Open-access ALTERAÇÕES NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE LATOSSOLOS ROXOS EM SISTEMAS DE MANEJO INTENSIVOS E DE LONGA DURAÇÃO1

ALTERATIONS IN THE CHEMICAL PROPERTIES OF DUSKYRED LATOSOL IN INTENSIVE AND LONG DURATION TILLAGE SYSTEMS

RESUMO

Avaliaram-se, a partir de 1982, as alterações das propriedades químicas de latossolo roxo álico e eutrófico sob sistema de manejo intensivo e contínuo irrigado. Para isso, foram escolhidas três áreas localizadas na região de Guaíra (SP). Em duas áreas, selecionaram-se as seguintes condições de uso: mata natural, sistema convencional de preparo do solo, sistema convencional de preparo com irrigação e plantio direto. Na outra área, adotaram-se mata natural; plantio direto e plantio direto com irrigação. Coletaram-se amostras de solo em trincheiras para determinações específicas, inclusive as químicas como o pH em água e KCl, fósforo assimilável, carbono orgânico, cálcio, magnésio, potássio, manganês, cobre e zinco. A partir de 1982, tais áreas começaram a ser cultivadas intensamente, principalmente a irrigada, com as culturas de soja, milho ou sorgo e feijão, e na área não irrigada, com as culturas de soja e milho ou sorgo. Os resultados indicaram profundas alterações nas propriedades químicas, ficando evidentes as diferenças entre os solos. Nos álicos, houve acentuado incremento de bases, tanto na superfície como na subsuperfície, transformando-os em distróficos ou epieutróficos. Para o latossolo roxo eutrófico, houve ligeiro empobrecimento, mantendo-se ainda o caráter eutrófico. Quanto ao teor de matéria orgânica, tanto num sistema como no outro, houve redução menor para os solos sob cerrado e maior para aqueles sob mata. Apesar de os sistemas de manejo serem de elevada intensidade, a alta temperatura da região e a irrigação são fatores de oxidação dessa matéria orgânica. Com isso, o delta pH tendeu a ficar mais positivo em profundidade. Houve empobrecimento do micronutriente manganês e um ligeiro acréscimo de cobre e zinco para todos os solos.

Termos de indexação
sistemas de manejo; propriedades químicas; latossolo roxo

SUMMARY

The objective of this study was to evaluate, starting from 1982, alterations in the chemical properties of allic and eutrophic Dusky Red Latosol (eutrudox, hapludox, acrudox) in an intensive and continuously irrigated tillage system. Three areas located in the Guaira region, São Paulo State, Brazil, were chosen. In two of these areas the following conditions of use were selected: natural forest, conventional soil tillage system, conventional soil tillage system with irrigation and direct plantation. The other area was prepared with natural forest, no tillage and no tillage with irrigation. Chemical properties including pH H2O and pH KCl, phosphorus, organic carbon, calcium, magnesium, potassium, manganese, copper and zinc were determined in the soil samples collected in the area. From 1982, the areas started to be intensively cultivated, mainly in the irrigated area with soybean, corn or sorghum and beans, and in the non-irrigated area with soybean and corn or sorghum. The results indicated profound alterations in the chemical properties, with a clear difference between allic and eutrophic soils. A pronounced increase in bases on the surface and subsurface was observed for allic soils, transforming them into dystrophic and epi-eutrophic soils. Slight depletion was observed in the eutrophic Dusky Red Latosol, but the eutrophic character was maintained. Organic matter was more reduced in forest soils than in cerrado soils. The high temperature of the region associated with irrigation tillage are factors contributing to the oxidation of the organic matter. Because of this, delta pH showed the tendency to be more positive at depth. With respect to micronutrients, depletion in Mn and a slight increase in Cu and Zn were observed for all soils.

Index terms
tillage systems; chemical properties; Dusky Red Latosol

INTRODUÇÃO

Sistemas de manejo consistem em práticas agrícolas, como irrigação, plantio direto e rotação de culturas, enquanto nível de manejo se refere à condição tecnológica utilizada. De maneira geral, experimentos de longa duração no Brasil, relacionando as alterações das propriedades do solo com esses sistemas de manejo, são raros. Os trabalhos tornam-se ainda mais escassos quando em tais sistemas se inclui a irrigação associada ou não ao plantio direto.

