Este artigo analisa o papel central do crédito na reprodução social das famílias do morro Garrincha em Vitória entre 2016 e 2021. Em um contexto de apertos exacerbados pela recessão, a etnografia sublinha a ampliação das solidariedades intergeracionais que se entrelaçam com as relações de gênero. No seio das famílias, as práticas financeiras giram em torno dos avós aposentados, especialmente das avós. Com seu acesso privilegiado ao crédito e a uma renda estável, elas desempenham um papel central, dando dinheiro e emprestando o nome para ajudar os descendentes. Essas movimentações financeiras fazem parte de uma circulação mais ampla de pessoas, de cuidados e de alimentos entre as casas. No cotidiano, gerir as dívidas exige descer e subir o morro para pagar e movimentar vários cartões de crédito entre as casas de parentes, além de fazer atividades e horas extras para conseguir pagar as mensalidades. Essas inúmeras atividades podem ser definidas como o “trabalho da dívida” (Guérin, 2023), ou seja, atividades que são tão necessárias para a reprodução social da família quanto para a acumulação financeira. Esse trabalho é moldado pela divisão de obrigações entre gerações e sexos, e redefinido, ao longo do tempo, de acordo com as trajetórias de trabalho, os arranjos familiares e os ciclos de vida. Partindo desse ponto, este artigo contribui tanto para a antropologia da casa, ao colocar a dinâmica do endividamento no centro das “configurações de casa” (Marcelin, 1996), quanto para a antropologia da dívida, ao conceitualizar a família como um coletivo intergeracional endividado.
PALAVRAS-CHAVE
dívida; reprodução social; relações intergeracionais; gênero
Thumbnail
Thumbnail
Thumbnail
(fonte: Autor; autora: Mira Mina)
(Fonte: Autor; autora: Cécile Mouchel)
Fonte: Timo Narring