Open-access Efeitos das mídias sociais no comer transtornado e nos transtornos alimentares: revisão sistemática e metassíntese

Effects of Social Media on Eating Disorders and Disordered Eating: Systematic Review and Meta-Synthesis

Efectos de las redes sociales en la alimentación trastornada y en los trastornos alimentarios: revisión sistemática y metasíntesis

Resumo

Este estudo teve como objetivo sintetizar e reinterpretar os achados de estudos qualitativos primários acerca dos efeitos das redes sociais na saúde mental de pessoas com comer transtornado ou transtornos alimentares diagnosticados. Foi realizada uma revisão sistemática da literatura utilizando a ferramenta SPIDER nas seguintes bases de dados: Web of Science, SCOPUS, PubMed/MedLine, CINAHL, PsycINFO e LILACS. Com base nos dados extraídos de estudos publicados entre 2003 e 2023, após avaliação da qualidade metodológica com base no Critical Appraisal Skills Programme, foi conduzida uma metassíntese operacionalizada por dois revisores independentes. Foram incluídos 14 artigos. A síntese temática resultou em dois temas descritivos e um tema analítico. A influência das mídias sociais sobre indivíduos com comer transtornado ou transtorno alimentar foi corroborada, no entanto os efeitos da exposição às plataformas digitais são mediados pelo funcionamento individual e contexto social dos usuários. Assim, a magnitude dos impactos depende da forma como as mensagens são processadas e interpretadas.

Palavras-chave:
comportamento alimentar; redes sociais; internet (rede de computador); imagem corporal; distúrbios do ato de comer

Abstract

This study aimed to synthesize and reinterpret findings from primary qualitative studies on the effects of social networks on the mental health of individuals with disordered eating or diagnosed eating disorders. A systematic literature review was conducted using the SPIDER tool in the following databases: Web of Science, SCOPUS, PubMed/MedLine, CINAHL, PsycINFO, and LILACS. Based on data extracted from studies published between 2003 and 2023, after evaluating methodological quality using the Critical Appraisal Skills Programme, a metasynthesis was performed by two independent reviewers. Fourteen articles were included. The thematic synthesis resulted in two descriptive themes and one analytical theme. The influence of social media on individuals with disordered eating or eating disorders was supported, however, the effects of exposure to digital platforms are mediated by individual functioning and the social context of users. Thus, the magnitude of the impacts depends on how the messages are processed and interpreted.

Keywords:
eating behavior; social networks; internet; body image; eating disorders

Resumen

Este estudio tuvo como objetivo sintetizar y reinterpretar los hallazgos de estudios cualitativos primarios sobre los efectos de las redes sociales en la salud mental de personas con alimentación trastornada o con trastornos alimentarios diagnosticados. Se llevó a cabo una revisión sistemática de la literatura utilizando la herramienta SPIDER en las siguientes bases de datos: Web of Science, SCOPUS, PubMed/MedLine, CINAHL, PsycINFO y LILACS. Basándose en datos extraídos de estudios publicados entre 2003 y 2023, se realizó una metasíntesis operacionalizada por dos revisores independientes. Se incluyeron 14 artículos. La síntesis temática resultó en dos temas descriptivos y un tema analítico. Se confirmó la influencia de las redes sociales en individuos con alimentación trastornada o con trastornos alimentarios, aunque los efectos de la exposición a plataformas digitales están condicionados por el funcionamiento individual y el contexto social. Por lo tanto, la magnitud de los impactos depende de cómo se procesan e interpretan los mensajes.

Palabras clave:
conducta alimentaria; redes sociales; internet; imagen corporal; insatisfacción corporal; trastornos de la ingestión de alimentos

Introdução

Na contemporaneidade, a ênfase nos discursos e práticas relacionadas ao corpo e à saúde recai, principalmente, sobre aspectos estéticos, associados ao bem-estar e ideais de realização individual (Santos et al., 2019; Silva, Japur, & Penaforte, 2020). Esse viés sociocultural não só é endossado, como maximizado por conteúdos e mensagens compartilhadas nas redes sociais e plataformas digitais, promovendo uma concepção de saúde fortemente associada aos hábitos de consumo de massa. Os discursos midiáticos colaboram para a formação do conceito de “corpo saudável”, calcado em um novo ideal alimentado pela sociedade tecnocapitalista, que visualiza o corpo como maleável e aprimorável por meio de dietas, práticas alimentares, exercícios físicos, substâncias anabolizantes e cirurgias plásticas com fins estéticos (Santos et al., 2019). Esse ideal contemporâneo é influenciado por padrões socioculturais e biotecnológicos que enaltecem a busca da juventude eterna e a ilusão da imortalidade como signos de felicidade (Moraes, Santos, & Leonidas, 2021; Santos, Banuth, & Oliveira-Cardoso, 2016; Santos et al., 2023a, 2023b; Simões & Santos, 2024).

A exposição constante e prolongada às mídias digitais tem sido associada a mudanças substanciais nos comportamentos e hábitos de vida das pessoas, incluindo alterações negativas nos padrões alimentares (Copetti & Quiroga, 2018). Ideais distorcidos de padrões corporais são largamente disseminados nestes contextos, promovendo a exaltação da magreza (De Stefani et al, 2023; Lucena, Seixas, & Ferreira, 2020; Santos et al., 2019; Silva et al., 2020), o que tem gerado a hipótese de que este pode ser um dos fatores contribuintes para o desencadeamento e/ou manutenção do comer transtornado e dos transtornos alimentares (TAs).

