Open-access Prontidão Organizacional para Implementação da Linha de Cuidado do Câncer de Boca em Mato Grosso do Sul

RESUMO

Introdução:  A prontidão organizacional é essencial para o êxito de intervenções em saúde, especialmente quando implicam mudanças em práticas assistenciais. Este estudo avaliou a prontidão organizacional para a implementação da Linha de Cuidado do Câncer de Boca em Mato Grosso do Sul, utilizando o questionário Organizational Readiness for Implementing Change, versão brasileira (ORIC-Br), e analisou o potencial do aplicativo TeleEstomato/MS como ferramenta de suporte.

Objetivo:  Avaliar a prontidão organizacional de gestores e cirurgiões-dentistas da Atenção Primária à Saúde das quatro Macrorregiões do Estado antes e após uma intervenção educativa estruturada.

Método:  A pesquisa foi conduzida com gestores e cirurgiões-dentistas da Atenção Primária à Saúde das quatro Macrorregiões do Estado. Aplicou-se o questionário ORIC-Br nas fases pré e pós-capacitação, fundamentadas no consenso Expert Recommendation for Implementing Change (ERIC).

Resultados:  Verificou-se elevada prontidão organizacional inicial, com cerca de 83% de respostas positivas nos domínios de comprometimento e eficácia coletiva. Após a capacitação, os escores reduziram para aproximadamente 68%, sugerindo maior reconhecimento das equipes sobre desafios operacionais e consequente reavaliação de sua prontidão.

Conclusão:  A Linha de Cuidado do Câncer de Boca apresentou alta prontidão organizacional inicial para implementação em Mato Grosso do Sul. A redução no pós-teste indica que a intervenção aprofundou a compreensão das barreiras práticas, ajustando a percepção das equipes quanto à capacidade de implementação. Os resultados reforçam a importância de estratégias adaptativas e suporte contínuo para consolidar a implementação no contexto estadual.

Palavras-chave:
Gestão em Saúde; Neoplasias Bucais; Ciência da Implementação; Atenção Primária à Saúde

ABSTRACT

Introduction:  Organizational readiness is essential for the success of health interventions, especially when they involve changes in care practices. This study evaluated the organizational readiness for implementing the Oral Cancer Care Pathway in Mato Grosso do Sul using the Brazilian version of the Organizational Readiness for Implementing Change questionnaire (ORIC-Br) and analyzed the potential of the TeleEstomato/MS application as a support tool.

Objective:  To assess the organizational readiness of Primary Health Care managers and dentists from the four macro-regions of the state before and after a structured educational intervention.

Method:  The study was conducted with managers and dentists from Primary Health Care across the four macro-regions of the state. The ORIC-Br questionnaire was applied in the pre- and post-training phases, based on the Expert Recommendations for Implementing Change (ERIC) consensus.

Results:  High initial organizational readiness was observed, with approximately 83% positive responses in the domains of commitment and collective efficacy. After the training, scores decreased to around 68%, suggesting increased recognition by teams of operational challenges and a consequent reassessment of their readiness.

Conclusion:  The Oral Cancer Care Pathway demonstrated high initial organizational readiness for implementation in Mato Grosso do Sul. The reduction in post-test scores indicates that the intervention deepened the understanding of practical barriers, adjusting teams’ perceptions of their implementation capacity. The results reinforce the importance of adaptive strategies and continuous support to consolidate implementation within the state context.

Key words:
Health Management; Mouth Neoplasms; Implementation Science; Primary Health Care

RESUMEN

Introducción:  La preparación organizacional es esencial para el éxito de las intervenciones en salud, especialmente cuando implican cambios en las prácticas asistenciales. Este estudio evaluó la preparación organizacional para la implementación de la Línea de Cuidado del Cáncer Bucal en Mato Grosso del Sur utilizando la versión brasileña del cuestionario Organizational Readiness for Implementing Change (ORIC-Br) y analizó el potencial de la aplicación TeleEstomato/MS como herramienta de apoyo.

Objetivo:  Evaluar la preparación organizacional de los gestores y odontólogos de la Atención Primaria de Salud de las cuatro macrorregiones del estado antes y después de una intervención educativa estructurada.

