RESUMO
Introdução: O carcinoma de células escamosas (CEC) é a neoplasia maligna oral mais comum, frequentemente associado à exposição crônica à radiação ultravioleta. Pode invadir os tecidos localmente e apresentar risco de metástase.
Objetivo: Analisar o perfil clínico e demográfico dos indivíduos diagnosticados com CCE atendidos no Centro de Referência de Lesões Bucais (CRLB) da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), entre 2008 e 2024.
Método: Estudo do tipo transversal, descritivo, baseado na análise de dados secundários provenientes de prontuários físicos. Foram incluídos todos os casos com diagnóstico histopatológico confirmado de CCE, totalizando 244 indivíduos. As variáveis analisadas abrangeram características sociodemográficas, hábitos de vida e aspectos clínicos das lesões. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva (frequências absolutas e relativas), utilizando o software IBM SPSS Statistics, versão 23.0.
Resultados: Observou-se predominância de homens (70,9%; n=173), com idade igual ou superior a 40 anos (97,1%; n=237), exposição solar ocupacional (73,6%; n=109), uso de tabaco (68,5%; n=165) e álcool (57,7%; n=139). A maioria apresentava lesões com mais de 1 cm (98,8%; n=163), duração superior a 30 dias (77,8%; n=140), coloração vermelha (63,0%; n=114) e crescimento exofítico (61,0%; n=100). Apenas 9,8% (n=24) dos casos foram diagnosticados na forma in situ.
Conclusão: Os achados evidenciam padrões clínicos e de exposição a fatores potencialmente relacionados ao câncer bucal, além de indicar possível retardo no diagnóstico. Ressalta-se a importância de ações educativas, capacitação da atenção básica e descentralização dos serviços especializados como estratégias para qualificar o enfrentamento ao CCE na Região.
Palavras-chave:
Neoplasias Bucais; Carcinoma de Células Escamosas de Cabeça e Pescoço; Epidemiologia Descritiva; Estudos Transversais
ABSTRACT
Introduction: Squamous cell carcinoma (SCC) is the most common oral malignancy, frequently associated with chronic exposure to ultraviolet radiation. It can invade tissues locally and presents a risk of metastasis.
Objective: To analyze the clinical and demographic profile of individuals diagnosed with squamous cell carcinoma (SCC) treated at the "Centro de Referência de Lesões Labiais" (CRLB) of the "Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), between 2008 and 2024.
Method: This is a cross-sectional, descriptive study based on the analysis of secondary data from physical medical records. All cases with a confirmed histopathological diagnosis of SCC were included, totaling 244 individuals. The variables analyzed included sociodemographic characteristics, lifestyle habits, and clinical aspects of the lesions. Data were analyzed using descriptive statistics (absolute and relative frequencies), utilizing IBM SPSS Statistics software, version 23.0.
Results: A predominance of men (70.9%; n=173), aged 40 years or older (97.1%; n=237), with occupational sun exposure (73.6%; n=109), tobacco use (68.5%; n=165), and alcohol use (57.7%; n=139) was observed. Most presented lesions larger than 1 cm (98.8%; n=163), lasting longer than 30 days (77.8%; n=140), presenting red coloration (63.0%; n=114), and exophytic growth (61.0%; n=100). Only 9.8% (n=24) of the cases were diagnosed in situ.
Conclusion: The findings highlight clinical patterns and exposure factors potentially related to oral cancer and also indicate a possible delay in diagnosis. The importance of educational initiatives, training of primary care professionals, and decentralization of specialized services is highlighted as key strategies to improve the management of squamous cell carcinoma (SCC) in the region.
Key words:
Mouth; Neoplasms; Squamous Cell Carcinoma of Head and Neck; Epidemiology, Descriptive; Cross-Sectional Studies
RESUMEN
Introducción: El carcinoma de células escamosas (CCE) es la neoplasia maligna oral más común, frecuentemente asociada a la exposición crónica a la radiación ultravioleta. Puede invadir los tejidos localmente y presentar riesgo de metástasis.
