Resumo
This article aims to report on the application of a teaching sequence (TS) based on the cooperative jigsaw method, which culminated in the individual production of popular science texts (PSTs) by undergraduate chemistry students, based on the reading and interpretation of an original research article (ORA) on tropospheric ozone. The PSTs were analyzed, and it was possible to conclude that, for the most part, they contemplated characteristics inherent to this textual genre. In fact, the students were able to identify the central theme of the ORA, contextualizing the problem investigated therein and highlighting essential elements of scientific activity. Furthermore, figures of speech, especially analogies and personifications, were widely used and, although infrequently, expert opinions were also mentioned. Visual and textual resources also stood out, especially graphics and drawings. Photographs, maps, and tables, although less common, adequately complemented the presentation of information. This work has relevant implications for chemistry teaching, highlighting the feasibility of working with this genre in higher education, in various curricular components, depending on the ORAs selected, which will boost textual productions aimed at a broad audience.
INTRODUÇÃO
A Divulgação Científica (DC) é definida por Bueno1 como o uso de recursos ou processos para comunicar informações científicas ao público em geral. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),2 por sua vez, a classifica como uma “atividade complexa em que os conhecimentos científicos e tecnológicos são colocados ao alcance da população para que esta possa utilizá-los nas suas atividades cotidianas e tomadas de decisão que envolvem a família, a comunidade ou a sociedade como um todo”.
Durante a pandemia de COVID-19, a DC ampliou seu alcance, dada a necessidade premente de comunicar ciência de forma acessível e compreensível.3 Desafortunadamente, a disseminação de fake news, aqui entendidas como notícias falsas, com potencial para enganar os leitores e aptas a serem verificadas como tal, fez com que instituições científicas, tecnológicas e de inovação respeitadas pelo fornecimento de informações precisas passassem a enfrentar desconfiança por parte da sociedade.4,5 Tal cenário chamou a atenção para a importância da habilidade de comunicação dos cientistas, não apenas ao se dirigirem aos pares e às agências de fomento, mas também à população e aos formuladores de políticas públicas.6 Portanto, é desejável fomentar iniciativas que qualifiquem os graduandos em química para a promoção da DC desde o início de sua formação.7,8
Exemplos de iniciativas dessa natureza são ainda escassamente reportadas na literatura, sendo possível citar, no contexto internacional, o trabalho de Hight et al.,9 intitulado Chemical Anthropomorphism: Acting Out General Chemistry Concepts in Social Media Videos Facilitates Student-Centered Learning and Public Engagement, e de Woodside et al.,10 intitulado Infographics and Iterative Peer/Near-Peer Review as Tools to Improve Chemistry Communication Skills with General Audiences.
Hight et al.9 relatam que, na Universidade da California, EUA, estudantes produziram vídeos sobre conceitos químicos, posteriormente divulgados em plataformas de mídia social, alcançando mais de um milhão de visualizações no TikTok. Por outro lado, o trabalho de Woodside et al.10 foi realizado na Universidade Brown, EUA, onde os estudantes geraram infográficos com a premissa de comunicar conceitos de química inorgânica e organometálica para o público em geral.
No contexto nacional, até onde vai o nosso conhecimento, o primeiro artigo sobre atividade didática realizada no âmbito do ensino superior de química, tendo em vista dar suporte aos estudantes para a promoção da DC, foi publicado nesta revista.7 Este relata as etapas de um minicurso sobre Comunicação Pública da Ciência (CPC) destinado a graduandos do curso de bacharelado em química do Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (IQSC/USP), vinculados ao Programa Student Chapter da Sociedade Americana de Química, que envolveu a simulação de uma redação de revista científica, aulas teóricas, análise de textos de divulgação científica (TDC) contidos na Revista Pesquisa FAPESP e produção de TDC pelos próprios participantes. Posteriormente, na mesma instituição, experiência similar foi levada a cabo durante a pandemia de COVID-19, quando novamente foi simulado um ambiente de revista virtual na disciplina Comunicação e Expressão em Linguagem Científica I, oferecida aos calouros.11
Iniciativas como as reportadas anteriormente têm se mostrado cada vez mais relevantes, pois se constituem em maneiras de aproximar a universidade e sociedade, com base na ação de graduandos em química. Tal aproximação, por essa via, tornou-se premente a partir do ano de 2023, com a curricularização da extensão que, de acordo com a Resolução No. 7/2018,12 consiste na adequação dos projetos pedagógicos dos cursos de graduação, visando garantir que um percentual mínimo de 10% da carga horária seja dedicado às atividades extensionistas. De fato, as atividades de extensão muitas vezes dependem de uma comunicação efetiva entre os estudantes e a comunidade que será alvo das mesmas.12
Nessa perspectiva, este trabalho tem como objetivo relatar a aplicação de uma sequência didática (SD), pautada no método cooperativo jigsaw,13 que culminou na produção de TDC sobre o ozônio troposférico por graduandos em química, assim como analisá-los na perspectiva do seu alinhamento com as características inerentes ao referido gênero textual. Para tanto, foi empregado o quadro analítico proposto por Ferreira e Queiroz,14 descrito sucintamente no tópico a seguir. A SD diz respeito às mudanças climáticas, ao efeito estufa e à destruição da camada de ozônio, temas centrais na sociedade atual e recomendados para inserção em ambientes de ensino por educadores químicos, devido à sua abrangência e associação direta com a nossa qualidade de vida.15,16
Quadro para análise de TDC de Ferreira e Queiroz
Ferreira e Queiroz,14 com base no trabalho de Ribeiro e Kawamura,17 elaboraram um quadro para análise de TDC, ilustrado na Figura 1.
Tomando por base o quadro analítico, os TDC podem ser investigados em relação ao conteúdo e forma. Ao observar o conteúdo, a análise é feita sob a perspectiva geral e específica. Para a análise geral, o texto é classificado com base em seus conteúdos principais, em uma das três subcategorias: química, fronteiras e temas transversais. Já para a análise específica, são observados: a temática do texto, os elementos que remetem às características da atividade científica, ou seja, que se referem à práxis científica e, por fim, a abordagem/contexto, indicando a forma em que o texto é associado a um contexto, seja ele econômico, ambiental, político e/ou social.
Ao examinar a forma, existem três subcategorias: estrutura, linguagem e recursos visuais e textuais. No aspecto da estrutura é observado como os textos estão construídos e distribuídos, enquanto que na linguagem é analisado como os conteúdos e informações são transmitidas ao leitor, finalizando com os recursos visuais e textuais, no qual são observados o uso de figuras, boxes, gráficos, esquemas, letra capitular, dentre outros.
