A motivação para este editorial nasceu de um episódio vivido por duas das autoras. Em uma banca, ao ser questionada pela professora sobre o instrumento utilizado em sua pesquisa, uma aluna relatou o quanto havia sido difícil encontrá-lo. O que começou como uma simples busca por um instrumento amplamente citado na literatura transformou-se em uma verdadeira ‘odisseia acadêmica’. Diversos artigos que se valiam do instrumento não o apresentavam na íntegra - apenas alguns itens ilustrativos. O estudo seminal que o propôs estava em idioma diferente do inglês. As tentativas de contato com a pesquisadora autora da escala ficaram sem resposta. Um labirinto se revelava a cada passo na tentativa de encontrar o instrumento completo. E, com ele, crescia a sensação de que algo essencial do fazer científico permanecia inacessível.
Longe de ser incomum, esse episódio é bastante representativo da lacuna de transparência que permeia muitos estudos acadêmicos publicados. Diante disso, nós três passamos a refletir sobre o estado atual da ciência e sobre o movimento de Ciência Aberta. A questão da transparência está no cerne desse movimento, que vem ganhando cada vez mais espaço e adesão na academia. Motivada pela “necessidade de reduzir práticas questionáveis de pesquisa” (Aguinis et al., 2020, p. 27), a Ciência Aberta se estrutura em torno de três princípios centrais (transparência, compartilhamento e replicação) como forma de prevenir ou reduzir fraudes (Guzzo et al., 2022). Como destaca Martins (2020), trata-se de uma mudança cultural que defende a transparência ampla em todas as etapas da construção científica, do planejamento à divulgação, e que busca reconstruir a confiança na ciência, cuja credibilidade vem sendo abalada por recorrentes casos de má conduta científica (Bergh et al., 2017; Honig et al., 2018).
É a partir desse contexto que a Revista de Administração Contemporânea (RAC) se posiciona como uma revista comprometida com os princípios da Ciência Aberta. Ao longo dos últimos anos, a RAC tem incorporado práticas voltadas à ampliação da transparência, ao incentivo ao compartilhamento de dados, materiais e procedimentos de pesquisa, bem como à valorização da reprodutibilidade, respeitando as especificidades epistemológicas e metodológicas das diferentes abordagens que coexistem no campo da Administração. Este editorial, portanto, não parte de uma posição externa ou crítica ao movimento da Ciência Aberta, mas de uma reflexão situada, construída a partir de sua prática concreta no cotidiano editorial.
Quando se avaliam os efeitos, o movimento da Ciência Aberta tem promovido avanços indiscutíveis: amplia o acesso, permite o escrutínio público dos métodos, estimula a colaboração, ajuda a restaurar a legitimidade da ciência (Klebel et al., 2025) e pode aumentar a eficiência e reduzir prazos para publicação (Guzzo et al., 2022). Por outro lado, ele também traz riscos quando se transforma em dogma ou é encarado como uma panaceia para todos os problemas da ciência moderna (Mirowski, 2018).
Sendo um dos sistemas da sociedade (Roth, 2021), o campo da pesquisa científica não deve ser tomado como algo dado, tampouco sua continuidade e crescimento devem ser assumidos como garantidos. Em primeiro lugar, esse campo compete com os demais sistemas sociais por uma parcela dos recursos limitados da sociedade, e sua existência depende da capacidade de adquirir e sustentar não apenas recursos essenciais, mas também prestígio e legitimidade social. Além disso, seu crescimento pode gerar efeitos autodestrutivos caso não atenda a três requisitos fundamentais para a continuidade de sua existência e para um crescimento saudável (Fleck, 2026): (1) promover a renovação, de modo a permanecer relevante para a sociedade; (2) fomentar a integridade, não apenas articulando seus membros de forma produtiva, mas também assegurando que ajam eticamente; e (3) gerar folga (slack) suficiente para colocar em movimento os processos de renovação e desenvolvimento da integridade, bem como para funcionar como um amortecedor frente a perturbações ambientais significativas (Fleck, 2026). Em diversos aspectos, os princípios da Ciência Aberta colocam novos desafios ao campo científico, sobretudo quando interpretados ou implementados de forma homogênea ou acrítica, podendo comprometer o atendimento desses requisitos de crescimento saudável e de continuidade.
O movimento da Ciência Aberta
O movimento da Ciência Aberta surge como uma forma de enfrentar um problema que se tornou cada vez mais evidente: a dificuldade de compreender, reproduzir e confiar plenamente no conhecimento científico produzido. Ao propor maior transparência sobre as etapas da pesquisa e sobre as decisões que orientam o fazer científico, a Ciência Aberta busca tornar a ciência mais acessível, não apenas em termos de publicações, mas também de processos, escolhas e justificativas. Como destacam Maedche et al. (2024), trata-se de um movimento que procura desmantelar as ‘torres de marfim’ do conhecimento, tornando os resultados e os próprios processos científicos abertos, acessíveis e reutilizáveis, de modo a fortalecer a confiança pública na ciência e acelerar a inovação. Essa visão entende o conhecimento não como um produto a ser consumido, mas como um bem coletivo, construído e aprimorado de forma colaborativa.
