Resumo
O artigo apresenta e analisa o trabalho teórico de Denise Ferreira da Silva, sustentando que ele oferece uma intervenção incomum aos textos de autoras e autores brasileiros dedicados ao tema da teoria social. Para além de revisar criticamente os fundamentos históricos dos textos canônicos, a autora apresenta uma crítica epistemológica e política fundamental ao sujeito moderno da teoria social hegemônica, compondo uma alternativa ontológica concreta para a montagem ou re/de/composição de nosso objeto de estudo e conhecimento. Ao longo do texto, realiza-se uma investigação teórica do trabalho de Ferreira da Silva, que parte da apresentação da compreensão do sujeito moderno (Eu Transparente) como sujeito governante da teoria e da pesquisa hegemônica nas Ciências Sociais. De forma específica, o texto destaca que o sujeito teórico opera nas Ciências Sociais por meio da exclusão e subjugação epistemológica e política da maioria da população global. A partir das considerações da autora sobre as consequências geo-onto-epistemológicas desse sujeito do conhecimento, o artigo descreve seu esforço em estabelecer um terreno inovador para o surgimento de uma ontologia analítica que sugere a possibilidade de composição de um sujeito indeterminado. A conclusão indica que se trata de uma proposição forte que inspira as Ciências Sociais atuais a forjar novas ferramentas analíticas para lidar com seus limites históricos inerentes.
Palavras-chave
teoria social; teoria sociológica; ontologia; política ontológica; sujeito indeterminado
Abstract
The article presents and analyzes Denise Ferreira da Silva's theoretical work, arguing that it offers an unprecedented intervention in the Brazilian contributions to global social theory. In addition to critically reviewing the historical foundations of canonical texts, the author presents a fundamental epistemological and political critique of the modern subject of hegemonic social theory, composing a concrete ontological alternative for the assembly or re/de/composition of our object of study and knowledge. Throughout the text, a theoretical investigation of Ferreira da Silva's work is carried out, beginning with the presentation of her understanding of the modern subject (Eu Transparente) as the governing subject of hegemonic theory and research in the social sciences. Specifically, this article highlights that the reigning theoretical subject operates in the social sciences through the epistemological and political exclusion and subjugation of the majority of the global population. Based on the author's reflections on the geo-onto-epistemological consequences of this subject of knowledge, the article describes her effort to establish innovative ground for the emergence of an analytical ontology that enables the composition of an indeterminate subject. The conclusion indicates that this proposition inspires the current Social Sciences to forge new analytical tools to address their inherent historical limitations.
Keywords
social theory; sociological theory; ontology; ontological politics; indeterminate subject
1. Introdução1
Na última década, os compêndios sobre o estado da arte das Ciências Sociais, especialmente da Sociologia no Brasil, passaram a refletir de forma específica sobre as peculiaridades das produções nacionais sobre teoria (Costa, 2010; Rosa e Ribeiro, 2021).2 De forma geral, estas produções procuram elaborar quadros interpretativos sobre as peculiaridades das produções sobre teoria voltadas ao mercado editorial brasileiro, considerando significativas as opções por “adicionar” (Costa, 2010) características nacionais e regionais aos esquemas teórico-conceituais estabelecidos na tradição euro-americana. Em Rosa e Ribeiro (2021), para além da teoria por adição, foi adicionada uma pequena fração de trabalhos que propunham inovações não necessariamente adaptativas da teoria ao caso brasileiro, mas de esquemas teórico-conceituais hegemônicos. Em comum aos dois trabalhos de revisão, encontramos a constatação de que os textos identificados como teóricos de autores (sempre homens) brasileiros, apesar de propor avanços, não apresentam intervenções na base epistêmica do cânone global (Adésínà, 2006). Como destaquei em Rosa (2022), essa característica tende a não ser peculiar ao Brasil, uma vez que a capacidade de reprodução teórica é o elemento mais central para a afirmação da identidade profissional de quem pesquisa e ensina sociologia ao redor do mundo. Nesta chave, desafiar a teoria pode repercutir como ameaça ao próprio status científico da área.3
Neste artigo, apresento e defendo que o trabalho de autora brasileira Denise Ferreira da Silva é fundamentalmente distinto e mais profundo do que aparece descrito até o momento como característico do fazer teórico no Brasil. Diferentemente dos textos analíticos que buscam conciliar a produção global com os desafios disciplinares nacionais e regionais, mantendo a integridade intelectual de ambos, os trabalhos desta autora, originalmente publicados fora do Brasil, foram produzidos diretamente para intervenção na doxa teórica que sustenta a sociologia em âmbito global. Sua diferença qualitativa em relação aos textos de intervenção teórica produzidos na perspectiva da adição descrita acima é que, enquanto os melhores textos produzidos no Brasil visam à intervenção conceitual (Neves, Correia e Peters, 2024), sua teoria se dedica principalmente a contribuir para o debate epistemológico sobre as condições de produção do aparato conceitual da disciplina.
O trabalho teórico de Ferreira da Silva lida com desconfortos semelhantes àqueles que tematizam as transformações e a ampliação da vida acadêmica global nas Ciências Sociais, analisando o papel predominante das teorias e métodos canônicos na definição e restrição das possibilidades analíticas das vidas coletivas em todo o mundo (Maia, 2024; Macé, 2024; Rosa, 2019, 2022, 2025; Alatas e Sinha, 2017). Seu foco, no entanto, parte dos limites explanatórios e políticos da interseção entre as teorias sociais hegemônicas e a sociologia das relações raciais, visando contestar a universalidade da própria arquitetura do conhecimento disciplinar que produzimos nos séculos XX e XXI.
A partir do livro “Towards a Global Idea of Race” de Ferreira da Silva (2007), traduzido recentemente para o português como “Homo Modernus” (Ferreira da Silva, 2022b), a autora levanta preocupações fundamentais sobre as limitações ontológicas da teoria social, abordando-as por meio de escavações profundas que vão muito além da Sociologia e das Ciências Sociais. Diferente de alguns dos debates mencionados acima, o problema para a autora não reside apenas na localização geopolítica limitante da teoria.4 Seu foco é a composição filosófica do próprio sujeito universal, excludente e hierárquico, da teoria como base da produção de conhecimento nas humanidades: o homo modernus. O projeto teórico de Ferreira da Silva visa não apenas apresentar o sujeito moderno da teoria social hegemônica como uma ferramenta de ampla exclusão ontológica, mas também contestar a força analítica de tais teorias e sujeitos para a produção política da vida coletiva da maior parte da população global.
Além da descrição das raízes de sua crítica, este texto descreve o esforço da autora em estabelecer, com a publicação de “Unpayable Debt” (Ferreira da Silva, 2022c),5 um fundamento onto-epistemológico inovador para uma re/de/composição (Ferreira da Silva, 2023a) de um sujeito de conhecimento (onto-epistêmico) ampliado. A proposta analítica, como sugiro ao longo do texto, nos incita à produção de um sujeito indeterminado, que pode contribuir para a reestruturação da relação entre teoria e pesquisa nas Ciências Sociais atuais, coibindo os excessos determinativos da primeira.
A estrutura do argumento do artigo, construída a partir de seus textos e registros de intervenções públicas, é dividida em quatro partes. Além desta introdução, na segunda descrevo como Ferreira da Silva apresenta uma construção sobre os fundamentos onto-epistemológicos do sujeito moderno (homo modernus) na filosofia ocidental e seus desenvolvimentos na formação das ciências sociais. Em terceiro lugar, apresento como a autora demonstra os efeitos intrínsecos de exclusão e hierarquia do conhecimento hegemônico, refletindo sobre os três pilares onto-epistemológicos que sustentam as vantagens ontológicas exclusivas do sujeito moderno (separabilidade, determinação e sequencialidade). A seção final é dedicada a apresentar e analisar como Ferreira da Silva constrói uma ontologia analítica (Rosa, 2025) para escapar dos impactos restritivos do sujeito moderno, abrindo assim possibilidades para a montagem de existências novas e relevantes nas Ciências Sociais, transcendendo os limites geopolíticos e onto-epistemológicos da crítica atual.
