Open-access Evidências de Validade da Escala de Satisfação de Vida em Adolescentes Brasileiros

Validity Evidence of the Satisfaction with Life Scale in Brazilians Adolescents

Evidencias de Validez de la Escala de Satisfacción con la Vida en Adolescentes Brasileños

Resumo

Este estudo examinou as propriedades psicométricas da Escala de Satisfação de Vida (SWLS) em adolescentes brasileiros. Participaram 361 estudantes do ensino médio, de 14 a 19 anos. A análise fatorial confirmatória (AFC) indicou excelente ajuste ao modelo unidimensional da SWLS. A validade convergente foi investigada por correlações de Spearman com os traços de personalidade e estilos parentais. O Graded Response Model (GRM) avaliou dificuldade, discriminação e curva de informação, demonstrando diferenciação entre níveis de satisfação de vida abaixo do esperado. Uma ANOVA comparou estilos parentais e satisfação de vida dos adolescentes. A SWLS apresentou consistência interna adequada (α = 0,80; ω = 0,82). Observou-se correlações significativas entre satisfação de vida e traços de personalidade. Exigência e responsividade materna correlacionaram-se com a satisfação de vida, principalmente entre adolescentes que residiam com ambos os pais. Esses padrões de correlação alinham-se com a literatura que associa maior responsividade parental e ambientes familiares estáveis à maiores níveis de bem-estar em adolescentes.

Palavras-chave:
escala de satisfação de vida; evidências de validade; adolescentes; personalidade; estilos parentais

Abstract

This study examined the psychometric properties of the Satisfaction With Life Scale (SWLS) in Brazilian adolescents. A total of 361 high school students, aged 14 to 19 years, participated. Confirmatory Factor Analysis (CFA) indicated an excellent fit for the unidimensional model of the SWLS. Convergent validity was assessed using Spearman correlations with personality traits and parenting styles. The Graded Response Model (GRM) evaluated item difficulty, discrimination, and the test information curve, demonstrating differentiation among lower levels of life satisfaction. An ANOVA compared parenting styles and adolescent life satisfaction. The SWLS showed adequate internal consistency (α = 0.80; ω = 0.82). Significant correlations were found between life satisfaction scores and personality traits. Maternal demandingness and responsiveness were positively correlated with life satisfaction, particularly among adolescents living with both parents. These correlation patterns align with the literature that associates higher parental responsiveness and stable family environments with greater well-being in adolescents.

Keywords:
Life Satisfaction Scale; Evidence of validity; Adolescents; Personality; Parental styles

Resumen

Este estudio examinó las propiedades psicométricas de la Escala de Satisfacción con la Vida en Adolescentes Brasileños. Participaron 361 estudiantes de secundaria, entre 14 y 19 años. El Análisis Factorial Confirmatorio (AFC) indicó un excelente ajuste al modelo unidimensional de la escala. La validez convergente se investigó mediante correlaciones de Spearman con los rasgos de personalidad y estilos parentales. El Modelo de Respuesta Gradual (GRM) evaluó la dificultad, discriminación y curva de información, mostrando diferenciación entre niveles de satisfacción con la vida inferiores a lo esperado. Un ANOVA comparó estilos parentales y satisfacción con la vida de los adolescentes. La escala mostró consistencia interna adecuada (α = 0,80; ω = 0,82). Se observaron correlaciones significativas entre la satisfacción con la vida y los rasgos de personalidad. La exigencia y responsividad materna se correlacionaron con la satisfacción, especialmente entre adolescentes que vivían con ambos padres. Estos patrones de correlación se alinean con la literatura que asocia mayores responsabilidades parentales y ambientes familiares estables con niveles más altos de bienestar en adolescentes.

