Resumo:
A partir do arcabouço teórico da psicologia da libertação, buscamos investigar as possibilidades de formação crítica oportunizadas por uma ocupação de movimento de moradia com foco em seus respectivos espaços coletivos. Os procedimentos de campo adotados foram a observação participante e a realização de entrevistas com representantes-chave de cada espaço identificado: a igreja pentecostal, as rodas de capoeira e as assembleias gerais. Observamos que as práticas, os discursos e as relações de cada espaço coletivo viabilizam interesses sociais específicos e apresentam compromissos divergentes, com tendência maior à perspectiva emancipatória ou de endosso à ordem estabelecida, fortalecendo ou desafiando o projeto político do movimento social. O ambiente comunitário da ocupação, atravessado por processos psicossociais concorrentes, expressa-se em certa conflitividade, que encontra na formação crítica da coletividade uma situação de disputa, cujos elementos, por suas referências a projetos de sociedade e interesses sociais específicos, remontam à própria luta de classes.
Palavras-chave:
movimentos sociais; pentecostalismo; participação política; psicologia comunitária
Abstract:
Based on the theoretical framework of liberation psychology, we seek to investigate the possibilities of critical formation provided by an occupation of housing movement that focuses on their respective collective spaces. Participant observation and interviews with key representatives of each identified space (a Pentecostal church, capoeira circles, and general assemblies) were adopted as field procedures. We observed that the practices, discourses, and relationships of each collective space enable specific social interests and divergent commitments that more greatly tend toward an emancipatory perspective or endorsement of the established order, strengthening or challenging the political project of the social movement. The community environment of the occupation, crossed by competing psychosocial processes, expresses itself in a certain conflict that finds in the critical formation of the collective a situation of dispute, whose elements go back to the class struggle itself.
Keywords:
social movements; pentecostalism; political participation; community psychology
Résumé:
En nous basant sur le cadre théorique de la psychologie de la libération, nous examinons les possibilités de formation critique offertes par une occupation d’un mouvement du logement en mettant l’accent sur leurs espaces collectifs respectifs. Les procédures adoptées étaient l’observation participante et les entretiens avec des représentants clés de chaque espace identifié: l’église pentecôtiste, les cercles de capoeira et les assemblées générales. On observe que les pratiques, discours et relations de chaque espace collectif permettent des intérêts sociaux spécifiques et présentent des engagements divergents, renforçant ou remettant en question le projet politique du mouvement social. L’environnement communautaire de l’occupation, traversé par des processus psychosociaux concurrents, s’exprime dans un certain conflit qui trouve dans la formation critique du collectif une situation de dispute dont les éléments remontent à la lutte des classes elle-même.
Mots-clés:
mouvements sociaux; pentecôtisme; participation politique; psychologie communautaire
Resumen:
Con base en el marco teórico de la Psicología de la Liberación, se pretende analizar las posibilidades de formación crítica que brinda un movimiento de ocupación de vivienda con enfoque en sus respectivos espacios colectivos. Los procedimientos de campo adoptados fueron la observación participante y entrevistas con representantes clave de cada espacio identificado: la iglesia pentecostal, los círculos de capoeira y las asambleas generales. Se observa que las prácticas, los discursos y las relaciones de cada espacio colectivo posibilitan intereses sociales específicos y presentan compromisos divergentes, con mayor tendencia hacia una perspectiva emancipadora o de respaldo al orden establecido, lo cual fortalece o desafía el proyecto político del movimiento social. El entorno comunitario de la ocupación, atravesado por procesos psicosociales en competencia, se expresa en un cierto conflicto que encuentra en la formación crítica del colectivo una situación de disputa, cuyos elementos se remontan a la propia lucha de clases.
Palabras clave:
movimientos sociales; pentecostalismo; participación política; psicología comunitaria
A questão da terra sempre ocupou o centro dos conflitos na sociedade brasileira, como afirma Ermínia Maricato (2008). Aprofundada pela posição do Brasil no capitalismo global, a questão da terra é fundamental para a compreensão da nossa intensa desigualdade social, assim como da histórica relação entre propriedade, poder político e poder econômico. Nos centros urbanos, essa problemática se expressa na segregação socioespacial e na depredação ambiental, sendo a dificuldade de acesso à terra regular para habitação uma das grandes responsáveis pelo inchaço das favelas e pelos loteamentos ilegais nas periferias (Maricato, 2008).
Considerando a lógica capitalista que serve como eixo de condução para a constituição e o uso do espaço, em São Paulo, a segregação socioespacial teve início com o processo de urbanização da cidade no fim do século XIX e se acentuou no século seguinte (Caldeira, 2000). Na análise da questão da moradia na sociedade capitalista, realizada por Engels (1872/2015), as metrópoles são compreendidas como espaços nos quais a problemática de escassez da habitação se agrava radicalmente, tendo em vista a alta densidade populacional – impulsionada pelo histórico êxodo rural – e o encarecimento das áreas centrais, que afeta os trabalhadores mais mal remunerados, obrigados a se deslocar para regiões mais distantes.
No cenário em que o uso do espaço urbano busca atender aos interesses do capital, as reivindicações para a desapropriação de imóveis ociosos para servirem como habitação popular são, por vezes, enquadradas como ilegais e resultam na criminalização dos movimentos sociais (Viana, 2018). Boulos (2012) afirma que aos movimentos de moradia cabe realizar o que o Estado não executa: uma reforma urbana com as próprias mãos, baseada em interesses coletivos e colhendo os frutos da organização popular.