2. O sujeito moderno
O trabalho de Ferreira da Silva está comprometido com a compreensão da constituição intelectual e das consequências do sujeito exemplar e hegemônico nas Ciências Sociais e Humanas, definido como sujeito moderno. O seu conjunto de obras, que vai desde “Toward a Global Idea of Race” (Ferreira da Silva, 2007, 2022b) a “Unpayable Debt” (Ferreira da Silva, 2022c, 2024), oferece, em minha interpretação, contribuição singular para a compreensão dos limites do sujeito e do projeto sociológico hegemônico.
Para Ferreira da Silva (2022b, p. 111), o sujeito moderno, intercambiável com o conceito de “homo modernus”, é caracterizado como a ontologia social dominante nas Ciências Humanas e Sociais. Em suas palavras, ele é definido como o “Eu Transparente”. Suas características típicas-ideais são a autodeterminação (controle racional sobre o eu e o mundo externo), a transparência (a capacidade de compreender e revelar suas próprias condições existenciais) e sua natureza dual como entidade temporal e espacial do conhecimento (nos termos da autora, “histórica” e “global”). O “Eu Transparente” é o sujeito capaz de ser responsabilizado por decisões sobre si e sobre seres inferiores, os “outros”.
De acordo com Ferreira da Silva (2007, 2023b), a produção analítica da existência do “homo modernus” como sujeito do conhecimento depende de seu posicionamento contínuo dentro de uma relação hierárquica, muitas vezes violenta, de oposição com aqueles definidos como “outros”. Ou seja, para a autora, o “Eu Transparente” depende de fazer existir aqueles que diferem de si no tempo e espaço, “para instituir um tipo particular de sujeito moderno, ou seja, um ‘eu’ afetável” (Ferreira da Silva, 2017b, p. 277). Esse último grupo oposicional inclui várias categorias modernas díspares destinadas a descrever os “outros” de uma Europa hegemônica, tais como “subalternos raciais”, “negros”, “mulheres”, “primitivos” ou “tradicionais”. De forma geral, esses termos são descritores de vidas coletivas ou formas de existência sem acesso histórico ao contexto e às ferramentas da razão produtiva para adquirir conhecimento e controle de si mesmos ou de qualquer coisa externa.6
No contexto moderno, os “outros” são sempre considerados inferiores e frequentemente patologizados (Kelley, 2008; Fanon, 2004; Sexton, 2016; Moten, 2008; Ventura, 2026). Trata-se de seres afetáveis, engolfados e subordinados pelo conhecimento reinante daqueles com capacidade histórica de autodeterminação e decisão, ou simplesmente objetos de desprezo em termos analíticos e políticos. Em outras palavras, sujeitos teoricamente irrelevantes que devem ser cuidadosamente guiados para a autodeterminação no mundo dos direitos por meio de uma relação subalternizada e dependente com o “Eu Transparente” moderno reinante.
“Eu Transparente” (sujeito/sujeito analítico) >> “Eu Afetável” (subalternos/dependentes/estado de natureza/sujeitos não analíticos)
Para Ferreira da Silva, como sujeito hegemônico do conhecimento, o “Eu Transparente” abrange o sujeito analítico de todas as principais narrativas teóricas disponíveis na teoria social, incluindo as teorias pós-modernas, pós-coloniais e anticoloniais (Ferreira da Silva, 2022a; Patel, 2024).7 Para a autora, nossa compreensão disciplinar do mundo, sem exceção, depende da reprodução, na política da pesquisa, de um sujeito abstrato desejado, que governa intelectualmente o mundo com base em sua capacidade epistemológica de controlar, excluir e hierarquizar. Na perspectiva de Ferreira da Silva, reconhecer essa característica é essencial para estabelecer uma crítica contemporânea do programa ético das Ciências Sociais, que se estende da Teoria à pesquisa empírica.
Para situar a importância desse sujeito, a autora realiza uma arqueologia (no sentido foucaultiano) do contexto onto-epistemológico da modernidade ocidental, de Descartes a Hegel, para enfatizar seus efeitos sociológicos. Além de fornecer uma análise filosófica detalhada das obras desses autores, ela traça neles uma trajetória dos efeitos de significação onto-epistemológica que constituíram o edifício da sociologia global (Ferreira da Silva, 2007).
Segundo Ferreira da Silva, o Programa Kantiano sustentou o sujeito moderno. Em sua genealogia, ela aponta suas origens no trabalho de Descartes de distinguir e hierarquizar mente e corpo, no qual a “coisa pensante” interior é apresentada como a única existência com capacidade de determinar e decidir sobre sua própria essência e existência (autodeterminação). Ferreira da Silva (2007, p. 119) vai além, afirmando que essa ideia foi aprofundada pela noção kantiana de “razão pura”, que associou as ferramentas de tempo, espaço, substância e totalidade à capacidade interna de compreensão a priori (antes e além da experiência sensorial localizada no corpo). A capacidade intelectual humana de operar por meio de ferramentas determinativas a priori e abstratas, no entanto, não seria acessível a todos. Nos escritos de Kant, ela identifica a proposição de que as diferenças naturais (entendidas como provisão divina) se refletiam nas capacidades mentais avançadas dos brancos (europeus) e, ao mesmo tempo, na inferioridade mental dos negros (ou das colônias), privados naturalmente da capacidade interna de reflexão/raciocínio abstrato. Tudo e todos considerados distintos da mente não desempenham nenhum papel epistemológico significativo. Na versão de Ferreira da Silva, o resultado direto da convergência de ambas as filosofias é tornar os não-europeus objetos ontologicamente irrelevantes (Ferreira da Silva, 2022b, p. 65).
Após examinar as contribuições de Locke, Leibniz e Herder para esse programa, é na obra de Hegel que Ferreira da Silva identifica o ponto de inflexão que permitiu estabelecer os parâmetros para a compreensão do sujeito da mente não mais como uma criatura divina, mas como um ser histórico produzido com as ferramentas da ciência. Segundo Ferreira da Silva (2007), a intervenção de Hegel no século XIX consolidou a representação moderna, transformando efetivamente o que era considerado exterioridade e inferior (o afetável) em um momento histórico temporal do sujeito transcendental (interior). Essa “cena de engolfamento” (Ferreira da Silva, 2007, p. 179) reconciliou a razão com a liberdade, a natureza com a história e o espaço com o tempo, produzindo o “Eu Transparente” (homo historicus) em uma entidade que se autodesdobra e se autorrepresenta. Em sua leitura, a obra de Hegel estabeleceu a transcendentalidade como princípio ético, afirmando que a consciência europeia pós-Iluminismo e suas configurações sociais relacionadas marcaram o culminar de uma trajetória temporal em que o Espírito se equipara à razão universal. Esse momento forneceu a “base moral” para os relatos ontológicos modernos das Ciências Sociais que se formariam logo a seguir (Ferreira da Silva, 2007, p. 41).
O estabelecimento dessa trajetória histórica em direção a uma sinonímia entre liberdade e transparência dependia de condições dialéticas particulares que surgiram na Europa como espaço para o desenvolvimento da mente e da razão como ferramentas de conhecimento do homo historicus e, posteriormente, do homo scientificus. Nessas circunstâncias, o resto do mundo (privado da possibilidade histórica da poesis transcendental) foi ontologicamente relegado a estágios atrasados (ainda não alcançados) ou a párias irrevogáveis, como os “nativos” das Américas e da áfrica (Ferreira da Silva, 2007, p. 184).
Para Ferreira da Silva, o surgimento das Ciências Sociais e seu nomos produtivo representaram a inscrição científica da razão universal em corpos e formações sociais determinados temporalmente e espacialmente. Assim, o recurso à descrição da diferença histórica opera para legitimar a hierarquia na ordem global moderna (Ferreira da Silva, 2017b, p. 276).
Esta breve visão geral da arqueologia das ideias filosóficas sobre o sujeito moderno, apresentada por Ferreira da Silva (2007, 2022b), é essencial para introduzir sua compreensão do papel determinante da obra de Karl Marx na tradução dessas ideias filosóficas em uma sociologia da exclusão da razão científica (sociológica da exclusão). Ao longo de seus escritos, Ferreira da Silva mantém uma relação crítica e dual com Marx e seu legado. Embora afirme em debates recentes que continua sendo fundamentalmente marxista no que concerne a descrição das condições materiais de existência (Ferreira da Silva, 2023a, p. 306), ela reconhece que, ao inverter a noção hegeliana da dialética do espírito, Marx apresentou o sujeito social como uma entidade cuja existência coletiva é primeira e externamente determinada pela história das condições materiais de produção. Essa determinação externa seria, para Marx, uma condição ontológica geral e indiferenciada da humanidade. Os seres humanos e sua consciência já não seriam mais o produto do divino e do transcendental hegeliano, mas sim uma condição do desenvolvimento histórico da humanidade.
