Resumo
In this study, we sought to investigate how and in what ways a proposal based on Bauman’s perspective and the theoretical contribution of Critical Environmental Education (CEE) can influence the environmental training process of chemistry teachers. The proposal was developed within the scope of an Environmental Chemistry course and involved the participation of 17 students in initial training. During the classes, existential and political issues affecting society and the environment in times of liquid modernity were discussed, integrating, to a certain extent, chemical concepts and processes into the analysis of real situations. A questionnaire and an activity comprised the data for this study, which were submitted to discursive textual analysis. Among the influences of the approach, we highlight the potential to sensitize and involve students in debates about the environmental agenda. The proposal provided guidelines, that is, elements for students to recognize problematic situations that affect not only the environment but also individuals and the community in different ways. The approach contributed to critical environmental education, such as indignation and insight into political and economic injunctions in the current socio-environmental context, also revealing the multifaceted nature of the environmental dimension.
INTRODUÇÃO
A inserção da dimensão ambiental nas discussões que permeiam a formação de professores de química (FPQ) é constantemente desafiada, principalmente quando se fundamenta nos pressupostos da Educação Ambiental Crítica (EAC). Mediante os desafios, torna-se necessário trazer ao centro do debate aspectos macroestruturais que atravessam a formação de professores, especialmente o contexto de disputas e influências - não apenas conceituais, mas também políticas - que moldam os currículos e as políticas educacionais.1 Nesse cenário, determinadas disciplinas, conteúdos e perspectivas são privilegiados em detrimentos de outros, como a própria EAC, que propõe o enfrentamento de estruturas hegemônicas que sustentam os processos de exploração dos seres humanos e da natureza. É dentro dessa conjuntura sociopolítica que o espaço destinado à EAC e às suas propostas nos currículos dos cursos de Licenciatura em Química torna-se limitado e, em alguns casos, inexistente.
Mesmo quando há abertura para o desenvolvimento de discussões fundamentadas na EAC, outros desafios se impõem. Como destacam Vieira e Mesquita,2 a apatia e o desinteresse em relação à pauta socioambiental dificultam a interação dos envolvidos no processo de formação ambiental crítico, que requer debates profundos e permanentes. Tais comportamentos podem ser reflexos da Escala Desumana da Vida descrita por Guimarães,3 que é impulsionada pelo modo de organização social capitalista, que promove a disjunção, o individualismo, o consumo desenfreado e ensimesmado. O capitalismo, por meio de mecanismos de cooptação, tende a influenciar tanto as concepções quanto os comportamentos dos sujeitos, até mesmo os que dizem respeito às pautas importantes como a socioambiental. Sobre a Escala supracitada, Guimarães3 sinaliza que ela está presente:
“[...] quando nesses espaços urbanos o processo de degradação socioambiental se concentra e se intensifica. Para vivermos essa modernidade concentrada nos centros urbanos, ao mesmo tempo vivenciamos ambientes poluídos, degradados socioambientalmente em moradias precárias; lixo crescente e contaminação das águas; transportes incapazes de dar conta da concentração populacional e suas necessidades de deslocamento, que consomem grande parte do tempo de vida das pessoas; conviver com a crescente violência social e tantas outras mazelas da contemporaneidade.” (p. 62)
Em vista disso, ganham relevo os apontamentos do sociólogo Zygmunt Bauman4 ao afirmar que o capitalismo é um sistema parasitário. Como os parasitas, ele se desenvolve graças aos organismos que lhe fornecem nutrientes. Mas ele não consegue fazer isso sem prejudicar o hospedeiro e acaba destruindo as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência. O autor também ressalta que a força do capitalismo está na engenhosidade com que busca e descobre novas espécies hospedeiras sempre que as anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem.
Para ilustrar tal engenhosidade, destacamos a mineração no fundo do mar, autorizada em janeiro de 2024 pelo parlamento da Noruega. Mesmo diante de alertas sobre os danos irreversíveis que podem ser causados à biodiversidade e aos ecossistemas marinhos, o país se tornou o primeiro do mundo a autorizar esse tipo de atividade, abrindo 280 mil km2 das águas nacionais para empresas e entidades explorarem. A situação representa um sinal verde para a mineração de manganês, cobalto e outros metais no mar norueguês.5 Estes metais são usados na fabricação de baterias, veículos elétricos e outros eletrônicos, e são atualmente extraídos da terra, em países como a República do Congo, que detém algumas das maiores reservas de cobalto.
A artimanha capitalista se encontra no cerne do acontecimento descrito, pois, percebendo os limites da mineração em determinados locais devido à devastação provocada pela própria atividade, um estado de alerta é gerado mediante uma possível interrupção da extração e produção de mercadorias. Logo, se inicia a busca por uma rota alternativa, isto é, de uma nova hospedeira, que nesse caso são as águas marinhas. Dessa forma, o sistema de exploração capitalista tende a retirar, por meio da exploração ambiental e humana, possibilidades de sobrevivência e de qualidade de vida.
Gontijo e Echeverría6 descrevem também sobre a artimanha capitalista que, para evitar o seu colapso e manter o crescente acúmulo de capital, desloca as contradições existentes, podendo partir desde a concessão de migalhas à classe trabalhadora até a destruição de parte de sua produção para reedificar e criar um ciclo de produção e consumo. Nesse processo, são criadas necessidades humanas, com o intuito de facilitar o acúmulo de capital pela lógica de consumo, utilizando-se da propaganda e da ação da hegemonia burguesa.
Considerando a atual conjuntura, influenciada por um sistema parasitário promotor da Escala Desumana da Vida, concordamos com Vieira e Mesquita7 sobre a importância de se ter no horizonte o ideal de transformação da realidade socioambiental e isso requer a superação do modelo vigente, pois “enquanto a orquestra do capitalismo permanecer na regência, se perpetuará a exploração sem medidas da força de trabalho e dos bens naturais” (p. 9). De forma complementar e focalizando no âmbito formativo, as autoras7,8 defendem a necessidade de alumiar os reflexos do capitalismo na sociedade e no ambiente por meio de discussões fundamentadas na EAC e na Perspectiva Baumaniana.
No tempo presente, chamado por Bauman9 de Modernidade Líquida, a compreensão de que o mundo não está funcionando adequadamente e que deve ter seus fundamentos revistos é uma condição para o resgate de utopias, como a da transformação da realidade socioambiental. Mas atingir esse nível de compreensão requer uma racionalidade que forneça elementos para que os sujeitos possam “[...] perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos [...]” (n.p), como alerta Bauman.9
A construção de uma racionalidade ambiental segundo Leff,10 demanda a interdisciplinaridade, não só como um método integrador do existente, mas como uma perspectiva transformadora dos paradigmas atuais do conhecimento, da abertura à hibridização das ciências, das tecnologias e dos saberes populares. O autor reforça a importância de abordagens interdisciplinares para pensar e diagnosticar problemas ambientais complexos. Mas afirma que as causas profundas da crise ambiental e suas diferentes manifestações, remetem a um questionamento da racionalidade que as gera e à construção de uma nova racionalidade.
