RESUMO
Este artigo analisa o papel central do crédito na reprodução social das famílias do morro Garrincha em Vitória entre 2016 e 2021. Em um contexto de apertos exacerbados pela recessão, a etnografia sublinha a ampliação das solidariedades intergeracionais que se entrelaçam com as relações de gênero. No seio das famílias, as práticas financeiras giram em torno dos avós aposentados, especialmente das avós. Com seu acesso privilegiado ao crédito e a uma renda estável, elas desempenham um papel central, dando dinheiro e emprestando o nome para ajudar os descendentes. Essas movimentações financeiras fazem parte de uma circulação mais ampla de pessoas, de cuidados e de alimentos entre as casas. No cotidiano, gerir as dívidas exige descer e subir o morro para pagar e movimentar vários cartões de crédito entre as casas de parentes, além de fazer atividades e horas extras para conseguir pagar as mensalidades. Essas inúmeras atividades podem ser definidas como o “trabalho da dívida” (Guérin, 2023), ou seja, atividades que são tão necessárias para a reprodução social da família quanto para a acumulação financeira. Esse trabalho é moldado pela divisão de obrigações entre gerações e sexos, e redefinido, ao longo do tempo, de acordo com as trajetórias de trabalho, os arranjos familiares e os ciclos de vida. Partindo desse ponto, este artigo contribui tanto para a antropologia da casa, ao colocar a dinâmica do endividamento no centro das “configurações de casa” (Marcelin, 1996), quanto para a antropologia da dívida, ao conceitualizar a família como um coletivo intergeracional endividado.
PALAVRAS-CHAVE
dívida; reprodução social; relações intergeracionais; gênero
ABSTRACT
This article analyses the central role of credit in the social reproduction of families in the favela of Vitoria between 2016 and 2021. In a context of squeezes exacerbated by the recession, the ethnography emphasises the expansion of intergenerational dependencies that are intertwined with gender relations. Within families, financial practices revolve around retired grandparents, especially grandmothers. With their privileged access to credit and a stable income, they play a central role, giving money and lending their names to help their descendants. These financial movements are part of a wider movement of people, care and food between households. On a day-to-day basis, managing debts requires going up and down the hill to pay them off and moving various credit cards between relatives’ houses, doing activities and working overtime to make ends meet. These countless activities can be defined as “debt labour” (Guérin, 2023), i.e. activities that are as necessary for the family’s reproduction as they are for financial accumulation. This work is shaped by the division of obligations between generations and genders, and redefined over time according to labour trajectories, family arrangements and life cycles. Starting from this point, this article contributes both to the anthropology of the home, by placing the dynamics of indebtedness at the centre of “home configurations” (Marcelin, 1996), and to the anthropology of debt, by conceptualising the family as an indebted intergenerational collective.
KEYWORDS
debt; social reproduction; intergenerational relations; gender
Introdução
“Por que tantos aposentados voltam a trabalhar? Por conta das dívidas”, falou Felipe, sentado na mercearia que ele instalou no andar térreo da casa familiar. A mãe, Dona Gê, deveria receber um pouco mais de dois salários mínimos: uma renda da aposentadoria (R$ 1000) e uma renda da pensão de viúva (R$ 1200). Porém, por conta dos descontos dos bancos, só recebia R$ 400 da aposentadoria e R$ 500 da pensão. Felipe soube do endividamento da mãe através da sua mulher, que ajudava a sogra a resolver seus problemas financeiros. Dois anos atrás, ela tinha acompanhado Dona Gê ao caixa do banco, porque os descontos atingiam R$ 1500 de renda. Negociou com o gerente o reparcelamento das dívidas. Desde então, Gê não reclama mais das dívidas. Acostumou-se a dar um jeito, cozinhando bolos que vendia na feira uma vez por semana. Como Dona Gê, outras pessoas do morro voltaram a trabalhar para pagar as dívidas. Este é o caso de um morador da parte de cima do morro, “encostado pelo INSS”2 por causa de um acidente. Já que não “sobrava quase nada no contracheque dele”, voltou aos canteiros das obras como ajudante de pedreiro. Assim, a fala de Felipe aponta um processo mais amplo que adquiriu certa consistência nas famílias do morro Garrincha3, onde morei catorze meses entre 2016 e 2021 e aonde voltei em dezembro de 2023 para um último campo.
Os empréstimos dão início ao que a socioeconomista Isabelle Guérin (2023) conceitualiza como o “trabalho da dívida”: uma atividade cotidiana, exaustiva e muitas vezes invisível, que envolve malabarismos constantes para assegurar a reprodução social das famílias de baixa casta no sul da Índia. No contexto brasileiro, marcado por taxas de juros extremamente elevadas e um endividamento financeiro massivo entre as camadas populares, esse trabalho se manifesta principalmente na realização de atividades extras para gerar renda, com o objetivo de quitar dívidas e compensar os descontos realizados pelos bancos e pelas “financeiras”. Em outras palavras, trata-se de um trabalho voltado quase exclusivamente para o pagamento de dívidas.
Este artigo parte do “trabalho da dívida” para examinar a forma pela qual a expansão do crédito é vivenciada no âmbito das camadas populares. Mais precisamente, ele coloca o “trabalho da dívida” no centro das configurações e das dinâmicas das casas, com o propósito de analisar como as famílias do morro reproduzem a existência social e material delas no contexto posterior à recessão4 de 2015-2016. Embora gere tensões e conflitos entre parentes, esse trabalho revela também a resiliência das famílias populares diante das crises financeiras e, em alguns casos, o fortalecimento dos vínculos entre parentes.
No morro, falar de crédito é falar de projetos como a reforma da casa; de cuidados, como uma cadeira de rodas para um parente doente; de desejos de “brilhar” através de novas roupas (Pinheiro-Machado e Scalco, 2022); até mesmo, de sonhos de outra vida. A possibilidade de ter acesso ao crédito é associada à “época do Lula (1 e 2)”5: um período de consumo abundante em comparação com a situação atual e as décadas anteriores de escassez e de hiperinflação (Neiburg, 2010). Para Carla, cozinheira autônoma, “o crédito é a possibilidade de comprar uma coisa que nunca conseguiria juntando dinheiro”. Com o acesso ao crédito, os moradores do morro “se sentiam parte da sociedade brasileira”, segundo Yuri, a liderança local. No entanto, falar de dívida é falar das dificuldades de pagar contas e juros em cima de juros, e também de reclamar de um parente ou amigo que sujou o seu nome (CPF negativado). Na maioria das vezes, os moradores nem falam de dívidas, mas de perrengues, sufocos e apertos. É através dessas categorias associadas à falta de ar ou de espaço que se expressa o campo lexical da dívida (Badue e Ribeiro, 2018; Petti, 2021).
Embora tenha celebrado o progresso do crédito no início dos anos 2000, Yuri denuncia a armadilha da dívida em 2020. Moldado pela trajetória de Yuri e pela transformação do contexto macroeconômico do país, esse discurso reflete a oposição clássica entre dívida e crédito. Como lembra Isabelle Guérin (2018), o crédito tem uma conotação positiva, associado à confiança e à honra, ao passo que a dívida está subjacente à ideia de pecado e de culpabilidade. No entanto, “crédito” e “dívida” são duas faces da mesma moeda (Peebles, 2010). Nesse ponto, socioeconomistas e antropólogos têm contribuído para essa reflexão ao destacar os efeitos ambivalentes do crédito, apresentando as perspectivas de grupos subalternos segundo diferentes temporalidades. Estudos realizados na África do Sul (James, 2015), nos Estados Unidos (Zaloom, 2019), no Chile (González, 2017), na Argentina (Saiag, 2016) e na Índia (Guérin, 2015) mostram como o crédito é, por um lado, sinônimo de progresso e cidadania que tornam possíveis as aspirações de mobilidade social; por outro lado, uma fonte de extração das rendas que provoca situações de superendividamento. Entretanto, esses estudos não analisam suficientemente como o crédito molda as relações intergeracionais e, inversamente, como a família se organiza, no dia a dia, para lidar com as dívidas. Essa lacuna está, talvez, ligada ao posicionamento da maioria dos pesquisadores da dívida no campo: eles vivem fora das casas onde realizam suas pesquisas e permanecem fora das redes de crédito que estudam. Ao conviver com as famílias do morro e ao me envolver em certas relações de crédito, minha pesquisa mostra que a família não é apenas uma unidade de análise, mas uma instituição central para pensar a reprodução da vida através da dívida (Narring, 2022).
