecer do XX, que lidou de modo muito intenso com a ideia de formação de uma inteligência continental, a fim de pensar projetos, objetivos e diversos debates sobre a cidadania e o futuro da região pós emancipação política. Esses autores realizaram a articulação entre a intelectualidade hispano-americana e a espanhola em diversos formatos: por meio de revistas, cartas, artigos, manifestos, prólogos, aforismos, novelas filosóficas, entre outros; reafirmando a história compartilhada entre as nações do continente.

A contribuição rodoniana pode ser lida na nossa percepção, como um discurso pedagógico que moveu grande parte da retórica geracional do início do século XX, e abriu vasos comunicadores com uma sociedade que procurou, na cultura, as suas bases identitárias, os seus conteúdos integracionistas e novos fundamentos de valor, frente às alterações ocorridas com a virada de século. Seus trabalhos como crítico literário e de cultura refletiu de forma aprofundada as principais correntes literárias do modernismo hispano-americano, sintetizando as preocupações subjacentes de sua geração, como a busca pela profissionalização na literatura e a criação de políticas culturais e educacionais.

As obras de Rodó abarcaram gêneros importantes para o desenvolvimento da literatura hispano-americana daquele contexto, e se destacaram principalmente pelo ensaio e pela crítica literária, além do seu papel no processo de incentivo à especialização do papel do escritor e do intelectual na esfera pública. O seu percurso representa um projeto de mudança do “homem de letras” do século XIX para o intelectual moderno, que busca realizar conexões e estabelecer projetos editoriais.

Rodríguez Monegal (1967) destacou, especificamente sobre “Motivos de Proteo”, que a obra possui textos que se revestem de grande significado autobiográfico de José Enrique Rodó. Essa seria a obra mais ambiciosa do autor, embora sua versão final nunca tenha se concretizado visto que em seu plano original ela seria composta por cinco livros e uma introdução. O que está publicado em 1909, que compreende 158 capítulos, tinha como base o livro V do projeto original. Essa parte se referia à evolução da personalidade. As condições de elaboração deram a esse texto um caráter fragmentário, que ia e vinha, como as ondas, já que Proteo tinha a forma de mar, metaforizando a consciência do sujeito que está em busca de seus objetivos vitais.

Rodó adverte no prólogo do livro que se trata da seleção de um material mais volumoso. O leitor já é advertido na primeira página sobre a sua condição inconclusa e fragmentária: “e nunca PROTEO se publicará de outro modo que deste; quer dizer, nunca lhe darei ‘arquitetura’ concreta, nem término forçoso; sempre poderá seguir se desenvolvendo, ‘vivendo’” (Rodó, 1967, p. 308-309).

Roberto Ibáñez (1967), o primeiro a se deparar com os arquivos inéditos do autor, doados à Biblioteca Nacional de Uruguay (BNU) pela família, nos anos 1940, encara esse período de escrita como um ciclo que iniciou em 1898, e que deveria assumir a forma epistolar. Em um contexto marcado por um intenso processo de especialização, técnica e de apego à ideologia do progresso, Rodó irrompe com seus “Motivos de Proteo” em favor de um ideal cultural que pudesse trazer ao conjunto de seus leitores uma reflexividade, em contraposição ao ritmo intenso da vida moderna. Os temas abordados na obra giram em torno da consciência do indivíduo moderno, do processo de conformação de sua subjetividade e da construção de um novo sujeito do conhecimento. Por isso, o assunto da procura pelas verdadeiras vocações toma grande parte de suas preocupações no texto.

Motivos de Proteo” utiliza como forma a perspectiva do diálogo, incorporando conselhos, parábolas e ensaio. Essa natureza híbrida do livro projetou se estruturar a partir de uma concepção atemporal de subjetividade, seu objetivo era a produção de um escrito de estrutura cronológica e espacial compósita, intrincada e irregular, o que representaria a pluralidade de épocas, lugares, vida social, portanto, seu objetivo ambicioso era tocar, de alguma maneira, a universalidade Ocidental a partir do Uruguai.

Neste artigo, temos como objetivo debater e analisar “Motivos de Proteo” a partir da análise dos originais da obra, conservados no Arquivo José Enrique Rodó, sob a guarda da BNU, a fim de observar os rastros deixados pelo artista do seu processo criativo. Nesse sentido, o mito da obra que já nasce pronta e acabada exclui qualquer possibilidade de pensar os processos envolvidos na memória do texto, que dialoga com o contexto vivenciado pelo autor. Entendido dessa forma, o arquivo não é um museu com peças fixas e perfeitamente restauradas, prontas para serem mostradas. Deve ser concebido como o oposto, pois ele nos leva a refletir, a averiguar. Além disso, um arquivo é um espaço a ser constituído ao sabor de quem o organiza e o molda, mas também é ambiente aberto a reorganizações e novas leituras vinculadas às questões da atualidade.

Como pondera Cecília Salles (2004, p. 100), a criação excede os limites da linearidade do código e se projeta em múltiplos espaços. A organização do texto na folha, anotações marginais, acréscimos, intertextos e grafismos diversos entrelaçam os discursos, desdobram os sistemas de significação e multiplicam as possibilidades de leitura. “O movimento do olhar nasce no estabelecimento de nexos entre os vestígios. O interesse não está em cada forma, mas na transformação de uma forma em outra”. Os manuscritos possuem significado, ainda conforme a autora, em um contexto relacional. No caso da interpretação sociológica, conforme Liora Israël (2015), o arquivo funciona como matéria bruta a partir da qual construímos interpretações, pois ele não confessa, sim conserva uma relação dialógica com seu leitor. Na nossa concepção, esses documentos de processo aqui mobilizados podem ser lidos como resultado do impacto da modernização sobre o estilo e processo criativo de José Enrique Rodó, que traz a escrita em fragmentos e estilhaços como expressão estética de um mundo social em profunda transformação.

Nossa hipótese destaca a importância de se compreender as dinâmicas de inscrição e circulação de ideias na configuração de uma comunidade intelectual a partir da literatura, que, no caso rodoniano, foi concebida como uma ampla plataforma para comunicar-se com seu entorno e com autores de outras nacionalidades. Acompanhar o processo de produção rodoniano permite discutir como o livro traz dimensões teóricas e formais importantes para pensar horizontes, processos de individualidade e questões sociais que se encontram na interseção entre a sociologia do mundo intelectual latino-americano e o esforço pioneiro de um autor que buscou inserção internacional.

Motivos Proteo” é um livro em movimento, concebido de modo insistente, como atestam as trocas epistolares2 realizadas no período, nas quais transparece como o escritor sempre instigava seus correspondentes com notícias sobre seu processo criativo, que como assinalam os originais do texto, foi bastante conturbado, caótico e artesanalmente pensado. Esses originais compreendem uma quantidade infindável de anotações soltas, com pequenos retalhos repletos de escritos que denunciam as inúmeras leituras que compuseram seu arsenal teórico para a confirmação de sua sensibilidade literária.

Para a exposição do argumento, dividimos o texto em cinco seções, além desta introdução que apresenta o contexto da obra e a conexão com seu Arquivo e das considerações finais. No primeiro eixo apontamos aspectos referentes ao estilo de escrita rodoniano e como a escritura de “Motivos de Proteo” está conectada ao que ele chamou de literatura de ideias, que se traduz pelo diálogo amplo com seus leitores e que está representada nas correspondências trocadas com interlocutores pessoais, com quem compartilhou seu processo de escrita. A correspondência mencionada aqui nos auxilia de modo complementar, no sentido de perceber os desafios enfrentados na concepção da obra, além de confirmarem o formato dialógico do livro, que inicialmente foi projetado no formato de cartas.

Os vestígios observados através dos trechos incansavelmente rascunhados, reescritos e minuciosamente trabalhados, que nos trazem a natureza híbrida do texto rodoniano, encarado enquanto construção de forma, também está refletindo a natureza daquele contexto literário e intelectual hispano-americano, fortemente acometido pela intensa interação entre o Uruguai e o mundo. O estudo de caso centrado nessa etapa de produção do seu livro mais ambicioso é relevante para discutir essa busca pela universalidade requerida pelo autor, cujas formas de enunciação de si (escritor/artista, indivíduo) e também de sua sociedade servem como metáfora das formas como o continente também buscava definições, não à toa a emergência de diversos personagens representativos desse período inconstante, incerto e fraturado, que deu origem a um trabalho colecionista a fim de elaborar definições e projetar futuros.

Na terceira seção apontamos como a forma de escrita do texto foi constituída a partir da técnica do colecionismo. Para tanto, ressaltamos, em seus materiais preparatórios, o formato das anotações, supressões, escritas não lineares e citações de diversos autores localizados em muitas temporalidades. Por fim, na seção quatro, nos debruçamos sobre o tema específico da originalidade latino-americana presente no livro, que, na nossa visão, trata-se de um compósito constituído a partir das inúmeras leituras e também na apresentação de Glauco, personagem enigmático que denota a liberdade de transformação humana em outras formas que transcendem o âmbito físico e temporal.