Objetivo: Analizar el perfil clínico y demográfico de los individuos diagnosticados con carcinoma de células escamosas (CCE) tratados en el Centro de Referencia de Lesiones Bucales (CRLB) de la Universidad Estatal de Feira de Santana (Uefs), entre 2008 y 2024.
Método: Estudio descriptivo transversal, basado en el análisis de datos secundarios de historias clínicas físicas. Se incluyeron todos los casos con diagnóstico histopatológico confirmado de CCE, totalizando 244 individuos. Las variables analizadas incluyeron características sociodemográficas, hábitos de vida y aspectos clínicos de las lesiones. Los datos se analizaron mediante estadística descriptiva (frecuencias absolutas y relativas), utilizando el software IBM SPSS Statistics, versión 23.0.
Resultados: Se observó un predominio de hombres (70,9%; n=173), de 40 años o más (97,1%; n=237), con exposición solar ocupacional (73,6%; n=109), consumo de tabaco (68,5%; n=165) y consumo de alcohol (57,7%; n=139). La mayoría presentó lesiones mayores de 1 cm (98,8%; n=163), con una duración mayor a 30 días (77,8%; n=140), coloración roja (63,0%; n=114) y crecimiento exofítico (61,0%; n=100). Solo el 9,8% (n=24) de los casos se diagnosticó in situ.
Conclusión: Los hallazgos resaltan patrones clínicos y de exposición a factores potencialmente relacionados con el cáncer oral, y también indican un posible retraso en el diagnóstico. Se destaca la importancia de las iniciativas educativas, la capacitación del personal de atención primaria y la descentralización de los servicios especializados como estrategias para mejorar el manejo del CCE en la región.
Palabras clave:
Neoplasias Bucales; Carcinoma de Células Escamosas de Cabeza y Cuello; Epidemiología Descriptiva; Estudios
INTRODUÇÃO
O câncer bucal é um problema de saúde pública com implicações clínicas, sociais e econômicas relevantes, especialmente nos países em desenvolvimento1. Entre os tumores malignos que afetam a região da cabeça e pescoço, o carcinoma de células escamosas (CCE) é o subtipo histológico mais frequente, representando cerca de 90% dos casos na cavidade oral e orofaringe2. Sua elevada incidência está diretamente relacionada à exposição a fatores de risco evitáveis, como o tabagismo, o consumo excessivo de bebida alcoólica, a exposição solar crônica e, mais recentemente, a infecção pelo papilomavírus humano (HPV), este último para os CCE em orofaringe2,3.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados 17.190 novos casos de câncer de cavidade oral por ano no Brasil no triênio 2026-2028, posicionando essa neoplasia entre as sete mais incidentes do país, quando se desconsideram os tumores de pele não melanoma4. Na Bahia, o cenário é igualmente preocupante: o câncer de boca ocupa a terceira posição entre os homens e a sétima entre as mulheres, com taxas que refletem disparidades regionais e desigualdades de acesso ao diagnóstico4.
Apesar da reconhecida associação com fatores de risco comportamentais e ocupacionais5–7, há uma lacuna importante no conhecimento sobre os perfis epidemiológicos e clínicos dos pacientes diagnosticados com CCE em regiões interioranas e semiáridas, onde as condições socioeconômicas e a estrutura dos serviços de saúde impactam diretamente o diagnóstico precoce e o acesso ao tratamento. Estudos nacionais apontam que a maioria dos casos é diagnosticada em estádios avançados, o que agrava o prognóstico e sobrecarrega os sistemas de saúde6,8,9.
Compreender o perfil clínico e sociodemográfico dos indivíduos diagnosticados com CCE é essencial para a formulação de estratégias de enfrentamento da doença no SUS. Investigações locais, baseadas em serviços especializados, podem revelar padrões específicos, ainda pouco documentados na literatura, com potencial para orientar políticas públicas mais eficazes. O Centro de Referência de Lesões Bucais (CRLB) da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) configura-se como um serviço de atenção especializada em estomatologia e patologia bucal no semiárido baiano, atuando no diagnóstico, acompanhamento e formação em saúde. Embora não possua designação formal como centro de referência regional, o CRLB tem se consolidado, na prática, como um importante polo de apoio diagnóstico para o câncer bucal, recebendo pacientes de Feira de Santana e de outros municípios do Estado.
