Open-access Plataformas digitais e legitimidade intelectual: os casos brasileiro e francês

Digital platforms and intellectual legitimacy: the Brazilian and the French cases

Resumo

Resumo: O artigo analisa comparativamente dois casos de vulgarização da história na plataforma YouTube em contextos nacionais distintos: o canal Nostalgia, de Felipe Castanhari, no Brasil, e o canal Nota Bene, de Benjamin Brillaud, na França. Ambos produzem conteúdos sobre história sem formação específica, situando-se nas fronteiras entre os campos intelectual e midiático. O estudo focaliza formas de construção e de disputa pela visibilidade a partir dessa nova posição, dos youtubers, identificando trajetórias, redes de sociabilidade e relações com instituições culturais legítimas, como universidades, museus e bibliotecas. No Brasil, o caso de Castanhari evidencia lógicas de construção de uma posição marcada pela representação de um empreendedor nesse mercado. Na França, o caso Brillaud evidencia a um só tempo estratégias comerciais e simbólicas. Nesse sentido, estabelece uma aproximação com o polo comercial de certas instituições, como um curso de Master em “História Pública”. Sustenta-se que as hierarquias entre capital simbólico (acadêmico) e capital midiático (comercial) moldam as possibilidades de reconhecimento e de legitimação desses agentes, seus investimentos e estratégias, revelando tensões entre difusão científica e vulgarização nas formas de mediação do saber histórico.

Palavras-chave
vulgarização científica; história pública; Brasil; França; youtubers


Abstract

Abstract: The article comparatively analyzes two cases involving the vulgarization of history on YouTube platform in different national contexts: the Nostalgia channel, by Felipe Castanhari, in Brazil, and Nota Bene, by Benjamin Brillaud, in France. Both produce content about history without specific academic background, being positioned at the intersection between the intellectual and media fields. So, this study focuses on the ways in which visibility can be constructed and disputed from this new position – the youtubers – by identifying trajectories, networks of sociability, and relations with legitimate cultural institutions such as universities, museums, and libraries. In Brazil, Castanhari's case reveals logics of position-building marked by the representation of the youtuber as an entrepreneur within this market. In France, Brillaud's case reveals both commercial and symbolic strategies, establishing connections with the commercial pole of certain institutions, such as a master's program in “Public History”. I argue that the hierarchies between symbolic (academic) and media (commercial) capital might shape different possibilities of recognition and legitimation of these agents, as well as their investments and strategies, revealing tensions between science communication and popularization in the contemporary mediation of historical knowledge.

Keywords
scientific vulgarization; public history; Brazil; France; youtubers


1. Introdução1

Este artigo tem como objetivo analisar dois casos relacionados à prática da vulgarização da produção historiográfica em dois contextos nacionais distintos, Brasil e França, através do fenômeno midiático da ascensão de youtubers na última década. O trabalho focaliza esses dois países em razão das formas distintas que esse fenômeno assume e que estão relacionadas, como pretendo argumentar, ao diferencial entre mundo intelectual e midiático nos dois contextos.

O primeiro caso a ser analisado refere-se ao youtuber Felipe Mendes Castanhari, autor do Canal Nostalgia. Trata-se de um canal em transformação, com diferentes temáticas, mas que em 2016 se volta à produção de vídeos relacionados à divulgação de saberes históricos no Brasil. O que torna o caso significativo é que seu produtor não possui formação em História ou mesmo diploma de ensino superior em qualquer outra área. O segundo é o do youtuber Benjamin Brillaud. Classificado pela mídia francesa como “youtuber historiador”, Brillaud, assim como seu homólogo brasileiro, não possui formação acadêmica, ainda que seja portador de uma expertise técnica de filmagem, útil à produção de vídeos para o seu canal Nota Bene.

Ambos os youtubers ocupam posição de destaque, possuindo mais de 1 milhão de seguidores. Nos dois casos, as estratégias de produção, difusão e legitimação que mobilizam devem ser compreendidas a partir de sua posição em dois subcampos intelectuais, o espaço acadêmico e o midiático, onde ocupam posição dominada2 – em relação ao historiador e a outros especialistas em historiografia, assim como em relação ao youtuber generalista, portador de um capital muito mais robusto de visibilidade midiática. Além disso, em ambos os casos as estratégias mobilizadas na construção de uma posição legítima não podem ser compreendidas senão à luz dessas tensões, ainda que com especificidades.3 Adotando uma perspectiva comparativa, de modo que apenas a diferença significativa é realçada, argumento que o prestígio diferencial das carreiras intelectuais e midiáticas entre os públicos leigos dos dois países impacta as estratégias de vulgarização dos youtubers com pretensões acadêmicas, resultado, ao mesmo tempo, das trajetórias e redes de sociabilidade nos respectivos meios intelectuais-midiáticos.

O objetivo deste artigo é relacionar de maneira típica essas duas trajetórias com as respectivas estratégias adotadas na produção de uma visão sobre a história, a fim de se compreender como se dá a divisão do trabalho entre o mundo acadêmico (difusão científica) e o midiático (vulgarização científica) nos dois países.4 Trata-se, portanto, de investigar o espaço de circulação de determinadas práticas de produção de conteúdo a partir de um nicho de “mercado de vulgarização” que envolve, em seus polos extremos, tanto as práticas acadêmicas de “história pública”, quanto o uso lucrativo desses saberes, ou seja, as práticas propriamente mercantis. Concluo que, nas duas trajetórias em questão, a de Castanhari e a de Brillaud, as estratégias indicam diferentes rendimentos desse trabalho nos dois países.5

A estrutura do artigo está subdividida em sete seções. Além desta introdução, na segunda seção, apresento a posição de Felipe Castanhari nesse espaço e o desenvolvimento do seu Canal Nostalgia. Em seguida, na terceira seção, trato dos circuitos comerciais estabelecidos no contexto brasileiro e os polos de oposição identificados. Na quarta seção, focalizo a posição de Benjamin Brillaud no contexto francês e o desenvolvimento de seu canal Nota Bene. Na quinta seção, trato dos circuitos comerciais estabelecidos no contexto francês a partir da institucionalização do Master em História Pública e os polos de oposição identificados. Na sexta seção, analiso o espaço dos possíveis, que orienta as estratégias empreendidas a partir das trajetórias. Por fim, na sétima seção, apresento as considerações finais.

