RESUMO
Outrora definido como um totemismo moderno que institui uma comunidade de valores, o clubismo é uma importante modalidade de relação social no Brasil, afinal ele produz sentimentos coletivos de pertencimento e de rivalidade a partir de clubes de futebol. Mais do que a adesão, ele reproduz, inversamente, tendências centrífugas próprias, visíveis desde processos de segmentação. Tal dinâmica, que nos interessa aqui, poderia ser descrita como uma cismogênese que fabrica associações derivadas dos clubes. Para adentrar as dinâmicas de produção destas coletividades, analisamos três modalidades de torcidas brasileiras (as Torcidas Uniformizadas, as Torcidas Organizadas e as Barras). Nossa abordagem enfatiza dinâmicas segmentares, em certos casos faccionais, da pulverização de coletividades de torcedores de futebol. Ao assinalar questões estéticas implicadas em cada modo de arregimentação, argumentamos que diferentes associações torcedoras podem ser pensadas como tendo criado formas próprias de participação política para além – e para dentro – de seus clubes.
PALAVRAS-CHAVE
Torcidas de futebol; Pertencimento clubístico; Associacionismo; Política; Faccionalismo
ABSTRACT
Once defined as a modern totemism that establishes communality, football clubs are an important form of social relations in Brazil, as they produce collective feelings of affinity and rivalry via football. Beyond its fundamental logics of adherence, they also produce their own centrifugal tendencies, recognisable through its various processes of segmentation. These dynamics could be described as a schismogenesis that starts collective associations derived from clubs. To delve into the dynamics of the production of these collectivises, we analysed three modalities of the supporters’ groups in Brazilian clubs (the Torcidas Uniformizadas, the Torcidas Organizadas and the Barras). Our approach emphasises the segmentary dynamics, often factional, of the pulverisation of supporters’ associations. By pointing out the aesthetic issues involved in each mode of regimentation, we argue that the different supporters’ groups can be thought of as having created their own forms of political participation beyond – and within – their football clubs.
KEYWORDS
Supporters’ groups; Club affiliation; Football clubs; Politics; Factionalism
INTRODUÇÃO
O êxito do futebol de espetáculo se deve tanto às propriedades do jogo quanto à capacidade de agregar de forma duradoura comunidades afetivas em torno de entidades representativas conhecidas como clubes. Surgidos como coletivos reduzidos, agrupando indivíduos que partilhavam gostos e interesses, alguns desses clubes se tornaram instituições centenárias em torno das quais gravitam comunidades afetivas de larga escala e de apreço popular. Tais agregados são o produto e ao mesmo tempo produzem identificações que atravessam marcadores sociais de diferenças, instituindo suas próprias categorias que geram diferenciações, com e mesmo contra outros coletivos. Em linhas gerais, o clubismo é uma das formas consolidadas de engajamento no espectro do futebol, sendo a outra o nacionalismo, esta última replicando as formas de organização política e afetiva dos estados nacionais.
O associacionismo é, pois, uma das marcas da esportivização, e os clubes de futebol ilustram este movimento impulsionado no século XIX, como uma espécie de contrapeso ao individualismo e contraponto à secularização (Hobsbawn, 2012). Clubes de futebol podem ser definidos, de forma genérica e para os fins desta discussão, como tendo dupla existência. Por um lado, o clube é uma entidade representativa, como um totem, a partir da qual se produzem afinidades e diferenças.1 Por outro lado, o clube é um empreendimento político-administrativo cuja finalidade principal é gerir o time que o representa e o patrimônio acumulado, seja ele material ou imaterial.
Se pensado em diacronia, o associacionismo está na base do clubismo. Sua versão originária, trazida ao Brasil junto com as regras do jogo, possuía uma base afetiva, dado que os associados partilhavam certas identificações – geracional, territorial, laboral, entre outras – e instrumental, pois o sucesso dos clubes dependia do engajamento prático, em termos econômicos, políticos e esportivos, afinal os jogadores eram recrutados entre os associados. Num momento subsequente, à medida que alguns poucos clubes adquiriram simpatizantes em larga escala, procedeu-se a uma diferenciação entre estes e os associados. No tempo presente, em geral todos os associados, incluindo-se a modalidade de sócio-torcedor2, são torcedores, enquanto apenas a minoria dos torcedores é formalmente associada ao clube. O sentido com que os termos associação e associacionismo são aqui empregados vão além desta modalidade de vínculo formal entre torcedor e clube. O que pretendemos é colocar em evidência as múltiplas possibilidades de agenciamentos do torcer, pensando a produção de associações – também utilizamos o termo comunidades como sinônimo – derivadas do clubismo e que o orbitam. Isso inclui uma gama variada de entidades, desde as Torcidas Organizadas convencionais, as Torcidas Antifascistas, os Consulados, as Barras, as antigas Charangas, entre muitas outras.
Talvez porque o futebol seja um esporte assentado na estrutura do jogo e, portanto, em um rito disjuntivo, a produção de alteridades seja uma constante, de modo que todo clube tenha ao menos um rival preferencial ou estrutural e muitos outros circunstanciais. Não é novidade, pois, que a bazófia e a hostilidade são a energia que impulsiona o mecanismo. Em termos de Bateson (1936), as rivalidades clubísticas que orientam a troca de hostilidades podem ser pensadas como cismogênese simétrica. Por hipótese, a cismogênese simétrica contribui, sobremaneira, para que torcedores de um mesmo clube se percebam como um coletivo, pelo menos no plano simbólico e em circunstâncias rituais. Todavia, a força dessa cisma não é suficiente para brecar as diferenciações ordinárias, aquelas existentes para além do espaço do futebol – classe, raça/etnia, gênero, idade etc. Da cismogênese simétrica, para seguir com Bateson, decorre ainda uma cismogênese complementar, isto é, um segundo processo de produção de diferenciação – e que pressupõe justamente a existência de outros planos de desigualdade dentro do conjunto de partícipes de cada comunidade clubística.
Parte consolidada e influente da literatura tem pensado nessas diferenças a partir do perfil dos torcedores (Bromberger, Hayot & Mariottini, 1995; Dunning, 1999; Giulianotti, Bonney & Hepworth, 1994; Giulianotti, 2002; Armstrong & Giulianotti, 1999; Armstrong, 2003; Garriga Zucal, 2007), o que não é de todo equivocado, conquanto reduza o espectro de possibilidades de interpretar os arranjos societários que modulam atitudes, moralidades, conflitos, interesses e toda a sorte de experiências que caracterizam o universo do futebol como uma sociedade pulsante e aberta. A proposta aqui sugerida vai por outro caminho, pensando a produção de certas diferenças – porque seria impossível pensar em todas – a partir da dinâmica do próprio clubismo, ressaltando a produção de arranjos societários dele derivados que permanecem na sua órbita.
