As devoções a Cosme e Damião ensejam sociabilidades plurais e estão associadas a diferentes práticas devocionais (e por que não dizer, a vivências lúdicas e artísticas?) presentes em várias regiões do Brasil. No Rio de Janeiro, em especial, a festa de Cosme e Damião ganhou contornos específicos e chegou a ser classificada, por Edison Carneiro ( 1974: 20), como uma festa local, ao lado das tradicionais festas da Penha, da Glória e de Santo Antônio. Essas múltiplas dimensões das devoções e das festas de Cosme e Damião na cidade do Rio de Janeiro são apresentadas no livro Doces santos , coletânea de textos decorrentes de uma pesquisa que desencadeou a criação do Laboratório de Antropologia do Lúdico e do Sagrado (Ludens) no Museu Nacional/UFRJ.
A obra, como que emulando a característica espectral de seu objeto, oferece contribuições relevantes não apenas para a Antropologia da Religião e para os problemas mais circunscritos explicitados pelos propósitos da pesquisa (relações inter-religiosas, fluxos urbanos e formulações em torno da noção de reciprocidade), mas também remete a temas cruciais à História, à Antropologia da Criança e da Infância, das Artes e do Patrimônio, da Alimentação e a tantos outros domínios. Esse espectro de temas emerge ao longo da obra à medida que diferentes modalidades relacionais que materializam religiosa e ritualmente as devoções a Cosme e Damião são abordadas. No que se refere à Antropologia da Criança e da Infância, o papel das entidades infantis na história das religiões afro-atlânticas, a presença pública de crianças divinas e terrenas e as sociabilidades intergeracionais tecidas historicamente nos fazeres e saberes das festas podem catalisar caminhos investigativos interessantes sobre religião, espaço público e infâncias urbanas. Já as reflexões sobre arte pública e política, patrimonialização, religião e/como cultura, comida e sagrado, materialidades religiosas elucidam o potencial analítico das questões propostas no livro, em diálogo com debates atuais de diferentes campos temáticos da Antropologia.
Outro aspecto que reitera a relevância da obra é o desenho metodológico da pesquisa – uma “etnografia do movimento e em movimento” (Menezes; Freitas & Bártolo, 2020: 40), realizada de forma coletiva, e que fez uso de fontes diversificadas (materiais audiovisuais, documentos de arquivo, redes sociais, questionários e entrevistas). Tal proposição metodológica, além de se apresentar como uma alternativa aos métodos sedentários de pesquisa, ao assumir o movimento como objeto de reflexão e o “ mover com ” como um modo de produzir conhecimento, avoca as potencialidades e os riscos de uma etnografia coletiva, propondo uma análise que visa a reunir vários olhares sobre o mesmo fenômeno.
O livro está organizado em onze capítulos. Nos três primeiros, múltiplas miradas das devoções a Cosme e Damião são acionadas no delineamento do modelo etnográfico dos festejos. Pluralização analítica que se desdobra nos capítulos que se seguem, em que novas configurações são enunciadas. O texto introdutório, que apresenta o histórico da pesquisa e os seus principais desafios teórico-metodológicos, vem acompanhado de uma instigante apresentação escrita por Edlaine Gomes. A autora alinhava seus estudos precursores desenvolvidos sobre a devoção a Cosme e Damião em contexto de pluralismo religioso exclusivista no Rio de Janeiro às suas experiências pessoais e às diferentes análises das pesquisas que integram a coletânea. A apresentação de Gomes finaliza com um poema de sua autoria intitulado “Como é doce a memória”.
No primeiro capítulo, Renata Menezes explora a “vida social do saquinho” de doces, acompanhando todo o processo de compra, montagem e distribuição, buscando mapear as práticas, valores e técnicas que essa forma material articula nas diferentes interações que se dão em torno dos festejos de Cosme e Damião. A autora apresenta as distintas formas e razões de se darem doces e o papel da transgeracionalidade na continuidade da celebração de Cosme e Damião, em torno da qual as famílias e o próprio ritual são (re)produzidos. Ressalta ainda como as mudanças no campo religioso brasileiro e as alterações no perfil das famílias e no modo de vida urbano influem na atualização dos saquinhos e no engendramento de novos tipos de relações de reciprocidade mediadas por doces e crianças.