Diante disso, este estudo tem como objetivo analisar o perfil clínico e epidemiológico dos pacientes diagnosticados com CCE atendidos no CRLB/Uefs entre 2008 e 2024, contribuindo para a qualificação da vigilância em saúde bucal, fortalecimento da atenção primária e aprimoramento das ações de prevenção e diagnóstico precoce da doença.
MÉTODO
Estudo transversal, descritivo, com abordagem quantitativa, desenvolvido a partir da análise de dados secundários extraídos dos prontuários físicos de indivíduos diagnosticados com CCE no CRLB da Uefs, entre os anos de 2008 e 2024.
O CRLB é um serviço de atenção especializada vinculado ao Núcleo de Câncer Oral (NUCAO), que atua no diagnóstico, acompanhamento e manejo de lesões bucais, além de desenvolver atividades de extensão e formação voltadas à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer bucal. Ressalta-se que o serviço não possui designação formal como centro de referência nem convênios institucionais com municípios; contudo, em função da oferta limitada de serviços especializados na rede pública, recebe, de forma recorrente, encaminhamentos provenientes de diferentes localidades do Estado.
Foram incluídos os prontuários que apresentavam laudo histopatológico conclusivo para CCE e informações completas sobre dados sociodemográficos, clínicos e diagnósticos. Foram excluídos os prontuários sem Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado, os casos com diagnóstico e tratamento realizados fora do CRLB/Uefs, bem como os registros referentes a recidivas sem dados completos do episódio primário. Não foi realizado cálculo amostral, uma vez que se optou pela análise censitária de todos os casos registrados no período de interesse que atenderam aos critérios de elegibilidade.
A coleta de dados foi realizada por dois pesquisadores previamente treinados, utilizando um formulário padronizado e semiestruturado composto por 88 itens. Para este estudo, foram analisadas 22 variáveis, selecionadas com base na sua relevância clínica e disponibilidade nos registros. As informações foram extraídas de forma independente por dois pesquisadores e posteriormente validadas por um terceiro avaliador em caso de divergência. Os dados foram inseridos em planilha eletrônica com validação cruzada automática no Microsoft Excel® (Microsoft Corporation, Redmond, WA), com o intuito de minimizar erros de digitação e inconsistências.
A calibração dos avaliadores foi realizada a partir da análise de dez prontuários selecionados aleatoriamente. Cada pesquisador preencheu o formulário em dois momentos distintos, com intervalo de tempo entre eles, permitindo avaliar a concordância intra e interexaminadores. O índice de confiabilidade foi aferido por meio do coeficiente Kappa, aplicado às variáveis categóricas coletadas. Os valores obtidos foram de 0,9 tanto para concordância intra quanto interexaminador, considerados de excelente concordância segundo a classificação de Landis e Koch10.
As variáveis analisadas foram agrupadas em três categorias principais: características sociodemográficas (sexo, faixa etária, cor/raça/etnia, estado civil, ocupação e cidade de procedência), hábitos de vida (tabagismo, etilismo e uso de protetor solar) e características clínicas da lesão (localização anatômica, tipo, cor, tamanho, profundidade, tempo de evolução, presença de linfadenopatia, entre outros). Também foi avaliado o tipo histopatológico da lesão.
A análise estatística foi realizada por meio do software IBM SPSS11 Statistics, versão 23.0 (IBM Corp., Armonk, NY). Foram utilizadas frequências absolutas e relativas para descrição das variáveis. O estudo está vinculado ao projeto "Estudo Clínico-Patológico das Lesões Orais Identificadas em Unidades de Referência de Universidades Públicas Baianas", aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Uefs sob o número 087/2008 (CAAE: 0086.059.000-08), em conformidade com a Resolução n.° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde12.
