RESUMO
Este estudo analisou a representatividade de treinadores negros no comando de clubes da Série A do campeonato masculino de futebol do Brasil (2008-2024), mediante análise quantitativa de dados e entrevistas com treinadores e jornalistas. Os resultados revelam sub-representação gritante: apenas 29 de 749 oportunidades (3,87%) foram destinadas a treinadores negros. As entrevistas mostraram que, enquanto jornalistas identificam o racismo como barreira central, os próprios treinadores negros entrevistados tenderam a relativizá-lo e rejeitar ações afirmativas. Conclui-se que a superação dessa exclusão passa por ações institucionais, como políticas de equidade, inspiradas em experiências internacionais.
Palavras-chave:
Preconceito; Negro; Esporte; Discriminação
ABSTRACT
This study analyzed the representation of Black coaches in charge of clubs in the Brazilian men's football Série A championship (2008-2024), using quantitative data analysis and interviews with coaches and journalists. The results reveal a striking underrepresentation: only 29 out of 749 opportunities (3.87%) were given to Black coaches. The interviews showed that while journalists identified racism as a central barrier, the interviewed Black coaches themselves tended to downplay it and reject affirmative actions. It is concluded that overcoming this exclusion requires institutional actions, such as equity policies inspired by international experiences.
Keywords:
Prejudice; Black; Sport; Discrimination
RESUMEN
Este estudio analizó la representatividad de entrenadores negros al mando de clubes de la Serie A del campeonato masculino de fútbol de Brasil (2008-2024), mediante análisis cuantitativo de datos y entrevistas con entrenadores y periodistas. Los resultados revelan una subrepresentación flagrante: solo 29 de 749 oportunidades (3,87%) fueron destinadas a entrenadores negros. Las entrevistas mostraron que, mientras los periodistas identificaron al racismo como una barrera central, los propios entrenadores negros entrevistados tendieron a relativizarlo y rechazar las acciones afirmativas. Se concluye que superar esta exclusión pasa por acciones institucionales, como políticas de equidad, inspiradas en experiencias internacionales.
Palabras clave:
Prejuicio; Negro; Esporte; Discriminación
INTRODUÇÃO
O Brasil é o país, fora do continente africano, com a maior população negra proeminente (Castles et al., 2005). No Brasil, o racismo se dirige com ênfase aos afrodescendentes, e nuances de discriminação têm criado novos processos discriminatórios, produzindo ecos que merecem nossa atenção. Estudos sobre racismo e esporte na literatura brasileira e internacional têm ganhado cada vez mais espaço na comunidade acadêmica (Hylton, 2008; Long et al., 2017; Tonini, 2010; Pérez, 2017; Rankin-Wright et al., 2020; Reis, 2022; Pires, 2022; Gomes, 2023).
A sub-representação de treinadores negros no futebol brasileiro não pode ser compreendida sem uma análise mais detida da formação socio-histórica do esporte no país. O futebol brasileiro consolidou-se, ao longo do século XX, como um espaço de síntese da chamada "democracia racial", narrativa que buscava apagar as tensões étnico-raciais em favor de uma identidade nacional mestiça e harmoniosa. Autores como Mário Filho (1967) e, posteriormente, Gilberto Freyre (2019) contribuíram para a construção de um imaginário no qual o negro teria encontrado no futebol um território de reconhecimento e de ascensão social, ainda que às custas do silenciamento das desigualdades estruturais que persistiram fora e dentro dos gramados.
Essa mitologia em torno do futebol, como espaço de integração racial e meritocracia, acaba por produzir efeitos concretos nas percepções dos agentes que atuam no campo. Como observa Pérez (2017), o esporte moderno é frequentemente concebido como uma instituição racional, burocrática e, em tese, justa, o que dificulta a identificação de práticas discriminatórias que operam de forma difusa e institucional. No caso brasileiro, essa ideologia esportiva se articula com o mito da democracia racial para produzir um ambiente em que o racismo é sistematicamente negado ou relativizado, mesmo diante de evidências contundentes de exclusão
Em nível internacional, Pérez (2017) afirma que uma ideologia racial domina o período moderno das relações étnico-raciais. Indivíduos que continuam a ter visões raciais convencionais tendem a minimizar o discurso racial em público para evitar o estigma. Burdsey (2011) investigou a presença e os efeitos de microagressões raciais no críquete inglês, e identificou uma tendência a subestimar as repercussões das manifestações racistas. Para ele, uma ideologia preserva determinados grupos e endossa o pensamento dos grupos dominantes. A tendência é subestimar a violência racial, vendo isso como uma piada. Na Espanha, reclamações do atacante Vinícius Júnior, do Real Madrid e da seleção brasileira, foram vistas como exageradas por muitos grupos.