Método:  El estudio se llevó a cabo con gestores y odontólogos de la Atención Primaria de Salud en las cuatro macrorregiones del estado. El cuestionario ORIC-Br se aplicó en las fases pre y poscapacitación, fundamentadas en el consenso Expert Recommendations for Implementing Change (ERIC).

Resultados:  Se observó una alta preparación organizacional inicial, con aproximadamente un 83% de respuestas positivas en los dominios de compromiso y eficacia colectiva. Tras la capacitación, los puntajes disminuyeron a un 68%, lo que sugiere un mayor reconocimiento por parte de los equipos de los desafíos operativos y una reevaluación consecuente de su preparación.

Conclusión:  La Línea de Cuidado del Cáncer Bucal mostró una alta preparación organizacional inicial para su implementación en Mato Grosso del Sur. La reducción en los puntajes posteriores a la intervención indica que esta profundizó la comprensión de las barreras prácticas, ajustando la percepción de los equipos sobre su capacidad de implementación. Los resultados refuerzan la importancia de estrategias adaptativas y de un apoyo continuo para consolidar la implementación en el contexto estatal.

Palabras clave:
Gestión en Salud; Neoplasias de la Boca; Ciencia de la Implementación; Atención Primaria de Salud

INTRODUÇÃO

A prontidão organizacional para a implementação de mudanças em serviços de saúde foi reconhecida como um fator crítico para o êxito dessas transformações, especialmente quando envolveu a incorporação de inovações em políticas públicas e em linhas de cuidado específicas1,2. Esse constructo é avaliado com base nos domínios de comprometimento e eficácia coletiva, que refletem, respectivamente, o grau de engajamento dos membros da organização com a mudança proposta e sua confiança na capacidade coletiva de implementá-la3,4.

No Brasil, a Atenção Primária à Saúde (APS), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), tem buscado qualificar sua resposta às condições crônicas e às necessidades prioritárias da população, com ênfase em agravos de elevada carga de morbimortalidade, como o câncer bucal5. Essa neoplasia constitui um importante problema de saúde pública, apresentando elevada incidência entre homens com mais de 40 anos, especialmente em grupos social e etnicamente vulnerabilizados5. As ações voltadas à prevenção e ao controle do câncer bucal abrangem a promoção da saúde, a prevenção de fatores de risco, a detecção precoce, o tratamento oportuno e os cuidados paliativos. Entretanto, a detecção precoce ainda é limitada por fragilidades na articulação entre os níveis de atenção, ausência de fluxos assistenciais bem definidos e lacunas na capacitação dos profissionais da APS6.

Nesse contexto, a linha de cuidado configura-se como uma estratégia fundamental para a qualificação da atenção à saúde, ao articular múltiplos serviços por meio de pactuação entre os diversos atores envolvidos, tendo o usuário como elemento central do processo de produção do cuidado. Essa abordagem busca superar a fragmentação dos serviços, por meio da organização de fluxos assistenciais, garantindo integralidade7, acesso e resolutividade das ações de saúde. Para sua efetivação, além dos pontos de atenção primário, secundário e terciário, torna-se essencial a organização dos sistemas de apoio, dos sistemas logísticos e dos sistemas de governança, que envolvem atores, mecanismos e processos de gestão compartilhada da rede, conforme proposto por Cecílio e Merhy7.

Como parte das estratégias voltadas ao fortalecimento de componentes específicos dessa linha de cuidado, destaca-se a incorporação do aplicativo TeleEstomato/MS, uma ferramenta digital de telessaúde desenvolvida para apoiar a triagem, a teleconsultoria, o apoio ao diagnóstico e o encaminhamento de casos suspeitos de câncer bucal no âmbito da APS. O uso do aplicativo visa qualificar a comunicação entre profissionais da APS e serviços especializados, contribuindo para maior agilidade e resolutividade no cuidado, sem, contudo, esgotar o conceito de Linha de Cuidado, que pressupõe coordenação assistencial e cuidado integral em Redes de Atenção à Saúde. Nesse sentido, os laboratórios públicos de patologia oral, incluindo aqueles vinculados a universidades públicas, desempenham papel estratégico no suporte diagnóstico ao SUS8, reforçando a importância de sua integração aos fluxos assistenciais e às ferramentas de apoio tecnológico, como o TeleEstomato/MS.