RESULTADOS
No período compreendido entre 2008 e 2024, foram identificados 244 casos de CCE no CRLB. A análise sociodemográfica evidenciou que a maioria dos pacientes era do sexo masculino (70,9%; n=173) e apresentava idade igual ou superior a 40 anos (97,1%; n=237), com média de idade igual a 61,29 (mín.= 34; máx.=96). Em relação à cor da pele, entre os 194 pacientes que possuíam esta informação registrada, 39,2% (n=76) declararam-se pretos. Quanto ao estado civil, observou-se predominância de indivíduos casados (40,2%; n=94), entre os 234 com dado disponível. Esses resultados estão apresentados na Tabela 1.
Distribuição dos indivíduos diagnosticados com carcinoma de células escamosas, segundo variáveis demográficas, em um Centro de Referência de Lesões Bucais no período de 2008 a 2024
Em relação aos hábitos de vida (Tabela 2), verificou-se que 68,5% (n=165/243) dos indivíduos faziam uso de produtos derivados do tabaco, enquanto 57,7% (n=139/241) referiram consumo de bebidas alcoólicas. Com relação à exposição solar, apenas 44,4% (n=55/124) relataram o uso de protetor solar, refletindo um possível fator de risco adicional entre os indivíduos com ocupações sujeitas à radiação ultravioleta.
Distribuição dos hábitos de vida observados nos prontuários dos indivíduos diagnosticados com carcinoma de células escamosas em um Centro de Referência de Lesões Bucais no período de 2008 a 2024
No que se refere às características histopatológicas (Tabela 3), a maior parte dos casos foi classificada como carcinoma de células escamosas em seus diversos graus de diferenciação, sendo a forma moderadamente diferenciada com prevalência de 24,2% (n=59). Apenas 9,8% (n=24) das lesões foram diagnosticadas em estádio in situ, indicando baixa detecção precoce.
Distribuição da classificação histológica apresentada nos prontuários dos indivíduos diagnosticados com carcinoma de células escamosas em um Centro de Referência de Lesões Bucais no período de 2008 a 2024
Observou-se nas lesões fundamentais (n=180) que 51,1% eram lesões sólidas (n=92/180), já a linfadenopatia (n=243) foi observada em 35,5% (n=72/203) dos indivíduos. As demais manifestações clínicas podem ser observadas (Tabela 4) e evidenciaram predominância de lesões sólidas (51,1%; n=92/180), com coloração vermelha (63,0%; n=114/181) e padrão de crescimento exofítico (61,0%; n=100/164). 20,6% das lesões (n=34/165) apresentaram diâmetro superior a 4 cm, correspondendo a tumores classificados como T3, segundo o sistema TNM. A duração da lesão, quando registrada, era superior a 15 dias em 93,9% dos casos (n=140/180), indicando tempo prolongado entre o surgimento da lesão e a busca por atendimento especializado. Em relação à localização anatômica, a língua foi o sítio mais acometido (34,4%; n=66/192).
Distribuição das características clínicas observadas nas lesões diagnosticadas como carcinoma de células escamosas em um Centro de Referência de Lesões Bucais no período de 2008 a 2024
Cabe destacar que a variação no número de observações por variável decorre da ausência de registros completos nos prontuários analisados, o que constitui uma limitação frequentemente observada em estudos retrospectivos baseados em dados secundários.
DISCUSSÃO
Os achados deste estudo, baseados na análise de 244 casos de CCE registrados no CRLB da Uefs, corroboram evidências previamente descritas na literatura sobre o perfil epidemiológico dessa neoplasia, ao mesmo tempo em que fornecem subsídios valiosos para o delineamento de estratégias de prevenção e diagnóstico precoce no contexto do semiárido baiano. A realização de análises regionais é fundamental para o aprimoramento da vigilância em saúde bucal, considerando que aspectos culturais, socioeconômicos e estruturais locais influenciam diretamente o padrão de exposição a fatores de risco e o acesso ao cuidado em saúde2,6.
Piemonte et al.7 destacaram que os fatores de risco para o CCE apresentam distribuição heterogênea entre diferentes contextos geográficos. Nesse sentido, a caracterização do perfil dos pacientes atendidos no CRLB permite vislumbrar especificidades do semiárido baiano, onde a presença de desigualdades sociais e a limitação da cobertura assistencial especializada ainda constituem desafios estruturais.