2. Um livro universal ordenado à maneira latino-americana

Para apresentar as ideias gerais de “Motivos de Proteo”, é preciso situar o livro em seu contexto. Conforme García Morales (2004), as diversas formas do espiritualismo presente na época entendiam o homem como um ser ativo, espontâneo e livre, e a prosperidade do continente estaria vinculada à prosperidade intelectual e à diversidade humana que a modernidade podia proporcionar. Na composição do texto, toda essa multiplicidade serviu como o incentivo à postura reflexiva sobre a transformação da personalidade. O tema da personalidade na obra é de extrema relevância, e, segundo Ibáñez (1967), a personalidade aparece a partir de dupla categoria, a do homem enfrentando a si mesmo e a dos seus povos tentando estabelecer caráter próprio.

A conferência de Jesús Castellanos, escritor e crítico cubano, proferida no Ateneu de Cuba, em 6 de novembro de 1910, ilustra de modo muito interessante como o aparecimento de “Motivos de Proteo” foi celebrado pela crítica literária internacional do momento. Segundo sua análise, o significado da obra:

Para as inumeráveis vítimas da neurose moderna, para os tristes e para os frágeis, para os inadaptados por uma estranha preocupação, para quantos que se sentiram derrotados por um primeiro obstáculo em que se quis provar sua energia, este livro é uma afortunada panaceia de redenção (Castellanos, 1920, p. 67).

Dessa maneira, o texto foi lido como um anseio de gravar o testemunho do sujeito angustiado pelo esvaziamento de sentido promovido pela modernização, tema muito enfatizado nas reflexões do crítico. Castellanos complementa que o livro foi comentado durante meses nas folhas jornalísticas voltadas ao tema, e os elogios tecidos não tinham reservas à “nova bíblia da esperança” (Castellanos, 1920, p. 68). A anêmica literatura continental, feita de reflexos das escolas francesas e de improvisação, recebia a obra de braços abertos. Dessa forma, podemos observar como o tema do desenvolvimento das individualidades, presente no livro, foi ressaltado pelos contemporâneos à obra como algo digno de nota. Também é interessante apontar que Castellanos sublinha a experiência histórica comum do continente, visto ainda a partir da sua fraqueza literária, mas que a partir do livro configurava possibilidades para o novo, o inédito.

Alfonso Reyes (1996), que batizou a obra como “El libro amorfo”, marcado pela não fixidez de um princípio e um fim, teria uma perspectiva indefinida, cujo espírito esgota sua versatilidade essencial. Belém de Castro Morales (2004) observou que Alfonso Reyes foi o primeiro a analisar a importância da forma da escritura de Rodó nessa obra. Segundo o crítico mexicano, a definição de “um livro amorfo” representava “Motivos de Proteo”, que teria um feito fundacional na tradição hispânica. Diante do livro clássico, sólido, a obra rodoniana seria um livro moderno, “líquido”, fluente e, por isso, psicológico, pois se desenvolve como uma consciência em movimento que divaga, articula fragmentos e consolida uma narrativa aberta às possibilidades de enfrentamento de desafios do indivíduo moderno. Para Reyes, a obra aporta o variável e o mutável do pensamento em direção a todos os rumos do espaço sem dimensões fixas. Os artistas dessa geração combinam diversamente, no tempo, os elementos da herança comum, e a manifestação literária seria, como a realidade, que também é dinâmica, não possui forma fixa e sólida. “Os livros deixam de ter princípio e fim: são uma perspectiva indefinida onde o espírito esgota sua versatilidade essencial” (Reyes, 1996, p. 296).

As análises de Castellanos e Reyes apontam para a importância que a obra adquiriu para a geração de autores do início do século, e pode ser vista como espelho moral de uma geração (Ibáñez, 1967) preocupada com a construção de um latino-americanismo letrado.

Segundo Carlos Real de Azúa (1950), o ambiente espiritual dos 900 uruguaios não é marcado por uma única ideologia, mas sim atravessado pelo signo do controverso e do caótico. O positivismo, em todas as suas modalidades, se situava em um plano intermediário entre as chamadas correntes renovadoras de alguns pensadores que sobressaiam naquele momento, como, por exemplo, Nietzsche, Le Bon, Kropotkin, France, Tolstoy, Stirner, Schopenhauer, Ferri, Renán, Guyau e Fouillée.

Real de Azúa (1950) destaca que o texto “El que vendrá”, de José Enrique Rodó (1896), denuncia as diversas angústias geradas por uma inquietude histórica e de uma iminente revisão intelectual. No opúsculo, Rodó realiza uma análise sobre as inquietações do final do século XIX, denunciando a preocupação com os tempos vindouros. Além disso, relata presságios e incertezas que clamam por rumos a serem trilhados: “a Dúvida é em nós um ansioso esperar; uma nostalgia mesclada de remordimentos, de desejos, de temores; uma vaga inquietude na qual entra por muita parte a ânsia de crer, que é quase uma crença” (Rodó, 1967, p. 154).

é recorrente no texto a busca de uma filosofia que pudesse oferecer um futuro para uma geração marcada pela incerteza do que virá, e que estava sucumbida ao engrandecimento material e objetivo como novo padrão de sociabilidade e de comportamento, elementos criticados por Rodó (1967) em “Ariel”, anos mais tarde. Além disso, as crenças religiosas e espirituais que foram abaladas por um processo de secularização do intelectual também estão tematizadas.

O fator que encerra esse período, e de alguma forma oferece mais clareza para as incertezas finisseculares, na leitura de Real de Azúa (1950), foi o momento de muitos centenários das nações continentais, em 1910, que esteve subjetivamente marcada por essa mentalidade de balanços e prospectos. A sociologia praticada nessa época trouxe diversos selos e correntes, foi causalista, determinista, mesológica, tendeu a assimilar o psíquico e o social às realidades da natureza, examinando-os a partir dos métodos específicos dessas ciências, e tinha uma ambição de abarcar formas totalizadoras.

Dessa forma, “Motivos de Proteo” se insere nesse contexto e está fortemente vinculado ao tema da renovação. De forma multidisciplinar, essa característica múltipla deixa dúvida sobre sua localização disciplinar, como destacou Helena Costábile (2009), o que é típico de uma rica tradição de pensamento desenvolvida no ensaio hispano-americano do século XIX.

Do mesmo modo, a geração dos 900 também era marcada por um autodidatismo. Com exceção de Carlos Vaz Ferreira (1872-1958), os integrantes não foram universitários. Alguns, como Rodó, estavam lateralmente vinculados à universidade, como catedrático de literatura. Além disso, havia leituras partilhadas entre eles, mas a assimilação das mesmas era diferente. O que unia esse grupo era a experiência fundamental para todos, o modernismo literário (Rodríguez Monegal, 1950).

O conceito de literatura finissecular estava se redefinindo em resposta ao alto grau de fragmentação implicado na nova divisão do trabalho. Segundo Júlio Ramos (2008), a oposição arte/expressão é impressionante e, mesmo em autores que criticavam o individualismo, a atividade literária passava a ser uma prática complexa e calculada.

Como sugeria Rodó (ainda que nostalgicamente), o novo reino interior começa a se esvaziar de referente pessoal. Uma das funções desse eu é operar como o pronome do sujeito literário. A estilização é um dos processos em que assume forma um tipo de autoridade que já não se legitima na política, na história, na informação ou na psicologia. A legitimação se funda no aporte com que a literatura - segundo seus meios específicos de trabalho - podia contribuir para a sociedade (Ramos, 2008, p. 199).

Foi nesse território, marcado pela divisão do trabalho, que a literatura observou formas de atualização. A defesa da cultura, ainda conforme Ramos (2008), se converteu em um meio para a refuncionalização dos intelectuais tradicionais, que passou a representar um paradoxal dispositivo de adaptação da modernidade ao requisito de especialização que o capitalismo impunha como modelo aos diferentes tipos de trabalho. “A literatura podia prover à sociedade moderna, à beira da fragmentação, essa mediação com o um, a ‘junção maravilhosa’ que a atomização provocava” (Ramos, 2008, p. 244).

O contexto de composição de “Motivos de Proteo” foi profundamente marcado por essa emergência da cultura como resposta à fragmentação moderna. A literatura que se nutria do projeto culturalista continental se localizava no entremeio de criação de espaços comuns de pertença, a partir de um movimento de religação continental e de demonstração da autonomia literária, e, ao mesmo tempo, uma internacionalização da produção literária como estratégia de divulgação do pensamento produzido na hispano-américa.

Rodó acessou autores de diversas partes do mundo e de diferentes temporalidades, realizou uma interação com inúmeras produções, constituindo uma geografia bibliográfica complexa, por isso, na nossa visão, sua obra pode ser lida na chave de um universalismo constituído a partir de muitos esforços. Principalmente a partir da tradução e incorporação das leituras ecléticas que buscava fazer, demonstrando a grande sedução que exercem os imaginários hegemônicos3 como instrumento de mediação para pensar a personalidade e conferir visibilidade às formas heterogêneas de pensamento, portanto, o desejo de superar os debates localistas e a aposta em enfoques literários metropolitanos foram a forma prévia para conceber seu livro.

