Um professor de Química de uma unidade escolar do interior do Estado de São Paulo, em uma determinada manhã corriqueira de aulas, está terminando de “montar” a lousa no 3ºB para iniciar sua aula de Química Orgânica. Ao finalizar a atividade, começa a caminhar entre as carteiras enfileiradas para verificar se os estudantes estão copiando a matéria sobre “Classificação das Cadeias Carbônicas”. Ao passar pelas fileiras, surpreende-se ao encontrar Edgar, menino franzino de 17 anos, com o caderno fechado e ouvindo música com fones de ouvido em seu smartphone. Prontamente, Sr. Alcides, o professor, retira um dos fones da orelha de Edgar: - Bonito hein senhor?! Não vai copiar a matéria? Edgar, com a reação de um pugilista, responde: - Não. Isso não serve para nada. Química para quê? Isso não faz diferença nenhuma em minha vida! Furioso e vermelho como o espectro de emissão do Cálcio, adverte Alcides: - Se você não copiar, irei te colocar para fora da sala de aula. Comece a copiar. O adolescente rebelde, como todos em sua idade, pegou seu material e saiu da sala de aula. - E trate de ir direto para a diretoria - Grita no corredor o indignado professor de mais de 15 anos de serviço. No dia seguinte, conforme as regras da unidade escolar, Edgar, sua mãe e a diretora estão reunidos na sala da direção. O Sr. Alcides, batendo na porta, diz: - Com licença. Mandou me chamar Dona Marta? - Sim. Por favor, sente-se - responde Marta, apontando para uma das seis cadeiras que estão ao redor da mesa de reuniões. Há uma clara “tensão no ar”. Dona Marta, bastante austera e formal, inicia a reunião pedindo para que Sr. Alcides explique o ocorrido, que por sua vez toma a palavra para explicar, tintim por tintim, a cena vivida em sua aula anterior. Após a pormenorizada narrativa do professor, Cláudia, a mãe, interpela o professor: - Mas, realmente, não serve para nada! Sei que ele precisa tirar notas para passar de ano, porém Edgar é um menino muito crítico e não gosta de fazer coisas que não lhe interessem. E cá entre nós, para que serve a Química? Veja por exemplo o artigo da grandiosa Denise Fraga que acabou de sair no jornal “Folha de São Paulo”. Cláudia joga sobre a mesa o jornal aberto na coluna da atriz, autora e colunista Denise Fraga: Química, pra que te quero? 03/08/2014 às 02h00 Denise Fraga Meu filho vai mal em química. Meu outro filho também vai mal em química. Eu fui mal em química. Que me perdoem os químicos, mas alguém poderia me dizer por que ainda se estuda química nas escolas? É uma linda ciência e concordo que deveríamos ter ao menos um ano de estudo da matéria para entender a composição das coisas que juntas e inter-relacionadas compõem o Universo. Tudo é química e, pessoalmente, acredito que até as relações humanas o são. Mas não o afirmo baseada em nada que tenha aprendido no estudo de tal matéria durante minha vida escolar. Aprende-se para esquecer. E, no meu tempo, ainda se decorava a maldita tabela periódica. Não lembro de um bromo sequer e meus filhos ainda têm todas as cadeias de carbono e hidrogênio pela frente. Tenho uma antiga discussão com uma amiga professora a respeito das matérias que compõem o currículo escolar. O acesso à informação anda no nosso bolso a um clique de nossos dedos e mesmo assim precisamos decorar os nomes do aparelho reprodutor dos platelmintos? Podemos saber de tudo navegando por aí. Tanto pra aprender! E quem nos ensina a escolher o que queremos saber? Não poderíamos gastar o tempo de Química com algo relacionado ao autoconhecimento e à capacidade seletiva e deixar as cadeias de carbono e hidrogênio pra quem realmente precisasse delas? Minha amiga insiste comigo defendendo o ensino das atuais matérias com o argumento de que tudo leva ao desenvolvimento e à ampliação do raciocínio. Não tenho dúvida disso. Mas por que não optar por xadrez, por exemplo? Você já viu alguém jogar cadeias de carbono e hidrogênio com um amigo numa tarde chuvosa? Imagina que maravilha seria se todos nós fôssemos potenciais jogadores de xadrez formados pela escola? Raciocínio ampliado e prazer nas horas de lazer. Por que precisamos aprender coisas pra esquecer depois da prova e não para nos ajudar a viver? Não esqueceríamos o que teríamos aprendido se houvesse uma matéria chamada Diálogo, por exemplo. Poder de escuta, argumentação, retórica, articulação de raciocínio aprendidos em anos de estudos semanais garantiriam com certeza melhores conversas por aí. Inclusive entre os químicos. Fonte: FRAGA, D. Química, pra que te quero? Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 ago. 2014. Colunas e Blogs. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/denisefraga/2014/08/1494462-quimica-pra-que-tequero.shtml. Acesso em: 16 jul. 2018. Após a apresentação do Caso acima, sugere-se que se levantem as seguintes discussões com os alunos: -Você concorda com a opinião expressada pela atriz Denise Fraga? -Você também acha que não tem sentido estudar Química no Ensino Médio? -Seria a Química uma matéria menos importante que outras? -Química pode ser substituída por xadrez? -Diante da situação, quais deveriam ser os argumentos utilizados pelo professor para convencer Cláudia e Edgar de que vale a pena estudar Química Orgânica? |