Este artigo retrata investimentos em cabelo feitos por pessoas de identidade de gênero não-binária, realizados em um estúdio de barba e cabelo localizado na cidade de São Paulo. Tais investimentos serão entendidos como tecnologias de materialização do gênero em corporeidades generificadas e estabilizações estéticas de relações; perpassando por outras materializações, de classe e de raça por exemplo, de forma a criar inequivocidades de gênero, ou de forma a provocar trânsitos, fluxos e deslocamentos. O texto é também um investimento metodológico, que discute potências e limitações do método autoetnográfico, embora proponha outra transepistemologia de trabalho: a etnografia suja. As intervenções capilares realizadas dentro dos marcos da não binariedade se constituem ao mesmo tempo como possibilidades de trânsito de gênero, tensionando entendimentos de transexualidade e transgeneridade das ciências médico-psicossociais, e como belezas terríveis, capazes de habitar o tropo da monstruosidade de pessoas trans formulado pela cis-heteronorma. O artigo termina por deslocar a ideia de corpo própria do paradigma da diferença sexual.
PALAVRAS-CHAVE
não-binariedade de gênero; cabelo; estética; corpo; beleza