O livro “Motivos de Proteo” partia da concepção transcendente da ideia de pátria, que não estava formada por fronteiras fixas, inalteradas e imperiais, mas que projetava a organização coletiva da intelectualidade como possível centro irradiador e produtor de saberes. Todos esses elementos conferem um desejo de alcançar um potencial universalista de literatura, principalmente porque, como veremos, inicialmente o projeto do autor era publicar o livro fora de seu país. Além disso, Rodó se utilizou de estratégias de divulgação da obra para seus parceiros intelectuais a partir do envio de trechos do livro em cartas, publicação de excertos em revistas, estratégias possíveis em um momento em que o mercado editorial do continente passava por aperfeiçoamentos e conformações. Rodó também se queixava da falta de inspiração, motivada por crises pessoais, ou devido a acontecimentos políticos que assolaram seu país no período.4

Reiteradas vezes escreveu ao seu mais intenso e íntimo correspondente, Juan Francisco Piquet, que o tempo que podia se dispor era para seguir “escupindo seu Proteo” (Rodó, 1967, p. 302). Como um estudioso contumaz, apontou em vários momentos nas cartas enviadas ao amigo que havia consultado mais de 100 volumes de obras bibliográficas para construir seu projeto literário, procedimento que o muniu de argumentos e, ao mesmo tempo, foi fundamental para inaugurar um campo teórico e literário, a chamada literatura de ideias. Juana Venegas (1998) definiu essa literatura como uma forma de pensamento compreensiva, que valoriza igualmente as ideias criadoras e o debate que condicionam e explicam o desenvolvimento humano, social e político dos povos. Tratava-se de uma literatura cuja base de pensamento era ampla e que tentava traduzir um pensamento. Segundo Real de Azúa (2001), a literatura de ideias abre mão da impessoalidade e da objetividade de exposição ideológica; o discurso ocorre de maneira comunicativa com o leitor.

Desse modo, esse tipo de literatura foi utilizado como instrumento para esse intelectual que não restringia suas ideias especificando-as em um campo, estilo ou se alimentando de temas específicos, uma vez que via como necessário observar os problemas do continente a partir de diversas perspectivas, desde a sociologia, educação, política, arte, psicologia, filosofia até a religião. Em um dos primeiros rascunhos da obra, onde descreve o chamado mito de Proteo, encontramos a seguinte afirmação: “o primeiro para renovar-se e transformar-se é ter fé na possibilidade de transformar-se” (5714).5

Em carta escrita em 1904 a Piquet, o autor confessou que os dados encontrados nos livros lhe serviam como esboço inicial, mas seriam juntados e obtidos pelo seu próprio esforço, comparando algumas fontes com outras, e não tirando de três ou quatro livros onde a tarefa já está feita, “como costuma fazer a fácil erudição americana. Eu reúno meus dados um por um e os ordeno à minha maneira” (Rodó, 1967, p. 1347). Rodó ainda aponta, na mesma missiva, que foi positivo escrever o livro não estando na Europa, pois tendo mais elementos de informação a mão não os teria esgotado e demoraria muito mais para compilar as ideias. Em algumas ocasiões, Rodó deixou explícito que almejava publicar o livro na Europa, especificamente em Barcelona. Em carta enviada ao amigo peruano Francisco García Calderón, em 1904, comentou sobre “Motivos de Proteo”: “eu, talvez antes do fim do ano, poderei dar meu Proteo, o farei imprimir na Europa” (Rodó, 1967, p. 1438).

Nessa correspondência, assim como em outras cartas remetidas por Rodó, já atento às exigências da geopolítica do conhecimento e aos efeitos metropolitanos de uma publicação internacional e europeia, lemos o desejo de imprimir a obra na Europa. No entanto, as condições econômicas para concretizar esse projeto não foram possíveis. Esse objetivo de Rodó pode ser confirmado nos rascunhos da obra em 1905, quando ele formula uma capa de abertura e insere Barcelona como o local de publicação. Sobre esse desejo rodoniano, Ibáñez (1967) ressaltou que o autor não pretendia expatriar sua obra, já que todo o texto é um argumento sobre as obrigações superadas pelo homem, em qualquer parte do mundo. Em outra carta, também enviada novamente a García Calderón, datada de junho de 1906, Rodó escreveu: “não abandono meu propósito de ir em breve a Europa. Ali (provavelmente em Paris ou Barcelona) publicarei Proteo, obra extensa em que cifro muitas esperanças” (Rodó, 1967, p. 1439). é nesse diálogo presente em suas cartas que Rodó demonstra o trabalho feito em comunhão. No caso das cartas, essa interação é a condição essencial para o diálogo e para a escrita coletiva.

O leitor deve se esforçar para ler Proteo, pois é um livro de conselhos que guarda uma fé quase religiosa, como apontou Real de Azúa (1957), na grandeza, profundidade e diversidade humana. A narrativa remete a um diálogo, um sujeito em interação com outros personagens, personalidades históricas e metáforas parabólicas, o que coloca em dúvida a noção de gênero ou de uma identidade formatada.

Portanto, não existia para Rodó uma divisão de trabalho de índole colonialista, ele escrevia tanto acerca de temas americanos, como sobre problemas de caráter universal, não se restringindo ao tema da grandeza deslumbrante da paisagem, por exemplo. No seu projeto, o autor rompe com os limites do tempo que o restringe. Busca uma estruturação proliferante e descentrada, que, mais do que enciclopédica, seria rizomática. Seria um modelo de leitura capaz de realizar uma apropriação criativa desses textos e fragmentos mais ou menos breves, para gerar assim as condições que requerem a compreensão desse livro em perpétuo devir (Ette, 2008).

O diálogo com a Europa, que caracteriza o intelectual latino-americano do período, está presente na obra. No entanto, a busca por uma peculiaridade identitária o distingue e não simplifica sua posição a partir da assimilação acrítica. A criação literária, artística e cultural rodoniana recorria a inúmeros elementos e modos inéditos de ler a América Latina. Transitar, mesmo que brevemente e de modo metafórico, pela biblioteca mental de Rodó, nos faz notar que ele resgata da biblioteca ocidental europeia, através das inúmeras leituras que realizou ao longo da trajetória de Proteo, ideias, concepções e enredos para construir a nossa biblioteca, que não seria a cópia ou o simulacro, mas uma constante busca para a consolidação de traços intelectuais originais, o que não quer dizer puros, mas sim uma aposta na América Latina, na sua insistência em ocupar seu lugar no mapa da civilização ocidental.

Silviano Santiago (2000) mencionou como o escritor latino-americano brinca com os signos de um outro escritor, de uma obra, não realiza uma tradução literal, sim uma espécie de tradução global, de pastiche, paródia, digressão, e as leituras do escritor latino-americano não são nunca inocentes. Por isso, a categoria analítica de entre-lugar, estabelecida nos anos 1970 pelo crítico, nos auxilia na exposição do principal argumento desse texto. O autor reflete sobre a imposição violenta dos códigos ideológicos, linguísticos e religiosos determinados como normas pelos colonizadores europeus aos povos nativos do continente latino-americano. à medida que o colonialismo avançava, se apropriava do espaço sociocultural do Novo Mundo, e aos poucos a América se tornava cópia, simulacro, que cada vez se torna mais semelhante ao original, pois sua origem foi apagada completamente pelos pesquisadores.

Santiago (2000) ressalta o neocolonialismo como a nova máscara que aterroriza os países do terceiro mundo no século XX, que é o estabelecimento gradual em outro país de valores rejeitados pela metrópole, é a exportação de objetos fora de moda da sociedade neocolonialista, transformada hoje no centro da sociedade de consumo. Esse renascimento engendrou uma nova sociedade, a dos mestiços, causando uma reviravolta na noção de unidade por gerar uma mistura sutil e complexa entre o elemento europeu e o autóctone, uma espécie de infiltração progressiva efetuada pelo pensamento selvagem, abrindo caminho para conduzir à uma descolonização.

Como resultado disso, o conceito de entre-lugar, de acordo com André Botelho (2019), avança nos modos de definição e compreensão da relação colonial e, ao fazê-lo, desestabiliza as categorias tempo e espaço, apontando ainda o valor heurístico e histórico da diferença e da alteridade sobre a identidade. O entre-lugar considera um lugar concreto e específico, não um mero lugar de passagem, além de reconhecer a impossibilidade de existência de uma forma pura, original. Comover-se através do alheio denuncia a possibilidade de recriar-se como pertencente a uma comunidade e, ao mesmo tempo, o termo sugere uma forma de problematizar a noção de dívida em relação às culturas ocidentais mais antigas.