Na versão de Ferreira da Silva, a teoria de Marx, por ser herdeira da tradição hegeliana e do programa kantiano, também se ancora em um sujeito teleológico historicamente hierárquico da razão e da consciência.8 O sujeito em Marx seria, segundo a autora, o resultado das condições materiais de existência que se desenvolveram historicamente (fora das mentes e corpos) em condições díspares. Na leitura da autora, compartilhada por mim, Marx considera que as condições históricas globalmente desiguais permitiram o surgimento na Europa da autoconsciência (consciência de classe) como uma característica ontológica superior. Em suma, as contradições nas condições materiais de existência externas aos seres humanos permitiram a formação ontológico-epistemológica de um sujeito com inédito poder determinante sobre o que é interno e externo a ele, um sujeito produtivo-regulador de sua própria existência, que pode almejar a autodeterminação. Não por acaso, este sujeito produtivo teria emergido no exato lugar em que produzia essa teoria.
Nesse ponto, a exterioridade da história se torna a condição para um estágio superior da humanidade autodeterminada, no qual a interioridade e a razão se afirmam como demarcadores da diferença. Mesmo que Marx siga um caminho inverso ao de Hegel, centrado na história das relações de produção, sua teoria reforça a oposição hierárquica espacial e temporal entre aqueles que são capazes de alcançar e exercer as capacidades da razão (de controlar e determinar sua condição de existência interna e externa) e os “outros”, cuja existência é exteriormente determinada como inferior (alienação).
Segundo Ferreira da Silva (2022b), esse cenário é definido com mais clareza na teoria moderna da colonização de Marx, na qual o autor separa analiticamente os determinantes da colonização e do capitalismo em tempos e espaços particulares. O espaço das colônias é significado em um tempo histórico atrasado, de certa forma comparado, mas desconectado da metrópole. Nele, a abundância de meios de produção (terra) nas colônias é considerada análoga a tempos remotos, historicamente anteriores à acumulação primitiva na Europa. Nessas condições, mesmo os colonos brancos careciam das condições exteriores necessárias para se tornarem sujeitos transparentes ou mesmo afetáveis, uma vez que não compravam ou vendiam seu tempo de trabalho (demarcadores fundamentais da hierarquia do sujeito moderno). Consequentemente, não havia condições históricas, naquela formação social, para a constituição da razão produtiva capaz de controlar os determinantes exteriores da natureza nos espaços coloniais.
Enquanto os colonos dispunham dos idílicos e abundantes meios de produção pré-modernos, os “nativos” escravizados (analiticamente racializados como negros e indígenas) eram considerados demasiado atrasados no tempo e no espaço para serem potencialmente engolfados pela lógica positiva da razão. Assim, permaneciam fora do horizonte histórico moderno. O ponto central de Ferreira da Silva é que a construção marxiana da incapacidade dos nativos de participar do movimento produtivo da era moderna os produz como um elemento epistemológico necessário da infraestrutura ontológica moderna. Eles são o “outro” necessário que, ao mesmo tempo, ameaça e constitui o sujeito histórico moderno contemporâneo.
Sem entrar em uma análise detalhada da interioridade na teoria contemporânea, proponho seguir o entendimento de que Ferreira da Silva critica o modo como na teoria social a história opera como uma hierarquia permanente e estável entre: i) aqueles que já controlavam a si e ao exterior (natureza, corpo, meios de produção, consciência discursiva, valores culturais e bens) para proteger seus interesses; ii) aqueles que adquirem essa capacidade na modernidade devido às contradições do modo de produção capitalista – a vanguarda necessariamente educada; e iii) outros que são historicamente dependentes e atrasados no acesso às ferramentas da razão. é importante lembrar que, segundo a autora, a teoria social hegemônica também é proficiente em organizar essas condições ao longo do tempo e do espaço, usando termos e conceitos como subdesenvolvido, dependentes e atraso para delinear existências colonizadas, não industriais e racializadas. Desse modo, por meio da determinação histórica e geo-ontológica, certos corpos, gêneros e culturas tornam-se marcadores hierárquicos onto-epistemológicos fundamentais de inferioridade.9
Nessa “peça da razão”, como Ferreira da Silva (2007) o chama, o movimento histórico do sujeito da teoria é invariavelmente posto em marcha para proteger a inviolabilidade da condição moderna de interioridade como instrumento de controle e produção de hierarquia e exclusão onto-epistêmica. Seja na versão de Marx ou nas várias outras criadas ao longo do século XX, nossa análise sociológica está sustentada na produção da superioridade histórica e política da figura autoconsciente e autodeterminada. Na narrativa da autora, independentemente dos projetos políticos, as teorias hegemônicas que ensinamos hierarquizam epistemologicamente os sujeitos da vida coletiva entre transparentes (autoconscientes e autodeterminados) e afetáveis (ainda não e, talvez nunca, postos no caminho da consciência ou interiorização).
3. Sociológica da exclusão
“Meu projeto maior é a destruição completa, total do programa kantiano e de tudo o que dele vive, porque tudo o que ele autoriza é violência, inclusive a destruição do planeta. é hora disso, da coisa transparente, ir embora” (Ferreira da Silva, 2023b, s.p.).
A breve digressão acima sobre sua arqueologia do conhecimento filosófico é necessária para a compreensão da interioridade como uma condição teleológica para a autodeterminação política e histórica e, portanto, para a liberdade. Conforme apresentado acima, o problema fundamental do sujeito moderno que orienta a teoria e a pesquisa social contemporânea, na visão de Ferreira da Silva, é sua natureza intrinsecamente excludente e hierárquica.
Entre “Homo Modernus” (originalmente publicado em 2007, mas formulado quase uma década antes) e “Unpayable Debt” (2022c), Ferreira da Silva publicou uma série de artigos, capítulos e breves intervenções textuais (além de suas obras de artes plásticas visuais) sobre a centralidade de três pilares onto-epistemológicos do conhecimento moderno originados do Programa Kantiano: separabilidade, determinação e sequencialidade. Esses elementos cognitivos sustentam os descritores empíricos fundamentais para o que existe (formalidade) e o que acontece no mundo (eficácia) (Ferreira da Silva, 2022c). No entendimento da autora, isso significa que o que precisa ser conhecido deve ser caracterizado como formalmente distinto, espacialmente separável e ainda inscrito em uma história sequencial. Para os fins deste texto, é importante observar que essa maneira de entender o mundo é guiada pela capacidade de produzir e identificar formas de existência estáveis, comparáveis e hierárquicas. Uma vez determinadas sua quantidade, qualidade, relação e modalidade, as coisas do mundo (sociais, físicas e mentais) adquirem o status de uma forma com capacidade causal específica (efeitos) inscrita em configurações temporais delimitadas. Segundo ela, isso permite de maneira fundamental a produção do corpo como uma forma de diferença racial, inicialmente nas ciências da vida e, posteriormente, nas ciências humanas e sociais.
Voltando ao argumento anterior, a forma ontológica do sujeito da razão que sustenta a liberdade (autodeterminação) foi inscrita em uma associação específica de tempo e espaço, referida por Ferreira da Silva como o contexto onto-epistemológico da modernidade (Ferreira da Silva, 2022b). Na versão de Marx, somente sob certas condições históricas e materiais o humano se torna capaz de lidar com e controlar a mente, o corpo e a natureza. Esse seria o momento considerado produtivo (de controle e determinação) que permite a atualização constante do sujeito do conhecimento e do que é externo a ele.
A existência produtiva implica delimitação consciente da espacialidade e temporalidade que constituem ferramentas analíticas para o estabelecimento da excepcionalidade moderna e para o reconhecimento das diferenças históricas e geográficas aplicadas a “outros”. Nas palavras da autora, tudo o que não é produzido como diferença em relação ao moderno permanece inacessível e irrelevante para o sujeito do conhecimento (Ferreira da Silva, 2007, p. 216). Embora as vidas dos “outros” sejam compostas por elementos não modernos (Rosa, 2025), estes tornam-se significantes vazios. Ausentes das vidas do sujeito moderno dominante do conhecimento, não podem ser comparados, quantificados e relacionados, o que significa que não têm valor analítico (Ferreira da Silva, 2017a).