Em face dos desafios enfrentados ao longo das décadas de sua existência, cuja origem remonta ao final da década de 1970, os movimentos de moradia têm ampliado e complexificado seus repertórios de ação coletiva. Entre as estratégias de ação, desde a década de 1990, a ocupação de imóveis ociosos é um instrumento importante para pressionar o Estado a transformá-los em habitação popular (Tatagiba, Paterniani, & Trindade, 2012). Nesse processo, a ocupação de moradia se estende no tempo e se converte em um espaço comunitário de ação política. Como eixo constante na trajetória histórica dos movimentos de moradia, presente também nas ações cotidianas das ocupações, é primordial o desenvolvimento da formação crítica de seus membros para aprimorar a luta por direitos.
A preocupação do sentido político da ação humana e da dimensão psicológica presente na luta contra a opressão se inserem entre os principais temas tratados pela psicologia da libertação de Ignácio Martín-Baró (1990). Ademais, a obra do autor fundamentou estudos acerca da realidade nacional que contribuíram de forma significativa para o avanço da psicologia social e comunitária no Brasil (Euzébios Filho, 2023; Goes, Ximenes, & Moura Jr., 2015; Guzzo & Lacerda Jr., 2011; Ximenes & Góis, 2010).
Atento às questões concretas das sociedades latino-americanas, Martín-Baró realizou estudos específicos sobre a violação à moradia em El Salvador, articulando dialeticamente a problemática macrossocial às implicações psicossociais e posicionando o papel da Psicologia como promotora de uma visão crítica e da organização popular para superação da injustiça estrutural (Mendonça & Lacerda Júnior, 2015). Em um desses estudos, Martín-Baró (1976) observou que a violação ao direito à habitação se expressa tanto pela estrutura física precária das moradias como pelas relações interpessoais de adensamento, de modo que o lar se converte em um espaço público, obstaculizando o desenvolvimento de relações íntimas e interioridade subjetiva. Em tais condições, além de o sujeito se sentir empurrado para fora de si mesmo e ter o desenvolvimento subjetivo prejudicado, ocorre a tendência de aumentar os níveis de estresse e de agressividade, de conflitos intrafamiliares e, no limite, de prejuízos à saúde mental.
Utilizando-se de escalas específicas como instrumentos de investigação, Martín-Baró (1979) constatou baixos níveis de consciência individual de classe e de envolvimento com grupos sociais entre os salvadorenhos que experienciavam condições precárias de habitação. Em seu texto, “consciência de classe é entendida como a consciência expressa dos problemas pessoais e sociais, de suas raízes sociais, das forças que influenciam sua resolução, bem como do envolvimento ativo do indivíduo na solução desses problemas” (p. 166, tradução nossa)1. A observação dos baixos níveis de consciência de classe, para Baró, deve-se a múltiplos fatores, como a própria condição de moradia, pobreza econômica, falta de educação formal e outras questões sociais. Os baixos níveis de envolvimento social são interpretados como efeito de um processo sucessivo de exclusão de oportunidades de participação em organizações sociais, vivenciados ao longo da vida por esses sujeitos.
Em uma ocupação de movimento de moradia, diversos dos seus membros têm como motivador primeiro de sua participação a vivência de condições precárias de habitação, que inclui superlotação doméstica e/ou a necessidade de se livrar do custo do aluguel (Boulos, 2012). Trata-se de pessoas com trajetórias de vida atravessadas por processos semelhantes aos apresentados por Martín-Baró (1976, 1979). Diante disso, e considerando que a violação persistente do direito à moradia digna e das demais problemáticas sociais que acometem a vida desses sujeitos afetam inclusive as possibilidades de consciência individual de classe e de envolvimento social em grupos, quais são os desafios vividos por um movimento de moradia para formar criticamente seus membros?
Como um grande grupo de pessoas, a ocupação realizada por um movimento de moradia dispõe de uma dimensão organizativa a partir de subgrupos menores, de modo a exigir que as práticas destes estejam em consonância com os propósitos daquele. Martín-Baró (2017) define grupo humano como uma “estrutura de vínculos e relações entre pessoas que canaliza, em cada circunstância, necessidades individuais e ou interesses coletivos” (p. 210), em geral, há uma articulação entre ambos. Adotando essa compreensão, pode-se dizer que a ocupação, como um grande grupo, tem uma estrutura, entre lideranças e bases, entre os subgrupos e sujeitos, cujo objetivo é atender às necessidades de cada um e, ao mesmo tempo, de todos; uma necessidade pessoal que, para ser satisfeita, precisa estar articulada a debates mais amplos.
Embora a constituição de um grupo possa ser compreendida como resultado da consciência das pessoas acerca de seus interesses e objetivos comuns, cuja concretização necessita de unidade e ação, muitos desses membros podem não conhecer a raiz última dos problemas aos quais o grupo está orientado a agir (Martín-Baró, 2017). E, nesse sentido, o autor questiona sobre qual o efeito decorrente das atividades do grupo sobre seus membros, considerando que há uma relação dialética entre consciência e atividade, entre o entendimento acerca das problemáticas que afligem o grupo e a atividade que este consegue realizar para avançar no pensar e agir pelo que busca coletivamente.
Sobre a identidade do grupo e os interesses presentes em suas atividades coletivas, o autor afirma:
Em última instância, o aspecto mais importante de um grupo é a sua conexão, explícita ou implícita, com exigências, necessidades e interesses de uma classe social. Todo grupo – desde a família ou o núcleo de amigos íntimos até o partido político, o sindicato ou a associação gremial – canaliza interesses sociais específicos. Assim o grupo é a mediação concreta de uma determinada situação e de uma circunstância histórica.