Palabras clave:
Escala de Satisfacción con la Vida; Evidencias de validez; Adolescentes; Personalidad; Estilos parentales

Introdução

A satisfação de vida (SV) pode ser compreendida como a avaliação cognitiva e global sobre aspectos relevantes da vida e faz parte do componente cognitivo do bem-estar subjetivo (Pavot & Diener, 1993). A SV está associada à saúde física e mental das pessoas (Pavot & Diener, 2008; Zullig et al., 2005). A adolescência constitui um estágio crítico do desenvolvimento humano, marcado por profundas transformações físicas, psicológicas e sociais (Linhares & Zacharin, 2022; Rachman et al., 2023; Sârbu et al., 2022). Essas mudanças podem impactar a SV e o bem-estar subjetivo dos adolescentes, tornando essencial o estudo dessas variáveis nesse grupo etário.

Embora a SV tenha sido amplamente investigada em adultos, com instrumentos de propriedades psicométricas adequadas (Anaby et al., 2010; Bai et al., 2011; Berríos-Riquelme et al., 2021; Espejo et al., 2022; Glaesmer et al., 2011; Tomás et al., 2015), estudos com adolescentes ainda são proporcionalmente escassos, especialmente aqueles que empregam medidas com evidências de validade robustas para essa população específica (Isik & Üzbe Atalay, 2019; Kern et al., 2016; Lukoševičiūtė et al., 2022; Stavraki et al., 2022). A Escala de Satisfação com a Vida (SWLS) é amplamente utilizada em diversos países e populações (Diener et al., 1985; Pavot et al., 1991; Sachs, 2003). Porém, no Brasil, não há estudos que explorem esse instrumento com adolescentes. Este estudo pretende endereçar essa lacuna, investigando as propriedades psicométricas da SWLS com adolescentes, com o objetivo de fornecer uma medida breve e válida que possa facilitar estudos epidemiológicos e longitudinais, oferecendo informações sobre o construto que potencialmente podem ser usadas para melhorar as intervenções para esse grupo etário.

A Escala de Satisfação com a Vida (SWLS) avalia o contentamento com a vida a partir de autorrelatos com cinco itens numa escala do tipo Likert de 1 (discordo plenamente) a 7 (concordo plenamente) (Diener et al., 1985). A SWLS avançou os estudos de SV que antes eram conduzidos com medidas de um item, principalmente em populações geriátricas (Lawton, 1975; Neugarten et al., 1961). A SWLS foi traduzida e adaptada para diversas populações em diferentes países. Atualmente, a SWLS destaca-se como o instrumento mais utilizado para medir SV, possibilitando estudos comparativos e interculturais (Diener & Diener, 1995; Olivera-Figueroa et al., 2023). A investigação psicométrica da SWLS no Brasil com universitários mostrou evidências de validade e invariância da medida entre os sexos (Zanon et al., 2014). No entanto, não há estudos no Brasil que explorem esse instrumento com adolescentes.

Satisfação de Vida, Personalidade e Estilos Parentais

A SV dos adolescentes está intimamente ligada à personalidade e aos estilos parentais a que são expostos. Os traços de personalidade envolvem tendências duradouras que se relacionam com diferentes domínios da vida (Diener & Biswas-Diener, 2019). O modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade (Big5) envolve: Extroversão, Neuroticismo, Amabilidade, Conscienciosidade e Abertura à experiência. Extroversão, refere-se ao nível de atividade, necessidade de estimulação social, capacidade de manter-se alegre, a maior experiência de emoções positivas (Dayyan et al., 2022; Ho et al., 2008; Hufer-Thamm & Riemann, 2021; Pang & Wu, 2023). Amabilidade está ligada à empatia e altruísmo. Abertura à experiência diz respeito à busca por novidades. Conscienciosidade relaciona-se à organização e autocontrole. Neuroticismo envolve instabilidade emocional, com altos níveis indicando mais estresse e sentimentos negativos (Diener, 2000). Entre os cinco traços, extroversão e neuroticismo estão correlacionados com a SV (Fowler et al., 2018), enquanto neuroticismo tem relação inversa (Dayyan et al., 2022; Ho et al., 2008; Hufer-Thamm & Riemann, 2021; Pang & Wu, 2023).