2. O caso brasileiro: Felipe Castanhari e o Canal Nostalgia

As noções de “empreendedor” e “youtuber” são parte da construção da imagem pública de Felipe Mendes Castanhari (Zuini e Lellis, 2015). Nascido em 1989, em São Paulo, Castanhari cresceu em Osasco (SP). Filho de ascendentes portugueses e italianos, o youtuber tem origem em uma família de classes populares urbanas, cujas estratégias de ascensão são diversificadas, a exemplo dos tios feirantes e do pai diplomado (Castanhari, 2022b). Seu pai, formado em economia, é sempre referenciado em suas entrevistas como um exemplo de “sucesso” da família (Lobianco e Castanhari, 2022). Empregado do Banco Bradesco nos anos de 1980, ocupação de classe média urbana, o pai conseguiu garantir ao filho a escolarização pela Fundação Bradesco – projeto educacional do próprio banco no município de Osasco. Assim, Castanhari se apresenta como aquele que tudo deve à escola, sendo sempre grato à Fundação pelas oportunidades educacionais. Sua formação profissional se dá através da realização de cursos técnicos em Design 3D. Esse aspecto importa porque delimita de antemão uma trajetória formativa orientada ao mercado, especificamente o mercado de produção midiática. Uma vez que seus investimentos se voltam à especialização de seu canal no Youtube, pode-se também inscrever essa orientação no contexto de uma oferta midiática expandida, garantida pela diversificação e popularização das plataformas digitais.

A primeira conta de Castanhari no Youtube é de 2008, mas a expansão de “seguidores” e de “visualizações”, métricas centrais do mercado de influência, indicando a razão entre possibilidades de alcance de determinadas frações de público e a receita a ser obtida pelos anunciantes, começa por volta de 2012 com o seu Canal Nostalgia (fundado em 2011). O tema do canal, “nostalgia”, carrega o apelo carismático que será personificado pela posição desse youtuber, cuja conta é comercialmente orientada pela capacidade de produzir engajamento por parte do público. Assim, a proposta do canal era divulgar conteúdos “nostálgicos” sobre games, cultura pop etc.

à construção do valor comercial desse canal soma-se um capital específico de produção midiática, aprendizado advindo de seu trabalho em produtoras de renome no mercado de animação. Esse período permitiu o acúmulo de uma expertise e de recursos financeiros para que Castanhari pudesse, em seguida, investir no desenvolvimento de um projeto maior no YouTube. O investimento é considerado uma forma de “empreendedorismo” por Castanhari, que valoriza o trabalho duro do jovem que não queria ter “patrão” ou ser “explorado”. O modelo do empreendedor acompanha o crescimento e a profissionalização do Canal Nostalgia ao longo do tempo, dando origem a uma equipe de profissionais que trabalham nessa produção, abrangendo iluminação adequada, construção de cenário e técnicas de roteiro. Ou seja, essa especialização crescente das funções midiáticas teve como objetivo produzir a rentabilidade comercial do Canal, ajustando a conta às dinâmicas do mercado de influência. Esse tipo de ajuste comercial implica, principalmente, uma subordinação ao tema do momento, às trending topics que são os mais procurados em determinado contexto.

Assim, em 2016, os vídeos que incialmente faziam sucesso com o tema “nostalgia”, a exemplo do Disney CRUJ (Programa licenciado pelos estúdios Disney e produzido pelo SBT entre os anos de 1990 e 2000), são substituídos por vídeos sobre temas históricos. A justificativa pública para a mudança de conteúdo e de linha editorial teria vindo, segundo o próprio Castanhari, dos comentários a um vídeo seu, especificamente sobre a proibição da venda do livro “Mein Kampf” de Adolph Hitler “em algum país”. A proibição teria então suscitado uma discussão nos comentários de seu canal sobre se de fato o livro “deveria ou não” ter sido proibido, o que o teria levado a perceber o engajamento dos seguidores em questões históricas (Castanhari, 2022b).

Ao fazer uma analogia entre a polêmica histórica e o contexto político brasileiro, que debatia temas como a ascensão da extrema direita e os limites da opinião pública,6 Castanhari conquistou uma posição midiática. Visando alcançar frações do público interessado nesse editorial, Castanhari lança um vídeo em 2016 intitulado “Regime/Ditadura Militar” (Castanhari, 2016). Nesse mesmo momento, uma nova terminologia sobre temas históricos e, mais amplamente, um vocabulário associado a certos conceitos em Ciências Humanas e Sociais (“filosofia”, “ética”, “democracia”), acompanhando figuras políticas como “Lula”, “Donald Trump”, “Fidel Castro”, aparecem, pela primeira vez, entre as palavras-chave mais buscadas pelo público no Google Trends.7 Castanhari não trabalhou de maneira artesanal. O trabalho foi subdividido em múltiplas etapas e realizado de maneira profissional: editado pela Tucano Motion (agência especializada em produção de conteúdo para internet); roteirizado, além de Castanhari, por Ricardo Rigotti, publicitário e roteirista, além de Caio Vinícios de Godoy Mattos, historiador, professor de curso pré-vestibular e consultor do canal History Channel. Roteiro e edição tinham como base o trabalho de pesquisa realizado por Leonardo G. Sousa, administrador e especialista em marketing.8

