RESUMO
Neste ensaio, problematizo a construção do conceito de práticas corporais no campo da Educação Física em interface com a saúde a partir da filosofia da diferença, assumindo a Educação Física como plano de consistência. Demarco a proposição filosófico-epistemológica de Deleuze e Guattari e traço suas características centrais que permitem pensar o papel da filosofia na proposição de conceitos. No curso dos argumentos, apresento composições desta perspectiva, tais como rizoma, literatura menor, máquina abstrata e agenciamentos, na intenção de articular as práticas corporais nesses registros. Ao fim, teço considerações sobre os argumentos propostos e advogo que as práticas corporais constituem-se como uma “máquina de guerra” no planômeno da Educação Física em interface com o campo da saúde.
Palavras-chave:
Formação de conceito; Práticas corporais; Filosofia da diferença; Conhecimento; Saúde
ABSTRACT
In this essay, I problematize the construction of the concept of bodily practices in the field of Physical Education in relation to health from the philosophy of difference, assuming Physical Education as consistence plane. I delineate the philosophical propositions of Deleuze and Guattari and their central characteristics that allow us to think about the role of philosophy in the proposition of concepts. Throughout, I present compositions from this perspective, such as rhizome, minor literature, abstract machine, and agencies, with the intention of articulating bodily practices within these frameworks. In the end, I advocate that bodily practices constitute a 'war machine' in the plane of Physical Education in interface with the field of health.
Keywords:
Concept formation; Bodily practices; Philosophy of difference; Knowledge; Health
RESUMEN
En este ensayo problematizo la construcción del concepto de prácticas corporales en el campo de la Educación Física en interfaz con la salud desde la filosofía de la diferencia, asumiendo la Educación Física como un plano de consistencia. Esbozo la propuesta filosófica de Deleuze y Guattari y esbozo sus características centrales que permiten pensar el papel de la filosofía en la propuesta de conceptos. En el transcurso de los argumentos, presento composiciones como rizoma, literatura menor, máquina abstracta y ensamblajes, con la intención de articular prácticas corporales en estos registros. Al final, sostengo que las prácticas corporales constituyen una “máquina de guerra” en el ámbito de la Educación Física en interfaz con el campo de la salud.
Palabras clave:
Formación de conceptos; Prácticas corporales; Filosofía de la diferencia; Conocimiento; Salud
INTRODUÇÃO
Escrever nada tem a ver com significar, mas com agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir (Deleuze e Guattari, 2000).
Filosofia da diferença é uma denominação para designar as proposições de diversos pensadores, entre eles os franceses Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992). É possível, ainda, colocar na esteira desta corrente filosófica as produções de Jacques Derrida, Jacques Rancière, Michel Foucault e Jean-Fraçois Lyotard, por exemplo1. Por filosofia da diferença, podemos indicar uma maneira de pensar que refuta a possibilidade de se exercer uma representação real e verdadeira do mundo, assim como ter na linguagem o instrumento privilegiado para tal intento e, em especial, descarta a ideia do Uno em favor da multiplicidade. Trata-se de um certo ataque às diferentes correntes filosóficas forjadas na Modernidade, sobretudo àquelas que têm em comum a consciência como lócus pelo qual se pode conhecer o mundo e a si mesmo, e a representação como estratégia de compreensão e produção do real.
Deleuze e Guattari assinalam uma crítica às epistemologias modernas2, a seus modos de produção de conhecimento pivotantes, contínuos e retos, que desconsideram processos múltiplos e de diferenciação de outros modos de compreensão. Para os autores, a “maior parte dos métodos modernos para fazer proliferar séries ou para fazer crescer uma multiplicidade se valem perfeitamente numa direção, por exemplo, linear [...]” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 13).
A proposta filosófica dos referidos pensadores se apoia num entendimento da diferença em si mesma, e não como oposição a alguma outra coisa primeira. Deleuze (2024) já havia desenvolvido isso na obra Diferença e Repetição, propondo uma filosofia da diferença que não fosse, conforme inúmeros registros filosóficos na história3, uma diferença em relação a algo, a uma identidade (seja essência, representação ou conceito). Nas palavras do autor, “confunde-se o estabelecimento de um conceito próprio da diferença com a inscrição da diferença no conceito em geral, confunde-se a determinação do conceito de diferença com a inscrição da diferença na identidade de um conceito indeterminado” (Deleuze, 2024, p. 58).
Assim, a diferença é um principiar por um novo; é instaurar um inaudito; é uma “diferença pura”. Isso sugere que a diferença não opera como um diferenciador de algo (já posto), mas, sim, é ela mesma um acontecimento. A diferença não é o oposto de uma identidade, não opera por jogos de semelhanças e tampouco por analogias; caso contrário, desse modo, “a diferença fica sendo apenas um predicado na compreensão do conceito” (Deleuze, 2024, p. 58).