Estudos reportados na literatura fazem uso desta ferramenta, ou de versões adaptadas, para análise de podcasts,18 histórias em quadrinhos,19 TDC7 e livros de divulgação científica.20 Neste manuscrito, entende-se, assim como advoga Grillo,21 a existência de vários gêneros textuais que veiculam discursos de divulgação científica, como artigo, podcast, história em quadrinhos, texto literário etc. Dentre esses gêneros, neste trabalho abordamos o artigo de divulgação científica, aqui denominado TDC.
PERCURSO METODOLÓGICO
Contexto de aplicação da SD
A SD em questão foi implementada no componente curricular Comunicação e Expressão em Linguagem Científica I, oferecido aos ingressantes do curso de bacharelado em química do IQSC/USP, com aulas semanais de uma hora e quarenta minutos. Este tem, entre os seus objetivos, a familiarização dos estudantes com diferentes tipos de documentos vinculados à produção e disseminação da ciência, dentre os quais estão os TDC.
O método cooperativo jigsaw,22 que pautou a elaboração da SD, tem como premissa que as atividades didáticas sejam realizadas em três etapas: inicialmente os estudantes são divididos em grupos de base heterogêneos e estudam um tema comum; em seguida, o tema é dividido em pequenas partes e cada membro do grupo de base é designado a estudar apenas um deles juntamente com membros de outros grupos, formando grupos de especialistas; por fim, ocorre o retorno dos membros aos seus respectivos grupos de base para ensinar e compartilhar o que foi estudado nos grupos de especialistas. Na literatura nacional referente ao ensino de química este método tem sido reportado com frequência.23,24
Na SD em questão, seis grupos de base heterogêneos compostos por quatro membros foram formados a partir de um questionário respondido por 24 estudantes que compareceram ao primeiro dia de aula. O referido questionário solicitou que fosse mencionada a formação estudantil (curso técnico, ensino médio, graduação, transferência de outro curso etc.), assim como que fossem indicadas as categorias à qual pertenciam quatro textos a eles fornecidos, dentre as seguintes opções: artigo original de pesquisa, artigo de revisão, artigo voltado para a área de educação em ciência/química e artigo de divulgação científica.
Na segunda aula mais oito estudantes se juntaram aos já existentes, tendo sido distribuídos em mais dois grupos de base não heterogêneos, de modo que as suas produções textuais não foram analisadas neste trabalho, por não pertencerem a grupos que cumpriam o requisito da heterogeneidade. Na ocasião, a docente discutiu as respostas oferecidas pelos estudantes na aula anterior sobre a categoria a qual cada um dos quatro textos pertencia e apresentou alguns critérios utilizados para distingui-los, como a linguagem, o perfil e o número de autores, a estrutura geral do texto, o público-alvo etc. Por fim, foram discutidos de forma aprofundada aspectos estruturais de um artigo original de pesquisa (AOP) e solicitada a leitura do AOP denominado “Formação e concentração do ozônio troposférico no município de Lamarão do Passé - BA: estudos das transformações de NOx e os possíveis impactos à saúde humana”, de autoria de Alves e Alves,25 como atividade extraclasse. Com base na leitura, cada estudante elaborou um glossário com as palavras desconhecidas e formulou três perguntas que consideradas fundamentais para a compreensão do AOP.
Na terceira aula foram iniciadas as atividades do jigsaw:22 os estudantes se reuniram nos grupos de base (seis heterogêneos e dois grupos não heterogêneos), conforme ilustra a Figura 2, na qual os grupos não heterogêneos estão delimitados por um retângulo. Nesta etapa foi elaborado um painel a respeito do AOP, com caráter de divulgação científica, tendo o público não especializado como alvo.
Na quarta aula, cada membro dos grupos de base recebeu a responsabilidade de tornar-se especialista em um dos seguintes temas: linguagem, estrutura, recursos visuais e características da atividade científica nos textos destinados ao público em geral. Dessa forma, foram formados dois blocos de grupos de especialistas, conforme ilustra a Figura 3. O primeiro bloco é representado pelos grupos A, B, C e D, enquanto o segundo é constituído pelos grupos E, F, G e H. Nessa perspectiva, os estudantes identificados pela cor vermelha foram designados a aprofundar seus estudos no tema linguagem nos TDC; os identificados pela cor roxa concentraram-se na sua estrutura; os da cor marrom, nos recursos visuais usualmente apresentados nos TDC; e os da cor verde, nas características da atividade científica neles presentes. Nesta etapa, cada grupo de especialistas recebeu orientações acerca do tema no qual se aprofundou, baseadas nos materiais didáticos que constituem os Apêndices J e K da Tese de Doutorado de Silva.26
Na quinta aula, os estudantes voltaram para seus grupos de base e compartilharam com seus colegas pontos relevantes que estudaram em seus respectivos grupos de especialistas. Após o compartilhamento de informações, foram feitas modificações no painel que havia sido inicialmente elaborado, com o intuito de contemplar de forma mais apropriada as características de um texto destinado ao público-alvo.
Na sexta aula, os representantes de cada grupo de base apresentaram a versão final do painel para a turma, apontando alterações realizadas no painel inicial que culminaram na versão em exibição, com as respectivas justificativas para tanto. Após cada apresentação, a docente fez observações sobre os painéis, sugerindo modificações, quando pertinente.
Finalizadas as etapas do jigsaw,22 foi aplicada uma avaliação final individual que consistiu na elaboração de um TDC sobre o AOP,25 sem limitação quanto ao número de palavras e ao uso de imagens. No dia da avaliação, os estudantes tiveram autorização para levar figuras, gráficos e tabelas, além do próprio AOP, assim como os materiais didáticos fornecidos pela docente,26 que abordavam as quatro temáticas discutidas nos grupos de especialistas (Figura 3).
