Open-access Eventos climáticos extremos: uma discussão a partir do racismo ambiental e das questões de gênero

Extreme weather events: a discussion based on environmental racism and gender issues

Événements météorologiques extrêmes : une discussion basée sur le racisme environnemental et les questions de genre

Fenómenos climáticos extremos: una discusión desde el racismo ambiental y las cuestiones de género

Resumo:

Este artigo acadêmico explora a relação entre eventos climáticos extremos e desigualdades sociais, com foco no racismo ambiental e nas questões de gênero. O estudo destaca como a mudança climática afeta desproporcionalmente grupos vulneráveis, especialmente mulheres e populações negras e pardas. A pesquisa argumenta que a Psicologia pode desempenhar um papel crucial na mitigação desses impactos, promovendo ações integradas e políticas públicas inclusivas. Enfatiza-se a importância de considerar as questões de gênero e raça nas respostas à mudança climática, reconhecendo o papel central das mulheres na proteção ambiental. O artigo também examina como a Psicologia Ambiental pode contribuir para estratégias de conscientização e educação psicoambiental, visando reduzir o impacto humano sobre o meio ambiente. Por fim, o trabalho destaca a necessidade de ações coletivas e políticas públicas que promovam a justiça climática e combatam o racismo ambiental.

Palavras-chave:
racismo ambiental; gênero; mudanças climáticas; psicologia

Abstract:

This academic article explores the relationship between extreme weather events and social inequalities, focusing on environmental racism and gender issues. The study highlights how climate change disproportionately affects vulnerable groups, especially women and Black and Brown populations. The research argues that psychology can play a crucial role in mitigating these impacts by promoting integrated actions and inclusive public policies. It emphasizes the importance of considering gender and race in responses to climate change, recognizing the central role of women in environmental protection. The article also examines how environmental psychology can contribute to psycho-environmental awareness and education strategies aimed at reducing human impact on the environment. Finally, the work highlights the need for collective action and public policies that promote climate justice and combat environmental racism.

Keywords:
environmental racism; gender; climate change; psychology

Résumé:

Cet article académique explore la relation entre les événements climatiques extrêmes et les inégalités sociales, en mettant l’accent sur le racisme environnemental et les questions de genre. L’étude met en évidence la manière dont le changement climatique affecte de façon disproportionnée les groupes vulnérables, en particulier les femmes et les populations noires et métisses. La recherche soutient que la psychologie peut jouer un rôle crucial dans l’atténuation de ces impacts, en favorisant des actions intégrées et des politiques publiques inclusives. L’accent est mis sur l’importance de prendre en compte les questions de genre et de race dans les réponses au changement climatique, tout en reconnaissant le rôle central des femmes dans la protection de l’environnement. L’article examine également comment la psychologie environnementale peut contribuer à des stratégies de sensibilisation et d’éducation psycho-environnementale visant à réduire l’impact humain sur l’environnement. Enfin, le travail souligne la nécessité d’actions collectives et de politiques publiques qui promeuvent la justice climatique et combattent le racisme environnemental.

Mots-clés:
racisme environnemental; genre; les changements climatiques; psychologie

Resumen:

Este artículo académico explora la relación entre los fenómenos climáticos extremos y las desigualdades sociales, centrándose en el racismo ambiental y las cuestiones de género. El estudio destaca cómo el cambio climático afecta de manera desproporcionada a los grupos vulnerables, especialmente a las mujeres y a las poblaciones negras y mestizas. La investigación sostiene que la psicología puede desempeñar un papel crucial en la mitigación de estos impactos mediante la promoción de acciones integradas y políticas públicas inclusivas. Se enfatiza la importancia de considerar las cuestiones de género y raza en las respuestas al cambio climático, reconociendo el papel central de las mujeres en la protección del medio ambiente. El artículo también examina cómo la psicología ambiental puede contribuir a las estrategias de sensibilización y educación psicoambiental destinadas a reducir el impacto humano en el medio ambiente. Finalmente, el trabajo destaca la necesidad de acciones colectivas y políticas públicas que promuevan la justicia climática y combatan el racismo ambiental.

