Open-access Fortalecendo o Ecossistema de Educação no Brasil

RESUMO

Neste editorial, trato do ecossistema de educação no Brasil, destacando algumas transformações recentes. Abordo ainda a importância de fortalecer o ecossistema, contribuindo para o debate sobre o conhecimento que criamos e disseminamos, e o papel da RAC neste processo. Ao final, apresento os trabalhos desta nova edição da revista.

Palavras-chave:
ecossistema; educação; inovação; ensino e pesquisa

ABSTRACT

In this editorial, I address the education ecosystem in Brazil, highlighting some recent transformations. I also discuss the importance of strengthening the ecosystem, contributing to the debate on the knowledge we create and disseminate, and the role of RAC in this process. Finally, I present the articles featured in this new edition of the journal.

Keywords:
ecosystem; education; innovation; teaching and research

INTRODUÇÃO

Eu estudo ecossistemas há mais de 15 anos, desde a época em que era quase impossível publicar pesquisas sobre ecossistemas, tendo recebido inúmeras vezes rejects por ‘problemas de enquadramento’. Ou seja, os ecossistemas de negócios não eram percebidos como um tema para periódicos de administração. Felizmente, os pesquisadores e o campo foram evoluindo e hoje há tracks inteiros sobre ecossistemas de negócios nos nossos congressos e muitos grupos de pesquisa dedicados ao tema.

O motivo disto tem a ver com a relevância desta visão para ampliar a nossa percepção do mundo (Adner, 2017). Pensar num ecossistema implica mapear os diferentes atores envolvidos para além da fronteira da indústria, buscando uma visão holística e integrada que permite às organizações perceberem ameaças e oportunidades que passariam despercebidas pela visão tradicional (Tsujimoto et al., 2017).

Foi assim que nos lançamos a compreender, há alguns anos, o ecossistema de educação no Brasil (Rodrigues et al., 2021). Já na época, era perceptível a transformação que nos levava a uma geração e disseminação de conhecimento mais democrática, global e digital. Pesquisando especificamente a difusão do e-learning, identificamos alguns aspectos importantes. Um é o papel dos professores e pesquisadores como gatekeepers da inovação. A pesquisa nos mostrou de modo geral resistentes à mudança e receosos pela perda de relevância e autoridade. Outro aspecto é a forma como a inovação é adotada e difundida em ecossistemas complexos (Cozzolino et al., 2018). Percebemos que não havia um ator sozinho responsável pela inovação, mas uma confluência de atores distintos, como escolas, universidades, governos, alunos, professores, plataformas, entre outros. Ficou muito claro nessa pesquisa como a articulação de diferentes elementos em diferentes níveis é fundamental para que algo novo aconteça. E aí veio a pandemia e mostrou que às vezes planejar é só algo que a gente faz para o mundo rir e virar tudo de cabeça para baixo... mas ainda assim, quem estava mais preparado se adaptou mais rápido e com menos sofrimento (Campos et al., 2021).

Tenho lembrado muito dessa pesquisa desde que assumi a editoria da RAC. Primeiro porque o ecossistema de educação (Figura 1) está novamente virando de cabeça para baixo com a inteligência artificial. Assistimos mais uma vez às fronteiras do nosso ecossistema se expandindo, novos atores entrando, práticas tradicionais sendo transformadas, barreiras metodológicas ruindo, ameaças e oportunidades surgindo.

Figura 1
O ecossistema de educação.

Segundo porque com grandes mudanças vêm grandes oportunidades e tenho refletido sobre como queremos e podemos usar essas ferramentas para fortalecer o ecossistema de educação no Brasil. Acredito que uma das principais funções da RAC é justamente esta: fortalecer o ecossistema de educação no Brasil. Para que isso ocorra, pensar estrategicamente o desenvolvimento da revista como plataforma nacional e internacional me parece fundamental.

Salta aos olhos que o destino primeiro da boa pesquisa feita por brasileiros, mesmo aquela cujo fenômeno e contexto são verdadeiramente coisas nossas, é frequentemente um periódico controlado e editado fora do país. De fato, não é de todo surpreendente que isso ocorra. Quem produz conteúdo jornalístico e logra ter seu trabalho publicado no New York Times, por exemplo, tem razões de sobra para se alegrar. O ponto não é esse. A questão é que o desejo de ser lido no exterior não aumenta o número de dificuldades enfrentadas por nossos jornais. Já no caso dos nossos periódicos científicos, o foco dos nossos pesquisadores em publicar no exterior faz muita diferença. Se conseguíssemos reter aqui uma parte ainda maior desse fluxo criativo que vai para fora, isso ajudaria a energizar ainda mais um dos motores de relevância das nossas publicações. O lado dos leitores se ativaria como consequência, como é de acontecer em qualquer plataforma.