É justamente sobre a noção de conceito que ensaio neste texto. Mais precisamente, o conceito de práticas corporais no campo da Educação Física em interface com a saúde, tomando a Educação Física como plano de consistência4 para elaborar as considerações aqui apresentadas. A primeira observação a ser destacada é que, a partir das proposições da filosofia da diferença de Deleuze e Guattari, a noção de conceito tal como operamos na modernidade, seja na filosofia ou na ciência, é refutada, na medida em que sempre busca uma univocidade (enquanto essência ou processo de diferenciação que constrói identidades a partir de oposições). Desse modo, a partir da consulta de algumas obras produzidas por esses autores (Deleuze, 2008, 2024; Deleuze e Guattari, 2000, 2023, 2024), faço um exercício de pensamento em relação ao conceito de práticas corporais. Cabe destacar que tal movimento já fora realizado anteriormente a partir de um conjunto mais amplo de argumentos assentados no pós-estruturalismo (Manske, 2022) e que, agora, os resgato (repetição) para colocá-los em outro arranjo teórico (diferença), o que faz com que a repetição operacionalizada seja um movimento da diferença.
Este movimento da diferença, que principia a criar conceitos, opera na distinção da assunção do duplo, conforme acima aludido. Ao se opor à univocidade, que busca uma definição última, também não requer seu oposto. Ou seja, a multiplicidade não pode ser meramente o oposto do primado, pois daí sempre estaria a derivar de uma fonte original, de uma raiz (Deleuze e Guattari, 2000). A multiplicidade é uma ocorrência de aberturas e velocidades infinitas e permanentes e, por isso mesmo, não há um fato primeiro em que todo o resto se multiplique a partir deste. Por isso, a ideia de duplo enquanto efeito “um do outro linear” e espelhado, nesta perspectiva, é rejeitada, pois o duplo, como foi presumido pela diferença ao longo da filosofia (conforme nota de rodapé 2), seria sempre o outro de um primeiro. É nisso que operam as categorias binárias, por exemplo.
As práticas corporais, enquanto conceito no campo da saúde, situam-se justamente nesse registro, na medida em que muitas vezes têm sido operacionalizadas como oposição à atividade física. O que está em pauta nesse tipo de argumentação é que, em linhas gerais, as práticas corporais são entendidas como aquelas que incluem elementos socioculturais em detrimento de vieses somente biologicistas; incorporam significados coletivos e atentam às discursividades que constituem o movimento/movimentar-se humano; criam possibilidades que ampliam a compreensão do corpo e do movimento para além de reducionismos biológicos, calcados, sobretudo, nas ciências naturais.
Essa concepção de práticas corporais, antagônica à atividade física (AF), opera num binarismo; é um jogo do duplo da identidade. Buscar tornar práticas corporais como conceito nesse esquema teórico-epistemológico não opera com o jogo da diferenciação proposto inicialmente por Deleuze e adensado junto com Guattari, pois, pelo contrário, essa ação do pensamento reafirmaria a noção da diferença como algo “meramente diferente de um outro, de uma identidade” e, assim, no limite, reforçaria esse algo inicial. Em suma, a busca por uma identidade a partir da diferença de um primado acaba por reforçar a existência desse primado.
Não é o caso da proposta filosófica desses pensadores, tampouco da minha proposição neste texto. Procuro construir práticas corporais como um conceito desde sua potência de devir; um conceito como a própria coisa, “em estado livre e selvagem” (Deleuze, 2024, p. 15), sem seu primado identitário5. Assim, é necessário pensarmos para as práticas corporais outra possibilidade conceitual, que não resida no duplo-binário, mas num enlace de multiplicidades.
Merece friso que tal movimento em torno da conceituação das práticas corporais tem sido constante no debate acadêmico recente, sobretudo no campo da Educação Física, tendo uma série de argumentos favoráveis e contraditórios à elaboração desse termo enquanto um conceito válido para o campo. Fraga (2022), por exemplo, analisa um “negacionismo endógeno” no campo e discute o modo como a noção de práticas corporais tem sido alvo de debates e ataques por setores/subáreas da Educação Física, mesmo que não fundamentados em revisão de literatura consistente.
Também cabe a ressalva de que outros estudos já fizeram articulações da Educação Física com a proposição filosófica aqui empreendida, seja em discussões com o campo da saúde ou da educação, tais como os materiais de Nunes e Neira (2017), Correia e Almeida (2020) e Lopes e Vieira (2024), por exemplo. Tais registros evidenciam que problematizações na Educação Física junto à filosofia da diferença têm sido cada vez mais recorrentes.
Nunes e Neira (2017), por exemplo, examinam princípios e procedimentos didáticos na proposição do currículo como uma "educação menor", e priorizam a escuta e o repertório cultural dos estudantes afirmando uma pedagogia da diferença no contexto plural da escola contemporânea. Já Correia e Almeida (2020) estabelecem uma reflexão sobre a capacidade do corpo a partir da perspectiva filosófica de Spinoza, Deleuze e Guattari. No texto, problematizam como as práticas corporais podem provocar os limites da potência humana através de um circuito de afetos, e sugerem que a prática pedagógica deve se distanciar de modelos prescritivos para focar na expansão da potência de agir dos alunos. Por seu turno, Lopes e Vieira (2024) abordam as "práticas corporais territoriais" como objeto de estudo, utilizando os conceitos de ritmo e ritornelo de Deleuze e Guattari. Ao discutir as práticas corporais territoriais, problematizam agenciamentos normativos ou microfascistas no cotidiano escolar.