Palabras clave:
racismo ambiental; género; cambio climático; psicología

Introdução

A mudança climática e seus impactos estão presentes em todo o mundo, mas suas consequências acentuam desigualdades sociais e ambientais já existentes, criando e potencializando novas vulnerabilidades. Eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes, como ocorreu em setembro de 2023, quando uma onda de calor intensa no Brasil escancarou as condições extremas vividas por muitas pessoas. Uma reportagem da BBC (2023) destacou as diferenças nas percepções e vivências do calor por moradores da capital paulista: quanto maior a precariedade das moradias e menor a arborização da região, maior é a sensação térmica.

Outro exemplo marcante ocorreu entre abril e maio de 2024, quando o estado do Rio Grande do Sul enfrentou a maior enchente de sua história, causando impactos diretos e indiretos na vida de milhares de pessoas. Os prejuízos vão além das perdas materiais, atingindo também a saúde mental da população afetada.

Diante desse cenário, este artigo discute a importância da inserção da Psicologia em ações de prevenção e mitigação de riscos, bem como na educação para a resiliência ambiental, considerando o aumento da frequência de desastres relacionados à mudança climática. Além disso, busca explorar os impactos dessas catástrofes sob uma perspectiva interseccional, destacando que as mulheres estão entre as mais afetadas nessas situações extremas.

De acordo com Campos e Pedrosa (2023), nos últimos anos houve um aumento exponencial de desastres socioambientais em países em desenvolvimento, sendo o Brasil o país da América Latina com o maior número de ocorrências. Esse dado evidencia a necessidade de investimentos em ações voltadas à gestão de emergências e desastres, priorizando estratégias de prevenção e mitigação, conforme previsto na Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012, que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei nº 12.608, 2012).

Ao olharmos para essas questões considerando as desigualdades brasileiras é impossível desvincularmos os impactos das mudanças climáticas de uma discussão racializada, visto que comunidades inteiras ficam “fora” das políticas nacionais, um exemplo disto é quando observamos nos noticiários quem são as pessoas mais afetadas pelas fortes chuvas e pelas ondas de calor; dificilmente visualizamos grandes impactos em locais de classe média/alta, isso nos leva à discussão a respeito da justiça climática e do racismo ambiental.

Racismo ambiental e justiça climática

Monteiro, Santos & Souza (2023), afirmam que o termo racismo ambiental surge na década de 1980 nos Estados Unidos, quando estudiosos notam a disparidade nos impactos de desastres ambientais em diferentes grupos, trazendo à tona a necessidade de pensar esse tema de forma interseccional.

O conceito de racismo ambiental refere-se à forma específica de discriminação que

ocorre quando indivíduos ou comunidades racialmente marginalizadas são afetados de maneira desproporcional e injusta por danos ambientais. Esses danos podem incluir a exposição à poluição do ar e da água, o desmatamento, o despejo de resíduos tóxicos e outras formas de degradação ambiental (Monteiro, Santos & Souza, 2023, p.118).

Para além da definição geral, Santos et al. (2016), afirmam que o racismo ambiental é uma forma de violência e opressão que atinge de forma mais contundente grupos sociais etnicamente fragilizados. Essa perspectiva é fundamental para compreender as lutas por reconhecimento de povos e comunidades tradicionais, como os indígenas, quilombolas e ribeirinhos da Amazônia, que são sistematicamente afetados por grandes projetos de desenvolvimento, como hidrelétricas e mineração. Os autores destacam que a noção de racismo ambiental oferece uma linguagem consistente para compreender as injustiças socioambientais e as lutas por reconhecimento desses povos (Santos et al., 2016).

De acordo com de Loyola Hummell et al. (2016) no Brasil esse conceito contribui para os impactos desiguais das mudanças climáticas sobre a população, uma vez que essas comunidades marginalizadas e/ou minorizadas, como mulheres e pessoas pretas e pardas, ficam expostas a pior parte das ameaças impulsionados pela distribuição desigual dos riscos ambientais, por exemplo, não vemos casas deslizando em bairros íngremes de classe média, mas vemos bairros inteiros serem tragados pela terra nas periferias do país, isto não ocorre somente pelo tipo de relevo, mas pelas desigualdades historicamente construídas e pelo investimento público em infraestrutura em um bairro em detrimento do outro.