Para avaliar a capacidade das equipes da APS na implementação da Linha de Cuidado do Câncer de Boca em Mato Grosso do Sul (LCCB-MS) e incorporar essa inovação organizacional e os elementos tecnológicos vinculados a ela, foi utilizado o questionário Organizational Readiness for Implementing Change, versão brasileira (ORIC-Br), instrumento validado no Brasil para mensurar a prontidão organizacional para mudanças, adaptado ao contexto da atenção primária9. Assim, analisar a melhor abordagem para qualificar a força de trabalho tornou-se uma etapa fundamental para reduzir a discrepância entre os níveis de desempenho atuais e os desejados nos serviços de saúde.

Este estudo tem como objetivo analisar a prontidão organizacional para a implementação da LCCB-MS, com base nos domínios de comprometimento e eficácia coletiva do ORIC-Br, considerando o TeleEstomato/MS, articulado ao laboratório público de patologia oral, como componente estratégico da inovação em saúde digital.

MÉTODO

Estudo longitudinal visando avaliar a prontidão organizacional para a implementação da LCCB-MS. Esta busca organizar e regionalizar a atenção integral na Rede de Atenção à Saúde, garantindo acesso oportuno, diagnóstico precoce, regulação e tratamento em todos os níveis de atenção. Também prioriza protocolos clínicos, biópsias e monitoramento qualificado, com apoio de tecnologias para agilizar o cuidado aos casos suspeitos e confirmados. A estratégia de implementação adotada foi a de educação de partes interessadas, conforme descrito no consenso Expert Recommendation for Implementing Change (ERIC)9.

O estudo utilizou o questionário ORIC-Br para avaliar a prontidão organizacional para a implementação de mudanças, instrumento validado para o contexto brasileiro9. O ORIC-Br consiste em 11 itens distribuídos em 2 domínios principais: comprometimento e eficácia coletiva9. O comprometimento é definido como a mentalidade que vincula o indivíduo ao curso da ação proposta, enquanto a eficácia coletiva representa a crença compartilhada pelos membros de uma organização em sua capacidade conjunta de organizar e executar as ações necessárias à mudança1. As respostas foram registradas em uma escala de Likert de 5 pontos, variando de 1 (discordo) a 5 (concordo). O instrumento avaliou a prontidão organizacional em uma perspectiva supraindividual, mensurando a percepção dos profissionais sobre a equipe envolvida na implementação de inovações9.

O questionário foi aplicado em dois momentos distintos: imediatamente antes do início e ao término de uma intervenção educativa voltada à apresentação e discussão dos conceitos, da abrangência e da resolução de problemas relacionados à LCCB-MS. A intervenção ocorreu nos dias 29 e 30 de maio de 2025, por meio de uma oficina direcionada aos coordenadores municipais de saúde bucal e aos cirurgiões-dentistas envolvidos no atendimento de pessoas com câncer de boca. A oficina teve como objetivo sensibilizar e qualificar os profissionais para a adoção de práticas inovadoras na Rede de Atenção à Saúde, com ênfase na integração de ferramentas digitais aos fluxos assistenciais. Essa intervenção caracterizou-se como uma estratégia de educação de partes interessadas, envolvendo dentistas e gestores das quatro Macrorregiões de saúde do Mato Grosso do Sul, fundamentada no consenso ERIC9.

A coleta de dados foi realizada de forma presencial, durante o encontro promovido no âmbito da capacitação, garantindo que os participantes estivessem imersos no contexto da proposta pedagógica. Essa abordagem permitiu captar, de forma mais precisa, a percepção dos profissionais em relação à prontidão organizacional para a mudança, considerando tanto os aspectos subjetivos do comprometimento quanto a percepção coletiva da eficácia da equipe. A comparação entre os dois momentos de aplicação possibilitou avaliar eventuais alterações na disposição dos profissionais para a adoção de inovações e identificar potenciais barreiras e facilitadores à incorporação de novas tecnologias nos serviços de saúde bucal.

A capacitação foi estruturada em formato híbrido, combinando oficinas presenciais, discussões em pequenos grupos e atividades práticas. A condução da atividade seguiu a metodologia participativa The World Café10, estruturada em quatro rodadas de discussões temáticas, com o objetivo de promover a reflexão coletiva e o compartilhamento de experiências entre profissionais da Rede de Atenção à Saúde Bucal de diferentes Regiões de Saúde do Estado de Mato Grosso do Sul.