O tipo de questionamento supracitado pode ser conduzido de forma fundamentada no aporte teórico da EAC, uma das macrotendências político-pedagógicas da Educação Ambiental (EA) brasileira. Destaca-se, dentre os ideais da EAC, a busca por contextualizar e politizar o debate ambiental, problematizar as contradições dos modelos de organização social, assim como os mecanismos de acumulação de capital e exploração da sociedade e da natureza.11
A EA não pode ser neutra e indiferente das relações de poder que se encontram latentes na racionalidade dominante, ainda mais quando são estas que definem a forma de compreender, abordar e propor soluções para a problemática ambiental, conforme menciona Agoglia.12 Ao mesmo tempo, a EA deve ser consciente de seus limites e não se esquecer que seu campo de ação é o educativo, e que como tal, pode considerar-se como um dos pilares para a construção de uma matriz sociocultural que tenha a conformação de uma nova racionalidade, sustentada em princípios ambientais, equitativos e igualitários.
À luz destes pressupostos, endossamos a necessidade de ampliar o repertório de discussões e atividades que envolvem a dimensão ambiental e que são direcionadas aos diferentes níveis de ensino, inclusive à formação inicial de professores. Nesse sentido, a EAC e a perspectiva baumaniana podem contribuir, seja abordando conceitos e/ou relacionando e contextualizando o emaranhado de pontos e nós que envolvem a realidade socioambiental. Dentre os pontos que podem ser problematizados, destacam-se os citados por Andrade e Sorrentino,13 como a noção de que um ambiente limpo e florestado não significa necessariamente um mundo justo e democrático. Da mesma forma que:
“[...] os problemas da “vida” não desaparecerão se aqueles que consideramos “ambientais” forem sanados. O individualismo, a competição, a “correria do dia a dia” que não permite introspecção, a insegurança do trabalho e de renda, o sedentarismo, a pobreza, a injustiça, a exploração do outro, a dessacralização do mundo, as obsessões em relação ao corpo, entre outros, são valores que precisam ser adicionados a esse cadinho que busca produzir culturas que sejam mais sustentáveis em todas as multidimensões da vida - individual, social e ambiental. Todas essas são questões que afetam coletividades e não serão sanadas a partir de ações no âmbito privado. Trata-se de questões centrais no debate sobre “sustentabilidade” que vão muito além do alcance de práticas objetivas. No entanto, não devem ficar de fora dos processos educativos.” (p. 93)
Os pontos e os nós supracitados vão ao encontro das análises feitas por Bauman sobre diversas questões existenciais e políticas que emergem no contexto da sociedade moderno-líquida. Almeida et al.14 mencionam sobre um consenso entre os comentadores da obra de Bauman, ao argumentarem que se mantém, em toda extensão de sua sociologia, a defesa da liberdade, da igualdade e da emancipação com vista ao desenvolvimento de uma sociedade que possamos adjetivar como boa, quer dizer, um tipo de organização social, envolvida na interminável luta por justiça social e por uma vida digna a cada um de seus moradores.
A perspectiva baumaniana traz à tona a metáfora da liquidez para se referir ao momento atual, da pós-modernidade. De acordo com Bauman,15 nesta versão da modernidade nada é feito para durar. Então, o que paira é a fluidez, a transitoriedade e a superficialidade das relações interligadas ao individualismo, à competitividade e à compulsão pelo ter. Ao empregar conceitos que dialogam com o universo da Química para abordar questões existenciais e políticas, esse referencial pode contribuir com as discussões em cursos de formação inicial, favorecendo as reflexões sobre a sociedade descrita pelo sociólogo, na qual o peso e a responsabilidade pelos fracassos tendem a recair, sobretudo, sobre os ombros dos indivíduos.
De forma peculiar, a linguagem metafórica utilizada por Bauman em suas leituras da realidade torna os conteúdos, por mais densos que sejam, atraentes e acessíveis aos leitores. Por isso, consideramos que a inserção da perspectiva baumaniana pode ser salutar ao processo de formação ambiental de professores, dado o potencial de minimizar e quiçá superar o desafio citado por Vieira e Mesquita2 sobre a apatia e o desinteresse dos estudantes em relação às discussões sobre a realidade socioambiental, aproximando-os.
Mas o (a)bordar da perspectiva baumaniana em práticas pedagógicas no âmbito da formação inicial de professores ocorre de forma incipiente. Um levantamento realizado por Vieira e Mesquita7 no Cadernos Zygmunt Bauman, no período de 2011 a 2022, identificou somente um artigo que relata a inserção da discussão fundamentada em Bauman em um curso de Pedagogia. O artigo identificado pelas autoras, de autoria de Velloso discorre sobre a utilização do filme “Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual” para discutir a fluidez das relações contemporâneas e as implicações desse tipo de relação mais superficial nas práticas educacionais, dificultando a criação de vínculos entre docentes e discentes.16
A respeito da formação ambiental de professores de química, uma busca no Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no período de 2000 a 2019, identificou duas produções científicas que mencionam a perspectiva baumaniana. As aproximações foram estabelecidas em uma tese e uma dissertação, mas permanecem no campo teórico, isto é, nos textos, de modo que os pensamentos do autor são citados em discussões acerca da dimensão ambiental e a FPQ.7
Outro levantamento em publicações da revista Pesquisa em Educação Ambiental (2006-2022), revelou um quantitativo de sete artigos que citam Bauman e/ou utilizam a perspectiva baumaniana em suas discussões teóricas.17 O referencial aparece de forma tímida e, em alguns casos, com papel coadjuvante nos textos. Todavia, a presença deste referencial no debate de temas variados concernentes a EA e em espaços como o de grupos de pesquisa em EAC, endossam a sua adaptabilidade e seu potencial de contribuir com as discussões acerca da dimensão ambiental.
Atentando-nos para as tímidas e pontuais aproximações da sociologia de Bauman ao contexto da formação inicial de professores e à EA, no âmbito teórico e principalmente no das práticas pedagógicas, buscamos investigar como uma proposta fundamentada na perspectiva baumaniana e no aporte teórico da EAC pode influenciar o processo de formação ambiental de professores de química. Nesse sentido, temos como questão de pesquisa: Quais as potencialidades da articulação entre a perspectiva baumaniana e o aporte da EAC para o (re)conhecimento de pontos problemáticos da atual conjuntura socioambiental e o estabelecimento de relações com sua força motriz associada à lógica do capital/mercado?