O vídeo, com aproximadamente uma hora de duração, mencionava os nomes dos roteiristas e do historiador (que também era ex-professor de Castanhari) como forma estratégica de legitimação do produto (Castanhari, 2016). O tom bem-humorado, a linguagem informal entrecortada por palavrões e referências a programas de televisão são parte da fórmula do youtuber para se aproximar do público. Em relação ao conteúdo, o vídeo questiona os interesses da “esquerda armada” que pretendia destituir a “ditadura” para dar lugar a uma “ditadura de esquerda” – um roteiro que ressalta o papel de Dilma Roussef chamada no vídeo de “Dilminha paz e amor” e considerada “uma das pessoas mais procuradas pelo governo”. Esse vídeo teve um engajamento enorme, com quase dois milhões de visualizações. O amplo alcance dessa produção dá o tom da guinada editorial de Castanhari tanto em relação às estratégias comerciais, quanto em relação aos novos temas. Tratava-se de um vídeo que, embora assinado por um youtuber estabelecido no mercado de entretenimento, identificou o interesse por temas políticos e sociais, tratados particularmente pela historiografia, no contexto de crise política e da ascensão do “negacionismo histórico”.9

Do lado comercial, o vídeo pôde se beneficiar do “mercado de polêmicas”, que implicava o alargamento da possibilidade de circulação de novos temas, novos agentes e novos produtos nos espaços de mídia e pela popularização do uso da internet (Vieira, 2021; 2022; 2024; Ridenti, 2018). A repercussão do vídeo causou polêmica com setores da “extrema-direita” por defender a “democracia” em oposição ao “regime/ditadura militar”. Ao mesmo tempo, o vídeo gerou críticas por parte de outros produtores de conteúdo, identificados com a “esquerda”, pelo tom ligeiro utilizado na produção. Nesse caso, o youtuber pôde rebater as críticas em uma entrevista ao jornalista de cultura André Carlos Zorzi, no caderno de Entretenimento e Internet do jornal O Estado de S. Paulo: “é impossível agradar todo mundo, ainda mais atualmente, no meio dessa guerra política insana em que vivemos. As pessoas pararam de discutir política. Elas só brigam, não debatem” (Zorzi, 2016). O youtuber pretendia, assim, ocupar o espaço público de maneira racional.

A ambiguidade dessa posição, que se reconhece entre os agentes legítimos tanto no campo ideológico quanto no campo acadêmico, sem ter experiência como militante ou acadêmico, tem como efeito realçar os condicionantes propriamente materiais de sua participação no mundo midiático. Logo, a defesa da “democracia” em oposição ao “ódio” também pode ser considerada uma “escolha” visando os lucros simbólicos associados a um espaço de minorias distintivas. De fato, as incontáveis referências a “especialistas”, ainda que não necessariamente pesquisadores reconhecidos, dizem muito sobre a legitimidade possível no universo youtuber. No polo comercial das plataformas, cujos temas mais visualizados são ligados ao entretenimento (Pesquisas no Youtube…, s.d.), no caso dos investimentos de Castanhari, aponta para essa clivagem como passo estratégico de um youtuber que produz em um mundo ainda não totalmente criado, atualizando antigos temas e problemas com nova roupagem, a do mercado de produção de conteúdo. Os temas ligados à “história” e ao “Regime/ditadura militar no Brasil” são temas antigos da produção acadêmica e da militância política, mas “novos” pelo dinamismo e imediatismo em relação à temporalidade do público leigo.10 Assim, a produção desse material não pode ser considerada uma aposta às cegas, mas um cálculo comercialmente estratégico e bem orientado, baseado em técnicas sofisticadas de publicidade digital.11

Premiado com selos importantes de reconhecimento comercial como o iBest,12 a reconversão temática teve de ser acompanhada pela retórica da imparcialidade, vigente no campo jornalístico, e pela assumida associação entre educação e entretenimento (Charle, 2004; Delporte, 2009).13 Essas ambiguidades indicam o receio da “queda” nas classificações do “mercado” relativamente à militância ou no academicismo (Castanhari, 2021).

3. Estratégias de legitimação: “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”

O circuito estabelecido entre o mercado editorial e o Youtube aparece na série dos guias “Politicamente Incorreto da História”, baseada no livro homônimo do jornalista Leandro Narloch, apresentada por Castanhari.14 Em 2017, ao ser convidado pelo Canal History Channel15 a apresentar um programa inspirado na polêmica obra de Narloch, o documentário se beneficia a um só tempo do alcance do youtuber, das polêmicas relacionadas à circulação dessa obra e da distinção vinculada ao documentário-histórico. O sucesso editorial dos guias politicamente incorretos aliado à figura de Narloch operam como combustível para a visualização e engajamento do público. A estreia do programa foi anunciada na Rádio Jovem Pan, um veículo de editorial polemista, e contou com a participação de Castanhari e de Narloch, que exaltaram a qualidade daquela produção. Durante a entrevista, Narloch faz referência a figuras reconhecidas nos campos da História e do Jornalismo, a fim de dar lastro simbólico à sua propaganda: “a gente falou com mais de 50 pessoas, (…) a gente falou com Lilia Schwarcz, com Laurentino Gomes (…) e por aí vai” (Narloch e Castanhari, 2017). Castanhari, por sua vez, coloca a ênfase no formato: “a linguagem da série está bem internet, é uma linguagem rápida (…)” (Narloch e Castanhari, 2017). E então declara: “eu sou o fio condutor das polêmicas, (…) a parte mais polêmica eu deixo pro Narloch e pros outros entrevistados” (Narloch e Castanhari, 2017). A estratégia de Castanhari, restrita à forma (comunicacional), permitiu dar sequência à orientação de mercado. Por outro lado, um dos pontos centrais dessa entrevista foram as reações às ideias de Narloch, figura considerada um negacionista histórico pelos acadêmicos, sobretudo diante do êxito editorial dos “Guias Politicamente Incorretos”.16 Essa polêmica colocou em polos opostos as posições mais legítimas no campo cultural, acadêmicos e jornalistas de prestígio – em geral mais velhos –, e as posições de maior visibilidade midiática e que disputavam uma posição no “mercado de opiniões”, em geral mais jovens.