(Martín-Baró, 2017, p. 212)
Martín-Baró tem na obra de Paulo Freire uma contribuição teórica significativa para o desenvolvimento dessa reflexão. Considerando a afinidade teórica-política, cabe destacar a compreensão de Paulo Freire (2019a) de que toda ação humana apresenta uma natureza cultural e carrega em si a intenção de permanência ou de mudança da lógica opressora:
Toda ação cultural é sempre uma forma sistematizada e deliberada de ação que incide sobre a estrutura social, ora no sentido de mantê-la como está ou mais ou menos como está, ora no de transformá-la . . . . A ação cultural ou está a serviço da dominação – consciente ou inconscientemente por parte de seus agentes – ou está a serviço da libertação dos homens. Ambas, dialeticamente antagônicas, se processam . . . na e sobre a estrutura social, que se constitui na dialeticidade permanência-mudança.
(p. 245)
Ambas as reflexões se coadunam na compreensão de que uma ação no mundo carrega em si elementos culturais e históricos e refletem o compromisso com uma classe social; as interações grupais, desse modo, tornam-se mediadoras de interesses que favorecem ou desfavorecem a emancipação das classes populares.
Martín-Baró (2017) afirma que as condições subjetivas são os obstáculos mais imediatos para imputar mudanças sociais objetivas, visto que elas restringem o universo de sentido em que as massas populares se movem, distorcendo suas percepções da realidade e tolhendo possíveis movimentos de mudança. O modo como a sociedade está organizada impõe ao sujeito a necessidade de elaboração de um universo simbólico que, consubstanciado pelos elementos da ideologia dominante, cumpre várias funções críticas para sua sobrevivência, como “(a) dar um sentido frente às grandes questões da existência humana; (b) justificar o valor da ordem social para todos os setores da população; (c) permitir a interiorização normativa da ordem social pelos grupos e pessoas” (p. 59). A ideologia, ao exercer essas funções, oculta e, ao mesmo tempo, operacionaliza os interesses das classes dominantes, de modo a distorcer a apreensão consciente da realidade pelas massas populares.
A ideologia constitui uma parte essencial da ação humana, pois toda ação é referenciada a um sistema de significados, os quais estão relacionados a interesses sociais de grupos dominantes. A totalidade desses interesses sociais, por meio dos artifícios da ideologia, dão base e orientação para as ações humanas, bem como para os processos subjetivos do indivíduo. Ação, como uma síntese de objetividade e subjetividade e cujas particularidades são valoradas e historicamente relacionadas à estrutura social, pode ser compatível com os interesses das classes dominantes, os da própria classe, ou com uma articulação de ambos (Martín-Baró, 1990).
Pela magnitude da ideologia sobre as subjetividades e sua onipresença na relação sujeito-sociedade, Martín-Baró (2017) posiciona o processo de desmascarar a ideologia dominante como atribuição fundamental da Psicologia Social. “Assumindo que toda ação humana significativa é uma tentativa de articular interesses sociais com interesses individuais, à Psicologia Social cabe estudar o momento em que o social se torna individual e o indivíduo se torna social” (p. 60).
Como uma pesquisa em Psicologia Social, as contribuições da psicologia da libertação servirão como eixo analítico para discutir as possibilidades comunitárias de formação crítica dos militantes de um movimento social de luta por moradia. A formação crítica, como o efeito da vivência de relações humanas em consonância com uma ideologia emancipatória, com vistas a fazer frente aos modos de ser e de pensar cujo sistema de significados adotado está (mais ou menos) impregnado pela ideologia dominante, identifica como orientador deste estudo os seguintes questionamentos: os espaços coletivos da ocupação têm sido mediadores de quais interesses sociais em suas dinâmicas de grupo, objetivos e enunciados? A partir dos interesses sociais mobilizados nesses espaços e na ocupação de forma geral, pode-se considerar quais efeitos para a subjetividade dos militantes? Com base nessas perguntas, este estudo tem por objetivo investigar as possibilidades de formação crítica oportunizadas por cada espaço coletivo de uma ocupação de moradia, entendendo-os como processos psicossociais específicos, mas que se articulam no interior da organização comunitária que os envolve.
Método
O material de campo utilizado neste artigo é constituído por registros do diário de campo e entrevistas com três militantes de uma ocupação de movimento de luta por moradia localizada em uma região periférica da cidade de São Paulo.
Trata-se de uma ocupação que teve início em março de 2019 e conta com a presença 220 famílias. Segundo informações das lideranças, o terreno estava abandonado há 30 anos e acumulava dívidas. Por conta de trabalhos anteriores, fomos convidados a acompanhar esta ocupação desde seus processos iniciais.
Durante a pandemia da covid-19, apesar das dificuldades concretas para cumprir o isolamento, as lideranças conseguiram doações de cestas básicas e equipamentos de proteção individual, que, com ajuda dos militantes, também foram distribuídos na comunidade circundante. Em razão dos limites de um artigo, neste trabalho discutiremos o processo de acompanhamento que se estendeu por 10 meses, entre 2019 e 2020 – antes do início da pandemia.
Como um estudo de caso em psicologia comunitária, compreendemos a investigação dos processos e das relações psicossociais em uma comunidade específica a partir da linguagem e metodologia do campo acadêmico, cuja investigação busca se apoiar em um caráter dialógico e participativo, além de ter como eixo de orientação a postura política com vistas à transformação e emancipação social (Montero, 2006). Por esse motivo, adotamos como procedimento de coleta de dados a observação participante, realizando os registros em diário de campo, e a entrevista presencial a partir de um roteiro de perguntas semiestruturado.