Na mesma linha, Belmont (2024) afirma que nos últimos anos foi iniciado um debate que propõe como a justiça ambiental deve abrir espaço nas lutas socioambientais, pois as populações que têm sido mais afetadas pelos desastres naturais e pelas mudanças climáticas são principalmente aquelas que estão localizadas em territórios vulneráveis e que por sua vez carecem de uma infraestrutura urbana que garanta o bem-estar habitacional das pessoas que ali residem. Da mesma forma, verificamos que as políticas públicas implementadas pelo governo federal, em vez de ajudarem a mitigar essas dificuldades, realizam ações que promovem a marginalização das populações vulneráveis e, além disso, as respostas a estes eventos muitas vezes são tardias ou, na pior das hipóteses, nunca chegam.

Um levantamento publicado na reportagem Bairros periféricos e de maioria negra são os mais afetados por desastres em São Paulo aponta como distritos da cidade de São Paulo em que há um número maior de população preta e parda sofreram mais com desastres ambientais nos últimos 10 anos (A Pública, 2024), tais informações ressaltam a importância de olharmos para este fenômeno e reconhecermos sua existência, a fim de viabilizar estratégias e políticas públicas que previnam e mitiguem efeitos de eventos extremos, além de criar possibilidades de sanar as problemáticas vivenciadas historicamente por estes distritos.

De acordo com o exposto, o conceito “Racismo Ambiental” é evidenciado estatisticamente em São Paulo, uma vez que as áreas mais afetadas pelas enchentes e deslizamentos estão localizadas em zonas periféricas da cidade, como na Zona Leste. Há, inclusive, alguns setores que foram prejudicados por ações governamentais que buscavam “melhorar” a qualidade de vida dos moradores cujo resultado foi exatamente o oposto. Um exemplo claro disso foi o que aconteceu no Jardim Helena, onde algumas ruas foram asfaltadas e os moradores afirmam que, depois dessas obras, quando chove, a água fica muito mais tempo empoçada, inundando algumas casas em decorrência do desnível deixado pós-obras (A Pública, 2024).

Durante esses eventos, as populações afetadas recebem, ocasionalmente, intervenções de emergência, o que tem conseguido aliviar os efeitos imediatos resultantes desse tipo de evento catastrófico; no entanto, é importante destacar que estas ações não resolvem o problema subjacente, dado que as vulnerabilidades estruturais permanecem ao longo do tempo e, na maioria dos casos, tendem a agravar-se, colocando assim mais pessoas em risco quando ocorre um novo evento.

Dada essa situação, as entidades governamentais são obrigadas a realizar ações oportunas e rápidas para mitigar as causas dos desastres ambientais. Essas intervenções devem ser implementadas junto à população em todas as suas fases para que, além da participação ativa na formulação de soluções, aspectos que estão perdendo valor nos habitantes de territórios vulneráveis possam ser fortalecidos frente ao abandono constante a que foram submetidos durante anos.

Por outro lado, é imprescindível mencionar que o racismo ambiental está muito mais exposto em áreas periféricas do país, como é o caso, por exemplo, da favela de Heliópolis. Para formular um panorama histórico dessa situação, constatamos que os moradores dessa comunidade residiam inicialmente em São Paulo, mas foram desapropriados em abrigos “temporários” com a promessa de serem realocados pela construção de estradas. Essa realocação nunca ocorreu e as pessoas afetadas ocuparam locais, onde construíram suas próprias casas, que muitas vezes encontram-se em más condições, além de expostas a eventos climáticos (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região & Observatório de Olho na Quebrada, 2024).