AS PREFERÊNCIAS METODOLÓGICAS E AS MÃOS BORDADEIRAS
A presente investigação configura-se como estudo de caso, uma estratégia de pesquisa que permite realizar análises focalizadas e compreensivas de processos e/ou práticas profissionais.18 A escolha se fundamenta em características apontadas por Morgado e Osório,19 como a “perspicácia inerente a este tipo de estudo que permite, com alguma frequência, identificar situações e/ou elementos que passariam desapercebidos em trabalhos de maior dimensão” (p. 135). O caso em tela envolve o (a)bordar de uma proposta fundamentada na perspectiva baumaniana pelas mãos da EAC e o estudo de suas influências no processo de formação ambiental de professores de química.
O bastidor do bordado, ou seja, o contexto em que a proposta foi inserida, corresponde a uma disciplina de Química Ambiental ofertada no sétimo período de um curso de Licenciatura em Química de uma instituição pública brasileira. Com carga horária total de 96 h, a disciplina é estruturada nos eixos de: Química Analítica Ambiental (64 h) e Educação Ambiental (32 h). Cada eixo é ministrado de forma independente por duas docentes: a professora responsável pela parte de Química Analítica Ambiental, e a professora da área de Ensino de Química, responsável pelo componente de EA.
Considerando que durante o curso, a formação é majoritariamente voltada à Química, a ênfase da proposta formativa recaiu principalmente sobre a formação ambiental dos licenciandos. De modo que foi no componente específico de EA que a (a)bordagem foi desenvolvida, contando com a participação da professora responsável e de uma colaboradora, além dos aprendentes do bordado: 17 estudantes, com faixa etária entre 20 e 27 anos, matriculados na disciplina.
A proposta foi desenvolvida no primeiro semestre de 2023 e envolveu cinco encontros, cada um correspondendo a duas aulas. O Quadro 1S do Material Suplementar, apresenta uma síntese de cada aula, contemplando os temas abordados, os conteúdos, as atividades, as estratégias e seus respectivos objetivos. De modo geral, ao longo das aulas foram problematizados pontos críticos e nós existenciais e políticos que acometem a sociedade e o ambiente em tempos de modernidade líquida, integrando, em certa medida, conceitos e processos químicos na análise de situações reais.
No primeiro encontro, aplicou-se um questionário com o intuito de investigar o perfil sociocultural dos estudantes e compreender seu entendimento sobre EA. O instrumento continha a seguinte questão, considerada central para este estudo: “O que você entende por Educação Ambiental? Apresente pelo menos uma de suas experiências, práticas ou discussões relacionadas ao tema”. No quinto e último encontro, os estudantes realizaram uma atividade na qual produziram individualmente um texto relacionando o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira, aos pontos e nós discutidos ao longo das aulas. As respostas à questão mencionada e os textos produzidos na atividade de produção textual constituem os dados do presente estudo, aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Certificado de Apresentação de Certificação Ética No. 67085623.9.000.5083).
Os dados foram submetidos à técnica de Análise Textual Discursiva (ATD), que consiste na unitarização, categorização e produção de metatextos. A escolha da ATD está relacionada à sua intencionalidade que converge com o objetivo do estudo, buscando a “compreensão, a reconstrução de conhecimentos existentes sobre os temas investigados”, conforme discutido por Moraes e Galiazzi (p. 33).20 Em resumo, por meio da ATD, foi realizado o processo de unitarização, que consiste na desmontagem do conjunto de textos obtidos com as respostas ao questionário e atividade, para destacar seus elementos constituintes. Essa fragmentação possibilitou a identificação dos sentidos expressos nos textos, resultando na construção de duas unidades de análise: UA1 (proposta formativa) e UA2 (formação ambiental).
Na etapa de categorização, foram estabelecidas relações entre as unidades de análise, o que permitiu a construção de dois metatextos, organizados a partir das categorias: “Conhecendo os nós e os pontos: concepções de Educação Ambiental e a proposta formativa” e “Formação Ambiental pelo (a)bordar de Bauman: um novo ponto”. No primeiro metatexto, buscamos identificar e discutir sobre as concepções de EA dos estudantes, à luz das macrotendências político-pedagógicas da EA brasileira, descritas por Layrargues e Lima,11 destacando também os movimentos pedagógicos da proposta formativa. No segundo metatexto, buscamos analisar se houve o (re)conhecimento de pontos problemáticos da realidade socioambiental e a associação desses elementos à sua força motriz, além de discutir a influência da articulação entre a perspectiva baumaniana e o aporte da EAC na formação ambiental dos futuros professores.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conhecendo os nós e os pontos: concepções de educação ambiental e a proposta formativa
Processos educativos que almejam a formação ambiental, assim como qualquer outro, requerem um planejamento que leve em consideração os sujeitos envolvidos e suas concepções, a realidade socioambiental, os diferentes bastidores e caminhos para o (a)bordar etc. Em vista disso, concordamos com Reigota21 ao mencionar que, inicialmente, se faz necessário conhecer as concepções das pessoas envolvidas. Assim, o grupo pode construir, de forma conjunta, um conceito que seja mais adequado sobre a problemática que se quer conhecer e, se possível, intervir.
