Resumo
O presente artigo analisa a literatura sobre a ascensão e expansão de grupos que desafiam a democracia liberal, com foco na produção acadêmica brasileira e europeia. O objetivo é identificar as especificidades e convergências nos estudos produzidos em cada região sobre esse fenômeno e, a partir de tal análise, propor a categoria hermenêutica de Direitas Radicais para descrever atores, movimentos e partidos que atacam os direitos constitucionais das minorias e questionam as ações do Estado na regulação das desigualdades. Apresenta-se um diagrama formulado a partir da pesquisa feita entre 2019 e 2023 sobre os discursos e identidades nas Direitas Radicais, ilustrando a pluralidade no contexto brasileiro e sinalizando potenciais agendas de pesquisa que levem em consideração aspectos particulares e transnacionais, assim como os processos de radicalização em diferentes clusters.
Palavras-chave:
Direitas Radicais; radicalização; clusters; democracia liberal; iliberalismo
Abstract
This article analyzes the literature on the rise and expansion of groups that challenge liberal democracy, focusing on Brazilian and European academic production. The objective is to identify the specificities and convergences in the studies produced in each region on this phenomenon and, based on this analysis, to propose the hermeneutic category of a Plural Radical Right to describe actors, movements, and parties that attack the constitutional rights of minorities and question the actions of the state in regulating inequalities. A diagram is presented, developed from research conducted between 2019 and 2023 on the discourses and identities of the radical right, illustrating the plurality within the Brazilian context and pointing to potential research agendas that take into account particularities and transnational aspects, as well as the processes of radicalization within different clusters.
Keywords:
Plural Radical Right; radicalization; clusters; liberal democracy; illiberalism
Resumen
Este artículo analiza la literatura sobre el auge y la expansión de grupos que desafían la democracia liberal, centrándose en la producción académica brasileña y europea. El objetivo es identificar las especificidades y convergencias en los estudios producidos en cada región sobre este fenómeno y, a partir de este análisis, proponer la categoría hermenéutica de Derechas Radicales para describir actores, movimientos y partidos que atacan los derechos constitucionales de las minorías y cuestionan las acciones del Estado en la regulación de las desigualdades. Se presenta un diagrama, desarrollado a partir de investigaciones realizadas entre 2019 y 2023 sobre los discursos e identidades de la derecha radical, que ilustra la pluralidad en el contexto brasileño y señala posibles agendas de investigación que tengan en cuenta las particularidades y los aspectos transnacionales, así como los procesos de radicalización dentro de diferentes clusters.
Palabras clave:
Derechas Radicales; radicalización; clústeres; democracia liberal; iliberalismo
Introdução2
Nas sociedades ocidentais, a expansão de atores, movimentos e partidos que tensionam a democracia liberal tem sido motivo de atenção e preocupação. Sob diferentes alcunhas, incluindo Extrema Direita (Fernandes; Machado, 2022; Hoeveler, 2020), Novas Direitas (Cepêda, 2018; Gentile, 2018; Rocha, 2019) e Direita Radical Populista (Betz, 2018; Mudde, 2014), tais grupos têm sido analisados no interior de uma tradição de pesquisa principalmente concentrada nos campos das ciências políticas e sociais (Mayer, 2020).
No caso brasileiro, algumas dessas iniciativas foram reunidas no livro O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil (Gallego, 2018). O livro é parte da coleção na qual figuram uma série de obras que buscaram analisar as “Jornadas de Junho” e os atos pró-impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff como disparadores de uma crise política no Brasil. O título da coleção é Tinta Vermelha e, na Nota da Editora, explica-se que a referência do título é um discurso de Slavoj Žižek para os manifestantes do Occupy Wall Street, no qual ele diz: “temos toda a liberdade que desejamos - a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nos ‘sentimos livres’ porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade” (Žižek apudGallego, 2018, p. 12).
Tal frase enfatiza o poder constituidor de realidades da linguagem - linguagem essa que também é (re)inventada e discutida com frequência no campo acadêmico. No caso do fenômeno de emergência das Novas Direitas, há um desafio profundo na produção de um consenso teórico no interior dos campos acadêmicos e militantes. No entanto, sua dimensão e expansão tem levado um número enorme de pesquisadores a voltar seus olhos e atenção, lançando mão de um diverso e rico aparato conceitual - e, fundamentalmente, linguístico - na busca de apreender o fenômeno. Tal exercício reflete a riqueza do mundo científico e acadêmico que, em sua busca comprometida e embasada de construção de conhecimentos, deve reverenciar aqueles que trilharam os mesmos caminhos.
A crítica aos estudos europeus - principalmente àqueles embasados no “populismo” enquanto chave de análise (Jarrín et al., 2022, p. 21) - levou a um maior isolamento dos estudos brasileiros sobre o fenômeno. Entende-se que o passado colonial e ditatorial sinalizam particularidades do país, contudo, os estudos da Direita Radical (Radical Right) propostos contemporaneamente por Cas Mudde no contexto europeu também são fruto de um resgate e acúmulo de pesquisas realizadas desde o final da década de 1960.
O pesquisador também tem unido forças com o chileno Cristóbal Kaltwasser (Mudde; Kaltwasser, 2017) para desenvolver análises integrando as realidades particulares. Considerando a potencial interlocução, o presente artigo busca (re)construir o percurso e discussão realizados no contexto de um estudo comparado do ativismo de jovens nas Direitas Radicais do Brasil e da Alemanha (Besen, 2023). Por meio da revisão de um corpo de literatura europeu e brasileiro constrói-se um levantamento dos principais eixos de análise nos países.
Inicia-se apresentando o trajeto das investigações europeias, as quais têm se distribuído entre as chaves de análise do populismo, da radicalização e do iliberalismo. Em seguida, abordam-se as investigações brasileiras, que têm caminhado pelas vias de interpretação do autoritarismo, ultraliberalismo e neopentecostalismo. Por fim - e com vista a ambas as tradições - busca-se apresentar e justificar a construção da categoria hermenêutica de Direitas Radicais para descrever atores, movimentos e partidos que atacam a proteção constitucional das minorias, assim como questionam as ações do Estado na regulação das desigualdades sociais. Apresenta-se, por fim, um diagrama formulado a partir da pesquisa feita entre 2019 e 2023 e da revisão da literatura apresentada no artigo. Tal diagrama busca ilustrar a pluralidade no contexto brasileiro e sinalizar agendas de pesquisa futuras que levem em consideração aspectos particulares e transnacionais das Direitas Radicais, refletindo também acerca dos processos de radicalização em diferentes clusters.