Assim, o dilema analítico do sujeito moderno é que sua condição de liberdade depende de seu aprisionamento em uma única relação limitada pelo tempo e pelo espaço. As coisas, tanto humanas quanto não humanas, às quais nenhum efeito pode ser atribuído por meio da diferença de tempo e espaço, tendem a ser inscritas em estágios anteriores de sequencialidade universal que já foram superados e que perderam seu valor explicativo/causal com o advento da modernidade. Essa inscrição na anterioridade é usada para obliterar e perpetuar a irrelevância entre a maioria das pessoas em todo o mundo. De forma geral, ela marcaria a posição de exclusão analítica do universo sociológico.
Nas ciências sociais contemporâneas, o exame crítico desses pressupostos filosóficos é necessário porque nos lembra que as coisas que observamos e atribuímos valor causal na pesquisa são produto da representação científica, e não propriedades naturais das coisas que existem no mundo (Law, 2004). Segundo Ferreira da Silva, a alternativa para os debates políticos modernos, como os que fazemos na sociologia, deveria se concentrar primeiro em como produzimos conhecimento e nossas ferramentas de apreensão, em vez de se limitar às propriedades supostamente formais dos objetos.10
4. Rumo à recomposição sujeito
A arqueologia crítica de Ferreira da Silva enfatizou a arquitetura epistemológica e a natureza excludente do sujeito moderno hegemônico na teoria social, levando-a a desenvolver um programa intelectual de colaborações para a montagem de um aparato analítico e um programa político singular que transborda a vida acadêmica (Ferreira da Silva, 2023b). A longo prazo, a desestabilização das estruturas de reflexão formal hegemônicas foi acompanhada, em sua obra, por experiências de produção onto-epistemológica. Operando tanto na desestabilização quanto na experimentação, seu programa político visa reconstruir as existências negras no mundo pós-colonial sem os pilares que sustentam o racial.
Ao mesmo tempo, ela busca produzir um aparato analítico que forneça as condições necessárias para a re/de/composição de uma nova noção do sujeito epistêmico (produto e produtor de conhecimento). O resultado de três décadas de experimentação colaborativa, com vários colegas de diversas áreas não necessariamente acadêmicas, atinge, em minha leitura, um estágio inovador no livro “A Dívida Impagável”, expandindo as possibilidades epistemológicas para interpretar a vida coletiva contemporânea.
Retornando ao argumento do livro de 2007, além de uma argumentação consistente sobre os efeitos da teoria canônica, são estabelecidos diálogos críticos como Foucault, Gramsci, Gilroy, Hall, Appadurai, Bhabha, Spivak, Chakrabarty, Chatterjee e teorias interseccionais, uma vez que esses eram os autores no centro da crítica pós-colonial e pós-estrutural naquele momento (anos 80 e 90). Apesar de encontrar nesses textos inspirações para pensar a condição de produção de conhecimentos em contextos pós-coloniais racializados, o diálogo exaustivo que estabelece com esses textos contribui para sua conclusão de que as autoras e autores acima citados, ao mobilizarem o cultural como diferença, compartilham da mesma analítica da racialidade dos demais textos sociológicos.
A analítica da racialidade, estou sugerindo, transforma essas mobilizações do cultural nos projetos emancipatórios, que exigem o reconhecimento (inclusão) da diferença cultural dos “outros da Europa” em empreitadas que se autodestruirão precisamente porque presumem os significantes da transparência como os únicos a regerem a representação moderna” (Ferreira da Silva, 2022b, p. 315).
De forma a demonstrar a particularidade de sua proposição e não ser enquadrada como produtora de mais uma versão do pós-colonial, ela afirma:
A diferença entre o meu relato e a maior parte das análises raciais críticas e da crítica pós-moderna do pensamento moderno é o fato de que eu não repito o argumento de que os “outros da Europa” foram situados fora da história e da razão ou postulo que foram fixados num tempo primitivo ou inteiramente fora do tempo, como objetos de “inverdade” — de “falsificações científicas”, “preconceitos” e “falsas crenças”. Ao contrário, eu destaco que o arsenal regido pelo racial, em vez de produzir os “outros da Europa” fora da historicidade e da universalidade, os engolfa ao escrever sua diferença como efeito da peça da razão produtiva (Ferreira da Silva, 2022b, p. 315).
Seu argumento, portanto, é que o sujeito do texto pós-colonial ou pós-moderno incorpora e aceita a universalidade dos descritores do sujeito moderno para produzir a diferença subalterna. Em última instância, a admissão de novos sujeitos ocorre pela aceitação da dependência de normatividade onto-epistemológica do “Eu Transparente” sobre eles. Este é o argumento que sustenta, por exemplo, sua observação sobre os limites das teorias de Foucault:
Entretanto, apesar da sua análise sobre poder/conhecimento – que eu nomeio de produtividade – sugerir considerar o racial como parte do arsenal do regime moderno de “verdade”, ela não o faz porque, além do explícito eurocentrismo (já identificado em um grande número de intelectuais), ele mantém a interioridade como a característica distintiva do homem (Ferreira da Silva, 2022b, p. 103).
“A dívida impagável” é, em minha leitura, um texto que concretiza, após diversos experimentos e diálogos teórico epistemológicos, alternativas para a elaboração de uma noção de sujeito que escape dessas armadilhas normativas. Nessa obra, observamos uma experiência intelectual informada pelo diálogo substancial com o pensamento feminista negro radical e pela incorporação dos recursos estéticos e narrativos da literatura de ficção científica afrofuturista. Além do texto literário de Octavia Butler, Ferreira da Silva faz uma apropriação epistemológica de construções teóricas de Hortense Spillers (1987) e de Saidiya Hartman (1997), apresentadas adiante.
Essas novas associações intelectuais, com um conjunto de obras que normalmente não é ativado pela teoria social hegemônica (porque são isoladas como referentes conceituais apenas aplicáveis a gênero e raça), permitem à autora, além de continuar a questionar as limitações de nossas ferramentas de conhecimento hegemônicas, encontrar melhores descritores para compor vidas epistemologicamente subalternizadas. Sua construção em “A Dívida Impagável” e nos textos subsequentes, questiona como podemos narrar e reescrever com competência as vidas coletivas que foram tratadas, na sociologia hegemônica da exclusão, como “outros afetáveis”.11
4.1. A montagem de uma ontologia analítica por meio da ficção científica
Em “A Dívida Impagável”, a montagem metodológica de Ferreira da Silva se ancora em Dana, personagem central do romance Kindred, de Octavia E. Butler (1979), para examinar o desafio onto-epistemológico de escrever sobre as vidas das mulheres negras contemporâneas nas Ciências Sociais. A personagem ficcional e suas experiências são cruciais para sensibilizar os leitores de Ferreira da Silva, a perceber, explorar e desafiar os limites dos pilares onto-epistemológicos do pensamento pós-Iluminista, bem como os mecanismos históricos e contínuos de subjugação racial e acumulação de capital. A utilização de uma personagem de ficção científica em um trabalho acadêmico, permitiu a autora suspender as ferramentas analíticas e descritivas tradicionais limitantes de separabilidade, determinação e sequencialidade, evitando o uso determinativo do que é conhecido a priori (Ferreira da Silva, 2017b).12 A figura fictícia pode viver uma vida inesperada e é especialmente autorizada a sentir, dizer e pensar coisas que não são permitidas a um ser sociológico legítimo em nossa pesquisa, geralmente limitado a uma localização ou posicionalidade (classe, gênero, raça), espaço (urbano, rural) e tempo (modernidade, capitalismo) particulares e anteriores à própria análise.