A predominância de casos em homens com 40 anos ou mais, conforme observado neste estudo, acompanha tendências descritas na literatura e pode estar relacionada à maior exposição desse grupo ao tabagismo e ao consumo de bebida alcoólica8. No entanto, o crescimento da incidência entre mulheres pode refletir mudanças no padrão de exposição a fatores de risco, em um contexto de reorganização social e maior inserção feminina em espaços laborais e comportamentais tradicionalmente masculinizados9,13.
A distribuição de raça/cor/etnia observada nos casos deste estudo difere de alguns achados nacionais, nos quais os resultados são heterogêneos. Estudos nacionais indicam tanto maior frequência em indivíduos brancos14 quanto em indivíduos pretos15, refletindo variações regionais e sociodemográficas. No presente estudo, a maioria dos pacientes autodeclarou-se preta ou parda, resultado coerente com o perfil populacional da Bahia, Estado que concentra a maior proporção de população negra do país16. Esses dados reforçam a necessidade de análises que considerem determinantes sociais da saúde e desigualdades étnico-raciais, fatores que influenciam tanto a exposição a riscos quanto o acesso oportuno ao diagnóstico.
Além disso, evidências nacionais recentes indicam que indivíduos negros acometidos por câncer de boca e orofaringe apresentam desfechos clínicos piores, frequentemente associados a diagnóstico em estádios mais avançados e a barreiras estruturais no acesso aos serviços de saúde15. Em estudo realizado em Feira de Santana, o número de óbitos por câncer de boca foi mais elevado entre pardos e pretos17. Esses achados sugerem que a maior frequência da doença em pessoas pretas e pardas neste estudo pode refletir não apenas a composição populacional local, mas também a persistência de iniquidades no cuidado em saúde.
Outro achado relevante refere-se ao município de procedência dos pacientes. Embora a maioria dos casos tenha sido registrada entre residentes de Feira de Santana, observou-se que aproximadamente 46,9% dos pacientes eram provenientes de outros municípios, ainda que dispersos e representados por pequenas frequências individuais (menos de cinco casos por localidade). Esse padrão indica que, mesmo sem designação formal como serviço de referência, o CRLB vem sendo utilizado, na prática, como apoio diagnóstico especializado por diversos municípios do interior, possivelmente em decorrência da insuficiência de serviços locais voltados à detecção e manejo das lesões bucais. A concentração dessa demanda em um único serviço universitário pode contribuir para sobrecarga assistencial, atrasos no diagnóstico e barreiras de acesso, especialmente para pacientes oriundos de localidades mais distantes2.
A elevada frequência de tabagismo (68,5%) e etilismo (57,7%) entre os pacientes analisados reafirma a centralidade desses comportamentos como fatores de risco clássicos para o CCE, especialmente na cavidade oral2,5,18. Ainda que essa neoplasia tenha etiologia multifatorial, a exposição combinada ao álcool e ao tabaco potencializa o risco de transformação maligna por mecanismos sinérgicos de dano ao epitélio do trato aerodigestivo superior. A persistência dessas práticas em segmentos populacionais vulneráveis exige reforço das políticas de controle do tabaco e do uso de bebida alcoólica, aliadas a estratégias educativas e de rastreamento ativo em nível local.
Em relação ao perfil ocupacional, verificou-se que 73,6% dos pacientes desempenhavam atividades laborais em ambientes externos, como agricultura, o que os expõe cronicamente à radiação ultravioleta — um fator de risco diretamente implicado na etiopatogenia do CCE, sobretudo labial19. Estudos conduzidos na Região Nordeste, como o de Nogueira et al.20, apontam que trabalhadores rurais frequentemente possuem baixa escolaridade, extensas jornadas laborais e acesso limitado a medidas de proteção individual, como o uso de protetor solar. No presente estudo, a maioria dos indivíduos expostos à radiação solar referiu não adotar medidas fotoprotetoras, o que favorece o desenvolvimento de condições potencialmente malignas, como a queilite actínica, precursora frequente do carcinoma labial, sobretudo em indivíduos de pele clara5,6,21.