Rodó problematizou essa perspectiva em muitos momentos, dentre eles em uma carta enviada ao escritor espanhol Miguel de Unamuno, em 1900, onde dizia aspirar despertar com sua prédica um movimento literário realmente sério, a partir de uma ampla base de ideias e com objetivo humano, e ainda aponta que preparava um opúsculo em breve sobre a questão psicológica, esse seria “Motivos de Proteo”, e pede ao mestre conselhos. Em muitos momentos, o autor uruguaio comenta a necessidade de consolidar uma arte e cultura próprias, livres da simples imitação. “Deste modo, a hispanidade assim exaltada, vinha a ser uma inclinação compensatória dos efeitos excessivamente superficiais do cosmopolitismo modernista” (Castro Morales, 1990, p. 175).

Ao mobilizarmos a categoria de entre-lugar na literatura hispano-americana, estabelecida por Santiago, observamos um paralelo com a proposta rodoniana no sentido que o artista se conectou com o esquema de pensamento europeu, aprendeu seus códigos, idiomas, mas não a copiou, e sim contribuiu, ao se incorporar à esfera de pensamento europeu, para que os códigos do Outro, que foi subvertido para forjar o esquema hispanidade/modernismo, com novos elementos, sem cair em imitações. “O artista latino-americano aceita a prisão como forma de comportamento, a transgressão como forma de expressão” (Santiago, 2000, p. 25).

Conforme Ottmar Ette (2000), muitos críticos da obra questionaram a falta de estruturação temática de “Motivos de Proteo”, a superficialidade estética e harmonizadora, a integração de materiais díspares, o uso de gêneros literários heterogêneos, a suposta ausência do tema americano ou as galas exageradas de um estilo superado. No entanto, para o estudioso, o livro forma uma impressionante biblioteca, um vasto arquivo do saber, que funciona, dadas as suas flutuações e incoerências, como uma memória em perpétuo devir.

Rodó concebe a literatura escrita na Europa como europeia, por isso universal, embora teve que reconhecer que essas literaturas adquiriram uma dimensão paradigmática - não normativa - graças a sua longa tradição e ao prestígio de suas diversas formas de expressão colonial. Os insistentes deslocamentos de um intelectual periférico entre Uruguai, França, Espanha e outros países visitados através da leitura, constituíram um intelectual cosmopolita e bastante erudito.

Julio Ramos (2008) destacou que no caso da literatura escrita pelos latino-americanos, não se trata de um sujeito europeu produzindo estereótipos e classificações de uma “estranheza” subalterna e dominável, mas de intelectuais latino-americanos que procuram, nos modernos discursos da biblioteca europeia, as chaves para resolver os “enigmas” e as “carências” da própria identidade. As elites latino-americanas iam à Europa em busca de modelos para disciplinar e ordenar o “caos”, para modernizar e redefinir “o bárbaro” no mundo latino-americano.

Por conta disso, o ingresso pelo mundo da papelaria rodoniana é bastante diverso e trabalhoso. Os originais de José Enrique Rodó constituíram o primeiro arquivo da valiosa coleção, que conta com 40.000 peças, que incluem documentos pessoais, fotos, correspondências, manuscritos, sua biblioteca pessoal e outros objetos de seu escritório, cuja maioria ainda não foi cotejada em estudos acadêmicos.

Os originais de “Motivos de Proteo” são compostos por cinco pastas contendo cerca de 860 fólios, além de onze cadernos preparatórios (Gráfico-poético, Cartelero, Inicial, Garibaldino, Ateneístico, Azulejo, Costarriqueño, Solariego, Disciplinario, Cómico-crítico e Harmanniano). Conforme Roberto Ibáñez (2014), Rodó se valeu de uma curiosa nomenclatura que lhe induzia a memória de seus cadernos, assim pôde individualizá-los, seja utilizando lápis de cor vermelho ou azul, seja escrevendo com tintas de diferentes cores, simbolizando, com alguns desenhos, como se quisesse identificar as temáticas posteriormente.

Segundo Elena Romiti (2025), os cadernos preparatórios de “Motivos de Proteo” conformam um arquivo do qual Rodó se valeu para compor sua obra. O arquivo foi constituído em diálogo com numerosos autores que ele leu e copiou fragmentariamente nas páginas de seus cadernos. Para a autora, um verdadeiro ateneu em que estudou e dialogou com filósofos, científicos e criadores de todas as épocas, desde a antiguidade grega até sua mais recente atualidade.

Os rascunhos sugerem constituir um ambiente propício para o cruzamento de textos e linguagens, de tendências e interconexões construídas por Rodó, e não oferecem caminhos retos e definidores, mas podem apontar atitudes e escolhas realizadas no momento da escrita, que é resultado do ato de recolher e de colecionar ideias, isso permite ao leitor acessar os fragmentos da memória cultural recontada a partir de fontes primárias.

O conhecimento de toda a marginalia presente no Arquivo do autor pode auxiliar nessa busca por estilos, definições de caráter para o continente e, ao mesmo tempo, podem denunciar uma forma específica de como esses intelectuais latino-americanos, como Rodó, estavam concebendo seus conhecimentos sobre a identidade do continente, em diálogo com a Europa.

O traço fragmentário presente em seus materiais preparatórios se conecta com as características das peças documentais que conformam seu arquivo. Esse traço, para Rodríguez Monegal (1967), é o estilo que define uma modalidade do ensaísmo latino-americano do período. Do mesmo modo, Elena Romiti (2025) alerta que existe uma estreita conexão de “Motivos de Proteo” com o Arquivo Rodó. A composição que tem como base fragmentos dispersos e rascunhos que ele mesmo definia como “pedaços de papel” de toda forma, espécie e tamanho, manifesta que o lugar do Arquivo é espaço fundamental para investigar os processos mentais que determinam a concepção da escritura. Nesse sentido, Gustavo Sorá (2015), complementa que:

A decalagem entre estudos sobre o mundo editorial e literário não está livre de consequências cognitivas. A história, a antropologia, a sociologia da edição podem restaurar relações simbólicas, econômicas, políticas comumente abolidas, vigiadas, mantidas à distância pela crítica literária, atrelada ao texto como universo, como episteme (Sorá, 2015, p. 24).

Por meio dos traços e resíduos, podemos localizar um Rodó cujos sentimentos, emoções e trajetória não se desenvolvem separados da sua produção literária e intelectual, como se o texto impresso e pronto eliminasse sua assinatura conforme padrões de objetividade e cientificidade. “Mas, desde que o pensamento ou a imaginação os tocaram, todos, do documento inerte até a página inspirada, encontram-se dotados de vida e convocados a desempenhar seu papel num projeto de escritura” (Hay, 2017, p. 17).

A partir desses papeis, um esboço da biografia intelectual do autor pode ser identificado, já que os mesmos carregam as marcas de um estilo de produção literária cuja pretensão seria uma obra aberta, uma construção coletiva (elemento presente nas cartas), sem um plano geral pré-fixado e a incorporação de diversas vozes.

3. Colecionar ideias: os rascunhos rearticulados e tensionados

As fontes relidas em diálogo com a fortuna crítica do livro nos proporcionam explorar a literatura rodoniana como forma que codifica, em termos muito próprios, as ações, relações e processos sociais que problematiza perspectivas rotinizadas nas análises sobre a literatura latino-americana, que insistem naquilo que Benedetti (1979) denomina como “problema artístico continental”. Em suas palavras:

Enquanto o escritor europeu tem um amplo e seguro legado, já devidamente fechado, analisado e bem acondicionado em elegantes vitrinas, e está, portanto, em melhores condições para efetuar sumárias (mas suficientes) referências a ele, seu colega latino-americano, ao contrário, está em plena fabricação desse legado (Benedetti, 1979, p. 375).

Termos como individualidade, feição, identidade, característica e estilo foram constantemente abordados enquanto problemáticos e temários na literatura produzida no continente. Essas dimensões aparecem em “Motivos de Proteo”, porém não soam como escopo limitantes. Nesse sentido, os rascunhos nos permitem mapear características da proposta de reescrita cosmopolita e compor um repertório de formas de subjetivação adotadas pelo autor, a fim de construir uma literatura de alcance universal.

Roberto Ibáñez (1967) observa que no livro aqui debatido há um Rodó profeta - cujos sermões morais, sem dogmatismos, se alia a um apóstolo civilizado -, aliado a um artista excepcional. A perspectiva profética não teria magnitude apocalíptica, mas sim a experiência moderna de um indivíduo vivenciando seu momento histórico, o que faz do livro, escrito a partir de seu solitário mirador, um meio para se comunicar com o próximo ou com seu povo, com seu continente e sua Magna Pátria.

No “processo íntimo da obra”, Ibáñez, que analisou a genética da obra em inúmeros detalhes, diferencia três períodos de produção: o primeiro, situado entre 1900 e 1902; o segundo de 1902 a 1905; e o terceiro entre 1905 e 1908. Em um dos rascunhos mencionados, datado em 1898, Ibáñez encontrou “Cartas a…”, ou seja, sua escritura inicia-se antes mesmo de “Ariel”, sua obra mais conhecida, publicada em 1900, como vão confirmar alguns rascunhos anteriores. Nos diversos materiais iniciais preparatórios da obra “Motivos de Proteo”, observamos as mesmas características: sequência não linear, frases soltas, direcionamento diverso da escrita, como no meio, início e final da página, páginas em branco, como se realmente fossem testes ou fragmentos de frases e de ideias.