Em relação à seleção dos participantes, para a oficina educativa foram convidados os 79 coordenadores municipais de saúde bucal e 79 cirurgiões-dentistas, correspondentes a um profissional de cada município que realiza a triagem ou acompanha pacientes com câncer de boca. Dessa forma, a amostra caracteriza-se como por conveniência, composta pelos profissionais que puderam se deslocar até a capital do Estado para participar da oficina. Essa abordagem permitiu engajar representantes de todas as Macrorregiões de Mato Grosso do Sul, embora o tamanho da amostra tenha sido condicionado à disponibilidade dos profissionais em participar presencialmente, considerando a extensão territorial do Estado. Os participantes foram organizados em grupos e distribuídos em mesas temáticas, cada uma com um anfitrião fixo responsável por conduzir o debate a partir de perguntas norteadoras. A cada rodada, os participantes trocavam de estação, circulando entre as mesas temáticas com o objetivo de estimular a diversidade de ideias e o intercâmbio de diferentes vivências regionais10.

As discussões foram organizadas em quatro estações, que abordaram os seguintes eixos temáticos: (1) Componentes de uma linha de cuidado; (2) Papel dos pontos de atenção da rede; (3) Monitoramento e avaliação; e (4) Elaboração do plano de ação. As discussões abrangeram aspectos como a LCCB-MS no contexto da APS, os fluxos de atendimento e regulação, o papel do TeleEstomato/MS como ferramenta de apoio ao diagnóstico, triagem e encaminhamento, as barreiras e facilitadores para a integração da tecnologia na rotina dos serviços, além das práticas colaborativas entre equipes da APS e especialistas em saúde bucal.

Durante as rodadas, os grupos registraram as informações relevantes em cartões coloridos e painéis, enquanto a quarta rodada foi dedicada à elaboração de um plano de ação regionalizado, com apoio de seus respectivos apoiadores. A dinâmica foi encerrada com uma plenária, na qual os principais achados foram apresentados coletivamente. Essa abordagem metodológica possibilitou uma construção colaborativa do conhecimento e a sistematização de estratégias aplicáveis à realidade local, fortalecendo o papel da APS na LCCB-MS e promovendo a integração entre os níveis de atenção.

Como parte das atividades práticas, os participantes também realizaram simulações do uso do aplicativo TeleEstomato/MS, ferramenta digital voltada à triagem, teleconsulta, apoio ao diagnóstico e encaminhamento de casos suspeitos, associada ao laboratório público11 de patologia oral da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Essa experiência permitiu o manuseio da ferramenta em situações clínicas simuladas e a identificação de oportunidades de melhoria na integração do recurso digital aos fluxos de trabalho existentes.

O responsável pela análise realizou as análises estatísticas com base em médias, proporções e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) para os escores dos domínios e itens do ORIC-Br9, comparou os resultados pré e pós a estratégia de implementação de educação de partes interessadas para avaliar possíveis mudanças na percepção de prontidão organizacional9 e calculou médias e IC 95% para os escores obtidos nos domínios de comprometimento e eficácia coletiva do ORIC-Br, nos momentos pré e pós-intervenção.

O estudo realizou, além da análise descritiva tradicional, uma avaliação complementar, considerando como ponto de corte a resposta mínima de 4 na escala de Likert (correspondente às opções "concordo um pouco" e "concordo"), adotada como critério de prontidão organizacional inicial9. O estudo definiu que, para indicar uma equipe potencialmente pronta para implementar a inovação, ao menos 50% dos participantes deveriam marcar essa pontuação ou superior em cada item do instrumento10. A avaliação permitiu identificar em quais dimensões havia maior alinhamento entre os profissionais e em quais ainda persistiam resistências ou incertezas quanto à mudança proposta.

O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMS sob o número de parecer 6932602 (CAAE: 80683924.8.0000.0021), conforme as diretrizes e normas para pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil Resolução n.º 466/1212.

RESULTADOS

A amostra foi composta por 58 cirurgiões-dentistas da Rede de Atenção à Saúde Bucal, distribuídos nas quatro Macrorregiões do Estado, na fase pré-capacitação. Desse total, 16 exerciam funções de gestão e 42 atuavam diretamente na assistência. Na fase pós-capacitação, participaram 47 cirurgiões-dentistas da Rede de Atenção à Saúde Bucal, dos quais 14 desempenhavam funções de gestão e 33 atuavam na assistência.