Populista, radical e iliberal: as investigações sobre as Direitas Radicais na Europa
Os estudos europeus acerca da extrema-direita europeia datam do início do século passado, com destaque a muitos autores que buscaram interpretar as condições de desenvolvimento do nazismo e suas marcas nas sociedades por meio de estudos sobre o autoritarismo e o totalitarismo (Adorno, 1950/2019); Arendt, 1951/1989. A cientista política Nonna Mayer (2020) aponta que as principais transições ocorridas no passar dos anos em relação aos estudos sobre esse tema se deram na passagem dos estudos centrados no extremismo e fascismo para o radicalismo e o populismo; na interpretação focada na demanda para a oferta; e na aplicação majoritária de métodos quantitativos e de análise eleitoral para um progressivo - porém ainda inferior - uso de metodologias qualitativas.
No contexto europeu, é comum observar a diferenciação - principalmente no campo da ciência política - entre os estudos a respeito da extrema-direita (“far-right”), que se debruçam sobre elementos da demanda ou sobre os da oferta. Por um lado, a análise da demanda consiste nos fatores que conduzem à “disposição” para ideias e movimentos de extrema-direita; já a análise da oferta diz respeito aos atores e estratégias que promovem e disseminam ideias e oportunidades. No lado da demanda, é frequente o exame de fatores sociais, econômicos, políticos e culturais que conduziriam as pessoas a buscar e a se identificar com as agendas, atores e movimentos extremistas. Já do lado da oferta, incluem-se as interpretações dos grupos ativistas, dos líderes, da mídia tradicional e alternativa, das redes sociais - buscando entender quais são suas estratégias e como eles moldam suas narrativas para que elas possam mobilizar e expandir a influência dos grupos.
Apesar da diferenciação, as linhas tornam-se mais tênues quando analisamos de perto esta literatura. É possível afirmar que a maioria dos estudos acerca da extrema-direita na Europa tem se concentrado em (1) explicações socioeconômicas relacionadas à precarização (Hernández; Kriesi, 2016; Stockemer; Lentz; Mayer, 2018). Há também as (2) explicações sociopolíticas associadas à alienação das elites políticas, as quais estariam mais distantes, desconectadas ou alheias às necessidades populares (Zhirkov, 2014); as (3) explicações socioculturais relacionadas às mudanças culturais nas sociedades modernas tardias, especificamente o conflito entre valores fundamentalistas e pós-modernos, com um foco especial na questão das reações ao multiculturalismo (Ignazi, 1992; Mrozowicki et al., 2019). Além disso, (4) outras análises identificam um declínio na democracia neoliberal e o endurecimento repressivo dos regimes políticos escolhidos através de procedimentos democráticos (Castells, 2018; Runciman, 2018). Há, ainda, as (5) interpretações que retomam teorias que foram utilizadas para a análise do nazismo e o fascismo (Griffin, 2010, 2021; Traverso, 2019), incluindo também explicações psicológicas e psicanalíticas, nas quais prevalece a ideia do extremismo de direita como uma “condição patológica comum”, a qual poderia se repetir em momentos de crise e anomia (Scheuch; Klingemann, 1967).
O cientista político holandês Cas Mudde (2007) retoma o percurso europeu de tal campo de estudo, e afirma que, entre 1980 e 1995, houve uma “guerra de palavras” na Europa Ocidental. Envolvendo 28 definições diferentes, baseadas em 58 distintos traços ideológicos, algumas se destacaram e ganharam maior repercussão. Inicialmente, uma das definições mais aplicadas foi a de Ignazi (1992), que tratava da existência de uma “contrarrevolução silenciosa” em reação à disseminação de valores que denominava pós-materialistas. O autor criou uma escala, diferenciando dimensões espectrais (posições dentro de uma escala de direita/esquerda), um critério ideológico (por exemplo, com referências ao fascismo ou não) e, por fim, uma medida atitudinal (pró ou antissistema, o que significava “pró” ou antidemocracia). Tal escala era utilizada com a função de diferenciar a “nova direita” dos antigos partidos tradicionais de direita dos países europeus.
Em 1984, na França, Pierre-André Taguieff iniciou o uso do conceito de “populismo” para analisar alguns partidos europeus emergentes. O conceito vinha sendo aplicado, fundamentalmente, para o estudo dos processos políticos da América Latina, onde se considerava haver uma “ampla e duradoura variedade de populismo de esquerda e de direita” (Wahl, 2020, p. 336, tradução própria). Taguieff foi o primeiro a interpretar e denominar a ideologia da Frente Nacional (FN) como nacional populista por utilizar um misto de nacionalismo, xenofobia e demagogia em nome “do povo”.
Já na literatura de língua inglesa, Betz (1994) estabeleceu como principal diferença entre os novos partidos e a extrema direita tradicional o fato de que eles não rejeitavam as regras democráticas, nem defendiam a violência. Em relação ao centro, diferenciavam-se porque eram a favor de uma transformação radical no consenso da sociedade democrática pós-guerra e, portanto, no Estado de Bem-Estar Social e na aceitação da sociedade multicultural. Por fim, Betz também afirmava que os partidos eram populistas em sua argumentação -declarando ter fé no senso comum e na superioridade moral do homem comum, oferecendo soluções simples para problemas complexos - e em sua estratégia política - envolvendo a articulação de uma “política de ressentimento” para mobilizar as pessoas contra a classe política e as elites (Mayer, 2020).
Concomitantemente aos estudos sobre populismo, encontram-se também aqueles que interpretam o fenômeno como uma reatualização de elementos do fascismo do passado em novas roupagens. Um dos principais nomes dessas análises é Roger Griffin (2010, 2021), que, em seus estudos, destacou a centralidade da palingenesia - o mito do renascimento nacional - nos discursos da nova direita radical, indicando como esse núcleo possibilita a persistência de ideologias fascistas mesmo em regimes de democracia liberal. Embora reconheça o abandono de símbolos e formas explícitas do totalitarismo, Griffin sustenta, em análises recentes (2021), que o fascismo pode emergir precisamente a partir do populismo radical de direita. De modo convergente, Enzo Traverso (2019), ao propor o conceito de pós-fascismo, também enfatiza os processos de adaptação ao contexto contemporâneo. Ambos os autores ressaltam que os movimentos emergentes na Europa desde os anos 1960 - então denominados “Nova Direita” - já articulavam um projeto de disputa pela hegemonia cultural, evidenciando como a direita radical atual combina continuidades seletivas e transformações significativas do legado fascista.