Estes estudos dialogam e convergem ao propor reflexões sobre a Educação Física a partir da filosofia da diferença, sobretudo, em questionamentos acerca de modelos prescritivos e normativos sobre os sujeitos. Em aproximação com o escopo de discussão deste texto, os estudos elencados se articulam com a proposição das práticas corporais como dispositivos ético-políticos em disputas de agenciamentos sobre o viver.
É no curso destas considerações iniciais que procuro investir novamente no conceito de práticas corporais no campo da Educação Física em interface com a saúde, desta vez não mais indicando que estas podem ou não ser entendidas como conceitos de acordo com a perspectiva epistemológica adotada, mas, sim, fazendo uma incursão que permite afirmar que sejam tomadas como conceito. Para tanto, é preciso primeiro exprimir o modo pelo qual a filosofia da diferença de Deleuze e Guattari permite assim fazê-lo.
PRÁTICAS CORPORAIS NA SAÚDE: ENTRE CIÊNCIA, FILOSOFIA E ARTE
Um conceito é cheio de força crítica, política e de liberdade (Deleuze, 2008, p. 46).
Deleuze e Guattari (2023), na obra O que é filosofia?, diferenciam três modos de pensamento ou, em suas palavras, “disciplinas”. Para os autores, “a filosofia, a ciência e a arte querem que rasguemos o firmamento e que mergulhemos no caos. Só o venceremos a este preço” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 238). Para eles, essa tripla abordagem de pensamento é como planos que cortam o caos (o mundo, a vida e a existência são caóticos, por exemplo), agenciando-o e tornando-o compreensível, não em função de atender a uma lógica explicativa, mas como um lugar próprio e singular de pensamento e existência.
Partindo desse entendimento, implica problematizar como a ciência, a arte e a filosofia se relacionam com o caos, cada uma à sua maneira. À ciência cabe construir proposições e funções no caos; à arte, promover perceptos e afectos; à filosofia, compete a consistência do corte na busca da criação de conceitos. Assim, esses três modos de pensamento são práticas de acoplamento dos elementos que compõem esse caos, em suas infinitas e multidirecionais velocidades, a partir de investimentos em suas possibilidades. Vejamos melhor, uma a uma, suas possibilidades e intenções de cortar e compor o caos relacionado às práticas corporais.
Comecemos, então, pela arte. A arte “é a linguagem das sensações que faz entrar nas palavras, nas cores, nos sons ou nas pedras” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 208). A arte, portanto, é uma linguagem que adentra as coisas por sensações, mas não termina nisso. Não reside permanentemente nas sensações, embora não prescinda delas. A arte “desfaz a tríplice organização das percepções, afecções e opiniões, que substitui por um monumento composto de perceptos, de afectos e de blocos de sensações que fazem as vezes de linguagem” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 208). Conforme os autores, a arte transborda dos afetos e das percepções e se mantém em perceptos e afectos. Isso quer dizer que não é em relação ao que ela promove de sensação ou afetação que a arte se constitui. Mas, mesmo embora passe por isso como linguagem, é justamente naquilo que a arte pode tornar permanente que ela se caracteriza. A arte é “independente do criador, pela autoposição do criado, que se conserva em si. O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é, um composto de perceptos e afectos” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 193). A obra de arte existe em si mesma, naquilo que criou e foi criada.
Práticas corporais como arte? Difícil afirmação. Para Deleuze e Guattari, a arte tem uma materialidade permanente. Pode permanecer no tempo. Deve se conservar. Já as práticas corporais são acontecimentos. Parecem estar em outro registro, mesmo que possam ser traduzidas como arte em uma música, numa pintura, em esculturas, tal como Discóbulo. Em Discóbulo, o atleta não é uma obra de arte, o artista (Míron) também não; a escultura, sim. Desse modo, essa escultura é arte na medida em que se conserva no tempo (materialmente e simbolicamente) e nela há elementos que transcendem o atleta: são traços de afectos (a materialidade da estátua) e de perceptos (o movimento do atleta traduzido, por exemplo). Representa inúmeros traços; conserva-se como registro do humano (enquanto espécie e enquanto expressão de uma época); diz-nos tanto ao ponto que nos escapa. É indizível plenamente; é, ao mesmo tempo, plena em si mesma, mas impossível de ser totalmente abarcada. É um conjunto de afectos e perceptos que operam pela sensação e pela percepção enquanto linguagem.
No curso da discussão das três disciplinas indicadas por Deleuze e Guattari (2023) como modos de pensamento sobre o caos, valemo-nos agora da ciência. A ciência, por sua vez, opera no caos construindo funções e prospecções. É aqui que a maioria das discussões sobre práticas corporais como conceito se aloja, a saber, em proposições científicas.