No Brasil, a ampliação do crédito consignado6 para os funcionários do setor privado em 2003 e para os pensionistas e aposentados em 2004 é o ponto de partida da expansão do crédito (Carneiro, 2006; IPEA, 2007). É seguida pela criação de programas de crédito imobiliário e de financiamento de automóveis. Em um cenário de forte crescimento (2003-2013), o Estado vincula essa política de crédito às políticas sociais e de inclusão financeira, através da abertura de contas bancárias simplificadas (Lavinas, 2017). Vale destacar a especificidade do crédito consignado, modalidade de crédito em que o desconto da prestação é feito diretamente na folha de pagamento ou no benefício previdenciário do contratante. Esse mecanismo reduz o risco de inadimplência e incentiva as instituições financeiras a oferecerem mais crédito às camadas populares. Elas têm como alvo os aposentados e os pensionistas, porque possuem uma renda regular, garantida pelo Estado, e são, geralmente, excelentes pagadores (Narring, 2022). Por causa de seu acesso privilegiado aos dados de seus clientes e da possibilidade de descontar automaticamente, várias instituições financeiras cobram dos idosos encargos superiores ao limite de 40% estabelecido por lei7 em muitas situações8. Ao mesmo tempo, o desconto automático pelo banco facilita o não reembolso entre parentes. Várias pessoas usam o nome da mãe ou da avó aposentada para pegar empréstimo sem pagar depois. As situações difusas de descontos excessivos dos bancos e de não reembolso entre parentes geram compaixão e indignação. Cria-se assim uma percepção comum dos idosos, duplamente explorados: pelos parentes e pelas instituições financeiras.
Com exceção do crédito consignado, em que a taxa de juros é limitada e regulamentada pelo governo, todas as outras formas de empréstimo (cheque especial, cartões de crédito9, empréstimos ao consumidor pelas financeiras) têm taxas de juros exorbitantes. A renúncia do Partido dos Trabalhadores (PT), no poder entre 2003 e 2016, em regular o custo dos juros criou as condições para lucros recordes do sistema financeiro e de uma inadimplência massiva. No contexto pós recessão econômica, com a precarização do trabalho10 e a ampliação das políticas de austeridade11, mais dívidas tornam-se impagáveis e o superendividamento atinge 30 milhões de pessoas em 2021 (Idec, 2021). No dia a dia delas, as dívidas causam insônia, mal-estar e ansiedade, tanto que a “saúde financeira” está surgindo como um problema reconhecido pelas autoridades públicas (Fernandes, 2019). Nas palavras de Guyer e Neiburg (2017: 270), poderíamos dizer que a dívida está se tornando “uma preocupação pública e um campo de governo, uma questão para especialistas e também para pessoas comuns, que precisam ‘ganhar a vida’ em condições extremamente incertas”.
Duas décadas após o início da expansão do crédito, os debates sobre seus efeitos permanecem presos entre dois posicionamentos antagônicos. Ou o crédito é abordado, de forma global, por economistas políticos (Dowbor, 2015; Lavinas, 2017) e geógrafos marxistas (Montenegro e Contel, 2017) que denunciam a exploração financeira; ou é analisado por antropólogos a partir das transformações específicas dentro das camadas populares (Müller, 2014; Fernandes, 2019). O limite da contribuição crítica do primeiro é uma visão excessivamente homogênea dos efeitos do crédito. Ele é matizado e inflexionado por etnografias econômicas que mostram que o social resiste à imposição da lógica financeira por si só (Motta et al., 2014). À medida que se refina a análise, surge a questão do gênero, destacando o papel central desempenhado pelas mulheres na gestão das dívidas (Badue e Ribeiro, 2018; Kolling, 2021). Mas a perspectiva dos homens sobre a economia doméstica continua sendo um ponto cego, assim como a maneira pela qual a divisão sexual do “trabalho da dívida” é construída.
Diante de tais limitações, essa etnografia das famílias traz algumas respostas. A amplitude das circulações de crédito entre as casas e as gerações leva a conceitualizar a família como um coletivo endividado. Ela confirma a relevância da categoria de “configuração de casas”12 para pensar sobre modos de viver entre parentes e de fazer parentes (Marcelin, 1996; Motta, 2013; Machado, 2024). Fazer família no morro é socializar os recursos materiais e humanos, assim como construir e ampliar as casas de uma geração à outra, como mostra a análise de Cortado (2020) sobre os “puxadinhos”. Dessa forma, a antropologia da casa traz uma contribuição central para entender as dinâmicas das economias populares, especialmente o papel do dinheiro nas relações familiares (Motta, 2023). Porém, ela não explorou ainda o papel do crédito como força motriz das movimentações de dinheiro, pessoas e afetos entre as casas. Neste artigo, reposiciono as dinâmicas do crédito no centro dessas configurações de casas, para entender como as famílias enfrentam os perrengues.
Mais amplo do que as categorias de “casa”, “geração” e “gênero”, o conceito de reprodução social13 fornece uma chave de análise relevante para compreender como esses elementos se movem juntos por meio das dívidas (Fraser, 2020). Ele abrange tanto a materialidade da vida como os afetos, desejos, laços e estatutos que serão construídos, mantidos ou transformados ao longo do tempo (Leslett e Brenner, 1989). Inspiro-me no feminismo materialista dos anos 1970, que enfatiza o papel do trabalho doméstico na reprodução da força de trabalho (Federicci, 2019) e do feminismo antirracista (Hooks, 2019), que “aponta a importância do lugar da casa para a reprodução social das famílias negras” (Pierobon e Fernandes, 2023: 39). Atualmente, o “trabalho da dívida” é uma nova faceta dessas atividades, reconfigurada pela expansão do mercado do crédito nas favelas. Ele ocorre tanto dentro de casa, onde são feitos cálculos financeiros (Allon, 2010) e atividades extras, e entre as casas de parentes onde transitam cartões de crédito e dinheiro; quanto fora, nos canteiros de obras e nas casas dos ex-patrões. Assim, a perspectiva da reprodução social fornece uma abordagem relevante para pensar as relações sociais e espaciais necessárias tanto para a permanência das famílias quanto para a acumulação do lucro pelo sistema financeiro.
Nas seções que compõem o texto, eu me concentro nas trajetórias de três famílias que têm diversas situações e diferentes estatutos no âmbito da favela; porém, apresentam uma característica comum: são clientes do banco comunitário14 do morro, onde realizei minha primeira pesquisa em 2016. Esse banco promove o desenvolvimento local por meio de pequenos empréstimos a taxas de juros baixas. Foi graças aos funcionários do banco e às lideranças locais envolvidas nesta associação que estabeleci vínculos com essas três famílias.