Com relação aos estudos do populismo, podemos localizar Mudde e Kaltwasser (2017) como dois de seus principais divulgadores. O “Populismo de Direita Radical” foi definido por Mudde (2007) como a ideologia central de grupos e partidos que combinam três traços principais: o nativismo (como uma combinação entre nacionalismo e xenofobia), o autoritarismo (a crença em uma sociedade rigorosamente organizada) e o populismo (posicionamento enquanto um povo puro em oposição às elites corruptas). Já o termo direita radical - que derivou do uso do “radicalismo” para explorar o fenômeno - começou a ser propagado no meio da década de 1990 nos estudos europeus, substituindo o termo extremismo. O termo rapidamente ganhou terreno por seu menor caráter de estigmatização e sua pretensa desconexão ao fascismo e nazismo.3
Uma das teorias de demanda que mais repercutiu no contexto europeu foi a de Betz (1994), que analisou as consequências políticas das transformações sociais. O autor argumenta que a urbanização, a mobilidade social e o declínio das classes e da solidariedade baseada na religião resultaram em uma sociedade mais fluida e atomizada, enfraquecendo as antigas lealdades partidárias e favorecendo as chamadas “políticas do ressentimento” ou “antipolíticas”. A teoria de Betz (1994) aborda o conceito dos perdedores da modernização, refletindo sobre os efeitos da globalização na criação de grupos que percebem a si mesmos como prejudicados pelas mudanças socioeconômicas. Esses indivíduos frequentemente atribuem a perda de empregos e a instabilidade social aos fluxos migratórios, enxergando o multiculturalismo, o cosmopolitismo e as normas universais como ameaças às suas identidades.
No conjunto das explicações socioeconômicas, encontra-se também uma série de trabalhos que relacionam o neoliberalismo, como política econômica que produziria precarização e flexibilização das relações de trabalho, com a priorização do mercado como mediador das relações sociais. No interior dessa corrente, também se colocam as teorias de interpretação sobre a dualização do mercado de trabalho nas sociedades capitalistas. Em geral, os trabalhos inspiram-se em Standing (2014), que irá inaugurar o termo “precariado”, enquanto uma classe comum e perigosa que poderia variar politicamente entre os extremos da direita e da esquerda, assim como ser mais suscetível à demagogia populista.
Mais recentemente, o populismo tem sido interpretado enquanto uma “ideologia fina” (thin-ideology) em contraposição ao que seriam entendidas como ideologias completas, como o liberalismo, o socialismo e o conservadorismo. Essas ofereceriam um sistema de pensamento com soluções políticas específicas e práticas, já o populismo consistiria em uma abordagem simplificada do mundo político que, portanto, poderia se colar a essas diferentes ideologias (Stanley, 2008; Wahl, 2020). Mudde (2019) tem apontado que a extrema direita populista deve ser vista como uma interpretação radical dos valores mainstream ou até mesmo como uma forma de “normalidade patológica”. Essa argumentação é respaldada por uma análise empírica das ideologias partidárias e de atitudes de eleitores.
Essa mudança de paradigma proposta tem implicações profundas para compreender a relação entre a extrema direita e a democracia ocidental, além de influenciar o estudo do fenômeno em si. Mudde (2016), por exemplo, sugere que devemos encarar a demanda por políticas da extrema direita populista mais como uma presunção do que um mistério. A ideia de “patologia normal” desafia a noção de que a extrema direita populista é totalmente externa e estranha ao sistema político e social, argumentando que ela reflete aspectos distorcidos ou exagerados das normas sociais e políticas existentes.
Tal abordagem também tem transformado as perspectivas sobre os eleitores, que, por muito tempo, foram vistos como emotivos, irracionais e motivados pelo ressentimento, em vez de convicções ideológicas. Estudos recentes destacam como os votos para a Direita Radical podem ser vistos como “votos de protesto” (Mayer, 2020), demonstrando uma rejeição aos outros partidos. Seguindo essa linha de pensamento, uma corrente recente de estudos tem emergido, tratando o crescimento desses grupos, movimentos e partidos como parte do iliberalismo (Laruelle, 2022). O iliberalismo é um conceito ainda em desenvolvimento nas ciências sociais, considerado por alguns como uma ideologia, mas cujo elemento principal é sua dependência intrínseca do liberalismo.
O que é interessante nesse novo uso do conceito é que ele leva a uma análise mais profunda do próprio liberalismo e de seus scripts,4 desafiando os pesquisadores a questionar os valores e políticas associados a ele como “intrinsecamente corretos”. Além disso, ele questiona a visão de grupos classificados como “iliberais” como externos e ameaçadores ao roteiro democrático liberal. Ao conceituar o iliberalismo como uma resposta ou desafio aos padrões do liberalismo, evita-se criar uma dicotomia entre o liberalismo e o iliberalismo. Em vez disso, reconhece-se que a relação entre os dois depende do contexto e evolui ao longo do tempo e do espaço. O iliberalismo surge de dentro do liberalismo, não como um oposto existencial, mas como uma conjuntura relacionada à falha do liberalismo em alcançar seus objetivos democráticos. Essa abordagem pós-liberal do iliberalismo compete com o liberalismo usando sua própria linguagem conceitual.
Laruelle (2022, p. 309, tradução própria) descreve o iliberalismo como um novo universo ideológico que “mesmo que doutrinariamente fluido e baseado no contexto, é até certo ponto coerente”. Tal universo representa uma reação contra o liberalismo em seus roteiros “político, econômico, cultural, geopolítico e civilizacional, posicionando-se em nome dos princípios democráticos e graças a eles (vencendo pelo voto popular). Suas soluções têm como base a nação ou a soberania, favorecendo hierarquias tradicionais e uma homogeneidade cultural”. Por fim, o iliberalismo operaria a partir de uma “mudança da política para a cultura, apresentando-se como pós-pós-moderno em suas reinvindicações de enraizamento em uma era de globalização”.
Apesar de não ser amplamente adotado no contexto acadêmico brasileiro e latino-americano, o conceito de iliberalismo apresentado merece destaque ao desafiar a noção de “dentro” e “fora” da democracia liberal, centralizando a ideia de tensão e exigindo uma análise mais profunda dos contextos de formação do roteiro liberal democrático nos países. Ele também evidencia que os atores das Direitas Radicais irão se apropriar dessa linguagem conceitual, disputando significados e constituindo novas narrativas dentro do contexto democrático liberal.
Autoritária, ultraliberal e neopentecostal: as investigações acerca das Direitas Radicais no Brasil
As Novas Direitas no Brasil despertaram considerável interesse tanto na esfera acadêmica quanto no público em geral com a eleição de Jair Bolsonaro como presidente em 2018. Dentro dessas discussões, uma clara divisão surgiu entre aqueles que enxergavam um fenômeno novo (Chaloub; Perlatto, 2016; Gentile, 2018; Rocha, 2019) e os que viam apenas uma ressurgência da direita tradicional com novas roupagens (Miguel, 2018; Pereira, 2015; Salles, 2017).