Os episódios eram concebidos para causar controvérsia e eram compostos de três seções distintas. Na primeira parte, os “especialistas” abordavam o tema do episódio, entre os quais se encontram pesquisadores, jornalistas, músicos e o próprio Narloch. Na segunda parte, Castanhari introduzia o tema do dia, apresentando questões sobre a pauta e conclusões a partir das falas dos especialistas. Na terceira parte, Narloch apresentava sua opinião e conclusão construindo uma polêmica. Na edição dos episódios, o programa equiparava os comentários dos especialistas e as opiniões de leigos. Essas opiniões muitas vezes eram carregadas de preconceitos e anacronismos, embora a edição do material apresentasse um formato que estrategicamente transformava os saberes das ciências humanas em simples opiniões. Ao equiparar vozes com legitimidade distinta (historiadores, jornalistas, músicos, filósofos de mídia e youtubers), o programa em geral gerou críticas e mesmo a recusa de convites da parte dos acadêmicos. Historiadores, como Lilia Schwarcz e Lira Neto, e jornalistas, como Laurentino Gomes, acusaram o canal de fazer uso indevido de suas falas no programa.17 Alegavam que a produtora Fly que os contatou omitiu que as falas seriam utilizadas pela produção e pediram que fossem retirados da edição (Historiadores acusam canal…, 2017). Assim, observa-se nesse programa uma tentativa de desqualificar a produção legítima de maneira mais explícita do que a habitualmente encontrada no mundo das plataformas digitais.

O modelo de negócio baseado na divulgação científica de Castanhari fez com que ele tivesse que contratar historiadores para os conteúdos do canal, além de estabelecer trocas com agentes da televisão e com o mercado editorial. Com efeito, a capacidade de atrair público para o seu conteúdo, buscando atrelar esse material a um caráter educativo, permitiu que a consultoria sobre História na produção de seu canal ficasse a cargo da editora do segmento didático FTD, com a qual estabeleceu uma parceria publicitária. A extensa equipe envolvida indica, novamente, que a posição de Castanhari no mercado de entretenimento é a da neutralidade, como um empreendedor da comunicação, uma vez que o valor monetário gerado pelo Canal Nostalgia deve ser avaliado a partir do número de seguidores e de visualizações. Os rendimentos do habitus mais evidentes no caso de Castanhari, filho de bancário e ex-aluno de uma fundação privada mantida por um banco, são reinvestidos na representação do empreendedor de mídia que deve tudo ao mercado do entretenimento, depende da expertise dos consultores para o seu trabalho. Trata-se de um distanciamento que resulta de constrangimentos de vários tipos, e que pretende fazer história pública do ponto de vista das regras do mercado.

4. O caso francês: Benjamin Brillaud e o Canal Nota Bene

Benjamin Brillaud, ao contrário de Castanhari, tornou-se youtuber especializado em divulgação científica, particularmente em história francesa, desde 2014. Nascido em 1988, em Athis-Mons, região da periferia na região de île-de-France, em uma família comunista ligada ao Partido Comunista Francês, ou seja, de fração engajada das classes populares. Foi aluno do curso técnico no prestigiado Liceu Condorcet, obtendo o chamado baccalauréat STI (Bacharel em ciência e tecnologia industrial em engenharia eletrônica). O “Bac F2”, como também é conhecido, permitiu que ele tivesse acesso a uma formação técnica complementar em audiovisual, onde obteve o brevet em uma Escola de Negócios privada, menos prestigiosa (Brillaud, s.d.). Foi operador de câmera e montou sua própria produtora de vídeos, quando passou a mobilizar a expertise de filmagem na produção de seu canal após ficar desempregado, em 2014. Segundo declara Brillaud (2019b), as ciências em geral chamaram sua atenção: “eu vi que havia uma onda nova que chegava no Youtube e que estava relacionada à biologia, à física, ao cinema… e por que não à história?”. Como no caso de Castanhari, a fundação de seu canal é parte de uma estratégia de ascensão social em que o capital técnico e o simbólico são mobilizados para o ingresso no mundo das plataformas digitais. Contudo, no caso do Canal Nota Bene, versão em latim de Note Bem – N.B., observa-se desde o início que o reconhecimento da cultura legítima deixa marcas mais profundas em suas práticas digitais. Brillaud reúne mais de 2 milhões de inscritos no canal, sendo frequentemente noticiado “como um sucesso” na mídia francesa em programas de entretenimento.

