Open-access Cartografia dos saberes técnicos da Luta Marajoara

Cartography of the technical knowledge of Marajoara Wrestling

Cartografía de los saberes técnicos de la Lucha Marajoara

RESUMO

A pesquisa tem por objetivo mapear os saberes técnicos que permeiam a prática da Luta Marajoara em Cachoeira do Arari, município situado na Ilha de Marajó, Norte do Brasil. Ancorada em elementos da Etnometodologia, a pesquisa se sustenta em uma abordagem qualitativa. A reunião dos dados ocorreu mediante entrevista semiestruturada, caderno e diário de campo. A organização dos dados permitiu inferir que são múltiplos os saberes técnicos que permeiam a prática da Luta Marajoara em território cachoeirense: Pés-Casados, Calçada, Recalçada, Boi-Vaca, Carrega e Bate, Enfincada, Lambada e Espalhada. Um conjunto de saberes que reluz a identidade, a criatividade e a força do povo marajoara.

Palavras-chave:
Luta Marajoara; Saberes técnicos; Lutas brasileiras; Cachoeira do Arari

ABSTRACT

This research aims to outline the technical knowledge embedded in the practice of Marajoara Wrestling in Cachoeira do Arari, municipality located on Marajó Island, in Northern Brazil. Anchored in elements of Ethnomethodology, the study is based on a qualitative approach. Data collection was conducted through semi-structured interviews, notebooks, and field journals. The organization of the data revealed multiple technical skills inherent to the practice of Marajoara Wrestling in Cachoeira: Pés-Casados, Calçada, Recalçada, Boi-Vaca, Carrega e Bate, Enfincada, Lambada and Espalhada. This array of knowledge highlights the identity, creativity, and strength of Marajoara people.

Keywords:
Marajoara Wrestling; Technical knowledge; Brazilian martial arts; Cachoeira do Arari

RESUMEN

La investigación tiene como objetivo mapear los saberes técnicos que impregnan la práctica de la Lucha Marajoara en Cachoeira do Arari, municipio situado en la Isla de Marajó, en el norte de Brasil. Anclada en elementos de la etnometodología, la investigación se sustenta en un enfoque cualitativo. La recolección de datos se llevó a cabo mediante entrevistas semiestructuradas, cuaderno y diario de campo. La organización de los datos permitió inferir que son múltiples los saberes técnicos que impregnan la práctica de la Lucha Marajoara en el territorio de Cachoeira: Pés-Casados, Calçada, Recalçada, Boi-Vaca, Carrega e Bate, Enfincada, Lambada y Espalhada. Un conjunto de saberes que refleja la identidad, la creatividad y la fuerza del hombre y de la pueblo marajoara.

Palabras clave:
Lucha Marajoara; Saberes técnicos; Luchas brasileñas; Cachoeira do Arari

INTRODUÇÃO

O Brasil é um país de vivência e apreciação de diversas práticas corporais, o que inclui um incontável leque de lutas e artes marciais, sejam importadas ou de origem local. Em sua maioria, são lutas que fazem parte da tradição de povos originários e pouco abordadas na literatura acadêmica, como é o caso da luta tradicional RáRá, do povo Kanhgág, praticada na região Sul do país, da luta Tarracá, tradicional do Maranhão, estado do Nordeste brasileiro, da luta alto-xinguana kindene, mais conhecida como Huka-Huka, praticada por indígenas da região Centro-Oeste, e da luta secular da Ilha de Marajó, região Norte do país, a Luta Marajoara.

No caso particular da Luta Marajoara, pode-se dizer que esta é uma modalidade brasileira de luta permeada por um conjunto de saberes. Saberes construídos e reconstruídos pelos próprios marajoaras e repassados a si mesmos já faz mais de um século. Saberes que vem resistindo às transformações contemporâneas sem, todavia, deixar de se transformar. Saberes de um universo muitas vezes hermético àqueles que não são filhos de Marajó. Saberes não ocidentais que têm sido negligenciados e marginalizados em diversos setores sociais, resultado das máximas eurocêntricas da colonização. Saberes aprendidos e compartilhados nas festas de São Sebastião, nas fazendas e nas inúmeras outras “escolas” do povo (Andrade e Carvalho, 2025), tendo a oralidade como principal mediadora, mesmo com todo o arcabouço de tecnologias disponíveis.

No cenário atual, os saberes da Luta Marajoara são difundidos principalmente por meio de centros de treinamento dedicados a preparar lutadores para participarem de torneios e campeonatos organizados pela ilha. Tais eventos esportivos somados a gênese da Federação Paraense de Luta Marajoara têm contribuído para a condução da Luta Marajoara a um processo de esportivização (Santos et al., 2023a), transformação que suscita debates sobre a preservação das tradições culturais inerentes a prática desta luta, tendo em vista que pode, conforme os autores, desencadear o seu “envenenamento”, isto é, uma adulteração e/ou eliminação de sua forma tradicional e histórica.