Cabe destaque que, para Deleuze e Guattari (2023, p. 139), ao considerarem do que trata a ciência, esta “não tem por objeto conceitos, mas funções que se apresentam como proposições nos sistemas discursivos. Os elementos das funções se chamam functivos. Uma noção científica é determinada não por conceitos, mas por funções ou proposições”. Nesse registro, não se trata de negar o modo de produção de conhecimento da ciência, e tampouco de desvalorizá-lo, mas, sim, de alocá-lo num lugar singular de produção de conhecimento, que tem suas especificidades.
Para os autores, a ciência se aloja especialmente em características de função (functivos), pois tem como tarefa estabelecer um conhecimento e comunicá-lo. É uma função, pois tem como intenção atribuir finalidades ao que produz acerca do mundo, a partir de seus saberes. É uma proposição porque se vale da lógica para o exercício da função. Em suma, a ciência se caracteriza por fazer uso da lógica a fim de desenvolver funcionalidades para o mundo. A ciência se ocupa de objetos, a fim de traduzi-los (a partir da lógica) em funções.
Tais tarefas, finalidades e características da ciência não são da ordem dos conceitos, mas de funções e proposições (lógicas). “É a confusão do conceito com a proposição que faz acreditar na existência de conceitos científicos, e que considera a proposição como uma verdadeira ‘intensão’” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 30, destaque do original). A ciência busca uma ordenação lógica do caos. Precisa tocá-lo, aprisioná-lo, retê-lo. Urge estabilizá-lo para, enfim, poder atribuir-lhe uma função específica (e, esperançosamente, derradeira).
Aqui, por exemplo, reside a “intensão” de uma “bioEducaçãoFísica” (Mendes e Carvalho, 2015, p. 604), que se manifesta na tentativa de organizar um universal para o campo a partir das funções e proposições baseadas nas ciências lógicas. A ciência busca funções e proposições universais. Aliás, “a ciência não tem nenhuma necessidade da filosofia para essas tarefas” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 139). No entanto, cabe à filosofia a tarefa de criar conceitos.
É incumbência da filosofia traçar consistência no caos em virtude do plano que busca ocupar. Diferentemente da ciência (que busca funções e proposições no caos) ou da arte (que tem relação de afectos e perceptos), a filosofia busca esvanecer as velocidades do caos de modo singular e contingente, exercendo compacidade entre elas. Na filosofia, criam-se conceitos “em função dos problemas que se consideram malvistos ou mal colocados (pedagogia do conceito)” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 43). E é sobre esse aspecto, uma “pedagogia do conceito”, que práticas corporais se inserem, de modo que me parece ainda um problema a ser colocado.
Os conceitos são espaços de vibração, são “totalidades fragmentárias”. O conceito “consiste, por sua própria criação, em erigir um acontecimento que sobrevoe todo o vivido, bem como qualquer estado de coisas. Cada conceito corta o acontecimento, o recorta à sua maneira” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 43). É nesse registro de entendimento que práticas corporais podem ser colocadas como conceito, na medida em que, justamente porque não se pretende um universal, mas, sim, uma série de ocorrências acerca de um conjunto de práticas e ideias – mais ou menos disperso e fragmentado – que não reside de forma permanente, mas atravessa, corta, um plano de possibilidades sobre algo, neste caso, corpos e movimentos no plano de consistência da Educação Física. É justamente sua não universalidade que lhe permite ser um conceito. É precisamente ser um acontecimento (variável, impreciso, imanente) que lhe impulsiona enquanto conceito.
Tendo tomado como argumento as distinções entre filosofia, ciência e arte a partir de Deleuze e Guattari (2023) e tensionado as práticas corporais a partir desses registros, é que as tomo como conceito a partir da proposta filosófica dos autores referenciados. No curso seguinte do texto, aprofundo essa elaboração conceitual a partir de outros princípios filosóficos por eles apontados, presentes de modo heterogêneo e dispersos enquanto platôs em suas diferentes obras, quais sejam: rizoma, máquina abstrata e máquina de guerra, agenciamentos, literatura menor e plano de imanência.
PRÁTICAS CORPORAIS COMO RIZOMAS
Deleuze e Guattari, após uma breve introdução acerca da obra Mil Platôs e do modo como esta foi gestada e escrita enquanto conjunto de platôs e possibilidades de rizomas, parecem ver a necessidade de construir pistas sobre seus escritos aos leitores, pois, segundo eles, “sentimos que não convenceremos ninguém se não enumerarmos certas características aproximativas do rizoma” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 14). Assim, apresentam, descrevem e ensaiam sobre componentes dos rizomas, quais sejam: conexão e heterogeneidade, multiplicidade, cartografia e decalcomania.
