Open-access Anafilaxia perioperatória

Resumo

ANTECEDENTES E OBJETIVO:  A anafilaxia continua sendo uma das causas potenciais de morte perioperatória, pois geralmente não é prevista e evolui rapidamente para uma situação ameaçadora da vida. Uma revisão da anafilaxia perioperatória é feita.

CONTEÚDO:  O exames diagnósticos são importantes principalmente para evitar eventos posteriores. Os pilares do tratamento são a adrenalina e os líquidos intravenosos.

CONCLUSÃO:  O anestesiologista deve estar familiarizado com o diagnóstico oportuno, manejo e monitoramento da anafilaxia perioperatória.

Anafilaxia; Hipersensibilidade; Anestesia; Período perioperatório; Terapêutica


Abstract

BACKGROUND AND OBJECTIVE:  Anaphylaxis remains one of the potential causes of perioperative death, being generally unanticipated and quickly progress to a life threatening situation. A narrative review of perioperative anaphylaxis is performed.

CONTENT:  The diagnostic tests are primarily to avoid further major events. The mainstays of treatment are adrenaline and intravenous fluids.

CONCLUSION:  The anesthesiologist should be familiar with the proper diagnosis, management and monitoring of perioperative anaphylaxis.

Anaphylaxis; Hypersensitivity; Anesthesia; Perioperative period; Treatment


Resumen

ANTECEDENTES Y OBJETIVO:  La anafilaxia sigue siendo una de las causas potenciales de muerte perioperatoria por ser generalmente no anticipada, y progresar rápidamente a una situación amenazante de la vida. Se realiza una revisión de la anafilaxia perioperatoria.

CONTENIDO:  Las pruebas diagnósticas son importantes principalmente para evitar eventos posteriores. Los pilares del tratamiento son la adrenalina y los líquidos intravenosos.

CONCLUSIÓN:  El anestesista debe estar familiarizado con el diagnóstico oportuno, manejo y seguimiento de la anafilaxia perioperatoria.

Anafilaxia; Hipersensibilidad; Anestesia; Perioperatorio; Tratamiento


Introdução

As reações de hipersensibilidade imediata ocorrem em uma de cada 5.000 a 10.000 anestesias.1 A variabilidade ocorre pois se baseia em estudos retrospectivos com uma incidência calculada de acordo com informações voluntárias e o número de anestesias feitas, o que torna o subregistro2 muito possível. São alérgicas 60% das reações de hipersensibilidade perioperatórias, com uma mortalidade de 3-9%.3 Neste texto revisamos a etiologia, sintomatologia, o diagnóstico e tratamento da anafilaxia perioperatória com algumas recomendações finais. Esta revisão não se concentra na anafilaxia ao látex.

Metodologia

Foi feita uma pesquisa da literatura em PubMed, Lilacs e Google Scholar, sem restrição de data nem de tipos de artigo; no PubMed foram empregados os termos MeSH: anafilaxia, hipersensibilidade, anestesia, período perioperatório e tratamento. Foi usada a técnica "bola de neve".

Definição

A Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica define a anafilaxia como uma reação de hipersensibilidade generalizada ou sistêmica grave, que ameaça a vida.4 and 5 A anafilaxia perioperatória é uma reação sistêmica que ocorre durante a anestesia, minutos após a indução intravenosa (iv).6 and 7 No entanto, os agentes administrados por outras vias, como a clorexidina, o látex ou o azul de metileno, também podem provocar a reação depois de 15 min6 durante a manutenção da anestesia ou durante a recuperação pós-anestésica devido à absorção pela pele, pelas mucosas ou após remoção do torniquete.8

Tipos

A Organização Mundial de Alergia (OMA) propôs classificar a anafilaxia em imunológica e não imunológica.4 A anafilaxia imunológica inclui as reações mediadas por imunoglobulina (Ig) E, as mediadas por IgG e as mediadas por complexos imunes/complemento.4

Fisiopatologia da anafilaxia mediada por imunoglobulina E

Esse tipo de anafilaxia é uma reação sistêmica de hipersensibilidade imediata mediada por IgE, com liberação de mediadores pró-inflamatórios por mastócitos e basófilos.9 Os mediadores são histamina, triptase, citocinas, mediadores derivados dos fosfolipídeos, como prostaglandina D2, leucotrienos, tromboxano A2 e fator ativador de plaquetas que estão envolvidos na apresentação clínica.1 and 10 Os órgãos alvo são a pele, as membranas mucosas e os aparelhos respiratório, cardiovascular e gastrintestinal.1 and 10 Na anafilaxia a medicamentos mediada por IgE o contato prévio com o agente não é obrigatório e a sensibilização pode ocorrer por reatividade cruzada.1

