Open-access Psicologia da Religião: uma introdução

Atualmente, Psicologia da Religião oferece notável aumento de publicações em revistas dedicadas à disciplina, como também na literatura psicológica geral. Trata-se, quase exclusivamente, de estudos e pesquisas de um tema circunscrito e bem limitado; poucos são, ao contrário, os manuais de introdução abrangentes à Psicologia da Religião enquanto disciplina psicológica estruturada. Uma obra do gênero pressupõe vasto conhecimento e pluralidade de perspectivas, não menos que anos de estudo e generosa disponibilidade para o ensino. Essa introdução, de Geraldo José de Paiva (2022), tem todas as características para responder às expectativas de quantos, há tempos, esperavam um manual de Psicologia da Religião.

O volume, articulado em capítulos, cada qual dedicado a um âmbito de conteúdo e de metodologia específicos, vem enriquecido pelas páginas dos Anexos, que representam algumas das mais relevantes pesquisas publicadas pelo autor: uma espécie de antologia, que, na estruturação do livro, ilustra e sustenta as posições expressas nos capítulos.

Paiva (2022), no primeiro e fundamental capítulo, ilustra conceito, história, objeto e método da Psicologia da Religião e qualifica o pano de fundo e a direção de todo o tratamento, por meio de uma sintética, mas eficaz, argumentação: “A religião é um fato particularmente humano. Daí o interesse pelo que as ciências humanas têm a dizer da religião” (p. 13). Partindo da comparação histórico-crítica com os pais fundadores (em particular William James e Théodore Flournoy), o autor mostra como a especificidade da abordagem psicológica veio se delineando ao longo do tempo, até os mais recentes debates acerca de “que coisa é e que coisa não é a Psicologia da Religião” (Vergote) e das relações entre religião e espiritualidade, que animam a discussão contemporânea. Este primeiro capítulo encaminha para um amplo estudo das teorias contemporâneas da Psicologia da Religião, aqui republicado no Anexo I (pp. 197-228). Um ensaio informado e crítico, que transita da teoria da atribuição de causalidade à psicologia narrativa e à das representações sociais, à psicanálise e à teoria do apego, à psicologia cultural e à psicologia evolucionária da religião. A consciência da especificidade e do limite da abordagem psicológica está sempre presente, ao autor estudar “o psíquico no religioso, e não o religioso no psíquico” (p. 306), e vem reafirmada capítulo por capítulo, desde a formulação dos títulos “Psicologia, Religião e…”.

Os capítulos 2 e 3 aprofundam a psicologia da experiência religiosa e de suas motivações, partindo do clássico estudo de James das várias formas da experiência religiosa e da análise do Sagrado, de Rudolf Otto. O autor se confronta, depois, com o uso e o significado contemporâneo do conceito de “experiência”, hoje caracterizado pela dimensão emocional e individualista. Analisando as origens, finalidades e vantagens psicológicas da experiência religiosa, retoma as motivações frequentemente aduzidas na literatura: o sentido de precariedade, o pensamento da morte, o sentimento de culpa. Mas, além dessas motivações de “carência”, também junta e sublinha a pesquisa positiva de uma resposta à busca de significado último e de sentido para a vida.

O capítulo 4, “Psicologia do desenvolvimento religioso”, oportunamente conjuga as modalidades do desenvolvimento cognitivo com as do desenvolvimento afetivo. Para o primeiro âmbito, segue os estágios do desenvolvimento da inteligência segundo Piaget e alguns de seus continuadores. Quanto à dimensão afetiva, sublinha a obra da psicanalista Ana-María Rizzuto, que, retomando de D. Winnicott o constructo “fenômeno transicional”, elabora o percurso do “nascimento do Deus vivo”. Esse processo inicia-se na fase infantil, a partir das experiências com as figuras parentais, e prolonga-se numa interiorização dos estímulos culturais que acompanham o indivíduo por toda a vida. A importância de estarem as experiências vividas abertas a uma visão religiosa da existência, proposta e guiada, mas não imposta, pelos adultos de referência, encontra expressão no artigo do Anexo V (p. 287-300), que mostra a valência estruturante da educação religiosa.