Do ponto de vista químico, há uma série de modificações das propriedades do solo ao longo do tempo, principalmente quando cultivados no sistema de plantio direto (Muzilli, 1983; Centurion et al., 1985; Eltz et al., 1989). Nesse caso, há acumulação de nutrientes e matéria orgânica na camada superficial, devido a uma contínua aplicação de fertilizantes, numa pequena profundidade, aliada à deposição dos resíduos das culturas sobre a superfície, que permanecem ali pelo não-revolvimento do solo.

Apesar de o rendimento das culturas, na maioria dos casos, ser maior no plantio direto do que no convencional, no decorrer dos anos poderá haver problemas no rendimento, principalmente quando em condições climáticas desfavoráveis. Um dos inconvenientes pode estar relacionado com a acidificação em profundidade e desequilíbrios nutricionais (Peixoto & Eltz, 1986).

A região de Guaíra (SP) é caracterizada por apresentar uma agricultura com alto nível tecnológico de manejo, utilizando, inclusive, a irrigação. Normalmente, possui sistemas de manejo com elevada taxa de ocupação anual do solo pelas culturas, com média de 2,6 a 2,8 culturas por ano, sendo a soja, o milho ou sorgo e o feijão componentes da rotação. Têm sido levantadas, por agricultores e técnicos da região, questões relacionadas aos efeitos maléficos ou benéficos nas propriedades do solo, causados pelo plantio direto. Algumas situações de baixa produtividade em culturas de soja ou milho irrigados já foram constatadas. Nesse contexto, a presente pesquisa tem por objetivo melhor conhecer as alterações nas propriedades químicas dos latossolos roxos dessa região, que estão sob sistemas de elevado nível tecnológico de manejo. Com essas informações, espera-se fornecer subsídios aos técnicos para a tomada de decisões.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram escolhidas três áreas na região de Guaíra (SP), todas representadas por latossolo roxo, sendo que, em duas, os solos são álicos e, na outra, eutrófico. As duas primeiras apresentavam, originalmente, vegetação de cerrado e, a outra, vegetação de mata. O sistema de manejo intensivo foi introduzido a partir de 1982 com plantio direto ou sistema convencional com ou sem irrigação. Em cada área, foram abertos três perfis para coleta de amostras de solo. No quadro 1, tem-se a designação dos perfis observados, bem como os solos, localização e o histórico do uso da respectiva área.

Quadro 1
Localização, solos, caracterização do histórico do uso e manejo da terra

Após a descrição morfológica, baseada em Lemos & Santos (1984), os perfis foram amostrados até 1 m e, a partir daí, com trado até a profundidade de 2 a 3 m. As amostras compostas foram constituídas de três amostras simples. As determinações químicas, efetuadas de acordo com EMBRAPA (1979), foram as seguintes: pH em H2O e KCl; fósforo assimilável pelo método da resina; carbono orgânico pela oxidação com bicromato de potássio; cálcio, magnésio e alumínio trocáveis, extraídos com resina trocadora de íons e determinados por espectrofotometria de absorção atômica. O potássio foi determinado pelo método fotométrico, utilizando-se ácido clorídrico 0,05 mol L−1, e a acidez trocável (H+Al) pelo volumétrico, com extração pelo acetato de cálcio em solução tamponada em pH 7,0. Os micronutrientes manganês, cobre e zinco foram extraídos por solução duplo ácido (ácido sulfúrico 0,025 mol L−1+HCl 0,025 mol L−1) e determinados por espectrofotometria de absorção atômica. A matéria orgânica foi calculada, multiplicando-se o teor de carbono orgânico pelo fator 2,5.

Nas áreas trabalhadas, ao longo do tempo, utilizaram-se corretivos e adubos (formulações simples N, P, K, adubos simples, uréia, sulfato de amônio, superfosfato simples). A freqüência quanto ao uso de calcário ficou mais bem esclarecida no período de 1980-90, no qual se utilizava esse corretivo na quantidade para atingir 60% de saturação por bases, a cada um ou dois anos, de acordo com os resultados das análises de solo. Quanto às adubações, as formulações, em regra geral, eram ricas em fósforo e potássio, sendo para o fósforo sempre exigido que parte fosse na forma de superfosfato simples.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com Sanchez (1976), quando os valores da CTC estão na faixa de 40 a 50 mmolc kg−1 de argila ou menor, a sua mineralogia é constituída por caulinita e óxidos (hematita e gibbsita). Tal mineralogia deve predominar nos solos estudados, pois na área I, a CTC, à profundidade de 2 m, apresenta valores na faixa de 20,8 e 22,1 mmolc kg−1 de terra e na área II, na faixa de 28,7 a 34,3 mmolc kg−1 de terra (Quadro 2).