A concepção de sociedade que orienta a discussão pressupõe a noção de assemblage e, portanto, se desloca da ideia de uma coletividade homogênea ou autocontida (Strathern, 2014). Faremos um argumento em diacronia e tomaremos três das formas mais eloquentes de organizações torcedoras para ilustrá-lo: as Torcidas Uniformizadas (TUs), as Torcidas Organizadas (TOs) e as Barras.3 Sem descurar a importância da dimensão estética na constituição e diferenciação desses coletivos, daremos ênfase à questão política, uma vez que a proposta é justamente caracterizar tais associações como derivadas do associacionismo originário. Se com isso, apresentaremos tais organizações de forma menos diversificada, em si e entre si, esperamos, em contrapartida, algum ganho na perspectiva de correlacioná-las a partir da perspectiva da política no espectro do clubismo e, portanto, na relação com alteridades próximas: os dirigentes esportivos, os conselheiros, os associados, entre outras coletividades torcedoras que fazem parte da mesma comunidade de sentimento. Afinal, como advertiu Leach (1970), pode ser um equívoco tratar isoladamente variações de um mesmo sistema político – no nosso caso, o clubismo.
A exposição se divide em três partes, iniciando com uma síntese sobre o associacionismo originário e a constituição do clubismo no futebol brasileiro, precisamente porque as torcidas orbitam em torno de seus clubes. Em seguida, passaremos à apresentação das TUs, protótipo de arregimentação hierárquica de torcedores, caracterizada pelo esforço conjugado dos clubes e do Estado para discipliná-los. Na segunda parte, mostraremos como se deu a sociogênese das TOs, com o suporte da bibliografia pertinente, marcada pela reivindicação de autonomia como um valor, e, por fim, apresentaremos as Barras, que, nas últimas duas décadas, se fizeram notar pela rejeição à centralização do poder e instituíram um modo de organização frouxamente institucionalizado.
Defendemos que as organizações torcedoras criaram formas próprias de fazer política, tendo como marco a transição das TUs para as TOs, circunstância a partir da qual se institui um poder popular paralelo às instâncias clubísticas oficiais: Conselho Deliberativo e Diretoria. Esta hipótese ajuda a entender por que, na fase mais recente da mercantilização do futebol, as TOs ou quaisquer outras formas de organização torcedora, salvo exceções, não têm se objetado à privatização dos clubes. Ocorre que as Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs)4 tornam irrelevante a classe de dirigentes que tradicionalmente ocupou a estrutura política formal dos clubes, mas parece ter pouca ou nenhuma reverberação nas associações de torcedores, seja porque estas desde sempre estiveram alijadas da política interna dos clubes, ou porque se constituíram de forma autárquica – e mesmo anárquica, como veremos –, mais voltadas ao “totem” do que à entidade político-administrativa, as duas faces dos clubes de futebol.
1 - DO ASSOCIACIONISMO AO CLUBISMO
Os clubes brasileiros mais populares foram, desde suas fundações até recentemente, associações civis de propriedade coletiva, sem fins comerciais. Como, na época do surgimento desses clubes, o futebol era amador, estavam voltados ao lazer, à recreação e à sociabilidade das classes altas, sendo alguns deles criados para a prática do futebol enquanto outros o incorporaram aos esportes já praticados (Melo, 2001; Malaia, 2010; Karls, 2017). Um pequeno número desses clubes se impôs em relação aos demais, primeiro nos circuitos locais e regionais e, a partir das décadas de 1960, nos circuitos nacional e continental.
No contexto do Rio Grande do Sul e, particularmente, de Porto Alegre, de onde provém a maior parte das nossas referências historiográficas e etnográficas, duas dessas associações se sobressaíram: o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Grêmio), fundado em 1903, e o Sport Club Internacional (Inter), criado em 1909. Ao longo da década de 1910, esses clubes consolidaram uma rivalidade, mais tarde batizada de Gre-Nal, a partir de territórios distritais que se diferenciavam não apenas pela localização, mas também pela composição de classe e raça/etnia – o Grêmio sediado no Primeiro Distrito, mais branco, germânico e elitizado, e o Inter no Segundo, diversificado racialmente e menos próspero economicamente.
Outras diferenças foram incorporadas à rivalidade, um caso paradigmático de cismogênese simétrica, conquanto até a década de 1930 ela se restringisse ao espaço porto-alegrense. A espetacularização do futebol, com o suporte dos jornais e das rádios, a disseminou pelo interior do Rio Grande do Sul, antes mesmo da prevalência de um circuito estadual de disputas, o que só ocorreria no final da década de 1950. Na década de 1970 a dupla Gre-Nal incorporou-se às competições nacionais e continentais, acumulando títulos prestigiosos em ambos os circuitos. Juntos, contam com a preferência de mais de 90% dos habitantes do Rio Grande do Sul, razão pela qual o “grenalismo” é um dos elementos constitutivos do gauchismo.5 Tão proeminente, a rivalidade deu origem ao termo “grenalização”, aplicável a toda sorte de atitude antagonística. Somando-se os demais torcedores espelhados pelo território nacional, sobretudo em núcleos de imigração sul-rio-grandense, estima-se uma comunidade com mais de 10 milhões de torcedores.6 Atualmente, cada qual desses clubes conta com mais de 100 mil associados, a maioria com direito a participar de assembleias, votar em representantes e ser votado.7
Em que pese a “lei das SAFs”, Grêmio e Inter se mantiveram no formato de sociedade civil sem fins lucrativos, de modo que preservam os valores do associacionismo liberal herdado do século XIX e uma série de traços republicanos incorporados ao longo do século passado. A estrutura política dos clubes compreende a Assembleia Geral, formada pela totalidade dos associados; o Conselho Deliberativo, que reúne os representantes eleitos à semelhança de um parlamento; e o Conselho de Gestão, integrado pelo presidente e por seus vices – tanto o Conselho quanto a Presidência são indicados por sufrágio (Teixeira Pinto, 2024a). Assim como a dupla Gre-Nal, a quase totalidade dos clubes brasileiros, exceto aqueles que se converteram em SAF ou nasceram como entidades privadas, a partir do previsto na Lei Pelé (1998), possuem estrutura política republicana, com os poderes legislativo e administrativo operando de forma conexa, porém autônoma, no que seguem um modelo de inspiração estatal (Simões, 2023). Ao que tudo indica, o Fluminense foi o primeiro clube brasileiro a instituir um conselho deliberativo, antes da década de 1920 (Fernandez, 2016). Outras instituições seguiram essa tendência de parlamentarização, à medida que ideias republicanas se assentavam na política nacional e porque o crescimento do número de associados e simpatizantes tornara disfuncional o assembleísmo originário.
Sob certo ponto de vista, a criação do Conselho Deliberativo ratificava os princípios da democracia liberal, pois entre suas atribuições constava a vigilância do estatuto do clube, por analogia, a sua constituição. Sob outro olhar, e sem que isto esteja em contradição com tais princípios, o Conselho funcionava como um dispositivo conservador, uma barreira para evitar que outsiders chegassem às instâncias diretivas. Por muitas décadas os principais clubes brasileiros foram governados por facções e/ou dinastias que remontavam às origens, como no caso da família Guinle no Fluminense (Rocha, 2013; Fernandez, 2016), mas não sem conflitos renhidos explicados menos por questões ideológicas e mais por desavenças típicas do faccionalismo.