Em seu Arquivo, se conservam cinco pastas contendo cerca de 860 fólios, além dos onze cadernos preparatórios. Seu disciplinar e detalhado trajeto foi descrito por meio da seguinte correspondência, encaminhada ao amigo peruano, Francisco García Calderón, em agosto de 1904, onde se apresenta como um incansável recompilador, apesar da aparente dispersão:

Escrevo mentalmente quase sem cessar, até mesmo na rua, até mesmo na mesa. Meus rascunhos costumam ser um montão de pilhas de papel de toda forma, espécie e tamanho. Não tenho, para excitar a fantasia, um gato a quem passar a mão, como se conta de autor célebre; mas asseguro a você que quase não posso escrever continuamente sem ter ao meu alcance um diário, periódico ou livro, que de vez em quando tomo para apalpá-lo, para apertá-lo […] e até para aspirar seu aroma, se é impresso e novo (Rodó, 1967, p. 1438).

Essa passagem da carta pode nos servir como uma amostra do estilo rodoniano e também desvenda características interessantes sobre a construção estilística do autor em “Motivos de Proteo”, uma obra construída literalmente em movimento, nas ruas, nas caminhadas que fazia, nas cartas que enviava e recebia, nos livros que lia. E, como leitor enciclopédico, externaliza sua paixão pelo livro, pelo jornal, impressos cujo aroma o seduzia.

O biógrafo e amigo de Rodó, Victor Perez Petit (1918), faz uma descrição de como o escritor costumava escrever, e esse modo de escrita pode ser observado nos rascunhos da obra em questão, consultados em seu arquivo. Petit apontou que Rodó tinha um modo original de escrever, fazia seu estudo ou artigo mentalmente, distribuindo o plano a partir de grandes linhas, anotava as ideias gerais e, ao caminhar, meditava sobre o assunto. às vezes, sobre determinado ponto, anotava em papeis que levava no bolso. Por fim, decidia transferir o texto para o papel, escrevendo grandes traços, deixando espaços em brancos. Quando concluía o primeiro esboço, começava o trabalho de construção.

Victor Perez Petit conclui que esse mapa do pensamento, aparentemente incoerente, ainda passava por muitas alterações e ia aos poucos gestando uma forma. A imbricação entre a vida e a obra de Rodó no caso de “Motivos de Proteo, está evidente. Como assinalou Real de Azúa (1957, p. XVII), “com este longo ruminar, com este quase lustro de lenta maturação do livro, Rodó pretendia lançar uma carta decisiva em seu destino intelectual”.

O tema do cultivo da inteligência é retomado em “Motivos de Proteo”, assim como aparece em “Ariel”. No entanto, naquele livro, a figura do mestre abre espaço para o autoconhecimento, através de uma “rítmica e lenta evolução do indivíduo” (Rodó, 1967, p. 315). Se em “Ariel” o autor buscava uma interpretação da personalidade coletiva continental, em “Motivos de Proteo”, de modo complementar, é o intérprete da personalidade individual, a qual cada criatura, a partir de seus esforços e otimismos, deve criar em si mesma, encarando seus próprios desafios.

A seção dos materiais preparatórios e rascunhos para “Motivos de Proteo” é muito extensa, sua divisão segue a seguinte classificação: primeira seção, com 287 fólios, cujo conteúdo está formado por uma série de pequenos papeis rasgados, outros emendados uns aos outros, dando a impressão de que seu autor está formando as ideias e pensando no conteúdo da obra. Essas frases muitas vezes são soltas e não possuem conclusão. No entanto, são extremamente ricas de significado, pois podem ser lidas como a manifestação de resíduos culturais que guardam a memória e o processo de reflexão e de produção de conhecimento de um autor, cujo acervo de consulta para a concepção da obra foi vastíssimo. Essas seções possuem uma ordenação indômita, composta por retalhos de papeis de diversos formatos e tamanhos, e revelam os limites de uma razão ordenadora sistemática presente nas anotações que compõem a obra, cuja arquitetura nunca viria a ser fixa. Trata-se de um projeto literário capaz de se estruturar a partir de uma concepção atemporal de subjetividade, aspecto que advém do traço da cultura moderna, que estaria na ruptura constante de limites e de formas. Essa polifonia temática era elemento corrente entre nossos intelectuais posteriores à independência e anteriores à organização completa das nossas universidades.

Uma literatura que emerge como produtora de sentidos a partir da proposta de um pensamento descentrado, que buscou, em interlocução com outros mundos e temporalidades, a experiência de aprender a fim de aprimorar e definir personalidade, subjetivar o eu moderno. Dessa maneira, como produtora de sentidos para a experiência coletiva e individual latino-americana.

O caráter dialógico do texto pode ser observado nas anotações, que sempre estão mencionando ideias de autores que formavam sua biblioteca pessoal. Rodó afirmou em algumas correspondências que costumava relacionar muitos autores, e posteriormente os disciplinava nos textos. Entre seus rascunhos, foi possível observar alguns índices temáticos e, ao lado, os autores e personalidades que deveriam ser lidos e citados na obra.

Muitas vezes, o autor assina as iniciais do seu nome JER, separando o que é ideia sua e o que é ideia dos autores, para essas normalmente utiliza o recurso do parêntese. às vezes inicia as anotações a lápis, como se ainda não tivesse a certeza do que está escrevendo. A frase “esse parágrafo deve ser o guia de seguinte plano” (5163) consta algumas vezes entre os rascunhos, como se quisesse organizar as ideias para retomá-las ou mesmo juntá-las a partir de temas do livro. Do mesmo modo, Rodó contrasta sua bibliografia. Em um pedaço muito pequeno de papel dividido ao meio aponta sobre o tema da necessidade: “Goethe disse: ‘a vida é um composto de necessidade e liberdade’. Em troca Renan: o determinismo do necessário é a condição do livre” (5373).

As palavras-chave que compõem o livro podem ser lidas nesses materiais, sendo uma das primeiras frases sobre o “modo de transformação” (5145). Proteo aparece como o símbolo da transformação pela leitura e pelos livros. Nos primeiros rascunhos, há a seguinte anotação: “a virtude taumatúrgica do livro” (5154v). Este é o momento em que Rodó também mobiliza algumas referências que estão presentes na versão final da obra, como, por exemplo, Michelet, Renan, Balzac, Hartman, Schopenhauer, Emerson, Talleyrand, Psellos, Carlyle, Taine, Diderot, Sócrates etc.

Esses textos mencionados trazem uma biblioteca como memória da criação, momento em que Rodó buscava nos diálogos sua geração de ideias. Os diálogos que aparecem como leitura anotada, selecionada e assimilada. Exercício que demonstra um escritor/leitor que promove uma coexistência de discursos e pensamentos, cujo escopo abrangente e aparentemente caótico oferece a tônica do intelectual autodidata que recopila a biblioteca internacional a fim de formar a sua própria.

Temas característicos da obra são desenhados nessas anotações iniciais, que dizem respeito às relações entre o indivíduo e a sociedade, assim como ao destino moral e o caráter de um povo. Nos primeiros fólios, encontramos a seguinte frase: “o indivíduo é solidário com o espírito coletivo conforme a lei complexa da integração e diferenciação” (5158). Outra anotação feita no canto de uma das páginas: “um povo deve manter sua personalidade” (5161). Esse tema está atrelado ao da psicologia coletiva, momento em que cita Taine. Nesse sentido, o livro traz uma imagem irregular, incerta e, ao colocar o indivíduo ativo e livre no centro, dialoga com seus desígnios sociais modernos, que modelam e pluralizam suas funções mentais, além de desenhar identidades múltiplas cujas fronteiras fluidas escapam dos marcos de uma historiografia nacional. Outro tema projetado inicialmente na obra é o do equilíbrio, onde aponta que o “equilíbrio perfeito de todas as potências da alma se manifesta na medicidade como o gênio” (5169).

Nesse primeiro bloco de rascunhos, outro tema que se apresenta é o amor e a transformação pelo amor, seja o amor pelas obras literárias, o amor e suas exaltações, a escolha amorosa etc. Em seguida, Rodó comenta sobre Proteo, a dor e o prazer, Proteo e os amorfos, e questiona nesse momento “se o caráter é imutável” (5203). Outro tema contemplado é sobre as relações entre as ciências. São citados os autores Auguste Comte e Pestalozzi sobre a esperança nos conhecimentos adquiridos e a questão sobre o gênio. Nesse momento, algumas questões são colocadas como dúvida: “estabelecer certa conexão com relação instantânea de vocação” (5329).