Quadro 2
Características granulométricas e químicas dos perfis estudados

A dinâmica do sistema solo tem relação direta com o teor de matéria orgânica e com a taxa de decomposição do material estabilizado (Sanchez, 1985). Uma vez removida a cobertura natural, o percentual da taxa de decomposição da matéria orgânica chega a 40 ou 60% do seu valor inicial, devido às práticas de manejo (Sanchez, 1985). Portanto, uma vez removida a cobertura natural (cerrado ou mata), com conseqüentes modificações na temperatura e umidade do solo, ocorre o aumento na taxa de decomposição da matéria orgânica, tendo como principal conseqüência a queda do seu teor no solo. Nos solos da área I, o teor de matéria orgânica da primeira camada do P11, perfil preservado sob cerrado, foi de 38 g kg−1, permanecendo, praticamente, o mesmo no P12 e caindo para 35 g kg−1 no P13, conforme se pode observar na figura 1a. Em profundidade, a queda do teor de matéria orgânica ocorre nas três parcelas, porém as diferenças nos teores entre os tratamentos é pequena. Em relação aos perfis cultivados da área III (Figura 1c), cujo P31 tem o cerrado como vegetação natural, a diferenca do teor de matéria orgânica entre os tratamentos, na camada de 0−30 cm, está na faixa de 12 a 15%. A partir dos 30 cm , praticamente, não houve diferença entre os teores de perfis, de matéria semelhante ao ocorrido para os perfis da área I.

Figura 1
Distribuição da matéria orgânica, a, b, c e valores de ΔpH, d, e, f, sendo a, d: área I; b, e: área II; c, f: área III.

Por outro lado, a matéria orgânica dos solos da área II apresentou decomposição bem mais acentuada do que naqueles sob cerrado. Na camada superficial (0−20 cm), a queda ficou na faixa de 25 a 40%. Essa queda continuou em profundidade e, aos 30 cm, a taxa permaneceu ainda alta, passando, na faixa de 20%, para 15% a 60 cm de profundidade e, a partir daí, ficando praticamente inalterada (Figura 1b).

Greenland & Nye (1959) determinaram que a constante de decomposição da matéria orgânica em floresta é de 52 g kg−1 em ambiente údico e de 13 g kg−1 em região de cerrado. Portanto, a maior queda no teor de matéria orgânica na área de mata pode estar relacionada ao próprio ambiente e à vegetação. No cerrado, por sua vez, devido à menor densidade de vegetação, o teor de matéria orgânica do solo tende a ficar em equilíbrio com as condições ambientais.

Nessa discussão, é preciso levar em consideração o uso do solo. A área I, perfil P13 (Figura 1a), que passou de cultivo convencional para plantio direto irrigado, e a III, perfil P33 (Figura 1c), com situação de uso semelhante, favoreceu a manutenção dos teores de matéria orgânica em níveis razoáveis. Com a irrigação, a freqüência de calagem e adubação aumentou, consideravelmente, assim como o número de culturas por ano, na faixa de 2,5 . Com isso, o solo tende a ficar mais fértil e a matéria orgânica, mais estável (Sanchez, 1976), não se alterando, significativamente, em relação aos padrões das áreas I (Perfil 11) e III (Perfil 31). Por outro lado, o teor de matéria orgânica da área representada pelo perfil P32, cultivado desde 1956 somente no sistema convencional, sem irrigação, não diferiu, significativamente, do perfil P33, irrigado desde 1987 (Figura 1c).

Como analisado anteriormente, os perfis da área II (Figura 1b) apresentaram queda mais acentuada no teor de matéria orgânica em profundidade, quando comparado com os das áreas I e III. Entretanto, mesmo nesse caso, com o uso intensivo do solo, o teor de matéria orgânica se manteve em níveis excelentes, na faixa de 45 g kg−1, para o P22 e 34 g kg−1 para o P23. Esses valores são bem superiores aos níveis de matéria orgânica em solos desmatados e cultivados com cana-de-açúcar, como os encontrados por Costa Lima et al. (1992).

