Open-access Outras histórias naturais: a vida selvagem de naturalistas ingleses do século XXI

MANCERON, Vanessa. Wild and wonderful: An ethnography of English naturalists. Chicago: HAU Books, 2025. 260 pp.

Se Philippe Descola (2013) cunhou como “naturalista” o regime ontológico atribuído tipicamente à tradição do pensamento ocidental, os próprios naturalistas contemporâneos demonstram um conjunto de práticas e saberes que não tão confortavelmente se enquadram nessa classificação. Ao menos esse é o caso daqueles que se consideram naturalistas em Wedmore, uma vila localizada no condado de Somerset, no sudoeste da Inglaterra. Foi com essas pessoas, que não ultrapassam o número de muito mais que trinta na vila, que Vanessa Manceron desenvolveu sua etnografia e um debate acerca das práticas de conhecimento de naturalistas no início do século XXI, o que resultou na obra em questão.

Em Wild and wonderful: An ethnography of English naturalists (2025), originalmente publicado em francês em 2022 (Les veilleurs du vivant. Avec les naturalistes amateurs), Manceron (re)introduz os naturalistas e a história natural para a antropologia e outras áreas interessadas em descrever as relações entre humanos e “a natureza”. O livro é composto por sete capítulos, além de um prefácio de Stephen Hugh-Jones, uma introdução e uma conclusão, ao longo dos quais é descrita a pequena população de naturalistas presente em Wedmore – uma vila que, aliás, já foi um campo de estudo de Marilyn Strathern na década de 1960. O pequeno número desses naturalistas não nos deve fazer subestimar a extensão e a relevância das suas práticas no contexto inglês. Ao invés de figurar como uma reminiscência da antiga História Natural, substituída no século XIX pela emergência da Biologia, naturalistas encontram na Inglaterra um terreno fértil para a manutenção de suas práticas.

Jornalistas, escritores, filmakers, militares aposentados, ou diretor aposentado de uma fábrica de calçados, são algumas das profissões dos interlocutores da autora. Isto é, naturalistas ingleses em geral vivem uma vida dupla, na qual se dividem entre suas obrigações profissionais e familiares, e um tempo que reservam para dedicar à observação das espécies a que devotam atenção. Há também aqueles que são biólogos de formação, embora não trabalhem necessariamente com a pesquisa acadêmica. Portanto, a história natural se apresenta como uma atividade de passatempo, paralela à vida cotidiana que se espera de um adulto médio inglês, e sobretudo “amadora” – um termo relevante para a autora, que defende a potente extensão de sua semântica, indicando tanto o caráter não acadêmico da prática, quanto o seu aspecto apaixonado.

Charles Darwin, ou Alexander von Humboldt, dois grandes nomes que remetem à História Natural, não são figuras de referência para esses naturalistas que, por sua vez, se inspiram mais em personagens como a de Gilbert White – um inglês que não tinha treinamento acadêmico, mas era apaixonado pelos animais e plantas que viviam ao seu redor em uma pequena vila em Selborne. Este é outro aspecto característico dos naturalistas, conforme Manceron: eles possuem uma relação especial com o território onde vivem. Somerset é uma região rural, habitada majoritariamente por pessoas que fazem um trânsito recorrente entre o campo e a cidade. Muitas famílias migraram para vilas situadas no interior do país como um modo de viver uma outra vida que não seja marcada pela urbanização desenfreada. Esse movimento, contudo, não consiste em um “retorno à natureza”, como ocorre na França, conforme Manceron. A autora dedica todo o primeiro capítulo de seu livro para demonstrar que, na Inglaterra, há uma distinção entre o que se chamaria de “wilderness”, isto é, a ideia de uma natureza prístina e intocada pela humanidade, e “wildlife”, que diz respeito, para os ingleses, a uma natureza que está sempre próxima de casas, estradas, jardins, telhados, sótãos, mas cujos seres ao mesmo tempo são livres e levam seus próprios modos de existência independentemente da vontade humana. Borboletas que não são objetos de preocupação para as políticas de conservação, pássaros que não são atrativos normalmente para turistas, ou plantas presentes no cotidiano são alguns exemplos de seres acompanhados pela observação e vigilância atenta de naturalistas.