A observação participante teve como intuito permitir o contato mais próximo possível do fenômeno sobre o qual decidimos nos debruçar, circunstância em que nos encontramos pessoalmente expostos àquilo que seria escopo de reflexão (Gonçalves Filho, 2003). Deste modo, participamos semanalmente das atividades propostas pelos espaços coletivos da ocupação (aulas e apresentações de capoeira, cultos da igreja pentecostal e debates das assembleias), além de estarmos presentes em outros momentos, como manifestações públicas, ocasiões festivas e eventos culturais. Ao longo da pesquisa, foram realizadas 33 visitas ao campo. Conforme as orientações de Ecléa Bosi (2003), buscamos registrar nos diários de campo todos os dilemas, percepções e angústias vivenciados na participação das atividades.
Considerando o interesse em conhecer o que se passa nos espaços coletivos do movimento de moradia, buscamos também entrevistar pessoas imprescindíveis para a organização das principais atividades que ocorrem na ocupação. Carlos (negro, 49 anos) é responsável pelos cultos da igreja pentecostal; Matheus (negro, 30 anos) ministra as aulas de capoeira; Neuza (branca, 51 anos) compõe a coordenação geral do movimento social e, como principal liderança da ocupação, é responsável por conduzir as assembleias gerais.
A entrevista teve como foco a história de vida (anterior à entrada para o movimento social) e as vivências nos espaços coletivos que cada depoente tem maior participação, bem como as percepções gerais sobre a dinâmica comunitária da ocupação. Salienta-se que o roteiro de perguntas utilizado (de natureza semiestruturada) foi o mesmo para os três participantes com adaptações e acréscimos para que cada um/uma pudesse discutir e apresentar o espaço coletivo que coordena. Neuza, por ser coordenadora da ocupação, foi convidada a apresentar suas percepções também sobre os outros espaços coletivos. A realização da entrevista foi condicionada à assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e da possibilidade de audiogravação.
Buscamos realizar a análise dos dados atentos à totalidade dos processos que envolvem o campo da pesquisa, de maneira a qualificar nosso olhar acerca das particularidades e singularidades presentes nos dados coletados (Pasqualini & Martins, 2015). Tendo em vista tal preocupação, debruçamo-nos, primeiramente, sobre a apreciação dos depoimentos – transcritos integralmente – e dos registros do diário de campo, com o intuito de investigar a dinâmica psicossocial de cada espaço coletivo da ocupação. A análise desse material foi feita com base no arcabouço teórico da Psicologia da Libertação, sendo discutido com estudos que abordaram fenômenos correlatos.
Salienta-se que o cuidado ético previsto com a preservação da identidade dos depoentes foi estendido à toda ocupação, considerando que as informações expressas dizem respeito não apenas aos sujeitos, mas à coletividade de militantes. Todos os nomes mencionados são fictícios. Este artigo é resultado de uma pesquisa mais ampla de mestrado em psicologia social (Almeida, 2022), cuja realização foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sob registro CAAE número 31327320.9.0000.5561.
Resultados e discussão
Os cultos pentecostais e o pastor Carlos
A primeira igreja pentecostal da ocupação foi construída sob liderança de Carlos. Desde sua entrada no movimento social, ele conta que planejava abrir uma igreja e, em seguida, desenvolver um projeto de formação profissional:
O meu projeto era pôr uma igreja aqui dentro, e, em cima dessa igreja, fazer profissionais. Faz de conta, eu sou cozinheiro, o outro é soldador . . . . E aí, trazer essas famílias pra aprender algo novo, pra sair dessa escassez de não ter um banheiro, de não ter um piso bom. Sair, vamos se dizer, do anonimato e falar assim: “Não, eu tô num barraco de madeira, mas amanhã eu quero ter um palácio aqui”.
Percebe-se que as motivações de participação de Carlos na ocupação são atravessadas por uma dimensão religiosa que se articula a questões como trabalho, pobreza (“escassez”), formação profissional e ascensão social. Embora o projeto tenha uma dinâmica comunitária e coletiva, o intuito é que a formação profissional seja capaz de oferecer as condições para que cada pessoa se torne independente e possa não apenas conquistar autonomia financeira, mas também acumular riquezas (“ter um palácio”).
Em outro momento da entrevista, Carlos expõe suas impressões sobre o efeito dos cultos na vida dos ocupantes:
O trabalho que nós fazemos aqui é maravilhoso, traz benefícios para as pessoas, acho que até melhor que dinheiro, que é o benefício espiritual, a paz que eles não têm por falta de conhecimento. E isso faz com que a gente agradeça a Deus pela luta que a gente passa e ver progresso. Ver as pessoas querendo mudança, querendo nova história . . . . Eu quero pro resto da vida estar fazendo o bem aí pro mundo, pra ocupação e ter muitos amigos.
Observa-se que, para o participante, o papel da igreja pentecostal é profundamente positivo, pois é o espaço em que consegue oferecer benefícios espirituais e conhecimento, que articulados possibilitam uma sensação de preenchimento existencial e gratificação, senso de capacidade (querer mudança, ver progresso), construção de laços de amizade. O contato com Deus é visto como o principal caminho para a conquista da paz, para o desenvolvimento individual e tem importância maior que o dinheiro, afirmação feita com certa hesitação: “acho que até melhor que dinheiro”.