Cabe destacar que a solicitação da realização de atividades individuais após a conclusão do jigsaw22 não é incomum e tem sido reportado na literatura quando existe o propósito de identificar os conhecimentos adquiridos por parte de cada um dos estudantes frente ao tema estudado de forma cooperativa, que é o caso do presente estudo. Este procedimento foi adotado, por exemplo, com relação ao ensino de equilíbrio químico27 e de funções orgânicas.24
Coleta e análise de dados
O corpus deste trabalho é constituído por 21 textos produzidos individualmente por participantes dos grupos heterogêneos que frequentaram todas as aulas, aos quais foi conferida a numeração de 1 a 21 (E1, E2, En). Para a análise, os textos foram lidos na íntegra pelos três autores deste manuscrito e, em seguida, divididos em unidades de análise (UA), de modo que cada título, subtítulo, parágrafo e imagem se constituísse em uma UA e foram classificadas de acordo com o quadro analítico de Ferreira e Queiroz.14
A análise dos textos, na perspectiva do conteúdo, no que tange à análise geral, foi realizada com base no conjunto de todas as UA, pois diz respeito aos aspectos principais presentes no texto, tendo em vista a sua identificação em uma das três subcategorias: química, fronteiras e temas transversais. O mesmo procedimento foi adotado para a análise específica, no que diz respeito à temática do texto e à abordagem/contexto ao qual se associa (econômico, ambiental, político e/ou social). Em contraponto, a análise específica relacionada aos elementos que remetem às características da atividade científica, ou seja, que se referem à práxis científica, foi realizada a partir da identificação de tais elementos em cada UA.
A análise da forma, no que tange ao aspecto estrutura, foi realizada com base no conjunto de todas as UA, enquanto a análise da linguagem empregada nos textos e dos recursos visuais e textuais foi realizada a partir da identificação de tais elementos em cada UA.
Para a análise das características da atividade científica, da linguagem e dos recursos visuais, uma UA pode ser associada a mais de um elemento. O uso de reticências (...) no decorrer do manuscrito indica recortes textuais que foram omitidos de frases presentes nas UA. Além disso, também foram corrigidos erros de ortografia e acentuação nos textos dos estudantes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Quadro 1 ilustra o número de UA presente em cada um dos textos analisados, sendo a média por estudante igual a 13 UA. O mínimo conferido é o total de 6 UA para E4 e o máximo de 23 UA para E18. A quantidade diversa de UA é justificada com base no fato de não ter sido estabelecido nenhum critério limitante com relação à extensão dos textos produzidos em sala de aula.
Análise do conteúdo
Conforme mencionado anteriormente, a análise do conteúdo, com relação à análise geral, foi realizada com base no conjunto de todas as UA, assim como a análise específica, no que diz respeito à temática do texto e a à abordagem/contexto (Figura 1).
A análise geral dos textos indicou que todos contemplam a subcategoria temas transversais, uma vez que abordam não apenas aspectos químicos, mas também discutem, de forma integrada, aspectos ambientais, econômicos e de saúde, conforme ilustram os excertos [1] e [2] a seguir, que apresentam indícios de transversalidade.
-
[1] “Logo, com os resultados e as avaliações realizadas, nota-se a preferência pela formação do O3 em concentrações mais elevadas no período das 10:00 às 13:00, momento no qual há maior incidência solar. E também que durante os 18 meses de análise, ficou evidente que as chances da População de Lamarão do Passé ficar doente por causa do O3 é reduzida. Porém, com sua localização exposta ao polo industrial de Camaçari, a necessidade do monitoramento do controle do ar é imprescindível.” (E8)
-
[2] “Por acaso você já sentiu dificuldade para respirar perto de fábricas e centros urbanos? Então, essa sensação pode ter sido causada pela quantidade de ozônio troposférico na região. Apesar de muito próximo do oxigênio que nós respiramos, o ozônio, formado por três átomos de oxigênio, quando concentrado na camada mais próxima da Terra pode causar doenças respiratórias sérias.” (E13)
Corroborando com o caráter de transversalidade dos textos, no que tange à análise específica, os estudantes discorrem sobre mais de uma abordagem/contexto, sendo as principais: saúde, ambiental e científica. Assim, dos 21 TDC produzidos, 20 contam com trechos diretamente vinculados ao risco à saúde da população submetida a altas concentrações de O3, 15 explicam sobre os impactos da poluição no meio ambiente e 12 privilegiam aspectos científicos, discutindo sobre a formação do O3. Ademais, todos os textos apresentaram como temática o ozônio troposférico e a análise de seu impacto na região de Lamarão do Passé, devido à solicitação de produção de um TDC baseado no AOP.25
Características da atividade científica
A análise específica, relacionada à presença nos textos de elementos que remetem às características da atividade científica, foi realizada a partir da identificação das mesmas nas UA (Quadro 2), a saber: descrição de metodologias científicas (MC); exposição da interpretação de resultados e conclusão de pesquisas (RC); alusão à cooperação entre diferentes instituições de pesquisa, empresas, agências, universidades e/ou organizações (COOP); menção ao trabalho em equipe na construção do conhecimento científico (TE); referência à aplicabilidade das pesquisas (APLI); citação de trabalhos relacionados ao assunto em foco (CIT).
O elemento mais utilizado foi o RC, presente em 51 UA e adotado por todos os estudantes, exceto pelo E6. A exposição nos TDC da interpretação de resultados e conclusão da pesquisa relatada no AOP ocorreu de diferentes formas, incluindo a apresentação e análise de dados [3] e também a comparação de limites normativos referentes à concentração de ozônio, sendo um valor estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e um outro, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) [4]. Além disso, os estudantes apontaram que as altas concentrações de ozônio na atmosfera do município de Lamarão do Passé podem impactar negativamente a saúde da população [5] e reforçaram a conclusão dos autores do AOP, ao destacarem os riscos à saúde pública associados a essas concentrações [6]. Por fim, também foi apresentada como conclusão a necessidade de elaboração de diretrizes para controle e monitoramento contínuo da concentração de ozônio na região [7].
-
[3] “Com base em todos os dados recolhidos, notaram que, em 2017, as maiores concentrações ocorreram em maio e agosto, com 70 ppb e 47,2 ppb, respectivamente. E em 2018 a maior concentração foi em março, com 67,4 ppb.” (E17)
-
[4] “Durante o primeiro semestre de 2018, foi registrado no mês de março (51,21 ppb) que, comparado com o valor orientado pelo CONAMA No. 491/2018, os níveis de O3 não ultrapassaram o estabelecido. Contudo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a concentração excedeu, porque o limite determinado é de 51 ppb.” (E21)
-
[5] “Nesse sentido, os sintomas mais associados são a dificuldade de respirar, alergias, sinusite e asma, além de agravar problemas preexistentes, afetando, assim, em especial idosos e crianças.” (E13)
-
[6] “Por fim, o estudo mostrou que as concentrações de ozônio na região estavam alteradas e estavam prejudicando a saúde da população, mesmo que os níveis estivessem favoráveis aos limites estabelecidos.” (E1)
-
[7] “Isso representa, sim, uma ameaça, ainda que de uma escala reduzida, e por isso, o cuidado com a qualidade do ar dessa região deve ser contínuo, bem como o monitoramento do ar e da indústria.” (E10)
O elemento TE apareceu em 20 UA e foi utilizado por 14 estudantes com o objetivo de enfatizar o trabalho em equipe na construção do conhecimento sobre a formação do ozônio troposférico e seu impacto na qualidade do ar, com menções, de forma implícita [8] ou explícita [9], aos nomes e às instituições dos cientistas envolvidos.