[…] que estas espécies sejam admiradas sem dúvida tem a ver com o fato de que elas habitam graciosamente e livremente as margens “não lucrativas” do mundo, sem algum humano capaz de reivindicar um uso ou uma paternidade deles. É neste sentido que eles são “selvagens” [wild]: eles não são distantes e não vivem nos limites das áreas humanizadas, mas são simplesmente independentes e diferentes ao passo que permanecem familiares e presentes, próximos às casas, vilas e estradas.

(Manceron, 2025: 218, tradução minha)

Assim, embora sejam minoritárias as pessoas que se dedicam à história natural como parte de suas vidas, há uma inclinação generalizada na Inglaterra, segundo a autora, para o cuidado de qualquer ser vivo não humano, existindo portanto diversas instituições de “caridade animal”, bem como seções de grandes jornais e livrarias inteiramente dedicadas aos relatos de naturalistas e temas que concernem à conservação da natureza. As pessoas tenderiam a se imaginar como “fazendeiras da vida selvagem”, como expressa a autora, em uma junção de termos que parece contraditória na visão comum de que “selvagem” [wild] diz respeito ao que não tem relação com humanos. Nessa direção, no contexto inglês, a vida selvagem diria menos respeito a uma essência (prístina) e mais a uma existência (livre), que é capaz de manejar, conforme seu próprio desejo, tanto a aproximação quanto o distanciamento com humanos.

O segundo capítulo do livro é dedicado não somente a deslindar algumas das biografias dos interlocutores desta etnografia, mas a mostrar que a própria prática naturalista tem um aspecto autobiográfico de constituição. Nas histórias pessoais narradas por essas pessoas, a infância é mencionada geralmente como a origem de sua curiosidade por plantas e bichos. Tal ímpeto, partilhado entre muitas crianças, contudo, em geral tende a ser suprimido conforme a idade, revelando-se mínimo na vida adulta. Nesse contexto, Manceron elabora que não se torna naturalista, mas se permanece. Outro caráter constituinte do ser naturalista, portanto: por um lado, a capacidade cultivada, e por outro, as contingências de vida, que permitiram ao indivíduo manter uma curiosidade infantil, no sentido de primordial, e apaixonada, que dá sentido à sua experiência que envolve praticar história natural. Juntamente com o terceiro capítulo, a autora demonstra como ser naturalista se torna o próprio modo pelo qual a pessoa se individualiza, molda a sua personalidade, e se vê como alguém singular entre os demais.

É do quarto ao sexto capítulo que Manceron propriamente descreve as práticas de observação cultivadas por naturalistas. Neste momento, o título da obra em francês parece mais apropriado – Les veilleurs du vivant –, pois esses especialistas, conhecedores e familiarizados com o território onde vivem, monitoram constantemente as espécies e o número de indivíduos, classificam, na nomenclatura taxonômica em latim, os seres observados, e elaboram inventários com longas listas que testemunham a presença de animais e plantas. Esses relatórios são partilhados entre coletivos de naturalistas, com as instituições filantrópicas e de conservação, e mesmo com universidades. Assim, essa atividade, embora ocupe um tempo paralelo na vida “ordinária” de naturalistas tal qual um passatempo, e seja vista por instituições de pesquisa e de conservação como “voluntária”, constitui um trabalho considerado com seriedade e desempenhado de modo sistemático por seus praticantes. Naturalistas podem fazer expedições tanto coletivas quanto individuais para observar e testemunhar as presenças das suas espécies preferidas em seus territórios. Podem, também, afora das expedições programadas, registrar aparições espontâneas que observam de alguma espécie em particular ou rara. Logo, tais especialistas cultivam um modo de atenção constante aos animais e plantas ao seu redor, que consideram, como discutido, selvagens.

Naturalistas também preferem desenhar a fotografar. Em termos de uma prática de observação e de testemunho, a fotografia é um artifício relegado aos iniciantes. O desenho permite aos especialistas elaborar e explicitar a atenção que se dá aos detalhes morfológicos de plantas e animais, enquanto a fotografia é menos afeita a esse caminho de aprendizagem, necessário para a identificação e a classificação de espécies. Desenhar, nesse sentido, parece oferecer uma boa imagem para pensar a prática naturalista, uma vez que seus modos de vigilância e observação “[…] criam formas de companhia à distância, sem dispensar a identificação, nem transformando outro” (Manceron, 2025: 12). Isto é, para bem enxergar uma espécie, é necessária uma boa distância que permita que ambos os lados se sintam pouco perturbados – os animais, para continuarem suas vidas, e o naturalista, para poder parar em um bom lugar e realizar suas anotações e desenhos sem ser interrompido.