A frequência de câncer de lábio encontrada no presente estudo situa-se acima das estimativas globais, que apontam esse sítio como responsável por cerca de 4% dos tumores de lábio, cavidade oral e faringe, porém inferior à observada em algumas séries clínicas, nas quais pode representar entre 20% e 30% dos cânceres bucais22. Também difere dos achados de Silva, Leão e Scarpel23 que, ao levantarem o perfil da população com Câncer de Boca e Orofaringe do Hospital Aristides Maltez em Salvador – BA, no período de junho a dezembro de 2007, encontraram apenas 0,9% dos casos em lábio23. Essa variação reforça a influência de fatores regionais, especialmente a exposição ocupacional à radiação solar associada a práticas insuficientes de fotoproteção, reconhecidamente associada ao câncer de lábio. Ademais, por se tratar de uma localização mais visível, é possível que haja maior procura por atendimento ou encaminhamento, influenciando sua representatividade na casuística.
Esse cenário sugere que, em contextos como o do semiárido baiano, o câncer de lábio pode assumir maior relevância epidemiológica, não apenas pela presença dos fatores de risco já descritos, mas pela forma como se distribuem em grupos populacionais específicos. A concentração de casos em indivíduos inseridos em determinadas atividades laborais indica a necessidade de abordagens mais direcionadas, que considerem as particularidades ocupacionais e sociais desses grupos. Nesse sentido, os achados reforçam a importância de estratégias integradas que articulem vigilância, educação em saúde e qualificação da atenção primária, com foco na identificação precoce de lesões labiais e na redução de iniquidades no acesso ao cuidado.
Outro dado preocupante refere-se ao tempo de evolução das lesões: 93,9% dos casos apresentavam lesões com mais de 15 dias de duração, o que pode indicar atrasos na busca por atendimento, falhas na detecção precoce pela Atenção Primária à Saúde ou dificuldades no acesso ao CRLB. Este cenário reforça a importância de capacitação contínua das equipes de saúde bucal, especialmente na atenção básica, e a necessidade de fortalecimento dos fluxos de referência e contrarreferência.
A distribuição do tamanho das lesões evidencia predominância de tumores com menos de 2 cm, o que pode indicar a ocorrência de diagnóstico precoce em uma parte dos casos. Esse achado é particularmente relevante, uma vez que lesões menores estão associadas a melhor prognóstico, a tratamentos menos invasivos e ao menor impacto funcional e estético para o paciente. Do ponto de vista do sistema de saúde, o diagnóstico precoce também contribui para a redução da complexidade terapêutica e dos custos assistenciais.
Apesar do aspecto positivo desse achado, a presença de uma proporção considerável de lesões com dimensões superiores a 4 cm, compatíveis com tumores T3, evidencia a persistência de diagnósticos tardios24. Esse cenário sugere que o diagnóstico precoce não ocorre de forma homogênea, refletindo fragilidades em diferentes níveis do cuidado. Entre os fatores que podem contribuir para esse atraso, destacam-se o baixo nível de conhecimento da população sobre os sinais e sintomas iniciais do câncer bucal e das Desordens Orais Potencialmente Malignas (DOPM), o medo do diagnóstico, além de barreiras de acesso aos serviços de saúde25–27.
Soma-se a isso a necessidade de maior preparo dos profissionais da odontologia para o reconhecimento precoce dessas alterações. Evidências locais reforçam essa problemática por meio do estudo realizado por Falcão28, que evidenciou importantes lacunas no conhecimento de cirurgiões-dentistas em Feira de Santana, onde 21,1% dos participantes negaram a realização das manobras de semiotécnica do câncer de boca no exame clínico inicial e 69,5% não se sentiam preparados para realizar o diagnóstico de câncer bucal. Esses achados indicam que limitações na formação e na segurança clínica dos profissionais podem comprometer o reconhecimento das DOPM e do câncer bucal, consequentemente, o encaminhamento dos casos suspeitos28.
Adicionalmente, mesmo diante da predominância de lesões menores que 2 cm nesse estudo, cabe problematizar se essa frequência representa, de fato, um cenário ideal de detecção precoce ou se ainda há subdiagnóstico de lesões iniciais na Rede de Atenção à Saúde. Essa reflexão aponta para a necessidade de fortalecimento das ações na atenção primária, com ênfase na qualificação profissional, na ampliação do acesso à avaliação especializada e no desenvolvimento de estratégias educativas voltadas à população, visando à valorização de sinais iniciais e à busca precoce por atendimento.