Pinheiro-Machado e Feixo (2019) observam que os protestos de junho de 2013 trouxeram duas grandes mudanças ao cenário político brasileiro. Em primeiro lugar, retiraram das ruas o Partido dos Trabalhadores e os movimentos associados ao seu protagonismo. Em segundo lugar, e de forma relacionada, representaram uma “descoberta” das ruas pela direita, que passou a ocupar espaços que, desde a ditadura, eram identificados como locais de forças e movimentos progressistas. Nas ruas, encontravam-se organizações nacionalistas extremistas, jovens com retórica antipolítica e de liberalismo difuso, grupos de skinheads, defensores de um golpe militar, grupos religiosos conservadores e fundamentalistas, além de cidadãos com discurso anticomunista e uma luta genérica contra a corrupção.
No que diz respeito às interpretações, as pesquisadoras Pinheiro-Machado e Feixo (2019) identificam duas linhas de análise. A primeira (1) relaciona-se ao contexto global de desilusão com a democracia liberal e ao fracasso dos modelos clássicos de representação política. A segunda (2) está ligada ao esgotamento do modelo petista ou lulista, que se baseava em políticas redistributivas e no aumento do papel do Estado, mas que não conseguiu mobilizar reformas estruturais que garantiriam a radicalização da democracia brasileira.
Essa segunda chave de análise retoma os períodos pós-reeleição de Dilma Roussef em 2014, apontando que as tentativas de estabelecer uma “governabilidade” teriam falhado devido à insatisfação interna das bases tradicionais do partido e da esquerda com as políticas de austeridade, aliadas ao aprofundamento e continuidade da Operação Lava Jato, que trouxe à tona novas denúncias de propinas e irregularidades. Isso teria culminado nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, organizados em 2015 e 2016, que representavam uma “indignação seletiva” contra o Partido dos Trabalhadores, alimentada pela disseminação de narrativas conservadoras na grande imprensa e por teorias conspiratórias nas redes sociais e grupos de WhatsApp. A politização do judiciário, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal também é apontada como elemento fundamental para entender o processo identificado pelas autoras como uma desdemocratização no Brasil.
Miguel (2018, p. 17) analisa o fenômeno como uma retomada da direita brasileira, destacando a crescente visibilidade e relevância de grupos “que assumem sem rodeios um discurso conservador ou reacionário”. Para o autor, as Novas Direitas, caracterizadas como plurais, têm uma convergência pragmática motivada pela percepção de um inimigo comum. Elas teriam surgido durante o ciclo dos governos petistas, redefinindo o debate público no Brasil através do uso de novas tecnologias e do espaço conquistado nos meios de comunicação tradicionais.
Segundo Miguel (2018), consensos estabelecidos desde o fim da ditadura militar e a promulgação da Constituição de 1988 - como a defesa da democracia, o respeito aos direitos humanos e o combate à desigualdade social - foram desafiados pelas Novas Direitas. Para o pesquisador, esses grupos combinam o libertarianismo, derivado da escola econômica austríaca e influente em círculos acadêmicos e ativistas nos Estados Unidos; o fundamentalismo religioso, especialmente representado pela expansão do neopentecostalismo; e a ressurgência do “perigo vermelho”, que revive o anticomunismo sob a forma de bolivarianismo. O libertarianismo é caracterizado pela valorização do mercado como regulador máximo das relações sociais, reduzindo todos os direitos ao direito de propriedade, com aversão a qualquer laço de solidariedade social. Para os porta-vozes de tais grupos, a palavra de ordem seria “liberdade”, intensificando as oposições estabelecidas pelos liberais do século XVIII. Miguel argumenta que a igualdade é vista como uma ameaça à liberdade, o Estado ao mercado, e a política à economia.
Rocha, Solano e Medeiros (2021) também destacam as peculiaridades das Novas Direitas em relação à direita tradicional, rompendo com o pacto democrático estabelecido a partir da promulgação da “Constituição Cidadã” em 1988. Essa nova ordem democrática, chamada por Abranches (2018) de “presidencialismo de coalizão”, teria rompido com o modelo político da ditadura militar, contribuindo para a gradual construção de uma esfera pública pós-burguesa que visava cada vez mais incluir grupos socialmente subalternos. Além disso, o pacto impulsionaria grupos de direita ativos durante o regime militar a tentarem adaptar-se às novas restrições. As autoras afirmam que, após a redemocratização, identificar-se abertamente como de direita tornou-se desconfortável, reproduzindo um fenômeno argentino conhecido na literatura como “direita envergonhada” (Power, 2000). Essa vergonha estendeu-se para além dos políticos, alcançando também apoiadores e eleitores, que começaram a conformar uma nova esfera pública alternativa, no auge do lulismo, entre 2006 e 2010.
Essa análise também está presente na tese de doutorado de Camila Rocha (2019) - Mais Mises menos Marx: uma gênese da Nova Direita no Brasil - onde a Nova Direita é descrita como uma mistura ultraliberal conservadora, cuja origem está relacionada à organização dos contrapúblicos (esferas públicas alternativas) nesse período. Rocha aponta que, durante esses anos, houve um encontro e debate - através de plataformas como o Orkut e, posteriormente, o Facebook - entre aqueles que se sentiam marginalizados e não representados na esfera pública dominante, contribuindo para a disseminação de ideias ultraliberais. Sua análise remonta à década de 1980 e à criação de think tanks e institutos neoliberais, bem como à expansão das organizações neopentecostais que ganharam força nos espaços públicos institucionais durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011).
Camila Rocha (2018) também examinou detalhadamente o ativismo na Nova Direita, questionando a afirmação comum de que esse ativismo foi financiado por fontes privadas. A pesquisadora mostra que o surgimento das novas direitas está principalmente associado ao período após os protestos pró-impeachment de Dilma Roussef. Originando-se em grupos e fóruns online, o ativismo foi predominantemente voluntário entre os jovens. Muitos desses grupos começaram a se mobilizar pessoalmente através de protestos, reuniões e sessões de treinamento (Bringel; Pleyers, 2019; Klüppel; Cruz; Cerri, 2021; Sousa et al., 2022). Além disso, eles combinaram a defesa dos valores cristãos e da família “tradicional” com a rejeição das demandas feministas e dos movimentos pela igualdade LGBTQIA+ (Codato; Bolognesi; Roeder, 2015). Grupos religiosos, principalmente católicos e evangélicos protestantes, parecem estar envolvidos no ativismo (Severo; Weller; Araújo, 2021).
O lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, amplamente adotado pelo ex-presidente brasileiro e usado com pequenas variações pelos movimentos das novas direitas, também obriga um olhar ao passado e à Ação Integralista Brasileira, que, com um lema semelhante e liderada no passado pelo jornalista Plínio Salgado, mobilizou grande parte da população brasileira nos anos 1930 (Gonçalves; Caldeira Neto, 2020).
A Ação Integralista Brasileira (AIB) nasce inspirada no fascismo europeu5 e fica conhecida pela sua retórica agressiva e táticas paramilitares. Junto à Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, conhecida como TFP, a AIB esteve presente na famosa Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, ato marcante e fundacional da ditadura militar brasileira. Os dois grupos podem ser entendidos enquanto expoentes do fascismo clerical brasileiro. Os “dois Plínios” -Plínio Salgado e Plínio Correa de Oliveira -são ainda figuras referenciadas, e as tradições inauguradas por seus grupos fornecem elementos e símbolos adotados pelas novas direitas. Ambos têm uma influência enorme do catolicismo, conduzindo também à necessidade de refletir sobre a influência religiosa. Mas, para além do aspecto religioso, é também por meio de Adolpho Lindbergh - hoje presidente do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO) - que as primeiras obras do neoliberalismo foram trazidas ao Brasil. Rocha (2019) explica que a tradução, em 1946, da obra O caminho da servidão de Hayek (1990), já era uma iniciativa para barrar o avanço da esquerda católica e das pautas que ela carregava, como a reforma agrária.
Nesse sentido, Pleyers (2020) aponta uma importância central da Igreja neopentecostal, que teria ocupado os espaços deixados nas favelas brasileiras pelo cristianismo da libertação, que foi profundamente perseguido antes e durante a ditadura militar brasileira. Ele entende que a vitória eleitoral de Bolsonaro, em 2018, faz parte de um processo de transformação profunda, iniciado no início dos anos 1980 e conduzido com continuidade e inteligência ao longo de quatro décadas por atores religiosos conservadores. Já Dantas (2013) analisa que as fronteiras que antes separavam os espaços público e privado, assim como a política e a religião, estão sofrendo mudanças. A política estaria invadindo a esfera privada, enquanto a religião estaria alcançando o espaço público. No contexto neopentecostal, a Teologia do Domínio e a Teologia da Guerra Espiritual desempenham um papel fundamental na compreensão da atuação política das igrejas. Dantas (2013) aponta que, no neopentecostalismo, a batalha entre o bem e o mal ocorre no âmbito social e político, por meio do voto, da mídia eletrônica e da aquisição de propriedades. Essa batalha busca conquistar o domínio político da sociedade, alcançado através da obtenção de cargos eletivos, da ampliação da representação parlamentar e da consolidação do poder político.
Em suma, no contexto brasileiro, o fenômeno tem sido explorado centralmente a partir dos traços do autoritarismo e da personalidade autoritária, enfatizando a importância do passado ditatorial e o rompimento com o pacto democrático estabelecido pós 1988 (González; Baquero; Grohmann, 2021): a partir de teorias de um neofascismo (Cruz, 2019; Vasconcelos, 2021); enquanto uma metamorfose do neoliberalismo (Dardot; Laval, 2016; Safatle, 2020) ou uma tendência ultraliberal (Miguel, 2018; Rocha, 2018); e pela via da expansão do neopentecostalismo, representando um aprofundamento da intersecção entre religião e política (Dantas, 2013; Lopes; Dantas, 2017; Teixeira, 2019; Teixeira; Barbosa, 2022).
Direitas Radicais: pluralidade, radicalização e tensionamento democrático
Conforme discutido nas seções anteriores, os contextos europeu e brasileiro apresentam poucas convergências em suas chaves de análise. No Brasil, há uma forte ênfase nas particularidades histórico-culturais do país e, embora alguns pesquisadores remontem a formação desses grupos e partidos à década de 1980, o uso do termo Novas Direitas tornou-se mais comum recentemente, em função de sua proximidade temporal. Já na Europa, esses partidos começaram a ressurgir no cenário político ainda na década de 1960, recebendo a alcunha de Nova Direita (Minkenberg, 1992). No século XXI, observa-se uma nova transformação, com partidos como a Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD), a Frente Nacional (Front National, FN) e o Partido da Liberdade da Áustria (Freiheitliche Partei Österreichs, FPÖ) sendo enquadrados dentro do que se convencionou chamar de “quarta onda” da extrema direita (far right).
Arzheimer (2019) dedicou-se a discutir as questões conceituais no campo de estudos dessa “quarta onda” na Europa ocidental, afirmando que, apesar das diferentes nomenclaturas, o campo de estudos do fenômeno tem se expandido e avançado, mantendo um uso mais recorrente de radical right6 (direta radical). Tal alcunha é baseada nos estudos de Mudde (2016, 2019) que estabelece a existência ampla da far-right7 (extrema direita) e propõe uma diferenciação entre extreme-right (direita extrema) e radical right (direita radical). Em relação à extrema direita, a direita radical seria diferenciada em sua aceitação parcial de princípios democráticos, como soberania popular e governo da maioria, embora compartilhe da negação da democracia liberal da extrema-direita, especialmente em relação às proteções constitucionais de minorias (étnicas, políticas, religiosas) e à separação de poderes e ao Estado de Direito (Mudde, 2016).
Apesar da importância da diferenciação construída no contexto europeu e de seu amplo uso na literatura, as recentes invasões - dos três poderes no Brasil, do Capitólio nos Estados Unidos, assim como a ameaça ao Parlamento alemão - colocam em xeque a afirmação sobre a aceitação da soberania popular e do governo da maioria. Nesse sentido, pode-se afirmar que Arzheimer (2019) oferece uma alternativa ao afirmar que tais movimentos apresentam uma relação ambígua com a democracia liberal, em que, por um lado, há participação em instâncias democráticas e a busca por posições legislativas e executivas e, por outro, há um constante rompimento com normativas democráticas, seja por meio da negação do princípio da igualdade, seja por meio da legitimação da violência política e da radicalização.
No contexto latino-americano, pesquisadores (Chaloub; Perlatto, 2016; Díaz, 2021; Gentile, 2020; Stefanoni, 2021) têm apontado para a existência de constelações diversas no interior da Nova Direita. Eles ressaltam a coexistência de uma miríade de identidades políticas. Gentile (2020) afirma que estamos diante de um novo fenômeno em que o pensamento autoritário e a herança ditatorial brasileira são combinados às teorias conservadoras-liberais de Hayek e à doutrina neoliberal de Milton Friedman. Ele vai ao encontro de Chaloub e Perlatto (2016), ressaltando a existência de uma pluralidade no interior da Nova Direita, ou da direita brasileira contemporânea, em que grupos se organizam em torno de uma “plataforma ideológico política comum, indo do antipetismo ao antibolivarianismo [...] passando pela antipolítica e pelo conservadorismo moral [...] até os argumentos tradicionais do neoliberalismo” (Gentile, 2020 p. 236).