O capítulo 5, sobre a dimensão social da Psicologia da Religião, abre-se com uma extensa apresentação da literatura a respeito do tema. O autor privilegia a impostação do sociólogo Alfred Schutz, para quem a “realidade por excelência” é a da vida cotidiana, recolhida da forma como é transmitida na metáfora e no símbolo, especialmente por meio da linguagem. Coerentemente, o autor dedica dois parágrafos à especificidade da linguagem religiosa e à realidade psíquica que encontra sua expressão no símbolo. A transcendência da esfera religiosa com respeito à vida cotidiana é radical e supõe o símbolo, que une as experiências da vida cotidiana com uma hierofania (p. 95-96). Esse capítulo encontra sustentação crítica e aprofundamento no Anexo II, que analisa criticamente a tendência difundida na literatura americana de reduzir a alma à mente, e a pessoa ao self. A discussão acerca de Perder e Recuperar a Alma e a metapsicologia do coração deveria induzir os psicólogos da religião a indagar a riqueza denotativa e conotativa da linguagem comum e dos códigos de escritores e artistas.

O capítulo 6 concentra-se na religião vivida na experiência da prática efetiva dos que creem ‒ a oração, o rito litúrgico (diferenciado, atentamente, das formas supersticiosas e mágicas) ‒ e no comportamento ético coerente com a adesão de fé. O tema das relações entre mito, rito e sacrifício ritual é aprofundado por meio da literatura consolidada, enquanto se assinala a recente atenção à questão do perdão e da misericórdia em relação à adesão religiosa.

Dois capítulos são dedicados aos sutis entrelaçamentos psicológicos que correlacionam a religião com a saúde física e o bem-estar mental. O capítulo 7 expõe o influxo positivo da religião, e em geral da espiritualidade, como fontes de bem-estar, segundo uma literatura hoje encontrada com frequência. Mas o autor também está consciente de que algumas formas de religiosidade e práticas espirituais podem estar conexas com o desconforto psíquico, especialmente quando a religião suscita sentimento de culpa ou de inadequação, estresse emocional e obsessão ritualística (cap. 8). O autor reconhece que essas situações psiquicamente disfuncionais são mais frequentes e incisivas na prática cristã vivida. Por isso, propõe uma oportuna distinção entre sentimento psicológico de culpa e culpa religiosa (pecado). Um aprofundamento do problema da origem do mal e das interrogações que emergem também na psicologia social é reproduzido no Anexo IV: O mal está em nós? Em mim? Nos outros? (p. 275-285).

O tema das relações entre religião e ciência e suas diversas epistemologias é rapidamente liquidado em certa literatura com a presunção de inconciliabilidade; por isso, o capítulo 9, que o aprofunda, é esclarecedor. O autor relata aqui o fruto de pesquisas por ele conduzidas várias vezes sobre as relações entre religião e ciência em ambientes de intelectuais e, especificamente, no mundo acadêmico, inclusive com psicólogos. Os cientistas não são por princípio contrários à religião, mas enfrentam a relação religião/ciência de maneiras diversas, a partir não só de reflexões epistemológicas e metodológicas, mas também da vivência e da experiência prática da religiosidade encontrada (p. 153). De outra parte, as pessoas religiosas apresentam uma visão diferenciada da ciência e da relação religião/ciência, em função da religião de afiliação e do nível de adesão, como mostram as extensas pesquisas do autor e de seu grupo de pesquisas do Laboratório de Psicologia Social da Religião, da Universidade de São Paulo.

As relações, fluidas e críticas, entre experiência estética e experiência religiosa também induzem a Psicologia da Religião a estudos, pesquisas e debates. Na literatura, há quem as considera equivalentes e gostaria de juntá-las sob uma genérica “experiência do sagrado”, porém, isso acarretaria o custo da perda da especificidade religiosa da experiência do Transcendente pessoal. No capítulo 10, o autor examina criticamente as diversas posições, mas segue mais de perto uma leitura psicanalítica aplicável, seja à experiência estética seja à religiosa: ambas, mediações entre o mundo subjetivo e a realidade objetiva (a ilusão, no sentido winnicottiano). O capítulo traz uma pesquisa voltada à experiência vivida pelos artistas, em particular escultores. Os autores de artes plásticas entrevistados normalmente não conjugam arte e religião de maneira consciente. No máximo podem reconhecer, em suas obras, uma presença de Deus num nível não consciente, porque “existem regiões de fronteira, de vida e morte, onde reaparecem referências religiosas da infância, da família ou, em geral, da cultura… Os motivos religiosos, os símbolos de várias procedências religiosas, são utilizados sem compromisso” (p. 171).