Embora esses estudos reflitam uma preocupação emergente, o racismo não é um problema novo. Embora o jogador negro faça a diferença com uma notória contribuição para o futebol brasileiro, como treinadores, ainda têm poucas oportunidades (Tonini, 2010). Assim, investigar este problema e entender como essa engrenagem funciona pode adicionar novos indícios à discussão. Dados os paradigmas jurídicos do Brasil, as questões sobre ações afirmativas e sua implementação no esporte estão entre os caminhos percorridos neste estudo. A ideia de que, em função de características físicas, indivíduos ainda encontrem barreiras para desenvolver suas carreiras profissionais, liderança e gestão são questões que merecem aprofundamento.
Na literatura brasileira, podemos considerar o livro de Mário Filho (1967), O negro no futebol brasileiro, como o texto fundador da questão étnico-racial no esporte brasileiro. Além disso, vários autores têm abordado a questão racial. Podemos citar, além do clássico de Mário Filho (1967), os autores Helal e Gordan (2014); Murad (1999); Tonini (2010); Tonini (2012); Silva e Paula (2021); Hora (2022); Reis (2022); Pires (2022); Gomes (2023), entre outros. Esses estudos discutiram a questão étnico-racial de uma perspectiva macro. Dados apresentados por esses autores comprovam que os negros têm dificuldade para entrar na carreira de treinador de futebol no mercado de trabalho.
Embora encontremos referências nacionais e internacionais sobre a representatividade do negro no cargo de treinador principal em diferentes esportes, notamos uma lacuna na literatura ao focalizarmos o futebol brasileiro. O campeonato da Série A do futebol masculino brasileiro é a competição que atrai o maior número de patrocinadores, a maior audiência e a maior atenção da mídia brasileira. Esta pesquisa analisou os dados para entender como a participação de treinadores negros acontece.
Elencamos a primeira questão a ser investigada: (a) quantos negros ocuparam o cargo de técnico na Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino entre 2008 e 2024?
Para refletir sobre os fatores que podem limitar o acesso de treinadores negros ao cargo de técnico principal, elaboramos uma segunda pergunta de pesquisa: (b) treinadores negros e jornalistas percebem o racismo como uma barreira à ascensão profissional?
No que se refere à terminologia, este estudo adota o termo “negro” em alinhamento à tradição do movimento negro brasileiro, reconhecendo seu caráter político e identitário. Entretanto, respeita-se a autodeclaração, incluindo aqueles que se identificam como “pretos”, termo utilizado pelo IBGE. O estudo inclui pessoas que se autodeclaram negras, independentemente do fenótipo, mas não abrange asiáticos, ciganos, indígenas ou outros grupos racializados, cujas experiências específicas demandariam abordagem própria.
Analisar a representação de treinadores negros no cargo de treinador no Campeonato Brasileiro de Futebol pode colaborar para entender como se desenvolve essa relação entre o trabalho e o indivíduo. Considerando a construção social brasileira e seu transbordamento para o campo do esporte, torna-se imperioso pensar sobre a exclusão. Diante dos dados de sub-representação, este estudo também pondera a possibilidade de políticas afirmativas no esporte, à luz de experiências internacionais.
Este estudo tem como objetivo identificar as oportunidades para os negros no comando do futebol brasileiro, como treinadores, a partir de percepções de jornalistas, treinadores negros e dados quantitativos.
MATERIAL E MÉTODOS
Extraímos os resultados apresentados neste trabalho de um estudo de mestrado (Silva, 2019) e de um relatório de pós-doutoramento (Lacerda, 2023), ambos realizados sob a orientação e supervisão de um dos autores deste artigo, que examina depoimentos de jornalistas esportivos, treinadores negros e um levantamento da contratação de treinadores negros no principal campeonato brasileiro de futebol masculino. Este estudo é descritivo, buscando expor o fenômeno investigado com base em dados e entrevistas, por meio de abordagens qualitativas e quantitativas
Utilizamos a triangulação entre os dados coletados por meio de: revisão bibliográfica, entrevistas e levantamento quantitativo, de forma a aumentar a confiabilidade, combinando pontos de vista, fontes de dados. Além disso, os participantes revisaram os resultados da análise dos pesquisadores para confirmar se suas interpretações refletiam suas experiências, ideias e sentimentos (Coutinho, 2008). O projeto de pesquisa foi submetido à Plataforma Brasil e aprovado pelo comitê de ética, com o número CAAE 01842918.3.0000.5289 e o processo número 3005626.