O comer transtornado, apesar de apresentar características semelhantes ao espectro de problemas dos TAs, ocorre com frequência e gravidade menores. Os sintomas podem variar desde a restrição da ingestão de calorias e nutrientes até práticas não saudáveis para controle do peso, como fazer jejum mesmo sentindo fome ou substituir refeições por shakes ou suplementos. Os comportamentos alimentares considerados não saudáveis podem ser precursores para o desenvolvimento de TAs (Slevec & Tiggmann, 2011).

TAs são quadros psicopatológicos caracterizados por alterações graves e persistentes dos comportamentos alimentares, que não podem ser atribuídas a efeitos secundários de comorbidades, transtornos de desenvolvimento ou práticas culturais (American Psychiatric Association [APA], 2014). Tais perturbações são consequências de preocupações e pensamentos distorcidos relacionados às vivências do peso, imagem e forma corporal (Leonidas & Santos, 2023). Os TAs são considerados síndromes crônicas, recidivantes e de alta morbimortalidade (Maia et al., 2023c; Manochio et al., 2020). Esses quadros têm etiologia multifatorial, envolvendo fatores do ambiente sociocultural, dinâmica das relações familiares e aspectos de funcionamento da personalidade (Ferreira et al., 2021; Gil et al., 2022; Moura, Santos, & Ribeiro, 2015; Santos & Costa-Dalpino, 2019; Santos et al., 2023; Simões & Santos, 2021, 2022; Siqueira, Santos, & Leonidas, 2020; Valdanha et al., 2013).

Considerando os critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (DSM-5), os principais tipos de TAs incluem: Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), Bulimia Nervosa (BN), Anorexia Nervosa (AN) e Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE). Uma categoria residual, denominada Transtornos Alimentares Não Especificados (TANE), engloba quadros clínicos significativos que não preenchem todos os critérios dos transtornos principais (Maia, Oliveira-Cardoso, & Santos, 2023b). De acordo com Galmiche et al. (2019), os TANE são os mais prevalentes na população, seguidos pelo TCAP, BN e AN. A relação entre a utilização frequente de redes sociais virtuais e o desenvolvimento de sintomas de comer transtornado ou de TAs tem sido extensivamente observada na literatura recente (Copetti & Quiroga, 2018; Lucena et al., 2020; Santos et al., 2019; Silva et al., 2020). As pesquisas destacam que o aumento da exposição às plataformas virtuais está relacionado a maior insatisfação corporal e vigilância constante em relação ao corpo e à alimentação, podendo ser um gatilho ou fator predisponente para comportamentos anoréxicos e bulímicos (Copetti & Quiroga, 2018; Lucena et al., 2020; Moraes et al., 2021; Santos et al., 2019; Silva et al., 2020).

Ademais, pesquisas evidenciam que a Internet pode exercer um papel ambíguo para indivíduos em tratamento para TAs. Alguns espaços disponíveis no ecossistema digital possibilitam a construção de um ambiente no qual pacientes podem compartilhar suas dificuldades e momentos de vulnerabilidade, o que fomenta a sensação de terem seus sentimentos validados, funcionando como fonte de apoio significativa para os usuários de grupos e comunidades online (Kendal et al., 2015; Saffran et al., 2017). Por outro lado, as redes sociais virtuais também são cenários de pressões sociais, intercâmbio de conteúdos nocivos, hostilidades e exposição constante a padrões de beleza culturalmente impostos, que podem agravar a condição sintomática dos usuários mais suscetíveis (Copetti & Quiroga, 2018; King et al., 2019; Lucena et al., 2020; Santos et al., 2019).

Apesar de haver um corpo de conhecimento crescente, os efeitos da exposição a mensagens e conteúdos gerados no ambiente digital sobre o comportamento alimentar ainda são pouco compreendidos, especialmente entre adolescentes e jovens adultos em fase de desenvolvimento. As lacunas do conhecimento justificam a necessidade de novos estudos, lembrando que o uso massificado das redes sociais é um fenômeno recente, porém cada vez mais proeminente no dia a dia, impactando os processos de subjetivação no mundo contemporâneo.

Considerando esses pressupostos, este estudo teve como objetivo sintetizar e reinterpretar os achados de estudos qualitativos primários acerca dos efeitos das redes sociais na saúde mental de pessoas com comer transtornado ou TAs diagnosticados.

Método

Delineamento metodológico

Este estudo consiste em uma metassíntese (Maia et al., 2023a), desenvolvida em conformidade com as diretrizes propostas por Sandelowski e Barroso (2007), que incluem as seguintes etapas: (1) formulação da questão de pesquisa, (2) elaboração da estratégia de busca e seleção criteriosa dos artigos para análise; (3) realização de busca sistemática da literatura, (4) avaliação metodológica dos estudos selecionados, (5) extração dos dados dos artigos, (6) elaboração de uma síntese qualitativa dos achados. Para garantir a transparência e consistência na apresentação dos resultados, o guia Enhancing Transparency in Reporting the Synthesis of Qualitative Research (ENTREQ) foi adotado como referência, orientando a inclusão dos elementos essenciais que compõem a síntese de evidências qualitativas (Tong et al., 2012).

Foram seguidas as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). O PRISMA é um conjunto de diretrizes voltadas ao aprimoramento da qualidade e transparência na elaboração e apresentação de revisões sistemáticas e metanálises.

O protocolo da metassíntese foi registrado no Registro Prospectivo Internacional de Revisões Sistemáticas PROSPERO, CRD42023412229 (National Institute for Health Research, 2011).

Questão de pesquisa e estratégia de busca

Para conceber a estratégia de pesquisa e formular a questão norteadora utilizou-se a ferramenta SPIDER (S = Amostra, Pi = Fenômeno de Interesse, D = Delineamento, E = Avaliação, R = Tipo de Pesquisa), apropriada para pesquisas qualitativas e estudos com métodos mistos, permitindo a realização de uma busca sensível devido ao refinamento dos seus componentes (Methley et al., 2014). Delineou-se a seguinte questão de pesquisa: Quais as evidências qualitativas (R) disponíveis na literatura sobre os efeitos das mídias sociais (PI) na saúde mental (E) de pessoas com transtornos alimentares (S)?