Outro espaço de difusão dos saberes da Luta Marajoara tem sido o âmbito escolar, com autores como Lima et al. (2023), Campos e Antunes (2021), Santos et al. (2023b) que destacam o potencial pedagógico desta prática corporal mediante o componente curricular Educação Física. Nesse cenário, investigar os saberes da Luta Marajoara é uma tarefa indispensável atualmente, dada a busca por sua escolarização, isso para oferecer visibilidade e reconhecimento aos diversos aspectos que permeiam a sua prática.

Os saberes da Luta Marajoara, importa destacar, estão imbricados a aspectos técnicos, históricos, sociais e culturais, como aqueles relacionados aos seus marcos de desenvolvimento ao longo do tempo, aos lutadores ancestrais, aos contextos tradicionais de luta e aos símbolos, ações e termos da cultura marajoara associados à sua prática. Devido a essa complexidade, concentramo-nos, nesta pesquisa, nos saberes referentes às técnicas de combate. Saberes que juntos formam a coluna dorsal da Luta Marajoara.

Assim sendo, a pesquisa, recorte da Dissertação de Mestrado intitulada “Saberes e diversão, educação e devoção: a Luta Marajoara na Festividade do Glorioso São Sebastião de Cachoeira do Arari” (Andrade, 2024), desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Pará (PPGED/UEPA), tem por objetivo delinear os saberes técnicos que permeiam a prática da Luta Marajoara no contexto de Cachoeira do Arari, município situado na Ilha de Marajó, Norte do Brasil.

DELINEAMENTO METODOLÓGICO

Nesta pesquisa, adotou-se uma abordagem qualitativa que, por sua vez, permite compreender profunda e detalhadamente os fenômenos sociais e as experiências das pessoas, tendo em vista que trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores, das atitudes (Minayo, 2016) e dos saberes.

Como método, utilizaremos a Etnometodologia. Porém, ao adotá-la não se pretende seguir todos os seus direcionamentos e imposições, mas sim um dos princípios que melhor se adequa ao objetivo da pesquisa: a consideração do contexto social do objeto de estudo. Tal escolha se justifica pela necessidade de um caminho metodológico que garanta flexibilidade na análise, sem que isso implique na ausência de rigor.

Na Etnometodologia, considerar o contexto social é fundamental. Garfinkel (2018) argumenta que as pessoas são capazes de interpretar e dar sentido às suas ações por meio da utilização de um conjunto de práticas e conhecimentos que são compartilhados dentro de um contexto social específico. Desse modo, o contexto pode ter influências significativas na maneira como as pessoas interpretam e respondem às situações em que se encontram. Assim sendo, ao considerar o contexto e os elementos que o constituem, a Etnometodologia propicia a compreensão mais completa e precisa das práticas sociais que o integram. Nesses termos, ao adotá-la como método, não podemos investigar a Luta Marajoara como um fenômeno isolado, mas como uma luta praticada dentro de um contexto específico.

Para a reunião dos dados, a pesquisa serviu-se do caderno e diário de campo e da entrevista do tipo semiestruturada. Como caderno de campo, adotamos tanto o bloco de notas de smartphones quanto uma agenda. As informações reunidas e registradas no caderno foram passadas para o diário de campo, uma vez que este pode ser compreendido, de acordo com Leal (2016), como o lugar em que é passado a limpo a informação constante dos cadernos de campo, bem como o lugar no qual a informação fragmentária passa a ter algum tipo de sistematização e o lugar no qual a informação incompleta é completada. O caderno e o diário possibilitaram o registro de informações e detalhes acerca dos saberes técnicos da Luta Marajoara que não foram relatados nas entrevistas, mas se faziam presentes no contexto de prática da luta e em diálogos informais com os lutadores entrevistados.

Nas bases metodológicas das pesquisas de abordagem qualitativa, um instrumento para reunião de dados muito relevante e utilizado é a entrevista. Os diversos tipos existentes propiciam seguir caminhos diferentes para alcançar um objetivo. Para a presente pesquisa, nos servimos da entrevista do tipo semiestruturada, que se aplica a partir de um roteiro pré-estabelecido e, durante a sua aplicação, o entrevistador tem a possibilidade de formular outras perguntas, conforme as respostas do entrevistado (Marcondes et al., 2010).