-
[8] “Preocupados com isso, os pesquisadores em questão analisaram dados de monitoramento de ar que se encaixam como uma luva no entendimento das reações que podem causar o aumento do ozônio troposférico na cidade de Lamarão.” (E2)
-
[9] “Um estudo realizado por Luciano da Silva Alves, da UNIJORGE, e Lara Camila da Silva Alves, da UNIFACS, no município de Lamarão do Passé, na Bahia, e publicado na revista Geama, observa e tira conclusões sobre os níveis de ozônio troposférico (...).” (E6)
Também presente em 20 UA, o elemento MC foi utilizado por 13 estudantes. Nas UA foram mencionados aspectos relacionados à metodologia científica, como: quais dados foram avaliados para verificar se a concentração de ozônio troposférico ultrapassava os limites estabelecidos pela OMS [10], a forma como foram coletados os dados [11], o procedimento para análise das concentrações de ozônio troposférico [12] e os parâmetros adotados para verificar se as concentrações estavam acima dos limites estabelecidos [13].
-
[10] “Foram avaliados valores referentes à concentração de ozônio (O3), monóxido de nitrogênio (NO) e dióxido de nitrogênio (NO2).” (E5)
-
[11] “A empresa possui um equipamento que detecta a concentração de ozônio a cada 15 minutos, e então os dados são passados para uma planilha referente às concentrações do ano de 2017 e 1º semestre de 2018.” (E17)
-
[12] “Para analisar as concentrações de ozônio no ar, foi utilizado um critério de média móvel diária durante um período de 8 horas.” (E20)
-
[13] “Os dados foram observados sobre 2 parâmetros. Um é o limite de ozônio estipulado nacionalmente pelo CONAMA, que é de 71,4 ppb. O 2º parâmetro é o limite da OMS, a Organização Mundial da Saúde, que definiu que valores acima de 51 ppb já apresentam riscos à saúde humana.” (E10)
O elemento COOP está relacionado com o elemento TE, sendo que os dois diferem no tipo de colaboração. O elemento TE envolve trabalho realizado em equipe por pesquisadores, enquanto o COOP refere-se à colaboração entre diferentes instituições de pesquisa, empresas, agências, universidades e/ou organizações. Enquanto o TE está presente em 20 UA, o COOP foi identificado em 18. A sua utilização foi pouco diversificada, concentrando-se, na maioria das vezes (15 UA), na informação sobre a concessão de dados da agência Cetrel S/A referentes às concentrações de ozônio troposférico no município de Lamarão do Passé para as Universidades UNIJORGE e UNIFACS, que realizaram a pesquisa [14]. Nas demais UA, destaca-se a colaboração entre universidades diferentes [15].
-
[14] “As concentrações de ozônio e de outros 2 gases, o NO e o NO2, foram medidas em um equipamento de monitoramento de ar da empresa Cetrel S.A, que cedeu os dados para a pesquisa.” (E10)
-
[15] “O estudo feito em parceria das universidades UNIJORGE e UNIFACS coletou dados do monitoramento atmosférico referente a Lamarão do Passé por cerca de 1 ano.” (E12)
Já o elemento APLI foi identificado em 15 UA e foi utilizado por 14 estudantes. A referência à aplicabilidade das pesquisas consta em trechos que ressaltam os desdobramentos da mesma, que abarcam a indicação da necessidade de medidas preventivas de monitoramento e fiscalização das concentrações de ozônio troposférico [16, 17].
-
[16] “As descobertas têm o potencial de fornecer informações valiosas para a adoção de medidas preventivas e aprimorar a qualidade do ar em Lamarão do Passé.” (E20)
-
[17] “O estudo, por fim, alerta quanto a necessidade de medidas para solucionar o aumento do composto, para isso, ações de controle de qualidade e fiscalização no Polo Industrial de Camaçari são necessárias.” (E13)
O elemento menos recorrente foi o CIT, presente em apenas 4 UA e utilizado por quatro estudantes. A citação de trabalhos relacionados ao assunto em foco ocorreu com o objetivo de fazer um paralelo entre o AOP utilizado como base para a elaboração dos textos com o estudo de Nardocci et al.,28 que investigaram a correlação entre os níveis de ozônio troposférico e a ocorrência de doenças respiratórias na cidade de Cubatão [18]. Dois estudantes mencionaram este trabalho, enquanto outros dois citaram o trabalho de Cesar et al.29 para destacar o papel das indústrias como agentes na formação do ozônio troposférico [19].
-
[18] “Segundo a pesquisa de Nardocci et al. (2013), foi observado que, entre 2003 e 2008, na cidade de Cubatão, existiu uma correlação significativa entre os níveis de ozônio e número de doenças respiratórias.” (E6)
-
[19] “Conforme Cesar et al. (2013) as indústrias estão entre as principais fontes emissoras de poluentes precursores para a formação do ozônio troposférico.” (E5)
A quantidade reduzida de UA relacionada a este elemento sugere a pouca familiaridade dos alunos com ações que envolvam a inserção de citações nos textos que produzem, o que não é surpreendente, uma vez que são calouros e tiveram pouco contato com revistas científicas.
A apresentação de várias características da atividade científica, ao longo de todos os textos, indica a pertinência da sua inserção, percebida pelos estudantes, e evidenciada nas suas produções autorais, assim como a desenvoltura e facilidade com que lidaram com este aspecto. De fato, observou-se que apenas os textos de E7 e E14 possuíam duas características da atividade científica, enquanto a maioria dos textos apresentou três ou quatro. E9, E10, E13, E17 e E20 destacaram-se, ao contemplarem cinco características da atividade científica, não considerando apenas a possibilidade de inclusão de citações.
Nessa perspectiva, é possível afirmar o alinhamento de todas as produções a uma qualidade que é inerente ao gênero textual em destaque, mencionada por Ferreira e Queiroz.14 Cabe ainda destacar que, para além de tal alinhamento, os resultados alcançados indicam a SD como promissora para a promoção de uma compreensão mais ampla dos estudantes sobre o modo como a ciência é construída. A presença nos textos de menções ao trabalho em equipe e a alusão à cooperação entre diferentes instituições para a realização da pesquisa desenvolvida por Alves e Alves25 pode contribuir para o rompimento do entendimento, muitas vezes disseminado na própria escola, de que o conhecimento científico resulta do esforço individual de uma pessoa excepcional, uma concepção criticada por Pérez et al.30
De maneira convergente ao observado no presente estudo, Murgel et al.31 também identificaram, em produções de graduandos em química, com caráter de DC, a presença de aspectos ligados à natureza da ciência. Dentre as 67 produções analisadas, apenas uma delas adotou como foco principal esta perspectiva (podcast intitulado Is science good or evil?), enquanto nas demais produções foram observados excertos no seu contexto geral.