A Tabela 1 apresenta as médias dos escores nos domínios Comprometimento e Eficácia Coletiva do instrumento ORIC-Br, antes e após a capacitação voltada à implementação da LCCB-MS, que incluiu o uso do aplicativo TeleEstomato/MS como uma inovação tecnológica de apoio à atenção primária. Embora se observe variação nas médias após a intervenção, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os períodos pré e pós.

Tabela 1
Domínios Comprometimento e Eficácia: LCCB, Mato Grosso do Sul

A Tabela 2 apresenta a proporção de participantes com média de respostas igual ou superior a 4, por domínio. Os resultados indicam redução significativa nas proporções de comprometimento e eficácia organizacional após a intervenção (de 82,8% para 68,1% e de 84,5% para 68,1%, respectivamente).

Tabela 2
Proporção Comprometimento e Eficácia LCCB, Mato Grosso do Sul

A Tabela 3 detalha a proporção de respostas favoráveis (escores 4 e 5) por item do ORIC-Br. Os resultados mostram que, apesar das proporções iniciais elevadas, indicando otimismo quanto à prontidão organizacional, houve uma queda perceptível em vários itens após a capacitação, sobretudo no item 7 ("superar desafios"), cuja proporção caiu de 91,4% para 71,7%. Os resultados indicam variações nas percepções dos profissionais após o período de implementação, especialmente em itens relacionados à viabilidade e à execução das mudanças no cotidiano dos serviços. Esses achados podem refletir uma reavaliação das condições de implementação ao longo do processo, conforme a experiência prática com as ações propostas.

Tabela 3
Análise da proporção de cada questão ORIC-Br. LCCB, Mato Grosso do Sul

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo indicam uma prontidão organizacional inicial positiva entre gestores e cirurgiões-dentistas das quatro Macrorregiões de Mato Grosso do Sul para a implementação da LCCB-MS, refletida por escores elevados nos domínios de comprometimento e eficácia do ORIC-Br9. Essa percepção inicial otimista revela disposição para a mudança e expectativa positiva em relação à introdução de inovações, como o uso do aplicativo TeleEstomato/MS, ferramenta de teleconsultoria voltada ao suporte no diagnóstico e manejo de lesões no sistema estomatognático, associada a um laboratório de patologia oral público7.

A redução dos escores médios e das proporções de respostas positivas após a capacitação evidencia um movimento esperado em processos de mudança organizacional: à medida que os profissionais tomam contato direto com os desafios práticos da implementação, como o uso de novas tecnologias e a reorganização de fluxos, suas percepções tornam-se mais realistas e críticas13,14. Itens relacionados à confiança da equipe em superar obstáculos, à coordenação de tarefas e à manutenção do ritmo da mudança apresentaram variações nas médias, refletindo possíveis inseguranças quanto à viabilidade de sustentar a inovação no cotidiano dos serviços13. Ainda assim, as médias permaneceram acima de quatro, indicando que a disposição para a mudança não foi comprometida, mas ajustada diante da complexidade do processo.

A capacitação desempenhou papel central ao dar visibilidade às barreiras estruturais e operacionais, sobretudo no uso do TeleEstomato/MS, como limitações na infraestrutura digital, dúvidas quanto ao fluxo com especialistas e dificuldades de articulação com a atenção especializada e vigilância em saúde. Dessa forma, torna-se necessário implementar programas de formação destinados a superar barreiras estruturais e operacionais14, auxiliando os profissionais a reconhecerem e enfrentarem os desafios práticos impostos pela utilização e aplicabilidade da Linha de Cuidado.

Além disso, os resultados apontam para a importância de estratégias de implementação que não se limitem à capacitação pontual. É necessário construir um ambiente de suporte contínuo para as estratégias e os profissionais envolvidos15, com monitoramento de indicadores, pactuação clara de fluxos entre os níveis de atenção e fortalecimento das redes de apoio diagnóstico, especialmente os serviços públicos de patologia voltados ao diagnóstico bucal. O uso do TeleEstomato/MS, quando articulado com esses elementos, pode não apenas viabilizar a detecção precoce de câncer bucal, mas também promover mudanças estruturantes na organização do cuidado16, sendo esse um dos principais objetivos da criação da linha voltada ao câncer de boca.