Aos poucos, o número de habitantes cresceu e famílias de diferentes partes do país que não tinham onde morar chegaram. Essas pessoas passaram, e ainda passam, por muitas adversidades. Da mesma forma, mais pessoas passaram a ver que poderiam ter um lugar para morar com baixo custo, mas o que essas pessoas não sabiam era que ficariam suscetíveis a serem vítimas de desastres ambientais.

É assim que atualmente uma das localidades mais habitadas do estado de São Paulo vive sob constantes ameaças de fortes chuvas levando os moradores que ali vivem à impactos emocionais em decorrência dessas situações, como aponta uma das pessoas à investigação realizada e publicada pelo observatório «De olho na quebrada» desta mesma comunidade, ela afirma: «Acredito que impacta o emocional também, porque a família fica muito ruim quando você vê seus filhos perdidos. Quando você perde coisas que você lutou muito pra ter e às vezes você nem tem muito, e o pouquinho que você tem, isso é perdido...» (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região & Observatório de Olho na quebrada, 2024, p.8). O impacto psicológico dessas situações é tão alarmante e visível, que mesmo nas propostas finais, desta publicação, eles continuam a fornecer atendimento psicológico para aqueles que foram vítimas de eventos climáticos extremos.

Este estudo afirma também que os órgãos governamentais não possuem dados atualizados sobre a população residente no território, o que dificulta a tomada de decisões quanto às ações que devem ser voltadas para a prevenção de desastres ambientais como deslizamentos, enchentes, entre outros; que ocorrem toda vez que há chuvas fortes na região. Além disso, a deficiência nos dados dificulta o avanço de políticas públicas que atendam às reais necessidades presentes no território (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região & Observatório de Olho na Quebrada, 2024).

Embora existam inúmeras razões para evidenciar a importância e a existência das mudanças climáticas no mundo, hoje encontramos grupos de negacionistas que consideram que os eventos ocorridos fazem parte de um “processo normal”, ou seja, quando surge a necessidade de conscientizar as populações sobre a realidade que estamos vivendo e, principalmente, como as atividades que realizamos diariamente podem impactar diretamente no meio ambiente. É evidente que há uma carência de educação ambiental no mundo, principalmente nas áreas rurais ou naquelas com maior índice de vulnerabilidade, isso porque é onde muitas vezes se encontra o maior número de impactos ambientais.

Nesse sentido, verificamos como todas as esferas da sociedade têm influência quando se fala em mudanças climáticas, a começar pelo setor político, uma vez que a concepção que os governantes têm sobre a agenda 2030 ou sobre as próprias mudanças climáticas, dará origem às ações que serão tomadas das entidades territoriais para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, bem como a avaliação atempada dos riscos a que estão expostos os habitantes das comunidades mais vulneráveis e, assim, desenvolver um plano de intervenção viável, ou seja, com etapas e prazos bem delineados, seguido de ações de liderança para melhorar as infraestruturas diretamente relacionadas com as emergências climáticas. Da mesma forma, essas entidades devem promover o desenvolvimento sustentável, para isso não basta apenas conscientizar e educar a comunidade (o que também é importante), é necessária a articulação e o incentivo do setor privado para que as atividades de produção e consumo sejam amigáveis ao meio ambiente.

No setor social, é necessário um maior comprometimento dos moradores para que suas ações sejam voltadas ao cuidado e preservação ambiental, mas que eles também possam incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo e, assim, espalhar a mensagem o máximo possível, as iniciativas comunitárias também são importantes nesse processo, pois têm maior alcance e também tendem a gerar maior mobilização.

A partir do brevemente exposto, vemos que as alterações climáticas são uma realidade que devemos enfrentar urgentemente, começando por reconhecer a sua existência, além de ter consciência dos impactos negativos que as nossas ações têm sobre esta problemática, da mesma forma, devemos promover e adotar comportamentos que permitam a desaceleração dos efeitos negativos e, concomitantemente, desenvolver pesquisas e programas que consigam mitigar seus efeitos.