No romance, Dana é uma jovem escritora que sobrevive a empregos precários que lhe permitem exercer o ofício da arte, assegurado pela sua condição de liberdade ética e jurídica nos Estados Unidos (EUA). Em um momento específico da vida, ela começa a passar por deslocamentos repentinos (viagens no tempo e no espaço) de sua casa em Los Angeles (EUA), em 1976, para uma plantation escravocrata em Maryland (EUA), no início do século XIX. Usando as categorias limitantes ordinárias da descrição sociológica, ela viajaria da Califórnia moderna e pós-colonial para a América do Norte rural e atrasada. Sua obrigação ou fardo principal, e aparentemente involuntário, durante essas viagens é sempre salvar a vida de Rufus, o filho branco do dono da plantation. Rufus não é apenas um beneficiário da extração do trabalho escravo, ele é o pai dos filhos de uma escrava, que foram ancestrais de Dana. Nos diversos momentos em que ela volta no tempo com a obrigação de salvar, a mulher negra moderna é tratada como todas as demais daquele tempo e espaço: como uma escrava/corpo que é propriedade/coisa passível de ser açoitada como uma mera mercadoria ou um pedaço de carne. O problema se torna ainda mais complexo porque, em seus regressos a Los Angeles de 1976, seu corpo passa a exibir as feridas abertas do açoite. Ao voltar, ela também passa a recompor em sua mente os acontecimentos da plantation, com diversos outros de violência racial que marcaram a vida recente de sua família e dos habitantes negros de Los Angeles. Na carne da mulher negra portadora de direitos, as feridas continuam abertas, tanto pela dor, como pela associação com a vida presente. Nessa condição, o melhor descritor para pensar sua existência não são nem o tempo, nem o espaço, mas o corpo desvinculado da razão.
Sua experiência destaca um profundo impasse ético: diante da consciência da violência total da escravidão, ela deve manter Rufus vivo para poder existir, mesmo que ele seja o escravizador, estuprador de suas ancestrais. Em sua abalada consciência moderna, ela precisa acompanhar e, de certa forma, sustentar a escravidão no passado para garantir a linearidade epistemológica da ideia de liberdade das mulheres negras no presente.
Uma mulher negra norte-americana contemporânea e livre teria uma existência histórica totalmente diferente de seus ancestrais escravizados. Mesmo com a linearidade do racial, elas não são o mesmo tipo de sujeito sociológico e analítico. Porém, com Dana, Ferreira da Silva busca demonstrar o contrário. A existência contemporânea da mulher negra (portanto racializada) nas sociedades pós-coloniais, como sujeita, não superou e, provavelmente, nunca superará suas existências e obrigações anteriores; pelo contrário, elas carregam no presente as conexões (feridas) com elementos que, aparentemente, não teriam determinação causal na vida do sujeito liberal de direitos, tampouco no capitalismo hodierno. No entanto, tanto a escrava quanto a mulher livre e emancipada estão, para Ferreira da Silva (2023a), no mesmo corpo negro e carregam o fardo de serem racializadas, mesmo que sob regimes onto-epistemológicos diferentes.
Durante o caminho de volta de sua última viagem de Los Angeles para a plantation, Dana perde parte do braço, que é arrancado por Rufus quando ela finalmente o mata enquanto ele tenta estuprá-la. Esse braço decepado se torna uma evidência incompreensível para os contemporâneos de suas viagens no tempo em 1976, em Los Angeles. Ele não possui determinação histórica. No hospital, os profissionais de saúde e assistentes sociais insistem em encontrar uma causa atual para a perda. Na análise sociológica contemporânea, esse é o tipo de perda que não pode ser explicada com as ferramentas analíticas determinativas. Apesar de ter nascido livre, sua existência contém os elementos (a carne e o sangue) que, em um momento inesperado, a compõem também como uma mulher negra na Maryland escravocrata. A existência de seu corpo racializado (mesmo na ordem capitalista democrática) não se esvai sob a proteção ética ou os direitos concedidos aos seres humanos modernos.
Além de ser uma cidadã negra livre dos Estados Unidos, ela permanece ferida e eticamente em dívida com a vida de seu senhor branco e com suas ancestrais na plantation. A dívida permanece eternamente por saldar. Quando terminamos de ler “A Dívida Impagável”, compreendemos que a personagem de ficção científica funciona como uma descrição acurada para a compressão analítica da existência determinativa dos corpos femininos negros no capitalismo democrático pós-colonial contemporâneo.
A figura de ficção científica, ao voltar no tempo e matar seu ancestral, rompe com a linearidade histórica que garante parte da arquitetura social de sua existência. Dessa forma, ela se transforma na inspiração para a composição de uma possibilidade de ruptura intelectual com a própria história do sujeito que sustenta a humanidade científica.
4.2. A “Corpa cativa ferida na cena da subjugação”
A personagem fictícia Dana, de Octavia Butler, permite a Ferreira da Silva (2024, 2022c) criar o que chamei em textos anteriores (Rosa, 2022, 2025) de uma ontologia analítica, ou seja, uma ferramenta teórico-metodológica que permite comunicar uma condição de existência coletiva não hegemônica, porque significada fora dos parâmetros e descritores da ontologia geral de nossas teorias. Nesse sentido, ela não se refere a um modo de existir empírico, mas aos elementos e às condições sempre limitadas e parciais nas quais se pensa uma existência nas Ciências Sociais.
As jornadas e fardos da existência genderizada e racializada de Dana, dentro e fora de uma sociedade pós-colonial, permitem que Ferreira da Silva produza efeitos analíticos diferenciais para a composição de sujeitas de conhecimento que ampliem o escopo da pesquisa social. A Dana de Octavia Butler conecta, ao longo de “A Dívida Impagável”, debates contemporâneos, ideias e inspirações do feminismo negro, do pensamento negro racial e da teoria jurídica crítica para compor uma possibilidade inovadora de existência analítica.
Em tais conjuntos teóricos heterogêneos, Ferreira da Silva encontrou, como afirmei acima, uma base conceitual particular nas obras de Hortense Spillers (1987) e Saidiya Hartman (1997), além de Sylvia Wynter (2003) e Fred Moten (2008). Para os fins deste texto, apontei apenas como essas duas primeiras autoras inspiraram diretamente a montagem da ontologia analítica, de “corpa cativa ferida na cena da subjugação”.13 Em Spillers (1987), ela busca as ideias do corpo ferido da escrava como hieróglifos de carne feminina de(s)generificada, ou seja, como um corpo que, aos olhos modernos, não encontrava descritores eficazes o suficiente para ser um outro do “Eu Transparente” (ela não é nem mulher, nem mercadoria), ativando a indeterminação e chamando a atenção para a obrigação ética de pensar a existência de algo indeterminado (Ferreira da Silva, 2022c). Com Hartman (1997) ela compõe a figura das cenas de subjugação, que examina o efeito analítico do exercício brutal do poder sobre o corpo cativo durante a escravidão como revelador da sua indeterminação ontológica entre propriedade e pessoa (Ferreira da Silva, 2022c).
Dana ajuda Ferreira da Silva a montar uma figura de conhecimento que parte dos termos descritores modernos para lidar melhor com a forma como os seres afetáveis têm sido tratados nas Ciências Sociais. Trata-se de uma ontologia analítica complexa e central para a compreensão do entrelaçamento das formações coloniais, raciais, científicas e capitalistas na composição de sujeitas contemporâneas. A corpa cativa é descrita pelo conhecimento hegemônico (analítica da racialidade) como despojada de direitos, como inferior, sujeita à expropriação total de valor e marcada por feridas físicas e históricas que representam o custo impagável da liberdade liberal. “é constituído pelo que é conhecido – o que pode ser observado ou previsto –, mas que não precisa vir a existir para ter efeito” (Ferreira da Silva, 2017b, p. 287). Ao mesmo tempo, é um corpo ou um corpus de conhecimento que desafia as probabilidades sociológicas contra os descritores e as ferramentas de exclusão, porque não apenas resiste ou sobrevive, mas atravessa os limites do tempo e do espaço, incitando a remodelação das maneiras como conhecemos nossa história e suas causalidades e determinações.
A ativação da corpa cativa ferida na cena da subjugação permite rastrear aquilo que é operativo em toda repetição do evento racial, isto é, a própria forma política que ignora a história. Aquilo que acontece sem o tempo e independentemente do lugar é também sem historicidade (interioridade/temporalidade) e não demanda especulações sobre a subjetividade, isto é, as bases preferidas da episteme interpretativa, atributos mentais, capacidades, sentimentos, crenças, significados e assim por diante (Ferreira da Silva, 2022c, p. 106).
O conhecimento produzido por Ferreira da Silva por meio do artifício da corpa cativa ferida impede a sutura e a homogeneização das ontologias universais lineares e progressivas, evitando também a tentação da descrição pela identidade com o “Eu Transparente”. Nessa figura, as feridas permanecem abertas na iteração dos gestos capitalistas coloniais modernos que se conectam com elementos de outros tempos e espaços epistemológicos.