Os estilos parentais também se relacionam à satisfação de vida dos adolescentes (Xie et al., 2016). Eles refletem um padrão estável de comportamento parental, combinando exigência e responsividade (MCCOBY, 1983). Existem quatro estilos: autoritativo (muito exigente e responsivo), autoritário (muito exigente e pouco responsivo), indulgente (pouco exigente e muito responsivo) e negligente (pouco exigente e pouco responsivo). O estilo autoritativo está associado a maior satisfação de vida na adolescência (Lavrič & Naterer, 2020). Altos níveis de afeto, comunicação e senso de humor aumentam a SV de adolescentes (Pérez-Fuentes et al., 2019).

Pesquisas indicam que SV, traços de personalidade e estilos parentais estão inter-relacionados (Lawrenz et al., 2020; Magnani & Staudt, 2018). Um estudo com adolescentes chineses indicou que traços de personalidade, exigência e responsividade parental explicam 31% da variação na SV (Xie et al., 2016). Compreender essas relações permite promover desfechos positivos, prevenindo problemas psicológicos e informando políticas de apoio à família.

O objetivo deste estudo foi examinar as evidências de validade e fidedignidade da SWLS em adolescentes brasileiros. Utilizou-se a Teoria de Resposta ao Item (TRI) para complementar a análise da precisão do teste e dos escores dos participantes (Hambleton et al., 2010; Lord, 1952). Além disso, este estudo investiga a relação entre satisfação de vida (SV), personalidade e os estilos parentais em famílias monoparentais, explorando o papel dos estilos parentais na SV dos adolescentes. As hipóteses testadas são: H1: A escala SWLS manterá a mesma estrutura unidimensional que a medida para adultos; H2: A escala SWLS apresentará correlação positiva com traços de personalidade de extroversão e correlação negativa com traços de neuroticismo; H3: Haverá relação entre satisfação de vida e estilo parental autoritativo.

Método

Participantes

Participaram 361 estudantes (71% sexo feminino) do ensino médio de escolas públicas do interior de São Paulo, do período diurno e noturno. Os participantes tinham entre 14 e 19 anos (M = 15,5, DP =1,13), 61% da amostra morava com os ambos os pais e 39% moravam somente com a mãe.

Instrumentos

Neste estudo foram utilizados os seguintes instrumentos:

Questionário sociodemográfico: Composto por itens de informações pessoais do adolescente, como: idade, série que está cursando, com quem mora (se mora com os pais, pais separados, avós ou outras pessoas).

Escala de Satisfação de Vida (SWLS): A SWLS (Diener et al., 1985; Zanon, et al., 2014) é uma escala de autorrelato de cinco itens que avalia SV em geral (e.g., “Na maioria dos aspectos, minha vida está próxima do meu ideal”). Os participantes devem responder a uma escala tipo Likert de quatro pontos variando de 1 (discordo plenamente) até 7 (concordo plenamente). A SWLS apresenta consistência interna aceitável na versão brasileira com adultos (α = 0,77).

The Big-5 Inventory (BFI): A BFI (Roiz Junior et al., 2023) é uma escala de autorrelato de 44 itens que avalia os cinco grandes traços da personalidade: Extroversão (E), Neuroticismo (N), Amabilidade (A), Conscienciosidade (C) e Abertura a experiência (O). Os participantes devem responder os itens numa escala tipo Likert de cinco pontos variando de 1 (discordo fortemente) até 5 (concordo fortemente). A BFP-II apresenta consistência interna aceitável na versão brasileira (Abertura a experiência α = 0,74; Conscienciosidade α = 0,76; Extroversão α = 0,80; Amabilidade α = 0,63; Neuroticismo α=0,82).

Escala de Exigência e Responsividade Parental (EERP): A EERP (Teixeira et al., 2004) é uma escala de autorrelato de 24 itens que avalia a “Exigência” e a “Responsividade materna e paterna” percebidas pelos adolescentes face aos seus pais (e.g., “responsabilizam-me quando faço algo errado”). A EERP clássica define o estilo parental em quatro tipos: autoritário, autoritativo, indulgente e negligente. Os participantes devem responder a escala do tipo Likert de cinco pontos variando de 1 (quase nunca) até 4 (bastante). A EERP apresenta consistência interna aceitável na versão brasileira (α = 0,78).