O caso da família Nunes é um ponto de partida para entender a ampliação das circulações financeiras e monetárias entre as gerações. Envolvidos no comércio local e na igreja católica da favela, os Nunes são uma das famílias mais estáveis do ponto de vista do patrimônio, da renda e das relações entre parentes. Luísa e Rosemar, 72 anos, têm que lidar com o desemprego do filho e, depois, com a falência do restaurante da filha e do genro, Yuri. Eles desempenham o papel de fornecedores de crédito e de renda frente aos problemas financeiros dos filhos. Porém, a etnografia mostra que essas circulações são transitórias entre as gerações.
A família Bireiro apresenta uma situação bem mais precarizada, que confere ao crédito um papel central para se manter de um mês para o outro. Zilma, 74 anos, e Carlos, 76 anos, moram com os dois netos e quatro bisnetos. Para financiar as despesas de casa e pagar as contas atrasadas, eles contraem tanto crédito consignado como empréstimos na financeira local. O acúmulo de dívidas força Zilma a trabalhar para seus antigos patrões e obter favores dos amigos dos patrões.
Com uma situação intermediária entre as famílias Nunes e Bireiro, a família Arca oferece outra perspectiva sobre o “trabalho da dívida”, concentrando-se não apenas nas relações intergeracionais, mas também nas relações entre as irmãs. Para Cira, 44 anos, a intensificação dos apertos é a consequência do aumento de quatro para sete integrantes na casa e do não pagamento do salário do marido. Mesmo que esteja no SPC, Cira consegue financiar a crédito a maioria dos gastos de sua família. Para isso, ela tece e mobiliza uma rede ampla de crédito dentro do morro.
Para etnografar as dívidas, mobilizo o método das trajetórias de vida (Guérin et al., 2011) assim como o método da etnocontabilidade. O primeiro método coloca as práticas financeiras no contexto dos projetos e ciclos de vida da família. O segundo visa a “levar em conta o que as pessoas contam”, perguntando: “O que conta na vida?” (Cottereau e Marzok, 2012: 7). Tal abordagem responde aos debates antropológicos atuais sobre a vida como um objeto de pesquisa (Fassin, 2020) e como um ponto de contato com a economia (Neiburg, 2022). Adaptei a metodologia da etnocontabilidade, visitando as famílias três vezes por semana ao longo dos meus campos. Anotei a cada visita as entradas e saídas cotidianas de dinheiro e observei como as pessoas faziam contas (Araújo, 2017).
Além disso, envolver-me em relações de amizade foi uma ferramenta poderosa para etnografar o endividamento das famílias (Fine 1998; Tillmann, 2015). Mais do que planejado, essa metodologia foi experimentada (Rivoal e Salazar, 2013), concretizada na convivência de longo tempo e conscientizada depois do campo. Morar na favela e conviver com as famílias abriu uma janela privilegiada sobre a economia das casas. Aos poucos, passei do status de hóspede para o de amigo e acessei as narrativas das pessoas sobre suas dívidas. Além disso, impliquei-me em certas relações monetárias e afetivas. Fiz cinco adiantamentos em dinheiro entre 2019 e 2020. Isso provou ser simultaneamente inesperado e decisivo no resultado desta pesquisa. Não posso negar o risco de instrumentalizar as pessoas através da atração do dinheiro, que é precisamente o que lhes falta, na busca do pesquisador para aceder aos dados. Mas, neste caso, estes empréstimos faziam parte de um conjunto muito mais amplo de transferências de presentes, dádivas e atenções, desde a minha chegada. Estão circunscritos a um momento particular numa relação social, embora reforcem os laços forjados ao longo dos últimos anos. Das três famílias apresentadas aqui, apenas emprestei dinheiro à família Nunes e ao seu genro Yuri.
I. Família Nunes
Morei na casa dos avós Nunes, Luísa e Rosemar, no final de 2016, depois de ter conhecido Yuri pela atuação dele como liderança comunitária. Como filhos dos fundadores da favela, Luísa e Rosemar, ambos aposentados, conseguiram ter acesso a um terreno gratuito e próximo à pracinha da favela Garrincha. Luísa é uma mulher negra carismática, falante e muito engajada na vida da igreja católica do bairro. Rosemar é um homem negro, baixinho, prestativo, de cabelos penteados para trás.
A casa deles é uma das primeiras casas de concreto do morro, cuja construção começou em 1991. Ela é baseada em uma clara separação de espaços residenciais. Uma escada, instalada do lado de fora, dá acesso imediato ao andar de Simone, Yuri e os dois filhos deles, sem precisar entrar na casa de Luísa e Rosemar, localizada no térreo e no porão da casa. Ambos os andares têm cozinha, relógio de água e eletricidade, respectivamente. Cada família nuclear se alimenta separadamente e paga suas contas no início do mês.
Em novembro de 2015, o filho mais novo deles, que se mudou para outro bairro da cidade, ficou desempregado. Sua esposa deu à luz seu primeiro filho um mês antes. Luísa não parecia muito preocupada. Pois o filho caçula “tem curso técnico” e nunca ficou “mais de dois meses sem emprego”. No entanto, quando o benefício do seguro-desemprego chega ao fim, em março de 2016, ele não consegue encontrar outro emprego. Essa situação leva Rosemar e Luísa a ajudarem, oferecendo a ele seu cartão de crédito, assim como dinheiro das pensões de aposentadoria. Quando vem visitar os pais em um sábado ou domingo, o filho pega emprestado o cartão de crédito da mãe e o devolve na semana seguinte. Para pagar contas urgentes, como aluguel ou eletricidade, ele também pede adiantamentos à mãe. Dependendo do mês, ela lhe dá entre 300 e 500 reais. Luísa se recusa a permitir que o filho pague de volta, o que transforma a dívida em dom. Ela adquire o hábito de lhe emprestar o dela quando ele passa no morro aos sábados ou domingos. Ter um limite grande no cartão de crédito significa que ela não precisa fazer um empréstimo com a Da Casa, pagando juros extras. Além disso, Luísa e Rosemar têm uma reserva de poupança de R$ 7.000, que usaram duas vezes para pagar o aluguel atrasado do filho.
Essa luta financeira durou quase três anos. Em 26 de dezembro de 2018, Luísa está sentada na sala com uma amiga da igreja católica. Elas fazem o balanço desses anos difíceis em que ajudaram seus respectivos filhos desempregados.
Amiga: Uma das grandes lutas que Luísa e eu passamos esse tempo atrás foi ter nossos filhos desempregados.
Luísa: Você já pensou, receber um salário: Que Deus aumente esse salário mínimo porque você ajuda um filho desempregado durante três anos, com filho pequeno, pagando aluguel.
A: Isso é uma luta.
L: É vitoriosa. Você vê que hoje ele não paga mais aluguel, tem emprego, tem muitas pessoas que desistem, eu sempre falei “vai vencer”, hoje vi ele vencer, a luta passa. […] Você nunca deve desistir, é igual subir no morro, você desiste? Você vai desistir na primeira subida? Não, vamos insistir para subir até em cima, eu tô feliz porque sei que tá trabalhando. De primeira, tinha que me virar com o pai dele para sustentar as despesas e as dívidas dele, que eram muitas, essa foi a grande luta que a gente passou.
A conversa entre Luísa e sua amiga mostra a analogia entre as dificuldades de escalar as ladeiras do morro e as de redobrar os esforços para ajudar financeiramente os filhos e netos. Subir o morro e pagar dívidas se tornam sinônimos para quem mora na parte mais alta da favela e enfrenta situação de desemprego do filho e nascimento do bisneto. Luísa lamenta o baixo salário mínimo no Brasil. Faz uma crítica implícita ao Estado, que tornou mais rigorosas as condições de reprodução social pela falta de reajuste do salário mínimo proporcional à inflação e às necessidades das camadas populares (Dieese, 2021).