Na cena de subjugação, que as feridas em seu corpo cativo não podem deixar de lembrar, ela destaca (como um feixe de luz negra) uma posição em que, como pessoa, ela só tem valor de uso (como mercadoria), ela lembra a cadeia comercial, que começa com a travessia (o comércio) do continente africano para o continente americano. […] Ao fazer isso, ao apagar a separação entre os momentos jurídico (um negro, ou seja, um bem móvel), econômico (um trabalhador escravo) e ético (bem móvel [coisa] e trabalhador [pessoa] simultaneamente) da arquitetura política pós-Iluminismo, a corpa cativa ferida na cena de subjugação lança luz negra sobre as suturas invisíveis feitas pela linearidade e suas ferramentas (Ferreira Silva, 2023a, p. 302).
A corpo cativa ferida na cena da subjugação, não segura espelho algum. Uma humana entre valores de uso, suas expressões de dor e prazer são suscetíveis de sofrer repressão, e, portanto, ela não pertence plenamente ao mundo de mercadorias. E, na condição de objeto de troca, um valor de uso entre pessoas, a sua pressuposta interioridade está disponível para ocupação e, portanto, ela não pertence plenamente ao mundo de sujeitos de prazer e dor. Essa indeterminabilidade também faz dela uma figura ética precária, uma figura que desafia a tese de transparência a partir de fora e de dentro (Ferreira Silva, 2022c, p. 281).
Sem apostar no conceito de negritude ou em qualquer outra categorização ligada à nossa compreensão moderna do político, ela alude simultaneamente aos seus efeitos ambíguos de precariedade. A imagem da corpa ferida cativa na cena de subjugação é utilizada como uma ferramenta de leitura. Essa figura opera não apenas como um instrumento ou mediador entre a intenção desestabilizadora e sujeitas obliteradas teoricamente e metodologicamente. Ela, nas palavras de Ferreira da Silva, é uma ferramenta que alcança resultados que vão além de sua intenção original de destacar a inferioridade analítica dos termos usados até mesmo por coletivos negros (Ferreira da Silva, 2023b). A corpa cativa ferida ao trazer novos descritores sociológicos e políticos se configura como portadora da dívida impagável – uma dívida ética e epistemológica perpetuada também por nossas ferramentas analíticas que reproduzem a existência negra espelhando o sujeito branco da subjetividade moderna (Ferreira da Silva, 2022c).
Ferreira da Silva (2023a) argumenta, contra Marx e sua teoria do valor trabalho, que o corpo escravizado, apesar de ser trabalho vivo com capacidade produtiva, não tinha apenas parte de seu valor de trabalho (salário) retido por seu proprietário. O escravo teve, e todos os seus descendentes continuam a ter, todo o seu valor humano potencialmente moderno expropriado politica e analiticamente, levando à produção analítica de um déficit histórico, social e humano atribuído a todas as vidas negras ocidentais pela ciência histórica (o que a autora chama de valor total) (Ferreira da Silva, 2022c). Essa forma de produção de conhecimento, em minha leitura de Ferreira da Silva, envolve transubstanciar teoricamente a violência e a expropriação em uma falha ou déficit ontológico inerente associado ao corpo racializado, posteriormente substanciado na ideia moderna e dócil da cultura negra nacional (Paixão, 2025).
Inspirada por essas ideias, ela chega a um ponto radical em que o corpa cativa ferida não é apenas uma consequência indesejada da infraestrutura política moderna que sustenta o capitalismo. A corpa cativa ferida na cena da subjugação não visa buscar reconhecimento (como identidade ou valor cultural) ou substituir o opressor na posição de poder disciplinador. Ao contrário, ele busca, pela agregação de novos elementos não determinantes na epistemologia moderna, perturbar toda a estrutura cognitiva da subjugação, incluindo as categorias raciais e de gênero incorporadas na atual política hegemônica teórica de determinação a priori. Uma sujeita que carrega um “acúmulo negativo”, tanto para o capitalismo quanto para as ciências sociais (Ferreira da Silva, 2017a).
Como trazer para a teoria, para a arquitetura onto-epistemológica, um valor negativo que anula os efeitos do próprio sujeito hegemônico de conhecimento das ciências sociais? O esforço central de Ferreira da Silva é demonstrar que a possibilidade de existência de sujeitas que hoje são descritas, por exemplo, como mulher negra não é analiticamente determinada apenas pelo tempo, espaço e elementos materiais e simbólicos constituintes da teoria social hegemônica. Ela também é formada por matéria não catalogada, excedendo os descritores do sujeito histórico moderno da razão e da sociologia. Por ser composta de elementos excedentes, que não necessariamente reiteram o valor absoluto do “Eu Transparente”, sua composição passa a ser indeterminada, e ela, nem sempre, poderá ou deverá ser hierarquizada ou relacionada ao sujeito normativo branco cis-hetero-patriarcal (Ferreira da Silva, 2018).
4.3. Um sujeito indeterminado
A analítica construída por Ferreira da Silva para descrever a condição de existência da mulher negra do presente é, em minha perspectiva, uma base fundamental para a construção de uma noção de sujeito diferenciada. O foco central de a corpa cativa é a não presunção de determinabilidade ontológica do sujeito por sua inscrição no tempo e espaço disciplinados pela teoria que informa a subjetividade sociológica do analista. Ao recursar, a partir da experiência do corpo da mulher negra, a capacidade de determinabilidade do aparato disponível, afirmando que esta sempre reitera a existência como um espelho inferiorizado do “Eu Transparente” (Ferreira da Silva, 2022c), a autora não propõe que se busque uma outra determinação que poderia revelar a verdadeira existência ou essência da mulher negra. Ela se volta contra o poder determinativo de qualquer descritor.
A noção de mulher negra é utilizada assim como expressão de um problema do conhecimento e, ao mesmo tempo, como uma descrição da qual devemos nos livrar como sujeita de nossos próprios textos. Em sua interpretação, a mulher negra só existe porque as condições epistemológicas de suas possibilidades de existência são determinadas (como um espelho) por propriedades do homem branco (Ferreira da Silva, 2018). Para ela, a mulher negra que existe como sujeita afetada pela política do conhecimento moderno é uma composição que descreve apenas a posição de um elemento indeterminado na relação de identidade com um sujeito determinante que a delimita na arquitetura patriarcal.
Sua intervenção, como afirmei na introdução, é teórico-metodológica, pois recusa a busca da determinabilidade, uma vez que isso reitera o problema do programa kantiano que fundamenta a teoria social. Para escapar a esta armadilha do conhecimento que produz a priori efeitos políticos hierarquizadores e excludentes, Ferreira da Silva caminha na produção da corpa cativa na cena da subjugação como aquilo que chamo de sujeito indeterminado.
A corpo cativa ferida na cena da subjugacão guia um exercício especulativo no qual a indeterminabilidade direciona o delineamento tanto da implicação profunda, enquanto um descritor, quanto do corpus infinitum, enquanto uma imagem da existência que alcança todo o conhecimento e todo o existente não como um (uma unidade) ou um (identidade) em sua fractalidade, pois cada um é uma re-des-composição singular daquilo que já existiu (Ferreira da Silva, 2022c, p. 17).
Esta noção de indeterminação emerge em suas obras “1 (life) ÷ 0 (blackness) = ∞ − ∞ or ∞ / ∞: On Matter Beyond the Equation of Value” (Ferreira da Silva, 2017a) e “Hackeando o Sujeito: feminismo negro e recusa além dos limites da crítica” (Ferreira da Silva, 2018),14 posteriormente desenvolvidas em “A Dívida Impagável”. Nos dois ensaios, a autora parte de um jogo com a noção de equação do valor na obra de Marx, uma equação que define uma qualidade e uma determinabilidade produtiva específica do humano moderno, para demonstrar que ela pode ser refeita (hakeada) se forem introduzidos elementos que possuem valor determinativo negativo na equação do capital.
Hackear aqui é uma decomposição, ou uma transformação radical (ou uma imagem) que expõe, abala e perverte forma e fórmulas. é um desentendimento, uma des-leitura e uma des-apropriação ativas e propositais. Hackear é um tipo de leitura que é, ao mesmo tempo, uma imagem […] e uma composição (como descrição de um ato criativo), além de uma recomposição de elementos, no sentido que o termo tem na alquimia (Ferreira da Silva, 2018, p. 27).