Procedimentos

Foram observados procedimentos éticos durante toda a condução do estudo, e o projeto foi aprovado pelo Comitê de Pesquisa da Universidade São Francisco. A coleta de dados foi presencial do tipo lápis e papel e realizado por alunos da pós-graduação. Optou-se por dividir a amostra entre os adolescentes que moravam apenas com a mãe (Grupo 1) e adolescentes que moravam com ambos os pais (Grupo 2) para verificar a diferença entre os dois grupos.

Análise de Dados

Para verificar a estrutura fatorial da escala realizou-se uma análise fatorial confirmatória (AFC). A adequação do modelo foi avaliada por meio dos índices de ajuste: Comparative Fit Index (CFI), Tucker-Lewis Index (TLI) e Root Mean Square Error of Aproximation (RMSEA). De acordo com a literatura, valores de CFI e TLI devem ser acima de 0,90, ou preferencialmente, 0,95; já os valores de RMSEA devem ser menores que 0,08, com intervalo de confiança que não atinja 0,10 (Sellbom & Tellegen, 2019). O Diagonally Weighted Least Squares (DWLS) permite utilizar a matriz diagonal de pesos para estimativa dos parâmetros por tratar-se de um estimador robusto para dados categóricos ou ordinais (Rosseel et al., 2012).

A fidedignidade da escala foi avaliada por meio de dois indicadores: alfa de Cronbach (α) e ômega de McDonald (ω) que devem estar acima de 0,70 (Cronbach, 1951; Hayes & Coutts, 2020; McDonald, 1981). Evidências de validade convergente foram examinadas por meio de correlações de Spearman com os traços de personalidade (BIF-II) e com responsividade e exigência (EERP).

Realizou-se também uma aplicação de Teoria de Resposta ao Item, com o método de estimação Graded Response Model (GRM; Samejima, 1969) para avaliar a discriminação e dificuldade dos itens e a curva de informação do teste. O GRM é um modelo de dois parâmetros para itens politômicos ordinais, que fornece dados dos limiares de dificuldade (thresholds) dos itens e a discriminação deles (a). Os limiares representam o ponto em um continuum da variável latente, na qual uma determinada categoria de resposta deixa de ser endossada, em favor da próxima categoria. Isto é, os limiares são os limites dentro das categorias de respostas de itens ordinais. O GRM estima a probabilidade de o respondente pontuar em uma categoria ou nas superiores. Já a discriminação se refere a capacidade do item de diferenciar os indivíduos com diferentes níveis de SV na dimensão latente (Samejima, 1969). Sugere-se que os valores de discriminação (a) entre 0,5 e 1,0 indicam pouca discriminação; 1,0 a 1,5 discriminação moderada e maiores que 1,5 indicam boa discriminação (Yupanqui Lorenzo et al., 2024). O GRM foi escolhido por ser um método recomendado para itens politômicos (Hambleton et al., 2010). Utilizou-se o índice C2, uma vez que esse método foi desenvolvido especialmente para TRI para modelos pequenos, ou seja, em casos em que há poucos graus de liberdade (Cai & Monroe, 2014). O C2 é um modelo híbrido de dois outros modelos M2 (Maydeu-Olivares & Joe, 2006) e M2* statistic (Cai et al., 2023). A adequação do índice de ajuste do modelo pode ser interpretada pelos valores de RMSEA < 0,08, Standardized Root Mean Square Residual (SRMR) < 0,05 (Maydeu-Olivares & Joe, 2014), CFI e TLI com os critérios descritos para os modelos CFA > 0,95 (Yupanqui Lorenzo et al., 2024). O ajuste de pessoas e itens foi avaliado pela Signed x 2 (S_X 2 , (Kang & Chen, 2008). O valor do qui-quadrado estatisticamente significativo indica o desajuste do item (p < 0,05).