Por conexão, os autores referem-se às possibilidades de encontros e agenciamentos dos componentes de um rizoma com qualquer outro que o possa constituir. Cada traço de um rizoma não remete, ordeiramente e necessariamente, a um traço formal e final. Assim, por exemplo, as práticas corporais não podem, enquanto rizomas, ser finalmente encerradas num signo ou significante derradeiro. As práticas corporais, interpretadas enquanto rizomas e, portanto, sem a característica pivotante de uma raiz, mas, sim, enquanto inúmeros traços semióticos, linguísticos e empíricos, têm conexão com outras tantas possibilidades de significação, e aí está, de fato, sua potência enquanto agenciamento abstrato e não maquínico. Como abordam Deleuze e Guattari (2000, p. 14), na constituição de rizomas, há “cadeias semióticas de toda natureza [que] são aí conectadas a modos de codificação muito diversos, cadeias biológicas, políticas, econômicas, etc., colocando em jogo não somente regimes de signos diferentes, mas também estatutos de estados de coisas”. É justamente sobre essas cadeias de significação de toda ordem que intentam encurralar empirias e experiências num único significado que lutas pela significação devem ocorrer. É precisamente na operação de “rizomatizar”, ao invés de enraizar, que a filosofia da diferença busca atuar. No movimento teórico aqui proposto, há uma opção por valorizar as práticas corporais como rizomas, abertos e infinitamente conectáveis, em detrimento de uma possibilidade unívoca (e vã) de conexão entre significante, signo e significado.
Assim, “um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 15). É por isso que são abundantes as relações que se estabelecem entre as práticas corporais com as artes, com as ciências – vide a simplificação de alocá-las numa noção universal como a de atividade física – e com as lutas sociais. Cabe aqui menção ao movimento político que se tem feito em torno das políticas públicas e dos direcionamentos acadêmico-científicos por diferentes órgãos e em diferentes instâncias, tais como o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE)6. Tais movimentos compõem os diferentes traços do rizoma práticas corporais.
Não obstante, é justamente por causa da heterogeneidade do rizoma que ocorrem essas múltiplas conexões. A heterogeneidade, segundo princípio, está intimamente relacionada à conexão. As conexões ocorrem justamente pelos traços heterogêneos que constituem os rizomas. E assim, “como desdobramento destas múltiplas conexões, não existe língua em si, nem universalidade da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias, de línguas especiais” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 15). É aqui, nesse emaranhado babilônico da linguagem, que as práticas corporais se inserem, constituem-se, interagem, apoiam-se e conectam-se para, em seguida, desconectarem-se. Aqui, as práticas corporais podem e devem ter inúmeros significados, e não ficar presas a uma única referência. Interessa mais do que “o que definitivamente são?” saber “como são e o que mais podem ser”.
O princípio da multiplicidade, terceiro elencado por Deleuze e Guattari (2000), articula-se à conexão e à heterogeneidade. Como descrito no início desta seção, os autores fizeram tais nomeações e distinções para melhor orientar a compreensão de seus leitores. De fato, não há nenhuma sequencialidade ou pré-requisitos entre esses elementos para o entendimento do que é um rizoma. No caso da multiplicidade, talvez a melhor pista para sua compreensão seja a de que ela não é adjetivo, mas, sim, um substantivo do próprio rizoma. Aqui, advogam que a multiplicidade seja substantivo (em suma, a multiplicidade por ela mesma) e não o adjetivo de algo (as práticas corporais são múltiplas, por exemplo). Nesse caso, as práticas corporais, enquanto multiplicidade, possuem traços e linhas que não apenas as adjetivam como tal, mas que elas próprias o são. Enunciar “as múltiplas práticas corporais” é distinto de enunciar “práticas corporais como multiplicidade”. Como afirmam, a multiplicidade como substantivo não tem mais “nenhuma relação com o uno como sujeito ou objeto como realidade natural ou espiritual, como imagem e mundo [...] mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 15). Desse modo, o que compõe as práticas corporais é justamente a imanência, a incompletude, o devir, a abertura múltipla enquanto instância, e não como adjetivo que as caracteriza. E isso ocorre mediante os planos de consistência da Educação Física nas práticas corporais.
Os planos de consistência (ou imanência7) são platôs, horizontes, grades de dimensões distintas, constituídos de velocidades e intensidades variadas, onde os conceitos são formados e nos quais os rizomas podem acontecer; é o fora, o externo das multiplicidades dos rizomas.
O rizoma ocorre a partir das possibilidades que um plano de consistência lhe possibilita. Não há um plano comum e universal para todas as práticas corporais; estas são organizadas a partir da singularidade de cada plano e em cada lugar. O plano de consistência é o espaço e o tempo em que se formam os cursos de intensidade de algo, suas possibilidades de significação; são “contínuos de intensidades, emissão combinada de partigos ou de partículas signos, conjunção de fluxos desterritorializados” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 86). Desse modo, não há a possibilidade de um universal de significação das práticas corporais; pelo contrário, estas são, por serem multiplicidades, os lugares de desterritorialização do universal, os espaços de devir. É justamente nos planos de consistência que se pode abarcar as práticas corporais, não no conceito (significado), mas justamente na primazia do significante, que só ocorre em um plano de consistência que lhe permita ser de algum modo – e depois outro8. Aqui, assumo que a Educação Física constitui planos de consistência que permitem que as práticas corporais se constituam como conceito.