Meira-Cartea, González-Gaudiano e Gutiérrez-Pérez, (2020, p.269, tradução nossa) afirmam que “a capacidade humana para enfrentar processos de mitigação e adaptação comportamental nas esferas pública e privada diante do aquecimento global constitui uma peça essencial para redirecionar a dinâmica dos problemas ambientais”.

De acordo com o exposto até aqui, pode-se afirmar que a influência social desempenha um papel fundamental nos estudos realizados sobre o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 13, é neste espaço que a psicologia ambiental ganha força porque parte do seu objeto de estudo é o comportamento humano, pois é evidente que há causa das alterações climáticas em suas ações, dessa forma, ao promovermos estratégias de sensibilização e educação psicoambiental, contribuímos para a diminuição do impacto humano no meio ambiente.

Pretende-se, a partir do que foi discutido, explorar os impactos destes eventos extremos nas populações mais vulneráveis ressaltando-se as questões étnicas e de gênero, uma vez que há sólidas evidências de que o maior impacto destas tragédias está posto sobre as mulheres, como apontam alguns estudos (The World Bank Group, 2011; United Nations, 2009; ONU Brasil, 2021), além disso exploraremos como a psicologia tem se estruturado e atuado frente a essas demandas.

A humanidade vem sofrendo com as alterações climáticas que ocasionam fenômenos meteorológicos extremos que podem ser expressos pelas secas, inundações, incêndios, escassez alimentar, etc (United Nations Women, 2023). Todos estes fenômenos ocasionados pela exploração humana e pelo chamado “progresso” marcam

uma nova era que recebeu o nome de Antropoceno, definido como um novo período geológico no qual as rápidas transformações ocorridas no planeta Terra são decorrentes da ação humana [...]. Em uma perspectiva crítica dessa nova era, há a defesa pelo uso da expressão Capitaloceno (Gomide 2021), visto que ocorre em concomitância com o modo de produção capitalista, que promove desequilíbrios na natureza, assim como ocasiona profundos impactos em distintos grupos socioculturais, (re)produzindo gritantes desigualdades geopolíticas e econômicas. (Conselho Federal de Psicologia, 2022, p.12)

Gênero e mudança climática

Diante deste colapso ecológico que vivenciamos entrelaçado com o capitalismo é inevitável vermos as desigualdades sociais e de gênero, que são interligadas, aumentarem. A ONU Mulheres têm apontado os impactos ampliados das questões ambientais nas mulheres, neste sentido é possível considerar que há consequências diferentes nas vidas de mulheres e meninas em relação aos homens e meninos, a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP) vem ampliando as discussões de gênero em suas pautas, uma vez que dados apontam que aproximadamente 80% das migrações relacionadas a desastres e mudanças climáticas, no mundo inteiro, são feita por mulheres, tal informação ressalta a importância da inserção das mulheres na consolidação da agenda climática, contribuindo para estratégias de prevenção e mitigação de situações relacionadas aos eventos climáticos extremos e também para a redução de desigualdades sociais, econômicas e de gênero (United Nations, 2009; United Nations Women, 2023; ONU Brasil, 2021; Mulheres, 2023).

Essa vulnerabilidade, no entanto, não as torna vítimas passivas. Pelo contrário, Ribeiro e Andrade (2025) destacam que “muitas mulheres buscam alternativas comunitárias para o enfrentamento e prevenção de outros desastres, assumindo, muitas vezes, a liderança desses movimentos”. Esse protagonismo, no entanto, frequentemente resulta em uma sobrecarga de trabalho, uma vez que elas acumulam as responsabilidades do cuidado com a família e a comunidade com a luta por seus direitos.

A atuação das mulheres na linha de frente do enfrentamento às mudanças climáticas também é evidenciada no campo da educação. Em sua tese de doutorado, Carvalho (2024) investigou o papel de mulheres educadoras na mitigação dos impactos de eventos climáticos extremos. A pesquisa revelou que 92% das entrevistadas desenvolveram respostas de mitigação e adaptação, e 71,2% criaram propostas educacionais para o enfrentamento da crise climática. As estratégias pedagógicas incluiram a criação de hortas escolares, a promoção de debates sobre consumo consciente e a elaboração de projetos de pesquisa sobre o clima local (Carvalho, 2024).