A análise das oportunidades para treinadores negros no Campeonato Brasileiro vem de um levantamento realizado entre as temporadas de 2008 e 2024, que incluiu todos os treinadores inscritos na Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino. O banco de dados, abrangendo as temporadas do futebol, foi elaborado com alicerce nos dados presentes nas bases de dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Analisamos a proporção de oportunidades de trabalho que os treinadores negros tiveram e quantas contratações foram feitas pelos clubes durante o Campeonato Brasileiro de cada temporada.
Também analisamos entrevistas em profundidade com seis jornalistas (quatro autodeclarados brancos e dois autodeclarados negros) e três treinadores que se autodeclararam negros (Marques e Brito, 2016). Os critérios utilizados para escolher os entrevistados priorizaram sua importância no cenário do futebol brasileiro. Devido à extensão do território brasileiro, concentramo-nos no Rio de Janeiro, que recebeu o maior contingente de escravizados negros do Brasil, para as entrevistas. Além disso, também procuramos treinadores negros que tivessem conquistado uma prestigiada competição nos principais campeonatos.
Após a coleta de dados, passamos à interpretação dos relatos apresentados pelos participantes da pesquisa. Desta forma, tentamos compreender as ideias gerais, identificando os conteúdos explícitos e implícitos expostos nas entrevistas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participação dos negros no cargo de técnico principal do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino Série A entre 2008 e 2024
Os dados estão organizados por ano de competição, com o número de oportunidades concedidas a brancos e indivíduos negros ocupando o cargo de treinador principal nos clubes. Por fim, desenvolvemos o percentual de ocupação da posição a cada ano.
Constatamos que a participação de treinadores negros é extremamente escassa. O número total de oportunidades de entrada na posição de treinador principal foi de 749 em dezessete anos. Esse recorte temporal mostra a exclusão dos negros dessas oportunidades de trabalho no país do futebol; em 749 oportunidades de emprego, apenas 29 vezes a oportunidade foi para treinadores negros. Vale ressaltar que o Quadro 1 apresenta o número máximo de treinadores negros atuando simultaneamente em cada ano, não o total de oportunidades ao longo da temporada. Em 2016, por exemplo, houve 4 treinadores negros atuando (o pico do período), mas não se sabe por quanto tempo cada um permaneceu no cargo. As distâncias entre negros e não negros na educação, no mercado de trabalho e na justiça, entre outras, decorrem de discriminação, desde a herança do período escravocrata, até um processo ativo de preconceitos e estereótipos discriminatórios de procedimentos (Bento e Beghin, 2005). Os treinadores negros ocuparam apenas 3,87% do total de oportunidades, menos de 5%, enquanto os brancos tiveram chance de ocupar esse cargo em 96,13% dos casos. Ressaltamos que foi contabilizada uma nova oportunidade caso o treinador tenha sido demitido em um clube e na mesma temporada tivesse sido readmitido em outro.
Número e percentual de treinadores negros e não negros de 2008 a 2024 no Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino Série A.
Este levantamento trouxe também a informação de que os negros que mais obtiveram oportunidades nos últimos anos foram Roger Machado e Jair Ventura. Além deles, outro nome a ser citado é o de Cristóvão Borges, que atuou como profissional em seis ocasiões, tendo ocupado o cargo em 2011/2012 no Vasco da Gama, 2013 no Bahia, 2014 no Fluminense, 2015 no Flamengo e 2016 no Corinthians. No entanto, vale mencionar que Cristóvão Borges, apesar das oportunidades, enfrenta um longo período de desemprego, iniciado em 20 de março de 2023, quando deixou o Figueirense. Desde então, até a data de finalização deste artigo, ele não recebeu convites. O time do Flamengo foi o que mais deu oportunidades aos negros nesta época, sendo cinco ao total: Andrade em 2009, Jayme de Almeida em 2013/2014/2015, e por fim, em 2015, Cristóvão Borges.