Para investigar as diferenças na satisfação de vida (SV) entre os grupos definidos pelos estilos parentais maternos e paternos, conduziu-se uma análise de variância unidirecional (One-Way ANOVA). Nessa análise, os estilos parentais (autoritário, autoritativo, negligente e indulgente) constituíram a variável independente, enquanto a satisfação de vida representou a variável dependente. Importante ressaltar que a variável de satisfação de vida foi padronizada previamente por meio da conversão em escores z. As análises foram conduzidas utilizando-se o software R Studio e os pacotes Lavaan; Psych e Mirt.

Dados Abertos

Os materiais e códigos das análises estão disponíveis a partir de requerimento por e-mail para o autor de correspondência.

Resultados

Estrutura da SWLS

Em relação aos pressupostos da normalidade, verificou-se que os índices de assimetria e curtose variaram de -1 até 1 em quase todos os itens, exceto o último no qual a curtose foi de -1.34. Dessa forma, procedeu-se a análise de Shapiro-Wilk, que indicou uma distribuição não normal (W = 0,98 p = < 0,001).

O resultado da AFC para a estrutura unifatorial para SWLS encontrou um bom ajuste do modelo: χ2 (gl) = 7,77(5), p = 0,16; CFI = 0,997; TLI = 0,995; RMSEA = 0,40 (0 a 0,08). Observou-se que a SWLS apresentou ótima consistência interna (α = 0,80 e ω = 0,82).

O GRM apresentou um bom ajuste geral ao modelo C2* (5) 5, 59, p = 0,34. A partir do C2 obteve-se os demais índices: RMSEA = 0, 01; SRMSR = 0,02; CFI= 0,99; TLI= 0, 99. Os resultados indicam que não há discrepância extrema entre o modelo teórico e o modelo empírico. A fidelidade dos escores dos participantes foi 0,82, considerado aceitável.

O GRM foi utilizado para estimar os limiares de dificuldade (thresholds) dos itens e a discriminação deles (a). Os coeficientes de discriminação e os thresholds podem ser visualizados na Tabela 1. A discriminação dos itens foi adequado apresentando valores acima de 1. O item 3 obteve o maior escore de discriminação (“estou satisfeito(a) com a minha vida”; a = 2,79).

Tabela 1
Limiares, discriminação e índices de ajuste da escala de satisfação de vida produzidos via teoria de resposta ao item

Os itens 1 e 3 apresentaram limiares de dificuldade relativamente baixos, indicando que a maioria dos indivíduos tende a concordar com as alternativas iniciais desses itens. No entanto, ambos exibiram thresholds mais altos em t6, sugerindo maior exigência para concordância nas categorias finais de resposta. O item 5 foi o mais difícil, com os maiores limiares de dificuldade gerais, embora seu threshold em t6 (1,850) não tenha sido o mais elevado entre os itens, indicando que, de modo geral, ele exige mais dos respondentes para gerar concordância. Já os itens 2 e 4 mostraram limiares de dificuldade distribuídos de forma menos homogênea. O item 2, por exemplo, teve o menor valor em t1 (t1 = -3,23), mas valores mais altos em t5 e t6, sugerindo que certos aspectos são mais fáceis, enquanto outros são mais desafiadores para os participantes. Essas variações apontam para diferentes níveis de exigência ao longo da escala de resposta. No que diz respeito aos thresholds dos itens, os padrões de resposta estão de acordo com o esperado, ou seja, à medida que a categoria de resposta da escala aumenta, maior é o nível de traço latente necessário para respaldá-la.

Também é possível visualizar a curva de informação do teste (CIT- Figura 1) que representa a quantidade de informação que a escala pode fornecer sobre o nível de traço latente. A CIT sugere que a SWLS não cobre todo o continuum do traço latente de SV de forma satisfatória. Percebe-se maior quantia de informação em níveis médios e médio-baixos. Contudo, o nível de informação em geral está abaixo do esperado de 10 pontos (Embretson & Reise, 2013). Esses resultados revelam capacidade de diferenciação entre os níveis de satisfação de vida abaixo do esperado em adolescentes.

Figura 1
Curva de informação do teste e erro padrão da Escala de Satisfação de Vida obtidos via teoria de resposta ao item.