Um dos interlocutores da autora, especializado na observação de pássaros, descreve sua atividade como uma descrição do que os animais fazem quando ele os está assistindo. Este “quando” é relevante, porque ele narra que, após finalizar seu trabalho, à medida que se afasta, até entrar em seu carro para tomar seu rumo, ele percebe os pássaros ficando mais à vontade – ele os vê voando de forma diferente, e nota que está sendo observado por eles. Sente-se falta, neste contexto, de um diálogo da autora com os estudos em antropologia da ciência que descrevem os processos de “habituação”, que é o termo técnico empregado por etólogos que estudam animais selvagens – que, por sua vez, poderiam ser vistos como irmãos dos naturalistas em sua forma de oferecer ao regime ontológico naturalista hegemônico um “curto-circuito”, como discutido por Guilherme de Sá (2006). Quer dizer, as formas pelas quais cientistas acadêmicos precisam se arranjar e negociar com seus sujeitos de pesquisa as condições de sua observação – por exemplo, com suricatos (Candea, 2010), chimpanzés (Alcayna-Stevens, 2012), macacos-prego (Machado, 2019) e muriquis (Sá, 2006) – inevitavelmente lembram os problemas enfrentados pelos naturalistas ingleses de Manceron. Assim também é o tema da prática de dar nomes particulares aos animais de uma população, que constitui uma discussão levantada na obra, e é presente amplamente nos estudos de comportamento animal desenvolvidos por cientistas (Benson, 2016).

Entretanto, segundo Manceron, o saber naturalista se difere daqueles científicos ou acadêmicos, na medida em que busca trazer à tona

[…] modos singulares de ser e fazer que não são explicáveis por seleção, reprodução, ou adaptação natural, mas à luz de modos de interação variáveis, comportamentos, hábitos, inclinações, repertórios de comunicação que muitas vezes parecem misteriosos, uma vez que envolvem nem custos ou benefícios, nem autointeresse ou a lógica da sobrevivência e da perpetuação.

(Manceron, 2025: 174, tradução minha)

É nesta direção que, no sexto capítulo e na conclusão, a autora propõe entender a prática naturalista como uma forma de etnografia. Não é novidade que a própria História Natural e os escritos de Darwin e Humboldt, por exemplo, sejam tratados como tal, o que é explicitado pela própria autora. No caso dos naturalistas ingleses contemporâneos, a sua presença em campo com os animais e as plantas não é atravessada por imperativos de neutralidade, nem de um olhar que se pretende tudo ver sem ser visto – um “olho de Deus”, para usar uma expressão de Haraway (1995) –, mas “Eles preferem multiplicar as diferenças, enquanto evitam fazer das distribuições desiguais de capacidades mentais a matriz destas diferenças” (Manceron, 2025: 11, tradução minha), o que os afasta das teorias cognitivistas hegemônicas acerca do comportamento animal.

Portanto, naturalistas constituem “zonas cinzentas frutíferas” no próprio regime ontológico naturalista, segundo Manceron. Trata-se, usando ainda as palavras da autora, de uma “ciência moderna do concreto”, fazendo referência à clássica tese lévi-straussiana. Essa ambiguidade é o que caracteriza as práticas contemporâneas em história natural, pois

Sem dúvida, naturalistas desapontarão aqueles tentados pelo animismo. Mas eles também desgostam das assimetrias e dualidades reificadoras. Eles procuram por pontes, caminhos de passagem, alinhamentos, modos de conexão, e de relacionar detalhes que, embora não contradigam os princípios de [Philippe] Descola, permitem algo a mais a ser dito, algo a mais alinhado com sua experiência empírica com os mundos animais e vegetais.