Em sua perspectiva, o que normalmente se descreve como mulheres negras é substituído pela carne feminina desgenerificada de Spillers, um objeto que anularia a prevalência do significante masculino. Ao tomar a corpa cativa como carne e não como objeto de razão exterior, Ferreira da Silva sugere que nossa tarefa, para esses e outros objetos, deve ser de contínua produção e descrição da infinidade de elementos da matéria que povoam a existência das sujeitas, indeterminadas pelas nossas categorias de pensamento.
Diante da proliferação deliberada e da combinação de elementos tratados sociologicamente como indeterminados (ou não determinantes) na composição da vida coletiva, o sujeito analítico do “Eu Transparente” perde seu efeito de dominação epistemológica. Nessa situação, o efeito da inserção de elementos com valor negativo na re/de/composição do que era tido como afetável anula o valor heurístico positivo atribuído ao engolfamento. Se a razão, como controle de si e do exterior, não se constituir como hierarquia régia da existência, os sujeitos da razão perdem igualmente o seu valor determinativo. Se o sujeito analítico é indeterminado, o sujeito da dominação também perde seu lugar na produção da diferença.
O uso da corpa cativa é, no texto de Ferreira da Silva, estratégico para demonstrar justamente os limites e a necessidade de recomposição da noção de sujeito. Ela não é aplicável ou replicável, pois é uma ontologia analítica, ou seja, uma existência precária para pensar as condições de produção dos objetos de conhecimento. O que sim pode ser herdado para as ciências sociais é o procedimento para sua montagem epistêmica, que evita o gesto interpretativo a partir da determinação a priori. A corpa cativa, que já não está presa no tempo e no espaço, atua para desmantelar as determinações associadas às noções racializadas de mulher negra como ser afetado, mas também a todas as determinações teóricas que inferiorizam existências não transparentes.
4.4. Dívida impagável
A noção de indeterminação, aliada à de negativação, abre caminho para a compreensão do conceito de dívida impagável como acumulação negativa, “um processo temporal de a) acumulação de algo indesejável, ruim, pernicioso etc., e b) acumulação com valor negativo” (Ferreira da Silva, 2022c, p. 74). Essa é a condição da analítica ontológica da corpa cativa ferida na cena da subjugação, que é portadora de um valor negativo. A obrigação moral de Dana, instituída pela estrutura jurídico-econômica colonial da escravidão, apresenta um significado econômico que não pode ser calculado, operacionalizado ou computado moralmente. “A corpo cativa ferida na cena da subjugação, ao evocar vida – na cena ética (enquanto uma pessoa sem dignidade) e na cena econômica (enquanto trabalho sem produtividade) –, torna a carne ética e economicamente negativa, ou seja, ∞ − ∞ ou corpus infinitum” (Ferreira da Silva, 2022c, p. 258).
O valor extraído das corpas escravizadas é incalculável dentro das estruturas éticas e econômicas atuais do capital. Mesmo incomensurável, seu próprio ser e trabalho permanecem incorporados na riqueza e nas estruturas que existem e sustentam o mundo moderno livre e liberal. Tudo o que foi tomado no passado ainda existe na matéria na forma de terras e capitais privados, além de corpos autodeterminados que definem a gramática hegemônica liberal democrática. é aqui que a figura fictícia de Dana ajuda a entender por que os corpos negros livres liberais contemporâneos (como formas de existência) se deparam em sua vida cotidiana com efeitos expropriatórios, cujo momento jurídico terminou há mais de um século. Seu valor total expropriado, que não se resume ao trabalho e se estende para a condição onto-epistêmica, se manifesta em toda acumulação econômica, política e intelectual que constitui as hierarquias sociais contemporâneas.
Um exemplo simples do impagável seria considerar que o Estado Nacional moderno saldará sua dívida com as populações indígenas que tiveram suas terras expropriadas pela simples devolução a elas de fazendas agriculturáveis ou mesmo de reservas onde podem exercer sua “cultura”. A terra que lhes foi roubada tinha outra composição, forma e descritores. A acomodação de suas demandas nos termos do Estado moderno de direito liberal, saldará a obrigação ética do sujeito moderno com aquele que considera ser seu inferior, mas não resolverá o dilema/dívida do ponto de vista do expropriado e de sua perda ancestral.
Conforme definido por Schwartz (2023, p. 1), a dívida impagável é política e eticamente impagável porque pagá-la seria legitimar ou justificar as premissas sob as quais o “empréstimo” (nesse caso, a existência) foi feito. Na proposição de Ferreira da Silva, a dívida deve ser não paga (“não” como ação positiva). No entanto, a recusa cognitiva da dívida requer o movimento em direção à coleta de novos descritores para a existência.
A ontologia analítica inspirada por Dana não é meramente uma imagem de sofrimento. Embora a cena de subjugação a constrinja, ela, na verdade, ainda está lutando, criando, compondo e assumindo o custo da perda da segurança ontológica moderna da linearidade e determinabilidade de vítima social para desmantelar os pilares de sua própria existência negra. Como isso pode ser possível à sujeita e à pesquisadora? Pelo recurso à composição infinita e contínua de existências que não sejam limitadas a priori no tempo e no espaço pelas ferramentas modernas de conhecimento.
5. Conclusão
“Como podemos dizer algo que possa ser compreendido sem usar termos, ferramentas e formulações, além daqueles concebidos no pós-Iluminismo?” (Ferreira da Silva, 2023a, p. 303).
Este texto buscou expor e interpretar a obra de Denise Ferreira da Silva a partir de suas contribuições para a recomposição do sujeito da teoria social que orienta a sociologia contemporânea. Nas quase duas décadas entre “Towards a Global Idea of Race/Homo Modernus” e “A Dívida Impagável”, a arqueologia crítica do conhecimento moderno, estruturada pelo Programa Kantiano, permaneceu central nas obras de Ferreira da Silva, sendo replicada na série de artigos e obras de arte (instalações e filmes) publicados e exibidos em todo o mundo.15 é crucial observar que, entre o início dos anos 2000 e agora, houve uma transformação significativa na literatura na qual ela se baseia e com a qual debate para pensar alternativas onto-epitemológicas. Os novos diálogos não apenas apoiaram o aprofundamento da crítica ao sujeito moderno hegemônico, mas também ofereceram à Ferreira da Silva um novo horizonte para imaginar e conceber modos de existência que as teorias sociais clássicas e contemporâneas haviam obliterado quando optaram por se basear no sujeito moderno singular, como ela afirmou em uma entrevista recente (Belo, 2024).
O artigo apresentou o trabalho de Ferreira da Silva para refletir sobre o que a autora descreve como um movimento confrontador de expor e rastrear os efeitos da infraestrutura onto-epistemológica das Ciências Sociais. Na sua escrita, ela confronta a posição privilegiada da minoria dominante como governante e significante do sujeito universal do conhecimento e da política. Seu movimento teórico expõe os descritores de separabilidade, determinação e linearidade como as ferramentas que fornecem as condições para uma existência segura e desejável de alguns, enquanto exclui a maior parte da população mundial como “outros”. Em sua leitura, esta é a origem epistemológica de termos como colonizado, indígena, periferia, rural, povo da terra, negro e mulher, entre outras categorias que usamos em nossos textos. Essas categorizações fazem com que a maioria dos sujeitos sociológicos humanos globais exista em espaços restritos e tempos atrasados, tornando sua presença na pesquisa apenas ilustrativa do poder das forças e sujeitos determinantes. Na posição de vítimas e negativos, eles são necessários à descrição, mas tornados analiticamente ineficazes. Eles estão destinados a serem desenvolvidos, transformados, assentados, reparados, dotados de direitos e oportunidades e libertados pelos portadores da ciência e da política da razão. Eles não são ou ainda não são seres produtivos.
Desse confronto com a epistemologia excludente surge um projeto de montagem de um novo sujeito de conhecimento, ampliando as possibilidades de formas de existência sociologicamente significativas que podem ser entendidas como sujeitos indeterminados. A montagem é feita contra a ferramenta central que garantiu a centralidade do ser produtivo da teoria social hegemônica: a busca da autodeterminação. O novo sujeito emergente e produtor de conhecimento será tornado indeterminado e vulnerável devido ao seu contato contínuo com elementos heterogêneos, muitos dos quais analiticamente neutralizados epistemologicamente por falta de descritores que espelhem o “Eu Transparente”. O sujeito indeterminado é positivamente parcial e analiticamente provisório, pois é composto de elementos infinitos, nem sempre ativos ou disponíveis à analista. Segundo Ferreira da Silva,
Cada ocorrência de sua implantação será singular, dependendo do que for submetido a ela, do que for exposto e do efeito que isso terá. é, ao mesmo tempo, uma proposta de outro ponto de partida para o pensamento, que chamo de infinito, inspirado não por outra forma de conhecimento, mas pelo pensamento nos limites do modo predominante de conhecimento, […] como o fim de um programa para desmantelar as estruturas modernas de poder e abordar seus efeitos letais (Ferreira da Silva, 2023a, p. 304).