Entrevistas com treinadores e jornalistas
Analisamos os dados coletados por meio de entrevistas em profundidade, realizadas com seis jornalistas , quatro autodeclarados brancos e dois autodeclarados negros , e três treinadores autodeclarados negros; a idade dos participantes variou entre 39 anos e 57 anos.
Eu sou negro. Eu não sou branco. Cresci num ambiente misturado com brancos e negros caminhando juntos; eu continuo nesse ambiente. Tenho 57 anos e estou no futebol há 34 anos desde que comecei a trabalhar com futebol e não contando a temporada de jogo de menino" (Treinador 1). "Eu sou negro; minha infância foi em um ambiente negro. O futebol me permitiu viver em um ambiente misto fora do ambiente familiar porque sou um ex-jogador de futebol que jogou futebol por quase 20 anos da minha vida e tive a oportunidade de conviver com outras pessoas" (Treinador 2). "Eu me considero preto. Moro em um ambiente negro, até porque nasci e cresci em uma comunidade pobre, tenho muitos pretos amigos, e pessoas que são de cor é complicado de conseguir, então uma coisa na vida, então que eu vejo um jogador de futebol e cantor, o resto pra você conseguir um espaço é difícil entrar no meio social. (Treinador 3).
As relações que os entrevistados construíram com os termos 'negro' e 'futebol' enfatizam o ambiente em que vivem. A cultura refletiu características específicas e impactou suas formações. O futebol criou oportunidades para viverem em outros ambientes, com outras pessoas e culturas diferentes. Uma das falas aponta para dificuldades dos negros nesses novos ambientes que o futebol proporcionou. Outra ideia que aparece se refere à experiência de vida de cada um. O argumento apresentado nos discursos foi que os anos vivenciados no futebol contribuíram para que acessassem novos ambientes além do ambiente familiar.
Em relação à formação, os entrevistados relataram o seguinte:
Tenho graduação e especialização em futebol pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eu fiz mais de dois ou três cursos, com isso o sindicato, a Associação Brasileira dos Treinadores de Futebol (ABTF), me deixou mais especializado no futebol" (Treinador 1). "Sou formado em educação física, tenho especialização em treinamento esportivo e fisiologia do exercício; como falamos antes, penso em continuar os estudos" (Treinador 2). "Meu nível de escolaridade é primeiro grau incompleto; fiz o curso de formação para ser treinador. (Treinador 3).
'Especialização', 'futebol' e 'cursos' foram os termos que se destacaram nesta fase das entrevistas, demonstrando preocupação com o aperfeiçoamento técnico. Dois entrevistados são graduados em educação física e especialização; o terceiro realizou um curso de formação de treinador. Os relatos indicam conhecimento teórico-prático, dado à experiência adquirida como atletas e, posteriormente, com a continuação nos estudos.
Quando questionados sobre a baixa representatividade de negros ocupando o cargo de treinador principal em clubes de elite, e se esse fenômeno tinha alguma relação com o racismo, o preconceito e a necessidade de implementar ações afirmativas que pudessem modificar de alguma forma a situação atual, as respostas foram as seguintes:
Trabalhei com alguns treinadores negros, talvez oito ou dez. Conheço muitos; não acredito que se deva ter essa necessidade de cotas. Acho que a gente corre atrás de estudar, buscar se especializar e organizar as oportunidades, apesar de contarmos nos dedos os treinadores negros na elite do futebol brasileiro. Eu acho que há um ou dois, não muito mais do que isso. Não sei te dizer por que nunca parei para pensar nisso. Eu acho que é uma questão de fato. De repente eles experimentaram algo dentro do futebol e preferem não arriscar nessa área. Muitos de nós vemos grandes jogadores com formação adequada e com perfil de liderança. Por que no futebol os treinadores negros optam por trabalhar em outra função gerenciando, coordenando como gerente, e não se aprofundando na carreira de treinador? Acho que fizemos um bom progresso, porque o país é muito aberto. Temos observado a chegada de africanos para o Brasil. Ao contrário de outros países onde até existe alguma resistência aqui, as pessoas recebem muita tranquilidade, com alta receptividade, aqui a gente não vê. (Treinador 1).