Nesse primeiro caso, são as rupturas profissionais (o desemprego) e eventos familiares (o nascimento de um neto) que levaram ao acúmulo de contas atrasadas e à perda do nome limpo para o filho. Essa luta é moldada pelo ritmo mais lento das entradas de dinheiro, em contraste com a aceleração dos gastos relacionados a um projeto de mudança e de família. No entanto, a situação permanece sob controle devido à regularidade das pensões de aposentadoria que Luísa e Rosemar transferem parcialmente ao filho, assim como ao uso dos cartões de crédito de Luísa, cujo limite é seis vezes maior do que sua renda. Assim, o crédito para aposentados oferece uma rede de segurança para ajudar seus filhos e netos durante os períodos de transição
O filho caçula encontrou um emprego como técnico em uma farmácia desde dezembro de 2018. Luísa continua a lhe emprestar seu cartão de crédito regularmente, mas ele lhe devolve em espécie o dinheiro que ela lhe deu, antes do vencimento da fatura. Embora a situação de trabalho do filho tenha melhorado, ele continua dependendo do crédito de sua mãe para financiar as despesas de sua família até o final de 2019.
Em março de 2020, é a vez de Simone (a filha) pedir ajuda à mãe para emprestar-lhe dinheiro, a fim de pagar um crédito rotativo. Após a falência do restaurante dela e de Yuri, Luísa e Rosemar recorrem novamente às suas aposentadorias e poupanças. Dessa vez, o dinheiro é transferido dentro da casa: do andar térreo para o primeiro andar, onde Simone e Yuri moram. A família Nunes demonstra a ativação de um princípio de solidariedade monetária entre as gerações durante os períodos de apertos vividos pelos filhos. As transferências de dinheiro ocorrem regularmente durante dois anos para a filha e três anos para o filho caçula.
Diferentes representações e narrativas coexistem dentro da família sobre os perengues. Para Luísa, as dificuldades financeiras levaram a família a se manter firme e a fortalecer o vínculo com seus filhos. Elas colocam à prova a ética de luta que os moradores do morro devem demonstrar diante da dureza da vida. Assim, o discurso de Luísa enfatiza a unidade e a coesão da família, que foram fortalecidas nesse período. Ao contrário, para Yuri, o fechamento do restaurante foi uma experiência dolorosa, fonte de vergonha e perda da autoestima, que contradiz os valores associados à masculinidade: a capacidade de pegar pesado sem ser atingido e de atuar como uma boa liderança do morro e um bom pai de família. Dessa forma, ele me explica sua ausência das reuniões entre lideranças e da praça central do morro onde está implementado o restaurante familiar.
Em 2020 emprestei 1500 reais a Yuri, o que gerou uma mudança na relação anteriormente estabelecida: ele passou a compartilhar comigo as angústias e emoções provocadas pelas dívidas, além dos dilemas que ele enfrentava. Yuri precisou se afastar de seu papel de líder comunitário para fazer um trabalho que lhe desse dinheiro e lhe permitisse pagar suas dívidas; por outro lado, era aquele compromisso político que o estimulava e lhe trazia o reconhecimento dos moradores. De um dia para o outro, percebi que Yuri oscilava entre um estado contínuo de tristeza com frequentes crises de insônia, ansiedade e perda de confiança e momentos de esperança, como uma tarde de setembro de 2020 em que ele me falou: “Eu vou virar economista se consigo sair dessa crise”. Nessa perspectiva, a crise poderia, talvez, ser vista como uma experiência positiva, permitindo que as pessoas adquiram novas habilidades e saberes sobre finanças (Neiburg, 2010). Ao contrário de Yuri, Simone demonstra firmeza e lucidez, ao continuar trabalhando do mesmo jeito na lanchonete. Frente à agravação da saúde mental de Yuri, Luísa decide levá-lo à igreja. Ela o interpela diversas vezes, dizendo: “Yuri você vai enfrentar por sua família”. A crise também reconfigurou as relações dentro do casal. Yuri, que brilhava pelo seu empenho na vida da favela, fechou-se em si próprio, enquanto Simone mostrou a sua capacidade de resiliência em casa e na lanchonete.
No final do período 2016-2020, todas as reservas de poupança de Luísa e Rosemar se esgotaram, devido às lutas financeiras dos filhos. O “trabalho da dívida” é um pesado fardo financeiro e moral para os aposentados. No entanto, seus dois filhos recuperaram alguma independência financeira no início de 2021. A circulação intergeracional de crédito e dinheiro, portanto, é transitória, enquanto em outras famílias é cotidiana.
II. A família Bireiro
Na família Bireiro a solidariedade é um princípio permanente da organização familiar. Uso essa categoria no sentido de uma norma internalizada pelos membros da família, que constitui uma necessidade para garantir sua permanência como um grupo social. Embora a ideia de solidariedade corra o risco de mitificar a ideia de coesão familiar, ela é relevante para falar de relações sociais que são menos uma questão de contingência que de obrigação (Messu, 2019). Isso se deve à integração precária das filhas15 e dos netos no mercado de trabalho, à sua independência limitada em termos de moradia e à expansão dos mercados ilegais nas favelas (Feltran, 2022). Carlos e Zilma criaram dois netos, Iago e Guilherme, após o vício em crack de sua mãe Paula e o assassinato de seu pai. Hoje, Guilherme tem dezessete anos e dorme no quarto ao lado dos avós. Iago, 23 anos, funcionário de um supermercado, mora no último andar da casa com a companheira e a filha, nascida em 2019. Como ele só construiu um quarto, sua segunda filha, Mayra, de quatro anos, dorme no quarto de Zilma e Carlos no primeiro andar (Esquema 1). Diariamente, Zilma cozinha para pelo menos sete pessoas. Como Iago e sua esposa não têm uma cozinha no segundo andar, eles fazem todas as refeições na cozinha de Zilma. A sala é o principal espaço de convivência, onde todas as gerações entram e saem ao longo do dia.
As responsabilidades financeiras recaem sobre os ombros dos avós. Há apenas um relógio de água e de eletricidade para toda a casa principal. Isso significa que o consumo dos sete moradores da casa é centralizado em uma única conta, que Zilma e Carlos pagam a cada mês. Além dos relógios de água e eletricidade, o compartilhamento de espaços sociais e de refeições entre as várias gerações é uma evidência do papel central dos avós na economia da casa.
Quando os conheci no banco comunitário, a situação financeira dos Bireiro ainda era praticamente estável. Zilma se orgulha de manter em dia o crédito e o pagamento de contas: “Tem milhões de pessoas no SPC, mas eu pago minhas contas no dia 2 do mês”. A funcionária mais experiente do banco comunitário me diz que “o crédito é como uma conta fixa para eles”, mas que eles conseguem “se virar assim”. Em novembro de 2018, comecei a observar as práticas de crédito no caixa da Casa Financeira, a maior financeira do Espírito Santo. A parceria entre a fundação da Da Casa e o banco comunitário me permitiu entrar em contato com os diretores das financeiras que liberaram o meu acesso à empresa.
Entre a casa e Da Casa: os avós endividados
Combinando uma análise do interior da casa dos Bireiro com uma observação no caixa da financeira, observo um processo de crescente articulação da economia da casa com a Da Casa entre 2015 e 2019. À medida que as contas de casa aumentam e os bisnetos nascem, a subscrição e o refinanciamento dos créditos se tornam o principal meio de sobrevivência. As temporalidades da reprodução social da família e a acumulação de lucros para a financeira estão, portanto, profundamente entrelaçadas. Diferentemente da família Nunes, o endividamento não se limita a períodos e espaços específicos. É permanente e abrange quase todos os elementos e espaços da casa. O crédito financia a compra de alimentos, de camas novas, roupas e fraldas para as crianças pequenas. Ele está interligado com as práticas de cuidado dos aposentados com os novos membros da família. As dívidas financeiras e domésticas se alimentam mutuamente até que a renda do casal de aposentados se esgote no início de 2020. O gráfico abaixo coloca em perspectiva o aumento da dívida financeira em relação à evolução estagnada das pensões de aposentadoria de Luísa e Carlos entre 2016 e 2020. Ele mostra a combinação dos empréstimos ao consumidor do Da Casa com os créditos consignados descontados das aposentadorias. Além disso, tem um novo empréstimo, contraído na Facta (financeira) em 2019, e pequenos empréstimos no banco comunitário.