Por fim, os autores aludem ao rizoma a partir da cartografia e da decalcomania, estabelecendo distinções entre esses princípios e advogando a favor de uma cartografia em detrimento da decalcomania. Para eles, um rizoma não é um decalque. O decalque é um princípio ordenador, um eixo reprodutível, possível de ser replicado em vários níveis sucessivamente. Por exemplo, a proposição de um conceito universal é um decalque, porque se pode infinitamente reproduzi-lo, recolocá-lo, representá-lo. É pivotante como uma raiz profunda.
Já a cartografia entende o rizoma como um mapa.
O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social (Deleuze e Guattari, 2000, p. 20).
Há, no entendimento do rizoma como mapa, a potencialidade de este ser operado tal qual o empírico lhe sugere, sem que haja uma linearidade ou sequencialidade de compreensão. O mapa é, ao mesmo tempo, saída e entrada de um rizoma. É preciso sair do eixo original, centralizador e dicotômico do decalque para o de um mapa de rizoma; caso contrário, tem-se apenas uma reprodução da raiz inicial que recorrentemente se quer replicar.
POR UMA “LITERATURA MENOR” DAS PRÁTICAS CORPORAIS NA SAÚDE
Na obra Kafka, para uma literatura menor, Deleuze e Guattari (2024) abordam, ao longo dos nove capítulos que a compõem, o estilo literário do autor judeu-tcheco de língua alemã, relacionando suas obras com as proposições filosóficas por eles aventadas. Cada capítulo, à sua maneira, tensiona elementos presentes na literatura kafkiana, ora ligados a conceitos filosóficos, tais como agenciamentos (capítulo 1), ora à psicanálise (capítulo 2), ora às séries e potências não lineares da escrita de Kafka (capítulo 6), ora aos blocos e às descontinuidades de sua literatura (capítulo 8). Apesar de todos os capítulos, em seu conjunto, constituírem platôs sobre a literatura de Franz Kafka, é especificamente no capítulo 3, intitulado “O que é uma literatura menor?”, que os filósofos aprofundam o que se entende por literatura menor.
Nele, estão presentes três características do que é uma literatura menor. Para Deleuze e Guattari (2024, p. 35-37), uma literatura menor: a) não pertence a uma língua menor, mas, antes, à língua que uma minoria constrói numa língua maior; b) nela tudo é coletivo; e c) tudo toma um valor político coletivo.
O primeiro traço da literatura menor kafkiana diz respeito ao fato de que Kafka era um autor judeu-tcheco de língua alemã, nascido e formado no Império Austro-Húngaro, atualmente República Tcheca. Ali se formou um escritor desterritorializado, pois não falava o alemão puro e convencional, mas, ao mesmo tempo, também não se via escrevendo em hebraico ou tcheco. “Em suma, o alemão de Praga é uma língua desterritorializada, conveniente a estranhos usos menores” (Deleuze e Guattari, 2024, p. 36). Assim, escrevia numa língua maior (alemão) sendo uma minoria (judeu-tcheco), e daí advêm as singularidades desterritorializadas de seus escritos.
Em relação ao segundo traço dessa literatura menor, em que tudo é coletivo, Deleuze e Guattari (2024) indicam que é justamente por esse não pertencimento original a uma língua ou a um povo que seus escritos tomam forma coletiva. Não é mais o escritor indivíduo que importa, mas, sim, aquele que representa um não lugar, ou um lugar outro daquele que se espera. Em sua literatura, seus personagens frequentemente são nomeados por uma letra (K), e, assim, assume-se não o indivíduo, mas algo que se potencializa para um todo que queira ali estar (Deleuze e Guattari, 2024). Como referem os autores, essa literatura “está determinada a preencher as condições de uma enunciação coletiva que falta algures nesse meio: a literatura é assunto do povo” (Deleuze e Guattari, 2024, p. 37, destaque do original).
E, por isso mesmo, tal movimento é político, terceiro traço característico dessa literatura menor. Em se tratando disso, na literatura menor “o seu espaço, exíguo, faz com que todas as questões individuais estejam imediatamente ligadas à política” (Deleuze e Guattari, 2024, p. 36). Nesse caso, há uma política de vida, de possibilidades de existir de outra maneira que não a convencional ou universalmente aceita; uma política da contingência, da multiplicidade, em detrimento do uno e do ordinário. Em suma, “as três categorias da literatura menor são a desterritorialização da língua, a ligação do individual com o imediato político, o agenciamento coletivo de enunciação” (Deleuze e Guattari, 2024, p. 37).