O capítulo 11, “Psicologia, Religião e Identidade”, elabora a complexa construção de uma identidade psicossocial no atual contexto de pluralismo cultural e religioso. A Psicologia da Religião é chamada a aprofundar a interação pessoal entre pertença sociocultural e elaboração subjetiva das formas religiosas recebidas. Exemplar é, neste capítulo, o estudo de sincretismo e pós-modernidade operantes no encontro entre cristianismo e budismo, posteriormente aprofundado na pesquisa da transformação da identidade religiosa de sujeitos brasileiros de educação católica, tornados adeptos de “novas religiões” japonesas. O tema da identidade psicossocial religiosa e de seu enraizamento na dialética entre imaginário e simbólico é detalhadamente aprofundado na pesquisa publicada no Anexo III, sobre os processos psicológicos de adesão às “novas religiões” japonesas Seicho-no-iê e Perfeita Liberdade.

Do conjunto dos capítulos e dos Anexos se entrevê o longo percurso do autor como psicólogo da religião. Isso é confirmado pelos acenos autobiográficos, quando o autor, ao voltar os olhos a seu itinerário pessoal (Anexo VI, “Um passo atrás: minha caminhada em Psicologia da Religião”, pp. 301-309), oferece uma página da história e das perspectivas da Psicologia da Religião no Brasil. Uma longa caminhada desde aquele primeiro, fortuito contato com um livro de Vergote (depois frequentado no Centro de Psicologia da Religião, de Lovaina), à abertura do primeiro curso acadêmico de Psicologia da Religião na Universidade de São Paulo, aos encontros internacionais, à formação de um grupo de assistentes e colaboradores, hoje pesquisadores estimados internacionalmente. Quanto à impostação geral, o autor pode ser considerado um dos mais fiéis e coerentes discípulos de Antoine Vergote, a quem o volume é dedicado. Algumas escolhas de fundo são abertamente declaradas, entre elas a neutralidade metodológica, recomendada já, em primeiro lugar, por Flournoy, em 1902. A Psicologia da Religião não se pronuncia sobre a existência de Deus, nem sobre a realidade objetiva da relação com Deus; estuda os comportamentos humanos enquanto intencionados para Deus. De resto, o autor, com base em suas específicas competências em Psicologia Social, privilegia o estudo do comportamento religioso comum e cotidiano. É a religião efetivamente vivida pelos fiéis que tem importância para o indivíduo e a sociedade, e por isso é observada pelo estudioso. Com Vergote e outros, o autor divide a convicção de que não se pode estudar a religião “em geral”. A pluralidade das religiões é, de certo, uma riqueza, mas a Psicologia da Religião se interessa pelo homem real, numa situação concreta, num contexto social determinado. Como psicólogo social, o autor sabe que toda forma religiosa é “um complexo sistema de símbolos, ritos, doutrinas e injunções morais” (p. 192). Mas verifica que cada indivíduo, no interior da linguagem simbólica religiosa que lhe é oferecida pela cultura, constrói seu percurso, suas convicções, seu credo. Disso segue o cuidado em confirmar a dimensão quantitativa da pesquisa com a análise qualitativa, reconhecendo, de outra parte, a importância do quantitativo como verificação estendida das intuições colhidas no vivido subjetivo. Como ensinava Vergote, “a vida da pessoa é o melhor experimento” (p. 306). Daí a atenção para as características psicodinâmicas da religiosidade: a falta e o desejo. A linguagem religiosa oferece ao desejo a palavra para sua formulação e, ao mesmo tempo, denuncia seu limite e seu engano inerentes a uma pesquisa assintótica.

Entre os méritos originais deste volume, chama a atenção a integração de perspectivas diversas de estudo e pesquisa. Isso em ao menos dois níveis: o da comunidade internacional dos psicólogos da religião e o das especificidades transculturais na adesão religiosa. O autor participou ativamente do grupo dos European Psychologists of Religion, mais atento a uma consideração “substantiva” da religião (o que é a religião), mas conhece bem a literatura anglo-americana, mais interessada na definição “funcional” (para que serve a religião). Num outro nível, original e inovador, colocam-se as pesquisas sobre o vivido intersubjetivo de pessoas religiosas crescidas no encontro entre a cultura originária japonesa e a adesão ao cristianismo, assim como o estudo de sujeitos cristãos filiados aos novos movimentos religiosos japoneses.

Essa constante atenção à religião comum do sujeito concreto, colhida na especificidade psicodinâmica individual, me parece a chave metodológica de conjunto que subtende este volume. Que também é um testemunho exemplar de um percurso de estudo e de magistério: percurso entrelaçado, porque, como bem pode dizer o autor, “ao longo dos anos fui ampliando e aprofundando pesquisa e docência em Psicologia da Religião” (p. 11).

Referências

  • Paiva, G. J. (2022). Psicologia da Religião: uma introdução São Paulo, SP: Edusp.

Editado por

  • Editor Responsável:
    Ianni Regia Scarcelli

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Fev 2024
  • Aceito
    14 Nov 2024
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