Dada a complexidade desta temática diversas iniciativas, como algumas das citadas acima, têm sido adotadas, um outro exemplo é o Grupo de Trabalho Gênero e Clima vinculado ao Observatório do Clima que elaborou um infográfico que expõe as especificidades dos diferentes impactos das questões climáticas nas mulheres.

Apontam, neste material, que há algumas mulheres que são mais impactadas que outras, como por exemplo as mulheres negras, indígenas, quilombolas, pobres, chefes de família, agricultoras e trans, pois tendem a viverem em locais mais precários, com trabalhos informais e/ou a depender da terra para seu sustento, esses aspectos, muitas vezes somados, as colocam na linha de frente dos impactos diretos dos efeitos das alterações climática, no entanto a representatividade destas populações nas construções de políticas públicas e tomadas de decisões são ínfimas, ou seja, situações que impactam diretamente suas vidas são, por vezes, aquelas em que são invisibilizadas e silenciadas (Grupo de Trabalho em Gênero e Clima, n.d).

Atrelada as informações discorridas acima, ressalta-se que historicamente a exploração e a extração de recursos naturais é marcada pelo extrativismo colonial do chamado Sul Global e é viabilizado por uma perspectiva patriarcal e racista que atinge especialmente mulheres pobres e grupos racializados por representarem mãos-de-obra mais barata, tais desigualdades sociais e de gênero expõem essas mulheres a maiores riscos socioambientais deixando-as mais vulneráveis, fato que destaca a importância de pensarmos a justiça ambiental de gênero que “busca entender as interações entre a questão ambiental, de gênero e justiça social, sustentando que as questões ambientais, assim como as questões de gênero, afetam de maneira desigual diferentes grupos sociais, levando a uma distribuição desigual de benefícios e ônus ambientais” (Matos, Garcia & Santos, 2023, p.3).

Frente ao exposto é possível visualizar a intersecção entre as questões de gênero e o racismo ambiental definido no início deste trabalho, salientando assim a importância da interseccionalidade nas análises, na construção e execução de políticas públicas, bem como nas propostas de gestão integral de riscos emergências e desastres, uma vez que é esta população a que mais sente e sentirá os impactos das mudanças climáticas extremas caracterizando-se, muitas vezes, como refugiados climáticos (United Nations, 2009; United Nations Women, 2023).

O que pode a psicologia perante os impactos dos eventos climáticos extremos: a potência de estratégias coletivas

A partir do trabalhado até aqui, é possível questionarmos o que pode a psicologia diante dos impactos destes eventos climáticos extremos? É possível pensarmos uma psicologia implicada com ações voltadas a esta temática e seu impacto em relação ao racismo ambiental e sobre as mulheres?

A psicologia como ciência e profissão, regulamentada no Brasil há pouco mais de 60 anos, vem trilhando seus caminhos em direção a uma psicologia socialmente engajada, debruçando-se sobre diversas temáticas da contemporaneidade sempre em defesa dos Direitos Humanos e populações minorizadas. Frente a isso, as demandas que envolvem situações de emergência e desastres ambientais têm ganhado espaço na categoria profissional levando, inclusive, a construção de referências técnicas específicas para a atuação neste campo (Conselho Federal de Psicologia, 2021).

Esta publicação abrange o histórico da área e aponta para a importância da construção de estratégias de Gestão Integral de Riscos que deem conta de abarcar a sociedade civil e o poder público, uma vez que sem a participação da população tornam-se inviáveis propostas efetivas para mitigar os riscos eminentes de um desastre. O Conselho Federal de Psicologia (2021) traz uma relevante conceituação de desastre e a abrangência de seus possíveis impactos, assim como o fato do aumento dos riscos ao negligenciarmos uma situação de potencial desastre. Entende-se desastre:

como uma ruptura do funcionamento habitual de um sistema ou comunidade, devido aos impactos ao bem-estar físico, social, psíquico, econômico e ambiental de uma determinada localidade. Tal evento afeta um grande número de pessoas, ocasionando destruição estrutural e/ou material significativa e altera a geografia humana, provocando desorganização social pela destruição ou alteração de redes funcionais. Os desastres podem provocar medo, horror, sensação de impotência, confrontação com a destruição, com o caos, com a própria morte e\ou de outrem, bem como perturbação aguda em crenças, valores e significados (Conselho Federal de Psicologia, 2021, p.18).