Os resultados também suscitam reflexões sobre a necessidade de qualificação dos mecanismos de regulação e vigilância em saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente no que se refere à integração entre os diferentes níveis de atenção. A concentração dos diagnósticos em um serviço de referência reforça o papel desses pontos como estruturantes da linha de cuidado, mas também indica possíveis fragilidades na detecção precoce em níveis assistenciais mais descentralizados. Adicionalmente, o perfil de hábitos de vida observado, com predominância de indivíduos tabagistas e etilistas, pode sugerir situação de maior vulnerabilidade, apontando para a importância da incorporação de estratégias orientadas pela equidade, com ações territorializadas e sensíveis às desigualdades sociais. Nesse sentido, o fortalecimento da vigilância em saúde, aliado ao aprimoramento dos fluxos de regulação e ao uso de dados epidemiológicos locais para planejamento, pode contribuir para maior efetividade das ações de controle do câncer de boca no contexto do SUS.
Este estudo apresenta pontos relevantes, entre eles a abrangência temporal extensa (16 anos), a análise censitária de todos os casos com diagnóstico histopatológico confirmado de CCE e a padronização da coleta e análise dos dados com alta confiabilidade inter e intraexaminadores. Tais características conferem robustez metodológica à descrição do perfil dos pacientes e à validade dos achados. Além disso, por se tratar de um serviço de referência com papel central na microrregião, os dados refletem parte significativa da demanda espontânea por diagnóstico especializado no semiárido baiano, contribuindo para preencher lacunas na literatura sobre câncer bucal em contextos interioranos e de vulnerabilidade social.
Entre as limitações, destaca-se o uso de dados secundários, que pode estar sujeito a sub-registro e informações clínicas e sociodemográficas incompletas nos prontuários físicos. Além disso, o delineamento transversal impossibilita estabelecer relações causais entre as variáveis analisadas. Por fim, a ausência de dados sobre estadiamento clínico ou evolução pós-diagnóstico limita a análise prognóstica da amostra estudada. Ainda assim, os resultados obtidos constituem um retrato relevante da realidade assistencial em saúde bucal oncológica da Região.
Embora esse estudo não tenha incluído, como variável de análise, o acompanhamento dos pacientes após o diagnóstico, destaca-se que os casos confirmados no serviço são rotineiramente encaminhados para unidades de maior complexidade para tratamento oncológico, como as Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), bem como para serviços de referência no Estado da Bahia, a exemplo da Organização Social Irmã Dulce (OSID) e do Hospital Aristides Maltez (HAM). Esse fluxo assistencial evidencia a inserção do serviço na rede de atenção oncológica e sua atuação como ponto de diagnóstico e ordenamento do cuidado. Ademais, os desfechos relacionados ao itinerário terapêutico dos pacientes vêm sendo investigados em estudo específico desenvolvido pelo grupo de pesquisa, o que poderá contribuir para a compreensão mais abrangente da continuidade do cuidado após o diagnóstico.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo permitem caracterizar o perfil clínico e epidemiológico dos pacientes com CCE atendidos no CRLB/Uefs entre 2008 e 2024, evidenciando predomínio de homens adultos, com baixa escolaridade, exposição ocupacional ao sol e hábitos de risco como tabagismo e etilismo. Diante disso, recomenda-se o fortalecimento da atenção primária à saúde com foco na identificação precoce de lesões suspeitas, capacitação contínua dos profissionais da Estratégia Saúde da Família e implementação de ações educativas voltadas a populações vulneráveis, especialmente trabalhadores rurais. A descentralização dos serviços especializados e o reforço da vigilância em saúde bucal são estratégias fundamentais para reduzir atrasos diagnósticos e melhorar os desfechos clínicos na Região.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todos os conteúdos subjacentes ao texto do artigo estão contidos no manuscrito.
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Editora associada:
Caroline Madalena Ribeiro. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0003-2690-5791
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Editora-científica:
Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777