Nesse sentido, a Ciência Aberta retoma valores fundacionais do próprio ‘ethos científico’, na medida em que o movimento se ancora em princípios normativos clássicos, como a comunalidade (a ideia de que métodos, dados e descobertas pertencem coletivamente à comunidade científica e devem ser compartilhados livremente) e o universalismo, segundo o qual o conhecimento deve ser avaliado pelo seu mérito, e não pela posição, origem ou identidade de quem o produz (Banks et al., 2019). Esses princípios, propostos inicialmente por Merton (1942), refletem uma crença duradoura na ciência como empreendimento cooperativo, impessoal e voltado ao bem comum. Assim, práticas como o registro prévio de estudos, o compartilhamento de dados e códigos analíticos e o uso de plataformas abertas representam tentativas contemporâneas de materializar esses valores normativos, reforçando padrões de integridade, responsabilidade coletiva e legitimidade do campo científico (Limongi & Rogers, 2025a, 2025b; Rogers & Limongi, 2025).
Se esse paradigma estivesse plenamente incorporado ao cotidiano acadêmico, o episódio da ‘odisseia’ vivido pela aluna e mencionado no início deste editorial provavelmente não teria acontecido. O instrumento que ela buscava estaria disponível em repositórios acessíveis; as traduções e adaptações teriam sido registradas; e os estudos que o utilizaram deixariam ‘rastros’ claros de seu percurso metodológico. O que para ela se revelou como um labirinto poderia, em um cenário de ciência aberta, converter-se em um caminho aberto e com trajeto claro.
Tensões e desafios inerentes à Ciência Aberta
A tríade de princípios da Ciência Aberta (transparência, compartilhamento e replicação) emergiu da nobre busca por aperfeiçoar o trabalho de pesquisa, eliminar comportamentos moralmente questionáveis na ciência e aumentar a eficiência do trabalho científico. Contudo, é preciso reconhecer que o avanço do movimento da Ciência Aberta também traz desafios que não podem ser ignorados. Esses desafios não decorrem de uma fragilidade do movimento, mas, em grande medida, de sua consolidação e institucionalização, que tornam mais visíveis as tensões entre abertura, pluralismo epistemológico e governança das práticas científicas. Se ele se converte em um mero requisito formal, um checklist a ser cumprido, perdem-se de vista os próprios princípios do ‘ethos científico’ que o sustentam. Como adverte Mirowski (2018), parte do entusiasmo em torno da abertura tem sido acompanhado por um processo de institucionalização que, em vez de abrir a ciência, pode submetê-la a novas lógicas de padronização e controle.
A ciência, afinal, não é um campo homogêneo: ela se constrói a partir de múltiplas epistemologias e tradições metodológicas. Aplicar de modo uniforme os mesmos parâmetros de abertura a todas as formas de pesquisa pode, paradoxalmente, limitar aquilo que o movimento pretende ampliar. Como observam Pratt et al. (2020), a equiparação entre transparência e replicabilidade, adequada a modelos quantitativos, torna-se problemática quando imposta a abordagens qualitativas que valorizam a interpretação, o pensamento indutivo, a reflexividade e o contexto. De modo semelhante, Guzzo et al. (2022) apontam que a abertura irrestrita de dados pode ser inviável - e até antiética - em estudos que envolvem informações sensíveis, relações de confiança ou propriedade intelectual. Outro desafio é proposto por Leonelli (2023), que argumenta que interpretar a abertura apenas como compartilhamento de recursos corre o risco de transformar a Ciência Aberta em um empreendimento tecnocrático, centrado na circulação de objetos e dados, e não na comunicação significativa entre pesquisadores. Essa lógica pode reduzir a diversidade epistemológica e perpetuar injustiças epistêmicas, favorecendo práticas e contextos de pesquisa dominantes em detrimento de saberes locais ou marginais.
Os efeitos da Ciência Aberta sobre o crescimento saudável e a continuidade do campo científico
Como observam Guzzo et al. (2022), “as práticas de Ciência Aberta enfatizam claramente o modelo hipotético-dedutivo de teste e construção de teorias e, consequentemente, deslocam as disciplinas de formas alternativas de teorização que são especialmente poderosas na pesquisa aplicada” (p. 499). O ponto central, portanto, não reside nos princípios da Ciência Aberta em si, mas no risco de sua tradução em critérios universais e uniformes de qualidade científica, que tendem a privilegiar determinadas formas de teorização em detrimento de outras igualmente relevantes. Como vivemos em um mundo em constante transformação, a excessiva conformidade a padrões pode afastar progressivamente a produção científica das necessidades, demandas e expectativas sociais, comprometendo tanto sua capacidade de gerar valor para a sociedade quanto de atender ao requisito da renovação.