No capítulo 2, Morena Freitas produz sua etnografia “correndo atrás de doces”, circulando com meninos e meninas pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, conhecendo as “manhas de pegar doces” e as vivências da meninada durante a distribuição dos saquinhos de Cosme e Damião. A festa é caracterizada por ela a partir da tríade doces, crianças e sorrisos. Enquanto as formas de pegar doces são assinaladas como um aprendizado que ocorre entre pares, os atos de dar e receber doces e agradecer são abordados como aspectos da aprendizagem intergeracional da festa. A intergeracionalidade é também apontada no ato de dar como uma continuidade do receber. A autora salienta, porém, que nas festas de Cosme e Damião não circulam apenas doces, sorrisos e imagens de crianças alegres e inocentes, mas também acusações e imagens de crianças carentes, mal-educadas e faveladas.
O capítulo 3 mostra que, além de imbuídas no fazer da festa, as crianças contribuíram abertamente para o fazer da pesquisa. Seguindo as crianças, Freitas destaca no capítulo 2 que uma das “manhas de pegar doces” é ir para as praças quando o “movimento tá fraco”. Foi também seguindo crianças atrás de doces que Lucas Bártolo, autor do terceiro capítulo, chegou até uma praça-santuário que abriga um altar com Cosme e Damião. As praças, espaços associados às crianças, são também lugares estratégicos para a realização dos festejos de Cosme e Damião. Bártolo analisa como as fronteiras do público e do privado e do sagrado e do profano são redefinidas durante a festa realizada em uma praça pública no subúrbio do Rio de Janeiro, tornando possível a transmissão e a atualização de práticas devocionais familiares e de vínculos afetivos e comunitários.
São múltiplos os aspectos das festas e das devoções a Cosme e Damião na cidade do Rio de Janeiro enunciados nos três primeiros capítulos: a casa, a rua e a praça como lugares da festa, adultos e crianças em relações de pares, inter e transgeracionais, devoção e família como dimensões cocriadoras, sociabilidades e reciprocidades tecidas no dar e receber doces, a vida social dos saquinhos e as materialidades religiosas. Nos capítulos seguintes, novas combinações, miradas e configurações são apresentadas às leitoras. As relações inter-religiosas, os fluxos urbanos e as múltiplas crianças envolvidas nos festejos de Cosme e Damião ganham novos matizes e ênfases.
No capítulo 4, Sandra Carneiro nos apresenta a modalidade de Festa a Cosme e Damião realizada pela Cia Brasileira de Mysterios e Novidades na região portuária do Rio de Janeiro, na qual atores negros performam os ibejis, distribuem doces e promovem uma versão afro-brasileira da festa, reconfigurando as dinâmicas socioespaciais de uma região que tem sido reivindicada como território negro. No capítulo 5, Nina Bittar analisa como a tradição do oferecimento do Caruru em honra a Cosme e Damião, um modo comum de festejar o 27 de setembro na Bahia, é atualizada nas ações de preparo e distribuição dessa comida em praça pública no Rio de Janeiro. No capítulo 6, Stefania Capone brinda a leitora com uma reflexão sobre “As crianças divinas: ibejis, êres e egbé òrun nas religiões afro-atlânticas”. A autora analisa o caráter liminar da gemelidade na tradição iorubá e das entidades crianças, incorporando em sua reflexão, inclusive, os efeitos transnacionais do culto aos egbé òrun no Brasil contemporâneo. Trata-se de uma abordagem que amplia, sobremaneira, o entendimento sobre as “crianças divinas” no universo das religiões afro-brasileiras. No capítulo 7, Tadeu Morão reflete sobre a transformação de Cosme e Damião nas esculturas devocionais, que se transmutam de “médico a meninos” em suas formas representacionais. Se na iconografia do catolicismo oficial europeu os santos gêmeos são representados como adultos, patronos da medicina, o processo de amálgama com as divindades africanas em solos brasileiros produziu a recriação de sua representação, associando-os aos gêmeos sagrados das cosmologias negras, dotando-os de feições infantis e adicionando-lhes um terceiro elemento, a figura de Doum. As ibejadas, entidade infantil do panteão umbandista, e seus doces são o foco das análises de Morena Freitas no capítulo 8. A autora discute como uma noção de infância(s) é elaborada e reproduzida a partir de valores e práticas da umbanda. Ela aborda o modo pelo qual brincadeira e trabalho emergem como aspectos intrínsecos ao ritual nas giras de ibejadas, que se distinguem pela doçura, aspecto que marca não só a percepção sensória das entidades crianças, mas que também conforma uma concepção de infância que associa crianças a criaturas dóceis. A emergência de uma ideia específica de infância nas religiões ayahuasqueiras a partir do culto a Cosme e Damião é investigada por Lucas Rehen no capítulo 9. Ele aponta como a performance ritual do Santo Daime, descrita como “rito de ordem”, ganha novas modulações no diálogo, considerado por vezes controverso, com a Umbanda, ao enfatizar o aspecto infantil, descontraído e de brincadeiras associado ao culto a Cosme e Damião. No capítulo 10, Lívia Reis aborda outra faceta das relações inter-religiosas tecidas em torno da devoção a Cosme e Damião: “uma etnografia da recusa”. A autora analisa as estratégias de evangélicos que produzem discursos e práticas de deslegitimação e disputa da festa de Cosme e Damião, mobilizando conteúdo judaico-cristão para se contraporem ao universo religioso afro-brasileiro. O último capítulo apresenta um olhar sobre a história da devoção a Cosme e Damião, mapeando suas continuidades e transformações ao longo do século XX no Rio de Janeiro. Um caderno de fotos e um mapa dos bairros englobados pela pesquisa fecham o livro.
