| Ama |
Abomina os filhos e nem se alegra com vê-los. Temo que ela medite nalguma nova resolução. (...) Mas eis que os filhos, acabadas as corridas, se aproximam, sem nada saber da desgraça da mãe; é que a mente juvenil não gosta de sofrer. E Jasão, apesar da dissensão com a mãe, há de consentir que os filhos sofram tal? Ó filhos, ouvis como é para vós o vosso pai ? Vedes, caros filhos; a vossa mãe, o peito se lhe agita e move a ira. Correi depressa para dentro do palácio, e não vos acerqueis da sua vista, nem vos aproximeis, mas defendei-vos do caráter selvagem, temeroso de um ânimo indomável. Ide, então, correi céleres para dentro. Por que entram as crianças na culpaque é do pai? (...) Ai, filhos, como eu temo que algo sofrais. |
| Medeia |
Ó filhos malditos de mãe odiosa, perecei com vosso pai, e a casa caia toda em ruínas. Este dia só consente que eu fique, a pensar na maneira de nos irmos e na direção que hão de tomar os meus filhos, já que o pai nada se importa com o que há de arranjar para eles. Porque eu vou matar os meus filhos. Não há quem os possa livrar. E, depois de ter derrubado toda a casa de Jasão, saio do país, fugindo do assassínio dos meus filhos adorados, eu, que ousei a mais ímpia das ações. Porque não tornará a ver com vida, daqui por diante, os filhos que de mim teve, nem gerará nenhum da noiva recém casada, porque será forçoso que essa má tenha má sorte com os meus venenos. Não era para isto que eu vos tinha criado, ó filhos, não foi para isto que eu sofri trabalhos e passei torturas, suportando as dores agudas de dar à luz. E vós nem sequer ao menos vereis a vossa mãe com esses queridos olhos, porque tereis passado a outro gênero de vida. Ai! Ai! Porque fitais em mim os olhos, ó filhos? Porque sorrides pela última vez? Ai! Ai! Que hei de eu fazer? O ânimo fugiu-me, mulheres, desde que vi o olhar límpido dos meus filhos. Não, eu não seria capaz. Levarei desta terra os filhos, que são meus. Para que hei de eu, para afligir o pai deles com a sua desgraça, infligir a mim duas vezes os mesmos males? Juro pelos gênios da vingança, que estão no Hades, nunca acontecerá que eu entregue os meus filhos aos inimigos para lhes sofrerem as insolências. Amigas, decidida está a minha ação: matar os filhos o mais depressa que puder e evadir-me desta terra, não vá acontecer que, ficando eu ociosa, abandone as crianças, para serem mortas com mão mais hostil. (...) Anda, ó minha desventurada mão, empunha a espada, empunha-a, move-te para a meta dolorosa da vida, não te deixes dominar pela covardia, nem pela lembrança dos teus filhos, de como eles te são caros, de como os geraste. |