Análise da forma
Conforme mencionado anteriormente, a análise da forma, com relação à estrutura, foi realizada com base no conjunto de todas as UA. A análise geral indicou que todos os textos pressupõem uma leitura sequenciada, pois apresentam uma sucessão de informações interdependentes, visto que os estudantes contextualizaram o tema abordando o ozônio troposférico e sua relevância na região de Lamarão do Passé. Em seguida, apresentaram a metodologia e as conclusões da pesquisa descrita no AOP.
Além disso, seis estudantes utilizaram boxes (espaço delimitado no TDC com texto explicativo ou relacionado ao assunto nele abordado)23 em seus textos, com diferentes objetivos. Dois desses boxes foram utilizados para citar pesquisas anteriores, a fim de fortalecer os argumentos que relacionam as altas concentrações de ozônio troposférico com doenças respiratórias [18]. Outros dois boxes foram empregados para contextualizar a temática: um deles informando o local da pesquisa descrita no AOP e a motivação do estudo [20]; o outro apresentou a metodologia da pesquisa contida no AOP [21]. Já os dois últimos boxes foram utilizados para explicar o que é o ozônio e para definição de reação fotoquímica [22, 23]. É importante ressaltar que os boxes apresentavam informações que, para o seu entendimento, dependiam das informações contidas no texto principal, ressaltando a necessidade de uma leitura sequencial.
-
[20] “Enquanto a população de Lamarão do Passé, cidade no interior da Bahia, desfruta das belezas naturais do município, um perigo silencioso paira pelo ar. O ozônio troposférico (...) Nesse sentido, um estudo foi realizado para investigar esse tal ozônio e os possíveis riscos à saúde que concentrações elevadas podem causar.” (E13)
-
[21] “As concentrações de ozônio e de outros 2 gases, o NO e o NO2, foram medidas em um equipamento de monitoramento de ar da empresa Cetrel S.A, que cedeu os dados para a pesquisa (...).” (E10)
-
[22] “O ozônio é uma molécula triatômica, composta exclusivamente por átomos de oxigênio.” (E15)
-
[23] “Reação fotoquímica é uma reação química que ocorre pela absorção de luz. A energia da luz é utilizada para quebrar ou formar ligações entre os átomos, resultando em uma transformação química.” (E20)
Linguagem
A análise relacionada aos elementos que remetem à linguagem foi realizada a partir da identificação daqueles, indicados por Ferreira e Queiroz,14 nas UA em todos os textos (Quadro 3): inserção de falas de especialistas (ESP); interlocução direta com o leitor (ITL); figuras de linguagem (FL).
O elemento mais utilizado foi o ITL, presente em 48 UA e utilizado por quase todos os estudantes, exceto por E16. A interlocução direta com o leitor esteve presente nos textos com diferentes objetivos, a saber: capturar a atenção do leitor e gerar um engajamento inicial [24]; introduzir ou aprofundar informações sobre o ozônio troposférico [25]; gerar questionamentos sobre as consequências e impactos, geralmente relacionados à saúde e ao meio ambiente, com relação às concentrações de ozônio troposférico [26]; apresentar a metodologia, interpretação dos dados coletados e resultados contidos no AOP [27, 28, 29].
-
[24] “O pequeno município da Bahia está com situação de emergência?” (E9)
-
[25] “Mas afinal, o que é esse tal de ozônio troposférico?” (E18)
-
[26] “Como o ozônio se torna um vilão às pessoas?” (E9)
-
[27] “Mas como se deu a pesquisa?” (E3)
-
[28] “Os dados apresentados suscitam algumas conclusões, não é mesmo?” (E10)
-
[29] “Mas quais foram os resultados do monitoramento?” (E11)
A interlocução direta com o leitor também foi empregada com o intuito de introduzir informações contidas no texto, de forma semelhante a uma conversa, com a adição de pronomes pessoais de tratamento, notadamente o pronome “você” [30].
-
[30] “E de onde vem esse NO2, você pode estar se perguntando (...).”(E11)
O elemento FL apareceu em 36 UA e foi utilizado por 17 estudantes. A figura de linguagem mais utilizada foi a analogia, presente em 22 UA, sendo principalmente usada para comparar a função do ozônio com objetos mais familiares, como um filtro [30], um guarda-chuva [31], uma estufa [32] e um cobertor [33], tornando mais simples a compreensão do leitor acerca do seu papel protetor na atmosfera. Além disso, diversos estudantes utilizaram a analogia da “receita culinária” para explicar o processo de formação do ozônio. Nesse contexto, as reações químicas foram descritas como etapas de uma receita, enquanto os compostos químicos envolvidos foram apresentados como ingredientes essenciais para a formação do ozônio [34].
-
[30] “Podemos afirmar que o ozônio (O3) emprega um papel muito importante em nosso planeta, já que, quando encontrado na estratosfera, uma camada mais elevada da atmosfera terrestre, é responsável por controlar a incidência de radiação ultravioleta na Terra, agindo como um filtro (...).” (E6)
-
[31] “Você sabia que o ozônio é considerado o guarda-chuva da Terra?” (E5)
-
[32] “Você sabe o que é o ozônio? Ele é uma molécula formada por três átomos de oxigênio e encontra-se em abundância nas camadas mais altas da atmosfera, sendo o seu papel principal proteger o planeta da exposição direta de radiação solar e manter uma parte do calor, como uma estufa (...).” (E7)
-
[33] “Você certamente já ouviu falar do ozônio (O3). Ele protege nosso planeta, como um cobertor te protege do frio (...).” (E10)
-
[34] “Assim como uma receita de bolo, essa reação é alterada de acordo com a quantidade de componentes.” (E11)
A segunda figura de linguagem mais recorrente foi a personificação, com atribuição de características humanas ao ozônio. O ozônio troposférico foi frequentemente personificado como algo ameaçador [35] e perigoso [36], em trechos que enfatizam seus efeitos negativos sobre a saúde humana. Por outro lado, o ozônio também é apresentado com dualidade, sendo constantemente caracterizado como “herói” ou “vilão” [37] e até mesmo “bipolar” [38], em trechos que indicam que o papel do ozônio depende de sua localização na atmosfera.