O roteiro da entrevista foi elaborado em três tópicos distintos: 1) identificação, 2) Informações sobre a Luta Marajoara e 3) Festividade de São Sebastião, totalizando 15 perguntas abertas. No primeiro tópico, foram feitas perguntas de caráter identificatório (nome, idade e endereço). No segundo, as questões direcionaram-se à prática da Luta Marajoara (trajetória na luta, contextos de prática, saberes que permeiam e relação com outros lutadores). Por fim, no terceiro momento, por ser o objeto da dissertação da qual este artigo foi recortado, investigou-se a participação na Festividade do Glorioso São Sebastião, buscando compreender a relação dos participantes com a festa, sua vivência e os sentidos que atribuíam a prática da Luta Marajoara nesse contexto. A duração média das entrevistas foi de 30 minutos.

Os entrevistados são lutadores de Cachoeira do Arari, município situado no centro da microrregião dos campos da Ilha de Marajó, à margem do rio Arari, com uma população estimada em 24.355 pessoas e uma área de 3.100,261 km2, pertencente ao sistema costeiro-marinho e ao bioma da Amazônia, conforme dados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Delimitamos Cachoeira do Arari por ser o lócus de pesquisa da dissertação de mestrado da qual este artigo é resultante, cujo objeto de estudo é a Luta Marajoara praticada no contexto da Festividade do Glorioso São Sebastião realizada no município em questão.

Para encontrar os entrevistados, utilizou-se a técnica denominada bola de neve (snowball), que ocorre, segundo Vinuto (2014), quando recorre-se a informantes-chaves, nomeados como “sementes”, a fim de localizar pessoas com o perfil necessário para a pesquisa. As “sementes”, conforme o autor, ajudam o pesquisador a iniciar os seus contatos e a tatear o grupo a ser investigado. Em seguida, solicita-se que as pessoas indicadas pelas sementes forneçam novos contatos com as características desejadas e assim sucessivamente. Dessa forma, o quadro de amostragem pode crescer a cada entrevista até o objetivo da pesquisa ser alcançado ou até o quadro da amostragem tornar-se saturado. Essa técnica foi essencial para encontrar os lutadores dispostos a nos conceder entrevista.

É pertinente destacar que para chegar até os lutadores entrevistados a pesquisa nos exigiu o deslocamento até o município de Cachoeira do Arari. Durante uma das viagens, conhecemos o coordenador de um centro de treinamento de Luta Marajoara, que retornava do Rio de Janeiro, onde participou dos Jogos Escolares Brasileiros (JEB’s). Ao falarmos da pesquisa, ele prontamente se ofereceu para indicar alguns lutadores, tornando-se assim o primeiro informante-chave, a primeira “semente”. Foi ele que contribuiu para encontrarmos a maioria dos lutadores dispostos a nos conceder entrevistas. No total, tivemos a contribuição de duas “sementes”. É preciso pontuar que dos 15 lutadores indicados, cinco não puderam participar da pesquisa por não se encaixarem nos critérios apresentados a seguir.

Os critérios para participação na pesquisa foram: 1) Ter praticado Luta Marajoara por pelo menos três anos; 2) Residir em Cachoeira do Arari; 4) Ter idade superior a 18 anos. Com esses critérios, conseguimos entrevistar 10 lutadores, cujas informações podem ser vistas no Quadro 1.

Quadro 1
Lutadores entrevistados.

Em relação ao nome dos lutadores entrevistados, foi dada a oportunidade para a escolha de um pseudônimo para identificá-los na pesquisa e assim alguns fizeram. Porém, outros decidiram ser reconhecidos pelo seu verdadeiro nome. Vale destacar que um dos lutadores entrevistados optou por incluir o título de “mestre”, um título atribuído àqueles lutadores mais experientes que além de dominarem muitos saberes relacionados à luta, os ensinam.

Ressaltamos que os dados analisados neste artigo integram a dissertação de mestrado da autoria, a qual adotou a técnica de Análise de Conteúdo, conforme as orientações metodológicas de Cardoso et al. (2021), fundamentadas em três polos cronológicos: 1) pré-análise; 2) exploração do material; 3) tratamento dos resultados obtidos (inferência e interpretação). No processo analítico da dissertação, foram elaboradas categorias emergentes a partir dos dados reunidos, sendo que uma dessas estruturou a construção dos resultados deste artigo.

Em termos éticos, por se tratar de uma pesquisa que envolve seres humanos, fez-se necessário submetê-la a um Comitê de Ética na Plataforma Brasil, que a aprovou sob o parecer n° 6.152.403. Da mesma forma, foi preciso considerar alguns outros cuidados éticos, a começar pelo que sugere Marcondes et al. (2010), quando pontuam que os pesquisadores devem sempre informar a cada participante da sua pesquisa os objetivos, a metodologia e a forma de retorno dos resultados, bem como solicitar a assinatura de um indispensável documento: o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Assim, com o intuito de obter o consentimento em relação à participação na pesquisa, foi entregue aos lutadores entrevistados o TCLE.