Segundo Carbó (2018), colaborador do jornal suíço liberal Le Temps18, Brillaud seria um “rock star” entre os “historiadores” que “desejam” que a história seja mais “popular”. Esse atributo, usado pelo jornalista oriundo da London School of Economics, indica a construção da posição de Brillaud no mundo da vulgarização científica como aparentemente crítico ao polo legítimo da História em nome do diálogo com o grande público.19 Por sua vez, Brillaud, em suas entrevistas, declara com frequência ter cursado por um semestre o curso de História, sem mencionar a instituição, curso que teria abandonado para se dedicar ao audiovisual. De fato, observa-se em seus vídeos certa ambiguidade na relação com a cultura legítima. O editorial de seus vídeos é voltado à produção de curiosidades históricas, além de trazer referências a ícones pop, como o filme Star Wars, a série Harry Potter e a série de games Assassin's Creed, desenvolvida pela Ubisoft Entertainment, uma editora e produtora de jogos eletrônicos francesa, sediada em Paris. Em suas produções, a exposição de sua imagem é parte do contrato comercial com a Ubisoft, como demonstra o fato de Brillaud (2019a) participar de uma série para explicar os conteúdos históricos dos jogos da editora. Além disso, Brillaud é autor de livros publicados por editoras comerciais, a exemplo da Robert Laffont, o que revela uma pretensão autoral.20 Ao mencionar o trabalho realizado no Youtube, o fundador do Nota Bene afirma que sua inspiração é a figura do franco-suíço Henri Guillemin, conhecido como “Cassius” (1903-1992), um historiador e ensaísta engajado francês, formado pela école Normale Supérieure de Paris, mas que após a Segunda Guerra migra para a Suíça e passa a produzir conteúdo para o grande público. Ou seja, reconverte seu capital específico para os espaços menos prestigiados da televisão e do rádio.21

Brillaud passa a produzir vídeos cada vez mais profissionais, mobilizando sonoplastia, animações, referências musicais, técnicas de fala, de edição, de fotografia e amplo uso de cores – a mesma marca de seus livros. Nesse caso, também se verifica o apelo à “neutralidade” da comunicação, que costuma ser evocada em seus produtos. Trata-se da chamada publicidade “leve”, que aparece associada ao mercado cultural (editoras, séries, história), se ramificando em circuitos de produção de um capital simbólico mais legítimo (Rieffel, 2005a; 2005b). Assim, os produtos de Brillaud se associam à produção cultural legítima em razão da abertura de certas instituições ao trabalho dos youtubers. Entre essas instituições, destacam-se universidades, museus e bibliotecas francesas, que contratam youtubers a fim de ampliar a comunicação com públicos diversos, contando para isso com editais e agências públicas de fomento, entre as quais o Centre National de la Recherche Scientifique, CNRS e a Bibliothèque Nationale de France (BnF).

A Bibliothèque Nationale de France contratou entre 2019 e 2020 nove influenciadores digitais, entre os quais Brillaud, para a divulgação dos seus arquivos a um público mais amplo. Embora o perfil formativo desses youtubers fosse heterogêneo, uma vez que são oriundos de diversas áreas, eles trabalhavam ao lado de professores e pesquisadores convidados. A diferenciação entre acadêmicos e youtubers indica, por outro lado, que a abertura a essas novas figuras não impede a existência de uma hierarquia de legitimidade, uma vez que seu trabalho está subordinado à orientação dos primeiros. Assim, as interações sociais se inscrevem nos espaços de interseção entre os mercados de mídia e o campo acadêmico. Attencourt (2024) identifica, nesse sentido, diferentes circuitos de “celebração cultural” na construção das formas de visibilidade intelectual, que variam em função da posição, das regras, hierarquias e disputas específicas a cada campo, as posições dominantes, beneficiando-se do acúmulo de diferentes capitais. No caso dos youtubers franceses, o “capital midiático”, como poder de visibilidade, está subordinado ao capital acadêmico, base para o trabalho nessas instituições. Por isso que, com exceção de Brillaud, os demais youtubers contratados pela BnF não se adaptaram ao trabalho. Brillaud, ao contrário, surge como uma espécie de garoto propaganda da BnF, classificado no blog da instituição como um “galliconauta”, isto é, aquele que navega pelos arquivos da biblioteca diretamente no sistema Gallica, que é uma ferramenta interna de pesquisa (Quand un gallicanaute lance sa chaîne…, 2017).

Casado com a também youtuber Coralie Brillaud, uma ex-funcionária da BnF, ele declara ter sido aconselhado por ela a fazer a pesquisa documental e iconográfica de seus vídeos através da Gallica. Esse trabalho de divulgação dos arquivos integrava um projeto mais amplo, o “Retronews-BnF”. Dois anos após lançar seu canal, Brillaud foi convidado pelo Museu do Louvre, instituição que abriu portas também a outros youtubers (Interview Nota Bene, 2017). O projeto de 2016 envolveu a “modernização” e o desenvolvimento de redes sociais para comunicação com o público mais jovem. Nesse projeto, o Louvre convidou youtubers para produzir vídeos sobre o acervo do Museu e sobre história da arte (Le Louvre invite les YouTubeurs, 2016).

A visibilidade institucional de Brillaud contribuiu para sua exitosa trajetória no Youtube. A partir do prestígio acumulado pelo trabalho nessas instituições, ele busca conquistar legitimidade como “historiador público” no projeto que fundou sob o nome Vidéothèque d'Alexandrie, uma plataforma digital que buscava reunir outros youtubers dedicados à História. Ao vencer o edital de “Jovens Talentos” do Centre national du cinéma et de l'image animée (CNC francês), Brillaud gravou uma série junto a outros youtubers sobre a história da Primeira Guerra, que, a exemplo de Castanhari, não é um trabalho amador (Nota Bene: l'histoire des munitionnettes, s.d.).