Os resultados da análise S_X 2 mostraram que todos os itens tiveram bons ajuste (p > 0,08). Nessa análise o RMSEA indica o tamanho de efeito para o ajuste e é calculado a partir do S_X 2 . Todos os itens tiveram RMSEA < 0,08, demostrando que os itens não possuem resíduos relevantes. Foi utilizado o controle do erro do tipo I utilizando o False discovery rate (FDR; (Benjamini & Hochberg, 1995). Os resultados para cada item também podem ser vistos na Tabela 1.

Evidências de Validade Baseada na Relação com outras Variáveis

As correlações de Spearman observadas entre as escalas consideradas neste estudo são exibidas na Tabela 2. Observa-se que, de acordo com o esperado, foram encontradas correlações significativas com os fatores da personalidade extroversão e neuroticismo. No entanto, é importante notar que, mesmo sendo significativas, as correlações apresentaram magnitude baixa (Adolescentes que moram com a mãe: extroversão r = 0,23, neuroticismo r = -0,35; Adolescentes que moram com ambos os pais: extroversão r = 0,15, neuroticismo r = -0,28). A correlação positiva com extroversão indica que quanto maior a extroversão maior a SV autorrelatada pelos adolescentes. A correlação negativa com neuroticismo sugere que quanto maior os níveis de neuroticismo, menores são os níveis de satisfação de vida em adolescentes (Tabela 2).

Tabela 2
Análises descritivas e correlações entre satisfação de vida, personalidade e estilos parentais

Nas análises para identificar as correlações com a responsividade e exigência parental, foi encontrado correlação significativa apenas com a exigência e responsividade materna no grupo de adolescentes que moravam apenas com a mãe. Além disso, houve correlação positiva tanto com exigência quanto com responsividade materna e paterna no grupo que mora com ambos os pais (Tabela 2). Observa-se que tanto a exigência quanto a responsividade podem estar associados com maiores níveis de SV.

Satisfação de Vida e Estilos Parentais

Para verificar as diferenças entre os estilos parentais maternos e paternos em relação à satisfação de vida, foi realizado uma One-way ANOVA. Anteriormente, foi verificado a normalidade e a homogeneidade dos escores entre os grupos. Testes de normalidade Shapiro-Wilk demostrou que a SV não apresentava distribuição normal para os grupos de estilos maternos: autoritativo (W = 0,95; p = 0,00); indulgente (W = 0,9539; p = 0,01), e obteve distribuição normal para autoritário (W = 0, 98; p = 0,6); negligente (W = 0,97; p = 0,5). O teste de homogeneidade de variância de Levene demostrou que os grupos apresentam homogeneidade de variância (Levene (3) = 1,78, p = 0,14). Em relação ao teste de normalidade da distribuição da satisfação de vida entre os grupos de estilos parentais paternos, demonstrou que os estilos autoritativo (W = 0,96, p = 0,03) e negligente (W = 0,97, p = 0,3) não apresentou normalidade da distribuição. Os estilos Autoritário (W = 0,97, p = 0.56) e indulgente (W = 0,95, p = 0,14) apresentaram distribuição normal. Para os estilos paternos, não houve homogeneidade de variância (Levene (3) = 1,15, p = 0,3).

Por isso, optou-se por realizar procedimentos de bootstrapping (1000 re-amostragens; 95% IC BCa) para corrigir a falta de normalidade da distribuição da amostra e diferença entre os tamanhos dos grupos, também apresentar confiança de 95% para as diferenças das médias (Haukoos & Lewis, 2005). Como os estilos maternos obtiveram homogeneidade de variância e os estilos paternos foram heterogêneos, solicitou-se a correção de Welch para ambas as ANOVAS, visto que esse teste tem bom desempenho tanto para grupos homogêneos e heterogêneos.