SABERES TÉCNICOS DA LUTA MARAJOARA EM CACHOEIRA DO ARARI

Os golpes e regras são basilares nas lutas corporais. Cada modalidade possui seus próprios golpes, seja de ataque, contra-ataque, defesa, esquivas ou bloqueios. Em se tratando das regras, estas são as formas mais particulares das lutas, pois costumam variar de uma modalidade para outra, sendo muitas vezes relacionadas à área de combate, tempo de luta, critérios de vitória ou condutas. Em um combate de Luta Marajoara, travado em território cachoeirense, um conjunto de golpes e regras podem ser empregados, conforme veremos a seguir.

Pés-casados

Uma das principais regras para iniciar um combate de Luta Marajoara é a necessidade de “casar” os pés. Pés-Casados é uma expressão que se refere ao ato de aproximar os pés, de forma que toque na lateral do pé contrário do adversário. Para bem executá-la, os lutadores devem estar frente a frente e semi-agachados. A posição é utilizada tanto para iniciar, quanto para reiniciar a luta. Casar é um termo entendido pelo lutador marajoara como sinônimo de aproximar, juntar, unir. Inclusive a expressão “Pé Unido” é uma variação de Pés-Casados, evidenciaram Jesus e Assis (1997).

Em termos históricos, mas com carência de mais estudos, o lutador Augusto afirma que a posição foi criada por lutadores cachoeirenses e destaca sua incorporação por outras localidades da Ilha de Marajó, quando criado o “livro de regras” proposto pela Federação Paraense de Luta Marajoara (FPLM).

O pé-casado surgiu aqui (em Cachoeira do Arari). Desde que a gente se lembra e dentro do debate da federação, ele foi sugerido como de origem daqui de Cachoeira. Já foi definido dentro da federação que vai ser pé-casado em todas as lutas, só que a gente ainda não finalizou esse livro de regras, ainda vai ser debatido algumas coisas, mas a questão do pé-casado já foi debatida, então vai ser inserido, todos os municípios vão adotar o pé-casado. (Augusto, 2023)

A criação de um livro de regras está entre as propostas da FPLM para conduzir a Luta Marajoara a um processo de esportivização (Santos et al., 2023a). O intuito é alcançar uma universalização das técnicas da luta, isto é, que a Luta Marajoara seja praticada com o mesmo conjunto técnico nos eventos esportivos organizados pela entidade. A posição Pés-Casados, por exemplo, seria eleita de forma universal por todos os lutadores ao iniciarem um combate, independentemente de ser uma regra particular e de origem cachoeirense. Por esse motivo, concordamos com os mencionados autores quando alegam que ao deliberar tal interesse, faz-se necessário estabelecer diálogo não somente com a minoria que compõe a federação, mas também com os lutadores e demais indivíduos envolvidos com a luta, tanto para garantir legitimidade e credibilidade, como para encontrar consenso que assegure que a luta tradicional de Marajó não seja descaracterizada frente a esse processo.

Para além dos Pés-Casados, outra regra de igual importância na Luta Marajoara é a obrigatoriedade de sujar as costas do oponente no chão. As lutas que iniciam com agarre, geralmente, finalizam com a projeção e imobilização do adversário no solo (Casado, 1999), o que diferencia a finalização na Luta Marajoara da finalização de outras lutas é, justamente, a necessidade de sujar as costas do oponente. A imobilização não é tão relevante, pois sujar as costas é suficiente para garantir a vitória e a derrota completa.

Calçada

Concebida por Campos et al. (2019, p. 212) como “uma técnica de agarrar o oponente pela nuca, tórax ou membros superiores, bloquear (calçar) uma das pernas do adversário para projetá-lo ao solo”, a Calçada em Cachoeira do Arari, refere-se ao ato de segurar, controlar e elevar uma ou ambas as pernas do oponente, com o intuito de desequilibrá-lo e, subsequentemente, projetá-lo de costas no chão, conforme afirma o lutador Ademilton (2023): “Calçada é o ato de atacar uma perna ou as duas pernas do oponente, é o que a gente chama de ‘calçar’. A gente tem que levantar o oponente e jogar ele de costas no chão”.