Ainda que a parlamentarização dos clubes tenha um viés de modernidade, não se deve esquecer o fato de que este foi um movimento forçado pela popularização do futebol. Com a consolidação dos circuitos clubísticos locais – em certos casos regionais, como no eixo Rio-São Paulo –, houve no interstício das décadas de 1920 e 1940 um intenso debate entre as elites dirigentes, a favor ou contra a profissionalização dos atletas. Espelhando os rumos do futebol europeu e argentino, ainda que tendo contornos locais (Malaia, 2010), saiu vencedor o grupo tido como mais progressista, e o impacto principal foi a legalização da remuneração dos atletas e, portanto, a possibilidade de realização de carreiras para jogadores das classes populares. As cifras que os novos profissionais poderiam amealhar eram irrelevantes se comparadas às vedetes atuais, e nem de longe atraíam os jovens das classes altas, que haviam predominado nos grounds até então. Pressionadas pela concorrência, as elites seguiram praticando o futebol e outros esportes de forma amadora, ao mesmo tempo que migraram da prática para a gestão das instituições futebolísticas que haviam criado, processo o qual Leite Lopes (1995) denominou de democratização funcional.
A espetacularização crescente exigiu que os estádios fossem ampliados e o foram com o suporte estatal, visto que os políticos profissionais viram no futebol uma forma de integração populista (Damo, 2021). Foi nesse contexto que as organizações torcedoras adquiriram relevância, concomitante ao reconhecimento de que torcer pressupunha certa especificidade. Torcedores já não eram apenas assistentes ou espectadores, termos usados até a década de 1930, tampouco se pensavam como agentes passivos, apenas por oposição ao jogar.8 Embora o “quadro social” dos clubes tenha tido certo crescimento nesse período, em nada se compara ao aumento exponencial de simpatizantes sem vínculo formal. Não seria de esperar, em tais circunstâncias, que tal legião de torcedores permanecesse no limbo organizacional, de modo que foram surgindo lideranças capazes de mobilizar o público nas arquibancadas e mesmo fora delas (Toledo 1996; Hollanda 2008).
Todavia, temia-se que tais organizações, ainda incipientes e aparentemente inofensivas pois voltadas para a festa, pudessem mudar de direção e desestabilizar um modelo de cidadania que os dirigentes esportivos e o Estado Novo desejavam impor às classes populares (Chaim, 2018; Hollanda & Chaim, 2021). O Estado Novo, de traços nacionalistas e autoritários, tratou o esporte como um meio privilegiado para a disseminação de valores coletivos, um elemento fundamental para a constituição do chamado “caráter nacional”. Tendo o futebol deixado de ser exclusivo das elites e havendo contingentes cada vez maiores nas arquibancadas, tornaram-se prementes o controle e o disciplinamento, sob a justificativa de evitar tumultos, brigas ou distúrbios, algo incômodo às autoridades esportivas e estatais.
Surgiram, assim, aquelas que são consideradas as primeiras coletividades torcedoras do futebol brasileiro, denominadas de charangas ou torcidas uniformizadas (Toledo, 1996; Hollanda, 2008; Chaim, 2018; Pinheiro, 2020).9 Elas adquiriram tração por iniciativa de torcedores com perfil jovem que frequentavam os jogos assiduamente, cujas lideranças eram formalmente associadas aos clubes, mas não faziam parte dos conselhos ou das respectivas gestões. Essas lideranças coordenavam espetáculos musicais e visuais, com o incremento de foguetes, bobinas, estandartes e outros apetrechos emprestados do universo do carnaval. Ainda que possa ter havido agrupamentos de torcedores diferenciados da massa dos espectadores presentes nos estádios antes da década de 1930, convencionou-se tratar as charangas e/ou uniformizadas como pioneiras na promoção de festas, performances musicais e ações em benefício do clube (Toledo, 2002; Hollanda, 2008).
Com frequência a chefia formal das TUs ficava a cargo de ocupante de um posto no dirigismo do clube, embora se tratasse de uma atribuição de menor prestígio, que não implicava reconversão imediata às posições mais destacadas. Também era comum que tais dirigentes tivessem ligações e cooperassem com autoridades do Estado, sobretudo com a polícia, cumprindo duplo papel: festivo e disciplinador (Hollanda, 2012: 101). Há casos bem documentados desses arranjos, como o de Jaime de Carvalho, que chegou a comandar as charangas do Flamengo e da Seleção Brasileira. Vicente Rao é reconhecido como ídolo no Inter; seu rosto estampa bandeiras e seu nome é citado em cânticos de estádio. Isso porque, em 1940, liderou um grupo de associados que decidiu pela fundação do Departamento de Cooperação e Propaganda (DCP) (Silva, 2021; Teixeira Pinto, 2022: 107-113).10 Conforme registrado em atas oficiais, entre os objetivos da ação de Rao, destaca-se: incentivar os jogadores, apoiar as iniciativas do clube, criar campanhas de propaganda para ampliação do quadro social e, não menos importante, impor “disciplina férrea” à torcida (Teixeira Pinto, 2022: 109). Buscando moldar o caráter da assistência, o departamento de propaganda do Internacional se acercava dos valores apregoados pelo Estado Novo, de maneira que não causa estranheza que seu nome fosse tão semelhante e remetesse ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) criado um ano antes pelo governo getulista.11 Para esses associados colorados, os demais torcedores possuíam comportamentos desagradáveis, como xingamentos aos jogadores e aos árbitros, além da embriaguez e da participação em brigas.
No caso do Inter, a atuação de Rao contribuiu para a popularização, tanto pela valorização de seus jogadores no regime do profissionalismo quanto de seus torcedores. Ora, até aquele momento o Grêmio detinha a hegemonia no futebol porto-alegrense, mas a relutância em relação à profissionalização gerou uma crise sem precedentes (Damo, 2002: 86-120). O Inter assimilou a nova realidade e montou um time de destacados jogadores negros, recrutando-os por todo o Rio Grande do Sul.12 Combinado ao time de talento incomum, o bureau de propaganda colorado conseguiu modificar a forma de torcer. Exemplo disso é a conhecida marchinha carnavalesca “Papai é o maior”, que foi adaptada para celebrar a sequência de títulos e a supremacia regional. De forma inovadora, ela se tornou uma espécie de hino da torcida, e, dadas as implicações raciais da época, o DCP reelaborou a imagem do Inter como um clube popular, adotando, não obstante, o Saci Pererê como mascote e afirmando, frente a seu rival local, a alcunha de “Clube do Povo”.
As TUs não devem ser tomadas como a única forma de organização de torcedores no período, embora seja a que tem recebido mais atenção da historiografia pelo fato de que há registros abundantes a respeito, afinal eram institucionalmente reconhecidas pelos clubes e pelo Estado. Seja como for, não há como ignorar que o surgimento delas representa uma composição entre estabelecidos – agências estatais e instituições clubísticas – e outsiders – associados com menor prestígio, alguns deles egressos de camadas populares e com circulação no espectro das festividades correlatas. Em certo sentido, trata-se de uma fissura no associacionismo originário, importado dos ingleses e confinado às elites. Se a democratização funcional, enquanto impulso conservador, restringiu a participação popular, reservando o direito a frequentar as instâncias diretivas aos associados elitizados, as organizações torcedoras abriram um flanco de expressão política vinculada ao torcer. O torcer possibilitaria expressar sentimentos e pertencimentos em esfera pública sem qualquer vínculo a movimentos organizados politicamente, como uma modalidade de cidadania entre outras. Ainda que controversas, como no caso dos usos da violência física, e por vezes atreladas ao faccionalismo das elites dirigentes por razões clientelistas, há que considerar que elas ressignificaram a ideia de clube, o que ficará evidente na transição das TUs para as TOs.