-
[35] “Assassino silencioso.” (E9)
-
[36] “O perigo invisível encontrado no ar que respiramos.” (E13)
-
[37] “Ozônio: Herói ou Vilão?” (E17)
-
[38] “Ozônio: o gás bipolar.” (E19)
Também foi possível observar nos textos o uso de metáforas e antíteses, recursos linguísticos que contribuem para tornar a comunicação científica mais envolvente e acessível. As metáforas, como “mergulharemos nas descobertas desse estudo”, foram empregadas para criar um efeito de imersão, convidando o leitor a explorar o tema de maneira mais dinâmica [39]. Já expressões como “criando uma pulga atrás da orelha” ajudaram a transmitir a ideia de dúvida e inquietação em relação aos dados analisados [40]. A antítese, por sua vez, apareceu em construções como exemplificado em [41], estabelecendo um contraste entre a função benéfica e os possíveis impactos negativos do ozônio. É importante ressaltar que a antítese consiste na aproximação de ideias opostas em uma mesma construção, intensificando o contraste entre elas e enfatizando a dualidade de um conceito ou fenômeno.
-
[39] “Neste texto, mergulharemos nas descobertas recentes desse estudo (...).” (E20)
-
[40] “Dessa forma, um grupo estudou essas informações e chegou à conclusão de que em maio de 2017 e março de 2018 houveram picos de O3, os quais criaram uma pulga atrás da orelha sobre se é preocupante essa situação (...).” (E9)
-
[41] “Quem te protege também te adoece.” (E19)
O elemento menos recorrente foi o ESP, presente em apenas 4 UA e utilizado por três estudantes. A inserção de fala de especialistas conferiu maior credibilidade aos textos produzidos, apoiando as afirmações com evidências científicas e discursos de autoridades na área [42].
-
[42] “Com isso, os autores do artigo original de pesquisa, publicado em abril de 2019 concluíram que:“dado o histórico da região mediante a influência do polo industrial de Camaçari, o resultado configura recomendar que as atividades de monitoramento e controle da qualidade do ar sejam acompanhadas com veemência e continuidade.” (E19)
Os textos dos estudantes colocaram em relevo o uso de interlocução direta com o leitor e de figuras de linguagem, com somente um aluno, E16, não aderindo a nenhum deles. As interlocuções diretas possibilitaram a promoção de uma aproximação entre os autores e os seus leitores, e também uma participação ativa destes últimos, que foram inquiridos a assumir um posicionamento frente às perguntas colocadas. O uso de figuras de linguagem propiciou o abandono de formalidades que são usuais em artigos originais de pesquisa, dando um caráter mais ameno aos textos, tornando-os atrativos e possibilitando o entendimento das mensagens pelo público-alvo. Dessa forma, é possível apontar a compatibilidade de praticamente todas as produções com a linguagem que é inerente aos TDC, de acordo com Ferreira e Queiroz.14
O uso recorrente de figuras de linguagem nos TDC dos alunos constitui-se em um resultado promissor, uma vez que investigações levadas a cabo por Rocha e Vargas,32 com o objetivo de identificar os componentes textuais em 24 textos publicados na revista de DC Scientific American Brasil, mostraram que dentre os recursos de linguagem mais encontrados estão as analogias e as metáforas (ambas presentes em quatro dos textos analisados, cada).
É importante ressaltar que, em todos os TDC analisados, observou-se um esforço consistente de simplificação da linguagem, bem como o uso de definições e explicações formuladas de modo a favorecer a compreensão do leitor. Essa escolha linguística demonstra uma preocupação explícita dos estudantes em tornar o conteúdo científico mais acessível, preservando a precisão conceitual sem abrir mão da clareza comunicativa. A inclusão nos textos de falas de especialistas foi menos recorrente, mas também serviu para esclarecer e reforçar as informações apresentadas nos textos.
Recursos visuais e textuais
A análise relacionada aos elementos que remetem aos recursos visuais, foi realizada a partir da identificação dos seguintes elementos, alguns deles indicados por Ferreira e Queiroz,14 e outros por Lima et al,33 nas UA em todos os textos (Quadro 4): fotografia (FOT), desenho icônico (ICO), desenho esquemático (ESQ), mapa (MAP), gráfico (GRA), tabela (TAB) e equações (EQ).
O elemento mais recorrente foi o ICO, presente em 23 UA e utilizado por 12 estudantes. Em 8 UA, foram empregados recursos visuais para representar a estrutura molecular do ozônio. Outras 7 UA abordaram as camadas da atmosfera terrestre, enquanto 5 UA utilizaram imagens para retratar a emissão de poluentes industriais e seus efeitos sobre a saúde da população.
O elemento GRA esteve presente em 20 UA e foi utilizado por 15 estudantes. Dos 20 gráficos encontrados durante a análise dos TDC, seis foram utilizados para mostrar ao leitor o perfil de formação do ozônio em 2017 e quatro para ilustrar o perfil de formação do ozônio no primeiro semestre de 2018, correspondendo, respectivamente, às Figuras 2 e 3 do AOP.25 Os gráficos em questão apresentam as concentrações de O3 (ozônio), NO (óxido nítrico), NO2 (dióxido de nitrogênio) e NOX (óxidos de nitrogênio) e mostram como as concentrações desses compostos variam ao longo do tempo, destacando a formação do ozônio troposférico em função das mudanças nos meses de 2017 e no primeiro semestre de 2018.
Além disso, uma UA apresentou o gráfico da variação da concentração média mensal do ozônio no ano de 2017 e cinco incluíram a variação da concentração média mensal no primeiro semestre de 2018, correspondendo às Figuras 4 e 5 do AOP, respectivamente. Esses gráficos foram utilizados pelos estudantes para mostrar ao leitor que as concentrações de ozônio não violam os limites estabelecidos pela OMS no ano de 2017. Contudo, em 2018, os valores passaram a ultrapassar os limites recomendados, indicando uma mudança nas condições da qualidade do ar.
Por fim, 3 UA utilizaram um gráfico de frequência de concentração máxima de O3 em função do horário no ano de 2017, que foi adaptado pelos alunos a partir da Tabela 2 do AOP. Este gráfico foi utilizado para mostrar ao leitor que as maiores incidências de O3 ocorrem no intervalo de 11 h às 14 h.
No que tange ao elemento EQ, foi utilizado por 10 alunos e presente em 13 UA. Todas as UA foram utilizadas para explicar o processo de formação do ozônio e todos os elementos químicos foram representados na forma molecular.