A diferença entre a Calçada apresentada por Campos et al. (2019), que envolve membros superiores do corpo, e a relatada por lutadores cachoeirenses, restringida a região das pernas, existe devido às variações na prática da Luta Marajoara de um município para o outro. É o que explicam os lutadores entrevistados ao estabelecerem comparações entre os combates de Cachoeira do Arari e aqueles realizados nos municípios de Soure e Salvaterra:

Aqui, em Cachoeira do Arari, a gente luta embaixo, da cintura para baixo, a gente pega na perna, que é a calçada, para fazer a finalização no chão. Já o pessoal de Soure e Salvaterra luta mais em cima, a luta é mais ‘cinturada’, eles dão ‘lambada’, fazem questão de golpes da cintura para cima, entendeu? (Augusto, 2023)

Não se pega no meio, porque geralmente lá em Soure eles nem vão nas pernas, já vão no meio (do corpo), dar a ‘cinturada’. Aqui (em Cachoeira do Arari) é cintura para baixo. Se tu fores em cima os caras vão logo te ‘encarnar’1: ‘égua, tu és doido, que luta é essa? Tá ficando doido? É perna’. É isso, essa é a calçada, que inicia assim: ‘po, mano, bora fazer uma engatada, qual é a primeira? a minha ou a tua?’, ‘não, mano, a primeira é tua’. Então tu já sabes que o cara vai na tua perna e ele não fala mais nada, porque tem que tá ligado, entendeu? (Mestre César, 2023)

Nas arenas cachoeirenses de luta, a Calçada é um dos primeiros golpes aplicados, o que pode ser explicado pelo fato de muitos lutadores iniciarem os combates com uma postura semiagachada, que favorece a aplicação da técnica.

Recalçada

Classificada pelos próprios lutadores como um golpe de ataque, a Calçada pode não ser aplicada, o que depende da agilidade do oponente. Surge então a oportunidade de contra-ataque, aplicado com a mesma técnica da Calçada, dessa vez “em sentido oposto para defender e/ou projetar o oponente ao solo” (Campos et al., 2019, p. 212), o que os lutadores criativamente denominaram de Recalçada:

A recalçada é um contra-ataque, porque eu espero tu me atacar para eu me aproveitar do seu ataque e também te atacar. É quando o lutador vai calçar e o adversário se projeta mais embaixo do que ele. Eu vou tentar calçar, só que ele (o adversário) veio mais embaixo e me calçou primeiro, essa é a recalçada. (Ademilton, 2023)

A recalçada é quando eu vou te pegar e você vai mais embaixo, ou seja, se tu deres uma brecha para um lutador que for muito rápido e se tu fores um pouco em cima, ele te pega lá embaixo. Então ele tá te ‘recalçando’. Acontece muito isso em Santa Cruz (do Arari). Aqui o pessoal faz, mas já não é com tanta facilidade que aqueles caras de Santa Cruz têm. Os caras são bons, mano. Se tu vacilares, se tu deres uma brecha, eles vão lá e te pegam. (Mestre César, 2023)

A gente calça, mas o cara mais esperto ‘recalça’. A calçada é embaixo, aí quando o cara é vivido mesmo, é esperto, acostumado com a Luta Marajoara, ele ‘recalça’. Aí pega o cara e tomba. A recalçada é na perna, pega ele, ele monta aqui, o cara levanta e ele cai. Às vezes ele não tem nem mais condições de voltar para lutar. (José, 2023)

Enquanto a Calçada é frequentemente aplicada por lutadores cachoeirenses, o mesmo não se pode dizer da Recalçada, cuja aplicação é mais utilizada por lutadores do município de Santa Cruz do Arari, geralmente vaqueiros. Devido ao trabalho árduo no campo, que demanda destreza no manejo do gado, são lutadores que possuem a agilidade necessária para a execução da técnica.

Boi-vaca

Na Luta Marajoara, os saberes técnicos são designados a partir do imaginário, de ações, termos e símbolos marcantes da cultura marajoara. O Boi-Vaca, também denominado de Boi Laranjeira, foi assim nomeado a partir do entendimento de uma certa superioridade do boi perante a vaca. Isso porque o búfalo, na Luta Marajoara, representa ampliações da personalidade do lutador, pelo menos no lado masculino. Ser comparado a um búfalo significa ser “forte”, “bravo” e “corajoso”, já ser comparado a uma vaca, teria um sentido oposto. Isso justifica, relativamente, porque o Boi-Vaca é um golpe de humilhação para quem o recebe: “Para a gente é o boi que vira vaca, então é vergonhoso, ninguém quer pegar um boi-vaca” (Mestre César, 2023). Favorito entre os lutadores, o Boi-Vaca é também considerado um golpe de humilhação para quem o recebe por ser executado com a mão nos órgãos genitais do adversário:

Pega, mas pegando pelos ‘ovos’ (testículos) mesmo. ‘Amassa’ (pressiona) a cabeça e trás. Muita força. O peão não vai pegar perna, mano. Se tu fosses na questão do cuidado seria a perna, mas o peão já leva os teus ‘ovos’ com tudo, ou tu viras ou esmaga tudo, o peão é bruto. Tu vais dizer que o cara vai escolher parte (do corpo)? Não, o cara pega e dá-lhe e gira. O sistema é bruto, a Luta Marajoara é muito rústica. Você tá de quatro ali e o cara te vira ao contrário, já pensou? Então ninguém quer (ser golpeado com) o boi-vaca. (Mestre César, 2023)