Evolução da relação entre os pagamentos mensais de crédito e a renda de Zilma e Carlos de janeiro de 2016 a março de 2020
A dívida com Da Casa é tanto a dívida mais cara em termos de juros (210% por ano), como a que mais pesa no orçamento do casal. À medida que a casa dos Bireiros está mais interligada com a Da Casa, os recursos monetários de Zilma e Carlos se esgotam e o tempo diário é pontuado por mais e mais tarefas: Zilma pega vales com a ex-patroa e carne de graça com uma amiga da ex patroa, ambos pagam as mensalidades dos empréstimos e as contas da casa no caixa da Da Casa, aproveitam as oportunidades de ofertas promocionais que expiram rapidamente no supermercado, vão à Enseada do Suá para conseguir peixe de graça em troca de uma garrafa térmica de café. É preciso descer e subir o morro várias vezes ao dia. O pagamento das dívidas é também possível devido à economia nas despesas com alimentação e à recuperação de produtos não vendidos em vários mercados da cidade. Contudo, Zilma trabalha dois dias por semana na casa de seu ex-patrão entre fevereiro e maio de 2019. Ela usa os 300 reais do dinheiro da faxina para pagar as prestações mensais da Da Casa durante esses quatro meses. Essa entrada de dinheiro ajuda a lidar com o aumento no custo dos pagamentos mensais em mais de 500 reais após um refinanciamento de crédito no início de 2019. Mesmo que Zilma possa contar com o envolvimento do marido para ajudá-la a pagar as dívidas e cuidar dos netos e dos bisnetos, ela assume a maior parte do “trabalho da dívida”. Quando pergunto sobre essa divisão das responsabilidades, Zilma e Carlos evocam a saúde fraca de Carlos, que não lhe permite trabalhar. Minhas observações mostram também as habilidades de Zilma para conseguir alimentos de graça em grande quantidade e para cozinhar reaproveitando o máximo do ingrediente. Isso revela como a administração da cozinha possibilita compensar o peso excessivo das dívidas.
Do lado da Da Casa, os agentes de vendas chamam Luísa e Carlos de clientes VIP. “Essas pessoas pobres pagam melhor do que as pessoas de classe média”, afirmam vários vendedores de crédito. O termo clientes VIP se aplica a clientes que tomam muitos empréstimos e demonstram uma disciplina exemplar de pagamento. Do ponto de vista das instituições financeiras, ter como público-alvo os aposentados, especialmente estas mulheres idosas como Zilma, é uma estratégia extremamente lucrativa.
Quando pergunto por que ela está fazendo tanto esforço para pagar a Da Casa, mesmo que isso significasse atrasar o pagamento de outras contas, Zilma responde: “O problema do crédito é que você precisa pagar corretamente agora para obter crédito no futuro. Se você parar de pagar e seu nome estiver sujo, não poderá fazer nada”. A prioridade dada ao pagamento da Da Casa se explica assim pela necessidade de preservar a credibilidade do sistema financeiro. Como outras avós do morro, Zilma frequentemente repete o mesmo adágio: Deus nos deu duas coisas como privilégio: a vida e o nome. Assim, os pobres têm o dever de manter sua credibilidade sendo honestos e humildes em todas as suas ações. Essas preocupações se baseiam em uma ética de dedicação dos idosos a seus parentes. Quando lhe pergunto por que é que ela e o marido usam o crédito para as necessidades dos membros da família e pagam quase todas as dívidas, Luísa responde elogiando a unidade familiar e o amor incondicional.
Enquanto viverem, Zilma e Carlos são provedores de crédito para seus descendentes e de lucros para o capitalismo financeiro. De acordo com o Código Civil16, em caso de morte, a dívida não é transferida para o cônjuge ou filhos vivos. Zilma e Carlos associam à sua morte a própria morte da dívida. Isso é evidenciado pela visita em 16 de setembro de 2020. Quando pergunto até quando eles vão pagar, Zilma responde: “Até a gente morrer, desconta, desconta, desconta, aí quando a gente morre, eles param”. Carlos confirma: “Quando morremos, tudo acaba. Quando você morre, acaba”. A morte próxima está associada ao fim da dívida, enquanto a vida está associada à dedução incessante de aposentadorias. A partir dessa observação, podemos ir além, levantando a hipótese de que Zilma e Carlos internalizam a ideia de sua própria morte, assumindo o custo das dívidas para não repassá-lo a seus descendentes. À medida que sua morte se aproxima, eles continuam a trabalhar para manter a família unida. Além disso, o fato de as dívidas não serem transmitidas aos filhos provavelmente explica por que os idosos assumem seus custos. Uma vez que as dívidas morrem com as avós, concentrar a dívida em suas mãos restaura a margem de manobra de seus descendentes.
Reequilíbrios entre as gerações
Uma nova divisão do “trabalho da dívida” vai se estabelecendo a partir do final de 2019. No início de dezembro, a geladeira quebrou. Duas semanas depois, o telefone toca: a EDP (Energias de Portugal) ameaça cortar a energia. A dívida chega a 2.000 reais. Um quarto da dívida precisa ser pago até o final da semana para que a eletricidade não seja cortada. Esses dois eventos consecutivos levam as filhas e os netos a se envolverem mais no “trabalho da dívida”. Como as pensões estão totalmente comprometidas pelo pagamento das dívidas, Iago (o neto que mora em cima) e sua companheira estão juntando suas economias. Uma das filhas também põe a mão no bolso. Com esse dinheiro Carlos paga a entrada de 500 reais na agência da empresa de eletricidade. O restante da dívida é parcelado e será incluído nas contas dos próximos meses. Além disso, um dos netos, que mora numa cidade vizinha de Vitória, dá uma geladeira nova de presente.
Desde a ligação telefônica da EDP, a responsabilidade pelo pagamento das contas de luz e água foi transferida para o neto, Iago, e a esposa dele. Como Luísa e Carlos não têm mais condições de arcar com o pagamento das dívidas, a solidariedade entre as gerações é revertida. Iago também dá de 100 a 200 reais para sua avó, para complementar o dinheiro necessário para pagar sua prestação mensal à Da Casa. Além disso, ele e o genro de Zilma se encarregam de abastecer a família com alimentos. Iago usa os descontos que ele tem como funcionário do supermercado para fazer as compras. Em fevereiro e setembro de 2020, observo que Zilma espera nervosamente até que o neto retorne no final da tarde, para começar a cozinhar. O som dos passos de Iago nas escadas da casa é recebido com alívio por Zilma. As dívidas excessivas de Zilma e Carlos levam o restante da família a unir forças para pagar contas de casa e, às vezes, contribuir para o pagamento de empréstimos. Por um lado, as filhas e os netos lutam fora de casa e geram o dinheiro e os presentes materiais necessários para sustentar a família. Por outro lado, os avós lutam dentro de casa. Eles trocam fraldas, alimentam os recém-nascidos e cuidam dos netos, de olho na televisão, que está sempre ligada. A distribuição mais equitativa do “trabalho da dívida” se reflete no aumento das atividades de cuidado no andar dos avós.