A busca bibliográfica foi conduzida entre 26 de abril e 29 de maio de 2023, em seis bases de dados: Web of Science, SCOPUS, PubMed/MedLine, CINAHL, PsycINFO e LILACS. A seleção dessas bases foi fundamentada em análises prévias de outras metassínteses e revisões sistemáticas, considerando suas características específicas, que abrangem a produção internacional no campo das ciências da saúde, com foco particular na área de saúde mental, incluindo estudos primários, documentos técnicos-científicos que passaram por revisão por pares (Maia et al., 2023a; Matta Simões, Gil, & Santos, 2023).

Os termos de busca e palavras-chave foram adaptados para cada base de dados [Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), Medical Subject Headings (MeSH), APA Thesaurus, CINAHL Subject Headings e SciVal Topics & Topic Clusters]. A combinação de descritores e palavras-chave utilizou operadores booleanos AND / OR. Uma estratégia inicial de busca foi desenvolvida a partir da seleção e otimização dos termos de busca na base de dados PubMed/MedLine “eating disorders” OR “feeding and eating disorders” AND “social media” AND “in-depth interview” AND “mental health” AND “qualitative research”. A estratégia foi posteriormente adaptada para as demais bases, com os ajustes necessários.

Critérios de elegibilidade

Foram incluídos na metassíntese: (1) Estudos qualitativos primários, publicados em português, inglês, francês ou espanhol, sem limite de tempo; (2) Estudos que versaram sobre os efeitos (positivos, negativos ou neutros) das mídias sociais na saúde mental de pessoas com comer transtornado ou diagnosticadas com TAs, como categoria ou subcategoria nos resultados; (3) Pesquisas que incluíram entrevistas na coleta de dados. Foram excluídos: (1) Estudos quantitativos, mistos, secundários ou de revisão; (2) Literatura cinzenta, por não ter o crivo da avaliação por pares; (3) Estudos que versaram sobre redes sociais como sinônimo de redes de apoio ou suporte social fora do ambiente digital; 4) Estudos sobre os efeitos (positivos, negativos ou neutros) das mídias sociais na saúde mental de pessoas com problemas relacionados à autoimagem, sem fazer menção direta ao comer transtornado ou aos transtornos alimentares. 5) Estudos cujo corpus de pesquisa foi composto por conteúdos extraídos do ambiente online (posts, fotos, tweets, blogs, sites, perfis, palavras e termos), sem utilização de entrevistas.

Seleção dos estudos

O programa Rayyan para Revisões Sistemáticas® (Ouzzani et al., 2016) foi empregado para eliminar artigos duplicados, bem como para organizar e eliminar artigos com base nos critérios estabelecidos previamente. A triagem e seleção dos artigos foram conduzidas de forma independente por duas revisoras treinadas (RBM e BBM). Para avaliar a concordância entre juízes e determinar a consistência interna e validade da seleção dos artigos, foi calculado o índice Kappa (Vieira & Garrett, 2005), que resultou em 0,94, indicando uma concordância quase perfeita entre as avaliadoras. O processo de busca e seleção dos estudos aptos para a elaboração da síntese temática é apresentado por meio de um fluxograma, elaborado de acordo com a estratégia PRISMA (Moher et al., 2019), detalhando todas as etapas da revisão até a definição do corpus final de registros.

Avaliação da qualidade metodológica

Para operacionalizar a avaliação da qualidade metodológica dos artigos selecionados, utilizou-se o Critical Appraisal Skills Programme CASP Qualitative Checklist (CASP, 2018). Essa ferramenta contempla a avaliação de todas as categorias de dados qualitativos e consiste em um conjunto de 10 critérios, o que a torna uma abordagem mais acessível para a análise crítica. O checklist utiliza os seguintes critérios: (1) Houve uma apresentação clara dos objetivos da pesquisa? (2) A metodologia qualitativa é apropriada? (3) O desenho de pesquisa é adequada para abordar os objetivos da pesquisa? (4) A estratégia de recrutamento é apropriada aos objetivos da pesquisa? (5) Os dados foram coletados de maneira a abordar a questão da pesquisa? (6) A relação entre pesquisador e participantes foi adequadamente considerada? (7) As questões éticas foram levadas em consideração? (8) A análise dos dados foi suficientemente rigorosa? (9) Houve uma apresentação clara dos resultados? (10) A pesquisa tem relevância e contribui para o conhecimento existente?

A avaliação da qualidade metodológica dos estudos foi conduzida de forma independente pelas duas revisoras que realizaram a seleção dos artigos. Quaisquer discrepâncias identificadas foram objeto de discussão até que o consenso fosse obtido.

Análise dos dados

Para a extração e análise dos dados, empregou-se a proposta metodológica de Thomas e Harden (2008) para elaboração da síntese temática. Esse processo foi conduzido seguindo os seguintes passos: (1) Leitura dos estudos qualitativos para identificação e criação de códigos relacionados aos objetivos da síntese temática; (2) Agrupamento sistemático dos códigos em áreas relacionadas visando à formação de temas descritivos; (3) Desenvolvimento de temas analíticos. Enquanto os temas descritivos mantêm-se próximos aos estudos primários, os temas analíticos representam uma fase interpretativa, na qual os revisores extrapolam os estudos primários para gerar novas construções interpretativas, explicações ou hipóteses, de modo a produzir um conhecimento novo.