Nos relatos apresentados, Carlos não menciona as lideranças da ocupação, tampouco parece considerar a questão política do movimento social. Quando perguntamos sobre a relação com a luta pela moradia, ele respondeu:
Nós não misturamos igreja com a luta da moradia, são histórias diferentes. A igreja tá aqui para confortar o seu espiritual, abrir leques onde você não tinha, de ter uma prosperidade de vida melhor, espiritualmente falando. Então, o trabalho da igreja aqui é tentar trazer a paz e tentar ver onde tá os erros e acertos, e você saber onde você tá errando e onde você tá certo. A igreja é fora de ocupação, é fora de qualquer tipo de movimento. Aonde tiver gente tem que pôr na mão o evangelho, mesmo no erro o evangelho tem que ser pregado. Uma não confunde a outra. Quando eu vim pra cá, eu vim ciente que eu tava errado, eu tô numa ocupação . . . . Só que pela misericórdia de Deus, ele sabe que eu não tava aguentando pagar aluguel e até aqui o Senhor nos abençoou.
Na visão de Carlos, a igreja e a ocupação não guardam relações, andam por caminhos que não se cruzam, são partidos diferentes, têm objetivos distintos. A igreja está certa, e a ocupação, errada. A igreja é vista como um lugar de autoridade acerca do conhecimento moralmente correto para orientação da vida. A partir desse olhar, a luta pela moradia, por meio do ato de ocupar para morar, é compreendida por sutilezas que se contradizem intensamente com o que a igreja prega. Carlos se enxerga na ocupação como alguém que está infringindo os bons valores, embora confesse que aceitou estar ali porque não tinha outra alternativa. Essa contradição parece ser resolvida ou abrandada pela esperança futura de sair da ocupação para morar em um imóvel por ele comprado ou alugado: “quem sabe nós pode sair daqui da ocupação e ir pro nosso apartamento, né?”
O conflito com a dimensão política do movimento aparece na entrevista de Neuza, a liderança do movimento. Ela expõe sua opinião sobre as igrejas pentecostais:
Eu tenho uma opinião concreta! Eu vejo elas não presentes dentro do meio social. Eles vêm, pede o terreno, monta sua igreja e acabou! Aqui, hoje, tem três igrejas! Eles não tão preocupados com o social, tão preocupados neles! . . . Eles só pensam neles. Pastor é muito egoísta. Eles tão no terreno deles, não quer saber de participar, não quer colaborar, não quer saber do problema, do buraco da ocupação… Não ajuda a correr com a liderança… Eles só querem saber de encher a igreja pra fazer o nome deles. Ou frequenta a igreja deles, faz o que eles quer, ou eles não querem nem saber!
Para Neuza, a presença das igrejas é geradora de insatisfação e de conflitos, considerando que os pastores não têm compromisso com a ocupação, tampouco contribuem na organização dos processos coletivos necessários para fortalecer a luta pela moradia. Também é perceptível no relato de Neuza a impressão de que as igrejas são espaços que disputam poder com a própria coordenação da ocupação, visto que seus líderes não estimulam a participação no movimento social, reduzem a atenção e atuação apenas a quem frequenta os cultos e, sobretudo, se colocam como orientadores da ação e da visão de mundo de seus fiéis.
Swatowiski e Barbosa (2019), em uma pesquisa sobre a presença de igrejas pentecostais em uma ocupação de movimento de moradia, observaram que a dimensão política da luta por direitos e a dimensão religiosa do pentecostalismo preservam uma relação que varia entre estados de tensionamento, de imbricação e de justaposição. Como em nossos achados, na pesquisa mencionada a igreja tem uma atuação que não se confunde com a do movimento social, dispondo de uma dimensão paralela e particular de engajamento e de participação que, frequentemente, concorre com a participação direta na luta por direitos.
Como sinaliza Martín-Baró (1990), para pensarmos a relação de um espaço coletivo com as necessidades de uma classe social, é relevante refletir sobre os aspectos ideológicos que dão base e orientam a ação dos sujeitos. Nos relatos de Carlos, observa-se que os incentivos à ascensão social mobilizados na/pela igreja não se convertem em uma crítica às questões sociais que forjam a situação da falta de moradia; a “mudança de vida” aparece articulada à perspectiva individual e condicionada à relação com a igreja. Percebe-se também que Carlos valoriza o engajamento em relação à igreja, abstendo-se de mencionar a necessidade de seus fiéis participarem das atividades da ocupação; ao contrário, o entrevistado busca estabelecer uma fronteira entre os espaços baseado no que compreende como moralmente correto e incorreto. Tais compreensões acerca da igreja e da realidade social revelam o compromisso maior com um tipo de ideologia e funcionam como a mediação de interesses sociais não emancipatórios ou que pouco estimulam o desvelamento da estrutura social exploradora.
As rodas de capoeira e o professor Matheus
Em seu primeiro contato com a liderança, Matheus demonstrou o desejo de ensinar capoeira. O convite para a atividade foi realizado durante uma assembleia, como se observa em registro do diário de campo:
Matheus pede o microfone para falar um pouco sobre a capoeira. Ele apresenta a origem da capoeira: uma dança que as pessoas escravizadas criaram para se defenderem. Fala que a escravidão não acabou, que ainda hoje as pessoas são escravizadas, “quando a gente não tem uma casa pra morar, a gente está sendo escravizado”.
As aulas de capoeira foram bem recebidas, a princípio, pelas crianças e adolescentes e, posteriormente, por jovens e adultos. Com o tempo, o espaço adquiriu força e estabilidade na agenda semanal do movimento social, e Matheus passou a ser conhecido pelos demais militantes como “o professor”: “Aqui, eu tenho um respeito muito grande pelo fato de ser professor de capoeira”.