As solidariedades intergeracionais são totalmente revertidas depois da morte de Carlos, em 11 de janeiro de 2021, sob o efeito da covid-19. Os filhos e netos são deixados para cuidar de Zilma, administrando o pagamento das contas, a manutenção da casa e o fornecimento de alimentos. Na minha visita em 9 de fevereiro de 2021, o clima é silencioso. Zilma está abatida. Seus movimentos corporais estão mais lentos. Eu lhe trago um pouco de carne seca. Ela reage com um breve entusiasmo: “Você pode cozinhar carne seca duas vezes: você cozinha primeiro, depois guarda um pouco para usar no caldo com os legumes”. Zilma me conta que cozinhou frango assado e farofa no Natal. Mas, desde que seu marido morreu, ela tem sido alimentada pela esposa de seu neto. A casa é limpada todas as manhãs por suas filhas. As compras são feitas por Iago e, às vezes, por seu genro. Iago também é responsável pelo pagamento das contas de casa. Então, as filhas, os netos e o genro assumem definitivamente o lugar dos avós. Esta inversão das solidariedades destaca o reequilíbrio das relações entre as gerações. Isso mostra que os “avós endividados” estão desaparecendo sob o peso das dívidas e do envelhecimento. Ou seja, a “ação do tempo” (Bourdieu, 1980), que articula os ciclos de vida com as políticas econômicas, reconfigura o “trabalho da dívida” e as relações entre as gerações. A duração média desse caso (seis anos) mostra, assim, uma configuração dinâmica e mutável das relações familiares.
III. A família Arca
Fiz amizade com Cira e Mao por meio do time de futebol local em dezembro de 2016. Depois, adquiri o hábito de os visitar na casa deles e de participar das festas da família. Na minha última visita de campo, em fevereiro de 2021, perguntei a Cira como ela fazia para se virar enquanto Mao, seu marido, não recebia mais salário desde vários meses. Cira entra no seu quarto e tira da gaveta um caderno. Sob a forma de um diário, este caderno apresenta as contas que Cira registra meticulosamente no começo de cada mês. Através das conversas sobre o caderno, Cira entra nos detalhes da sua gestão financeira. As batalhas financeiras se intensificaram desde o final de 2018 com a volta dos filhos mais velhos de Mao e Cira e a chegada de um neto de consideração.
Quando os conheci, Cira e Mao moravam com seus dois filhos de cinco e três anos. O filho mais velho de Cira ainda morava na casa dos avós que o criaram. Ele voltou a morar com sua mãe em 2017 depois de um conflito com o avô. Em dezembro de 2019, o filho de Mao se separa de sua companheira e volta a morar com seu pai. Ele leva consigo seu filho, Liu, com apenas dez meses. Segundo Mao: “A mãe de Liu deixou ele à nossa porta. Ele ia fazer um ano. Não tinha mãe e avó para criar ele”. Cira o corta: “Você deveria dizer avó de sangue!”. Para Cira, Liu é um neto de consideração. Pois é ela quem cuida dele o dia todo, ela quem cozinha para ele. Os filhos respectivos de Cira e Mao trabalham durante todo o dia, enquanto Cira administra a casa, paga as contas e cuida de Liu e de outras crianças da vizinhança. Essa divisão sexual entre trabalho assalariado e trabalho doméstico e a construção de um vínculo emocional com Liu a levam a reivindicar o status de avó. No caso da família Arca, o parentesco se traduz em uma “mutualidade de existência” (Sahlins, 2011) entre Cira e Liu. Esse conceito significa que: “kinsmen are persons who belong to one another, who are members of one another, who are co-present in each other, whose lives are joined and interdependent” (Sahlins, 2013, p. 11). O entrelaçamento de afetos, emoções e espaços, frequentados diariamente por Cira e Liu, molda essa relação assim como o compartilhamento de substâncias, tais quais comida, e de espaços, como as casas de Cira e das irmãs dela (Carsten, 2013; Marques e Leal, 2018). Isso resulta também do fato de que tanto Cira quanto Mao têm filhos de um primeiro casamento, de que o filho de Mao se separou da esposa logo após o nascimento do filho e, finalmente, de que a última desistiu de seu papel de mãe. As separações, as recomposições familiares e as negações da maternidade são, portanto, os fatores por trás da construção de novos laços de parentesco entre Cira e Liu.
Passar de quatro a sete pessoas dentro de casa provoca um crescimento dos gastos e um acúmulo de dívidas. A análise do caderno mostra um aumento vertiginoso dos gastos com alimentação, roupa, higiene entre 2019 e 2020, assim como a compra de novos móveis, como duas camas. Embora as compras a crédito representem 41% das despesas em outubro de 2019, esses gastos aumentam para 58% em dezembro de 2019, o primeiro mês em que a família é composta por sete membros, e depois de 68% em fevereiro para 77% em abril de 2020. Num contexto de inflação dos preços da “cesta básica”, as compras de carne são feitas a crédito, assim como grande parte das compras no supermercado. Assim, a dinâmica do endividamento é moldada pelo agrupamento de pessoas de duas famílias diferentes sob o mesmo teto.
Essas recomposições familiares e a aceleração do endividamento provocam várias tensões. Para Mao, sua esposa deveria priorizar as compras à vista e evitar o risco de contrair dívidas. Seu objetivo é garantir a segurança alimentar da família, “enchendo os armários da cozinha”. No entanto, Cira insiste na necessidade de parcelar a maioria dos gastos de consumo. Diante da reconhecida incompetência de Mao no que diz respeito à administração de dinheiro (“Cara, não sei nem o preço de uma agulha”), Cira tem a última palavra, o que encerra os debates entre eles. A falta de participação dos filhos também está causando sérias tensões. O filho de Cira dá 100 reais, e o filho de Mao 350 reais para ele e o neto. “Nem o custo dele corresponde a esse valor”, observa Cira (15 de setembro de 2020), e faz dois meses que “nenhum dos dois dá nada”. No dia anterior, Cira teve uma longa discussão com Mao sobre a falta de envolvimento dele com seu filho. Ela critica a arrogância do filho e a passividade de Mao, que “não se colocou” para pedir ao filho dele que mude seu comportamento. Por sua vez, Mao critica o filho de Cira, que “guardou dinheiro para comprar uma moto no momento que a mãe precisava de um dinheiro emprestado”. No dia seguinte, Mao se diz preocupado pelo consumo excessivo de cerveja de sua mulher. A tensão sobe. Depois de um silêncio, Cira se esforça para manter a calma e responde: “Bebo para amenizar o cansaço do dia. Tem uma mulher e seis homens em casa. Até o cachorro é macho! Faço tudo, e vocês não me dão valor!”. O retorno dos filhos mais velhos e a chegada de seu neto colocaram uma carga extra de trabalho em seus ombros. Frente à falta de reconhecimento de seu marido, Cira fica irritada. A crítica ao consumo de cerveja toca um ponto sensível: a cerveja simboliza para ela um “momento de lazer” entre mulheres.
Apesar dessas tensões, o uso do crédito possibilita o ajuste às transformações da família entre 2018 e 2021. Mesmo que Cira e Mao estejam no SPC17, Cira pode contar com uma extensa rede de crédito, que vai das irmãs e da sogra delas até os comerciantes do morro. A rede de crédito de Cira é primeiramente constituída por transferências de cartões de crédito, lojas e dinheiro entre três casas: a casa de Cira, as casas de suas irmãs e sobrinhas e a casa de Céu, a sogra de suas irmãs. Diferente das famílias Nunes e Bireiro, a configuração de casa é muito mais ampla e dinâmica no cotidiano da família Arca. O casamento das três irmãs de Cira com os três irmãos da família Santos, cuja mãe é Céu, criou as condições necessárias para os emaranhamentos financeiros. Duas delas moram com seus respectivos maridos no térreo e no porão da casa construída por seu pai. A outra mora com o marido no andar superior da casa da sogra, Céu. Por fim, Mao e Cira têm sua própria casa a cerca de 80 metros dessas duas casas vizinhas.