O software QDA Miner Lite™ foi empregado para auxiliar na organização dos códigos e temas durante a análise dos dados qualitativos. A utilização de softwares de computador pode facilitar esse método de síntese, tornando o processo mais transparente (Woods et al., 2016). Todas as etapas da análise dos dados também foram conduzidas de forma independente por duas revisoras. Encerrada a última etapa, a síntese temática resultante foi submetida à discussão e validação por parte de três pesquisadores experientes nesse tipo de análise (EAOC, MAS e NGMF).

Resultados

Foram inicialmente identificados 2.532 estudos nas bases de dados selecionadas, dos quais 203 foram excluídos por estarem duplicados, resultando em um total de 2.329 artigos. Os títulos e resumos foram lidos e avaliados de forma independente pelas duas revisoras, seguindo os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Nessa etapa, 2.294 referências foram excluídas, resultando em 35 artigos que foram recuperados e submetidos à leitura na íntegra. Destes, 21 estudos não atenderam aos critérios de inclusão e foram excluídos após minuciosa análise. Como resultado desse processo de refinamento, o corpus de pesquisa foi constituído por 14 artigos. A Figura 1 apresenta o fluxograma do processo de revisão, elaborado de acordo com as diretrizes PRISMA.

Figura 1
Diagrama de Fluxo das Etapas de Busca e Seleção dos Artigos Segundo as Diretrizes do Protocolo PRISMA

Caracterização dos estudos incluídos

Os estudos empíricos incluídos (n = 14) foram desenvolvidos nos seguintes países: Reino Unido (n = 8), Estados Unidos da América EUA (n = 4), Canadá (n = 1) e Nova Zelândia (n = 1). Em relação à distribuição temporal dos artigos, observou-se maior concentração em 2020; os estudos foram publicados em 2003 (n = 1), 2013 (n = 1), 2015 (n = 1), 2016 (n = 1), 2018 (n = 2), 2019 (n = 1), 2020 (n = 5), 2022 (n = 1) e 2023 (n = 1). Os métodos empregados para coleta de dados envolveram entrevistas semiestruturadas (n = 13) e autorrelatos publicados (n = 1). Quanto à análise dos dados, os estudos utilizaram: teoria fundamentada nos dados (n = 3), análise temática narrativa (n = 3), Análise Fenomenológica Interpretativa (n = 3), etnografia (n = 2), análise temática indutiva (n = 1), análise temática de Braun e Clarke (n = 1) e não especificado (n = 1).

Os participantes dos estudos totalizaram 354 pessoas, que referiram sintomas de TAs ao longo da vida, com idades entre 13 e 33 anos. Quatro estudos não discriminaram as características sociodemográficas dos participantes, mas, entre os que apresentaram tais informações, havia 140 mulheres e três homens.

Dos artigos selecionados, seis abordaram pessoas com diagnóstico clínico de TAs e oito entrevistaram indivíduos que se autodeclararam com sintomatologia compatível com o transtorno, mas que não haviam recebido um diagnóstico formal. Esses participantes são classificados como indivíduos com “comer transtornado”.

Avaliação da qualidade metodológica

A avaliação da qualidade metodológica dos estudos selecionados, executada com o auxílio do CASP (2018), permitiu classificar os artigos em categorias. Nesta revisão, 12 artigos se enquadraram na categoria A (Firkins et al., 2019; Gale et al., 2016; Greville-Harris et al., 2019; Hilton, 2018; Hockin-Boyers, Pope, & Jamie, 2020a, 2020b; Mincey et al., 2022; Nikolova & LaMarre, 2023; Saunders, Eaton, & Aguilar, 2020; Smethurst & Kuss, 2016; Williams et al., 2003). A categoria A denota baixo risco de viés - os estudos atenderam pelo menos nove dos 10 critérios avaliados. Dois artigos foram classificados na categoria B, atendendo ao menos cinco dos critérios (Cinquegrani & Brown, 2018; Feuston, Taylor, & Piper, 2020).

A maioria dos estudos examinados apresentou informações elaboradas sobre seus objetivos e a metodologia utilizada. Os artigos detalharam o processo e a robustez da análise dos dados, além de comunicarem de maneira clara os resultados obtidos e as contribuições para a área de estudo. Todos os artigos contemplaram as questões éticas em pesquisas com seres humanos. No entanto, alguns estudos (Cinquegrani & Brown, 2018; Feuston et al., 2020; Firkins et al. 2019; Hilton, 2018; Smethurst & Kuss, 2016) não abordaram de maneira clara a relação entre pesquisadores e participantes da pesquisa, nem detalharam a elaboração dos questionários utilizados.

Síntese dos dados

A partir da análise dos 14 artigos incluídos na metassíntese foram gerados 25 códigos, que foram agrupados em dois temas descritivos e um tema analítico.

Tema descritivo 1: Influência das mídias sociais no desencadeamento e manutenção dos sintomas

Os estudos apontam que a associação entre utilização das mídias digitais e os TAs e problemas alimentares não segue um padrão linear, mas se caracteriza por uma interação circular, semelhante a processos aditivos ou compulsivos (Greville-Harris et al., 2020; Hilton, 2018; Hockin-Boyers et al., 2020a, 2020b; Williams et al., 2003). A pesquisa de Williams et al. (2003) mostra que a intensificação da dependência em relação às mídias digitais se manifestou após o início dos sintomas de anorexia, sendo a rede social empregada com o propósito tanto de perpetuar o transtorno quanto de fornecer orientações para a resolução de problemas preexistentes que contribuíram para o surgimento dos sintomas. Isso é explicitado no excerto de fala apresentado a seguir, extraído do estudo de Williams et al. (2003, p. 130), no qual a participante menciona apreciar programas e séries de televisão que exibem modelos profissionais como protagonistas:

Eu gostava disso porque as mulheres sempre eram salvas no programa por aqueles que elas amavam. Eu fantasiava sobre ser salva da minha situação. Acho que, para mim, era quase como o transtorno alimentar. Era uma forma de escapar da realidade. Era minha maneira de lidar. Não era uma maneira muito eficaz, pois estava apenas ignorando o que estava acontecendo, mas eu acho que, na época, era a única coisa que eu tinha

Pesquisas apontam que o ciclo compulsivo que se estabelece entre o uso de mídias sociais e o aparecimento ou agravamento dos TAs é sustentado por problemas e vulnerabilidades preexistentes (Hilton, 2018; Williams et al., 2003). Essa interação encontra uma espécie de “solução” no controle de peso e do comportamento alimentar alinhado à sintomatologia da anorexia ou bulimia. No entanto, do ponto de vista da saúde, esse controle pode ser considerado inadequado, além de pernicioso. Ao explorar plataformas virtuais, indivíduos com TAs se deparam com instruções que aparentam atender aos seus desejos de perda de peso e obtenção do “corpo ideal”, criando uma ilusão de domínio e distração de seus conflitos e fragilidades emocionais.

Entretanto, essa ilusão de estar no controle da situação, em última instância, logo se desfaz, revelando uma falha na estratégia de resolução de conflitos adotada, que resulta na intensificação da dificuldade em interpretar os sinais que o organismo emite para indicar que algo não vai bem no funcionamento corporal. Esse processo culmina em mais estresse, além de acarretar culpa e vergonha, iniciando, assim, um novo ciclo vicioso (Williams et al., 2003). À medida que as jovens se tornavam mais dependentes do controle da alimentação como uma solução para os desafios da vida, também recorrem com maior frequência às mídias sociais digitais na tentativa de encontrar soluções para seus novos problemas ou fortalecer sua determinação em controlar a alimentação (Hilton, 2018; Williams et al., 2003).

O modelo de ciclo compulsivo também oferece insights para entender por que muitas mulheres expostas à cultura midiática não desenvolvem TAs. Diversos elementos interativos influenciam na configuração de vulnerabilidades diante das mensagens midiáticas, incluindo experiências anteriores que resultaram em sentimentos de culpa e vergonha, dificuldade em lidar com emoções dolorosas, habilidade limitada em interpretar sinais corporais, fragilização de habilidades socioemocionais para enfrentar desafios da realidade na vida cotidiana e insuficiências nos recursos psíquicos para resolver problemas (Greville-Harris et al., 2020; Hilton, 2018; Williams et al., 2003). Um participante do estudo de Gale et al. (2016, p. 431) destacou: “Então, é uma motivação nesse sentido, de que eles chegaram a esse ponto em que a imagem deles está lá porque as pessoas admiram como eles parecem estar determinados, então isso te motiva a ficar assim.”

Nesse sentido, estudos abordaram experiências emocionais que são evocadas durante o acesso às mídias virtuais (Mincey & Hollenbaugh, 2022; Smethurst & Kuss, 2016; Yeshua-Katz & Martins, 2012), tais como: necessidades não atendidas de aceitação social, controle e compreensão, temor do risco de ser influenciado e conteúdos que funcionam como gatilhos desencadeadores de comportamentos de restrição ou compulsão alimentar. Essas experiências podem atuar como barreiras para a recuperação e incentivos para o engajamento em condutas típicas dos TAs, encorajando a competitividade em torno da prática de comportamentos intencionalmente prejudiciais.

Indivíduos entrevistados no estudo de Cinquegrani e Brown (2018) revelaram preocupações de saúde preexistentes que os levaram a investigar possíveis doenças, como intolerâncias ou alergias alimentares, condições que exigem restrições específicas na dieta. Esse processo resultou na exclusão de certos grupos alimentares como parte da estratégia de tratamento: “Alguns de nós decidiram colocar os alimentos certos em nossos corpos para alcançarmos uma verdadeira saúde” (Cinquegrani & Brown, 2018, p. 593). Isso reforçou uma visão maniqueísta, segundo a qual perder peso era considerado bom e ganhar peso era visto como ruim. Os benefícios iniciais para a saúde, tanto para os pacientes quanto para seus familiares, motivaram a continuidade das restrições alimentares (Cinquegrani & Brown, 2018; Greville-Harris et al., 2020; Hockin-Boyers et al., 2020a, 2020b; Smethurst & Kuss, 2016).

Também foi uma competição um pouco divertida para mim. Cada dia era um desafio para comer menos calorias ou ter uma lista [de alimentos] mais curta no meu diário alimentar. Eu também me esforçava para correr um maior número de milhas ou para manter a prancha por mais um minuto ( Cinquegrani & Brown, 2018 , p. 593).

As narrativas dos participantes refletem a crença difusa de que as pessoas devem fazer todo o possível para combater a “doença da obesidade”, considerada tanto um dever público quanto uma responsabilidade pessoal (Cinquegrani & Brown, 2018). A promoção de hábitos alimentares saudáveis e exercícios físicos regulares é uma retórica amplamente difundida, que estigmatiza a obesidade. Esse contexto promove um ambiente social de discriminação e preconceito contra pessoas com sobrepeso, condenadas por supostamente utilizarem a ingestão alimentar como recompensa ou castigo pessoal: “Há uma maneira de usar a comida para se gratificar. Você é uma pessoa melhor porque está comendo assim, ou para se punir, por não permitir a si mesmo comer o que deseja” (Cinquegrani & Brown, 2018, p. 593). Aqueles que adotam práticas que superam o combate à obesidade ficam socialmente limitados, “enquanto aqueles que não seguem essas normas são julgados, como ilustrado por um participante que observou seu colega de quarto comendo Doritos no sofá e não pôde deixar de julgá-lo” (Cinquegrani & Brown, 2018, p. 594).