Mesmo com a publicação destas referências técnicas é notório que a área ainda tem potencial para crescer e que deve ganhar mais espaço com os impactos cada vez mais evidentes das catástrofes naturais e/ou causadas pela humanidade, em que salientamos as alterações climáticas e a necessidade de pensarmos estratégias e políticas públicas para garantir o bem-estar biopsicossocial de todas as pessoas. No entanto, diante das imensas desigualdades socioeconômicas presentes no Brasil, podemos questionar se tais políticas de fato são nacionais e se atendem a toda população brasileira, conforme prevê a legislação, ou somente determinadas regiões.

Em linha com as demandas histórico-sociais e da psicologia como ciência e profissão um campo que vem se estruturando desde a década de 1970 na América Latina e no Brasil é a Psicologia Ambiental que se constitui como

uma área interdisciplinar de vasta produção técnica e científica, marcada por experiências de atuação profissional diversificadas. O principal enfoque de trabalho das(os) psicólogas(os) ambientais são as relações pessoa-ambiente, o modo como pessoas pertencentes a diferentes grupos interagem em espaços naturais e constroem seus espaços de vida material e simbólica e, da mesma forma, como tais espaços constituem essas pessoas e grupos concomitantemente (Conselho Federal de Psicologia, 2022, p. 12).

A Psicologia Ambiental como campo de conhecimento e prática, oferece ferramentas valiosas para a compreensão e o enfrentamento dos desafios impostos pela mudança climática. O Catálogo de Práticas em Psicologia Ambiental apresenta uma série de projetos que apresentam a importância da ação comunitária para, entre outras coisas, fortalecer e promover engajamento de diversos públicos, como jovens, mulheres e diversas populações minorizadas e vulneráveis. As experiências, descritas neste catálogo, evidenciam que a Psicologia Ambiental não se limita à produção teórica, mas oferece ferramentas práticas para o enfrentamento dos desafios socioambientais. As intervenções documentadas abordam desde a educação ambiental até a organização comunitária, passando pela promoção da autonomia feminina e pela defesa de direitos. Essa diversidade de ações demonstra o potencial da área para contribuir com soluções integradas que considerem as dimensões psicológicas, sociais e ambientais dos problemas contemporâneos (Conselho Federal de Psicologia, 2022).

Essa perspectiva de psicologia se intersecciona com a psicologia social crítica a qual não é possível ser pensada sem considerar os diferentes fenômenos psicológicos, aos quais se integram às questões socioambientais. Vale ressaltar que se trabalha aqui com a compreensão do conceito de fenômeno psicológico como uma concepção histórico-social da formação do psiquismo humano e não como uma entidade abstrata que está “naturalmente” nos seres humanos, mas sim como algo construído dialeticamente na relação pessoas-ambiente, como debatido por Bock (1997).

Neste cenário, de desastres climáticos extremos, é essencial que se construam ações articuladas que englobem diferentes políticas públicas como: o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) nos quais temos atuações importantes de psicólogas/os

justamente, na composição da rede de cuidados, em intervenções que vão desde a prevenção ao pós-desastre, atuando conjuntamente com diferentes setores. Mais precisamente, desde processos educativos e atenção psicossocial em serviços dedicados a mitigar riscos, prevenir e preparar a população, como também contribuir para seu enfrentamento. Por isso, considera-se que a Psicologia, presente em qualquer política pública, deve, também, estar incorporada às equipes da Defesa Civil como profissional que organiza linhas de cuidado e mobilização comunitária, escuta, acolhe e atua na defesa da população antes (prevenção, mitigação e preparação), durante (resposta) e após (reparação/reconstrução) situações de desastre (Conselho Federal de Psicologia, 2021, p.60).