2 - DA FESTA E DA POLÍTICA
Após a Copa do Mundo de 1950, realizada no país, o Maracanã se tornou um modelo arquitetônico a ser seguido de norte a sul. Colossal e utópico, buscava acompanhar o acelerado crescimento urbano brasileiro, acolhendo e ao mesmo tempo segmentando todas as classes sociais, convertendo-se em uma espécie de teatro da nação (Leite Lopes, 1998; Gaffney, 2008; Melo & Cid, 2019). A apropriação do futebol pelo Estado teve, desde sempre, um viés populista, acentuando-se nos períodos ditatoriais: primeiro com o Estado Novo, na década de 1940, e novamente em 1964, com a ditadura militar. Além de impulsionar a construção de grandes estádios em cidades de porte médio (Damo, 2021), os militares contribuíram, sobremaneira, para a criação de um campeonato nacional de clubes, a partir de 1971, como parte da política de integração nacional, um dos principais projetos da ditadura (Santos, 2015; Malaia & Fortes, 2021).
O crescimento dos grandes centros urbanos e, com eles, o aumento expressivo da legião de torcedores que acorriam aos estádios (Sevcenko, 2003; Mascarenhas, 2014) – havia espaço para todos, ainda que em espaços precários como as “gerais” – contribuíram para o surgimento de novos agrupamentos de torcedores. A expansão dos territórios consagrados do torcer (Mascarenhas, 2012), com estádios do porte do Maracanã, Mineirão e Morumbi, tornou impossível o controle imaginado pelo Estado e tentado pelos clubes na década de 1940. Novas tecnologias de disciplinamento tiveram de ser incorporadas, mas com propósitos um tanto distintos. É o caso do “fosso” (Damo, 2021: 234), uma trincheira que circundava o campo para impedir as invasões de torcedores mais exaltados que frequentavam as gerais. A demografia exerceu, portanto, um papel fulcral na ruptura que ocorreria na década de 1970, embora ela tenha alguns meandros paradoxais.
O modelo hierárquico das TUs foi perdendo respaldo a partir da década de 1960, porque certos segmentos dentre elas já não mais toleravam a tutela clubística (Hollanda, 2008; Chaim, 2018). A esse respeito, a ditadura militar manteve-se a relativa distância das associações torcedoras, que passaram a proliferar em larga escala, cada clube contando com várias delas, diferentemente do que ocorria na Argentina, que até o presente reconhece apenas uma torcida como representante legítima de cada clube (Cabrera, 2024: 21-22). A forte vigilância em relação aos movimentos políticos e a forma inescrupulosa com que perseguiu, torturou e matou jovens que ousaram protestar contra o regime não tiveram correspondência no espectro das torcidas, talvez porque elas não fossem percebidas como ameaça, uma vez que os protestos que foram incrementados às festas voltaram-se contra os dirigentes esportivos.13 Sob certo aspecto, inclusive, pode-se dizer que tal dinâmica era conveniente à propaganda do governo autoritário que apregoava a “normalidade democrática”.
O fato de que encontramos várias TOs chamadas de “independentes” em diferentes clubes brasileiros é prova de que se tratava de um movimento emancipatório generalizado. “Jovem” é outro adjetivo recorrente na nominação das novas TOs, indicando tratar-se de organizações incipientes, identificadas pela categoria etária e, não menos relevante, na contramão das facções que compunham os conselhos diretivos e deliberativos, cujos integrantes possuíam um perfil elitizado (Pereira, 2000; Hollanda, 2008; Malaia, 2010; Rocha, 2013; Chaim, 2018) – empresários, latifundiários, profissionais liberais bem-sucedidos, militares de alta patente, políticos de carreira e celebridades, entre outros –, exclusivamente masculino, branco e com idade mais avançada.
O critério de senioridade não era, pois, o único fator que afastava os torcedores das instâncias diretivas, mas ao invés de insurgirem-se contra o viés elitista disputando espaço na política interna, esses outsiders criaram suas próprias entidades e como que abriram um novo fórum de participação. Olhando em retrospectiva, e considerando que nenhuma dessas TOs rompeu os laços do pertencimento clubístico, podemos dizer que o embate era mesmo contra grupos políticos estabelecidos que se reproduziam na direção dos clubes. Apesar de se digladiarem nos bastidores, por vezes fazendo uso sorrateiro de espaços midiáticos, esses agrupamentos tinham em comum a convicção de que as massas poderiam frequentar os estádios, festejar os títulos e até protestar no caso de maus resultados, mas jamais se imiscuir profundamente ao faccionalismo, pois que isso implicaria a ruptura de convenções sociais estabelecidas para muito além do espectro futebolístico.
O processo de juvenilização das torcidas, a crescente insatisfação com o oficialismo dos chefes de TUs e, inclusive, um esgotamento estético e musical (Hollanda, 2008; Pinheiro, 2020; Anjos, 2022) são seguidamente apontados como impulsionadores do declínio das TUs. A multiplicação dos grupos organizados sem vínculos formais com seus clubes é, por qualquer ângulo, indicativa de transformações na sociabilidade torcedora. A corinthiana Gaviões da Fiel foi pioneira nesse movimento de emaranhamento dos protestos às festas, algo raro no caso das TUs. Fundada em 1969, ela poderia ter se tornado uma agremiação clubística rival – existem vários casos de clubes fundados por dissidência, uma cismogênese simétrica perfeita – ou simplesmente distinta do Corinthians, mas preferiu fazer oposição aos dirigentes do clube sem adentrar as instâncias formais. Posteriormente, formou uma Escola de Samba que se tornaria uma das mais importantes nas competições do carnaval de São Paulo, servindo de modelo a outras TOs paulistanas (Hollanda & Medeiros, 2018).
As TOs são as coletividades torcedoras mais destacadas e estudadas no Brasil.14 Musicalmente, elas substituíram as marchinhas das Charangas pelo samba-enredo.15 Politicamente, impuseram um modo inovador de reivindicações, protestos e demandas na relação com o clube, em particular com o aparato administrativo. Caracterizadas por organogramas de gestão menos formalizados, mas não abdicando de presidência e outros cargos de gestão, tais como secretaria, tesouraria e afins, criaram seus próprios faccionalismos e desenvolveram estratégias multifacetadas para lidar com TOs de outras agremiações: um sistema de rivalidades e alianças que ultrapassam as fronteiras do clubismo (Teixeira, 2001; Souza & Antônio, 2014; Cabrera, 2024).
Diferentemente das TUs, tuteladas por dirigentes da velha cepa, as TOs se caracterizaram como um modelo autárquico, até certo ponto autônomo em relação ao dirigismo clubístico, sem jamais abdicarem de subsídios para acessar os estádios e empreender deslocamentos em nível nacional e continental. 16 Muitas delas constituíram associações civis formais, com cobrança de mensalidade e atuação em outras frentes que não o clubismo – ações sociais, carnaval, entre outros. O tamanho desses coletivos varia regionalmente e em função de sua abrangência, sendo que, ainda que boa parte deles congregue dezenas, quando muito centenas de integrantes, outros superam as dezenas de milhares de associados, e não restam dúvidas de que suas performances fazem parte do espetáculo e, como tal, são altamente valorizadas.