No entanto, os benefícios percebidos nem sempre se mantinham a longo prazo e as restrições dietéticas por vezes se revelavam difíceis de reverter, mantendo atuante a busca por solucionar os “problemas”. Dessa forma, os participantes destacaram que o compromisso com práticas saudáveis e alimentação restritiva exerceu influência significativa sobre as decisões iniciais de modificar a dieta para hábitos alimentares disfuncionais, levando ao adoecimento psíquico (Cinquegrani & Brown, 2018; Greville-Harris et al., 2020).

Como caloura na faculdade, quando ganhei um pouco de peso comecei a contar calorias e a ajustar minha dieta. Transitei de vegetariana para vegana. Depois disso, passei a evitar glúten para aprimorar ainda mais minha dieta. Em seguida, decidi comer apenas alimentos crus e também parei de consumir carboidratos e açúcar. Eventualmente, os vegetais foram a única coisa que sobrou (Greville-Harris et al., 2020, p. 1696).

A ampla divulgação, nas mídias digitais, de informações de saúde inadequadas e a intensa comparação social nas redes sociais foram fatores apontados por usuários como desencadeadores de seus problemas alimentares (Moraes et al., 2021; Moraes, Santos, & Oliveira-Cardoso, 2024). As comunidades pró-TAs, também conhecidas como pró-Ana e pró-Mia, são grupos online, fóruns, blogs, redes sociais ou outros espaços virtuais onde pessoas com TAs, especialmente anorexia, reúnem-se para compartilhar experiências, dar e receber apoio e dicas e, em alguns casos, promover comportamentos relacionados ao transtorno. Essas comunidades podem ser extremamente prejudiciais à saúde física e mental dos usuários (Fettach, & Benhiba, 2020; Firkins et al., 2019; Gale et al., 2016; Sukunesan, Huynh, & Sharp, 2021; Yeshua-Katz & Martins, 2012).

Com frequência, comunidades pró-anorexia distorcem e romantizam a anorexia, retratando-a como um estilo de vida. Adeptos desses grupos e comunidades online adotam estratégias, como restrição alimentar severa, excesso de exercícios físicos, abuso de laxantes e vômitos autoinduzidos. Uma estratégia comumente destacada nos grupos pró-TAs inclui a tentativa de parecer saudável frente às pessoas externas à sua bolha online, escondendo suas dificuldades com a alimentação (Cinquegrani & Brown, 2018; Gale et al., 2016; Greville-Harris et al., 2020): “Esses sites meio que dão dicas de como enganar as pessoas, fazê-las pensar que você está melhorando, apresentando uma fachada, quando na verdade você não quer se recuperar, mas deseja fazer as pessoas acreditarem nisso” (Gale et al., 2016, p. 430).

O cenário pode ser agravado pela confusão acerca do diagnóstico e pela falta de percepção social que permita o reconhecimento de um TA. Muitas pessoas explicaram como a Internet, as redes sociais e outras mídias de comunicação digital normalizavam a ideia do que é fazer uma “desintoxicação alimentar”, que consiste basicamente em restringir e eliminar alimentos do cardápio, o que acaba fortalecendo e agravando processo de adoecimento (Cinquegrani & Brown, 2018; Gale et al., 2016; Greville-Harris et al., 2020; Hockin-Boyers et al., 2020a, 2020b). Um participante da pesquisa de Greville-Harris et al. (2020, p. 1697) ponderou: “Acho que, para um observador externo, eu parecia realmente saudável, em boa forma, preocupado com minha dieta... Mas, mentalmente, eu me preocupava constantemente com o que eu comia”.

Participantes descreveram como seus hábitos alimentares se tornaram prejudiciais, uma vez que reforçavam um impulso punitivo em busca da perfeição e do controle. Isso resultava em um ciclo compulsivo de medo e evitação, que perpetuava e exacerbava ainda mais seus sintomas. Algumas pessoas afirmaram a necessidade de serem “perfeitas” e manterem o controle a todo custo, o que as levava à busca obsessiva por padrões corporais cada vez mais exigentes e irreais. Consequentemente, adotavam restrições alimentares severas e a prática de exercícios físicos extenuantes e debilitantes (Cinquegrani & Brown, 2018; Greville-Harris et al., 2020; Hockin-Boyers et al., 2020a)

Para essas pessoas, as regras autoimpostas em relação à alimentação e atividade física eram utilizadas como mecanismos de enfrentamento para se sentirem seguras, especialmente quando outras áreas da vida pareciam fora de seu alcance. Os entrevistados explicaram que o objeto do controle podia variar e, portanto, as regras alimentares podiam parecer arbitrariamente selecionadas, mas permaneciam consistentes por servirem ao mesmo propósito, proporcionando uma sensação generalizada de controle em diversas áreas da vida (Gale et al., 2016; Greville-Harris et al., 2020; Williams et al., 2003), como ilustra o seguinte excerto: “Eu não sabia que substituiria a contagem de calorias por uma obsessão por baixo teor de gordura, que mais tarde substituí por várias aversões alimentares, que transferiram a sensação de controle de uma coisa para outra” (Greville-Harris et al., 2020, p. 1698).