Um estudo piloto realizado em unidades públicas de atenção primária na África do Sul, utilizando a versão original do instrumento ORIC para avaliar a prontidão organizacional na implementação do programa de distribuição de medicamentos, demonstrou que pontuações mais altas estavam associadas a fatores como recursos disponíveis, percepção de valor do programa, satisfação do usuário e taxa de vínculo ao cuidado após o teste positivo para HIV, embora não se relacionassem diretamente com o nível efetivo de implementação do programa15. Em um estudo australiano17, avaliou-se a prontidão organizacional para implementar um novo modelo de cuidado obstétrico em zonas rurais, utilizando o instrumento ORIC aplicado a equipes de parteiras, enfermeiras e médicos. A média geral do escore foi de 41,5 em 60 pontos, indicando uma prontidão moderada a alta, com maior aderência às afirmações relacionadas à eficácia coletiva e ao comprometimento com a mudança. Apesar desse nível de prontidão, o estudo não encontrou correlação direta com os resultados da implementação real do modelo de atendimento, sugerindo que uma elevada prontidão não garante, por si só, o sucesso operacional.

Essa constatação dialoga com os resultados observados na implementação do TeleEstomato/MS para a LCCB-MS, onde, apesar da prontidão inicial elevada medida pelo ORIC-Br, houve redução dos escores após a capacitação, especialmente em itens relacionados à confiança para superar desafios, coordenação de tarefas e ritmo do processo, indicando que a percepção de prontidão depende fortemente do contexto de suporte, recursos e conhecimento prático das equipes18. Essa comparação entre estudos sobre prontidão organizacional evidencia que, em qualquer contexto, a prontidão organizacional é um constructo dinâmico e fortemente influenciado pelo grau de alinhamento entre percepção individual, recursos disponíveis e apoio institucional ao longo do tempo19.

Vale destacar que houve uma redução no número de participantes entre o pré-teste (58 profissionais) e o pós-teste (47 profissionais), caracterizando uma perda amostral de 11 indivíduos. Embora essa diminuição possa potencialmente gerar viés de seleção, a análise mostrou que a composição dos grupos manteve proporcionalidade em relação à distribuição pelas Macrorregiões de saúde. Dessa forma, a comparabilidade entre pré e pós-teste foi preservada, permitindo a interpretação dos resultados. Contudo, reconhece-se que a perda amostral limita a generalização dos achados, sendo considerada uma limitação do estudo.

Nesse contexto, o TeleEstomato/MS destaca-se não apenas como ferramenta tecnológica, mas como componente estratégico para mitigar fragilidades e fortalecer a prontidão organizacional20. O serviço, ao oferecer suporte técnico, triagem qualificada e integração entre níveis de atenção, pode reverter percepções de insegurança e promover maior eficácia coletiva7. O uso do ORIC-Br mostrou-se útil para identificar tais variações e orientar ajustes nas estratégias de gestão da mudança. Os resultados, ao refletirem a prontidão organizacional percebida, indicam a relevância de estratégias estruturadas de apoio à mudança, cuja efetividade deverá ser investigada em estudos futuros que avaliem a implementação propriamente dita e seus desfechos.

CONCLUSÃO

A análise dos resultados evidenciou elevada prontidão organizacional inicial para a implementação da LCCB-MS, à luz dos dois domínios avaliados pelo instrumento ORIC-Br: comprometimento e eficácia coletiva. Esses domínios, que estruturam integralmente a escala utilizada, permitiram analisar tanto o engajamento dos profissionais diante da mudança proposta quanto a percepção compartilhada sobre a capacidade coletiva da equipe para implementá-la.

  • FONTES DE FINANCIAMENTO
    Financiado parcialmente pela UFMS. Rafael Aiello Bomfim é bolsista de produtividade (PQ) da Fundect/CNPq.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todos os conteúdos subjacentes ao texto do artigo estão contidos no manuscrito.

AGRADECIMENTOS

À Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES/MS) e à UFMS pelo apoio institucional.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Dez 2025
  • Aceito
    09 Mar 2026
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