O uso de Novas Direitas seria justificado por uma questão temporal e para realizar uma diferenciação com a direita mainstream ou tradicional, enfatizando também a ideia de pluralidade presente nos intelectuais de referência, que não pertenceriam a um todo “homogêneo e monolítico” (Chaloub; Perlatto, 2016, p. 39). Tal pluralidade estaria refletida também nas formas em que atuam na esfera pública: por um lado, haveria aqueles grupos preocupados com a influência direta na construção ideológica e com a formulação de narrativas com capacidade de influenciar o debate público; por outro, haveria os grupos militantes que estariam centrados na organização de protestos e na ocupação de espaços institucionais. Apesar da diferenciação, esses grupos apresentariam uma complementariedade, já que a direita retórica forneceria as justificativas e enquadramentos, enquanto a militante garantiria a efetivação política.
O jornalista argentino Pablo Stefanoni (2021), em seu recente livro, La rebeldía se volvió de derecha, destaca as porosas configurações das Novas Direitas e sua capacidade de capitalizar a indignação social, apresentando-se como um “questionamento” ao sistema. Essas derechas, colocadas também no plural pelo autor, têm tido a capacidade de mobilizar a indignação frente à realidade, apresentando propostas para transformá-la. Stefanoni defende o uso de derechas, no plural, para enfatizar a diversidade e complexidade dentro dos movimentos e ideologias de direita. Ele destaca, em seu livro, que a política e os movimentos de direita abrangem uma ampla gama de perspectivas, facções e atores, não conformando uma entidade fixa ou estática. O autor identifica a existência de correntes conservadoras, nacionalistas, populistas, neoliberais e autoritárias, que estão sujeitas a debates internos, contradições e mudanças ao longo do tempo.
Díaz (2021) defende que a democracia liberal não se torne o ponto de referência principal das análises políticas, apontando que não há uma diferença substancial entre o que se entende e analisa na América Latina como “nova direita” e aquilo que vem sendo interpretado na Europa como um “conservadorismo iliberal”. Baseada em seu trabalho etnográfico e em entrevistas no Brasil, ela defende uma noção de direita plural, que englobe diversas expressões ideológicas e leve em conta a natureza processual da consolidação dos sujeitos políticos. Ela centraliza a noção de radicalização para dar conta desse caráter processual, entendendo a radicalização e o autoritarismo como “processos sociais diacrônicos que compreendem a confluência de tentativas de interpelação (coercitivas) de cima para baixo e práticas de subjetivação de baixo para cima” (Díaz, 2021, p. 15, tradução própria).
A pesquisadora aponta a existência de processos de neoliberalização, combinados com processos coercitivos, nos quais há uma ativação de movimentos e organizações para mobilizar e lutar por hegemonia discursiva e política. Ela também enfatiza que os atores e fenômenos contemporâneos de direita estão longe de ser coerentes, pois apresentam elementos que não se encaixam nas categorizações teóricas construídas. Nessa perspectiva, a “nova direita” não deve se referir a pessoas políticas específicas ou a um conjunto bem definido de características, mas servir como uma categoria heurística para explorar características duradouras e sinais de renovação em projetos de direita contemporâneos.
Frente a tais contribuições da literatura latino-americana - centralmente brasileira - e europeia sobre o tema, a categoria Direitas Radicais é aqui proposta, buscando enfatizar, portanto, a questão da pluralidade - afirmada no contexto latino-americano - e adotar a diferenciação com a direita tradicional por meio do adjetivo “radical” - seguindo a tradição europeia. As Direitas Radicais funcionam, portanto, enquanto categoria hermenêutica que engloba atores, grupos, movimentos e partidos que têm produzido o tensionamento da democracia liberal, por meio do ataque à proteção constitucional das minorias (étnicas, religiosas e econômicas), assim como do questionamento das ações do Estado para regulação das desigualdades.8
O uso do plural envolve a compreensão de que tais atores, grupos, movimentos e partidos têm particularidades em regiões do mundo distintas, adquirindo elementos relacionados à conjuntura social e à política nacional, assim como ao passado histórico. Já o conceito de radicalização, especialmente nos contextos europeu e norte-americano, foi amplamente utilizado para analisar as trajetórias de indivíduos envolvidos com o extremismo religioso islâmico (Hofmann, 2020; McCauley; Moskalenko, 2011; Sedgwick, 2010). No Brasil, essa abordagem também foi adotada em alguns estudos (Begeres Bisneto, 2019; Gonçalves, 2014), que se concentraram na categoria de “terrorista”. Embora essa preocupação seja legítima, ela contribuiu para uma visão estigmatizante e reducionista da radicalização, frequentemente associando-a exclusivamente ao jihadismo global e ao fundamentalismo islâmico. Neste artigo, adotamos uma definição mais ampla e multidimensional, compreendendo a radicalização como um processo que envolve fatores sociais, psicológicos e culturais, conduzindo à legitimação de discursos de ódio, teorias conspiratórias e à justificação ou prática da violência política (Adorno, 2022; Krasteva, 2017; Miller-Idriss, 2018a, 2018b).
No Brasil, o universo de pesquisas sobre as Direitas Radicais ainda está demasiadamente concentrado naquilo que foi definido como “bolsonarismo”.9 Contudo, a pesquisa realizada (Besen, 2025), somada à literatura brasileira sobre o tema, tem revelado que tal alcunha não é suficiente para dar conta do fenômeno de expansão de tais grupos e movimentos. Para sistematizar a pluralidade identificada, de forma a contribuir para agendas de pesquisa futuras, realizou-se a identificação de agrupamentos e perfis no interior das Direitas Radicais brasileiras. Combinando achados de uma pesquisa realizada para o Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE)10 à observação das redes feitos com um perfil profissional de Instagram nos últimos anos, assim como à revisão da literatura nacional e internacional, são elencados sete agrupamentos definidos enquanto clusters. O termo cluster tem origem na análise de dados e na tecnologia, contudo, nas ciências sociais tem sido escolhido para se referir ao agrupamento de sujeitos ou variáveis em grupos com uma ou mais características comuns. Ele também enfatiza a influência exercida pelos algoritmos, fenômeno amplamente estudado por Letícia Cesarino (2020, 2022), referência em pesquisa digital e na exploração das manifestações políticas nas redes.