Tem o boi-laranjeira que a gente fala. É quando tu tentas projetar o teu oponente quando ele se joga de barriga no chão. É uma oportunidade de virar ele de costas e colocar teu braço por baixo do braço dele, segurando na nuca, amassando a cabeça dele pra baixo e com a outra mão tu podes colocar entre as pernas dele e projetar ele de costas. Inclusive, é um golpe que tu humilhas o teu oponente, se tu pegares um boi-laranjeira na Luta Marajoara tu sai humilhado dali, é por isso que ninguém quer pegar o boi-laranjeira. Esse golpe também muda o nome por região, aqui a gente chama de boi-vaca, mas em outros lugares chamam de boi-laranjeira. (Ademilton, 2023)

Tem o boi-laranjeira. Tem uns que chamam de boi-vaca e outros de boi-laranjeira. Essa daí é uma das técnicas mais usadas na Luta Marajoara, nela tu puxas (o adversário) pelo pescoço e joga ele ao contrário, para sujar as costas. (Mario, 2023)

Olha, tem o boi-vaca que o pessoal gosta muito de dar. Eu gosto, mas nem toda vez o adversário deixa a gente fazer a luta fácil, o boi-vaca não é fácil, é difícil, mas quando tem uma chance, né?! (Elizionete, 2023)

Com base nos relatos, podemos dizer que o Boi-Vaca, também conhecido como Onze-Quedas (Jesus e Assis, 1997), é um golpe que ocorre quando o lutador domina o oponente, que geralmente está em posição de seis apoios (com as duas mãos, os dois joelhos e os dois pés no chão), com uma das mãos na região da nuca e a outra na região genital, e executa um movimento de rotação do corpo do adversário, que passa então de uma posição para a outra de forma controlada, resultando em sua projeção de costas no chão.

Além disso, os relatos ainda permitem enfatizar que o golpe Boi-Vaca evoca uma noção de masculinidade associada à prática da Luta Marajoara, bem como reafirma hierarquias simbólicas e significados compartilhados entre os praticantes.

Carrega e bate

Os saberes técnicos da Luta Marajoara também costumam ser designados a partir de referências óbvias, sendo que, por vezes, não precisam de explicação, outras a explicação não existe ou não foi possível encontrar. O Carrega e Bate é um golpe assim designado devido ao modo que é executado, não precisando de muitos esclarecimentos para entendê-lo: “Tem o Carrega e Bate que é carregar o cara e trazer ele (ao solo de costas)” (Mestre César, 2023).

Antes executado apenas dominando o oponente, levantando-o na altura dos ombros e jogando-o de costas no chão, o Carrega e Bate, segundo o Mestre César, foi proibido pelos lutadores organizadores das competições de Luta Marajoara. Para ser reconsiderado, precisou ser modificado. Agora ao ser aplicado é necessário conduzir, com total domínio do movimento, o adversário de volta ao solo preso nos braços, movimento chamado de Bater-Peiado.

Por conta de alguns acidentes que tiveram, uns caras que jogavam mesmo o adversário, carregava lá em cima e jogavam, foi proibido. Então, hoje em dia tu tem que carregar o cara e vir junto com ele, trazer ele para o chão. Aqui eles deram o nome de ‘bater peiado’, que é carregar e trazer ele (o adversário) junto, não podendo jogá-lo. (Mestre César, 2023)

As modificações e proibições de algumas técnicas em competições de Luta Marajoara tem ocorrido principalmente em função do potencial destas em causar lesões graves, que pode fazer com que a luta permaneça com graus de violência explícita indesejáveis. Neste momento, conforme Santos et al. (2024b), tradição e modernidade entram em tensão, uma vez que o processo de esportivização da Luta Marajoara passará necessariamente pela constante regulamentação e delimitação das ações corporais condizentes com o nível de sensibilidade à violência dos espectadores dos confrontos, ao mesmo tempo em que buscará manter um elevado grau de excitação necessária para que as disputas se tornem atrativas para o grande público e desafiadoras para os atletas. Esse é, em consonância com os referidos autores, um dos grandes dilemas do processo de esportivização das lutas.

Enfincada

O marajoara, especialmente o vaqueiro, tem um vocabulário muito particular: “O modo deles (vaqueiros) falarem é diferente. Quando eu fui crescendo eu já fui escutando esse tipo de palavreado” (Ademilton, 2023). Quem não é filho do Marajó, dificilmente entende de imediato alguns termos. Para nomeação dos saberes técnicos da Luta Marajoara, os lutadores parecem ter incorporado esse léxico de maneira significativa.