Não obstante as reflexões aqui propostas, escritos no campo da educação e da Educação Física já se propuseram a tais tensionamentos. No campo da educação, por exemplo, principiam tais processos as problematizações que Gallo (2008) faz sobre a educação. Para ele, “uma educação menor é um ato de revolta e de resistência. Revolta contra os fluxos instituídos, resistência às políticas impostas; sala de aula como trincheira, como a toca do rato, o buraco do cão [...] é um ato de singularização e de militância” (Gallo, 2008, p. 78). Já na Educação Física escolar, Nunes e Neira (2017) ponderam que a escola e o espaço da aula são territórios de linhas e micropolíticas de uma educação menor, na constituição de possibilidades de uma pedagogia da diferença que verse sobre as potências do devir, em detrimento da máquina concreta das aulas que não permitem dissonâncias dos acontecimentos. Nesse processo, entre o planejar e a aula executada, muitas possibilidades existem.
Pensar as práticas corporais no campo da saúde, tomando os três traços característicos de uma literatura menor, é pensá-las como potências de desterritorialização de uma língua maior. Nesse caso, é tomá-las como ferramentas de desterritorialização de um conhecimento estabelecido que se pretende universal, a partir de lógicas científicas ou linguagens estruturalistas que pretendem abarcar, em uma única definição, as possibilidades de descrever o que realmente é o movimento humano e sua relação com a saúde. Nesse sentido, conceitos puramente convencionais e mecanicistas colocam-se como uma literatura maior, em detrimento das práticas corporais, estas voltadas às vicissitudes da empiria e às possibilidades de serem qualquer outra coisa que não uma definição unívoca. Elas também assumem um valor coletivo, na medida em que muitos/as atores/as e autores/as do campo da Educação Física na saúde se veem implicados nessa discussão e, por conseguinte, se encontram nesse emaranhado de pensar e assumir as práticas corporais como um conceito (embora não lógico-científico e tampouco estruturalista). E, assim, nesse ínterim, trata-se de um viés absolutamente político, na medida em que se buscam outras perspectivas de produção de conhecimento, de saberes e de mundo, que tomem a desterritorialização, a imanência e as linhas de fuga não apenas como meras possibilidades, mas como modos de existência. Como referem Deleuze e Guattari (2024, p. 39), em relação à literatura menor, trata-se de “opor um uso puramente intensivo da língua a qualquer utilização simbólica ou mesmo significativa, ou simplesmente significante. Chegar a uma expressão perfeita e não formada, uma expressão material intensa”.
Tomar as práticas corporais como “literatura menor” é forjá-las como uma máquina abstrata em relação aos agenciamentos maquínicos das lógicas das ciências exatas e naturais (onde repousam noções estritas e universais); é entendê-las como “máquina de guerra literária”, da e para a multiplicidade.
Por “máquina de guerra literária” indico, junto aos argumentos propostos, que as práticas corporais no campo da Educação Física em interface com a saúde podem operar sentidos desestabilizantes das lógicas universalistas que buscam capturar de forma derradeira os sentidos do corpo, do movimento humano e suas subjetividades, alocando-os em descrições unívocas e monossemânticas (maquínicas). Portanto, são máquinas de guerra enquanto dispositivos de lutas pela significação; e concomitantemente são abstratas por terem uma potência de devir, contrariamente às máquinas concretas que buscam um acimentar das possiblidades dos sentidos do viver aberto e plural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Problema de escrita: são absolutamente necessárias expressões anexatas para designar algo exatamente (Deleuze e Guattari, 2000, p. 31).
Procurei discutir, a partir da filosofia da diferença de Deleuze e Guattari, como as práticas corporais se compõem como um conceito no campo da Educação Física em interface com a saúde. Isso porque, desde a perspectiva aqui adotada, é tarefa central da filosofia a construção de conceitos. É nisso que residem os argumentos aqui apresentados.
Valendo-me de algumas proposições sobre o papel da arte, da ciência e da filosofia na construção de conhecimentos, assim como trazendo à baila conceitos como rizoma e seus componentes, máquinas abstratas e concretas, literatura menor, agenciamentos e outros atravessamentos conceituais, propus o exercício de pensarmos as práticas corporais a partir desses registros. No entanto, para além desses, cabe menção a outras ideias desses autores que podem muito bem ser exploradas, articuladas e aprofundadas em reflexões futuras, tais como Corpo sem Órgãos (CsO), territórios e práticas de desterritorialização e reterritorialização, geografias, estratos, entre outras. Não obstante, autores e autoras do campo da Educação Física já vêm fazendo tais investimentos.
No curso da discussão, problematizei os registros tradicionais de organizações conceituais que cortam a Educação Física na interface com o campo da saúde. Especificamente neste texto, as práticas corporais são o mote de tal intenção. E isso porque são potências de decolonização (Palma et al., 2023; Pasquim et al., 2024) das históricas e tradicionais relações entre Educação Física e saúde, que são mediadas, sobretudo, pela noção reinante de que apenas movimentar-se, sem discussões aprofundadas e contextualizadas desse movimentar-se, é um universal válido e absoluto como meio de promoção da saúde.