Já trabalhei com alguns treinadores principais, mas foram poucos, muito poucos treinadores e dirigentes negros, mas o que vejo, o que eu percebo é que geralmente o negro que é ex-atleta e trabalha com futebol, ele ajuda muito nos bastidores, na formação de um atleta. Ajuda muito a dar a atividade porque você teve aquela vivência prática, mas a figura representativa deles, o principal, não é um dos negros. Se você notar, na categoria de base de todo o Brasil, ex-atletas negros trabalham, mas não são a figura central da comissão técnica; eles estão sempre lá fazendo uma parte importante, mas ainda estão lá. Acho que as oportunidades têm que ser para todos da mesma forma. Tenho medo de ter que discordar de uma cota apenas por ser negro. Porque hoje o país já evoluiu. Alguns negros vivem em uma classe social que pode estudar. Então, eu acho que essa questão de cotas deve ser igualitária; qual instrumento melhora nosso acesso à educação? Aí você vai dizer que sou contraditório. Ainda assim, não, acho que tem que partir do próprio desejo do negro de buscar, para estudar, para se formar, para melhorar sua formação, mas que as pessoas aceitariam mais você, se você fosse, se eu estivesse treinando como outro professor, é outro treinador, sim, vão escolher outro treinador. A questão não é apenas a cota; a questão é o treinamento e como o país vai te dar a oportunidade e te ver. O grande problema é que se tivesse mais pretos líderes, mais treinadores negros, aumentariam o leque de oportunidades para nós, desde que não tenhamos que procurar, a gente não pode abrir mão disso. (Treinador 2).
Acho difícil mudar isso no Brasil porque é uma resistência extrema. Vemos o Andrade, que foi campeão pelo Flamengo agora há pouco tempo, e não tem espaço no futebol brasileiro. Então, citei o Andrade porque é recente; tem muitos outros aí, como o Lula Pereira. Eu já vi que sofri racismo também, entendi, mas mudar isso no Brasil é muito difícil, muito difícil mesmo. Eu acho muito errado ter cota de negro para estudar, então tinha que ser natural. Acho que não deveria ter leis até porque somos todos iguais. (Treinador 3).
Os treinadores mostram-se conscientes da baixa representatividade dos negros em cargos de treinador principal nos clubes de elite. Nas categorias de base, de acordo com suas falas, há muitos treinadores negros. No entanto, quando vão para o nível principal, a situação se altera. Nos discursos, ex-atletas negros qualificados optam por ocupar outras posições nos bastidores. Porém, também há o reconhecimento da desigualdade de oportunidades quando o treinador aponta que se houver um treinador negro e outros com currículos semelhantes, o técnico negro provavelmente perderá. O imaginário é que o negro tem que ser o dobro de bom para conseguir o emprego. Constatamos que a ocupação de cargos de chefia por negros é um fator que pode aumentar substancialmente o ingresso de negros em cargos de treinador.
Dificilmente vemos negros em cargos de alto escalão em empresas; raramente vemos o negro como contratado para assumir cargos de tomada de decisão. Os relatórios confirmam alguns estudos realizados na Europa e na sociedade australiana. O estudo de Bradbury (2013) examinou a extensão e as formas pelas quais as práticas de racismo institucional impactaram desproporcionalmente a limitação do acesso por minorias. As práticas de racismo institucional são sustentadas por padrões de privilégio hegemônico branco, embutidos nas estruturas centrais pré-existentes de órgãos de tomada de decisão nos mais altos níveis do futebol. Maynard (2009) discutiu a sub-representação aborígine no futebol australiano, uma combinação que envolve uma política governamental racista, que restringe a circulação de indígenas, o que cria barreiras ao acesso ao futebol, como a distância das reservas indígenas.
Portanto, essa hierarquia social transborda para as instituições esportivas, diminuindo as oportunidades, colocando o negro que opta pela profissão de treinador à margem do mercado. Um treinador aludiu ao treinador Andrade, brasileiro campeão em 2009 pelo Clube de Regatas Flamengo, inclusive recebendo o prêmio de melhor técnico daquele ano, e que depois não teve mais espaço, mesmo com os méritos da conquista nacional. Lula Pereira, outro reconhecido treinador e vencedor do campeonato nacional, não teve grandes oportunidades na elite do futebol brasileiro.