Para fazer compras em supermercados, Cira pega emprestado o cartão de crédito de Céu, uma aposentada de 65 anos, que tem um limite de crédito doze vezes maior que sua renda. Em troca, ela se oferece para ir ao banco pagar suas contas. As irmãs fazem o mesmo, pois estão também no SPC. Na véspera do vencimento da fatura do cartão de crédito, Cira vai até a casa de Céu para buscá-la. Em seguida, sobe as escadas e recolhe o dinheiro devido por cada irmã. Em seguida, ela desce o morro, a cerca de vinte minutos de sua casa, para pagar toda a conta no banco. Cira se responsabiliza também para resolver os problemas financeiros de Céu e para lembrar às suas irmãs os prazos de pagamento. Como ela é a única que não trabalha fora do morro durante o dia, assume as seguintes tarefas: reunir o valor das prestações mensais e anuais pagas, verificar se o valor da contribuição de cada pessoa corresponde ao valor exato a ser pago e, por fim, ir ao balcão para pagar a fatura. Essa troca do cartão de crédito por pequenos serviços ajuda toda a família estendida a manter o pagamento da dívida em dia. Ao mesmo tempo, Cira alivia as preocupações de Céu e a poupa da subida.
Essa rede de crédito assume a forma de vínculos concêntricos que ligam a casa de Céu às casas de Cira e de suas irmãs e, por fim, ao banco por meio da movimentação de Cira de uma casa para outra. Céu atua como o pilar financeiro dessa rede. Como as mulheres de bairros populares de Santiago no Chile (Han, 2012), ela coloca à disposição da sua rede o seu limite alto, ou seja, a “capacidade de emprestar e de se endividar” (Ossandon, 2017: 8). No final do mês, só uma fatura do cartão chega para Céu. Mas, na verdade, dissimula várias trocas, formas de cálculos complexos e movimentações de Cira entre as casas.
No dia a dia, o cartão de crédito que Cira mais usa para pequenas compras é o de sua sobrinha. A pedido de sua mãe, a sobrinha solicitou vários cartões de loja e de crédito assim que completou dezoito anos. Dessa forma, Cira recuperou o uso do cartão de compras Mastercard, que pode ser usado em todas as grandes lojas e supermercados da cidade. De acordo com a irmã mais velha de Cira, “essa maneira de ajudar uma à outra com os cartões é apenas entre nós, irmãs, porque somos nós que administramos os salários dos nossos maridos”. Essa citação mostra a categorização do dinheiro dos salários como um dinheiro administrado pelas irmãs em consulta mútua (Motta, 2024). Dadas as relações de parentesco entrelaçadas, a coordenação em nível de irmandade regula e decide também sobre usos do cartão de crédito de Céu, que serve para todos.
Lidar com o não pagamento do salário de Mao
Quando Mao para de receber o salário dele, entre janeiro e abril de 2020, Cira está mobilizando mais a sua rede de crédito e trabalhando mais fora de casa. Ela substitui uma cuidadora de agosto de 2019 a janeiro de 2020, duas noites por semana. Ela trabalha à noite, pois esse é o único momento em que Mao está em casa, para cuidar dos filhos e do neto. Isso mostra que a dessincronização dos horários do casal é uma forma de aumentar as entradas de dinheiro e, ao mesmo tempo, manter suas obrigações domésticas. Em dezembro de 2019, Cira recebe 900 reais do pagamento de seu FGTS18, que o governo liberou. Ela deposita esse dinheiro em sua conta bancária, antecipando a falta de renda que virá nos meses seguintes. Então, em janeiro, Cira recebe seu último salário e a indenização de fim de contrato: R$ 1.510. Com esses R$ 2.410, Cira paga a maior parte das dívidas de janeiro de 2020. Além disso, entre janeiro e abril, ela cuida de três crianças, em vez de duas, de segunda a sexta-feira, além de dois vizinhos pequenos em determinados dias. A renda mensal da creche aumentou de R$ 450 para R$ 580. Finalmente, Cira aproveita as temperaturas do verão em janeiro e fevereiro para vender todos os estoques de geladinho em que investiu no final de dezembro. Ela ganha R$ 280 em janeiro e cerca de R$ 200 em fevereiro. Assim, a diversificação das fontes de renda da família e a intensificação do trabalho feminino compensam, em parte, a falta de renda de Mao, que continua trabalhando, esperando o reconhecimento do seu patrão. Então, a sobreposição e a combinação, embaçamento de atividades destinadas a cuidar e gerar novas fontes de renda atestam a hiperprodutividade material e emocional de Cira.
No entanto, a renda continua insuficiente para pagar as contas e garantir a subsistência da família entre janeiro e abril de 2020. Cira faz vários empréstimos, que são registrados em seu caderno de contas: R$ 436 para sua irmã Milena; R$ 400 para sua tia aposentada, em fevereiro; em dezembro de 2019, R$ 310 para sua sobrinha; e R$ 200 para um comerciante do morro em março. O dinheiro emprestado possibilita financiar os gastos de comida e não atrasar o pagamento da prestação mensal do crédito para a compra de um freezer. Cira o comprou para o futuro bar que ela está construindo no porão da casa. Assim, frente aos apertos, ela combina atividades de gestão de dívidas com a geração de renda dentro de casa. A superposição das atividades de cuidado e de comércio nos diferentes andares mostra como a casa permite conciliar as temporalidades e as obrigações das famílias, do trabalho e das dívidas.. Redobrando de esforço e apoiando-se na sua rede de crédito, Cira consegue amortizar os efeitos dos apertos. Compensando os desajustes entre as entradas de dinheiro, atrasadas e insuficientes, o crédito garante “ganhar tempo” e recuperar margem de manobra (Anderson et al., 2019).
O caso da família Arca revela, assim, uma outra faceta do crédito: um meio de adaptação às reconfigurações e extensões da família, assim como um elemento constituído e constitutivo das relações entre irmãs. Diferentemente da família Bireiro, cujo endividamento financeiro ocorre fora da favela e com uma taxa de juros elevada, ele evidencia a densidade das relações internas à favela, que permitem comprar a fiado nas vendas e nos supermercados com os cartões da sogra Céu e da sobrinha. Assim, as solidariedades entre mulheres de diferentes gerações possibilitam contornar as restrições ao consumo impostas pelo SPC e continuar organizando festas e churrascos na laje da casa de Cira. Embora Cira administre seu dia a dia com bastante economia, ela gasta “sem contar” em ocasiões especiais, como nos presentes das amigas e na festa de aniversários das crianças. Crédito e consumo, nesse contexto, carregam consigo momentos de alegria e lazer (Arantes, 1993), moldando as sociabilidades entre parentes, vizinhos e amigas (Barbosa et al., 2009) que Cira faz questão de reunir. Mais do que um “direito de brilhar” (Pinheiro-Machado e Scalco, 2022), o consumo representa aqui a possibilidade de “gozar o momento”, relaxar e de aliviar as tensões em meio às lutas do dia a dia (Lima, 2008).