Assim, uma espécie de “virada conceitual”, que tem nas práticas corporais um conceito propositivo de uma perspectiva ampliada de saúde para a Educação Física, faz-se necessária e já se apresenta, mesmo que haja – e sempre haverá – “agenciamentos maquínicos concretos” na busca de significados finais em torno dessas significações. Sem dúvida, perspectivas lineares e enraizantes que intentam a captura das experiências e do caos, com a finalidade de alocá-los em “caixas” ou categorias estáveis com sentidos unívocos, estarão à espreita. Assim são os intentos da Modernidade. Entrementes, as práticas corporais se compõem como agenciamentos do devir nessas produções ou, como provocam Deleuze e Guattari, como “máquinas de guerra”.
AGRADECIMENTOS
Grupo de Estudos e Pesquisas em Estudos Culturais (GEPEC).
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1
Gallo (2008, p. 32) problematiza que “se há pontos de contato, tangenciamentos, entre os pensamentos de Deleuze, Foucault, Derrida, Lyotard e outros, há também muitas diferenças, e diferenças significativas, que não permitem que eles sejam colocados como representantes de uma mesma ‘corrente de pensamento’” (Destaques do original).
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2
Em especial, destaque para o Racionalismo, o Empirismo, o Idealismo, o Materialismo Histórico e o Positivismo.
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3
Deleuze (2024, p. 224) apresenta oito postulados filosóficos que seriam obstáculos para uma filosofia da diferença que não fosse operada apenas enquanto processos de oposição, representação, imagem e analogia do pensamento. Para ele, esses postulados “esmagam o pensamento sob uma imagem que é a do Mesmo e do Semelhante na representação, mas que trai profundamente o que significa pensar, alienando as duas potências da diferença e da repetição, do começo e do recomeço filosóficos”.
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4
Plano de consistência é uma superfície de estratificação em que multiplicidades podem ocorrer. Abarca “dimensões crescentes segundo o número de conexões que se estabelecem nele” (Deleuze e Guattari, 2000, p. 16). Tomar a Educação Física como plano de consistência significa entender que é no âmbito deste campo de saber que modos de conhecimento, conceitos, funções e proposições podem ser elaborados, neste caso, a respeito das práticas corporais. É neste plano de consistência que se operam práticas de territorialização e desterritorialização, codificação e decodificação, estratificação e desestratificação. As práticas corporais são operacionalizadas neste plano. É, portanto, tomando a Educação Física como campo não apenas científico, mas também de proposições filosóficas, que desenvolvo os argumentos seguintes.
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5
Deleuze (2024, p. 15, destaques do original) evoca a expressão Erewhon para designar os conceitos, pois este são “ao mesmo tempo, ‘em nenhum lugar’ originário, e um ‘aqui-agora’ deslocado, disfarçado, modificado, sempre recriado. Nem particularidades empíricas nem universal abstrato: Cogito para um eu dissolvido”.
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6
Destaco a mudança do nome do Grupo de Trabalho Temático 1 (GTT 1) do CBCE, anunciada em 09/04/2024. Na ocasião, enfatizou-se “uma importante mudança de rota, quando apontou uma ruptura com a perspectiva linear e biologicista de compreensão da saúde-doença e ousou apresentar uma ementa alinhada à saúde ampliada”, mas isso não sem registrar “avanços e tensões. Contudo, alguns termos, hoje, apesar de tradicionais, não representam a totalidade do campo de estudo e de intervenção do profissional de Educação Física na saúde e podem gerar confusão” (CBCE, 2024). Entendo esse registro como fruto do resultado das diversas lutas sociais em torno das relações de saber-poder no campo da Educação Física e da saúde.
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7
Cabe destaque que, em diferentes obras, os autores oscilam entre o uso dos termos Plano de Imanência e Planos de Consistência, em especial para sugerir que é nestes que se formam os conceitos. Isso se deve aos momentos distintos em que essas obras foram escritas (por exemplo, no volume 1 de Mil Platôs referem-se abundantemente aos Planos de Consistência, e em O que é filosofia? já se referem sobretudo aos Planos de Imanência). Para fins de uso neste texto, valho-me delas como próximas de designar o que os autores querem, na medida em que eles mesmos as utilizam dessa forma, tal como destacam que estas são “uma mesa, um platô, uma taça”. E referem, acerca de um conceito, que este se insere em um “plano de consistência ou, mais exatamente, o plano de imanência dos conceitos, o planômeno” (Deleuze e Guattari, 2023, p. 45).
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8
Isso se manifesta nas diferentes dimensões das práticas corporais no campo da saúde na Educação Física, registradas nos mais diversos conjuntos de estudos: Fraga et al. (2013), Gomes et al. (2015), Carvalho et al. (2016).
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FINANCIAMENTO
Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC).
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
REFERÊNCIAS
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CBCE: Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. O GTT Saúde mudou! [Internet]. Uberlândia: CBCE; 2024 [citado em 2024 Out 22]. Disponível em: https://www.cbce.org.br/noticia/o-gtt-saude--mudou-
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Editores(as) responsáveis:
Editor Executivo: Pedro Otavio Pimpim BezerraEditor Associado: Fernando Resende CavalcanteEditor Final: Ari Lazzarotti Filho
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