Em entrevista veiculada pelo Observatório Racial do Futebol (2009), o treinador Andrade diz que sofreu racismo no Flamengo: “Em 2004, quando eu e Adílio assumimos o time do Flamengo, um diretor das categorias de base disse que o futebol tinha virado ‘urubu Flamengo’. Foi um comentário maldoso, errado e desrespeitoso comigo e com Adílio. Dei a volta por cima e estou muito feliz com a conquista do título. Quanto ao camarada, prefiro não dizer quem foi”.
Um outro depoimento na mídia foi o de Roger Machado (ESPN Brasil, 2024) sobre ser único técnico negro do Brasileirão de 2024: "Se a gente imaginar o futebol como uma pirâmide social, na base estamos nós, o campo. Sejamos eles pretos ou brancos, quem olha de cima da pirâmide enxerga todos pretos. Ou somos pretos pela cor da pele ou somos da mesma origem social, em sua maioria esmagadora. O racismo para mim se cristaliza quando o campo acaba e a gente consegue perceber indivíduos de diferentes cores acenderem socialmente em diferentes sociedades. É onde os filtros começam. Um ex-atleta branco consegue se esconder e eu não consigo. Minha cor me denuncia. O futebol talvez amplifica em todas as formas como somos como sociedade, as coisas boas e as coisas ruins".
O treinador Marcão diz: “Se alguém for racista, quem estiver em volta não pode mais tolerar isso” (Sá, 2021). O treinador Cristóvão Borges declarou: "O racista vê o negro como a pessoa que deve dizer amém e não deve se colocar. E eu sou a antítese disso. Eu me coloco, tenho posição, e defendo minhas convicções. Então pra ele eu sou tido como um intruso, uma abusado. Cheguei numa posição e me coloco e contesto se eu achar que estiver errado. A minha posição não é e não vai ser nunca de pobre coitado" (Equipe Bate Bola Nacional, 2015).
As marcas do racismo ficam encarnadas e afetam a pessoa no íntimo e não apenas como profissional. Em depoimento a um jornal, o jogador Vinícius Júnior tem se posicionado de forma contundente contra o racismo, excluindo a torcida de seu clube, o Real Madri, em várias ocasiões, torcidas adversárias o vaiam quando ele toca na bola, ele diz: “"Cada vez tenho menos vontade de jogar" (Mota, 2024).
Apesar do reconhecimento dos treinadores entrevistados sobre a baixa representatividade dos negros e dos obstáculos apresentados, destacando a questão racial para a falta de oportunidades, todos foram enfáticos em que não veem a necessidade de implementar ações afirmativas. Eles aduzem que não acham correto haver cotas para que o negro ocupe o cargo de treinador de futebol profissional nos clubes da elite brasileira.
Reconhecendo em certa medida a desvantagem dos negros nas oportunidades oferecidas a esse cargo, os treinadores entrevistados também reconhecem a necessidade da formação acadêmica dos negros. Há uma baixa representatividade que ocorre devido ao preconceito étnico-racial, posições que respondem à segunda questão investigada.
Os achados nas falas dos treinadores entrevistados contrastam com as percepções de atletas e treinadores negros encontradas na pesquisa de revisão de literatura. Inúmeros profissionais do futebol no Brasil e no exterior denunciaram premeditação, descaso e caráter racista nos bastidores (Abreu e Silva, 2017; Bradbury, 2013, 2019; Burdsey, 2011; Tonini, 2010).
É importante situar o debate brasileiro no contexto das iniciativas legislativas voltadas à equidade racial. Um marco na legislação brasileira é a Lei nº 15.142/2025 (Brasil, 2025), que reserva às pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas o percentual de 30% (trinta por cento) das vagas oferecidas no âmbito da administração pública. A inspiração em experiências internacionais como a Rooney Rule, da National Football League (NFL), e em políticas de promoção da igualdade racial já existentes no Brasil, pode ser o caminho para que uma política afirmativa no campo dos esportes de forma aa um equilibrar as oportunidades oferecidas. A proposição merece análise detida, pois explicita as tensões entre o discurso da meritocracia e a necessidade de intervenção estatal para a correção de assimetrias históricas. O exame desse e de outros instrumentos normativos pode lançar luz sobre as possibilidades e os limites da luta por representatividade no futebol brasileiro.