O resultado foi a criação de uma obra singular, capaz de captar as diferentes combinações, modulações e ambivalências das devoções a Cosme e Damião na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de um livro que abre possibilidades importantes de pesquisas antropológicas com crianças e também indaga indiretamente o campo interdisciplinar dos estudos da infância, ao abranger temáticas que têm pouca incidência no conjunto dos debates, como a intersecção entre religião e infância 2 , com base nas reflexões em torno do lúdico e do sagrado, bem como a problemática crianças e cidades, mobilizada a partir do mote da devoção e das relações inter-religiosas. Esta coletânea situa admiravelmente essas e outras questões ao atentar-se aos diversos olhares e fazeres em torno da devoção a Cosme e Damião e já desponta como referência obrigatória sobre o tema.
No entanto, a leitora atenta às indagações que os estudos das infâncias têm dirigido à Antropologia notará que, apesar de ser uma obra aberta às múltiplas escalas, temporalidades e sujeitos, reitera uma clivagem que oscila entre capítulos que focam especificamente as crianças e outros em que há uma invisibilização das crianças como interlocutoras da pesquisa, apesar do registro de sua presença em campo. Ao longo da obra, reflexões teóricas e investigações empíricas sobre as crianças e as infâncias aparecem de forma intermitente e são tematizadas em capítulos que as têm como foco, como é o caso dos capítulos “Correndo atrás de doces”, “As crianças divinas” e “Hoje tem alegria”. Em vários outros capítulos as crianças são mencionadas, mas os enfoques investigativos mobilizados não permitem que suas vozes e suas perspectivas ecoem nos textos, nem que sejam incorporadas como contributos para a investigação e teorização acerca das devoções a Cosme e Damião. É o caso, por exemplo, dos capítulos “A praça de Cosme e Damião”, “Encanterias para Cosme e Damião”, “Cosme e Damião na religiosidade ayahuasqueira” e “Etnografia da recusa”. A obra poderia ter se beneficiado, em termos epistemológicos e metodológicos, da inclusão, de forma transversal, das crianças como interlocutoras legítimas na pesquisa, bem como da reflexão sobre a sua participação e autoria nas práticas etnográficas contemporâneas.
Não se trata aqui de reivindicar equivocadamente uma adesão das/os autoras/es e da obra ao subcampo da Antropologia da Criança e da Infância. Como já foi anteriormente ressaltado, apesar do seu enfoque privilegiar temas contemporâneos da Antropologia da Religião, o espectro da abordagem das devoções a Cosme e Damião identificado na obra faz com que ela contemple questões importantes a vários domínios da pesquisa em Antropologia. É por reconhecer esse mérito de evocar temáticas múltiplas, que este tipo de pesquisa oferece grande potencial para a inclusão substantiva das crianças como interlocutoras nas etnografias realizadas em diferentes subcampos da Antropologia. Para que a superação da invisibilidade etnográfica das crianças seja alcançada, é necessária a ampliação das interlocuções e dos entrecruzamentos das distintas áreas da investigação antropológica, não podendo ficar circunscrita à Antropologia da Criança e da Infância.
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