Sobre os efeitos que Matheus acredita que as rodas de capoeira podem ter para quem participa, ele relata:
Eu sempre falo com meus alunos, eu não quero só formar capoeirista, quero formar bom cidadão. As crianças começam aprender percussão, aprende a ter amizades duradouras. A capoeira ajuda a ensinar a comunidade . . . . Não adianta eu chegar, bater no peito: “Ah, eu não dependo de ninguém, eu tenho um bom salário”, você depende, você depende do padeiro, você depende do supermercado pra você comprar a sua alimentação. Então não existe ninguém independente, a gente depende. Sempre depende um do outro e a mesma coisa é a capoeira. Não adianta fazer uma roda e ficar sozinho na roda.
Se eu começar a falar todos os valores [que a capoeira pode transmitir], a gente vai passar a noite falando, mas falo dois que eu prezo: o respeito e a humildade. Respeito porque tenho que respeitar você como ser humano. Tenho que respeitar aquela mulher, que só porque ela é mulher, ela não é mais frágil que eu não . . . . E humildade pra que, em qualquer lugar que a gente chegar, a gente possa ser bem-vindo.
As rodas de capoeira, ainda que não tenham a intenção de promover uma formação crítica que objetive a luta por moradia, possibilitam vivências significativas em termos de criticidade. O convite para participar das aulas feito por Matheus, nesse sentido, foi bastante simbólico, contando a origem da capoeira como uma dança desenvolvida por pessoas negras escravizadas para se defender e abordando as heranças da escravidão nos dias de hoje; elementos de memória histórica que são reafirmados durante a entrevista, quando Matheus reclama do fato de a capoeira ser desvalorizada pela população brasileira: “não valoriza é pelo seguinte: veio de escravo, né? Veio da favela. Veio da senzala”.
Para além da memória histórica, imprescindível à formação crítica na perspectiva de Martín-Baró (2017), são atribuídos às rodas de capoeira sentidos relacionados a “amizades duradouras”, à convivência com as diferenças e à valorização da igualdade. O participante sinaliza que a capoeira é sempre praticada em duplas e em uma roda, de modo que a companhia e a coletividade são constantemente necessárias. O senso de cooperação e de pertencimento por parte das crianças e dos adolescentes se apresenta na receptividade de quem chegou às rodas recentemente, na oportunidade de falar no começo ou no final dos treinos, na interação divertida, entre outros elementos.
Experiências semelhantes, de uso de brincadeiras populares com o intuito de desenvolver posturas de criticidade desde a infância, foram registradas em outros trabalhos. Gorchacov e Guzzo (2002), por um período contínuo, promoveram atividades lúdicas usando brincadeiras com vistas a aprofundar a relação das crianças com o espaço em que viviam e favorecer uma reflexão crítica a respeito das questões sociais que as afetavam. Assim como nas rodas de capoeira, essa pesquisa demonstra a potencialidade da brincadeira e do lúdico como mediadores para o desenvolvimento de criticidade em crianças, como se observou, por exemplo, na maior cooperação nas atividades grupais e no fortalecimento de um sentido comunitário no território.
As rodas de capoeira, pelos elementos vivenciais que promovem, alinhados a uma perspectiva de igualdade e coletividade, contribuem para processos de subjetivação em oposição aos ensinamentos de uma ideologia dominante. Fazem isso considerando o processo de desenvolvimento em que as crianças e os adolescentes se encontram e sem subestimar um senso de cidadania que passa a se constituir desde a infância.
As assembleias e a liderança Neuza
Neuza está envolvida com a luta pela moradia desde o início dos anos 2000. Ela relata que, a partir de 2015, começou a investigar o cumprimento da função social da propriedade em questão, bem como a realizar reuniões de mobilização para concretizar a ocupação da área. Com a efetivação da ocupação, em 2019, tais reuniões se converteram em assembleias e passaram a acontecer em um galpão, no interior do terreno. Neuza compartilha sua concepção acerca das funções de uma assembleia:
A assembleia é pra gente discutir as questões do movimento, o que que pode, o que não pode, ler o regulamento. Para informar sobre a ocupação, sobre a luta. Porque tudo a gente tem que discutir em assembleia. Os moradores têm que saber o que tá acontecendo no processo. Eles têm que tá a par de tudo!
Pelo relato de Neuza, a assembleia objetiva discutir os desafios enfrentados na e pela ocupação, firmar acordos acerca de direitos e deveres coletivos e comunicar os processos jurídicos e burocráticos relacionados ao terreno ocupado. Ao longo das experiências de observação participante nos momentos de assembleia, notamos que diversas pessoas tinham acesso ao microfone e que havia um rodízio significativo de ocupantes presentes no movimento social, de modo a sempre ser necessário retomar acordos e avisos iniciais. Isso pode ser observado na seguinte passagem do diário de campo:
Neuza começa falando das regras da ocupação. Diz que o movimento tem um estatuto que todos devem seguir. Entrega para todos um jornal do movimento cuja manchete é a notícia de um prédio conquistado e reformado através da luta . . . . No microfone, um ocupante dizia que havia pessoas que deixaram a ocupação quando chegou a reintegração de posse e que voltaram agora para ocupação, o que não era justo com quem resistiu desde o início.
De modo geral, a assembleia, nessa ocupação, apresenta uma função fortemente organizativa acerca das atividades cotidianas, das regras a serem respeitadas no espaço e do planejamento para permanecer e conquistar não apenas o terreno, mas a construção de habitações subsidiadas pelo poder público. Constitui-se também como um espaço participativo de discussão de assuntos políticos e de um constante estímulo à luta por direitos fundamentais, contribuindo para o desenvolvimento de uma visão crítica acerca dos processos de exploração e violação de direitos.