A anafilaxia não imunológica é clinicamente indistinguível da anafilaxia mediada por IgE.11

Etiologia

O risco de anafilaxia aumenta com a frequência, a via de administração parenteral e o tempo de exposição ao antígeno específico.9 A tabela 1 apresenta os fatores de risco para o desenvolvimento de anafilaxia.3 Além disso, existem comorbidades e medicamentos que aumentam a gravidade dos sintomas e diminuem a resposta ao tratamento, como as cardiopatias, a doença pulmonar crônica, a cirurgia intracraniana recente e o hipertireoidismo.4

Tabela 1
Fatores que aumentam o risco de anafilaxia

Os principais agentes etiológicos da anafilaxia perioperatória são os bloqueadores neuromusculares, seguidos pelo látex e em seguida os antibióticos.12 , 13 , 14 , 15 and 16 A anafilaxia aos halogenados nunca foi relatada.14 As reações alérgicas aos anestésicos locais são muito raras.17 Outras substâncias que podem causar alergias imediatas no perioperatório são aprotinina, clorexidina, heparina, azul de metileno e anti-inflamatórios não esteroides.17 A anafilaxia aos bloqueadores neuromusculares pode ocorrer durante a primeira exposição,17 and 18 tem uma alta incidência de reações cruzadas entre os diferentes bloqueadores neuromusculares e é muito mais frequente em mulheres (2:1 a 8:1);18 o mais implicado é o suxametônio.17

Clínica

A apresentação clínica da anafilaxia caracteriza-se por sua variabilidade entre os pacientes e até no mesmo paciente de um episódio ao outro.19 A clínica de anafilaxia durante a anestesia pode ser mascarada ou confundida com hipovolemia, profundidade no plano anestésico e bloqueio regional extenso.6 , 10 and 20 O aumento da permeabilidade vascular em 35% nos primeiros 10 minutos e a resposta compensatória intrínseca com catecolaminas endógenas influenciam as manifestações clínicas.21 Os sinais iniciais mais comuns são ausência de pulso, dificuldade para ventilação e dessaturação.14 and 22 Outro sinal é a diminuição dos valores de dióxido de carbono expirado.14 and 23

Existe uma classificação da gravidade dos sintomas em graus de 1 a 5.24 O colapso cardiovascular perioperatório é o traço mais comum (88% dos casos) e o pior sinal.7 and 22 A anafilaxia pode chegar a ser fatal dentro dos primeiros 5-30 min de sua apresentação,25 and 26 com uma incidência de parada cardíaca de 10%.7 and 22 A isquemia miocárdica, o infarto agudo do miocárdio, as arritmias e a depressão miocárdica podem contribuir para a rápida deterioração hemodinâmica e parada cardíaca,27que ocorrem até antes de se administrar adrenalina.28 , 29 , 30 and 31

Os sintomas cutâneos, como enrijecimento, urticária e edema, são reconhecidos em 70% dos casos7 and 22 e durante anestesia podem estar escondidos pelos campos cirúrgicos.10

Dez a 14% das reações, principalmente as graves, afetam somente um sistema, fundamentalmente o colapso cardiovascular e o broncospasmo, o que faz com que em muitos casos se pense em outros diagnósticos.14 and 32 Além disso, a parada cardíaca é o único sinal presente na reação em 51,7% dos casos;33por isso, quando ocorre qualquer dos sinais anteriores, deve-se iniciar o protocolo de reações alérgicas.2

Outros sinais e sintomas são edema de língua, lábios e úvula, estridor, hipoxemia, incontinência, dor abdominal, náuseas, vômitos, rinorreia, dentre outros.4 É preciso considerar que a anestesia geral pode mascarar muitas manifestações. Em crianças, os sinais e sintomas cutâneos ocorrem na maioria dos casos, o broncoespasmo é a manifestação mais preocupante e a hipotensão e o choque não são comuns no início do quadro.8

Exames diagnósticos

O diagnóstico da anafilaxia é principalmente clínico.4 A falta de experiência, a ausência de visão do corpo do paciente e o uso variado de medicamentos durante a anestesia dificultam o estabelecimento de um diagnóstico oportuno.6 Existem alguns exames, como a dosagem de triptase, níveis de histamina e IgE, mas nenhum tem exatidão absoluta.8

Os exames cutâneos podem identificar o agente causal, mas são feitos depois do mês de apresentação da anafilaxia, o que restringe sua utilidade a evitar casos posteriores.10 and 34