Lembrando a metáfora do crisântemo e da espada, as TOs fazem a festa e a guerra, conforme as circunstâncias. Elas aportaram ao futebol brasileiro a virilização do torcer, acentuado a partir da década de 1970, com dramáticos desenvolvimentos nas décadas subsequentes. A valorização de uma masculinidade guerreira é perceptível pela adoção de imagens e símbolos de guerra e permeada por controvérsias em relação a outros agentes do campo esportivo, incluindo jornalistas, dirigentes e torcedores que não se identificam com elas (Teixeira, 1998; Florenzano, 2019). Ainda que possa haver significativa diversidade, para muitas das TOs, no entanto, a participação em brigas tende a ser considerada uma aptidão necessária para quem deseja ser reconhecido como integrante efetivo do grupo, tanto mais se pretende galgar postos de destaque nesse meio. No que concerne aos alvos prediletos, podem ser torcidas de clubes adversários, do próprio clube, polícia e até cidadãos alheios ao futebol.
Muitos entusiastas do processo de arenização, entre os quais jornalistas esportivos e gestores profissionais, vislumbraram os novos estádios repletos de torcedores acomodados em assentos seguros e confortáveis, reagindo com comedimento às nuances do jogo e alheios à gestão do time (Silva, Debortoli & Silva, 2012; Oliveira Junior, 2017; Simões, 2017). Há de fato torcedores com esse perfil, mas eles não são os protagonistas do espetáculo, em que pese sejam majoritários e essenciais ao sucesso da bilheteria do match day. A ausência notada nas arquibancadas – e mesmo fora dos estádios – é a desses torcedores entusiasmados, com seus cânticos e coreografias que emprestam efetivo suporte aos atletas, mobilizam o restante do público e intimidam adversários. Suas performances são indispensáveis ao cenário dos estádios, antigos ou arenizados, um espetáculo dentro do espetáculo, uma forma de atuação que se confunde com ativismo e faz do torcer um ato equivalente ao jogar em termos de engajamento.
3 - DERIVAÇÃO EM SEGUNDO GRAU
O enlace entre estética e política promovido pelas TOs deixou de ser uma novidade; o que fora jovem e independente, na década de 1970, mostrar-se-ia contestável, inclusive por torcedores adeptos das formas de torcer hiperativas que delas participavam. Uma das Barras mais antigas e famosas no Brasil é a Geral do Grêmio, cujo “mito de fundação” enfatiza a deserção de integrantes de TOs, descontentes com a beligerância fratricida em razão da disputa por benesses do clube, autoritarismo das lideranças e negociações espúrias com dirigentes inescrupulosos (Rodrigues, 2012). Alguns desertores, admiradores da performance das hinchadas uruguaias e argentinas, caracterizadas pelo alento incondicional ao time, passaram a se agrupar apenas por ocasião dos jogos e foram ganhando adeptos. O alento permanente, independente das circunstâncias de jogo, se fortaleceu na campanha que levou o Grêmio de volta à Série A, em 2005, e adquiriu notoriedade nacional com a “avalanche”, uma coreografia arriscada em que os torcedores desciam as arquibancadas amontoando-se na beirada do fosso a cada gol gremista. A Geral do Grêmio alcançou tamanho prestígio nos anos subsequentes, a ponto de contrapor-se ao projeto original da Arena pelo fato de não haver nele a projeção das condições para a realização da avalanche, uma vez que todos os espaços deveriam ser ocupados por assentos.17
A remodelação dos estádios foi outro fator que contribuiu para o surgimento das Barras no começo do século XX, pelo menos no caso do Internacional. Na esteira do Estatuto do Torcedor, então sancionado em 2003, muitos estádios foram forçados a se adequarem a parâmetros de conforto e segurança internacionais, tendo como desdobramento o fechamento de espaços sem assentos como a “geral”, do Maracanã, e a “coreia”, do Beira-Rio (Gaffney & Mascarenhas, 2006; Teixeira Pinto, 2024b). No caso colorado, a reorganização territorial que induziu dois grupos a se reunirem nas arquibancadas sul, fundindo-se e formando a Guarda Popular em 2004, é atribuída por seus torcedores (Teixeira Pinto, 2022: 247) justamente às imposições legais que, ao tomarem as gerais dos estádios como precárias e obsoletas, forçaram clubes, torcidas e torcedores a reelaborarem as geografias de seus estádios.
A emergência das Barras também se deve à ampliação dos circuitos continentais na América do Sul, com a criação da Copa Sul-Americana, em 2002, e a ampliação da participação brasileira na Libertadores da América. Assim como a nacionalização das disputas, ocorrida na década de 1970, ensejou a transição generalizada das TUs para as TOs, a continentalização suscitou o fascínio com o alento, os trapos e a poética musical das barras sul-americanas, em especial as argentinas. Concretamente, as paródias entoadas em ritmo lento facilitam sua disseminação pelo estádio, contagiando o público e produzindo o tão apreciado uníssono, ponto alto do ritual futebolístico que acontece por ocasião de um gol, um erro crasso de arbitragem ou algo equivalente. Os uníssonos são um diferencial no e do espetáculo; são momentos em que o ritual atinge sua plenitude, e isso pode acontecer várias vezes ou não acontecer, afinal se trata de um jogo e não de um rito ensaiado. Se as Barras ou TOs são capazes de induzir ou potencializar tais momentos, sobram motivos para se sentirem empoderadas, pois seus feitos performáticos equivalem aos dos jogadores, alcançando um ponto de fusão entre torcer e jogar.
Não convém exagerar nas comparações com as organizações torcedoras castelhanas da América do Sul. De historicidades singulares, é fundamental não confundir os grupos brasileiros surgidos no começo do século XXI, a partir do Rio Grande do Sul, com aqueles oriundos de países vizinhos, em que pese a homonomia. As barras argentinas possuem formas de organização e inserem-se em contextos clubísticos próprios (Garriga Zucal, 2007; Moreira, 2007; Gil, 2007; Alabarces et al., 2018; Cabrera, 2024). A apropriação de certas tecnologias do torcer pelas organizações brasileiras mereceria um estudo mais aprofundado, considerando que o campo futebolístico gaúcho – torcedores, dirigentes, jogadores e mídia especializada – não possui em relação aos argentinos o mesmo grau de rivalidade que se observa em outras partes do Brasil (Guazzelli et al., 2021). A admiração e a adaptação de certas tecnologias das barras pelas Barras – a homonímia é reveladora, sem dúvidas – também diz respeito ao incremento de fluxos globais, visto que, além das Barras, o futebol brasileiro viu, em período equivalente, surgirem grupos autodenominados Ultras e Antifas (Pinheiro, 2020; Saldanha, 2023; Lopes, 2023), que mimetizam formas de torcer recorrentes em países europeus.
Para o argumento aqui desenvolvido, cabe contrastar as Barras às TOs em termos de organização política. Sem definir estatutos ou regimentos formais e tampouco compor quadros sociais para amealhar taxas regulares, as Barras rejeitam a burocracia e a institucionalidade. A dispensa de formalidades – não de regras18 – beira a aversão, e tal procedimento tem sido apontado como outro fator decisivo na competição com as TOs por novos adeptos. Decorrente de sua organização, a posição de chefia não é determinada por eleições, mas antes adquirida pelas competências políticas do capo19, entre as quais: a capacidade de arregimentar torcedores, negociar conflitos pontuais, estabelecer alianças e impor sua autoridade.