(Manceron, 2025: 11, tradução minha)

É frutífero, neste contexto, lembrar novamente o debate levantado por Sá (2006), que expõe, entre primatólogos que estudam muriquis, um “curto-circuito” no interior do regime naturalista que não o contradiz, mas o mostra em funcionamento, revelando como seus limites são experimentados pelos entes em campo. Trata-se, decerto, de um movimento analítico em que o projeto latouriano tem um papel fundamental, desconfiando do encerramento dos modernos em seus próprios discursos oficiais (Latour, 1993). Sá (2006) demonstra a complexidade dos fazeres científicos na prática, bem como o esforço intelectual que anda lado a lado com o trabalho de produzir socialidade, o que, nesse caso, inclui os próprios animais estudados. É nesta direção que se torna possível não acusar os cientistas de incoerência quando comprovam práticas que não parecem se encaixar no regime ontológico naturalista, mas, ao invés disso, demonstrar como pesquisadores e outros entes experimentam, produzem e negociam estas fronteiras classificatórias em campo. É possível ainda lembrar do esforço de Marcel Detienne e Jean-Pierre Vernant (2018) acerca da exposição da Métis, isto é, de uma inteligência minoritária no interior do que se tornou hegemônico do pensamento grego, caracterizado pela Razão.

O debate promovido por Manceron e seus naturalistas parece indicar uma reflexão em tais direções, embora a autora não traga, em seus exercícios comparativos – que levantam mais frequentemente “a França” e “a Inglaterra”, em uma dualidade que, ao que parece, não é mencionada pelos seus próprios interlocutores –, esses “outros” na zona cinzenta do regime naturalista. Em outras palavras, pôr em relação analítica esses “modernos”, heterogêneos e ao mesmo tempo ressonantes no modo como manejam os limites do regime ontológico ocidental, parece ser um trabalho a ser desenvolvido. Afinal, à luz da diversa bibliografia em antropologia da ciência, a diferença dos naturalistas ingleses contemporâneos com relação aos cientistas acadêmicos pode se mostrar mais borrada e aberta a porosidades do que inicialmente se suporia. Assim, a obra de Manceron inspira a dar continuidade a este exercício, fazendo questionar tais “nós” do regime ontológico naturalista que cada vez mais é revirado e posto em movimento e tensionamento por antropólogos e seus interlocutores.

  • 1
    Projeto Temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) pelo processo n. 20/07886-8. É bolsista de doutorado Fapesp pelo processo n. 22/03361-3. Atualmente realiza estágio no exterior no Max Planck Institute for the History of Science em Berlim, Alemanha, também pela Fapesp no processo n. 24/03608-4.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências bibliográficas

  • ALCAYNA-STEVENS, L. 2012. “Inalienable worlds: inter-species relations, perspectives and ‘doublethink’ in a Catalonian chimpanzee sanctuary”. The Cambridge Journal of Anthropology, 30(2): 82-100. https://doi.org/10.3167/ca.2012.300206.
    » https://doi.org/10.3167/ca.2012.300206
  • BENSON, Etienne. 2016. “Naming the ethological subject”. Science in Context, 29(1): 107-128. https://doi.org/10.1017/S026988971500040X.
    » https://doi.org/10.1017/S026988971500040X
  • CANDEA, Matei. 2010. “‘I fell in love with Carlos the meerkat’: engagement and detachment in human-animal relations”. American Ethnologist, 37(2): 241-258. https://doi.org/10.1111/j.1548-1425.2010.01253.x.
    » https://doi.org/10.1111/j.1548-1425.2010.01253.x
  • DESCOLA, Phillip. 2013. Beyond Nature and Culture University of Chicago Press.
  • DETIENNE, Marcel; VERNANT, Jean-Pierre. 2018. Les ruses de l’intelligence La mètis des Grecs. Flammarion.
  • HARAWAY, Donna. 1995. “Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial”. Cadernos Pagu, 5: 7-41.
  • LATOUR, Bruno. 1993. We Have Never Been Modern Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press.
  • MACHADO, Mariana. 2019. Compartilhando espaços, aprendendo a coabitar: etnografia sobre as relações entre humanos e macacos-prego no Parque Nacional de Brasília (PNB) Brasília, Monografia de graduação, Universidade de Brasília.
  • SÁ, Guilherme José da Silva e. 2006. No mesmo galho: ciência, natureza e cultura nas relações entre primatólogos e primatas Rio de Janeiro, Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Editado por

  • Editor-Chefe:
    Guilherme Moura Fagundes
  • Editora-Associada:
    Marta Rosa Amoroso
  • Editora-Associada:
    Ana Claudia Duarte Rocha Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Maio 2025
  • Aceito
    28 Jul 2025
location_on
Universidade de São Paulo - USP Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Departamento de Antropologia., Prédio de Filosofia e Ciências Sociais, Sala 1062., Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, Cidade Universitária., Cep: 05508-900, Tel.: + 55 (11) 3091-3718 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revista.antropologia.usp@gmail.com
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error