Em função dos diversos sistemas de manejo, podem observar-se diferenças nas propriedades químicas dos solos. No sistema do plantio direto (PD), não se constataram os incrementos no teor de matéria orgânica observados por outros pesquisadores, como Eltz et al. (1989), Trein et al. (1991) e Testa et al. (1992) trabalhando com diversas culturas, entre elas, milho, soja, aveia, trevo e pastagem. Na área I (Perfis P12 e P13), onde foi usado o plantio direto desde 1983, o teor de matéria orgânica não ultrapassou o teor original do solo (Perfil P11), tanto em superfície como em profundidade. O mesmo ocorreu nos solos da área III, onde houve ligeiro acréscimo apenas na profundidade de 30−50 cm no P33.

Tal fato pode estar relacionado às características climáticas da região de Guaíra, de temperatura elevada, que, associado ao sistema de irrigação, tende a proporcionar umidade suficiente para a decomposição da matéria orgânica, conforme preconizado por Sanchez (1976): esse autor indica um aumento na taxa de decomposição da matéria orgânica e, à medida que o ambiente de umidade do solo passa do ústico (mais seco com taxa de 25 g kg−1) para o ambiente údico (mais úmido com taxa de 53 g kg−1). Os solos da área III com cultivo convencional (Perfil P33), seguido de irrigação (SCI), tiveram, praticamente, as mesmas tendëncias de queda no teor de matéria orgânica (Figura 1c). O mesmo ocorreu na área I (Perfis 12 e 13), onde foi realizado o plantio direto seguido de irrigação (Figura 1a). Nesse aspecto, a alta intensidade de manejo usado, com plantio direto e convencional irrigado, não permitiu uma diferenciação na taxa de decomposição da matéria orgânica. Tais resultados discordam dos apresentados por Muzilli (1983) e Centurion et al. (1985) trabalhando com sistemas de plantio, porém sem irrigação e de pequena duração. Em conseqüência dessa dinâmica da matéria orgânica, a CTC do solo também teve ligeira queda em seus valores, principalmente na camada superficial (Quadro 2).

O delta pH (pH KCl − pH H2O) indica a situação do balanço de cargas do solo, se positivo ou negativo (Uehara & Keng, 1975, Yu & Zhang, 1986). Comparan-do-se o delta pH das análises dos solos, verificaram-se sensíveis diferenças entre os perfis localizados na área com cerrados comparados com os da área II com mata. Nos solos sob vegetação de cerrado (P11, 12, 13 - Figura 1d), o delta pH foi negativo na superfície, com balanço em torno de 0,5 para o P 11 , tornando-se positivo na faixa de 40 cm de profundidade para o P13 e 80 cm de profundidade para o P11 e P12. Nos solos sob mata (P21, 2223 - Figura 1e), por sua vez, o delta pH foi negativo até a faixa dos 70 a 80 cm de profundidade para os perfis P22 e P23, chegando até os 100 cm para o caso do P21 (Figura 1e). O aumento das cargas positivas em profundidade está relacionado com o tipo da mineralogia dos minerais da fração argila e com o teor de matéria orgânica.

Como comentado, a mineralogia desses solos é essencialmente oxídica com contribuição de caulinita. O ponto de carga zero dos óxidos de ferro e alumínio está na faixa de pH de 5,5 a 6,0 (Uehara & Keng, 1975). A dominância de cargas negativas na profundidade superficial das três áreas estudadas deve-se à influência da matéria orgânica, que tende a translocar o PCZ para faixas de pH mais ácido, apesar de opH do solo das camadas superficiais estar próximo ou inferior ao PCZ dos minerais. Em profundidade, como há decréscimo no teor de matéria orgânica, as alterações das cargas elétricas se devem somente às condições do PCZ dos minerais componentes da fração argila desses solos. Assim, nos perfis da área II, perfil P21, o delta pH até os 210 cm é negativo (Quadro 2). Nas áreas cultivadas, P22 e P23, como houve decréscimo na matéria orgânica em profundidade, quando comparado com o P21, o delta pH fica positivo nas últimas camadas. O mesmo ocorre nos perfis da área III, P32 e P33, onde o delta pH se torna mais positivo para os perfis cultivados a partir dos 40 cm de profundidade, quando comparado com o P31. O balanço positivo de cargas tende a favorecer a lixiviação de bases.