Apesar das fronteiras serem mais borradas no encontro com o real, o levantamento de algumas de suas agendas e traços principais permitiu a identificação e classificação inicial de sete clusters:
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Patriotas e armamentistas: Combinam o saudosismo militar com a defesa do armamento civil, promovendo um projeto de militarização da sociedade. Defendem a preservação de uma identidade nacional idealizada e frequentemente apoiam medidas autoritárias em nome da “ordem”;
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Antifeministas: Articulam a defesa da família tradicional com forte oposição ao que denominam “ideologia de gênero”. Costumam atacar os movimentos feministas, mobilizando tanto o essencialismo biológico quanto argumentos do conservadorismo moral;
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Evangélicos:11 Caracterizam-se pela defesa do antissecularismo, buscando maior influência da religião na política. Algumas vertentes seguem a Teologia da Prosperidade, combinando conservadorismo moral com uma visão empreendedora da fé e da vida social;
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Monarquistas: Além de defenderem valores aristocráticos, são particularmente focados no combate ao que chamam de “doutrinação escolar”. Propõem o reestabelecimento da monarquia, em seu modelo parlamentar e constitucional;
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Libertários e paleolibertários: Articulam a defesa radical do livre mercado com valores sociais conservadores. Defendem a meritocracia e, frequentemente, opõem-se a políticas sociais e ações afirmativas;
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Masculinistas: Conectados à “machosfera”,12 focam suas críticas no que chamam de feminismo “radical” e no “progressismo”;
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Tradicionalistas: Enfatizam o conservadorismo moral e a defesa de uma hierarquia “natural”. São influenciados por pensadores tradicionalistas13 e defendem um retorno a valores e estruturas sociais pré-modernas.
Longe de esgotar as possíveis intersecções e definições existentes, o diagrama proposto busca estimular a construção de agendas de pesquisa voltadas não apenas para a teorização sobre partidos e lideranças que têm recebido maior atenção midiática, mas também para uma análise mais aprofundada das dinâmicas internas desses clusters. Isso inclui o estudo das suas particularidades, relações e dos discursos que circulam entre eles, permitindo o desenvolvimento de uma teoria mais robusta e abrangente. Tal aprofundamento é essencial para compreender as formas de atuação e consolidação das Direitas Radicais, bem como para fundamentar estratégias de resistência. Além disso, é crucial reconhecer que grande parte desses grupos opera dentro dos marcos da democracia liberal, o que exige um olhar atento às suas formas de participação e adaptação ao sistema democrático, muitas vezes tensionando suas estruturas sem a necessidade de rompê-las.
Considerações finais
O presente artigo revisitou parte das complexas trajetórias de (in)definição em torno da expansão de grupos, atores, movimentos, partidos e líderes que compartilham características comuns, como o ataque aos direitos constitucionais das minorias e à regulação estatal das desigualdades sociais. Diferentemente do passado, tais grupos têm buscado integrar-se aos processos democráticos e influenciá-los internamente, promovendo agendas que a maior parte dos observadores externos não reconhece como democráticas.
Suas vitórias eleitorais, somadas à grande influência discursiva na esfera pública, têm impulsionado o interesse acadêmico pelo tema. Diante da diversidade de análises existentes, este estudo reuniu e articulou pesquisas brasileiras e europeias, fundamentando a escolha teórica de enquadrar tais grupos sob a categoria de Direitas Radicais. A proposta de adotar essa terminologia não visa à unificação do campo, mas sim à identificação de pontos de intercâmbio entre estudos de diferentes regiões, respeitando as especificidades locais e históricas. Nesse sentido, compreende-se que o plural empregado na noção de Direitas Radicais não é meramente estilístico, mas essencial para captar a diversidade de perfis, estratégias e discursos observados globalmente.
Essa abordagem dialoga diretamente com a literatura que identifica a ativação de movimentos e organizações em busca de hegemonia discursiva e política. Além disso, reconhece que as Direitas Radicais contemporâneas não são homogêneas e apresentam contradições internas, desafiando categorizações teóricas rígidas. Outro ponto fundamental levantado é a necessidade de ampliar o conceito de radicalização, que, historicamente, foi aplicado a extremismos religiosos e ao que foi classificado enquanto “terrorismo”. Essa perspectiva reducionista contribuiu para a estigmatização de certos grupos, deixando de lado um entendimento mais amplo dos processos sociais, psicológicos e culturais que conduzem à legitimação de discursos de ódio e da violência política. Assim, ao expandir essa definição, este estudo busca contribuir para uma leitura mais refinada e menos patologizante das Direitas Radicais.
No contexto brasileiro, as pesquisas ainda estão fortemente concentradas no que tem sido chamado de “bolsonarismo”. No entanto, os dados levantados indicam que essa categoria não captura plenamente a pluralidade de grupos e identidades que emergiram nos últimos anos. A análise conduzida permitiu mapear diferentes clusters dentro desse campo político, mirando o desenvolvimento de metodologias sistemáticas e replicáveis para investigações comparadas. Apesar do avanço - ainda que gradual - dos estudos qualitativos, persiste uma lacuna nas pesquisas comparadas entre diferentes regiões do mundo.
Ao situar esse fenômeno dentro do sistema político e social, evidencia-se a necessidade de considerar as condições específicas de desenvolvimento da democracia liberal em cada contexto. A apresentação do diagrama buscou ilustrar essa pluralidade, destacando pontos de convergência que justificam a articulação desses diferentes clusters sob uma mesma categoria hermenêutica. Longe de esgotar as análises, este artigo pretende inspirar e estimular novas pesquisas comparadas que investiguem os processos de engajamento e radicalização das Direitas Radicais, explorando de forma mais aprofundada tanto suas particularidades quanto suas conexões transnacionais.
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Agradeço a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento (Processo nº 2024/01520-2).
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Na Alemanha pós-guerra, tanto o extremismo de esquerda quanto o de direita foram considerados antidemocráticos e anticonstitucionais. Os partidos e grupos rotulados com essas designações estavam sujeitos à vigilância e, em alguns casos, foram banidos. No entanto, os radicais, embora em oposição a certos princípios constitucionais, eram vistos como menos ameaçadores e não enfrentavam os mesmos procedimentos. Atualmente, o conceito de “democracia militante” é usado para examinar as respostas democráticas ao extremismo político, incluindo políticas de proibição de partidos e vigilância de movimentos. As decisões sobre esses grupos são tomadas pelo Ministério do Interior, sem necessidade de revisão legislativa. Estudos recentes têm discutido a eficácia desses mecanismos no controle da radicalização. Para mais informações sobre a política de proibição na Alemanha, ver Bértoa e Bourne (2017).