Essa primeira seção finaliza com uma folha de papel pela metade e parece ser o plano para a próxima etapa da escrita, onde Rodó insere como item celebridades espanholas contemporâneas. A sequência aqui descrita está contemplada na versão final da obra publicada, cujo tema inicial é o da transformação do indivíduo, da alma e da personalidade, a partir de uma rítmica e lenta evolução.

Para Otmar Ette (2008), o colecionismo é a técnica de trabalho na fase preparativa do ciclo Proteo, cujo resultado é um emaranhado de cadernos e de folhas soltas, além de pedaços colados em folhas maiores de artigos de jornais e de livros que lia, sendo a característica desse material alterada de acordo com cada fase de composição.

Yvette Sánchez (1999) destaca que o artista cria uma obra inspirando-se em uma coleção autêntica, preexistente, sem nem sequer citá-la. O livro contém a biblioteca em miniatura entre suas capas.

A literatura vive da dialética da parte e do todo […]. As partes individuais, autônomas ou unidades distintivas mínimas, do conjunto colecionado, tiradas de outro contexto anterior, nunca se apresentam puras, sim sempre pela sua função estética e idiossincrásica, determinadas pelo indivíduo (Sanchez, 1999, p. 256).

O método formativo de Rodó consistia em ler e anotar os grandes mestres que compuseram sua extensa biblioteca. A partir desses estudos, esboços e anotações, criava a escrita própria de sua obra. Para Walter Benjamin (2000), o colecionador empreende a luta contra a dispersão, enquanto o leitor de livros coleciona citações, objetos de reflexões e elabora um modesto catálogo. No caso em questão, o catálogo rodoniano não é modesto, pois as pegadas percorridas para a escrita de “Motivos de Proteo” podem ser encontradas na superposição e justaposição de objetos, imagens, materiais, recortes de papeis e de jornais, ilustrações, que nos recontam sua trajetória singular de escrita.

Jorge Ruffinelli (1995) compreende que embora a natureza de suas anotações sejam esboços que denunciam um pensamento fragmentário, que remetem à uma atmosfera de fios soltos, inconclusos e às vezes contraditórios, em alguns casos parece adiantar, supreendentemente, teorias contemporâneas, como, por exemplo, a teoria da recepção, enfatizando o valor da função crítica, característica muito presente em suas trocas epistolares do período.

As anotações sugerem os caminhos de um polígrafo que deixa nas margens uma síntese crítica do pensamento e da literatura do final do século XIX e do princípio do XX, os traços da escrita realçam a valorização da erudição, modulações, avatares e tensões de uma obra que se pretende aberta e sem plano geral pré-fixado, um movimento de construção complexa e indefinida, como a identidade latino-americana.

4. A transformação em outras personagens, caras e imagens latino-americanas

Para Ibáñez, Rodó instituía, com “Motivos de Proteo” um gênero literário distinto, chamado proteico, cujos principais pontos eram uma mescla das mais diversas formas que se sucedem diante de pensamentos e de estilos que se metamorfoseiam e tentam forjar organicidade em torno de temas como personalidade, mudança e descaracterização. No primeiro bloco de materiais preparatórios da obra, lemos anotações como: “as manifestações de personalidades duplas ou múltiplas no mesmo indivíduo” (5729). Para o crítico, os livros “Ariel” e “Motivos Proteo” nasceram do mesmo germe, cujos temas característicos seriam: o destino moral de uma geração; o dever da milícia intelectual e a visão de uma América como “uma só pátria”; ou a afiliação a uma psicologia de profundidades, com a crença na “multiplicidade da alma”; a teoria dos “personagens interiores” e o advento de Glauco (personagem interior importante na obra), além disso, o sentimento de personalidade móvel.

Glauco também seria referência a um estado de espírito, denominado “estado de Glauco”, ligado a uma personalidade pagã, que, no texto, Rodó desenha como uma influência das obras de Baudelaire, Ribot e Nietzsche, e seria a encarnação simbólica da utopia do homem modernista que habita o plano divino sem renunciar ao pagão. Assim como Proteo, Glauco também habita o mar, também possui dom profético e poder de metamorfose (Castro Morales, 1994).

Emir Rodríguez Monegal (1967) sugeriu a relação existente entre Glauco e o mundo da embriaguez, tratado por Baudelaire em “Os Paraísos Artificiais”. Em uma de suas anotações nos rascunhos, Rodó toma notas do poeta e, ao fazê-lo, elege algumas características que lhe servirão para desenvolver muitos aspectos do seu “estado Glauco”. Segundo suas anotações, Glauco remetia a traços de sua personalidade em estado normal.

Essa personagem enigmática reaparecerá nos rascunhos enfeixados em seus cadernos, como nos intitulados Inicial, Gráfico-Poético, Disciplinario, Cómico Crítico e Azulejo. Esse aspecto de retorno aos temas presentes nos rascunhos soltos e que ressurgem em outros cadernos é constante, o que enfatiza ainda mais o caráter da obra como não sendo linear e um autor bastante preocupado em trabalhar e retrabalhar as ideias. Rodó intercala esses textos que estuda com rigor, com observações que procedem de sua própria experiência vital e que podem ser parte das chamadas estruturas no eu. Assim escreve no fólio 15751, de seu Caderno Inicial: “pois bem estes seres profundos tornou o ápice da personalidade e coincidindo às vezes com ele, como uma dessas formas que o vento e a luz dissipam em nada, este é Glauco”.

Glauco aparece como um espírito livre de dúvida, de culpa e leva o leitor a concluir que era uma entidade aberta para observar as belezas, os prazeres e a dignidade da vida: “pus em uma subpersonalidade, ou melhor em uma personalidade alterada, em um personagem interior, nome a este personagem anterior, lhe chamo Glauco” (21462). Glauco, portanto, oferece lugar a uma duplicidade interior: “se minha vontade se esforçasse nisso, Glauco chegaria a ser talvez minha verdadeira personalidade. Mas não quero...” (21487v).

Essa personagem adquire um ar de intensidade e de paganismo ao longo das anotações. E seu estado não seria prolongado, seria o espaço para a elasticidade da alma, ou seja, a fixidez abre espaço para o livre, jovial e passageira sombra. No caderno inicial uma pista sobre a identidade de Glauco aparece: “há uma parte de minha alma que não passou pela roda do tempo, que se conserva desde tempos remotos como era antes” (15780); e complementa que “ele o chama Glauco porque como o personagem antigo é um náufrago: um náufrago no oceano do tempo que se eleva para agarrar a minha alma e se submerge outra vez...” (15795v).

Em seu caderno Disciplinario, descreveu a personagem como “Vida e beleza no estado de Glauco” (16406). Em muitos momentos deixou explícito que escrevia sob esse estado. Em seu caderno Cómico Crítico, lemos a seguinte exclamação: “Glauco, deixe-me em paz!” (16617).

Castro Morales (1995) sintetiza que o enigmático Glauco que habita no espírito rodoniano possui algumas chaves que permitiriam abordar as difíceis tarefas e as árduas responsabilidades do intelectual latino-americano no contexto conflitivo da modernidade, ou seja, o intelectual diante das opções da criação da cultura (trabalho coletivo, dever cívico) ou as do conhecimento através da experiência estética - aventura íntima que celebra nos redutos fechados do “reino interior”. Encarado assim, Glauco pode ser visto como o simulacro do sujeito intelectual latino-americano, que lida com múltiplas facetas e atua em diferentes frentes.

Ao trazer como tema principal a vida, Ette (2018) pontua que Rodó não queria apenas falar sobre sua vida, ou de alguma outra, especificamente, e sim tratar da totalidade vital, uma espécie do saber conviver. Não à toa que biografias importantes são citadas como exemplos. Goethe aparece como o mais perfeito exemplo de renovação da amplitude da personalidade. Esses conselheiros forâneos, deidades diversas, exemplos de vida, denunciam a difusão e influência do pensamento rodoniano circulando por vários pontos do continente Latino Americano, e em alguns pontos da Europa, desterritorializando a reflexão sobre a personalidade, o indivíduo, a consciência e a vocação, contudo, a partir dos temas americanos, tratados de outro modo, sugerindo uma nova forma de constituição da personalidade, numa chave intelectual que pode ser considerada menos autorreferenciada, possibilitando traduzir um espaço discursivo aberto, não apagando a singularidade local, mas tentando expandir para a condição humana marcada pela perspectiva da universalidade.

Roberto Ibáñez (2014) localizou entre os rascunhos vários planos analíticos de “Motivos de Proteo”, que, cotejados ao original, observa-se a troca contínua da ordem de passagens e correspondência dos fragmentos, o que aponta que ele estava indeciso entre diversas combinações possíveis. “São motivos de Proteo, ideias soltas, meditações, parábolas, em flexíveis e contínuos avatares” (Ibáñez, 2014, p. 110).