Triptase

A triptase é uma serina protease que tem várias formas maiores.35 A concentração sérica de triptase decorrente da degranulação dos mastócitos é 300 a 700 vezes mais elevada que a liberada pelos basófilos.2 Uma elevação superior a 25 µg.L-1 é considerada um indicador de anafilaxia.2 Os níveis de triptase podem estar aumentados por outras doenças, como mastocitose sistêmica, síndrome de ativação de mastócitos ou doenças hematológicas.17 Por outro lado, um nível normal de triptase não descarta o diagnóstico de anafilaxia.2 and 4

A meia vida da triptase é de 120 min8 e os níveis voltam ao nível basal em 24 h.35 Pode haver falsos positivos por estresse grave, como traumatismo maior ou hipoxemia.8 A amostra deve ser coletada a partir de 15 min até 3 h do início dos sintomas4 e em 24 h.36 Coletam-se 5-10 mL de sangue coagulado36 juntando dados da história clínica37 e o horário de coleta da amostra em relação ao início da reação.10

Tratamento

O início precoce do tratamento é essencial na anafilaxia e poderia chegar a evitar encefalopatia hipóxico-isquêmica ou morte.38 O manejo é basicamente o mesmo em todas as idades, considerando-se o ajuste por peso nas crianças4. Os pilares do tratamento são a adrenalina e os líquidos IV.10

As intervenções na anafilaxia baseiam-se em recomendações de especialistas, já que estudos prospectivos, aleatórios, duplo cegos, controlados com placebo não podem ser feitos em condições imprevisíveis.19 and 39 Durante a anestesia, o paciente encontra-se monitorado e com acesso venoso.10 A equipe deve estar preparada para fazer várias tarefas simultaneamente;36 investigar as causas potenciais, como látex, clorexidina, hemoderivados, e manter a anestesia, se necessário, somente com halogenados.36 Solicitar ajuda, anotar a hora e informar ao cirurgião.34 and 36 O manejo avançado e rápido da via aérea é fundamental diante do desenvolvimento de edema laríngeo ou orofaríngeo.27 Deve-se administrar oxigênio a 100% e, em caso de não ser contraindicado, elevar os membros inferiores7 and 40 e administrar em adultos 500-1.000 mL de cristaloides7 em 10-20 min, em crianças bólus de 20 mL.kg-1, se forem necessários mais de 40 mL.kg-1adicionar suporte vasopressor,41 titulado para manter a pressão arterial sistólica acima de 90 mmHg em adultos,27 idealmente com monitoração invasiva da pressão arterial.41 A OMA recomenda o uso de solução salina normal, e não coloides.38

A adrenalina é o tratamento de escolha na anafilaxia5 por suas propriedades alfa e beta-agonistas, que resultam em vasoconstrição, aumento da resistência vascular periférica, diminuição do edema de mucosa, inotropismo, cronotropismo e broncodilatação.28 , 42 and 43 A dose de adrenalina IV varia de 10-200 µg a depender do comprometimento hemodinâmico do paciente e pode repetir-se a cada 1-2 min.17 Em crianças a dose é de 1 µg.kg-1.17 and 36

A via intramuscular pode ser empregada caso não haja acesso IV.36 A melhor aplicação é na face anterolateral do músculo médio, pois proporciona uma maior absorção, a cada 5 min, tanto em crianças como em adultos;44 dose de 0,5 mg em adultos.17

Nos pacientes que requerem bólus repetidos, deve-se iniciar infusão contínua a 0,05-0,1 µg.kg-1.min-1 e titular.10 , 45 and 46 Na tabela 2 há uma lista de controle do manejo agudo da anafilaxia.

Tabela 2
Primeira linha de tratamento

Os pacientes que usam betabloqueadores podem exigir doses altas de adrenalina por ter uma resposta precária; nesses casos deve-se adicionar noradrenalina à dose de 0,1 µg.kg-1.min-1.17Pode-se usar glucagon10 1-2 mg IV a cada 5 min,34 seguidos de 5-15 µg.min-1,17 vasopressina 2 a 10 UI IV de acordo com dose resposta,6 como se observa na tabela 3. Em crianças não se recomenda a vasopressina.17 Há relatos de emprego de azul de metileno em choque anafilático refratário grave.18 and 47 Em caso de anafilaxia ao rocurônio descreveu-se o emprego de sugammadex 16 mg.kg-1IV com sucesso, a uma dose como a de situação de não intubo, não ventilo.18

Tabela 3
Falta de resposta à adrenalina

Os beta2 adrenérgicos aliviam o broncospasmo, mas não a obstrução da via respiratória superior e o choque.48 O paciente deve permanecer em observação por até 24 h pois não se podem prever as reações bifásicas.4 Em caso de parada cardíaca, segue-se o manejo básico e padrão avançado, considerando-se que é preferível continuar a infusão de adrenalina na parada e no pós-parada.27