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Para entender os cinco scripts do liberalismo e as ameaças a ele relacionadas, ver Liberalism(s), illiberalism(s), and their inner tensions, em Laruelle (2022).
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Pollard (2013) define o termo “fascismo clerical” como uma forma de abranger indivíduos, movimentos e regimes, ou, simplesmente, momentos de encontro entre a religião cristã e o fascismo, tanto em termos de sua disseminação geográfica quanto das denominações cristãs envolvidas. Isso significa que não se trata apenas do catolicismo, mas também de diferentes formas de protestantismo e outras igrejas extremistas. Alguns grupos brasileiros que combinam religião e extremismo, como a linhagem integralista, assim como os herdeiros da Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, ainda estão presentes na forma de grupos como IPCO (Instituto Plínio Corrêa de Oliveira), Associação Cívica Arcy Lopes Estrella, Ação Integralista Revolucionária, Frente Integralista Brasileira (FIB) e o Movimento Integralista Linearista Brasileiro. Com diferentes níveis de radicalização, esses grupos são organizações institucionais, no entanto, o Integralismo serviu e ainda serve de inspiração para a emergência de grupos e células neonazistas, tais como os Carecas do Subúrbio e do ABC, além de grupos relacionados ao White Power. O trabalho de Gonçalves e Caldeira Neto (2020) tem como foco principal os Integralistas, sua história e posteriores ramificações que dão origem a alguns movimentos contemporâneos.
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No contexto norte-americano, também há um universo grande de pesquisas sobre o tema que ganham intensidade após as eleições de Donald Trump em 2016. Por conta do escopo do artigo, tais estudos não foram abordados, o que não anula o reconhecimento da grande influência e troca existente entre o que é entendido como Alt Right e as Novas Direitas brasileiras. Ali tem sido diferenciada a Direita Conservadora (Conservative Right) da Direita Alternativa (Alt-Right). Mais recentemente, nesse quadro também foi proposto o conceito de Alt-Lite, que trataria de uma direita alternativa “leve” (Alt-Lite). Hawley (2017) irá explicar que a definição é um tanto nebulosa, mas que a Direita Alternativa inclui uma série de indivíduos que se identificam como de direita, mas que têm como um dos centros de suas agendas a supremacia racial branca. Taylor (2020) esclarece que o Alt-Right inclui nacionalistas brancos, “realistas raciais”, neonazistas, acadêmicos de extrema direita, antimodernistas esotéricos e a “manosfera” misógina. Essa diversidade é refletida na divisão entre o alt-right, que abraça abertamente o nacionalismo branco, fascismo ou nazismo, e o “alt-lite”, que advoga pelo nacionalismo cívico, em vez do branco, e acolhe a participação de judeus, gays e pessoas de cor. Eles são unidos pela crença de que “todos os homens são criados desiguais” (Taylor, 2020, p. 15).
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7
No Português brasileiro, encontramos um problema na diferenciação dos termos far-right e extreme-right, já que ambos são traduzidos como extrema-direita. Contudo, quando pensamos na diferenciação proposta por Mudde (2014), devemos ter em vista que “far-right” se refere a ideia de distância, referindo-se à uma posição no espectro político. Já o extreme refere-se a uma interpretação das práticas e agendas, consideradas extremistas.
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8
Aqui é importante destacar que há uma convocação para que o Estado atue combatendo as desigualdades atribuídas às políticas afirmativas e de redistribuição. Tais grupos posicionam-se enquanto injustiçados, pois interpretam as ações do Estado em termos interseccionais como coercitivas. Na pesquisa da autora (Besen, 2023), é possível encontrar as análises feitas sobre o discurso da promoção da justiça social enquanto coerção do Estado.
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9
Ao pesquisar, em 17 de fevereiro de 2025, trabalhos que tem no título “bolsonarismo”, na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (2002), foram encontrados 233 resultados. Ao expandir para os resumos, esse número cresce para 912.
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10
Parte destes clusters também foram identificados no processo de investigação realizado para o relatório do Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE) em relação aos grupos brasileiros ativos no interior do que eles denominaram de “far right” (Global Project..., 2024).
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Apesar de muitas pesquisas concentrarem e denominarem como “neopentecostalismo” (Mariano, 1995) a linhagem relacionada à ascensão das Direitas Radicais, isso tem sido questionado e ampliado, considerando que grupos Batistas, assim como as igrejas tradicionais pentecostais também têm influenciado, participado e disputado espaços na esfera pública, assim como cargos e funções no Estado.
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12
A “machosfera” é proposta como uma tradução de “manosphere”, conceito cunhado nos Estados Unidos para definir os grupos que giram em torno da “filosofia red pill”, envolvendo uma coletânea heterogênea que se reúne em torno do “movimento de direitos dos homens”. Oliveira Filho (2024) apresenta o red pill enquanto “uma forma de ver o mundo como decadente e opressor”, posicionando os homens “como vítimas do “progressismo”, “modernismo” e “feminismo”. Reagindo ao que é percebido como violência, a redpill utiliza-se do humor “troll” na busca do choque e em pequenas células de formação intelectual num resgate da “alta cultura” perdida” (Oliveira Filho, 2024, p. 9). Conforme Ging (2017), a “manosphere” envolve facções de masculinidades nerds, ou betas, e masculinidades conservadoras, ou alpha. Diferentemente dos grupos essencialmente antifeministas, os masculinistas privilegiam a participação de homens, promovendo o discurso acerca de um mútuo apoio e a promoção de “técnicas de desenvolvimento ou aperfeiçoamento pessoal”.
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As influências originais do Tradicionalismo são Julius Evola e René Guenón, contudo, no contexto dos grupos brasileiros, destacam-se Aleksander Dugin com a “Quarta Teoria Política” e Olavo de Carvalho com sua crítica ao “marxismo cultural”. Para entender mais sobre a influência do Tradicionalismo em grupos brasileiros, ver Vasconcelos (2021).
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados deste estudo foi publicado no artigo
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Declaração sobre Uso de Inteligência Artificial Generativa.
Para a conversão de parte das referências do padrão APA para ABNT foi utilizada assistência do modelo ChatGPT (OpenAI, versão GPT-5) em interação datada de 25 de setembro de 2025. A verificação, conferência e correção final das referências foram realizadas manualmente pela autora e editora.
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Editoras
Debora Rezende de AlmeidaRebecca Neaera Abers
Todo o conjunto de dados deste estudo foi publicado no artigo


Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da pesquisa, utilizando o software Lucidchart (Lucid Software Inc.) para representação gráfica das relações analíticas.