Participantes identificaram como sua alimentação desequilibrada se tornou problemática por ter corroborado um impulso punitivo por seu forte anseio de perfeição e controle, o que levou a um ciclo confirmatório de medo e evitação que manteve e agravou ainda mais seus comportamentos alimentares disfuncionais (Gale et al., 2016; Greville-Harris et al., 2020; Hockin-Boyers et al., 2020a, 2020b). Nos referidos estudos, alguns participantes descreveram, posteriormente, que sua obediência estrita às regras que eles próprios se impunham havia proporcionado um falso senso de controle, pois essas regras acabaram por controlá-los. Para muitos, a adoção de padrões implacáveis e a autocrítica exacerbada resultaram em uma relação punitiva consigo mesmos e com seus corpos: “Eu não sabia mais como era o meu corpo ‘natural’, porque eu o havia manipulado por tanto tempo... eu o tinha maltratado, falado mal dele, e o havia levado além de seus limites.

Eu o tinha privado. Eu o tinha punido” (Greville-Harris et al., 2020, p. 1698).

Tema descritivo 2: Potenciais usos benéficos das mídias sociais digitais

Os participantes dos estudos que compuseram essa metassíntese conceberam as plataformas de redes sociais digitais como um investimento em si próprios, de cunho pessoal e político. Apesar do aparente orgulho expresso na ideia de que utilizavam as redes sociais como espaços saudáveis, interligados e socialmente conscientes, os indivíduos entrevistados deixaram claro que esse processo foi caracterizado por uma série de tentativas e por um aprendizado progressivo. Em uma analogia ao princípio das vacinas, parece que as mulheres precisaram, pelo menos, de uma exposição limitada a afetos negativos para poderem decidir se proteger contra essa influência perniciosa (Hockin-Boyers et al., 2020b). É relevante pontuar que alguns participantes também conceberam o ato de desengajamento (“corte digital”) como uma habilidade que acreditavam estar ao seu alcance: “Eu sou muito boa em parar de seguir” (Hockin-Boyers et al., 2020b, p. 14). Essa atitude também foi refletida em outra fala destacada pelo mesmo estudo:

Acho que, em termos de prejuízos, há muitos coaches que decidem vender programas de fitness e isso pode ser muito frustrante. Mas acho que qualquer prejuízo das redes sociais não é intencional. [...] Acho que, em termos de pessoas individuais, há pessoas absolutamente brilhantes e, contanto que você consiga se lembrar exatamente por que está lá e qual é o seu propósito e quais são seus objetivos, consciente de que você não é essa pessoa, você não deve aspirar a ser essa pessoa, nem o estilo de vida dela, nem ter a aparência dela. Não há necessariamente nenhum aspecto negativo. Só é realmente negativo se você for muito facilmente influenciável ( Hockin-Boyers et al., 2020b , p. 14).

Os relatos das pesquisas evidenciam a delicada fronteira entre os efeitos da exposição às mídias sociais poderem ser benéficos ou prejudiciais: “É uma linha bem tênue entre o [Instagram] ser benéfico ou prejudicial” (Nikolova & LaMarre, 2023, p. 391). O uso frequente dessas plataformas pode desencadear e agravar sintomas de TAs, mas também pode atenuar os impactos dessas experiências, desempenhando frequentemente ambos os papéis de forma concomitante (Nikolova & LaMarre, 2023). Os participantes dos estudos afirmaram que a função das plataformas digitais em suas vidas variou ao longo do tempo, sendo perigosa durante a fase inicial da recuperação do TA e, posteriormente, útil quando perceberam estar mais maduros e podendo usar de seu discernimento para decidirem se certos conteúdos poderiam desencadear reações negativas, optando por evitá-los: “Passa a ser uma reflexão em que você pensa: ‘Na verdade, isso vai funcionar como um gatilho, então não vou seguir esse conteúdo no Instagram’” (Nikolova & LaMarre, 2023, p. 391). Isso mostra a capacidade desses indivíduos de exercer sua autonomia e de tomar decisões que promovem comportamentos saudáveis (Firkins et al., 2019; Nikolova & LaMarre, 2023).

Foram identificados dois principais benefícios da prática de compartilhar o que se vive nas mídias sociais: catarse e apoio social. Expor seus pensamentos particulares a uma audiência de apoio permite que os participantes encontrem uma “válvula de escape”, assim como escrever sobre seu TA em um blog ajuda a melhorar seu estado de humor, uma vez que, ao organizarem seus pensamentos por escrito, encontram algum alívio para suas inquietações (Yeshua-Katz & Martins, 2012). Indivíduos que experimentavam falta de compreensão em seu ambiente familiar afirmaram que recorriam à Internet em busca de apoio social de pessoas que vivenciam experiências semelhantes (Yeshua-Katz & Martins, 2012). De acordo com esses autores, a maioria dos participantes iniciou a publicação de seus blogs com o intuito de obterem apoio emocional e reconhecimento pessoal, que percebiam como ausentes em seu meio offline, uma vez que suas interações com familiares e amigos foram descritas como tensas, já que estes não “compreendiam” sua situação. Assim, relataram que se conectam a uma comunidade virtual relacionada ao assunto com o propósito de obterem apoio social e validação, afirmando que, no ambiente online, recebem suporte caracterizado por empatia, compreensão e incentivo à melhora (Yeshua-Katz & Martins, 2012).

Eu não recebo muito apoio de amigos e da minha família [...]. Minha mãe me chama de gulosa quando eu tenho compulsão alimentar, e meu namorado me elogia, pois não percebe que isso faz parte do transtorno. No entanto, no online, outras pessoas me dizem que não é o fim do mundo, elas dizem coisas encorajadoras que me impedem de querer induzir o vômito ou me machucar, e eu sei que todos elas me entendem e já estiveram lá. Isso me dá esperança de que posso superar a compulsão alimentar ( Yeshua-Katz & Martins, 2012 , p. 504).