O roteiro foi escrito por Brillaud, mas a montagem foi feita pelos youtubers Nicolas Thomas e Romain Filstroff, ambos youtubers com formação acadêmica em geografia e linguística, sendo a produção feita por sua esposa, Coralie Brillaud, que é também formada em cultura e mídia22. Essa produção coletiva também o aproxima do viés educativo, tornando-se uma espécie de produtor de material de apoio pedagógico aos professores de História nos liceus (Les vidéastes des alliés pour réviser ses cours…, 2020). Assim, o caso de Brillaud se distingue, no duplo sentido do termo, como diferença e distinção, do caso de Castanhari, uma vez que resulta da oferta, no campo das instituições legítimas, de espaços de comunicação ocupados por youtubers. Além disso, considerando-se a posição institucional da mulher de Brillaud, que tem atuação profissional como produtora de suas séries, observa-se todo um conjunto de estratégias por parte do youtuber no sentido de se aproximar da cultura institucional legítima, e cuja origem está possivelmente nos valores intelectuais herdados de uma família de esquerda com trajetória militante. Afinal, a adaptação de Brillaud à circulação nos limites dados pela publicidade institucional se deve ao reconhecimento do prestígio da história acadêmica e de um interesse elaborado no plano discursivo como benemerente. Ou seja, de facilitador do acesso a uma história popular. Esse aspecto é fundamental para diferenciar as duas trajetórias, baseadas nos investimentos possíveis e na acumulação de capitais diversos para uso no mundo virtual. No caso da França, um aparato institucional e legal produz certo capital simbólico, advindo da presença em espaços públicos reconhecidos. Brillaud assume as características de uma multiposicionalidade nesse espaço através da popularização que orienta as estratégias publicitárias de certas instituições.

5. Estrtégias de Legitimação: o master em História Pública

Na rádio pública France Inter, Brillaud foi apresentado como um símbolo do “historiador-youtuber”, um atributo que revela novamente o esforço distintivo por aproximação com uma área considerada nobre na França.23 A caracterização de Brillaud como “historiador-youtuber” não é fortuita. Em 2015, ele se tornou o garoto propaganda dos cursos de Master (embora acadêmico, um curso de dois anos com viés aplicado de pós-graduação) em “História Pública”, com enfoque nas práticas de influência digital.24 Esses cursos orientados pelos interesses da inciativa privada, foram reconhecidos posteriormente pelo Estado25. Do ponto de vista dos agentes que participam dessas iniciativas, coordenadores, professores, alunos e ex-alunos desses cursos,26 a justificativa para sua existência seria o interesse dos franceses pelas “curiosidades históricas”, bem como a importância da história na vida cultural do país. Os cursos de História Pública são oferecidos em regiões afastadas de Paris, que ocupam posições marginais nas hierarquias institucionais legítimas. Na Universté Paris-Est Créteil (UPEC), o curso foi fundado a partir de uma convenção estabelecida com o Banco BNP-Paribas (BNP Paribas signe une convention..., 2010). São cursos e instituições marginais, sem legitimidade acadêmica, considerando-se o sistema de instituições de ensino superior na França, formado pelas universidades públicas na base e pelas grandes escolas no topo do sistema (Bourdieu, 2013). O interesse do BNP-Paribas, ainda segundo os coordenadores do curso, estaria ligado à formação de especialistas para a gestão de seus próprios arquivos e, de maneira mais ampla, à empregabilidade do corpo discente, cujo perfil é, em geral, de classe popular. Outra função desses cursos seria, segundo os coordenadores, o combate ao negacionismo histórico.27

Em oposição a essas iniciativas, que associam bancos e interesses mais heterônomos, e em que Brillaud é figura emblemática, os agentes que ocupam posições nas universidades de maior prestígio mantêm outra percepção e se distanciam de maneira crítica. Por exemplo, os professores da Universidade de Paris 1, apesar de entusiastas da História Pública, apoiam as iniciativas mais engajadas do Festival Nocturnes de l'Histoire,28 que é promovido pelas principais sociedades de historiadores da França, desde 2020, com o objetivo de se contrapor ao negacionismo da extrema-direita do país. Nesse meio, o trabalho dos youtubers não é valorizado como algo sério, seja do ponto de vista militante, seja do ponto de vista acadêmico, uma vez que se trata de interesses comerciais e não de uma função pública.29

Essa crítica alcança também Brillaud, cujo trabalho não tem valor simbólico nesse meio. A posição de Brillaud, um agente do mercado do entretenimento que se associa de maneira esporádica a instituições de prestígio, não pode ser considerado, portanto, legítimo. Por outro lado, o Master da UPEC é voltado à formação de historiadores e não aos profissionais oriundos da comunicação.30 Desse modo, Brillaud pretende se tornar historiador, ao menos simbolicamente, ao associar sua imagem à desse curso. Além disso, através dessa associação, ele consegue participar dos festivais Nocturnes de l'histoire, onde também se encontram os egressos da Universidade Paris 1. Assim, o “historiador-youtuber” mistura em sua trajetória duas estratégias segundo o polo com o qual se conecta: no mercado da visibilidade, pretende se distinguir pelo saber histórico; no mercado acadêmico, adota estratégia publicitária de quem dialoga com os jovens das classes populares.

6. Castanhari e Brillaud: o Espaço dos Possíveis

Uma primeira diferenciação entre os casos analisados pode ser identificada pela posição que ambos os youtubers ocupam nos dois contextos. Como não se trata de uma categoria reconhecida em termos socioprofissionais, a construção dessas posições depende, em primeiro lugar, da estrutura de relações entre o mercado do entretenimento e o espaço cultural e, em segundo lugar, das estratégias diferenciais em relação ao investimento na carreira de youtuber tout court e o investimento na marca distintiva de “youtuber-historiador”. Os constrangimentos desse mercado, no Brasil e na França, são dados pela oposição central entre um polo acadêmico de produção restrita, e um polo midiático, direcionado ao público ampliado (Bourdieu, 1984; Pinto, 2009; Champagne, 2011; Marchetti, 2002; Vieira, 2021).