De maneira geral, a relação Ca/Mg está na faixa de 2 a 5 para a maioria dos solos do Estado de São Paulo (Comissão de Solos, 1960). Entretanto, verificaram-se sensíveis diferenças entre os valores dessa relação entre os solos sob mata e sob cerrado do presente trabalho. O perfil P11 (sob cerrado) indicou valores extremamente baixos de Ca e Mg, diminuindo, também, em profundidade (Quadro 2). O perfil P31, também sob vegetação de cerrado, obteve valores baixos desses dois elementos, aumentando, porém, em profundidade. Entretanto, o teor de Mg é ligeiramente superior ao de Ca no P11 e em parte do P31, dando uma relação Ca/Mg inferior a 1,0 (Figura 1a, c), o que não é muito freqüente. Uma possível explicação seria a possibilidade de o magnésio ocluso estar sendo contabilizado como disponível, segundo Van Wambeke (1976). No perfil sob mata, P21, o teor de cálcio foi superior ao de magnésio em quase toda a extensão do perfil do solo estudado.

Por outro lado, ao longo dos anos de cultivo e com o uso de corretivos e adubos, houve aumentos na relação Ca/Mg, tanto na superfície como na subsuperfície. Nos horizontes superficiais dos perfis da área I, a relação Ca/Mg passou de 1,1 no P11, para 2,3 no P12, e para 5,0 no P13 (Figura 2a). Aumentos menos acentuados na relação Ca/Mg foram observados nos perfis da área III.

Figura 2
Relação Ca/Mg, a, b, c, e saturação por bases, d, e, f, sendo a, d: área I; b, e: área II; c, f: área III.

Em relação aos teores de bases, no caso de cálcio, magnésio e potássio, houve sensível enriquecimento tanto em superfície como em subsuperfície, principalmente para as áreas I e III dos cerrados. A saturação por bases do P11 passou dos 10% na superfície para 60% no P13 (Figura 2d). Em profundidade, até os 90 cm , a saturação por bases passou da faixa dos 5% no P11 para 45% no P13. Tendência semelhante se observou nos perfis da área III (Figura 2f). Na superfície, o valor da saturação para o P31 foi de 5%, passando para 50% no P33 e 60% no P32.

Comparando-se a saturação por bases (Figura 2e) do P21, sob mata sem cultivo, com os perfis P22 e P23, com cultivo, observou-se o seguinte: (a) o P21 com 84% na profundidade de 20 cm, e 64% a 70 cm (Figura 2e), obteve maiores valores de V em relação aos perfis P22 e P23 até 70 cm; (b) apesar disso, o V% dos perfis P22 e P23 são considerados altos, na faixa de 60 a 70% até 100 cm de profundidade. Portanto, o uso agrícola, ao longo dos anos, nas áreas P22 e P23, reduziu os valores de V. Contudo, em relação ao P21, o teor de cálcio é maior em todo o perfil do P22 e em subsuperfície em P23, enquanto o magnésio é variável. Esse maior enriquecimento de cálcio pode ser devido ao uso de calcários ricos nesse elemento. Apesar do ligeiro empobrecimento de bases, principalmente no P23, os 33 anos de cultivo intensivo praticamente não alteraram, significativamente, sua fertilidade, permanecendo o solo ainda com o seu caráter eutrófico.

O incremento de bases em profundidade, aparentemente, promoveu uma redução no teor de alumínio. Na figura 3a, a saturação por alumínio na primeira camada passou de 43% no P11 para 18% no P12 e 3% no P13. A mesma tendência ocorreu nos perfis P32 e P33 em relação ao P31. Praticamente, ao longo de todo o perfil, a saturação por alumínio foi maior nos perfis P11 e P31, não cultivados (Figura 3a, c). Com toda a atividade agrícola, ao longo de 33 anos, os perfis P11 e P31, álicos, passaram a ser distróficos ou mesmo epieutróficos, como nos perfis P13 e P32. Entretanto, ao longo desses anos de cultivo intensivo, usando inclusive adubos contendo sulfatos, nitratos e cloretos, é inevitável um translocamento em profundidade de ânions acompanhados dos co-íons, no caso, cálcio, magnésio e potássio. Os ânions cloreto e nitrato não têm reação específica com a superfície dos óxidos de ferro e alumínio, porém o sulfato, sim, favorecendo, desse modo, a precipitação do alumínio em profundidade (Pavan & Bingham, 1982).