Acerca das tentativas de reintegrações de posse, Neuza detalha o contato com a polícia nessas situações:
Um desafio muito grande que eu tenho aqui é com a polícia. Que a polícia vinha pra reintegrar. Quando o policial falou: “vai reintegrar agora!” Eu falei: “não vai!” Eu enfrentei o choque aqui dentro. Falei: “não vai! Eu vou lutar por isso aqui e nós vamos ganhar isso aqui.” Eu sou firme naquilo que eu faço, eu sou firme! Coloca Deus na frente e fala: eu vou conquistar! Aqui nossa luta é luta por moradia.
O contato com o aparato jurídico e a polícia militar nas situações de tentativa de reintegração de posse, ao remontar à memória pungente da cotidiana violência policial em territórios periféricos e contra movimentos populares (Viana, 2018), contribui para dissuadir a participação e o engajamento de parte dos militantes a ponto, inclusive, de fazer com que eles deixem a luta. Ainda assim, a ocupação superou três tentativas de reintegração de posse, todas elas com enfrentamento policial. A coragem de Neuza em tais situações expressa seu compromisso com a luta pela moradia e sinaliza a dimensão afetiva de sua liderança, relativa à confiança e ao otimismo, cuja admiração dos militantes transparece nas assembleias.
Em meio a desafios concretos para preservar a continuidade da ocupação, Neuza se queixa da participação e do engajamento dos militantes na luta pela moradia:
Eu vejo as pessoas muito pobres de espírito. Tudo delas é não lutar! Nem todas… Mas tem morador que eu faço assembleia e eles não vêm, não entram no ritmo! A gente não consegue! É difícil trabalhar na mente da pessoa, é difícil. Eu brigo muito, tem gente que fala: “No meu terreno, da porta pra dentro, quem manda sou eu” . . . . Eles acham que, entrou pra dentro, a casa é deles.
Sobre essa situação, é interessante agregar o relato de Matheus, o professor de capoeira:
Pra gente fazer uma boa comunidade, só depende de nós moradores chegar, conversar, principalmente quando tem assembleia. Mas se tem 200 pessoas aqui na comunidade, aparece 100 [na assembleia], cadê as outras 100? . . . Se a gente tá numa luta que é de todo mundo, se a gente não se unir, eu acho que não tem como ir adiante.
Observa-se nos relatos a interpretação da falta de engajamento de parte dos ocupantes como uma desvalorização de uma perspectiva comunitária em prol de uma lógica individualista. Do ponto de vista de Neuza, o individualismo observado se alia a uma postura de consumo, na medida em que a concessão de um terreno da ocupação a alguém não tornaria essa pessoa, repentinamente, um proprietário, mas um ocupante-militante. A luta pela moradia, que é coletiva e processual por natureza, passa a ser obstaculizada por uma perspectiva individualista e imediatista, cujas bases parecem fazer referência a elementos de uma lógica de consumo e de propriedade privada. Na visão de Milton Santos (1987/2014), essa é uma compreensão amplamente difundida na sociedade brasileira, pois o consumismo, como o fundamento da sociedade atual, aliado à urbanização capitalista, impregna nas subjetividades uma lógica que confunde o direito à moradia com o direito de ser proprietário de uma casa. Tal lógica, além de dissipar qualquer embrião de cidadania, oblitera o desenvolvimento de uma proposta que implique a questão do direito à moradia e à cidade a um debate mais amplo.
Fazer frente à presença de elementos psicossociais provenientes da ideologia hegemônica nas subjetividades dos militantes constitui-se uma tarefa árdua em todas as experiências de luta por direitos (Freire, 2019b). Processo que se expressa quando Neuza se refere ao esforço em “trabalhar na mente” das pessoas com vistas ao engajamento na luta pela moradia.
Eu vejo elas com a mente fechada. É aquilo que ela pensa, ela acha que é aquilo que ela quer e pronto. Eu tento conversar com cada um, eu tento abrir a mente, mas pra abrir aquela mente… Eu sento no meio da rua, eu sou aquela de explicar, conversar… Se for preciso, eu sento três vezes com a pessoa pra explicar que temos que lutar, que a vida tem que melhorar…
Se, por um lado, Neuza é dedicada e persistente em fazer nascer e se desenvolver a capacidade crítica na militância da ocupação, por outro, observa-se certa naturalização dos processos de formação crítica dos membros da ocupação. Frases como “pobres de espírito” e “a pessoa visa muita ignorância” – dita em outro momento referindo-se aos ocupantes – sinalizam a mitificação dos processos psicossociais de constituição de sujeito e visão crítica da realidade, bem como dos aspectos ideológicos responsáveis pela resignação e individualismo relatados como parte da postura dos militantes. Quando Neuza relata buscar “trabalhar na mente da pessoa” por meio de conversas individuais, mesmo que atenciosas e bem-intencionadas, demonstra que a ocupação ainda dispõe de processos coletivos de formação crítica pouco estruturados e sistematizados.
Com base nos relatos apresentados e em nossas experiências de observação participante, foi possível notar que as assembleias dedicam boa parte de seu tempo a solicitar a participação e estimular o engajamento dos militantes; a combater as tentativas de reintegração de posse e investidas policiais; e a lidar com a saída de militantes e a entrada de novas pessoas. Haja vista os desafios que a ocupação tem enfrentado e seu recente tempo de criação, o processo autogestionário desenvolvido até o momento não permitiu a constituição de momentos pedagógicos sistematizados que auxiliassem os militantes a adentrar reflexivamente na realidade concreta vivenciada e desvelar com maior profundidade as camadas e determinantes sociais que fundamentam a violação do direito à moradia digna.