O elemento FOT esteve presente em 7 UA e foi utilizado por seis estudantes. Em quatro dessas UA, os estudantes recorreram ao uso de fotografias do céu, especialmente no início dos textos, com o intuito de transmitir ao leitor a ideia de que o tema abordado está diretamente relacionado à atmosfera. Em 2 UA, foram empregadas fotografias de indústrias emitindo poluentes, a fim de ilustrar a relação entre a emissão de poluentes e o processo de formação do ozônio. Além disso, em uma UA, o elemento FOT foi incluído em uma fotografia dos ganhadores do Prêmio Nobel de Química de 1995, cujo trabalho vencedor abordou a formação e decomposição do ozônio, utilizando a premiação como um recurso para destacar a relevância do tema contido no TDC.
No que diz respeito ao elemento ESQ, foi observado em 6 UA e utilizado por cinco estudantes. Em 2 UA, o elemento foi empregado para explicar o percurso e a incidência dos raios ultravioletas emitidos pelo sol até a superfície terrestre. Outras 2 UA representaram as camadas da atmosfera enfatizando a localização e a diferença entre o ozônio troposférico e o estratosférico, o que é evidenciado no AOP. Além disso, uma UA utilizou o elemento de forma sequencial para representar o processo de formação do ozônio.
O elemento MAP foi identificado em 5 UA e utilizado por cinco estudantes. Observou-se que os estudantes utilizaram a mesma imagem apresentada na Figura 1 do AOP. As UA se concentram em mostrar o local pesquisado em relação ao espaço em que está inserido, destacando seus atributos geográficos, como as suas fronteiras.
O único estudante que utilizou o elemento TAB, apresentou a frequência das concentrações médias máximas de O3 em função do horário do dia para cada mês do ano de 2017, correspondendo à Tabela 2 do AOP.25
Os textos produzidos pelos estudantes evidenciaram um uso expressivo de gráficos e desenhos icônicos, com exceção de apenas dois participantes (E5 e E7), que não recorreram a nenhum desses recursos. A adoção de desenhos icônicos indica que os estudantes reconhecem a importância de aproximar o conhecimento científico do público não especializado, aspecto que, conforme destaca Northcut,34 é fundamental para reduzir a lacuna entre o saber especializado e sua compreensão pela sociedade. Ainda segundo Northcut,34 a presença do elemento GRA nos TDC assume papel central, pois a visualização de evidências e a forma como elas se articulam aos argumentos contribuem para desenvolver uma postura mais crítica do leitor diante do texto.
A inclusão de fotografias, desenhos esquemáticos, mapas e tabelas foi menos recorrente, mas, ainda assim, contribuiu para complementar a apresentação das informações e enriquecer a compreensão do leitor quando utilizados.
Observa-se que praticamente todas as produções analisadas incorporam recursos visuais característicos dos TDC, em consonância com o que descrevem Ferreira e Queiroz.14 Ademais, os resultados aqui apresentados estão alinhados com aqueles reportados por Souza e Rocha,35 que também identificaram, em TDC inseridos em livros didáticos de biologia, a presença de elementos referentes aos recursos visuais e textuais, como o uso de fotografias, mapas, esquemas e gráficos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aplicação da SD pautada no método cooperativo jigsaw22 mostrou-se efetiva para desencadear um processo que culminou na produção individual por graduandos em química de TDC que, em sua grande maioria, contemplaram características inerentes a este gênero textual. Do ponto de vista do conteúdo dos TDC produzidos, os estudantes demonstraram capacidade de identificar a temática central do AOP, contextualizando o problema nele investigado e destacaram elementos essenciais da atividade científica, como o trabalho em grupo e a aplicação dos resultados obtidos a partir dessa empreitada. A presença consistente de explicações acerca do ozônio troposférico, de seus mecanismos de formação e de seus impactos, bem como o uso de dados extraídos do AOP, indica que os estudantes conseguiram reorganizar as informações de modo acessível, preservando os aspectos essenciais do fenômeno estudado sem perder o rigor científico. Estes elementos, conforme Ferreira e Queiroz,14 são inerentes aos TDC.
Em relação à forma, observou-se forte adesão das produções textuais às características dos TDC descritas por Ferreira e Queiroz:14 a interlocução direta com o leitor e as figuras de linguagem, sobretudo analogias e personificações, foram amplamente usadas e, embora com baixa frequência, falas de especialistas também foram mencionadas. Além disso, os textos apresentaram organização de forma não fragmentada e alguns incluíram boxes, ampliando o leque de informações pertinentes ao assunto em pauta. Os recursos visuais e textuais também se destacaram, principalmente gráficos e desenhos icônicos, que apoiaram interpretações sobre a variação das concentrações de ozônio e facilitaram a visualização de processos atmosféricos. Fotografias, mapas e tabelas, ainda que menos recorrentes, complementaram adequadamente a apresentação das informações.
Tendo em vista o exposto, o presente estudo confirma que a SD aplicada é satisfatória para o atendimento do objetivo de fomentar e subsidiar a produção de TDC por graduandos em química. A aplicação da referida SD em outros contextos, como em disciplinas específicas da área de química ambiental, desponta como sugestão para realização de trabalhos futuros. Com relação às suas limitações, destaca-se o número reduzido de sujeitos participantes da investigação. No entanto, frente às caracterísiticas peculiares do estudo, que exigiu uma análise detalhada de todos os TDC produzidos por parte dos três autores deste manuscrito, um número maior de participantes dificultaria sobremaneira o seu desenvolvimento.
Uma vez que a discussão dos dados não apresenta os limites e potencialidades do método jigsaw22 no contexto aqui investigado, sendo privilegiado o estabelecimento de relações entre os TDC produzidos e as características do gênero em estudo, trabalhos futuros podem ser realizados nessa perspectiva ainda não explorada, que se mostra promissora.
Ademais, são oriundos deste trabalho implicações relevantes para o ensino de química, com destaque para a constatação da viabilidade do trabalho com o gênero em foco no ensino superior, em componentes curriculares diversos, a depender do AOP25 selecionado para leitura e interpretação, que irá impulsionar as produções textuais voltadas a um público amplo. Por fim, para além do estímulo à prática da escrita, a produção de TDC pode servir como apoio à promoção de ações vinculadas à curricularização da extensão universitária.
AGRADECIMENTOS
À FAPESP (processo 2023/12415-2) e ao CNPq (processo 300448/2025 2) pelo apoio financeiro.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados devem ser solicitados ao autor correspondente.
REFERÊNCIAS
-
1 Bueno, W. C.: Jornalismo Científico no Brasil: Compromissos de Uma Prática Dependente; Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, 1984. [Crossref]
» Crossref -
2 Fazendo Divulgação Científica; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). [Link] acessado em março 2026
» Link -
3 Sacramento, I.; Monari, A. C. P.; Chen, X.; Comunicação & Inovação 2020, 21, 82. [Link] acessado em março 2026
» Link -
4 Alcott, H.; Gentzkow, M.; Journal of Economic Perspectives 2017, 31, 211. [Crossref]
» Crossref -
5 Galhardi, C. P.; Freire, N. P.; Minayo, M. C. S.; Fagundes, M. C. M.; Ciência & Saúde Coletiva 2020, 25, 4201. [Crossref]
» Crossref -
6 Wirz, C. D.; Cate, A.; Brauer, M.; Brossard, D.; Brown, L. P.; Chen, K.; Ho, P.; Lutter, D. G.; Madden, H.; Schoenborn, S.; Shaw, B.; Sprinkew, C.; Stanley, D.; Sumi, G.; Journal of Science Communication 2022, 22, 1. [Crossref]
» Crossref -
7 Sotério, C.; Queiroz, S. L.; Quim. Nova 2020, 43, 1163. [Crossref]
» Crossref -
8 Sotério, C.; Queiroz, S. L.; Revista do EDICC 2020, 6, 335. [Link] acessado em março 2026
» Link -
9 Hight, M. O.; Nguyen, N. Q.; Su, T. A.; J. Chem. Educ. 2021, 98, 1283. [Crossref]
» Crossref -
10 Woodside, A. J.; Weber, P. M.; Williard, P. G.; Morton, C. I.; Colvin, V. L.; Robinson, J. R.; J. Chem. Educ. 2023, 100, 1917. [Crossref]
» Crossref -
11 Sotério, C.; Queiroz, S. L.; J. Chem. Educ. 2023, 100, 380. [Crossref]
» Crossref -
12 Jornal da USP, Atividades de Extensão Passarão a ser Obrigatórias no Currículo dos Cursos de Graduação, 2023. [Link] acessado em março 2026; Ministério da Educação; Resolução No. 7, de 18 de dezembro de 2018, Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira e Regimenta o Disposto na Meta 12.7 da Lei No. 13.005/2014, que Aprova o Plano Nacional de Educação PNE 2014-2024 e Dá Outras Prividências; Diário Oficial da União (DOU), Brasília, seção 1, de 19/12/2018, p. 49. [Link] acessado em março 2026
» Link» Link -
13 Silva, G. B.; Teodoro, D. L.; Queiroz, S. L.; Investigações em Ensino de Ciências 2019, 24, 1. [Crossref]
» Crossref -
14 Ferreira, L. N. A.; Queiroz, S. L.; Quim. Nova 2011, 34, 354. [Crossref]
» Crossref -
15 Diaz-de-Mera, Y.; Notario, A.; Aranda, A.; Adame, J. A.; Parra, A.; Romero, E.; Parra, J.; Muñoz, F.; J. Chem. Educ. 2011, 88, 392.[Crossref]
» Crossref -
16 Pelegrini, M.; Araújo, W. R. B.; Quim. Nova Esc. 2017, 40, 72. [Crossref]
» Crossref -
17 Ribeiro, R. A.; Kawamura, M. R.; Atas do V Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências; Bauru, São Paulo, 2005. [Link] acessado em março 2026
» Link -
18 Sotério, C.; Queiroz, S. L.; J. Coll. Sci. Teach. 2023, 52, 30. [Crossref]
» Crossref -
19 Silva, G. B.; Queiroz, S. L.; Quim. Nova Esc. 2021, 43, 4. [Crossref]
» Crossref -
20 Silva, P. R. M.; Schifino, F.; Sirtori, C.; Passos, C. G.; Simon, N. M.; Quim. Nova 2023, 46, 836. [Crossref]
» Crossref -
21 Grillo, S. V. C.: Divulgação Científica: Linguagens, Esferas e Gêneros; Tese de Livre-Docência, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, 2013. [Crossref]
» Crossref -
22 Teodoro, D. L.; Cabral, P. F. O.; Queiroz, S. L.; Alexandria 2015, 8, 21. [Crossref]
» Crossref -
23 Sotério, C.; Teodoro, D.; Queiroz, S.; Quim. Nova 2022, 45, 101. [Crossref]
» Crossref -
24 Oliveira, B. R. M.; Vailati, A. L.; Luiz, E.; Böll, G. F.; Mendes, S. R.; J. Chem. Educ 2019, 96, 1515. [Crossref]
» Crossref -
25 Alves, L. S.; Alves, L. C. S.; Revista Geama 2019, 5, 30. [Link] acessado em março 2026.
» Link -
26 Silva, G. B.: Retextualização no Ensino Superior de Química: dos Artigos Originais de Pesquisa às Notícias Científicas; Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, 2024. [Crossref]
» Crossref -
27 Doymus, K.; Research in Science Education 2008, 38, 249. [Crossref]
» Crossref -
28 Nardocci, A. C.; Freitas, C. U.; Leon, A. C. M. P.; Junger, W. L.; Gouveia, N. C.; Rev. Saude Publica 2013, 29, 1867. [Crossref]
» Crossref -
29 Cesar, G. C. A.; Nascimento, C. F. L.; Carvalho Junior, A.; Rev. Saude Publica 2013, 47, 1209. [Crossref]
» Crossref -
30 Pérez, D. G.; Montoro, I. F.; Alís, J. C.; Cachapuz, A.; Praia, J.; Ciência & Educação 2001, 7, 125. [Crossref]
» Crossref -
31 Murgel, M.; Santos, D.; Marzorati, L.; Quim. Nova 2025, 48, e-20250174. [Crossref]
» Crossref -
32 Rocha, M. R.; Vargas, M.; X Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências; Águas de Lindóia, Brasil, 2015. [Link] acessado em março 2026
» Link -
33 Lima, M. S.; Larine, H. M.; Santos, D. G. L.; Queiroz, S. L.; Quim. Nova Esc. 2022, 44, 81. [Crossref]
» Crossref -
34 Northcut, K.; Journal of Visual Literacy 2016, 26, 1. [Crossref]
» Crossref -
35 Souza, P. H. R.; Rocha, M. B.; Contexto & Educação 2021, 36, 309. [Crossref]
» Crossref
Editado por
-
Editor Associado responsável pelo artigo:
Maurícius S. Pazinato