Visto que o emprego da violência é considerado legítimo para a resolução dos conflitos internos, os capos devem possuir vocação guerreira e cercar-se de torcedores com as mesmas disposições, de modo que o corpo tonificado usado para torcer seja utilizado para brigar, quando a ocasião exige. Não que muitas das TOs não apreciem disputas físicas, mas no caso da Barras há códigos mais explícitos que legitimam o emprego da violência para resolução de desavenças inclusive para dentro do grupo. O caso pode ser ilustrado a partir da escalada de um conflito tendo em vista a disputa pela chefia da Guarda Popular, Barra colorada, em 2011. Uma briga de grandes proporções no pátio do Estádio Beira-Rio terminou com o banimento dessa torcida e, ainda, com o encarceramento para alguns torcedores, entre os quais os chefes, acusados de tentativa de homicídio. Esse evento encerrou as atividades dessa Barra durante o ano subsequente e, apenas em 2013, um terceiro segmento, minoritário em relação aos outros dois, conseguiu tomar o comando da Barra, reativar e estabilizar as atividades da torcida (Teixeira Pinto, 2022: 245-250).
Junto às competências estéticas, portanto, as Barras se caracterizam pela disposição em empenhar o corpo, debelando, por completo, qualquer hipótese de associação do ato de torcer com passividade. Há um desejo intenso de interferir no jogo, de forma tal que acabam por aproximar o torcer ao jogar, levando às últimas consequências uma máxima universal da cultura torcedora, segundo a qual torcida que se presa joga junto com o time. Com a mesma intensidade com que dão suporte ao time, podem se expor ao enfrentamento corporal. Pouco afeitas às convenções parlamentares, muito menos à etiqueta civilizadora, nas Barras usa-se a violência de forma funcional, tornando o bom duelo preferível ao sufrágio nos casos de sucessão litigiosa de chefia ou de qualquer outra natureza. Sob muitos aspectos, a organização contrainstitucional das Barras lembra a forma como Clastres (1974) interpretou a luta contra a centralização e captura do poder nas sociedades tupis-guaranis antigas, afinal o capo só existe quando desejado e seguido pelo grupo a tal extremo que seu comando esteja sempre sujeito à possibilidade de insurreições socialmente legitimadas.20 Todavia, melhor do que comparar as Barras com as sociedades indígenas, cujas existências nos moldes clastresianos são questionadas, ou a movimentos anárquicos ocidentais, é pensá-las na relação com as TUs, as TOs e outros coletivos que orbitam o clubismo.
As TUs, como já vimos, tiveram a centralização do poder como um valor essencial, uma vez que a chefia é instituída em conformidade com as orientações que partem da administração central do clube e, portanto, restando os torcedores alijados das decisões importantes. Sem pretender reduzir a questão, poder-se-ia, à guisa de comparação, tratar este modelo de governo como hierárquico, sendo o caso de Vicente Rao, pioneiro como chefe de TU colorada, ilustrativo desse modo de gestão do coletivo. Em que pese houvesse sido, de fato, o criador e líder da charanga, e não obstante o fato de ter conexões influentes em outros ambientes populares, como o carnaval, no espectro do clube ele agia supervisionado, tendo uma espécie de autonomia embaçada, afinal vigiada pela Direção.
Pressupor que as Barras habitem um universo completamente autônomo é uma ilusão sociológica, mas é justamente esta ilusão – no sentido bourdieusiano do termo, de uma espécie de envolvimento ou libido – o trunfo desses grupamentos. A adesão é voluntária, assim como a deserção; pode-se entrar e sair arbitrariamente, mesmo que seja para experenciar um único jogo. Todavia, uma vez dentro, o que se exige é entrega total, uma modalidade de engajamento que faz lembrar os transes rituais. O núcleo estruturante das Barras efetivamente segue o capo, protegendo-o, venerando-o. Porém, só o segue até o ponto em que representar os interesses do coletivo, um limiar instável e imprevisível constitutivo desta modalidade de organização. Por conta desses arranjos instáveis de poder, da aversão às formalidades e da ausência de outro recurso da chefia que não a reafirmação permanente da sua condição, poder-se-ia tratar este modo de organização como anárquico ou afim. Considerando, a partir dos casos de Grêmio e Inter, que as Barras se desdobraram das TOs, seria possível pensar que elas representam não uma evolução do torcer, mas um certo ideal que confronta, de forma radical, o modelo preconizado pelos novos gestores de arenas e do futebol como um todo. Na medida em que desdenham valores consagrados pelas formas institucionalizadas de cidadania moderna, como é o caso de eleições, poder-se-ia cogitar que são avessos à política. Nossa interpretação é outra, reconhecendo nessa modulação do torcer um engajamento político singular, uma vez que simultaneamente livre e obrigatório, para lembrar Mauss, cuja finalidade, além da maximização da experiência, é afirmar em ato público múltiplos pertencimentos: ao totem do coração, ao próprio grupo de atuação e, por razão diacrítica, às formas de torcer agenciadas pelo que se convencionou chamar de arenização.
Considerações finais
A esportivização é uma modelagem de confrontos miméticos das mais variadas espécies; uma marca da modernidade que se atualiza permanentemente, implicando usos específicos do corpo, o empenho de dinheiro e de afetos, a produção de moralidades e identidades e, como gostaríamos de reforçar com este ensaio, de associações ou, simplesmente, sociedades. A constatação de que os esportes foram progressivamente imiscuídos aos interesses financeiros é incontestável, mas, ao invés de nos alinharmos àqueles que veem nesta associação a erosão dos valores coletivos, procuramos mostrar como a produção de associações segue viva e potente no futebol, particularmente, via clubismo. Advogamos que o impulso associacionista acompanha o futebol desde sua diáspora ocorrida no século XIX, sendo nas suas origens veiculado ao liberalismo e apropriado pelas classes altas brasileiras como um modismo que lembrava associações exclusivistas – como cortes, confrarias e entidades “secretas”. Todavia, o gosto por tais formas de sociabilidade, tal qual a prática do jogo, não tardaria a espraiar-se pelas classes populares.
Ainda que um clube pudesse ser originalmente imaginado como uma sociedade exclusiva, para o deleite com iguais e o cultivo de exotismos e excentricidades, o fato é que um clube de futebol só faz sentido se promove eventos em forma de desafio contra e com outras agremiações. E acrescente-se: os desafios têm de ser públicos, como na tradição dos duelos, das lutas, das artes circenses ou mesmo das versões pré-modernas do próprio futebol, razão pela qual uma das faces de tais agremiações até pode ser privada, mas a outra deve ser pública. Se jogar contra outras agremiações era um imperativo, a cismogênese não poderia ser senão um desdobramento, com os clubes formando ligas, instituindo rivalidades e agregando a elas, de forma muito peculiar, certos marcadores sociais de diferenças.
Com variações em termos de datas, quase todos os grandes clubes brasileiros passaram pelo processo de cismogênese interna, desdobrando a associação originária. Exploramos aqui algumas linhas gerais desse movimento, com atenção especial à emergência das associações de torcedores, que correspondem à parte pública do clubismo, constituída por adeptos que – subalternizados – não participam, necessariamente, da vida privada das instituições. Usamos a bibliografia disponível no contexto brasileiro, que é vasta e qualificada, para delinear tal cenário, conquanto haja muito a ser feito em termos historiográficos e etnográficos.