A Regra de Rooney adotada pelo futebol americano para aumentar a participação dos indivíduos de minorias étnicas nos Estados Unidos como treinadores nas equipes da NFL (Solow et al., 2011) obriga os clubes a incluir negros nos processos seletivos para contratação de treinadores. Portanto, ponderar e discutir a possibilidade de implementação de ações afirmativas nos moldes da NFL Rooney Rule e das já existentes na legislação brasileira se justifica. A questão foi amplamente debatida nos Estados Unidos, como enfatizou Duru (2007), até a implantação da Rooney Rule. Essa foi uma agenda social que levou a NFL, após análise dos dados, a perceber a necessidade de promover igualdade através da regulação institucional. A mesma demanda foi levada para o Reino Unido, pois também há o mesmo fenômeno, o mesmo modus operandi. Como resultado, a Associação Inglesa de Futebol adotou a regra Rooney para escolher novos técnicos na Inglaterra e implementá-la na Premier League (Corapi, 2012).
O argumento de que tudo faz parte do jogo deve ser combatido. Depoimentos do treinador Luiz Felipe Scolari (Felipão) e do jogador Dunga sugerem que essa discussão é boba. Abreu e Silva (2017) mostram as falas de Felipão e Dunga concedidas ao Jornal Folha de São Paulo. Para Felipão e Dunga, esses casos de racismo são estúpidos, e não devemos mesmo discutir isso. Dunga, durante a Copa América de 2015, tratou a questão racial como lugar-comum, que faz parte do jogo; sua fala reflete a representação que ele tem do negro.
As falas de Felipão e Dunga, ao negarem a necessidade de debater o racismo, podem ser interpretadas como uma tentativa de neutralizar a discussão racial, o que, paradoxalmente, reforça a estrutura de silenciamento sobre o tema. Não se pode negligenciar ou minimizar os aspectos negativos, uma vez que o racismo não é um incidente na periferia do futebol. É, de fato, um processo contumaz da vida cotidiana e se reproduz sub-repticiamente na sociedade.
Os relatos dos entrevistados indicam que os negros tendem a aceitar a situação e não reivindicar mudanças. O discurso dos treinadores negros entrevistados se aproxima do discurso de Felipão e Dunga, que não veem a necessidade de discutir o racismo. Essa convergência de discursos, ainda que partindo de lugares sociais distintos, aponta para a naturalização do racismo estrutural no futebol e na sociedade brasileira.
A promoção da equidade racial, no comando técnico do futebol brasileiro, demanda ações estruturais que envolvam diferentes atores, incluindo clubes, federações, entidades de classe e o próprio Estado. A articulação de treinadores negros pode ser um passo importante para pressionar por mudanças, mas isso não será eficaz sem um compromisso institucional amplo e ações concretas para desmantelar as barreiras racistas.
Além dos três treinadores, entrevistamos seis jornalistas que atuavam nas principais emissoras de rádio e televisão do Brasil. A visão da maioria é que existe racismo sistêmico. Por exemplo, um dos jornalistas diz:
A diferença de tratamento na valorização do jogador negro e do jogador branco é automática. A saga do negro no Brasil não acabou em 13 de maio de 1888. Não somos diferentes dos norte-americanos. Os americanos têm preconceito racial. Aqui a gente luta contra esse preconceito, mas ele existe. (Jornalista 1).
Outro jornalista afirma que o processo de exclusão do negro da sociedade é histórico. “Quando ‘libertos’, foram jogados na rua, sem moradia, sem dinheiro, sem direitos” (Jornalista 2). Então o governo do Brasil estimulou a vinda de europeus, concedendo-lhes terras e incentivos.
Acho que ainda existe um racismo não declarado, mas está bem claro. É bem claro por que, se a maior parte do futebol profissional, dentro do campo, a maioria deles é formada por negros, enfim, por que quase nenhum deles está em posições de comando? (Jornalista 3).
O jornalista 4 reforça os depoimentos anteriores. No entanto, ao reconhecer o pequeno número de treinadores negros, esquece o nome de um deles que trabalha no Flamengo.
Acho que essa questão dos treinadores de futebol, por exemplo, você vê que tem alguma coisa errada, porque um grande número de jogadores de futebol são negros. Depois, tem o segmento de treinadores para quem há muitos ex-jogadores de futebol. Então, entre treinadores de futebol, você não vê quase nenhum negro no primeiro escalão. No Brasil, por exemplo, tem esse do Flamengo… (longa pausa). O nome me fugiu agora. (Jornalista 4).