Desta forma, é necessário olhar para o sujeito histórico-social construído identitariamente em interface com o meio em que vive, ou seja, atuando neste como produto e produtor, sendo assim cabe à psicologia elaborar estratégias, a fim de responder às demandas emergentes da sociedade, mirando sempre na defesa das populações minorizadas e na garantia dos Direitos Humanos, tais iniciativas até podem ocorrer com ações individualizantes, porém é essencial que estas não se sobreponham às intervenções institucionais e grupais, uma vez que, para o enfrentamento dos eventos ambientais extremos é necessário um esforço coletivo (Lane & Codo, 2007; Conselho Federal de Psicologia, 2005).

Considerações finais

Ao longo deste artigo, foi enfatizado como as populações mais vulneráveis são desproporcionalmente afetadas por condições climáticas extremas. Quando a mudança climática é analisada sob a perspectiva de gênero, os dados revelam números alarmantes, cujas raízes estão historicamente ligadas a desigualdades estruturais. Observa-se, também, uma acentuada desigualdade na alocação de poder, funções e responsabilidades na formulação e implementação de medidas para prevenir, mitigar e gerir os efeitos das catástrofes ambientais. Além disso, quando ocorrem mobilizações comunitárias voltadas para a preservação ambiental, as mulheres frequentemente recebem pouco apoio para seu ativismo.

O Banco Mundial (2021) prevê que, até 2050, mais de 200 milhões de pessoas serão forçadas a migrar devido a eventos climáticos extremos. No contexto das crises ambientais, também existem desigualdades na distribuição de funções, o que faz com que as mulheres assumam um papel central no cuidado de pessoas afetadas, dificultando sua própria mobilidade em situações de deslocamento forçado e aumentando sua vulnerabilidade

De maneira semelhante, o relatório “Feminist Climate Justice: A Framework for Action”, da ONU Mulheres, aponta que os impactos da mudança climática podem levar 158 milhões de mulheres e meninas à pobreza e 236 milhões à insegurança alimentar até 2050 (United Nations Women, 2023). Esses dados demonstram claramente o impacto desigual das emergências climáticas e reforçam a necessidade de políticas públicas inclusivas para mitigar tais efeitos. Caso contrário, essas estatísticas continuarão crescendo, agravando não apenas a situação de meninas e mulheres, mas também de todas as populações em situação de vulnerabilidade.

Diante desse cenário, torna-se essencial revisar as concepções sociais sobre a mudança climática e suas consequências, além de combater narrativas equivocadas sobre conceitos-chave relacionados ao tema. Para isso, é necessário desenvolver estratégias pedagógicas que promovam a aquisição de conhecimentos essenciais para lidar com essa crise global, processo que pode ser compreendido como “alfabetização climática”. Essa abordagem tem o potencial de fortalecer a justiça climática, combatendo o racismo ambiental e as desigualdades de gênero, além de garantir melhores condições de vida para as populações mais vulneráveis.

Em relação à atuação da Psicologia, cabe a essa ciência tensionar e avaliar as ações previamente elaboradas, além de contribuir para a construção e implementação de novas políticas públicas que considerem tanto o indivíduo quanto a comunidade. Além disso, é fundamental que a Psicologia amplie seu olhar para os impactos dos eventos climáticos extremos na saúde mental da população, com especial atenção às pessoas minorizadas e vulneráveis.

Por fim, destaca-se que, embora as mulheres sejam as mais afetadas pela mudança climática, elas também lideram grande parte das iniciativas voltadas para a preservação ambiental. Esse dado reforça a importância de ampliar o financiamento para estratégias com enfoque de gênero, priorizando ações lideradas por mulheres. Dessa forma, torna-se urgente que todos os países assumam um compromisso concreto com políticas públicas eficazes que atendam a essas demandas sociais emergentes.

Declaração de disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Gustavo Martineli Massola e Mário Henrique da Mata Martins

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2024
  • Aceito
    11 Nov 2025
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