O golpe Enfincada, por exemplo, também denominado de “Infincada” e “Fincada”, foi assim batizado devido a semelhança com o ato de “enfincar” (cravar) uma estaca de madeira no solo, ação recorrente na construção de cercas nas fazendas, isso porque esse golpe, que pode vir a ser fatal, acontece, grosso modo, quando o adversário é carregado e em seguida jogado de cabeça no chão. Campos et al. (2019) ainda ressaltam a necessidade de domínio total do tronco e dos braços do oponente para execução desta técnica.

A nossa fala raíz mesmo é ‘infincada’, não é nem ‘enfincada’, é ‘infincada’. A enfincada é o seguinte: quando o pessoal que trabalha na fazenda vai fazer a cerca, aí faz a ponta do esteio, a gente fala ‘infincar o esteio’, a gente não fala ‘a gente vai enterrar’. Pega o esteio e ‘tchan’, de ponta, né. Aí na infincada eu peguei o meu oponente, nas duas pernas, eu o levanto e jogo ele de cabeça no chão. Essa que é a enfincada. É por isso que a enfincada foi tirada quando virou esporte, ela é muito perigosa, porque tem risco de quebrar o pescoço do oponente, entendeu? (Ademilton, 2023)

A enficanda é mais ou menos quando tu pegas o cara e joga, só que ele vai de cabeça. Também foi proibida, é pescoço. Essa daí eu até concordo que é perigosa. Já pensou pegar o cara e jogar ele de ponta cabeça? É a mais perigosa que tem. Aí sim, eu sei que é um golpe traumático. Como é que tu vais te defender se tu tá no alto e tu vens de ponta cabeça? (Mestre César, 2023)

A Enfincada é uma técnica dificilmente vista sendo aplicada em Cachoeira do Arari, o que decorre da sua proibição em torneios e campeonatos locais, realidade que tem contribuído para apagá-la do repertório da nova geração de lutadores, seja por estes conhecerem a Luta Marajoara somente a partir de eventos esportivos ou por medo de lesionar o oponente.

Interessa destacar a preocupação de alguns lutadores com a proibição de saberes técnicos tradicionais, o que sugere tensões entre os seus agentes que, por um lado, objetivam retomar e reafirmar os valores tradicionais e históricos da luta e, por outro, buscam desenvolvê-la nos moldes do esporte moderno, como bem resumido por Santos et al. (2024b).

Lambada

A Luta Marajoara é, indubitavelmente, carente de mais pesquisas e não somente na área da Educação Física, nas diversas áreas, como forma de abranger a complexidade de sua prática. Pesquisas que contemplem suas dimensões de linguagem, educação, esporte, políticas públicas, saúde, tradição e história, cultura e identidade, técnica e estética, são urgentes e necessárias (Santos et al., 2024a).

O cenário atual de pesquisas não tem sido suficiente para mapear e analisar todos os saberes técnicos da Luta Marajoara, tampouco para entender o significado e origem de cada termo que os batiza. Essa é uma tarefa complexa, que exige mais tempo em campo, novas questões de pesquisa, sobretudo mais relatos de lutadores, de preferência de localidades diferentes da Ilha de Marajó. O golpe “Lambada”, por exemplo, aparece no relato de lutadores de Cachoeira do Arari, porém, a sua origem, incluindo o motivo pelo qual os lutadores escolheram tal denominação, permanece um mistério na literatura acadêmica.

A Lambada é uma técnica que muitos dos lutadores entrevistados, ainda que muito experientes, desconhecem, e os poucos que a descrevem nos permitem dizer que esta ocorre a partir de uma projeção lateral do oponente ao solo: “é quando o lutador vai fazer a entrada, aí ele pega e joga para o lado o oponente” (Augusto, 2023).

O que eu entendo por lambada é quando o oponente pega por entre os braços dele e (inaudível) com a cabeça para baixo, que a gente chama de ‘traço de asa’, e tenta jogar ele para o lado. Traço de asa é quando tu vens na minha perna e eu meto meu braço por dentro dos teus braços, subindo nas tuas costas. Aí o que eu faço? Eu vou ‘lambar’ o cara para tentar jogar ele de costas. Eu ‘lambo’ o cara. (Ademilton, 2023)

Campos et al. (2019, p. 212) parecem ter resumido bem como ocorre a aplicação da Lambada: “é uma técnica de agarrar o oponente pela nuca, tórax ou membros superiores e projetá-lo ao solo lateralmente”.

Entretanto, faz-se necessário ressaltar a importância de aprofundar as análises em torno dos aspectos culturais específicos que influenciam cada golpe e regra da Luta Marajoara, isso para desvelar as variações de tais saberes técnicos de uma comunidade de lutadores para a outra e para entendermos o que de fato pertence a esta luta tradicional e o que não pertence.