Os resultados da ANOVA para os estilos parentais maternos demostraram que há diferença significativa em os grupos (Welch`s F (2; 179, 03) = 19, 03, p < 0,001; Welch’s ω2 0,09). O teste post-hoc de Bonferroni mostrou que há diferença entre os grupos de estilos maternos. Também houve diferença entre os grupos de estilos parentais paternos (Welch`s F (3; 95,87) = 11,947, p < 0,001; Welch’s ω2 0,08). As médias e desvio padrão de SV entre os estilos parentais podem ser vistos na Tabela 3. O estilo autoritativo materno e paterno obetiveram médias de SV mais altas (0,47 materno e 0,54 paterno) e médias mais baixas de SV para o estilo negligente (-0,31 materno e -0,18 paterno). O teste post-hoc de Bonferroni para ambos os estilos maternos e paternos apresentaram uma diferença significativa entre o estilo autoritativo, autoritário e negligente. Não houve diferença significativa entre os estilos autoritativos e indulgente. As diferenças entre os grupos podem ser observadas na Tabela 3.

Tabela 3
Análise descritivas de SV entre os estilos parentais; Teste de post-hoc de Bonferroni com Bootstraping (95% IC Bca)

Discussão

Este estudo examinou as propriedades psicométricas da SWLS em adolescentes. A estrutura interna da escala, avaliada pela AFC, manteve-se unidimensional, com excelente ajuste, confirmando a primeira hipótese. A escala também apresentou ótimos índices de fidedignidade, indicando boa confiabilidade e consistência interna dos escores. No entanto, os procedimentos baseados na TRI indicaram que o instrumento deve ser usado com cautela em adolescentes. Isso porque a SWLS não conseguiu obter muita informação sobre o traço latente, impactando na discriminação da SV. Esse efeito pode ser devido ao tamanho do instrumento, composto por apenas cinco itens (Naveiras & Cho, 2023; Wei et al., 2023).

Foi analisado evidências de validade por meio da correlação com outras variáveis. Observou-se uma correlação positiva entre SV e extroversão, e uma correlação negativa com neuroticismo em ambos os grupos. Apesar das correlações terem sido consideradas fracas, elas se alinham com descobertas de pesquisas anteriores. Em um estudo de longo prazo que acompanhou indivíduos da adolescência à vida adulta jovem, as correlações também foram pequenas. Especificamente, a correlação entre Neuroticismo e satisfação com a vida foi de -0,12 aos 16 anos e -0,20 aos 26, enquanto a correlação entre Extroversão e satisfação com a vida foi de 0,15 em ambas as idades (Gale et al., 2013). Em outro estudo, a correlação encontrada entre Neuroticismo e SV foi r = -0,23 (Hufer-Thamm & Riemann, 2021). Esses achados corroboram a segunda hipótese, mostrando validade convergente dos escores da SWLS. Estudos anteriores realizados em diferentes culturas também encontraram suporte para a validade e fidelidade da SWLS em amostras de adolescentes (Diener et al., 2009; Jovanović et al., 2022).

A responsividade e a exigência também apresentaram relação com a SV. No grupo que morava com ambos os pais, houve correlação entre a exigência e responsividade com SV de ambos os genitores. No grupo de adolescentes que moravam apenas com a mãe, somente a responsividade e a exigência materna apresentaram relação com a SV dos adolescentes.

Os resultados da ANOVA mostraram que o estilo parental autoritativo foi significativamente diferente dos estilos autoritário e negligente, tanto maternos quanto paternos. Porém, os resultados indicam que a h3 não foi plenamente satisfeita, uma vez que os estilos autoritativo e indulgente não tiveram diferenças significativas em relação a SV. A SV em adolescentes pode variar de acordo com o estilo de família em que vive. Na amostra deste estudo, enquanto os adolescentes que moravam com ambos os pais tiveram uma média de SV positiva de 0,16, os 39% dos participantes que moravam apenas com a mãe obtiveram média de SV negativa de -0,14.

Esses resultados estão de acordo com a literatura, que indica que o estilo autoritativo apresenta os melhores desfechos em relação à SV (Gallego et al., 2021; Izzo et al., 2022; Lavrič & Naterer, 2020). Além disso, a SV dos adolescentes ocorre, entre outros fatores, devido à relação positiva com ambos os pais (Nikmanesh et al., 2020).