Um dos jornalistas confirma: “É evidente que existe racismo; existe racismo sistêmico, mas acho que se quebra quando os negros fazem sucesso” (Jornalista 5).
Perguntamos ao jornalista 6 sobre políticas sociais e movimentos sociais: a participação da população na transformação do racismo estrutural no Brasil.
Não, vai começar de fora. Historicamente é assim. No Brasil, a abolição da escravatura ocorreu apenas sob pressão de fora porque a Inglaterra fez uma pressão tremenda. Como poderia competir no mercado com o Brasil quando se industrializou? O Brasil ainda tinha trabalho escravo. Era evidente que no Brasil tudo era mais barato. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão; foi apenas devido à pressão externa. Vocês têm escravos lá e nós não, mas pagamos para ter nossas coisas; nosso produto é mais caro. (Jornalista 6).
O desporto e, neste estudo, o futebol são como caixas de ressonância dos problemas sociais, das assimetrias, das injustiças. Em muitos cenários, o futebol expõe graves conflitos. É um lugar de resistência e opressão. Estamos do lado daqueles que defendem o futebol como espaço de emancipação social. Assim, buscar formas de reduzir as desigualdades e a justiça envolve necessariamente o futebol (Long et al., 2017).
CONCLUSÃO
Este artigo analisou a participação de treinadores negros no comando de equipes da Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol entre 2008 e 2024. Os resultados mostram que a participação de treinadores negros é extremamente baixa. Em 749 oportunidades de emprego, apenas 29 foram destinadas a treinadores negros, o que representa menos de 4% do total.
As entrevistas com treinadores negros e jornalistas revelaram uma consciência sobre a baixa representatividade, mas também uma resistência, por parte dos treinadores entrevistados, em relação a políticas afirmativas, como cotas. Os treinadores tenderam a enfatizar a qualificação individual e a meritocracia, minimizando o papel do racismo estrutural como barreira. Essa percepção contrasta com a literatura especializada e com as falas dos jornalistas entrevistados, que identificaram o racismo como um obstáculo central.
A pesquisa respondeu à primeira questão de investigação, quantificando a sub-representação de treinadores negros. Quanto à segunda questão, as percepções sobre o racismo como barreira foram divergentes: enquanto os jornalistas o veem como um fator crucial, os treinadores entrevistados tenderam a relativizá-lo. Essa divergência aponta para a complexidade do tema e a necessidade de mais estudos que explorem as razões pelas quais alguns treinadores negros podem internalizar narrativas que minimizam o racismo estrutural.
O estudo evidenciou a necessidade de se discutir políticas de equidade racial no futebol brasileiro, à semelhança de iniciativas internacionais como a Rooney Rule. A superação desse cenário de exclusão exige mais do que iniciativas individuais; demanda um compromisso coletivo e institucional com a diversidade e a inclusão.
Como limitação, o estudo concentrou-se nos treinadores da série A, e as entrevistas foram realizadas majoritariamente no estado do Rio de Janeiro. Pesquisas futuras poderiam ampliar o escopo geográfico e incluir um número maior de entrevistados para aprofundar a compreensão das barreiras e potencialidades para a ascensão de treinadores negros no futebol brasileiro.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho contou com apoio financeiro da Universidade Salgado de Oliveira, com bolsa integral de estudos para o primeiro autor.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo e no Repositório de Dissertações do Programa de Pós-graduação em Ciências da Atividade Física, ano 2019, da Universidade Salgado e Oliveira, em nome de Luiz Felipe Roque da Silva. Disponível em: https://www.ppgcaf.universo.edu.br/reposit%C3%B3rio-de-disserta%C3%A7%C3%B5es
REFERÊNCIAS
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Editores(as) responsáveis:
Editor Executivo: Pedro Otavio Pimpim BezerraEditor Associado: Christiane MacedoEditor Assistente: Eduardo Klein CarmonaEditor Final: Ari Lazzarotti Filho
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo e no Repositório de Dissertações do Programa de Pós-graduação em Ciências da Atividade Física, ano 2019, da Universidade Salgado e Oliveira, em nome de Luiz Felipe Roque da Silva. Disponível em: https://www.ppgcaf.universo.edu.br/reposit%C3%B3rio-de-disserta%C3%A7%C3%B5es