A segunda seção dos originais de “Motivos de Proteo” possui 303 fólios, a diferença em relação a primeira é que o tamanho dos pedaços das folhas de papéis aumenta, mas cada fólio se divide em várias partes, pois Rodó escreve trechos à direita, à esquerda, acima, como se quisesse utilizar todos os espaços livres do papel, entretanto, não necessariamente de acordo com uma sequência linear. Essa seção inicia retomando o tema do gênio, que seria um “estado inconsciente de automatismo, delicadeza dos estados latentes” (5438). Além disso, descreve que os poetas, artistas sábios e inventores nos descrevem suas associações mais assombrosas como uma espécie de sonho, de automatismo.

Em muitos momentos, é perceptível que Rodó insere as reflexões das leituras que estava realizando no momento, como nessa seção que anota que essas ideias eram resultado das reflexões em torno do Tomo Um da obra “Os heróis”, de Thomas Carlyle (1893). Em alguns momentos não deixa de fazer a valorização de um autor com quem está dialogando, como, por exemplo, observamos, no caderno Ateneístico, um elogio a uma reflexão de Ribot, que, após citá-la, qualifica: “muito bem!” (16032). Aqui há a descrição de várias passagens e frases envolvendo o tema da transformação, sendo as transformações bruscas vistas como uma “desproporção entre o progresso rápido das ideias e sentimentos” (5476), o que está atrelado ao tema do equilíbrio, bastante comentado na primeira seção de manuscrito.

O tema da juventude e da infância aparecem nesse contexto, sendo a primeira marcada pela instabilidade e relações efêmeras, e a segunda seria o tempo de aprender e imaginar. é constante observar que o termo “algo sobre” aparece reiteradas vezes nos rascunhos, como se a expressão adiantasse o assunto, mas o mesmo não estava concluído, sim em processo de maturação, sem a certeza exata da frase.

Outro ponto interessante a ser ressaltado é que entre os rascunhos encontram-se pedaços de algumas cartas, o que pode significar novamente a relação entre a obra e a ferramenta da correspondência, utilizada de forma muito intensa pelo autor, seja para refletir sobre o texto, adiantar trechos e ideias genéricas, seja para divulgá-lo.

Na terceira seção organizada pelo arquivo, os papéis estão encadernados, e foram intitulados genericamente pelo arquivo como Borradores 1 (187 fólios), Borradores 2 (243 fólios), Borradores 3 (173 fólios). O primeiro caderno inicia com a frase “O mito de Proteo”, que personifica o enigma. As anotações ainda têm uma estrutura bastante caótica. O autor segue arquitetando sua obra e, em muitos momentos, separa os trechos descrevendo ao lado o nome do caderno para o qual vai direcioná-los. Os temas continuam sendo esmiuçados, são inseridas algumas personagens de suas parábolas, como Leuconoe, Alejandría, intitulada “mirando a jugar un niño”. O tema da civilização aparece através da seguinte frase “a civilização contém em seu sonho multidões de espíritos” (5884).

O segundo caderno contém 243 fólios e está repleto de citações de nomes de poetas, pintores e, nesse momento, o tema da viagem como renovação dos homens aparece. Além disso, são elencados nomes de autores argentinos, chilenos, bolivianos, equatorianos, colombianos, da América Central, Estados Unidos e venezuelanos, sendo que, com muitos autores citados, Rodó trocou correspondências no período de concepção do livro, com Adolfo García, Rafael Merchán, Gómez Restrepo, Andrés Mata, Rufino Blanco Fombona etc., o que novamente atesta que a obra foi escrita no contexto em que o autor buscava uma integração entre a inteligência da região.

é nesse caderno que Rodó separa a epígrafe para um capítulo “Renovarse es vivir” (6066v). Além disso, menciona autores uruguaios na história e no jornalismo. Por fim, apresenta o índice bastante detalhado, em duas versões: a primeira, com algumas rasuras e a letra pouco trabalhada; a segunda, com a letra já bastante compreensível e com menos rasuras.

O terceiro caderno enfeixado tem 173 fólios, cujo tema principal é o da criação. Nele, Rodó insere alguns índices de autores, pintores, escultores, cita novamente a transformação pelo livro, a complexidade natural e menciona a parábola sobre “El niño y la copa”, presente na versão final do livro. Os temas da renovação e da regeneração aparecem aqui com bastante intensidade.

O mosaico de anotações encontrados nos rascunhos e cadernos preparatórios evocam a imagem de um palimpsesto, conforme resgata Romiti (2025) em seus originais. A imagem que representa uma sucessão de outras imagens, que dá lugar a novas até se borrarem ou adquirir nitidez. No caderno Solariego, encontra-se a frase “a antiga escritura de um palimpsesto que se reconhece ainda sob a nova” (15665v). A frase metaforiza a experiência de aprender a fim de aprimorar e definir personalidade, subjetivar o eu moderno fluido, que agrega experiências diversas para encontrar uma feição.

5. Considerações finais

Ao partirmos das fontes originais de composição de “Motivos de Proteo”, nos deparamos com um oceano de anotações. Seu processo criativo foi marcado por descontinuidades, hesitações e rupturas. Visto desse modo, o manuscrito não se apresenta como uma sequência linear, mas sim como um espaço descontínuo, no qual diversos tempos, bibliografias e personagens convivem e dialogam entre si. Os fólios rasurados, acrescentados, com supressões, escritos nas margens, desenhados, riscados e corrigidos mostram como seu autor forjou um símbolo sobre o que entendia naquele momento como uma modernidade intelectual: o intercâmbio com as diferenças que criaram o mundo de “Motivos de Proteo”. Rodó intencionou no livro dramatizar-se através do outro, do clássico, do sentimento da pertença à tradição europeia, o que traduz a possibilidade de reinventar-se como pertencente a uma comunidade e, ao mesmo tempo, denunciou uma luta pelo reconhecimento de diferentes modos de ser, como era a América Latina.

“Motivos de Proteo”, lido como um testamento poético literário que evoca memórias de temas importantes para a produção da inteligência e de uma literatura de ares universais para o continente, incentiva um ideal de formação da personalidade a partir de personagens mitológicos de diferentes tradições e imaginários e nos remete à uma viagem intelectual do autor. A estrutura compósita que se baseou em uma eclética bibliografia que transita com liberdade cronológica resulta no alargamento de horizonte, tão requerido por José Enrique Rodó para a formação da personalidade latino-americana.

O autor instiga a pensar na dimensão proteica e imensa deste continente, marcado por muitas mudanças e heranças colonialistas estruturais, porém, em seu livro, realiza uma revisão desse passado e sugere um futuro em aberto, a ser consolidado por sujeitos formados a partir de diferentes modos, livres à intermitente perspectiva da transformação, da não fixidez. O livro aborda maneiras de existir, não se prende, portanto, a uma modulação universal de viver a modernidade. As trocas intelectuais realizadas no período, incluindo a leitura de textos clássicos e o contato via cartas, não podem ser encaradas como unilaterais, pois havia eco às reflexões do autor nos mais diversos lugares por onde ele circulou. Isso demonstra a dimensão ativa da criação literária que desestabiliza adjetivações como colônia e metrópole, centro e periferia, localismo e cosmopolitismo.

Através desses itinerários, o leitor não encontra promessas e garantias do futuro, tampouco normas e regras de bem viver, de modo gratuito, mas a percepção de que vivencia um mundo onde há a possibilidade de desenvolvimento das individualidades.

A complexa tarefa de entender o continente, de definir uma única personalidade, é solucionada a partir da emergência de diversas personagens, caras e imagens, isso significa atribuir à América Latina unida pela multiplicidade. Proteo é uma deidade da água, que confronta o ser humano como o flutuante, o nascimento, o imprevisível e o eterno porvir. O movimento projetado no livro concede espaço para pensar em uma narrativa sobre a América Latina em movimento, assim como a uma possibilidade estética da literatura que se abria ao agenciamento intelectual, profundamente antenado aos modos de sensibilização diante dos dilemas e indefinições sociais daquele momento.

Ao eleger a diversidade, observa a América Latina a partir de sua perspectiva da multiplicidade de estilos e influências, mas também unida, não mais através do uso exclusivo colonial que tanto instrumentalizou a ideia de unidade continental. Observamos que a produção da identidade de um artista pensador que se dedicou de modo sistemático e vocacional à sua escrita, foi resultado da coleção vasta de pensamentos e reflexões que lhe serviram como aparato e, ao mesmo tempo, de situações muito particulares que ocorriam em sua vida privada, além de também indicar as condições materiais e técnicas do período e dos recursos disponíveis para confeccionar sua obra.

A abertura proposta para a latino-americanidade partia da perspectiva de que a prosperidade do continente estaria vinculada à prosperidade intelectual, à diversidade humana que a modernidade poderia proporcionar também ao continente, e que em sua narrativa se apresenta como potente metáfora das diversas influências e incorporações de leituras que o auxiliaram na composição do texto. Toda esta multiplicidade serve como incentivo à postura reflexiva sobre a transformação da personalidade, marcada profundamente pelo dinamismo, inclassificável como fixo.

Declaração de uso de IA

Declaro que não utilizei nenhuma ferramenta de IA.