Porém, o estilo indulgente também parece estar associado a desfechos positivos. Um estudo turco com adolescentes encontrou um resultado semelhante: famílias autoritativas e indulgentes apresentaram maior satisfação com amigos, ambiente e família do que aqueles de famílias negligentes. Não houve diferença significativa entre estilos autoritativos e indulgentes (Cenkseven-Onder, 2012). Outro aspecto psicológico, como a autoestima em adolescentes, também está relacionado a ambos os estilos parentais. Em contrapartida, os estilos negligente e autoritário foram consistentemente relacionados aos menores níveis de autoestima (García et al., 2018). Estudos posteriores devem investigar essas semelhanças. Mesmo que responsividade e exigência parentais estejam relacionadas à satisfação de vida (Tabela 2), os resultados indicam que pais responsivos podem contribuir positivamente para a SV, independentemente do nível de exigência. Isso sugere que a afetividade parental tem um papel crucial na satisfação dos adolescentes.

Os resultados do presente estudo sugerem que a exigência e a responsividade de pais que não residem com os filhos podem ter uma relação menos significativa com a satisfação de vida (SV) dos adolescentes, possivelmente devido a um menor envolvimento desses pais na vida dos filhos. Um estudo com adolescentes filhos de pais divorciados indicou que pais não residentes tendem a adotar estilos parentais mais permissivos e menos envolvidos, o que se associa a práticas menos saudáveis de parentalidade (Bastaits et al., 2015). No entanto, verificou-se que, mesmo quando o estilo parental é permissivo ou autoritário, o envolvimento dos pais ausentes ainda contribui positivamente para a SV dos adolescentes, independentemente do regime de custódia. Assim, o envolvimento e a presença ativa na vida dos filhos parecem ser mais importantes do que o fato de residirem com eles (Satrio et al., 2024).

Direcionamento Futuros e Limitações

Sugere-se que estudos futuros busquem reformular o instrumento e propor mais itens a fim de melhorar suas propriedades de discriminação para produzir informações nos níveis mais extremos do traço latente. SWLS se constitui um importante instrumento para avaliação e comparação transcultural, por isso é importante que o instrumento continue sendo aprimorado. Ainda, considera-se que um avanço proporcionado pelo presente trabalho foi investigar famílias monoparentais brasileiras, principalmente adolescentes que moram com as mães.

Pelo menos quatro limitações devem ser consideradas: Primeira, participaram somente estudantes regulares de escolas públicas. Em pesquisas futuras, sugere-se a comparação de adolescentes de escolas públicas e privadas, considerando questões socioeconômicas. Em segundo lugar, envolve o fato de a amostra ter sido de conveniência proveniente de uma única região do país. Estudos futuros podem envolver participantes de diferentes regiões do Brasil para comprar as especificidades territoriais de cada região. Uma terceira limitação, trata-se de um estudo transversal que inviabiliza inferências de causa e efeito entre as variáveis investigadas, além disso a confiabilidade teste-reteste não foi avaliada para medir a estabilidade dos escores ao longo do tempo. Pesquisas futuras podem investigar a estabilidade dos escores em estudos longitudinais bem como avaliar a invariância estrutural do instrumento para moças e rapazes na adolescência. Quarta limitação, as análises de TRI devem utilizar preferencialmente mais de 500 participantes para produzir estimativas mais estáveis (Zanon et al., 2016). Por isso, sugere-se que, em estudos futuros, seja utilizada uma amostra maior de adolescentes.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa não estão disponíveis.

Referências

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  • Nota dos autores:
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil (CAPES) Código de Financiamento 001.

Editado por

  • Editor:
    Dra. Ariela Raissa Lima Costa

Disponibilidade de dados

Citações de dados

Rosseel, Y., Jorgensen, T. D., & De Wilde, L. (2012). lavaan: Latent Variable Analysis (p. 0.6-19) [Dataset]. https://doi.org/10.32614/CRAN.package.lavaan

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Jul 2024
  • Revisado
    25 Mar 2025
  • Aceito
    28 Mar 2025
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