A trajetória de Castanhari pode ser considerada no campo midiático de maneira estrita, ou seja, sem a pretensão à nobreza cultural, ainda mais porque encarna a figura do empreendedor na área da comunicação, um mediador entre acadêmicos e grande público. No caso de Brillaud, observa-se a incorporação, seja pelo habitus militante familiar, seja pela adesão à cultura legítima revelada pelo casamento, de legitimidade propriamente acadêmica e a tentativa de enobrecer sua prática pelas relações pessoais e profissionais que estabelece. Ao colaborar pontualmente com jornais, escrever obra autoral e produzir um canal exclusivamente sobre História no youtube, busca converter o capital midiático em capital intelectual. Há, portanto, duas formas de reivindicar “liberdade” em relação aos constrangimentos dos veículos de mídia tradicional: de um lado, pela saída do empreendedorismo, o empresário de si mesmo, que se vende segundo suas regras (inclusive da vida privada); de outro, pela saída da nobreza cultural, de se distanciar simbolicamente do que é estrita forma econômica de acumulação de capital ao incorporar valores. A posição duplamente dominada, no mundo dos acadêmicos e especialistas em História, e no mundo dos empresários (do entretenimento) e produtores de valores econômicos, leva a iniciativas de ritualização do que é puramente “moral”: a “intimidade”, o “conselho”, o “uso privado” dos bens públicos.

No caso específico de Felipe Castanhari, as estratégias comerciais e simbólicas desse youtuber acompanham as transformações de seu Canal Nostalgia. Sua produção está calcada na difusão de um conteúdo pedagógico na difusão de eventos históricos para o grande público associada à razão comercial. O mercado de livros paradidáticos é o que mais o aproxima de acumulação primitiva de capital simbólico, mas observa-se claramente maior “agressividade” mercadológica na posição do “youtuber-historiador”. No caso de Brillaud, pretende-se uma aproximação com a cultura legítima pela difusão de cursos de História Pública, pela assessoria a instituições culturais de prestígio, bem como pela participação em eventos nos quais comparecem historiadores credenciados. Encena-se, nesse caso, a figura do “historiador-youtuber”. Enquanto Castanhari se legitima no espaço dos possíveis pela incorporação de uma doxa jornalística, produto da relação das disputas entre produção acadêmica e jornalística que são estruturantes do caso brasileiro (Vieira, 2024; Chiaramonte, 2015; Chiaramonte e Hey, 2018; Miceli, 2005, 2018), Brillaud vai encenar a posição do historiador, obtendo os dividendos simbólicos advindos do prestígio da história na França (Charle, 2013).

7. Considerações finais

Esta pesquisa pretende mostrar os percursos de construção e de estabilização de uma carreira de youtuber, antes mesmo que ela se torne uma carreira reconhecida oficialmente pelas instituições. Ao analisar duas trajetórias, em dois países distintos, o intuito foi mostrar diferenças na identidade, ou seja, formas que assumem as estratégias em dois contextos, ainda que pesem os constrangimentos evidentes dessas trajetórias. Trata-se, portanto, de um contraponto à ideologia dominante, segundo à qual o youtuber representaria a realização de um talento individual (na área da comunicação) e, mais do que isso, uma relativização da visão acadêmica dominante, segundo a qual essas figuras estariam apenas a serviço do lucro imediato no circuito comercial do entretenimento.

Ao analisar casos em que a representação de um capital cultural ou acadêmico legítimo está em questão, foi possível identificar as estratégias mais ou menos pretensiosas de enobrecimento dessa posição, de modo a mostrar diferenciação nos investimentos segundo o campo da oferta (editoras, de um lado, e cursos, museus ou bibliotecas, de outro) em função da trajetória social e escolar. A menor pretensão cultural de Castanhari é fruto do maior poder e prestígio do polo midiático no Brasil, mas também de sua família liberal, pai com diploma de economia que ganhou a vida como bancário. A maior pretensão cultural de Brillaud, por sua vez, é em parte mais bem compreendida considerando o peso maior da cultura legítima sobre a indústria do entretenimento, mas também do valor dos livros e da militância na vida familiar.

Declaração de uso de IA

Declaro que não foi utilizado nenhum recurso de IA neste artigo.