Seguindo esta orientação, por meio do questionário indagamos os estudantes sobre o que eles entendem por EA e obtivemos 13 respostas, uma vez que nem todos os 17 matriculados na disciplina responderam. De posse das respostas, foi realizada a análise das concepções tendo como base as características das três macrotendências político-pedagógicas da EA brasileira: a conservacionista, a pragmática e a crítica.11
As macrotendências conservacionista e pragmática representam duas tendências e dois momentos de uma mesma linhagem de pensamento que foi se ajustando às injunções econômicas e políticas até ganhar essa fase modernizada, neoliberal e pragmática que hoje a caracteriza. Ambas são comportamentalistas e individualistas, sendo omissas aos processos de desigualdade e injustiça ambiental. A conservacionista é uma versão ingênua e enviesada de grupos ligados às ciências naturais que entendem a crise ambiental e a EA dessa maneira, ora porque não têm uma reflexão sociológica da questão ambiental ora porque entendem que é melhor não misturar ecologia e política para evitar uma perspectiva de conflito. 11
Vale ressaltar também que o contexto que delimita a vertente pragmática de EA é definido pelo capitalismo de mercado, sendo que as possíveis mudanças têm de se conformar nesses limites, nunca além disso. Já a macrotendência crítica vai de encontro às descritas anteriormente, possuindo caráter contra hegemônico. Nesta macrotendência existe a preocupação com a revisão crítica dos fundamentos que proporcionam a dominação do ser humano e dos mecanismos de acumulação do capital, buscando o enfrentamento político das desigualdades e da injustiça ambiental.11
A análise das concepções de EA dos estudantes, permitiu identificar a predominância de elementos que mais se aproximam das tendências pragmática e conservacionista. Estas tendências, se revelaram - de forma individualizada ou conjunta - em oito e nove das 13 falas, respectivamente. Para exemplificar, destacamos falas em que os estudantes associam e/ou entendem a EA como:
“Estudo da aplicação dos recursos naturais e do impacto de determinadas atitudes no meio ambiente.” (A1)
“Descarte de lixos domésticos de forma correta, como a separação do reciclável e o que não é.” (A3)
“Uma noção básica sobre condutas favoráveis ou menos agressivas ao meio ambiente.” (A12)
Identificamos nas falas a presença de uma visão dicotômica e objetificada da natureza, além da atribuição do aspecto pragmático e comportamentalista à EA. Estas características se ancoram nos paradigmas atuais do conhecimento mencionados por Leff,10 que atrelados à racionalidade dominante, acabam definindo a forma em que os sujeitos compreendem, abordam, propõem soluções para a problemática ambiental e concebem determinados campos do conhecimento, como o da EA.10,12
Para complementar a discussão, realçamos as falas de Cassiano e Echeverría22 ao descreverem sobre a inclinação, tanto nas esferas oficiais quanto nos centros acadêmicos, de outorgar principalmente à ciência e à tecnologia a capacidade de resolver problemas ambientais. Inclusive, esta tendência pode ser observada na fala de A1 ao conceber um caráter meramente utilitário à EA, restringindo-a a um estudo sobre o impacto de determinadas ações no ambiente, que pode remeter à dimensão resolutiva dos problemas. As autoras ainda complementam que o mesmo ocorre com o ensino de Ciências, ao ser responsabilizado por promover a EA nos espaços formais e não formais de ensino e como um mecanismo que supostamente conduziria a sociedade a um estado menos degradante e inseguro.22
Tais responsabilizações se alinham ao ideário do projeto neoliberal instalado na sociedade, que tende a deslocar o foco das discussões e adotar a lógica do mercado para resolver problemas ambientais e educacionais. Utilizando de diversos mecanismos, ele se infiltra em documentos orientadores, no discurso e em práticas pedagógicas visando formar o que Layrargues23 caracteriza como um “sujeito ecológico manipulado, ingenuamente alinhado ao pensamento social capitalista: sujeitado pelo adestramento ambiental para se adaptar voluntariosa e altruisticamente a novos comportamentos individuais” (p. 74), seguindo ideias como a de que cada um faz a sua parte, ainda que as partes não sejam iguais em uma sociedade de classes.
Salientamos a proeminência de inspirações empresariais que têm orientado práticas pedagógicas de EA, conforme alertam Andrade e Sorrentino,13 como aquelas que se relacionam com a gestão de resíduos, semelhante à mencionada anteriormente por A2. Nestas práticas, segundo os autores, é privilegiada a dimensão objetiva do problema ambiental, sendo priorizadas ações que lidam com questões visíveis e explícitas do meio ambiente, como o lixo e a poluição. Assim, deixa-se a entender que a resolução dos problemas citados requer única e exclusivamente de separação, coleta e destinação adequada de materiais recicláveis. Dessa forma, fica de lado todo o universo invisível, intersubjetivo, também multidimensional, porém existente e influenciador da realidade em que vivemos.
Por outro lado, a tendência crítica de EA, considera os elementos supracitados, extrapolando a dimensão objetiva e resolutiva dos problemas ambientais. Alguns vestígios desta tendência foram identificados nas respostas de quatro estudantes ao questionário que solicitava seu entendimento sobre EA, sendo que duas delas são apresentadas na sequência. Ambas trazem elementos que caracterizam a EAC, como o componente político atrelado ao debate ambiental e a problematização dos tipos de relação estabelecidos entre sociedade e natureza.
“Educação Ambiental é saber que a reciclagem, sim faz diferença, mas sem entender o social, como a desigualdade e as políticas públicas, as práticas ambientais acabam não sendo suficientes.” (A5)
“A Educação Ambiental busca compreender a relação do ser humano com a natureza, ou com o meio em que se vive, fazendo isso de forma questionadora e reflexiva.” (A6)
Tendo em vista que, nas concepções dos estudantes, predominam elementos que mais se aproximam das tendências pragmática e conservacionista de EA, movimentamo-nos em direção a um novo ponto para o bordado da EAC: a proposta formativa fundamentada na perspectiva baumaniana. Outro motivo pelo qual a ênfase da proposta recaiu principalmente sobre a formação ambiental dos estudantes diz respeito aos limites estruturantes da disciplina em que foi desenvolvida a pesquisa, pois das 96 h de carga horária, apenas 32 h são dedicadas à discussão da EA na formação dos licenciandos. Consideramos que o aprofundamento do debate sob a perspectiva da Química seria viável em um outro cenário, especialmente se as discussões fundamentadas na EAC estivessem plenamente articuladas às disciplinas, como na própria Química Ambiental. Entretanto, essa articulação ainda representa um desafio diante da realidade dos cursos de FPQ. Apesar das dificuldades sinalizadas, de se entrelaçar a discussão da EAC aos conceitos químicos, buscamos, na maioria das vezes, no desenvolvimento da disciplina, contextualizar a perspectiva ambiental a situações relacionadas à abordagem química.
A proposta formativa envolveu cinco encontros, sendo que cada encontro correspondeu a duas aulas, cuja síntese dos movimentos pedagógicos encontra-se no Quadro 1S do Material Suplementar. No primeiro deles, intitulado “A Realidade Socioambiental e a Modernidade Líquida” foram discutidos marcadores e características da modernidade segundo Bauman15 e os reflexos desse processo histórico na sociedade, no ambiente e nas relações socioambientais. Para catalisar a discussão, foi apresentado o clipe da música “Admirável Chip Novo” da cantora e compositora Pitty. Buscamos com isso, chamar a atenção dos estudantes para a crítica social e a linguagem metafórica utilizada na letra da música (Material Suplementar) e por Bauman em seus livros.