Figura 3
Saturação por alumínio, a, b, c, e K, d, e, f, sendo a, d: área I; b, e: área II; c, f: área III.

O enriquecimento químico dos solos em profundidade, ocorrido em função dos sistemas de manejo realizados nas áreas I e III, não tem sido comum na literatura, a não ser em áreas de cana-de-açúcar, com o uso associado de gesso e calcário em solos de textura média a arenosa (Morelli et al., 1992) e solos de cerrado no Brasil Central (Souza et al., 1986).

Em relação ao K, a sua distribuição em profundidade segue as mesmas tendências do cálcio e magnésio (Figura 3d, e, f). Na área I, o teor médio do perfil (Quadro 2), em potássio, passou de 0,4 mmolc kg−1 do P11 para 0,7 no P12 e 1,3 no P13, ao passo que na área III, aumentou de 0,6 mmolc kg−1 no P31 para 0,8 no P32 e 0,6 mmolc kg−1 no P33. Nesses casos, observa-se, portanto, um enriquecimento de potássio em profundidade. O teor desse nutriente passou de 1,3 nos primeiros 25 cm de solo do P11 para 1,7 no P13. Na faixa de 1,0 m de profundidade, os teores foram, respectivamente para os perfis P11 e P13, de 0,2, passando para 1,2: como se observa, um aumento na faixa de 6 vezes. Para os perfis da área III, também houve aumentos, porém menos expressivos. Por outro lado, a distribuição desse cátion em profundidade para os solos da área II é diferente dos demais solos (Figura 3e). Na camada superficial, houve um enriquecimento em K+para o P23, justamente no tratamento irrigado, cuja freqüência de adubação é maior do que no tratamento sem irrigação, P22. Em profundidade, houve acentuado empobrecimento desse cátion, sobretudo a partir dos 40 cm nos perfis P22 e P23.

No quadro 3, encontram-se os resultados obtidos para os micronutrientes dos solos. Verifica-se um empobrecimento com relação ao manganês para todos os perfis de solos, o que poderia estar associado à calagem, oxidação da matéria orgânica ou, ainda, a adubos fosfatados (Vitti & Malavolta, 1985). Quanto ao cobre e ao zinco, verificou-se um ligeiro acréscimo nos perfis de solos, o que também poderia estar associado à oxidação da matéria orgânica, gerando redução na complexação desses micronutrientes ou, ainda, no caso do zinco, à utilização de fertilizantes com o elemento.

Quadro 3
Conteúdo de Mn, Cu e Zn nos perfis de latossolos roxos estudados

CONCLUSÕES

  1. A utilização de um elevado nível de manejo, tanto em sistema convencional de preparo como em plantio direto, ambos seguidos de irrigação, proporcionaram uma série de alterações nas propriedades químicas dos latossolos roxos da região de Guaíra. Ficaram evidentes as diferenças entre os solos álicos com os eutróficos, quando submetidos aos sistemas de manejo plantio direto e convencional. Nos solos álicos, ocorreram acentuados incrementos de bases tanto na superfície como na subsuperfície, transformando-os em solos distróficos ou epieutróficos. Para os eutróficos, houve empobrecimento, mantendo-se, entretanto, o caráter eutrófico.

  2. Quanto ao teor de matéria orgânica, tanto num sistema como no outro, houve redução menor para os solos sob cerrado e maior para aqueles sob mata. Apesar de os sistemas de manejo terem sido de elevada intensidade, a alta temperatura da região e a irrigação foram seus fatores de oxidação.

  3. Aparentemente, não ocorreram alterações químicas das propriedades que motivassem tomadas de decisões imediatas.

  • 1
    Parte da Dissertação de Mestrado do primeiro autor.

LITERATURA CITADA

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    1997

Histórico

  • Recebido
    Dez 1994
  • Aceito
    Mar 1997
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