  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
  • Financiamento
    Esta pesquisa é financiada pela Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, no Brasil e no Exterior. No Brasil (processo Fapesp nº. 2021/01854-0). Na França, Bepe-Fapesp, (processo nº. 2023/04843-4).
  • 1
    Agradeço à Marcia Consolim pela leitura atenta e pelas críticas valiosas, assim como à Allana Meirelles Vieira pelo diálogo constante e pela primeira leitura deste trabalho
  • 2
    Sobre a noção de campo, ver Bourdieu (2025a, 2025b).
  • 3
    Os youtubers estão relacionados às práticas do mercado de influência digital. Isso significa que o conteúdo que produzem é orientado ao consumo por determinadas frações de público. Esses públicos são categorizados e hierarquizados pelo mercado de publicidade. O papel dos algoritmos orienta as regras de indexação dessa produção, priorizando a facilitação e a representação de uma posição de “intimidade” com o público. Ver: Latrive (2017); Laugée (2017); Jardim e Di Pires (2022); Thibes (2017a, 2017b).
  • 4
    Não se trata, portanto, de uma análise sobre o debate historiográfico, ou de um corte comparativo direto sobre a historiografia brasileira e a francesa.
  • 5
    Os materiais utilizados nesta pesquisa fazem parte de um estágio de doutorado realizado na França entre 2023 e 2024, e têm como base um total de 17 entrevistas conduzidas naquele país. As principais entrevistas foram feitas com os coordenadores dos cursos de mestrado em História Pública nas seguintes instituições: UPEC; Uni. d'Albi-Champollion. Além dos produtores do canal La Grande H e coordenadores do festival Nocturnes de l'Histoire. No caso Brasileiro, são mobilizadas, de forma indireta, entrevistas com profissionais envolvidos na produção de canais do YouTube, cujos nomes e referências diretas foram ocultadas a pedido dos entrevistados. Também utilizei fontes de livre acesso na internet.
  • 6
    O então Deputado Federal Jair Bolsonaro – que viria a ser eleito Presidente da República em 2018 – exaltava os feitos da Ditadura Militar no Brasil. Ver “Onze declarações de Bolsonaro em defesa da ditadura” (2019).
  • 7
    Em 2016 o Google Trends sugere o aumento do interesse público por temas ligados aos assuntos relacionados às ciências humanas. Ver “Google Trends: Year in Search 2016” (s.d.).
  • 8
    O vídeo foi retirado do ar em decorrência de questões de direitos autorais e repostado em seguida atingindo, em uma semana, mais de um milhão de visualizações. O nome da equipe foi identificado na ficha técnica do vídeo referenciado (Castanhari, 2016). Foram consultadas também, as páginas de Linkedin da equipe envolvida no vídeo.
  • 9
    Sobre as formas de ascensão do negacionismo histórico, ver Napolitano (2021, 2022).
  • 10
    Em 2016, ano de lançamento do vídeo sobre “Regime Militar/Ditadura” pelo Canal Nostalgia, a palavra-chave “Ditadura Militar no Brasil” atingia picos de busca entre os meses de abril a novembro, sendo impeachment de Roussef em agosto daquele ano. O levantamento de dados sobre buscas no Youtube com as palavras-chave “Ditadura Militar no Brasil” mostra picos de busca pelo tema ano a ano. Assim, de 2014 a 2019 foi o período com maior índice de picos na busca pelo termo, paralelamente à repercussão de temas ligados à política – 2015 com os protestos contra o governo, 2016; ano do impeachment, 2017; as polêmicas envolvendo a defesa da ditadura militar, sobretudo por Jair Bolsonaro que viria a ser eleito Presidente da República em 2018. Ano, aliás, que a busca pelo termo atinge seu maior pico (= 2). Ver “Google Trends Pesquisas no Youtube: de 2008 até o presente”.
  • 11
    O Google Trends é uma das principais ferramentas utilizadas por produtores de conteúdo e agências especializadas nesse tipo de produto. A ferramenta permite medir o interesse do público por um determinado tema. Como mostrou um entrevistado anônimo responsável pelo roteiro do canal de um dos youtubers da pesquisa.
  • 12
    Premiação anual oferecida aos profissionais e empresas do mercado digital.
  • 13
    Na prática, essa posição poderia ser construída através de terminologia nativa, pelo termo “isentão”, usado por Castanhari para falar de si mesmo, que pode ser também uma posição isenta de autonomia e definida por constrangimentos exteriores (Castanhari, 2022a).
  • 14
    Coleção da editora comercial LeYa que teve grande destaque em 2012 ao ter entre seus livros mais vendidos os Guias politicamente incorretos.
  • 15
    Rede comercial de televisão com sede nos EUA.
  • 16
  • 17
    Alguns dos principais entrevistados do episódio são o jornalista Eduardo Bueno, Leandro Narloch e Evaristo de Miranda, pesquisador da Empraba, além do roqueiro Lobão.
  • 18
    O Jornal Le Temps é um jornal diário, em língua francesa, fundado em 18 de março de 1998 pela fusão entre o Journal de Genève, a Gazette de Lausanne e Le Nouveau Quotidien na Suíça. Sobre a linha editorial, ver o “Charte Rédactionelle” Disponível em: https://www.letemps.ch/a-propos. Acesso em: 10 nov. 2025.
  • 19
    Sobre a produção da “ideologia dominante” e a linguagem dos meios de comunicação, ver Bourdieu e Boltanski (1976).
  • 20
    Para uma classificação da posição da editora no mercado francês, ver Bourdieu (2025c).
  • 21
    Sobre Henri Guillemin, ver Noël (2019) e Suratteau (1992).
  • 22
    As informações técnicas foram verificadas no vídeo citado. Ver: Nota Bene: l'histoire des munitionnettes. (s.d.). Disponível em: https://www.dailymotion.com/video/x4ip48i. Acessado em: 20 ago. 2024.
  • 23
    “Popularizar a história no YouTube, no Twitter, no TikTok ou até mesmo em podcasts: isso não só se tornou uma profissão de verdade, como também existem cursos de formação para isso! (…) ‘História Pública’. Essa é uma disciplina originada nos Estados Unidos e que torna a pesquisa histórica acessível, sem comprometer a substância ou o rigor científico (…). Um curso acadêmico para se tornar o novo ‘Nota Bene’, ou Benjamin Brillaud, esse historiador youtuber com 2 milhões de inscritos” (Face aux dérives révisionnistes..., 2023).
  • 24
    O mestrado de inspiração americana foi aberto em 2015, na Universidade de Paris-Est-Créteil, em parceria com bancos, museus de história e o Arquivo Nacional. Em 2023, foram abertos dois novos mestrados: no Institut National Universitaire Champollion em Albi e outro na Universidade de Nantes.
  • 25
    Em 2008, com a criação da Association Française des Managers de la Diversité (AFMD), o banco e outras empresas do setor privado se aproximaram das universidades com o objetivo de recrutar quadros especializados. Para uma síntese das práticas de financiamento do setor privado nas universidades francesas, ver Naszályi (2008).
  • 26
    Entrevistas na UPEC com coordenadores e alunos e ex-alunos entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024. Entrevistas realizadas com coordenadores de curso da Université d'Albi-Champollion no mesmo período.
  • 27
    Três coordenadores de instituições distintas foram entrevistados
  • 28
    Entrevista realizada com coordenadores do festival entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024.
  • 29
    Entrevistas realizadas entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024.
  • 30
    Outros programas podem ser mais abertos. Por exemplo, a Université d'Albi-Champollion permite alunos licenciados em subáreas das Humanidades.

Referências

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Outras fontes

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Jun 2025
  • Aceito
    02 Fev 2026
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