Em seguida, os conceitos científicos de líquido e sólido foram resgatados para explorar as metáforas usadas por Bauman ao caracterizar os diferentes estágios da era moderna. Ademais, com o intuito de explicitar a necessidade de emancipação dos sujeitos e de refletir sobre as influências da lógica do mercado na individualidade humana, foram apresentados e discutidos dados e projeções científicas sobre o cenário de degradação socioambiental na era moderna. Para tanto, recorremos ao relatório “Lucrando com a Dor” da Oxfam Brasil,24 ao livro “Capitalismo e Colapso Ambiental” de Marques25 e charges do Cartunista Argentino Joaquín Salvador Lavado, com a personagem Mafalda questionando a existência humana e as influências das propagandas nos comportamentos dos sujeitos, entre outros. Todo este aparato serviu como uma linha para o bordado, isto é, para discutir os conceitos de emancipação e individualidade segundo Bauman.15
No segundo encontro o tema foi “O Consumismo e o Impacto Ambiental”, sendo discutido o processo de corrosão socioambiental, que para além dos problemas ambientais, tem favorecido à deterioração de valores, da interação e do convívio social. Recorremos ao conceito químico de corrosão para discutir situações degradantes socioambientalmente e exemplificar mudanças que ocorreram com o passar dos anos na noção de tempo e espaço, com o advento da internet, a redução de lugares públicos a propriedades individuais, além do aumento de locais invisibilizados, como os bairros pobres, moradias improvisadas, etc. A partir disso, treinando o bordado, deparamo-nos com alguns nós, que foram discutidos no decorrer da aula, como a desigualdade social, a ascensão do individualismo, da competitividade e a compulsão pelo ter, mencionadas por Bauman.15,26 De forma complementar, foi estudado o artigo de Pontes e Frederico,27 que aborda relações estabelecidas entre sociedade e natureza e como elas têm sido reconfiguradas pela lógica do mercado. Os autores sinalizam:
“O consumo da natureza - o “consumo verde”, se desenvolve, a princípio sob a luz de um capitalismo fluido e globalizado, que fabrica, ao sabor do mercado, um padrão identitário como estratégia comercial através da lógica de que para ser “ecologicamente correto” é preciso consumir/ter “produtos verdes”.” (p. 59)
Para além das estratégias utilizadas para influenciar comportamentos e incentivar o consumo, outros nós emergiram no exercício do bordado, tais como: quem de fato consome em uma sociedade de classes? São todos os sujeitos que aproveitam das vantagens do processo de modernização? Quais pessoas/grupos são mais afetadas pela degradação ambiental? Os sujeitos devem ser responsabilizados igualmente pelo cenário cáustico de degradação ambiental? Assim, temas emergentes como o da injustiça ambiental, racismo ambiental e os locais/zonas de sacrifícios foram direcionados para o bastidor do bordado, isto é, ao debate.28,29
No terceiro encontro denominado “Capitalismo Parasitário e a Crise Socioambiental”, foi problematizado o atual contexto de crise, que se mostra civilizatória, além da aceleração rumo ao colapso das condições de sobrevivência.3,10 Com isso, buscamos realçar, de forma fundamentada em Marques,25 a incompatibilidade entre o capitalismo e qualquer sociedade ambientalmente viável. Também analisamos com os estudantes, a reportagem de Araújo cujo título é: “Shein: Como a Moda Fast Fashion Fatura às Custas do Trabalho Escravo”.30 A matéria permitiu discutir o caráter multifacetado de um problema socioambiental, com o fato de a indústria da moda ser uma das mais poluidoras do mundo devido à geração volumosa de resíduos, ao uso de produtos químicos nocivos e à emissão de gases de efeito estufa. Além disso foi discutido o fato de empresas desse seguimento terem sido denunciadas por práticas de trabalho análogas à escravidão.
Ao escancarar uma situação real de trabalho e ambiente degradados, tentamos conduzir a discussão não apenas pela perspectiva química, mas expor principalmente a Escala Desumana da Vida, evidenciando o capitalismo como um sistema parasitário.3,4 Logo, fornecemos mais uma linha para o bordado, isto é, o conceito de trabalho segundo Bauman15 para discutir a precariedade, a falta de garantias e a tendência de flexibilização das leis trabalhistas - e das leis ambientais - em tempos de modernidade líquida. Nesse seguimento, falamos sobre o nó que envolve a precarização do trabalho docente e ao discuti-la sobressaiu-se a remuneração insatisfatória, mas também a sobrecarga e maior responsabilização dos docentes, acentuada a partir das reformas educacionais, de caráter neoliberal. Em suma, os nós discutidos colocam em evidência, de acordo com Vieira e Mesquita,2 a lógica perversa e desumanizante do capital, que também se insere no contexto educacional.
No quarto encontro intitulado “ImaginAção e Debate Coletivo”, foi problematizado o papel do Professor de Química mediante a crise socioambiental e a necessidade de se pensar em temas e propostas que articulem a dimensão ambiental e os desafios contemporâneos aos conteúdos científicos, incluindo os conceitos e processos químicos e/ou bioquímicos. Também foi discutida a importância de estar atento às práticas pedagógicas de EA porque estamos inseridos em uma “[...] dinâmica societária centrada no indivíduo, que faz prevalecer interesses privados em detrimento de interesses coletivos”, conforme argumentam Vasconcellos et al.31 (p. 5). Uma atividade baseada no princípio da competição, por exemplo, dependendo do modo que for conduzida, pode reforçar os nós desencadeados pelo sistema capitalista, como a cultura da meritocracia, a competitividade, o consumismo, entre outros.
A disjunção de elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas também foi discutida, de modo que outra linha se agregou ao bordado por meio do conceito de comunidade segundo Bauman.15 Para o autor, a desintegração de vínculos comunais tem ocorrido devido às estratégias usadas para o desengajamento dos sujeitos. Neste cenário, redes densas de laços sociais, em particular as que estão territorialmente enraizadas, são vistas como empecilhos. Logo, os poderes globais se inclinam a desmantelar os laços em prol de sua contínua e crescente fluidez. Para exemplificar, mencionamos o processo histórico de expropriação e exploração de povos e comunidades que possuem uma ligação natural com a terra, com o trabalho e com a natureza. Também foram apresentados os dados fornecidos pela organização Global Witness,32 que registrou em 2019 um total de 212 homicídios de ativistas e lideranças que defendiam os lugares que habitavam, resistindo à destruição da natureza.
Após refletir sobre o custo humano e ambiental para a manutenção do sistema parasitário vigente, por último, no quarto encontro, discutimos sobre os modos de vida de comunidades e populações tradicionais, que se diferenciam dos modos de vida da modernidade concentrada nos centros urbanos por estabelecer relações humanizantes e respeitosas com os outros e com a natureza. Inclusive, a cosmovisão do Bem Viver dos povos originários da América Latina foi apresentada e discutida com o auxílio da reportagem denominada “O Bem Viver: Alternativas Indígenas para se Pensar a Vida em Comunidade”, de Garcia.33
Além das discussões sobre os pontos e nós presentes na realidade socioambiental e das articulações possíveis com a química, no bojo da proposta formativa que se apresenta como um novo ponto para o bordado da EAC no contexto da FPQ, foram desenvolvidas duas atividades - uma será discutida no próximo tópico e a outra foi publicada na revista Química Nova na Escola.34 Apesar de possuírem configurações distintas, ambas buscaram estimular a reflexão sobre a importância do diálogo de seres e saberes, bem como da disposição para interagir, compreender, ouvir e colocar-se no lugar do outro.35
Formação ambiental pelo (a)bordar de Bauman: um novo ponto
Durante o processo de formação ambiental, preocupamo-nos assim como Krenak,36 em reflorestar o imaginário dos estudantes para que com isso, quem sabe, eles pudessem se (re)aproximar de uma poética de urbanidade que devolva a potência da vida, abstraída pela Escala Desumana que paira na sociedade.3 Recorremos a diversos instrumentos e materiais didáticos como charges, música, livros, relatórios, reportagens etc., visando atenuar a apatia e o desinteresse que poderiam se sobressair durante as aulas, visto que o teor da pauta a ser discutida - com dados sobre as mazelas que acometem a sociedade e o ambiente - poderia não ser atrativo para os estudantes.