  • Declaração de disponibilidade dos dados
    Alguns dados de pesquisa, além da discussão teórica só estão disponíveis mediante solicitação, pois trata-se de originais consultados no Arquivo do escritor.
  • Financiamento
    Este trabalho conta com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, na modalidade de Auxílio Regular à Pesquisa (Processo 2024/15157-7).
  • 1
    O presente trabalho é resultado parcial do projeto de pesquisa intitulado “Cartas a um compilador latino-americano: o diálogo epistolar transnacional de José Enrique Rodó (1895-1910)”.
  • 2
    Sobre o tema, observo, no artigo intitulado “Conceber, compartilhar e editar: a criação de Motivos de Proteo nas correspondências de José Enrique Rodó” (Santos, 2025), como essas trocas epistolares foram fundamentais no processo de concepção da obra.
  • 3
    Sérgio Tavolaro (2025) destaca que a construção teórica do discurso hegemônico sobre a modernidade estabelece a ideia de tempo como central, uma vez que na teoria social prevalece a percepção de que a era moderna desencadeou uma virada histórica cabal, um ponto de inflexão irrevogável na ventura humana. Aquelas sociedades que se distinguem dessa percepção ligada ao avanço e ao progresso foram encaradas, muitas vezes, como atrasadas e desiguais. “Com notável frequência, as gêneses dessas invenções societárias aparecem diretamente relacionadas a transformações históricas tomadas por endógenas a uma região reduzida do globo, a saber, a Europa ocidental” (Tavolaro, 2025, p. 5).
  • 4
    Sua carreira literária esteve sempre dividida com a carreira de homem com atuação pública, visto que foi deputado por Montevidéu durante três períodos: 1902-1905; 1907-1911; e 1912-1915.
  • 5
    Os códigos entre parênteses que aparecerão após citação de trechos dos originais, referem-se à catalogação feita pelos organizadores do Arquivo do autor, conservada no Archivo Literario (Colección José Enrique Rodó) da Biblioteca Nacional de Uruguay (BNU-CR).

Referências

  • BENEDETTI, Mario. América Latina em sua literatura São Paulo: Perspectivas, 1979.
  • BENJAMIN, Walter. Desempacotando minha biblioteca. In: BENJAMIN, Walter. (org.) Obras escolhidas II São Paulo: Brasiliense, 2000, pp. 227-235.
  • BOTELHO, André. Sinal dos tempos: anacronismo e atualidade de Uma literatura nos trópicos. In: SANTIAGO, Silviano. (org.) Uma literatura nos trópicos Recife: Cepe, 2019, pp. 261-279. (Edição ampliada)
  • CARLYLE, Thomas. Los héroes: el culto de los héroes y lo heroico en la historia. Tradução de Julián G. Orbón. Madri: Manuel Fernández y Lasanta, 1893.
  • CASTELLANOS, Jesús. Rodó y su Proteo. In: BARBAGELATA, Hugo. (org.). Rodó y sus críticos Paris: Imprenta de Mr. Vertongen, 1920, pp. 57-104.
  • CASTRO MORALES, Belém de. Introducción. In: José Enrque Rodó. (org.) Ariel Madri: Cátedra, 2004, p. 9-135.
  • CASTRO MORALES, Belém de. Los motivos de Glauco: cultura y conocimiento en el último Rodó. Deslindes. La Revista de la Biblioteca Nacional, Montevideo, n. 4-5, p. 211-228, dez., 1994.
  • CASTRO MORALES, Belém de. José Enrique Rodó Modernista Utopia y regeneración. Isla Canárias: Universidad de la Laguna, 1990.
  • Colección José Enrique Rodó. Archivo Literario. Biblioteca Nacional de Uruguay. Montevideo, Uruguay.
  • COSTáBILE, Helena. Prólogo a Motivos de Proteo. In: RODó, José Enrique. (org.) Motivos de Proteo Montevideo: Ministerio de Relaciones Exteriores, Consejo de Educación Técnico Profesional y Sociedad Rodoniana, 2009.
  • ETTE, Ottmar. Escritura, vida y convivencia en Motivos de Proteo de José Enrique Rodó. Latinoamérica, Cidade do México, n. 66, p. 15-44, jun., 2018. DOI
    » DOI
  • ETTE, Ottmar. Literatura en movimiento: espacio y dinámica de una escritura transgresora de fronteras en Europa y América. Madri: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2008.
  • ETTE, Ottmar. ‘Una gimnástica del alma’: José Enrique Rodó, Proteo de Motivos”. In: ETTE, Ottmar; HAYDENREICH, Titus. (org.) Cien años de Ariel Madri: Vervuert/Iberoamericana, 2000, p. 173-202.
  • GARCíA MORALES, Alfonso. José Enrique Rodó Madri: Ediciones Eneida, 2004.
  • HAY, Louis. A literatura dos escritores Questões de crítica genética. Belo Horizonte: UFMG, 2007.
  • IBáñEZ, Roberto. Imagen documental de José Enrique Rodó Montevideo: Biblioteca Nacional del Uruguay, 2014.
  • IBáñEZ, Roberto. El ciclo de Proteo. Cuadernos de Marcha, Montevideo, n. 1, p. 7-58, mai., 1967.
  • ISRAëL, Liora. O uso dos arquivos em sociologia. In: PAUGAM, Serge. (org.) A pesquisa sociológica Petrópolis: Vozes, 2015, p. 141-155.
  • PETIT, Victor Perez. Rodó: su vida y su obra. Montevideo: Imprenta Latina, 1918.
  • RAMOS, Julio. Desencontros da modernidade na América Latina: literatura e política no século 19. Tradução de Rômulo Monte Alto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
  • REAL DE AZúA, Carlos. El ambiente espiritual del 900. Número, Montevideo, n. 2, p. 3-24, jun., 1950.
  • REAL DE AZúA, Carlos. Prólogo. In: RODó, José Enrique. (org.) Motivos de Proteo Colección de Clásicos Uruguayos. Montevideo: Biblioteca Artigas, 1957, pp. VII-CLIII.
  • REAL DE AZúA, Carlos. Medio siglo de Ariel: su significación y transcendencia literario filosófica. Montevideo: Academia Nacional de Letras, 2001.
  • REYES, Alfonso. Bautismo del libro y El libro amorfo. In: REYES, Alfonso. El suicida: Obras Completas (III). México: Fondo de Cultura Económica, 1996, pp. 293-297.
  • RODó, José Enrique. Ariel. In: RODRíGUEZ MONEGAL, Emir. (org.) Obras completas. Madri: Aguilar, 1967, p. 206-249.
  • RODó, José Enrique. Obras completas In: RODRíGUEZ MONEGAL, Emir. (org.) Madri: Aguilar, 1967.
  • RODRíGUEZ MONEGAL, Emir. La generación del 900. Número, Montevideo, v. 2, n. 6, 7, 8, p. 37-61, 1950.
  • RODRíGUEZ MONEGAL, Emir. Prologo. In: RODó, José Enrique. (org.) Obras completas Madri: Aguilar, 1967, p. 19-143.
  • ROMITI, Elena. La antigua escritura de un palimpsesto Los cuadernos desconocidos de Rodó. Montevideo: Biblioteca Nacional de Uruguay, 2025.
  • RUFFINELLI, Jorge. José Enrique Rodó: crítico literário. Alicante: Instituto de Cultura Juan Gil Albert, 1995.
  • SALLES, Cecília. A. Manuscrito e escrita. In: SüSSEKIND, Flora; DIAS, Tânia. (org.) A historiografia literária e as técnicas de escrita: do manuscrito ao hipertexto. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa e Vieira e Lent, 2004, v. 1, p. 99-103.
  • SáNCHEZ, Yvette. Coleccionismo y literatura Madri: Cátedra, 1999.
  • SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
  • SANTOS, Elisângela da Silva. Conceber, compartilhar e editar: a criação de Motivos de Proteo nas correspondências de José Enrique Rodó. Iberoamericana, Madri, v. 25, n. 90, p. 123-146, 2025. DOI
    » DOI
  • SORá, Gustavo Alejandro. Etnografia de arquivos e sociologia reflexiva: contribuições para a história social da edição no Brasil e na América Latina. Revista Fontes, v. 2, n. 3, p. 15-28, 2015. DOI
    » DOI
  • TAVOLARO, Sérgio. Cronopolítica e pensamento brasileiro: visões do Brasil no início do século XX. Estudos Históricos Rio de Janeiro, v. 38, n. 86, p. 1-20, 2025. DOI
    » DOI
  • VENEGAS, Juana. S. G. José Enrique Rodó (1871-1917). Madri: Ediciones del Orto, 1998.

Disponibilidade de dados

Alguns dados de pesquisa, além da discussão teórica só estão disponíveis mediante solicitação, pois trata-se de originais consultados no Arquivo do escritor.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Ago 2025
  • Aceito
    10 Abr 2026
location_on
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais - ANPOCS Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 - sala 116, CEP: 05.655-010, Tel.: (+55 11) 3091-4664 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: anpocs@anpocs.org.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro