Open-access PANORAMA ESTRUTURAL DAS DISCIPLINAS DE FÍSICO-QUÍMICA EXPERIMENTAL EM INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS DE ENSINO SUPERIOR

STRUCTURAL OVERVIEW OF EXPERIMENTAL PHYSICAL CHEMISTRY COURSES IN BRAZILIAN HIGHER EDUCATION INSTITUTIONS

Resumo

This study aimed to investigate how Experimental Physical Chemistry is taught in Chemistry programs at leading Brazilian higher education institutions. To this end, 49 course syllabi publicly available online were analyzed and characterized. Data exploration revealed considerable temporal and structural disparities among these documents. At the same time, individual analysis of their components indicated limited variability in terms of content, bibliography, methodology, and assessment, even when Chemistry programs with different emphases and from different institutions were examined. Chemical kinetics and chemical equilibrium stand out as the most recurrent topics, and the recommended bibliography consists primarily of textbooks. To develop the course content, experimentation sometimes is combined with pre- and post-laboratory activities such as lectures, pre-tests, seminars, and written reports. The latter three algo serve as assessment tools for undergraduate students. Activities that deviated from this pattern were identified and discussed. Overall, the scenario suggests limited alignment between the courses investigated and the proposals found in the specialized literature on Chemistry education in general, and on Physical Chemistry education in particular.


INTRODUÇÃO

O termo “experimentação”, na perspectiva do desenvolvimento científico, pode ser definido como a observação de um fenômeno sob condições controladas para aprimorar o conhecimento sobre as manifestações ou leis que o regem.1 A experimentação constitui um dos pilares do conhecimento químico, que se baseia ainda em proposições teóricas, modelos e simulações, bem como na criatividade e razão humana.2 Portanto, as atividades experimentais são fundamentais no processo de formação de novos profissionais da Química.3-5

As etapas experimentais dos cursos de graduação em Química possibilitam o desenvolvimento de aspectos que vão além das habilidades procedimentais de instrumentação e medição: por meio da resolução de problemas, do pensamento crítico e da formulação de hipóteses, aprimoram o pensar científico; ao tratar do manuseio de resíduos e das fichas com dados de segurança de reagentes, capacitam os estudantes para o trabalho em ambiente mais seguro; a partir da análise e interpretação dos resultados experimentalmente obtidos, ampliam o contato com tratamento de dados e utilização de softwares adequados para tal; por priorizarem trabalho em grupos e reportes textuais, qualificam práticas da comunicação; e, ainda, oportunizam melhorias no interesse, motivação e persistência no curso.3

Na educação em Química, a experimentação proporciona explorar conteúdos em nível macroscópico, em um cenário de situações de ensino que priorizam os níveis microscópico e simbólico. Atividades que envolvem os sentidos da visão, do tato e do olfato se apresentam como uma possibilidade para o estudo de fenômenos que necessitam mais do que representações (fórmulas, gráficos, equações), modelos e teorias para serem compreendidos e/ou explicados.6,7

O ensino de conteúdos da Físico-Química (FQ), por exemplo, concentra-se no nível simbólico/representacional, em especial nas equações matemáticas, pois tradicionalmente privilegia a abordagem quantitativa.8 Essa característica torna desafiadora a aprendizagem dos tópicos que compõem a FQ, principalmente quando associada a fatores como a utilização de metodologia de ensino centrada na figura do professor, a ausência de conexão entre os conteúdos e o cotidiano, e a falta de motivação e interesse dos estudantes.9-12 Nesse cenário, aulas de FQ em laboratório podem se configurar momentos potentes para superar obstáculos de aprendizagem, por meio do desenvolvimento das múltiplas abordagens oportunizadas pela experimentação.

As disciplinas experimentais de FQ no ensino de nível superior têm sido contexto para preparação de artigos científicos,13-19 capítulo de livro,20 texto em anais de congresso,21 trabalhos de conclusão de cursos de graduação22,23 e de pós-graduação,24,25 e material didático.26 Essas publicações, localizadas em uma revisão narrativa27 utilizando o termo “físico-química experimental” nas bases de dados PubliSBQ e Google Acadêmico, e “experimental physical chemistry” na base de dados Education Resources Information Center (ERIC), têm abordagens distintas. Foram identificados trabalhos que buscaram aprofundar a discussão sobre procedimentos experimentais, como síntese e caracterização de polímeros13 e de nanopartículas metálicas,14 extração e caracterização de biomoléculas,15 estudos físico-químicos sobre fluorescência,22 e oxidação de compostos atmosféricos;24 e sugerir modificações em práticas clássicas da FQ, como estudos de diagramas de fases binário16 e ternário,17 e determinação de constante de equilíbrio.23 Ao mesmo tempo, nesse conjunto de publicações também há proposições envolvendo procedimentos didáticos, entre eles a utilização da aprendizagem baseada em problemas,18,20 da experimentação investigativa,25 da sala de aula invertida,19 e de softwares educativos;20 o desenvolvimento coletivo de experimentos;21 e a elaboração de miniprojetos temáticos.14,15

Quando implementadas, essas propostas resultaram, de acordo com os autores, em desenvolvimento de habilidades procedimentais, matemáticas e argumentativas, aumento do interesse e da motivação, e fortalecimento de conceitos da FQ.13,16,19,20-23,25 Trata-se de resultados importantes, porém provenientes de aplicação única, majoritariamente. Para alcançar efeitos mais amplos e intensos, é necessário dispor de um projeto experimental de longo prazo, que alinhe objetivos de ensino e aprendizagem, avaliações docentes e discentes, e organização curricular; mas que também seja consciente de influências contextuais como estrutura laboratorial, e históricos e aspirações dos alunos.28

Isso posto, as perguntas que orientaram essa pesquisa foram: Como estão estruturadas as disciplinas de FQ Experimental nos cursos de Química das melhores instituições de ensino superior (IES) brasileiras? Seriam os exemplos mencionados nessa seção introdutória representativos do cenário do ensino de FQ Experimental do país? Este trabalho apresenta uma investigação que objetivou caracterizar disciplinas de FQ Experimental desenvolvidas para a formação de profissionais da área da Química, entre eles bacharéis e licenciados, químicos industriais, medicinais, ambientais e de petróleo, por meio da consulta e análise majoritária de seus planos de ensino.

METODOLOGIA

A abordagem investigativa utilizada neste trabalho tem predominância qualitativa, e os procedimentos realizados caracterizam-na como uma pesquisa documental.29 Os documentos em questão são, principalmente, planos de ensino de disciplinas de FQ Experimental, disponibilizados nos sítios eletrônicos de IES brasileiras.

Os planos de ensino foram examinados seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados.30 A pré-análise estendeu-se da seleção das IES até a localização dos planos de ensino. Na etapa de exploração dos materiais, os documentos foram lidos e as informações extraídas foram organizadas em tabelas, considerando os elementos: súmula, etapa aconselhada, carga horária, objetivo, conteúdo programático, metodologia, critérios de avaliação e bibliografia. A escolha de tais elementos foi baseada na estruturação dos planos de ensino da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), os mais abrangentes encontrados ao longo do processo de exploração documental. Na etapa de tratamento de resultados, os dados organizados foram discutidos à luz de fundamentos identificados, sobretudo, em artigos científicos e na legislação educacional brasileira. Três pesquisadores executaram os procedimentos descritos.

Para a seleção das instituições, foi considerado o Índice Geral de Cursos (IGC), um indicador de qualidade desenvolvido pelo Ministério da Educação.31 Dentre as 58 IES que atingiram o conceito máximo de cinco no IGC de 2022, 23 possuem cursos de Química: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Universidade Federal de Lavras (UFLA), Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Complexo de Ensino Superior de Cachoeirinha (CESUCA).

Suas páginas na internet foram individualmente consultadas em maio de 2025. Nesse movimento, foram identificados cursos de Química com ênfase em licenciatura (21 ocorrências), bacharelado (17 ocorrências), industrial (6 ocorrências), tecnológica (6 ocorrências), de petróleo (1 ocorrência) e ambiental (1 ocorrência). Juntos, eles oferecem 49 tipos distintos de disciplinas de FQ Experimental, geralmente nomeadas pelas IES como Físico-Química Experimental, Laboratório de Físico-Química ou Experimentos em Físico-Química, acompanhados ou não de numerais ou letras. Ao longo do texto, aquelas que são as únicas nos currículos dos cursos com propósito de abordar experimentos FQ foram nomeadas como FQU, enquanto as sequenciais foram nomeadas como FQ1 ou FQ2. Apenas uma universidade consultada apresenta mais do que duas FQ Experimental. Como suas ementas indicaram abordagem de conteúdos abrangidos pela FQ2 de outras IES, para fins de organização da pesquisa, optou-se pela inserção desses dois casos na categoria FQ2.

Assim, esse trabalho de pesquisa é resultado da identificação, análise e caracterização de 18 planos de ensino de disciplinas tipo FQU e 31 planos de ensino dos tipos FQ1 ou FQ2. Também foram consultados materiais dos tipos projeto pedagógico do curso, grades curriculares e matrizes curriculares. Optou-se pela utilização exclusiva de documentos publicamente disponibilizados pelas IES.

Não é objetivo dos pesquisadores fazer julgamento de valor à forma como os planos de ensino foram elaborados, nem aos seus respectivos cursos e instituições de ensino.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Inicia-se a discussão dos resultados apresentando duas notáveis características identificadas nos documentos estudados, norteadores das disciplinas de FQ Experimental em cursos de Química do país. A primeira delas refere-se à atualização dos planos de ensino: menos da metade estavam de acordo com o período apontado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB),32 que indica a necessidade semestral ou anual de atualização, conforme a duração das disciplinas de cada curso oferecido. Dado que os documentos foram consultados em 2025, o ano disposto nos textos deveria ser 2024 ou 2025. Outros planos de ensino estavam datados dos períodos de 2021-2023 (12 casos), 2016-2020 (6 casos) e 2010-2015 (11 casos). Ainda, oito não apresentavam indicação temporal.

O segundo apontamento diz respeito à estrutura dos 49 planos de ensino analisados. Observou-se que as informações publicamente fornecidas não são homogêneas. De acordo com a LDB,32 as IES devem informar aos interessados em cursar a disciplina, antes do período letivo: “os programas dos cursos e demais componentes curriculares, sua duração, requisitos, qualificação dos professores, recursos disponíveis e critérios de avaliação, obrigando-se a cumprir as respectivas condições, e a publicação deve ser feita [...] em página específica na internet no sítio eletrônico oficial da instituição de ensino superior” (p. 37). Além disso, o Conselho Nacional de Educação (CNE), no parecer CNE/CES No. 236/2009,33 dispôs do direito dos alunos do ensino superior a serem informados sobre metodologias e critérios de avaliação das disciplinas pretendidas, por meio de planos de ensino divulgados para a comunidade acadêmica.

Apesar dessas indicações, a legislação balizadora da educação superior não faz referência à ampla divulgação das informações para sujeitos externos às IES. Assim, é possível que planos de ensino atualizados e completos sejam fornecidos apenas para os alunos das disciplinas. Nos sites das IES restariam versões anteriores, e isso justificaria as características dos documentos encontrados pelos pesquisadores.

Em adição, verificou-se que algumas IES estabelecem regras próprias de estrutura e divulgação dos seus planos de ensino. Distintas situações foram identificadas nesse contexto. Por exemplo, os planos de ensino da UFRGS estão acessíveis aos visitantes do seu site e devem conter, obrigatoriamente, súmula, pré-requisitos, etapa aconselhada, créditos, carga horária, corpo docente, objetivos, conteúdo programático, metodologia, cronograma de atividades, experiências de aprendizagem, sistema de verificação do aproveitamento e bibliografia.34 Há três casos em que parâmetros foram estabelecidos pela IES, os planos de ensino foram divulgados publicamente, mas os documentos consultados não estavam de acordo com as normas; uma IES que possui orientações, mas não disponibilizou os planos de ensino para o público externo; e duas IES que não informam sobre a normas para elaboração dos seus planos de ensino, nem os compartilham.

Nesse cenário, os documentos analisados estavam constituídos pelos seguintes itens: súmula ou ementa (47 casos), carga horária (43 casos), bibliografia (33 casos), conteúdo programático (22 casos), objetivos (19 casos), metodologia (13 casos), critérios de avaliação (12 casos). A partir desses resultados, e dado que muitas informações são repetidas nos textos que compõem esses diferentes itens, optou-se por seguir com a discussão sobre a estruturação das disciplinas de FQ Experimental a partir de categorias assim nomeadas e ordenadas: carga horária; conteúdo programático; bibliografia; metodologia; e avaliação.

A carga horária semestral mínima encontrada foi de 30 h, e essa ocorre em 11 casos dos tipos FQU (2 ocorrências), FQ1 (3 ocorrências) e FQ2 (6 ocorrências). São recorrentes as cargas-horárias entre 60 e 70 h. Há, ainda, uma disciplina com 90 h semestrais, e nela estão inclusas 30 h de atividades teóricas. A opção pela carga horária teórica foi feita em dois casos dentre os 49 analisados. Assim, observa-se preferência dos cursos em abordar atividades teóricas e experimentais de FQ em disciplinas distintas. Em quatro planos de ensino são citados o uso de aulas teóricas expositivas na metodologia, sem considerar essa etapa como carga horária teórica da disciplina, indicando que o tempo dedicado para esse momento pode variar com fatores como o conteúdo abordado e a disponibilidade do professor. Não foram encontradas regulamentações para a carga horária de atividades em laboratório necessária à formação de profissionais da Química. Ao mesmo tempo, a literatura da área de ensino de Química valoriza esses momentos pela possibilidade de explorar a representação macroscópica dos conteúdos, bem como incorporar a criatividade, o diálogo e o trabalho em grupo.6,7,35

A carga horária de prática extensionista, oriunda da Resolução CNE/CES No. 7/2018,36 foi incluída no planejamento de sete disciplinas experimentais de FQ analisadas, sendo elas dos tipos FQ1 (2 ocorrências) e FQ2 (5 ocorrências), constituintes de quatro IES. São comuns a três propostas de extensão a divulgação da ciência nos contextos escolar e social, correspondendo às concepções e diretrizes legais.36 A identificação de um número reduzido de atividades extensionistas pode estar relacionada à divergência temporal entre o prazo final para sua implementação (19 de dezembro de 2022)37 e as datas de atualização dos documentos consultados. Além disso, uma investigação recente realizada em uma comunidade acadêmica aponta que há obstáculos para o processo de curricularização da extensão, entre eles a resistência cultural, devido a uma visão tradicional de ensino; a falta de compreensão conceitual, uma vez que muitos discentes e docentes relatam dificuldades em entender o significado da prática de extensão; o acúmulo de atividades acadêmicas, causando sobrecarga nos sujeitos envolvidos; a carência de formação docente; e dificuldades de articulação com a comunidade externa.38

Para analisar os conteúdos de FQ encontrados nos documentos, o levantamento da presente investigação tomou como referência a organização de um livro39 de Peter Atkins, autor amplamente utilizado no ensino de FQ no Brasil.12 O Quadro 1 sintetiza o número de menções a experimentos que objetivam estudar: o calor das reações químicas (termoquímica); a termodinâmica de transição e os diagramas de fase (equilíbrio de fases de substâncias puras); a termodinâmica das misturas, as propriedades coligativas e os diagrama de fases de misturas (equilíbrio físico); as soluções e a eletroquímica (equilíbrio químico); e as velocidades e mecanismos de reação (cinética química).

Quadro 1.
Frequência de conteúdos identificados nos planos de ensino de disciplinas de FQ experimental analisados

Observa-se que a distribuição menos heterogênea de conteúdos ocorre na FQU, o que pode ser atribuído à natureza abrangente de uma disciplina que precisa condensar os temas a serem tratados no curso em um único semestre. O Quadro 1 também revela a predominância de experimentos envolvendo a termoquímica em FQ1 e a cinética química em FQ2, e indica que práticas para abordagem de equilíbrio químico são distribuídas pelos docentes entre essas duas disciplinas. Tal organização sugere que o ensino desses conteúdos geralmente ocorre nas disciplinas sequenciais de FQ Experimental na ordem termoquímica - equilíbrio químico - cinética química, a mesma praticada em disciplinas sequenciais teóricas de FQ e em livros didáticos de FQ.

O levantamento realizado também permitiu identificar os experimentos mais recorrentes, sendo eles sobre a determinação do calor envolvido em diferentes tipos de reações e sobre os fatores que influenciam na velocidade das reações químicas. Não foram encontrados detalhes sobre a metodologia experimental utilizada nesses experimentos. Ao mesmo tempo, trata-se de práticas que podem ser realizadas com reagentes e equipamentos acessíveis, por meio de procedimentos seguros e rápidos o suficiente para ocorrerem no intervalo de tempo de uma aula, com obtenção de resultados cuja discussão pode variar em amplitude e aprofundamento. Ainda, foram identificadas propostas experimentais consideradas não convencionais para aulas práticas de FQ, nos limites dessa investigação, envolvendo síntese de polímeros e de nanopartículas metálicas, e estudos de difração e interferência de laser, de isotermas de adsorção e de fenômenos de transporte.

Para além da FQ, os documentos analisados apresentam outros tipos de conteúdos. O suporte para confecção de relatórios e para tratamento matemático dos dados é oferecido nas disciplinas da UFRN, da UNESP, da UFV e da UFPE; e para elaboração de vídeos tidos como produções dos estudantes pela UNESP de São José do Rio Preto. Essas são oportunidades importantes para os discentes desenvolverem competências e habilidades esperadas dos profissionais da Química, relacionadas a comunicação oral e escrita de projetos e resultados de pesquisas, com formalismo, organização e interpretação adequada.40

Em adição, entre os planos de ensino considerados, há duas menções a procedimentos de segurança em laboratório químico, sendo eles nos cursos de Química da UFSCar e da UFLA. A relevância da abordagem de tal tópico em disciplinas em nível de graduação foi discutida em uma publicação da revista Nature Chemistry. O estudo foi motivado pela recorrência de acidentes com feridos e vítimas fatais em laboratórios acadêmicos ao redor do mundo nos últimos dez anos. Os autores indicaram que aprender sobre a segurança em laboratório ao longo da graduação é um dos caminhos para diminuir a frequência e a gravidade dos acidentes químicos.41

As bibliografias apresentadas nos planos de ensino analisados são compostas, principalmente, por livros didáticos. As obras de Peter Atkins e colaboradores, apesar de voltadas para aspectos teóricos da FQ, são as mais recorrentes. Destaca-se também o livro Experiments in Physical Chemistry,42 pois ocorre em quase dois terços das bibliografias. Entre autores e obras brasileiras, o mais citado é Práticas de Físico-Química, do professor Renato Rangel.43 Os livros didáticos são importantes ferramentas para o aprendizado em todos os níveis. Em especial na educação superior, constituem-se como fontes de consulta sobre o conteúdo da disciplina tanto para discentes como para docentes.12 Pesquisadores da área de ensino de Ciências têm avaliado livros didáticos de FQ sob óticas distintas.6,12,44 No que se refere a seções de experimentação de Química presentes nesses materiais, as linhas de investigação mais expressivas e atuais buscam por elementos investigativos nas propostas para aulas de laboratório.44

Outros materiais compuseram as bibliografias. As apostilas próprias de cada instituição são usuais, mas a análise nos planos de ensino revelou que elas não costumam ser mencionadas nesses documentos: dentre as 33 listas bibliográficas, apenas duas fazem referência a esses manuais. As FQ Experimental de algumas unidades da UNESP distinguem-se por incluírem referências voltadas para a formação de professores, por comporem cursos de Licenciatura em Química. Entre eles, estão artigos da Química Nova na Escola e do Journal of Chemical Education, documentos balizadores da educação básica nacional, livros sobre ensino e aprendizagem de Química e livro de experimentação com materiais comuns do dia a dia.

A metodologia utilizada no desenvolvimento das aulas, ou seja, o caminho que os professores pretendem seguir para trabalhar os conteúdos previstos,45 é predominantemente experimental em todos os casos analisados, conforme esperado para as disciplinas de interesse nessa investigação. A experimentação como ferramenta para o ensino e a aprendizagem da Química é apreciada por docentes e discentes em todos os níveis educacionais. Ao mesmo tempo, a apreciação somente não leva à compreensão instantânea do conteúdo. O potencial pedagógico das aulas experimentais é amplamente reconhecido quando associado a problematização de fenômenos, exploração de dados e contextualização, e tais processos nem sempre se dão no momento da realização dos experimentos.2,3

Com esse olhar, observou-se que algumas IES promovem atividades anteriores e posteriores à prática. No período que antecede o laboratório, as aulas expositivas foram as mais citadas (seis disciplinas de duas IES); estudo dirigido, pesquisa bibliográfica e pré-teste são utilizados em uma IES; e revisão de conteúdos prévios por meio de ensino híbrido em uma IES. No cenário internacional, o pré-teste, acompanhado da leitura do roteiro prático ou do acesso a vídeos, também são comuns e foram associados a segurança mais efetiva e diminuição de estresse e ansiedade na realização dos procedimentos experimentais.46 No momento pós-laboratorial, os planos de ensino informam que o aprendizado é conduzido por meio da elaboração de seminários e relatórios, principalmente (seis disciplinas em cada caso).

Ainda de acordo com os planos de ensino consultados, há quatro casos de metodologias que apresentam desvios às aulas tradicionais, ou seja, guiadas por roteiros pré-definidos e voltadas para a comprovação de leis e validação de resultados previamente conhecidos.47 Três delas ocorrem nas disciplinas de FQ Experimental dos cursos de Licenciatura em Química da UFRN, da UNESP de Presidente Prudente e de São José do Rio Preto: são propostas aos graduandos discussões pedagógicas sobre as práticas, realização de experimentos adaptáveis ao ensino médio e produção de material paradidático, respectivamente. Tais situações de articulação de conteúdos específicos e pedagógicos são oportunidades para reflexão dos futuros educadores em Química sobre sua atuação no contexto escolar.48 O quarto exemplar ocorre na UFV, pois informa que as práticas realizadas são investigativas. Ao mesmo tempo, no limite da presente pesquisa, não é possível afirmar que a intenção dos docentes na redação dos documentos e na realização das aulas é aderente às propostas da área de ensino de Ciências para a experimentação investigativa.2

Por fim, foram estudados os critérios de avaliação dos estudantes nas disciplinas de FQ Experimental. Esses foram os itens mais escassos dentre os investigados, estando presentes em menos de um quarto dos planos de ensino publicamente divulgados. Nesse conjunto de dados, os instrumentos avaliativos mais frequentes foram relatórios, provas e seminários. De fato, a preparação do graduando na busca por bom desempenho nessas produções pode levar ao desenvolvimento de conteúdos conceituais da FQ, bem como procedimentais da comunicação oral e escrita. Por outro lado, dada a amplitude de procedimentos e atitudes demandadas de um aluno para a realização de um experimento de Química, é necessário refletir sobre tudo que pode ser valorizado no trabalho laboratorial para garantir que isso seja avaliado.35

Nesse sentido, cabe mencionar a associação entre as avaliações somativa e formativa indicada no plano de ensino disponibilizado pela UNESP de São José do Rio Preto. Enquanto a primeira objetiva expressar ou tomar decisões sobre o resultado final de um processo de aprendizagem, a segunda visa desenvolver e melhorar o processo ensino e aprendizagem baseada em evidências sobre o desempenho dos alunos. A literatura aponta as estratégias mais utilizadas na avaliação formativa: o retorno esclarecedor do professor para o estudante sobre a distância entre seu nível atual e o nível de referência; a comunicação interpares sobre o desenvolvimento do aprendizado; a autoavaliação, baseada nas referências informadas pelo professor; e o uso de instrumentos autênticos para coletar os dados que resultarão na melhoria do ensino e da aprendizagem, ou seja, desafiadores o suficiente para mobilizar conhecimentos, mas pertencentes ao cotidiano profissional.49

Em relação a diversificação de materiais tomados como instrumento avaliativo, destaca-se o caderno de laboratório utilizado no curso de Licenciatura em Química da UFPE de Caruaru. Tal documento guarda registros da atividade científica, experiências e resultados, em geral sem uma ordenação estabelecida. Tradicionalmente é um documento físico, mas as opções eletrônicas já ocorrem e podem ser interessantes em ambiente educacional. No contexto da pesquisa científica, também tem a finalidade de proteger a propriedade intelectual. Além disso, tem relevância histórica porque permitem identificar memórias do cientista, e o cotidiano no laboratório e da instituição associada à pesquisa.50,51

Ao longo deste texto, buscou-se exaltar algumas valorosas propostas identificadas em cada um dos itens analisados nos planos de ensino consultados. A relevância dos exemplos foi respaldada, principalmente, em produções da área de ensino de Química/Ciências e em documentos norteadores da formação de profissionais da Química, nos contextos nacional e internacional.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o panorama estrutural, traçado a partir dos documentos disponibilizados pelas IES, indica pouca aderência das disciplinas experimentais de FQ à diversificação e inovação conteudista, bibliográfica, metodológica e avaliativa. Além disso, as especificidades dos cursos estudados (bacharelado, licenciatura, industrial, medicinal, ambiental e de petróleo) parecem ter mínima influência na organização dos planos de ensino. A generalização de conteúdos afasta as possibilidades de contextualização da FQ, e a utilização de métodos de didática e de avaliação tradicionais limita o desenvolvimento de certas habilidades e competências dos futuros químicos. As causas para esse cenário podem ser múltiplas, como insuficiências na formação dos docentes que atuam nas IES, alta demanda de tarefas acadêmicas, e falta de motivação para inovações em atividades de sala de aula, devido ao diminuto reconhecimento desse tipo de atividade na carreira do magistério superior.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho teve como objetivo investigar como ocorre o ensino de FQ Experimental nos cursos de Química das melhores IES brasileiras, por meio de análise documental que priorizou informações publicamente divulgadas em 49 planos de ensino. A exploração dos dados revelou grande disparidade temporal e estrutural dos documentos considerados. Além disso, indicou que a carga horária da maior parte dessas disciplinas é exclusivamente experimental, e que o tempo dedicado para práticas extensionistas ainda é realidade em poucas instituições. Em relação aos tópicos da FQ mencionados como conteúdos abordados nas aulas, a ordem decrescente de ocorrências é cinética química, equilíbrio químico, equilíbrio físico, termoquímica e equilíbrio de fases de substâncias puras. Para estudar sobre esses assuntos, em geral são indicados na bibliografia livros didáticos de caráter teórico e experimental, e com pouca variação em termos de autoria. E para desenvolver os conteúdos, a metodologia utilizada é a experimentação por vezes associada a atividades pré e pós laboratoriais, como momentos expositivos, pré-testes, seminários e relatórios. Esses três últimos também funcionam como instrumentos para avaliação dos graduandos.

A revelação desse cenário mostra que as perguntas orientadoras da pesquisa foram respondidas ao final. O panorama estrutural das disciplinas estudadas foi traçado, e indicou discretas variações nos itens analisados, mesmo quando cursos de Química com diferentes ênfases e de distintas IES foram consultados. Em adição, sugeriu que a literatura especializada no ensino da Química em geral, e da FQ em particular, é pouco influente no desenvolvimento das aulas.

Por último, reconhece-se os limites desta investigação. A obrigatoriedade da divulgação pública dos planos de ensino é nebulosa, e a escolha pela consulta exclusiva a informações amplamente disponíveis restringiu os exemplares para discussão. O contato com professores e alunos de disciplinas experimentais de FQ pode abrir caminhos para um novo estudo, que aprimore a compreensão do seu funcionamento por meio das vozes dos sujeitos envolvidos. Ao mesmo tempo, acredita-se que as discussões suscitadas até o momento, no presente texto, sejam robustas o suficiente para incentivar a reorganização disciplinar da FQ Experimental ofertada em IES do país.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todos os dados estão disponíveis no texto.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à CAPES pelas bolsas de estudos concedidas.

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Editado por

  • Editor Associado responsável pelo artigo:
    Maurícius S. Pazinato

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Fev 2026
  • Aceito
    17 Jun 2026
  • Publicado
    26 Jun 2026
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Sociedade Brasileira de Química Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), CP6154, 13083-0970 - Campinas - SP - Brazil
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