Em uma das atividades, recorremos ao poema “O Bicho” do escritor brasileiro Manuel Bandeira (Material Suplementar) e pedimos que os estudantes elaborassem, individualmente, um texto relacionando o poema com os pontos e os nós discutidos nas aulas. Apesar de ter sido escrito na década de 1940, o poema se mostra atual, retratando implicitamente os reflexos da lógica perversa e desumanizante do capital, termos usados por Vieira e Mesquita.2 Ao selecioná-lo para compor a atividade, partimos do pressuposto de que ele poderia contribuir, por meio da crítica social realizada, com a compreensão “de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste” (n.p).9
Sobre o formato escolhido para a atividade, consideramos que os textos elaborados pelos estudantes poderiam oferecer elementos para a análise sobre como, e se, houve por parte deles o (re)conhecimento de pontos e nós problemáticos na realidade socioambiental e a associação com sua força motriz, isto é, com o capitalismo e a lógica do mercado. Dos 17 estudantes matriculados, 16 participaram da atividade - um esteve ausente no dia - e cada participante elaborou um texto. A análise do material permite-nos afirmar que todos os estudantes estabeleceram em seus textos - em alguma medida - interrelações entre o poema, aspectos da vida humana e da natureza, demarcando também características do atual estágio da era moderna, chamado por Bauman15 de modernidade líquida. Também foi possível identificar em 12 textos, isto é, na produção textual da maioria dos participantes, a extrapolação das dimensões ambiental e social, perpassando pela esfera política e econômica, com a sinalização de suas influências na atual conjuntura.
Os estudantes apresentaram pontos e nós problemáticos que confluem para situações que afetam os sujeitos em particular e a coletividade, de modo que os significados atribuídos com mais frequência nas unidades de sentido analisadas foram: (i) a visão de mundo antropocêntrica; (ii) o consumismo e os modos de vida; (iii) a invisibilização e a culpabilização dos sujeitos; (iv) as estratégias da lógica vigente; (v) a sensibilização e a indignação etc. Em vista disso, apresentamos na sequência trechos dos textos para exemplificar cada ponto e/ou nó, a começar pelas argumentações de A15 e A16 que contextualizam os itens (i) e (ii) mencionados anteriormente.
“Ao longo da história, os seres humanos aprenderam a se apropriar da natureza. A espécie humana passou de uma condição nômade para uma condição de bens privatizados. Nesse novo contexto, o ato de usufruir da natureza a fim de extrair dela alimentos, também é privatizado, e não só isso, mas também é atribuído um custo. Esse controle é mantido por empresas transnacionais, as quais possuem mercado em diferentes nações e, devido a seu grande poderio e influência, controlam o que é produzido, cultivado e comercializado ao redor do mundo. Mas aqueles que não possuem moeda de troca suficiente para usufruir desses bens, inclusive os fundamentais como um simples alimento (antes acessível), são levados a uma situação como a demonstrada pelo poema.” (A15)
“Em uma sociedade líquida condicionada ao consumismo, vivemos pelo consumo e para ele. Esse estilo de vida baseado no ter para ser produtiliza a natureza, pois a considera como matéria-prima. Mas gera vários impactos ambientais e sociais. Pois quando desconsideramos o gasto dos recursos naturais utilizados para a produção de bens de consumo, somos reduzidos à meros consumidores. O modo de vida capitalista se baseia no consumo da natureza, reforçando a crença de que a natureza existe para nos servir como se nós, seres humanos, fossemos seres alheios a ela, superiores, sendo que também somos e fazemos parte da natureza.” (A16)
Tanto A15 quanto A16 denunciam a tendência de segregação e apropriação da natureza pelo ser humano. Tal tendência vai ao encontro de uma visão de mundo que se aproxima do Antropoceno, uma época na qual, de acordo com Sato,37 são criadas hierarquias ao admitir o humano como o centro planetário. Também podemos considerar segundo a autora, que vivemos no período do Capitaloceno, regido pela fome insaciável do poder e do mercado, que tende a destruir a natureza em prol do lucro de minorias. Inclusive, mesmo não mencionando os termos Antropoceno ou Capitaloceno, A15 apresenta características que lhe são peculiares, como a privatização e a influência de empresas transnacionais em processos produtivos e na vida dos sujeitos. Com isso, são trazidas à tona as relações de poder que apesar de serem latentes, atravessam de forma visceral a atual conjuntura socioambiental.12
Para além da crítica à visão de mundo antropocêntrica, A16 menciona outro nó discutido durante as aulas da proposta formativa, que diz respeito ao item (ii), isto é, ao consumismo e seu impacto nos âmbitos social e ambiental. A estudante associa o nó supracitado ao modo de organização capitalista, este que segundo Guimarães3 impulsiona os sujeitos a viverem “[...] cada vez mais dessa forma disjuntiva, individualistas e materialistas em um consumo desenfreado e ensimesmado” (p. 61). Além do mais, no texto de A16, identificamos um olhar para a sociedade a partir dos artigos estudados como o de Pontes e Frederico,27 assim como a utilização das lentes de Bauman,15,26 que também pode ser percebida na argumentação feita por A2.
“Lembrando de Bauman junto ao poema, nota-se que a busca inacabável por capital daqueles que o detém gera não só a separação do ser humano da natureza, mas também forma uma barreira entre as pessoas. Sendo assim é preciso ir além do poema, pensar que o motivo por trás desse cenário marginalizado de um ser humano revirando o lixo em busca de alimento é socioeconômico, causado pela falta de capital. Logo, em uma modernidade líquida com relações que também são líquidas, ou seja, que não tem interações entre os humanos, sem empatia e com a falta de um pensamento coletivo, tornou-se “normal” ver pessoas em situação de necessidade e serem comparadas com “bichos” e, às vezes ignoradas, sendo que foi o próprio sistema capitalista que gerou tanto distanciamento da natureza e daqueles que não possuem capital.” (A2)
A análise deste trecho permite-nos afirmar que A2 (re)conhece vários pontos e nós problemáticos, cuja costura é profunda e se relaciona com o modus operandi da sociedade, que é desigual, injusto e degradante socioambientalmente. A argumentação também se coaduna com a colocação de Andrade e Sorrentino13 quando dizem que os problemas da vida - como a introspecção e a pobreza - não desaparecerão se aqueles que consideramos como ambientais forem sanados. Tampouco serão resolvidos a partir de ações no âmbito privado, por serem de ordem estrutural.