Para refletir sobre isto, basta pensarmos em quantos artigos de qualidade poderiam ser publicados por nossas melhores revistas, mas acabam indo para periódicos no exterior que têm, em vários casos, nível semelhante de prestígio nos rankings. A experiência nesses meses iniciais na editoria e as conversas que tenho tido indicam que essa perda de fluxo é crescente. Precisamos então decidir o que queremos. O valor líquido para o país dos periódicos científicos nacionais é positivo e percebido como tal? Se muitas pessoas, como eu, acham que esse valor é positivo, é chegada a hora de o ecossistema da produção científica no Brasil se ocupar de fortalecer nossas plataformas de divulgação de pesquisa científica.

Uma plataforma, como sabemos, conecta uma ou mais audiências. Há efeitos de rede em ambos os lados (Gawer & Cusumano, 2014) e, mais importante que isso no nosso caso, um efeito de rede cruzado. No caso de um periódico, quanto mais pesquisas boas publicadas, maiores os valores econômico, social e semiótico associados ao consumo, por parte dos leitores, da plataforma. Quanto mais leitores, maiores os mesmos valores para os pesquisadores que lá publicam. Uma audiência energiza a outra. Quem empreende a plataforma precisa lembrar disso e se ocupar, especialmente no início e em períodos de grande mudança como a que vivemos, de impulsionar um dos lados para que o outro também se fortaleça a ponto de garantir a geração de valor para todos.

Quem empreende nossas revistas? A resposta só pode ser uma: o nosso ecossistema é quem faz isso. As revistas serão o que nós quisermos que elas sejam. O ecossistema precisa encontrar um caminho. No meu entendimento, o fio da meada que deve ser puxado é o fluxo de submissões. O que nos impede de reservar uma parte maior da produção dos nossos grupos de pesquisa e submeter para nossos melhores periódicos como uma forma de se engajar no fortalecimento do nosso ecossistema com o objetivo de aumentar a potência desse no contexto global?

A estrada está hoje muito mais pavimentada. Graças ao trabalho dos editores que vieram antes de nós, os aspectos operacionais de revistas como a RAC atingem índices compatíveis com o que há de melhor no mundo. Um maior engajamento de todos os pesquisadores parece integrar o caminho crítico que levará nossas revistas a se tornarem parte do sonho de publicação internacional dos pesquisadores oriundos de outros países. Nesse sentido, o momento requer o engajamento empreendedor de todos os membros do ecossistema. Publicar em um periódico nacional de prestígio precisa ser visto como a contribuição sistêmica que de fato é. Isso significa dizer que o real sentido do que fazemos transcende os nossos resultados. Em resumo, um ecossistema saudável cuida de seus membros.

É preciso seguir adiante, acelerando ainda mais em um caminho que já vem sendo trilhado na direção de aumentar nossa importância no mundo. Por todos estes motivos, apresento com enorme alegria esta edição da RAC, que conta com artigos relevantes, originais e que nos conectam com nossa missão, contribuindo para a disseminação de conhecimento substancial para nossas organizações e nossos pesquisadores.

Nesta edição, trazemos trabalhos que exploram a importância da inovação para a solução de problemas contemporâneos, no artigo de Alberto Luiz Albertin e Francisco Massaro da Silva sobre a influência do alinhamento estratégico TI-negócio na transformação e sustentação do negócio pré-digital. Apresentamos também trabalhos que exploram inovações metodológicas, como a pensata provocativa de Marcelo Luiz Dias da Silva Gabriel, José Afonso Mazzon, Giuliana Isabella, Ricardo Limongi França Coelho, Evandro Luiz Lopes e Vinicius Andrade Brei sobre os desafios atuais da survey como desenho de pesquisa, além do artigo de Shaista Jabeen sobre o uso de algoritmos para exploração das reações dos consumidores. O trabalho de Dias Rafael Magul e Carlos Eduardo Cavalcante discute a relação entre a retenção de membros de organizações civis e a participação política. Para finalizar a edição, o caso de ensino de Samara de Carvalho Pedro, Raissa Helena Paiva Apolinario, Ed de Almeida Carlos e Edson Sadao Iizuka trata do intraempreendedoríssimo, seus desafios e oportunidades.

Agradeço a estes excelentes pesquisadores por contribuírem para o fortalecimento do nosso ecossistema e desejo a todos uma boa leitura!

Referências bibliográficas

  • Adner, R. (2017). Ecosystem as structure: An actionable construct for strategy. Journal of Management, 43(1), 39-58. https://doi.org/10.1177/0149206316678451
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  • Campos, R., Tavares, E., Chimenti, P., & Marques, L. (2021) Challenges for the future of education brought by the pandemic: The COPPEAD Case. Revista de Administração Contemporânea, 25(spe), e210062. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2021210062.en
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  • Chimenti, P. C. P. S., Rodrigues, M. A. S., & Nogueira, A. R. R. (2015, June). O futuro da educação: Uma análise de cenários. Anais do 7º Encontro de Estudos em Estratégia - 3Es, Brasília, Brazil.
  • Cozzolino, A., Verona, G., & Rothaermel, F. (2018). Unpacking the disruption process: New technology, business models, and incumbent adaptation. Journal of Management Studies 55,7. https://doi.org/10.1111/joms.12352
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  • Rodrigues, M., Chimenti, P., & Nogueira, A. R. (2021). An exploration of eLearning adoption in the educational ecosystem. Education and Information Technologies, 26(1), 585-615. https://doi.org/10.1007/s10639-020-10276-3
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  • Tsujimoto, M., Kajikawa, Y., Tomita, J., & Matsumoto, Y. (2017). A review of the ecosystem concept towards coherent ecosystem design. Technological Forecasting & Social Change, 136, 49-58. https://doi.org/10.1016/j.techfore.2017.06.032
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  • Verificação de Plágio
    A RAC mantém a prática de submeter todos os documentos aprovados para publicação à verificação de plágio, mediante o emprego de ferramentas específicas, e.g.: iThenticate.
  • Direitos Autorais
    A autora detém os direitos autorais relativos ao artigo e concedeu à RAC o direito de primeira publicação, com a obra simultaneamente licenciada sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0).
  • Financiamento
    A autora informou que não houve suporte financeiro para a realização deste trabalho.
  • Disponibilidade dos Dados
    A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.

Editado por

  • CORPO EDITORIAL CIENTÍFICO E EQUIPE EDITORIAL PARA ESTA EDIÇÃO:
    Conselho Editorial
    Emílio José Montero Arruda Filho (UNAMA, Belém, PA, Brasil; UFPA, Belém, PA, Brasil)
    Gabrielle Durepos (Mount Saint Vincent University, Halifax, Nova Scotia, Canadá)
    Rafael Alcadipani da Silveira (EAESP/FGV, São Paulo, SP, Brasil)
    Patricia Guarnieri dos Santos (UnB, Brasília, DF, Brasil)
    Silvia Gherardi (University of Trento, Trento, Itália)
    Editora-chefe
    Paula Chimenti (UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil)
    Editores Associados
    Ariston Azevedo (UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil)
    Carolina Andion (UDESC, Florianópolis, SC, Brasil)
    Cristiana Cerqueira Leal (Universidade do Minho, Portugal)
    Denize Grzybovski (IFRS, Erechim, RS, Brasil)
    Elisa Yoshie Ichikawa (UEM, Maringá, PR, Brasil)
    Fernando Luiz Emerenciano Viana (Unifor, Fortaleza, CE, Brasil)
    Gaylord George Candler (University of North Florida, Jacksonville, Florida, EUA)
    Gustavo da Silva Motta (UFF, Niterói, RJ, Brasil)
    Keysa Manuela Cunha de Mascena (Unifor, Fortaleza, CE, Brasil)
    Leonardo Marques (Audencia Business School, França)
    Ludmila de Vasconcelos Machado Guimarães (CEFET-MG, Belo Horizonte, MG, Brasil)
    Marlon Dalmoro (UFRGS, Porto Alegre, RS, Brazil)
    Natália Rese (UFPR, Curitiba, PR, Brasil)
    Orleans Silva Martins (UFPB, João Pessoa, PB, Brasil)
    Tatiana Iwai (INSPER, São Paulo, SP, Brasil)
    Corpo Editorial Científico
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    Erica Piros Kovacs (Kelley School of Business/Indiana University, EUA)
    Elin Merethe Oftedal (University of Stavanger, Noruega)
    Fábio Frezatti (FEA/USP, São Paulo, SP, Brasil)
    Felipe Monteiro (INSEAD Business School, EUA)
    Howard J. Rush (University of Brighton, Reino Unido)
    James Robert Moon Junior (Georgia Institute of Technology, EUA)
    John L. Campbell (University of Georgia, USA)
    José Afonso Mazzon (USP, São Paulo, SP, Brasil)
    Jose Antonio Puppim de Oliveira (United Nations University, Japan)
    Julián Cárdenas (Universitat de València, Spain)
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    Luciano Rossoni (UnB, Brasília, DF, Brazil)
    M. Philippe Protin (Université Grenoble Alpes, França)
    Paulo Estevão Cruvinel (Embrapa Instrumentação, São Carlos, SP, Brasil)
    Rodrigo Bandeira de Mello (Merrimack College, EUA)
    Rodrigo Verdi (MIT Massachusetts Institute of Technology, Cambridge, EUA)
    Valter Afonso Vieira (UEM, Maringá, PR, Brasil)
    Editoração
    Diagramação e normas da APA: Eduarda Pereira Anastacio (ANPAD, Maringá, Brasil); Simone L. L. Rafael (ANPAD, Maringá, Brasil).
    Periodicidade: Publicação contínua.
    Circulação: Acesso totalmente gratuito.
    Indexadores, Diretórios e Rankings
    Scopus, Scielo, Redalyc, DOAJ, Latindex, Cengage/GALE, Econpapers, IDEAS, EBSCO, Proquest, SPELL, Cabell's, Ulrichs, CLASE, Index Copernicus International, Sherpa Romeo, Carhus Plus+, Academic Journal Guide (ABS), DIADORIM, REDIB, ERIHPlus, OAJI, EZB, OasisBR, IBZ Online, WorldWideScience, Google Scholar, Citefactor.org, MIAR, Capes/Qualis.

Disponibilidade de dados

A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024
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