Considerações finais
No final, este artigo destaca as relações que vão se estabelecendo entre o endividamento das famílias populares e a reprodução social delas ao longo da crise econômica e política no Brasil. Além de ressaltar a dependência cada vez maior dos jovens com a renda dos idosos, como ocorreu no Brasil da pandemia de covid-19 (Camarano, 2020; Debert et al., 2020), mostra que essa dependência aos instrumentos de crédito e ao pagamento das dívidas se fortalece depois da recessão. A amplificação das circulações financeiras e monetárias entre as gerações e a intensificação do “trabalho da dívida” desempenham um papel central para enfrentar os apertos e garantir a sobrevivência das famílias mais pobres (Narotzky, 2021). Ao mesmo tempo, contribuem para manter os lucros altíssimos dos bancos (BCB, 2021), que se beneficiam da integração das camadas populares ao mercado de crédito desde duas décadas no Brasil e das taxas de juros entre as mais altas do mundo. Assim, a contradição entre a reprodução social das famílias populares e a acumulação financeira, que Fraser (2020) descreve como o “paradoxo sociorreprodutivo”, é atenuada. Ou seja, as famílias conseguem se manter e contribuir aos lucros altíssimos do setor financeiro graças à amplificação das solidariedades intergeracionais e à intensificação do “trabalho da dívida”, que recai sobre os ombros das mulheres. A ética de devoção a seus filhos e netos assim como os princípios de honestidade as levam a se desdobrarem para pagar dívidas. Nessa perspectiva, o cuidado da dívida está entrelaçado com o cuidado da casa e dos parentes, apontando a centralidade das relações de gênero na constituição dos territórios populares (Pierobon e Fernandes, 2023) e dos lucros financeiros (Guérin, 2023).
A apresentação desses três casos nos permitiu explorar as diversas facetas do “trabalho da dívida” e a variedade dos arranjos familiares. O caso da família Nunes mostra que a ampliação das dependências monetárias e financeiras entre as casas e as gerações atinge também as famílias mais estáveis do morro. Destaca os esforços dos avós aposentados para ajudar os filhos desempregados ou descapitalizados. O endividamento é associado, aqui, ao cuidado para o neto que acabou de nascer (Han, 2012) e ressignificado pela narrativa da luta dos moradores do morro (Cavalcanti, 2009). A diferença das famílias Bireiro e Arca é um processo transitório. Mas deixa rastros, como aponta a deterioração da saúde mental de Yuri. Interpreto isso como uma discrepância entre as aspirações de mobilidade social ascendente, alimentadas pelo crédito, e a recaída causada pelo superendividamento. Assim, a narrativa de uma “nova classe média” (Neri, 2008), construída pelo PT no poder (2003-2016), entra em conflito com a realidade (Braga, 2014), ou seja, a reafirmação de condição de pobre nas famílias do morro Garrincha.
O caso da família Bireiro salienta o papel essencial dos avós na acumulação de lucros pelo sistema financeiro, uma vez que a economia doméstica é totalmente imbricada e dominada pela economia financeira. A exploração financeira opera aqui tanto pelo poder de quantificação do dinheiro dos credores (Graeber, 2011), legalizado pelo Estado, quanto pela construção de um vínculo afetivo de proximidade entre devedores e funcionários do banco. Tornando os espaços e elementos da casa inseparáveis da lógica financeira, a dívida governa o tempo, aumentando as atividades extras no presente e no futuro para pagá-la (Lazzarato, 2012).
Entretanto, esse poder varia de caso para caso e é menos pronunciado na família Arca. Aqui, o “trabalho da dívida” consiste em fazer malabarismos com várias formas de créditos (banco, família, amigos) e movimentar recursos entre as casas dos parentes e os balcões do banco. Além disso, o caso de Cira mostra como sujar o nome pode dar às pessoas alguma margem de manobra orçamentária, desde que exista uma rede de crédito sólida dentro da favela. Cira usou o dinheiro do crédito de Da Casa para acabar a reforma da casa dela em 2015. Não pagou por conta dos problemas de saúde do filho recém-nascido, que a obrigaram a ficar no hospital e sair do trabalho. Esse exemplo demonstra que o poder da dívida não é linear ao longo do tempo, ao inverso da teoria de Lazzaratto (2012). Ele toma forma em diferentes sequências e ritmos (Adkins, 2016) e interfere com as temporalidades do trabalho e os ciclos familiares, sem dominá-los sistematicamente (Narring e Ducourant, 2025). Este caso mostra que a dívida não apenas piora as condições de vida ou destrói esperanças, mas também cria novos laços de parentesco e consolida outros (Roitman, 2003). Ao mesmo tempo provoca conflitos que refletem a ambivalência das relações de parentesco (Pina-Cabral, 2003).
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Contribuição de autoria:
nenhuma
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1
Agradeço a Federico Neiburg, Eugênia Motta e aos doutorandos e doutorandas do grupo “Economia e Cultura” do NuCEC/Museu Nacional os comentários generosos sobre a versão inicial deste artigo. Agradeço também às minhas duas orientadoras de doutorado, Isabelle Guérin e Blandine Destremau, pois foi graças às suas pesquisas e às nossas discussões coletivas que explorei as diferentes formas de trabalhar sobre a dívida nos morros de Vitória.
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Financiamento:
nenhum (além da bolsa de post-doutorando da IRD)
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2
Afastado das atividades laborais e recebendo um auxílio-doença pelo INSS.
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3
Intitulei esse morro como Garrincha e mudei todos os nomes, para anonimizar as pessoas que moram nesse território.
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4
Taxas de crescimento negativas em 2015 e 2016, marcando uma ruptura com uma década de alto crescimento (2003-2013).
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5
Refiro-me aos governos Lula entre 2003 e 2010.
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6
Experimentado nos anos 1990 para os funcionários públicos.
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7
A Lei 14.431/2022 elevou o limite de 35% para 40%,
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8
Ver o “escândalo dos descontos do INSS”: https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/06/13/fraude-do-inss-31-milhoes-ja-acusaram-descontos-irregulares-associacoes-abriram-512-mil-contestacoes.ghtml (consultado on-line em 11 de agosto de 2025).
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9
Desde janeiro de 2024, as taxas de juros rotativos do cartão de crédito estão limitadas a 100% ao ano.
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10
Vale destacar os efeitos da reforma trabalhista (2017), que enfraqueceu a justiça do trabalho, o poder dos sindicatos e criou novos tipos de contrato, como o “trabalho intermitente” (Galvão, 2019).
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11
A PEC 241 que congelou os gastos públicos para vinte anos foi a maior ilustração desse processo impulsionado pelo governo de Michel Temer em 2016.
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12
As configurações de casas referem-se a “um grupo de casas ligadas entre si por uma ideologia de família e parentesco” (Marcelin, 1996: 37).
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13
Para uma genealogia do conceito de reprodução social (Balibar, 2023); para uma reflexão sobre a relação entre cuidado e reprodução social (Verschuur, 2013); para entrar nos debates do feminismo materialista e interseccional (Bhatcharyata et al., 2017).
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14
O termo “banco” não é realmente apropriado, pois essas associações não podem coletar poupanças de seus clientes. Elas dependem de parcerias públicas e privadas, o que limita sua margem de manobra.
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15
As duas filhas que moram no terreno de Carlos e Zilma têm o Bolsa Família como única renda. Priscila pode contar com o salário mínimo do marido, enquanto o marido de Paula faz bicos.
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16
É o texto do artigo 1.792 do Código Civil, que proíbe que os herdeiros respondam por encargos superiores às forças da herança (https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/campanhas-e-produtos/direito-facil/edicao-semanal/divida-de-falecido, consultado em agosto de 2025).
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17
Serviço de Proteção ao Crédito. Explico na conclusão como Cira sujou o nome.
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18
Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- ARANTES, Antonio Augusto, 1993. “Horas furtadas. Dois ensaios sobre consumo e entretenimento”. Cadernos do IFCH, Campinas, Unicamp.
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(fonte: Autor; autora: Mira Mina)
(Fonte: Autor; autora: Cécile Mouchel)
Fonte: Timo Narring