Mas não há como deixar de lado as contradições, como as destacadas por Bauman sobre as forças do mercado e suas estratégias de privatização, desregulação e o princípio de subsidiariedade, que sustentam a ideia de que questões sociais ou políticas de uma sociedade devem ser resolvidas no plano local mais imediato. Assim, segundo o autor, os cidadãos dos Estados-Nação são encorajados a buscar soluções pessoais para problemas que são de origem social.38 Tal situação coloca em evidência as injunções econômicas e políticas no atual cenário e ainda deslinda a fase modernizada e neoliberal que paira na sociedade e que reforça, por exemplo, a impregnação da macrotendência pragmática de EA - caracterizada por Layrargues e Lima11 - em contextos escolares e acadêmicos. Inclusive, reflexos dessa impregnação puderam ser observados nas concepções iniciais de EA dos estudantes que participaram do presente estudo.
São diversas as forças que operam em prol da manutenção da lógica vigente, infiltrando-se nas esferas da sociedade, de modo a influenciar as concepções e os comportamentos dos sujeitos. Tanto A2 quanto A5 trazem indícios dessa influência, ao mencionarem um tipo de lavagem cerebral criada pelo sistema, além da falta de interação entre os sujeitos, a falta de empatia e de um pensamento coletivo. Frente a isso, de forma fundamentada em Bauman, pode-se dizer que não é interessante para os poderes globais que os sujeitos tenham redes densas de laços sociais. Por isso, eles se inclinam a desmantelar tais redes em proveito de sua contínua e crescente fluidez, pois a fragilidade, o quebradiço, o imediato dos laços e redes humanas são elementos que contribuem para a continuidade de suas operações.15
No texto, A5 problematiza a privação de direitos dos sujeitos e aspectos que caracterizam o item (iii) sobre a tendência de culpabilização e de invisibilização de determinados grupos na sociedade contemporânea.
“O bicho, o qual Manuel Bandeira referencia é um ser humano. Muito mais do que um indivíduo da espécie humana, ele tem algo além dos demais bichos da natureza. Ele tem nome, sobrenome, individualidade e direitos. Direitos estes que não estão sendo garantidos, já que está se alimentando do lixo. O homem que come e vive no lixo ainda corre o risco de ser julgado pelas demais pessoas da sociedade, pois existe uma forte propaganda, quase que uma lavagem cerebral, criada pelo sistema, capaz de despertar nas pessoas a impressão de que tudo pode ser melhor caso o “homem bicho” não exista. Culpá-lo por tudo de ruim que acontece, faz parte das ideias compradas pela sociedade, assim como a meritocracia e o consumismo. Mas no fundo, a culpa é da elite que consome os bens naturais e parasita a vida dos mais pobres.” (A5)
A argumentação do estudante vai ao encontro da fala de Sato37 ao mencionar que “[...] o Capitaloceno não é democrático, uma vez que seus efeitos são diferentes em escala, proporção, velocidade e situação financeira” (p. 14). Infelizmente, vivemos em uma realidade como a descrita por A5 e por Sorrentino et al,38 que tende a apagar identidades; invisibilizar pessoas; excluir as maiorias ditas minorias; desestabilizar alianças; e ainda, ofuscar e negar os impactos socioambientais. Nas entrelinhas deste cenário cáustico, um outro nó é desvelado por Bauman e diz respeito ao destino da quantidade exorbitante de resíduos gerados em uma sociedade condicionada ao consumismo. Segundo ele, a maior parte dos resíduos são dispensados em regiões - denominadas por Acserald29 de zonas e locais de sacrifício - habitadas pelos chamados refugos humanos.39 Quer dizer, nesta sociedade que prega o novo e a aceleração, os refugos humanos são pessoas que não consomem e acabam sendo excluídas e inimaginadas, assim como os resíduos. Mas contraditoriamente, são eles que lidam cotidianamente e mais sofrem com os impactos ocasionados pelos resíduos e/ou rejeitos gerados.
Seja como um refugo e/ou hospedeiro desse sistema parasitário,3 os sujeitos que não pertencem a classe mais abastada da sociedade tendem a ser culpabilizados pelos fracassos e dilemas enfrentados na atualidade, como expõe A5, situação que também acomete os professores. Partindo dessa linha de raciocínio e considerando que a culpabilização e a responsabilização individual fazem parte de um conjunto de estratégias utilizadas pela lógica vigente, direcionamos o item (iv) ao centro da discussão, contextualizando-o com as falas de A14 e A15.
“O conceito de modernidade líquida cabe como uma luva ao que se está passando atualmente, pois tudo é programado para ser passageiro. Tudo fica velho e precisa ser renovado. O que não se enxerga é que juntamente com isso, torna-se rápida e descartável a vida humana. Além disso, as pessoas acabam perdendo o senso crítico e simplesmente aceitam esse modo de vida, sem ao menos questionar o porquê de seus atos, se tornando verdadeiros escravos do capital e ainda caindo no conto de certas empresas que vendem uma falsa sustentabilidade, usando uma narrativa apenas como recurso para atrair mais dinheiro, se preocupando mais com o capital do que com a natureza em si.” (A14)
“Vivemos numa sociedade tão capitalista, que até o termo sustentável tem sido utilizado para obter lucro. Algumas empresas, baseadas em um apelo emocional induzem as pessoas a consumirem produtos “ecológicos”. Como se diz, vivemos em uma sociedade onde tudo é pelo consumo e para o consumo.” (A15)
A análise dos textos de A14 e A15 permite-nos identificar elementos que foram discutidos durante as aulas da proposta formativa, tais como as estratégias de retroalimentação do capital e de cooptação dos sujeitos, que acabam embaçando as possibilidades de se ter uma visão crítica e/ou de se indignar com as situações impostas. Dentre as estratégias, os estudantes destacaram o apelo emocional para o consumo verde e a produção de objetos projetados para a obsolescência imediata.15,27 Inclusive, na argumentação, A15 recorre e articula a sociologia de Bauman e a crítica social presente na música “Admirável Chip Novo” para destacar alguns nós existentes no tecido social, como a instantaneidade e a descartabilidade em um contexto em que tudo é programado para o consumo.
Os pontos e nós retratados ilustram a fala de Gontijo e Echeverría6 sobre o ciclo de produção e consumo, no qual constantemente “[...] são criadas novas necessidades humanas, a fim de facilitar o acúmulo de capital pela lógica do consumo, através da propaganda e da ação da hegemonia burguesa” (p. 6). Todavia, para alcançar tal propósito, intensifica-se a superexploração dos bens naturais, o desgaste dos ecossistemas para convertê-los em valor de troca, a tecnologização da vida e a coisificação do mundo.10
De forma complementar, ressaltamos que além de problematizar os pontos e nós existenciais e políticos que afetam a sociedade e o ambiente, alguns estudantes apresentaram-se reflexivos e sensibilizados com o status quo, como se pode notar nos textos de A9 e A14. Eles denunciam a lógica capitalista vigente, utilizando de outras palavras para expressar o que Freire40 chamou de aberração, isto é, a miséria na fatura.