Espalhada

Na linguagem do lutador marajoara, espalhar é um termo utilizado quando alguém estende os braços ou as pernas durante a luta: “Abriu o braço ou a perna, a gente chama de espalhar” (Ademilton, 2023). Nessa lógica, chamam de Espalhada, a técnica de defesa que ocorre quando o lutador, na tentativa de evitar ser golpeado, joga as pernas para trás, estendendo-as: “A espalhada é quando tu pegas o teu oponente e tenta jogar ele de costas e ele dá o jeito de cair de barriga no chão, então ele se espalhou no chão” (Ademilton, 2023). Na tentativa de evitar serem “calçados”, muitos lutadores cachoeirenses recorrem a esse movimento defensivo.

Ao definir a Espalhada, o lutador Augusto (2023) admite a sua semelhança com o Sprawl, uma técnica recorrente em outras modalidades de luta corporal: “Espalhada é quando o atleta faz a entrada no seu oponente (a Calçada) e ele projeta o próprio corpo para trás, não deixando ser golpeado na perna. A espalhada o nome na Luta Olímpica é sprawl”.

De forma harmônica ao relato, Campos et al. (2019, p. 212) definem a Espalhada da seguinte forma: “é um ato de defesa, especialmente para a técnica de cabeçada, onde o oponente projeta as penas para trás a fim de não permitir que o adversário o agarre”. O lutador Ademilton, por sua vez, faz questão de enfatizar, a partir das suas experiências com outras modalidades de luta (e considerando ainda sua vivência como filho de vaqueiro), que o Sprawl não é uma técnica da Luta Marajoara:

Sprawl não é da Luta Marajoara, eu falo porque eu venho do MMA. A gente se joga com as pernas para trás, para ele (o adversário) não pegar. E quando eu volto, eu venho calçando ele, porque quando ele se projeta para pegar a minha perna e eu me jogo, automaticamente ele vai ficar de barriga no chão e depois ele vai tentar logo se levantar e eu já espero essa levantada dele para atacar as pernas dele. Isso é a recalçada. (Ademilton, 2023)

As transformações ocorridas na Luta Marajoara ao longo de sua história possibilitaram a construção e reconstrução do seu atual repertório de saberes técnicos, bem como contribuíram para as suas variações e para a inserção de técnicas provenientes de outras lutas, resultado do envolvimento de lutadores com outras modalidades: “A gente tá tendo um conflito muito grande, porque o Wrestling invadiu o Marajó e eles estão colocando o Wrestling na Luta Marajoara” (Ademilton, 2023). Seria então a Espalhada uma técnica inspirada no Sprawl? Ou simplesmente uma técnica de outra luta inserida na Luta Marajoara e disfarçada com um termo da cultura marajoara? Somente outras pesquisas podem responder tais questionamentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em vista o exposto ao longo dos resultados da pesquisa, concluímos que são múltiplos os saberes técnicos que permeiam a prática da Luta Marajoara no território de Cachoeira do Arari. Pés-Casados, Lambada, Calçada, Recalçada, Boi-Vaca, Carrega e Bate, Enfincada, Lambada e Espalhada, representam apenas alguns de um amplo universo técnico que tem se expandido e se transformado com o passar do tempo e em diferentes localidades da Ilha de Marajó, seja a nível de nomenclatura ou na forma como são executados. Bainada ou Baiana, Passada ou Passagem, Recolhida, Cinturada e Cabeçada são exemplos de outros saberes técnicos, não descritos nesta pesquisa, pertencentes a Luta Marajoara e recorrentes em outros municípios da Ilha de Marajó, como Soure e Salvaterra. Um conjunto de saberes que reluz a identidade, a criatividade e a força do povo marajoara.

Novas pesquisas são bem-vindas para abordar o treinamento, a linguagem, a estética, o corpo e as habilidades daqueles que praticam os saberes técnicos da Luta Marajoara. É preciso dar reconhecimento e visibilidade na literatura a esses conhecimentos, que são em sua maioria de alta complexidade, isso para valorizar e pôr em evidência esta luta nortista-brasileira e, consequentemente, a cultura do povo da Ilha de Marajó, muitas vezes esquecida e marginalizada no âmbito das instituições de ensino do país.

  • 1
    Zombar ou tirar sarro de outra pessoa.
  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 88887.828959/2023-00.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados não estão disponíveis publicamente.

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Editado por

  • Editores(as) responsáveis:
    Editor Executivo: Pedro Otavio Pimpim Bezerra
    Editor Chefe: Christiane Macedo
    Editor Associado: Fernando Cavalcante
    Editor Final: Ari Lazzarotti Filho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Nov 2024
  • Aceito
    09 Fev 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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