Os processos educativos e a participação coletiva, indicados por Paulo Freire (2019a) como fundamentais à formação crítica para o conhecimento da realidade opressora, apontam a necessidade de se atentar a ambas as problemáticas enfrentadas pela ocupação – o fortalecimento comunitário e as atividades pedagógicas –, pois essa interdependência se constitui como o eixo para o desenvolvimento da capacidade de desvelamento (Freire, 2019a) ou decodificação (Martín-Baró, 1997) da realidade opressora e, consequentemente, da práxis coletiva de luta por direitos. Processos que também são reiterados pela perspectiva de Martín-Baró (2017), para quem a organização popular está articulada à necessidade de conhecimento do passado histórico acerca das problemáticas a se pensar e da prática de classe, como reflexão e ação que parte do reconhecimento coletivo da opressão sofrida na sociedade capitalista.
Rosa e Silva (2015) investigaram as mudanças subjetivas vivenciadas por uma mulher em seu processo de envolvimento com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foi um processo marcado por momentos de formação e estudo, de vinculação afetiva com os demais militantes, de partilha de dificuldades e esperanças cotidianas e de participação nas atividades programáticas do movimento em geral, o que permitiu a ressignificação da política para a participante e a descoberta de suas necessidades como cidadã. Tomizaki, Carvalho-Silva e Silva (2016) argumentam que a participação em movimentos sociais possibilita a experiência de novas relações sociais, de modo que o indivíduo precisa reorganizar os seus princípios, operando uma negociação entre aqueles adquiridos na sua trajetória e aqueles defendidos pelo movimento.
Evidencia-se por tais estudos a complexidade do processo discutido. Ainda que tenha na assembleia sua principal referência de possibilidade, a mudança subjetiva desejada em direção à criticidade inclui uma multiplicidade de momentos que transcendem a própria assembleia e abarcam os processos psicossociais de toda a ocupação, com atividades que envolvem estudos, vinculação afetiva, participação e prática no e pelo movimento social. Como observado nas pesquisas supracitadas, o avanço na formação crítica e o desenvolvimento da práxis coletiva da ocupação na luta pelos direitos violados compõe um longo percurso, de natureza processual e com gradual superação dos desafios concretos que um movimento de moradia em território periférico tem de enfrentar.
Considerações finais
Os processos psicossociais observados no interior da ocupação, a notar pelos principais espaços coletivos e o discurso de cada sujeito que o coordena, viabilizam, ainda que com contradições, interesses sociais específicos e apresentam diferentes compromissos com uma perspectiva individualista ou comunitária, de permanência ou mudança social. Com exceção da assembleia, que, por lidar com uma complexidade maior de processos e tarefas, ainda se encontra em fase de consolidação, a capoeira e os cultos da igreja pentecostal canalizam discursos e práticas cuja proximidade ou distanciamento em relação a uma perspectiva crítica e emancipatória é notável. Enquanto as rodas de capoeira demonstram um alinhamento ao projeto político do movimento social, expresso, principalmente, na e pela assembleia geral, os cultos da igreja pentecostal o desafiam. Observar tais processos no interior de uma ocupação evidencia que a própria formação crítica dessa coletividade, enquanto processo psicossocial, encontra-se em constante disputa. O embate presente na arena que é a sociedade, de modo perspicaz, se presentifica no interior desse movimento social, prejudicando a unidade em torno de seu projeto político, o que também representa uma perturbação da contraposição historicamente encampada pelos movimentos populares ao projeto de dominação hegemônico na realidade social.
A experiência de fazer frente aos elementos ideológicos da ordem estabelecida se caracteriza sempre pela divisão, por uma articulação dialética entre conscientização e fatalismo (Euzébios Filho, 2023; Goes, Ximenes, & Moura Jr., 2015; Martín-Baró, 1990). Contradição que surge singularmente em cada sujeito participante, ora voltada a um sentido de contestação da ordem e em busca de reparação pelas injustiças sofridas, ora por uma tendência que deseja se afastar de uma lógica coletiva emancipatória, impulsionada por um individualismo que se alinha aos interesses das classes dominantes. A contradição que atravessa os sujeitos e se nota nos espaços investigados se processa na ocupação, em nível comunitário, como embate e disputa pela formação crítica dos militantes, a notar o conflito entre Neuza e Carlos, considerando os projetos divergentes que representam (ainda que varie o nível de consciência acerca de tal posição). Pode-se dizer que a canalização de interesses sociais específicos em cada espaço coletivo, o tensionamento comunitário acerca dos projetos de sociedade que estão comprometidos e a disputa pela visão de mundo dos militantes remontam, preservadas as necessárias mediações psicossociais, à própria luta de classes – a favor ou não de uma decodificação e desideologização da ordem social estabelecida.
As possibilidades de crítica estão relacionadas aos processos ideológicos que atuam de acordo com as condições de cada momento histórico (Martín-Baró, 1990). A ideologia dominante, em face do neoliberalismo reinante, produz sutilezas que aprofundam o individualismo e a perspectiva de consumo, além de ser viabilizada por discursos religiosos, como foi o caso observado em nosso campo de pesquisa. Nesse sentido, chama a atenção o crescimento do pentecostalismo entre as camadas populares e suas possíveis penetrações nas organizações comunitárias (Almeida & Svartman, 2025; Swatowiski & Barbosa, 2019). Ainda que esse segmento religioso possa se expressar de diferentes maneiras em cada território, os efeitos políticos veiculados por meio da experiência religiosa pentecostal assinalam uma preocupação para os movimentos populares.
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No original: “Class consciousness is understood to be expressed awareness of personal and social problems, their social roots, the forces impinging upon their solution, as well as one’s active involvement in solving those problems”.
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Ianni Regia Scarcelli
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