As organizações torcedoras despertaram a atenção das ciências sociais no último quarto do século XX, com a escalada do hooliganismo na Inglaterra e os confrontos violentos no Brasil, na Argentina e em outros países da América do Sul. Uma das primeiras preocupações acadêmicas foi debelar um discurso midiático que rotulava tais agrupamentos como marginais, desviantes e/ou incivilizados, e advogava o banimento sumário deles para o “bem do futebol”. Sem negar o fato de que os enfrentamentos corporais são valorizados, procurou-se destacar outros aspectos atinentes ao surgimento, composição, estrutura e atuação das organizações torcedoras.
Esta literatura é útil para pensar uma história social do torcer, entrelaçada à história do jogar e, portanto, da espetacularização. O que trouxemos foi uma contribuição para ampliar este escopo, argumentando que torcer e pertencer ensejam a produção de associações derivadas do clubismo, num processo de cismogênese permanente e não linear que, de todo modo, tende a manter as associações derivadas na órbita do clube originário. Enfatizamos três dentre as mais destacadas formas de associações, as TUs, as TOs e as Barras, na medida em há conexões diretas entre elas. Todavia, é preciso ressaltar a existência de uma plêiade de outras organizações de torcedores, tais como: os Consulados, importantes na mobilização dos torcedores em cidades mais afastadas da sede das agremiações; as Antifas, uma forma de organização com viés político declarado, mais ativa nas redes sociais do que nos estádios, e implicadas no combate às discriminações no futebol; o Sócio-torcedor, uma modalidade de organização engendrada pelo marketing, que não tem qualquer relevância estético-imagética, mas que vincula pessoas por razões de interesse e em certos casos estende as vantagens econômicas aos direitos políticos; os Movimentos Políticos engendrados no tempo das eleições, e que, em dados clubes, logram se infiltrar no parlamento e na gestão esportiva, entre outros. Sem contar as associações de dentro para fora dos clubes, que sequer foram aqui mencionadas; vínculos esporádicos ou duradouros com políticos convencionais, centros comunitários, associações de bairro, redes comerciais, sindicatos, mercadores ilícitos etc.
O jogo de futebol é marcado por uma lógica disruptiva. Nesse sentido, o clubismo poderia ser pensado, em si mesmo, como uma forma de faccionalização, afinal, toma-se o partido de um clube por oposição aos demais por questões que raramente têm a ver com ideologia, mas sim com afetos. A interiorização do faccionalismo é uma interessante hipótese para pensar no antagonismo entre semelhantes. Sua modulação pode ser extrema, a ponto de torcedores agirem contra o próprio clube, contra outras torcidas do clube e, em tantos casos, contra a própria torcida da qual fazem parte. Abordar diferentes modalidades da arregimentação de torcedores aqui priorizadas nos ajuda a pensar a respeito destas diferentes lógicas de formação e reprodução do social que se originam a partir dos clubes de futebol e os orbitam.
Na agenda recente dos estudos sobre futebol está a pauta do poder e da política (Waele et al., 2018; García & Llopis-Goig, 2020; Meier et al., 2023; Moreira, 2011; Godio, 2010; Burlamaqui, 2020; Dyal, 2018; Oliveira Junior, 2017; Simões, 2023). Os mais diferentes conjuntos de torcedores atraíram atenção teórica quase sempre por comportarem práticas e comportamentos que causaram estranheza, preocupação ou admiração. Ao atrelá-las a derivações diferenciais do universo clubístico, percebemos uma faceta da formação e da reprodução social de torcidas que diz respeito às desigualdades dos direitos de participação e de fruição dos esportes. Sendo, ainda hoje, o dirigismo um espaço de manutenção e conversão de capitais para as elites esportivas, diferentes fases do associacionismo torcedor – das TUs, passando pelas TOs, até as Barras – oferecem elementos para entender, em um país como o Brasil, de que modo aspectos de classe social, raça, idade e gênero compuseram historicamente o desenvolvimento do futebol, não raramente perpetrando formas de segregação, inferiorização e exclusão. Mais do que isso, tais torcidas possibilitam avançar na compreensão das maneiras pelas quais se fizeram possíveis a participação política e a intrusão de grupos subalternizados nos clubes tradicionais a partir de um protagonismo simultaneamente estético e guerreiro.
O contraste entre as formas de arregimentação de torcedores indica que o dissenso se resolve seguindo diferentes prescrições. Nas TUs, as expectativas eram de sujeição, não somente ao chefe da torcida como também ao clube e, em última instância, ao Estado. Estava em questão disciplinar o comportamento, imprimir “bons modos” à crescente multidão que acorria aos estádios: desinibida, desbocada e, cada vez mais, oriunda de classes populares. Os estádios colossais ensejaram a multiplicação das torcidas, a polifonia dos cânticos e a reivindicação de independência. Na fase da arenização, as Barras trazem consigo a incorporação de estéticas transnacionais e de tendências segmentares que, constantemente, ameaçam a estabilidade da própria torcida, mas que visibilizam, em um caso limite, a internalização do antagonismo que caracteriza o futebol enquanto um rito disjuntivo.
À cismogênese globalizada, por competições como as copas do mundo ou os mundiais de clubes, observamos um movimento em sentido contrário, de segmentação das associações a ponto de recriarem um ambiente de confraria que parece dialogar, em última instância, com um associacionismo originário, não do ponto de vista histórico, que remontaria ao protótipo inglês do século XIX, mas com um gregarismo socioantropológico primordial, para o qual os afetos se sobrepõem aos interesses, os indivíduos transcendem para um coletivo e as diferenças se diluem na irmandade. O fato de serem raras as rupturas dessas associações com seus clubes de origem permanece uma indagação pertinente e constitui um bom tema a ser explorado.
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Financiamento
Bolsa Capes de Doutorado e Bolsa CNPq PDE.Bolsa de Produtividade PQ/CNPq – Arlei Sander Damo – “O futebol e o ‘espírito do capitalismo’ – controvérsias acerca da privatização dos clubes brasileiros em perspectiva antropológica”.
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O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior- Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
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1
Um time de futebol é um coletivo que atua de forma orquestrada contra outra associação do mesmo gênero. À diferença dos jogos improvisados – “racha”, “pelada”, etc. –, em que os times são orquestrações ad hoc e em geral não representam qualquer outra coletividade que não a ela mesma, no futebol de espetáculo os times existem para os interesses de comunidades ampliadas. Os dois arranjos institucionais básicos mobilizados para orquestrar times a partir dos quais o futebol de espetáculo organizou as disputas em forma de sistema – ligas, copas e campeonatos – são o clube (entidade civil, pouco importa se associativa ou privada) e a seleção nacional (entidade civil frequentemente confundida com as agências do Estado-nação, ao menos em termos representacionais). Afora alguns jogos ditos amistosos – eventos beneficentes, ritos de despedida de atletas, celebrações festivas, entre outros –, o essencial do calendário futebolístico é ocupado por disputas entre clubes ou entre seleções nacionais, daí porque nos referimos ao clubismo e ao nacionalismo como dois sistemas a partir dos quais se articulam as disputas de campo, as rivalidades institucionais, as tradições e mitologias associadas a tais rivalidades, os engajamentos individuais e coletivos, o fluxo das emoções e mesmo do dinheiro. Para uma apreciação mais detida sobre clubismo e nacionalismo, em particular sobre formas de engajamento e circulação de emoções, conferir Damo (2005: 61-104; 2015). Para uma abordagem de como o futebol cria formas de classificação/representação da nação, conferir Machado (2000).