O desmantelamento em Ferreira da Silva começa com a introdução de elementos negativos como parte da equação lógica do conhecimento. A corpa ferida da cativa é na modernidade normalmente considerada um problema, pois lhe faltariam condições plenas de determinação. Para a autora, o corpa negativa (do valor trabalho e sujeito produtivo) anula possibilidades de autodeterminação, impondo limites ao devir do humano moderno, porém libera a capacidade inquietante de re/de/compor formas infinitas de associações na forma de ontologias analíticas inauditas.
Conforme procurei descrever, a trajetória da obra de Ferreira Silva deve ser lida, do ponto de vista das ciências sociais, especialmente da sociologia, como uma proposta teórica inovadora, vinda de uma autora brasileira, mas endereçada ao mundo. Além de demonstrar os limites éticos e políticos fundamentais do sujeito da teoria hegemônica, seu trabalho avança para a construção de alternativas analíticas que permitem ampliar nosso escopo ontológico atual que opera como disciplinador da pesquisa social.16 Seu projeto intelectual nos instiga a pensar sociologicamente com elementos que ainda não são sociológicos.
Por fim, os desafios advindos da leitura de seus trabalhos abrem caminhos de duas ordens para pensarmos e investigarmos a produção de teoria social. A primeira é a possibilidade de considerarmos, em investigações futuras, a hipótese da generalidade do sujeito epistemológico da interioridade (Eu Transparente) como figura que sustenta parte significativa da teoria social contemporânea, a despeito de suas diferentes alternativas conceituais. Em minha interpretação, se seguirmos as pistas da autora, noções gerais como consciência, mind, self, capacidades críticas, subjetividade ou reflexividade são construídas e atribuídas a sujeitos históricos específicos nos quais a interioridade teria se desenvolvido plenamente. A segunda retorna ao argumento apresentado na introdução, de que suas obras possuem um caráter mais contundente de intervenção epistemológica global, justamente porque foram e são concebidas sem a premência de encaixe no disciplinamento do sujeito nacional. Sobre esta última possibilidade, é importante ter em conta que não foram poucas as e os intelectuais que deixaram o país rumo ao Norte e, mesmo longe das determinações institucionais periféricas, não realizaram intervenções teóricas que contestassem a própria heurística da condição subalterna, como faz Ferreira da Silva.
Declaração de uso de IA
O artigo não utilizou ferramentas de IA na composição do texto ou pesquisa.
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Declaração de disponibilidade dos dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis em bibliotecas e repositórios de periódicos on-line.
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Financiamento
A pesquisa que originou o texto teve apoio da FAPERJ (processo SEI-260003/003959/2023) e do CNPq (processo 313492/2021-2).
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1
Gostaria de agradecer às/aos pareceristas anônimas/anônimos pelas acuradas sugestões e revisões da versão inicial do texto. Também agradeço às e aos colegas do Laboratório de Sociologia Não-exemplar e à Antonádia Borges pelos comentários às versões preliminares.
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2
Mais recentemente, Neves, Correia e Peters (2024) editaram uma coletânea com o título de “Existe Teoria Social no Brasil?”, em que são apresentados textos de autores e autoras nacionais contemporâneas atuantes no Brasil com impactos teóricos conceituais. Infelizmente, do meu ponto de vista, o texto de introdução que poderia consolidar a defesa de que existe teoria social no Brasil, além de não dialogar criticamente com as reflexões anteriores, é muito sucinto, sem apresentar um argumento original para a importante defesa da teoria social como produção conceitual.
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Outro caminho importante para compreender o papel da produção teórica na sociologia no Brasil tem sido trilhado por Maia (2009, 2011, 2025), que busca realizar estudos sobre aproximações e avanços teóricos e metodológicos entre o que definimos como pensamento social brasileiro e a teoria social hegemônica euro-americana.
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4
“Embora o campo crítico esteja repleto de denúncias e rejeições à transparência e de indicações de que a poesis transcendental confina o Eu Transparente às fronteiras da Europa pós-iluminista, nenhuma crítica relaciona essa versão da peça da razão aos projetos científicos dos séculos XIX e XX que tentaram ‘descobrir’ a verdade do homem” (Ferreira da Silva, 2022b, p. 178).
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5
No português, “A dívida impagável” (Ferreira da Silva, 2024).
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6
“O que encontro nos enunciados que constroem a razão como nomos universal, ou seja, como a lei (a vontade soberana), é a escrita do mundo das coisas, a fabricação da natureza como o palco da exterioridade: o plenum passa a ser habitado por coisas em movimento, os corpos, que obedecem a forças ou poderes invisíveis que determinam como eles afetam e como são afetados por outros corpos” (Ferreira da Silva, 2022b, p. 142).
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“Por isso, acolhendo o conforto moral provido pela lógica sócio-histórica de exclusão do escritor “pós” (-moderno, -colonial, -marxista, -estruturalista) pode manter-se inteiramente seguro no palco da interioridade, ao mesmo tempo desconfiando da significação cientifica e reverenciando as reivindicações de inocência da ciência; enfim, como exposto pela sua recusa em lidar com a produtividade, ele é incapaz de abordar a globalidade como um contexto onto-epistemológico moderno. O que estou destacando é o dilema que resulta da insistência dos “pós-críticos” do pensamento moderno em optar pela historicidade como o único caminho para a emancipação” (Ferreira da Silva, 2022b, p. 333).
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Uma explicação semelhante do efeito hegeliano na história de Karl Marx é elaborada por Castro-Gómez (2023).
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“Enquanto for ignorado e permanecer incontestado, o modo como o texto histórico-materialista e o arsenal da racialidade foram reunidos sob o regime determinativo e reconfigurados sob o regime interpretativo, ambos manterão intacta, em seu núcleo, a figura ética mais importante do pós-Iluminismo: o Eu Transparente” (Ferreira da Silva, 2022c, p. 194, traduzido pelo autor).
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Embora não haja diálogo direto da autora, acredito que sua proposição seja semelhante à defendida em textos específicos de John Law (2004). Em ambos os casos, a tarefa central das Ciências Sociais seria reconhecer que os sujeitos são continuamente construídos, em vez de serem tomados como constituídos, como o primeiro passo em qualquer pesquisa. Na mesma linha, pode-se argumentar que Latour (2005) também compartilha dessa abordagem. No entanto, sustento que a abordagem do autor francês, diferente de Law, se baseia fortemente no artifício da linearidade criticado por Ferreira da Silva (2023b).
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Paixão (2025) chega a conclusões semelhantes ao analisar os efeitos do raciocínio sociológico na ideologia desenvolvimentista brasileira.
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Um debate inicial sobre o uso da ficção científica em trabalhos sociológicos pode ser encontrado nas obras de Hirschman et al. (2018) e Passell (2013).
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Para uma compreensão ampliada da influência destas autoras na composição analítica de Ferreira da Silva, é importante consultar a coletânea Pensamento Negro Radical, editada por Barzaghi, Paterniani e Arias (2021), que, além de Ferreira da Silva, apresenta os principais textos das autoras citados por ela.
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Traduzido para o português na coletânea “Pensamento Negro Radical”, editada por Barzaghi, Paterniani e Arias (2021).
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Algumas das conexões entre seu trabalho artístico e acadêmico podem ser compreendidas nesta entrevista. Disponível em: https://www.novembermag.com/content/denise-ferreira-da-silva/. Acesso em: 05 fev. 2026.
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Em outro texto (Rosa, 2025), apresentei, em diálogo com Denise Ferreira da Silva e Raewyn Connell (2007), a noção de gesto ontofomativo como uma disposição que permitiria recompor os sujeitos de nossas teorias a partir da pesquisa empírica, sem recorrer a descritores definitivos.
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Editor Responsável:
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