Na segunda linha de tratamento da anafilaxia estão os glicocorticoides, cujas doses extrapolam as do manejo da asma e seu início de ação leva várias horas,38 além de não haver evidências de seu emprego no manejo agudo.5 and 49 Recomenda-se uma dose de 200 mg IV de hidrocortisona em maiores de 12 anos e de 100 mg IV entre os 6-12 anos de idade.36

Os anti-histamínicos também não são recomendados para o manejo inicial; são indicados para tratar urticária, prurido5 e rinorreia,26 considerando-se que alguns podem causar hipotensão e sonolência.26Pode-se empregar difenidramina 1-2 mg.kg-1IV, máximo 50 mg, e pode-se associar a ranitidina 50 mg para adultos ou 1 mg.kg-1.50

Encaminhamento a alergologista

O anestesiologista responsável pelo paciente deve fazer o encaminhamento ao alergologista se durante a anestesia geral houver uma reação inexplicada de hipotensão grave, broncospasmo ou edema durante a recuperação.14 Esse encaminhamento é feito com o objetivo de confirmar a natureza da reação, o medicamento responsável, a possibilidade de reação cruzada e as recomendações para estudos posteriores.1 A nota de encaminhamento deve incluir a história clínica da reação alérgica, os dados demográficos do paciente, os antecedentes alérgicos e atópicos, os antecedentes patológicos e as medicações que tomam, os fármacos administrados e a sequência cronológica da administração, a descrição detalhada da reação, o fármaco suspeito, a via de administração, a clínica, o grau de gravidade, o tratamento feito, a evolução e a duração da reação.2 Além disso, incluir se houve exposição ao látex, infusões e tempo de exposição, intervenções como via central ou cateter urinário e alergias alimentares.51 Além disso, deve-se anotar todas as substâncias expostas no registro de anestesia e encaminhamento, incluindo as usadas pelo cirurgião, mesmo que não sejam IV, como anestésicos locais, líquidos de irrigação, látex, desinfetantes, azul de metileno, entre outras.10

A considerar

Deve-se contar com acesso a protocolos para o manejo da anafilaxia.37 and 38

Deve-se ter a cultura de relatar a reação adversa a medicamentos52 e discutir o caso com fins educativos. Adicionalmente, deve-se enfatizar ao paciente sobre a importância do encaminhamento ao alergologista.38 Em caso de conhecer o medicamento causador, deve-se rotular no prontuário eletrônico e vestir uma identificação médica como bracelete.38

Em caso de reação à morfina ou codeína, nenhuma das duas deve ser administrada, embora não se contraindiquem os outros opioides.17

Se houver alergia a frutos do mar, os meios iodados não são contraindicados.17 Há um relato de anafilaxia à protamina em um paciente com alergia a peixe, mas a literatura não justifica sua proibição.17

Se houver alergia ao ovo ou à soja, pode-se administrar o propofol, embora exista um único caso de hipersensibilidade ao propofol em um paciente alérgico ao ovo.17

Recomendações

Quando o paciente foi submetido ao estudo de anafilaxia com algum exame positivo e ele requer anestesia, deve-se evitar o agente identificado e as substâncias liberadoras de histamina, injetar os medicamentos lentamente, em forma fracionada e separada se possível e estar preparado para tratar uma reação anafilática.45

Quando um paciente que tem antecedente de colapso cardiovascular em uma anestesia anterior apresenta-se para uma cirurgia de emergência, sem estudo de anafilaxia, deve-se fazer o atendimento em um ambiente livre de látex, usar halogenados; em caso de contar com o registro prévio de anestesia, evitar todos os medicamentos anteriores ao colapso, exceto os halogenados, e evitar todos os bloqueadores neuromusculares em caso de haver sido usado algum prévio.18 Se não se conta com o registro da anestesia, devem-se evitar todos os bloqueadores neuromusculares de acordo com o equilíbrio risco-benefício, preferir a anestesia regional ou local, evitar a clorexidina (a alergia ao iodo é menos frequente) e evitar medicamentos liberadores de histamina.18 Não há evidência de que a profilaxia, seja com anti-histamínicos ou com esteroides, impede ou reduz a gravidade da reação.18 and 53

Devido à potencialidade fatal da anafilaxia, sua suspeita clínica e o conhecimento de seu manejo são fundamentais para o impacto na morbimortalidade. Também seria perfeito que se propiciasse uma rede nacional para o relato dos casos e a notificação das alergias entre as diferentes instituições de saúde.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2015

Histórico

  • Recebido
    29 Ago 2014
  • Aceito
    08 Set 2014
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