“Pode ser um simples poema, mas traz uma dura realidade. O poema retrata a desumana e extremamente preocupante situação que muitas pessoas enfrentam atualmente: a miséria. [...] como é possível que toneladas de alimentos sejam desperdiçadas por dia no mundo enquanto milhões de seres humanos vivem “catando comida entre os detritos”? A explicação para isso tem nome e se chama capitalismo. Cruel é também pensar em como temos buscado avidamente nos moldar para caber em determinados padrões para que, de alguma forma, possamos nos sentir incluídos, aceitos, mesmo que esse molde seja doloroso e traumatizante. Mas do que adianta seguir um padrão se esse padrão vive em constante mudança num estado de liquidez? Afinal, como esperar solidez numa era em que a única certeza é a própria inconstância?” (A9)
“O poema permite refletir sobre como chegamos até esse ponto extremo? Uma desigualdade tamanha, enquanto uns engolem com voracidade o que encontram pelo pátio, outros estão literalmente comendo folhas de outro. Uma realidade que é fruto do capitalismo, que está engolindo a sociedade como um todo. Um sistema falho com uma péssima distribuição de renda, que está levando não somente a sociedade ao colapso, mas também o planeta terra está sendo engolido pela ganância desse modelo econômico. A exploração da natureza para satisfazer os bens de consumo da sociedade está nos levando para um estado irreversível.” (A14)
Expressões como “dura realidade”, “desumana e extremamente preocupante situação”, “ponto extremo” e “quão horrível o mundo se tornou” caracterizam o item (v), que diz respeito à sensibilização e à indignação dos estudantes com a atual conjuntura socioambiental. Inclusive, demonstrando determinado descontentamento, A1 agrega à discussão uma frase do filme “Coringa”, que realiza críticas sociais enfocando principalmente as desigualdades, a violência e as exclusões. Além do mais, A5 faz menciona o livro “A Elite do Atraso”, que expõe e discute sobre a existência e o funcionamento de estruturas ocultas que movem as engrenagens do poder.
“É comum a cena descrita no poema e cada vez mais as pessoas tratam como normal. Mas vale resgatar a frase icônica dita pelo personagem Coringa no filme de 2019: Não é normal estar bem (aqui no caso, achar normal ou sentir bem) em uma sociedade doente!” (A1)
“Como também é referenciado no livro “A Elite do Atraso”, tudo isso é um projeto, onde o homem bicho e o lixo vão ao encontro do atual modelo de produção capitalista, uma máquina de criar lixo e pessoas em situação de vulnerabilidade social.” (A5)
As falas de A1, A5 e de outros estudantes que estabeleceram em seus textos articulações com filmes, livros e músicas, explicitam o êxito de uma das intencionalidades da proposta formativa que se relaciona com o reflorestamento do imaginário dos participantes. Por outro lado, não há como dizer se os estudantes se (re)aproximaram de uma poética de urbanidade que devolva a potência da vida, conforme menciona Krenak.36 Todavia, a maioria dos estudantes apresentou uma construção teórica que nos permite dizer que eles conjecturam a Escala Desumana que paira na sociedade.3
A análise geral revelou que a maioria dos estudantes percebeu, sem dificuldades, diversos pontos críticos e nós problemáticos no tecido social, compreendendo, a fome por exemplo, como diz Freire,41 como algo a mais do que o organismo sente por não comer, mas como expressão de uma realidade política, econômica, social, de profunda injustiça. Aliás, anima-nos o nível de compreensão da realidade socioambiental dos estudantes, bem como os sinais de indignação que se sobressaíram nos textos e nas discussões. Isto porque concordamos com Layrargues23 ao dizer que os tempos atuais exigem a libertação do espírito subversivo e do sentimento de indignação, além de uma postura contestatória da lógica vigente.
Em síntese, podemos afirmar que a (a)bordagem da proposta fundamentada na perspectiva baumaniana e na EAC influenciou o processo de formação ambiental crítico dos estudantes. As aulas e atividades realizadas no bastidor deste bordado forneceram linhas, isto é, conceitos e problematizações que contribuíram para que os aprendentes pudessem alimentar e/ou desenvolver a sensibilização e a indignação com o cenário cáustico vivenciado. Além disso, o exercício do bordado contribuiu para que os estudantes pudessem fazer o (re)conhecimento de um emaranhado de situações degradantes na realidade socioambiental; vislumbrar algumas injunções políticas e econômicas neste cenário; e perceber o caráter multifacetado da dimensão ambiental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposta formativa, ao contextualizar e politizar o debate sobre a realidade socioambiental, mostrou-se salutar para a formação ambiental crítica de professores de Química, suscitando reflexões profundas, evidenciadas nos textos produzidos, sobre as estruturas ocultas que sustentam o poder e intensificam as mazelas que afetam a sociedade e o ambiente. Outro resultado foi o (re)conhecimento pelos estudantes de pontos e nós profundos e problemáticos relacionados à lógica do capital/mercado, que afetam de maneiras distintas os sujeitos e a coletividade. Destacamos ainda o potencial da (a)bordagem para sensibilizar e envolver os estudantes nas discussões e atividades, se sobressaindo como uma forma de romper, no contexto formativo, com o desinteresse em relação à pauta ambiental. Consideramos que os resultados se devem à configuração da proposta, tanto no que diz respeito ao aporte teórico quanto à forma de abordagem, que integrou referenciais, instrumentos e recursos didáticos capazes de aproximar os estudantes da temática socioambiental.
Por outro lado, vislumbramos o aperfeiçoamento da proposta com o aprofundamento do debate sob a perspectiva da Química, que pode promover maior equilíbrio entre as abordagens existenciais, políticas e socioambientais com os conteúdos e processos próprios da área. Contudo, essa possibilidade depende da construção de um outro cenário, ainda distante da realidade dos cursos de Química, devido a diversos fatores, entre os quais se destacam as disputas e influências que fazem prevalecer determinadas disciplinas e conteúdos em detrimento de outros; as visões fragmentadas do conhecimento; e a falta de abertura ao diálogo com outras perspectivas formativas. Mesmo diante dos desafios, promover espaços para que as discussões fundamentadas na EAC estejam plenamente articuladas às disciplinas pode ser um caminho eficaz para enfrentar a atual conjuntura sociopolítica e ambiental.
MATERIAL SUPLEMENTAR
O material suplementar desse trabalho está disponível em http://quimicanova.sbq.org.br/, na forma de arquivo , com acesso livre.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todos os dados estão disponíveis no texto.
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