Além disso, a produção de homogeneidade dissociada da relevância pode afetar o campo científico de outras maneiras. Na ausência de criação efetiva de valor, a conquista de respeito e legitimidade social pode ser prejudicada, afetando, por sua vez, a capacidade do campo de atrair talentos humanos, captar recursos financeiros públicos ou privados e atender ao requisito de geração de folga. Ademais, ao manter separados diferentes ramos e abordagens científicas, a fragmentação do campo compromete o desenvolvimento de sinergias, dificultando, assim, o atendimento ao requisito da integridade. Em síntese, cumprir os três requisitos para o crescimento saudável e a continuidade do campo científico - promover a renovação, fomentar a integridade e gerar slack - pode se revelar um desafio considerável.
Essas tensões evidenciam que a abertura, embora essencial, não pode ser entendida como um fim em si mesma. O desafio não está em multiplicar procedimentos de transparência, mas em discernir quando, como e por que abrir. Fazer Ciência Aberta, portanto, exige mais do que cumprir protocolos: requer responsabilidade. Em outras palavras, a discussão que se impõe não é apenas sobre abrir a ciência, mas sobre como fazê-lo de modo responsável, preservando a pluralidade que caracteriza o empreendimento científico e evitando que o ideal da transparência se torne mais um mecanismo de conformidade.
O imperativo da ciência responsável
Nesse contexto, a ciência parece encontrar-se em uma encruzilhada. Apesar de suas inúmeras contribuições inegavelmente relevantes, determinadas práticas colocam em risco a própria reputação da ciência, o que torna imperativo que a comunidade científica enfrente esse desafio de maneira responsável. O movimento de Ciência Aberta deu um primeiro passo importante e necessário nesse sentido, ainda que, em determinadas circunstâncias, possa produzir efeitos contraproducentes para a própria ciência quando adotado de forma descontextualizada ou excessivamente normativa. Ainda assim, não há razão para ‘jogar fora o bebê junto com a água do banho’. Ao contrário, a adoção desses princípios, sempre que possível, constitui um passo importante rumo a uma ciência responsável.
Um segundo passo igualmente relevante consiste em reconhecer a natureza multifacetada, multinível e complexa dos fenômenos organizacionais que investigamos. Nenhuma abordagem de pesquisa, isoladamente, é capaz de dar conta de todos os aspectos e nuances desses fenômenos; em conjunto, porém, diferentes abordagens podem promover avanços significativos no conhecimento. O esforço de combinar distintas abordagens de pesquisa, ainda que desafiador, pode contribuir para o atendimento de dois requisitos centrais para a existência continuada e saudável do nosso campo: o requisito da renovação, ao promover a produção de novos conhecimentos sobre fenômenos organizacionais; e o requisito da integridade, ao fortalecer a confiança e os vínculos construtivos entre pesquisadores especializados e seus respectivos grupos.
Nessa perspectiva, eficiência e produtividade podem ser compreendidas de forma dual. Sob um ponto de vista quantitativo, referem-se a fazer mais com menos recursos ou em menos tempo; já sob uma ótica qualitativa, podem ser associadas à construção de pontes entre diferentes perspectivas de pesquisa, de modo a gerar resultados percebidos como valiosos por atores sociais situados para além das fronteiras do campo científico.
Assim como Fleck (2026) propõe o imperativo da liderança responsável para lidar com as tensões do crescimento organizacional, precisamos pensar no imperativo da ciência responsável.
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A ciência aberta é necessária, mas não suficiente: transparência, compartilhamento e replicação devem ser acompanhados por três requisitos que sustentam a saúde da prática científica.
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O primeiro é a renovação, isto é, a capacidade de constantemente rever e combinar teorias, métodos e instrumentos.
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O segundo é a integridade, tanto no sentido moral (ética, honestidade intelectual) quanto constitutivo (coesão da comunidade científica, confiança entre pares).
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O terceiro é a geração de slack, ou seja, criar condições de tempo, recursos e espaço para que os pesquisadores possam de fato inovar e questionar, em vez de apenas reproduzir práticas institucionalizadas.
Entendida dessa forma, a ciência responsável incorpora e expande a Ciência Aberta. A abertura permanece um valor central, articulado a uma visão mais ampla sobre pluralismo epistemológico, relevância social e sustentabilidade das práticas científicas ao longo do tempo.
Referências bibliográficas
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Como citar:
Furtado, L., Fleck, D., & Chimenti, P. (2026). Ciência aberta e ciência responsável. Revista de Administração Contemporânea, 30(1), e260041. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2026260041.por
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Financiamento
As autoras informaram que não houve suporte financeiro para a realização deste trabalho.
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Verificação de Plágio
A RAC mantém a prática de submeter todos os documentos aprovados para publicação à verificação de plágio, mediante o emprego de ferramentas específicas, e.g.: iThenticate.
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Disponibilidade dos Dados
A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
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