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2
Sócio-torcedor é uma estratégia de “hiperfidelização” desenvolvida pelo marketing a partir da década de 1990 e presente em quase todos os clubes brasileiros. Em alguns deles, apenas, o sócio ou “sócio estatutário” tem direitos políticos, enquanto, ao sócio torcedor, restam vantagens de consumo, como a prioridade na aquisição de ingressos, descontos na compra de itens do clube, visitações turísticas a estádio e museu, entre outras (Toledo, 2012; Simões, 2017; Teixeira Pinto, 2022: 298-305).
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3
Em alguns estados brasileiros, como em São Paulo e no Rio Grande do Sul, as primeiras torcidas organizadas se autodenominavam charangas e/ou “torcidas uniformizadas”, enquanto no Rio de Janeiro eram conhecidas como charangas e/ou “torcidas organizadas”. Para evitar que as atuais TOs sejam pensadas como as únicas organizações torcedoras, usaremos a grafia maiúscula, mormente os acrônimos, para referir os agrupamentos empíricos. Como a transição que trataremos aqui não é a de nomenclatura, mas da forma de organização ocorrida entre as décadas de 1950 e 1970, as nomeadas torcidas do Rio de Janeiro desse período devem ser pensadas como equivalentes às TUs.
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4
A promulgação da lei 14.193/2021 facilitou a conversão de associações civis em SAFs, acelerando a venda de clubes para empresas nacionais e estrangeiras. Para abordagens dos modelos de propriedade no futebol aqui e alhures, cf. Simões (2023), Moreira (2018), Llopis-Goig (2014) e Alvim (2023).
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5
Não vem ao caso tratar detidamente sobre o regionalismo gaúcho e sua estreita relação com o futebol. Cabe mencionar que Grêmio e Inter pertencem a um dos estados brasileiros onde o regionalismo historicamente é mais acirrado. Não sem motivo, o futebol é também um terreno no qual a identidade gaúcha é dramatizada (Damo, 2002; Guazzelli et al., 2021).
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6
A dupla Gre-Nal hegemoniza a preferência clubística em algumas regiões de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
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7
Aliás, a participação política institucional, bem acima da média dos demais clubes brasileiros, é uma razão adicional para utilizarmos a dupla Gre-Nal como suporte aos nossos argumentos, afinal, por volta do ano 2000, ambas as instituições reformularam seus estatutos, ampliando de forma expressiva o direito dos associados (Teixeira Pinto, 2024a).
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8
Sobre a mudança de nomenclatura dos públicos esportivos no Brasil, da “assistência à torcida”, ver Toledo (1996); Malaia (2010); Bonfim (2019).
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9
Charanga é a denominação para os conjuntos musicais e estéticos liderados por chefes de torcida que predominaram nos estádios brasileiros entre as décadas de 1930 e 1960 (Hollanda, 2008; Pinheiro, 2020).
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A iniciativa foi bem-sucedida a ponto de inspirar Salim Nigri, um jovem militante gremista criador do Departamento do Torcedor Gremista (DTG). Salim dispõe, atualmente, de um painel no Memorial do Grêmio por ter organizado uma excursão inédita, em meados da década de 1940, evento que serviria de leitmotiv para uma faixa empunhada pelos gremistas com o slogan “com o Grêmio, onde estiver o Grêmio”, mais tarde eternizada por Lupicínio Rodrigues no hino do Clube (Damo, 2002: 115-120).
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O DIP foi um órgão criado durante o Estado Novo (1937-1945) para exaltar o governo Vargas e submeter a imprensa à censura estatal. Seus efeitos se deram também sobre o futebol. Chaim (2018: 97-101), por exemplo, analisa como o DIP exerceu influência sobre a crônica esportiva brasileira, indicando caminhos para compreender como se deu a sinergia entre Estado Novo, clubes, imprensa e torcidas.
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Em que pese a proximidade com a Ilhota – região alagadiça da cidade que, junto à Colônia Africana e ao Areal da Baronesa, constituía uma espécie de enclave étnico para a população negra –, a política de recrutamento de jogadores negros por parte do Inter só ocorreu no final da década de 1930, já nos auspícios do profissionalismo (Damo, 2005: 231).
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A despeito da censura e da repressão política no espectro mais amplo da sociedade brasileira, houve um incremento na performance das TOs, como revela o pioneirismo da Coligay, a primeira torcida assumidamente gay brasileira, criada em 1977 (Anjos, 2022).
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Por exemplo, Toledo (1996); Teixeira (1998); Hollanda (2008); Teixeira & Hollanda (2018); Pinheiro (2020); Anjos (2022).
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A mudança musical, a partir das TOs, aporta, nos anos 1960 e 1970, um gênero musical contemporâneo, visto que foi também o momento do início da espetacularização dos desfiles de carnaval em que esta sonoridade seria dominante. Não sem razão, nos anos 1990, as TOs incorporaram outros gêneros que se disseminaram entre os jovens de bairros periféricos, como o funk e o rap.
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Raras são as investigações que ousaram problematizar, em detalhes, o financiamento dessas organizações e como obtêm subsídios dos clubes. Há casos de clubes que têm políticas institucionalizadas que preveem o tratamento equânime das TOs, mais ou menos como se os subsídios fossem uma “política de Estado”. Noutros os subsídios oscilam conforme as facções que comandam o clube e, nesses casos, como veio à toma no Cruzeiro, pode haver até dirigente de torcida na folha de pagamento da instituição (Capelo, 2021: 237-291).
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A Geral venceu o pleito, e a avalanche passou a ser realizada na Arena. Um acidente ocorrido logo após a inauguração levou à interdição e subsequente instalação de gradis nas arquibancadas, que permanecem sem assentos para viabilizar parte das performances das TOs, mas não mais a avalanche.
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Para frequentar as Barras não é necessário convite, associação ou uso de uniforme, bastando imiscuir-se ao grupo. No entanto, não são toleradas atitudes tais como alhear-se aos cânticos e aos movimentos coreografados. É contraindicado ocupar o espaço próximo à banda sem empenhar-se corporalmente na performance. Usar o celular durante os jogos, para trocar mensagens ou fazer selfies é terminantemente proibido. Assim, não causa espanto que, certa vez, a Geral do Grêmio tenha repreendido publicamente um casal que “viralizou” depois de pedido de namoro em meio à torcida dentro do estádio. Dizia sua nota pública: “A Barra não é lugar de romance. Evite constrangimentos”.
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Esse termo, adaptado do universo das máfias italianas, é usado para definir os chefes dessas torcidas. A apropriação não implica, por extensão, uma influência direta. Parece indicar, por um lado, o apreço que estes torcedores têm pela cinegrafia de gangsters e, por outro, um modelo de chefia pessoalizada e avessa à institucionalidade, seja ela estatal ou clubística.
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Para uma discussão pormenorizada a este respeito, consultar Teixeira Pinto (2022: 153-188).
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Editor-Chefe:
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