Além disso, os participantes afirmaram que se utilizavam das mídias sociais como um “diário” (Feuston et al., 2020; Yeshua-Katz & Martins, 2012). Conforme esses autores, esse tipo de postagem, com notas autobiográficas, influencia o modo como as pessoas pensam sobre si mesmas. As redes sociais fornecem um espaço de livre expressão e armazenamento, que pode ser revisitado e utilizado como recurso para propiciar reflexões, a curto e longo prazo. Este tipo de conteúdo tem potencial benéfico, visto que, durante o processo de recuperação, participantes usaram as postagens antigas como referência do progresso que já tinham obtido em relação à sua condição anterior, tornando mais concreta e evidente sua melhora:

Lembro-me de que costumava postar muitos pensamentos intrusivos e, ao passar pelo processo de recuperação, comecei a ter muito menos desses pensamentos. E há muitos momentos em que você pensa: “Estou em um lugar muito ruim?” E então você volta e olha para isso e percebe: “Não estou tendo 50 pensamentos obsessivos hoje sobre precisar me pesar”. Posso ver ativamente como isso mudou ou até mesmo, na época, perceber como piorou. Isso foi realmente útil para mim logo quando comecei a me recuperar ( Feuston et al., 2020 , p. 11).

As plataformas sociais parecem facilitar o acesso a pessoas que pensam de forma semelhante, de maneira que isso pode ser útil para promover saúde psíquica:

Um aspecto-chave positivo é a conexão com outras pessoas. Pessoas com mentalidade semelhante, então isso proporciona um senso de comunidade. Outras pessoas, que tiveram uma experiência semelhante à minha, e cujo ponto de vista ou visão de mundo se alinha com a minha ( Nikolova & LaMarre, 2023 , p. 392).

Assim, as mídias sociais virtuais podem ser uma via interessante para melhorar a comunicação entre pessoas com corpos diferentes e contranormativos:

Através das redes sociais, estou aprendendo a falar sobre essas questões. O que elas fizeram foi me dar as palavras para expressar o que eu já sabia, mas não sabia como expressar. Coisas como: “a gordura simplesmente é” e também coisas como “a neutralidade do corpo”. Isso me ajudou a expandir como eu uso a linguagem em relação aos corpos e com outras pessoas que usam uma linguagem que, para mim, é problemática, o que me deu ferramentas para eu questionar ou orientar com muita delicadeza os outros quando ouço isso ( Nikolova & LaMarre, 2023 , p. 392).

Segundo os participantes de alguns dos estudos revisados, o uso das mídias sociais para compartilhar sentimentos exigiu a adoção de precauções para que eles pudessem comunicar de forma segura sobre seu transtorno, como o uso de apelidos que asseguravam o anonimato. Isso é percebido como relevante, uma vez que eles discutem tabus presentes em seu ambiente offline, compartilham suas experiências e trocam confidências sobre seus sentimentos, como vergonha e temor de desaprovação social (Feuston et al., 2020; Nikolova & LaMarre, 2023; Yeshua-Katz & Martins, 2012).

Os participantes também relataram o desejo de educar e encorajar outras pessoas a compreenderem o seu problema, como uma forma de lidarem com o transtorno. Relataram que começaram a postar conteúdos “como uma forma de conversar com pessoas que entendem” (Yeshua-Katz & Martins, 2012, p. 504) e expressaram sua motivação para combater mensagens que acreditam não retratar com precisão sua condição de adoecimento, afirmando que publicam em seus perfis para “contar como é” (Yeshua-Katz & Martins, 2012, p. 504) e “se livrar da vergonha e abrir os olhos das pessoas” (Yeshua-Katz & Martins, 2012, p. 504):

Para pessoas que não têm um transtorno alimentar, isso pode fazê-las perceber que não é o que todos pensam. Não é uma escolha, não pode ser glamourizado, as pessoas morrem por causa disso e estamos cientes disso. Sabemos que estamos nos prejudicando e não importa quanto peso perdemos, não vamos ficar felizes ( Yeshua-Katz & Martins, 2012 , p. 504).

Tema analítico: Os dois lados da mesma moeda

De acordo com os estudos analisados, as mídias sociais têm um significado ambivalente para as pessoas que se encontram em tratamento para TAs. Isso ocorre porque algumas redes sociais virtuais oferecem a possibilidade de se criar um espaço no qual é aceitável compartilhar dificuldades e momentos de vulnerabilidade, o que promove a sensação de validação dos sentimentos e o acesso a um apoio sólido. Por outro lado, essas mídias também constituem um ambiente onde prevalecem pressões sociais, hostilidade e uma exposição constante a padrões rígidos de beleza, que podem agravar os sintomas de pessoas vulneráveis. Essas plataformas frequentemente impõem a expectativa de que os usuários estejam constantemente se esforçando para se tornarem versões aprimoradas e mais bem-sucedidas de si mesmos, resultando em uma abordagem contínua para uma suposta “melhoria” do corpo que exige ajustes constantes e cada vez mais disfuncionais.

A integração dos temas descritivos evidencia que a influência perniciosa exercida pelas mídias sociais sobre indivíduos vulneráveis aos TAs é incontestável. No entanto, é importante ponderar que o impacto desencadeado pela utilização das plataformas virtuais é mediado pelos recursos psíquicos dos usuários. Compreende-se, assim, que o efeito supostamente induzido pelas mídias emerge, na verdade, da maneira como as mensagens são absorvidas, interpretadas e manejadas pelos usuários das redes: “Você pode remover as redes sociais se se esforçar o suficiente, mas isso nunca, jamais impedirá ou resolverá o problema de um transtorno mental, que é a razão de eles existirem em primeiro lugar” (Hilton, 2018, p. 867).

Nesse sentido, é relevante observar que uma mesma mensagem pode ter seu conteúdo interpretado e utilizado de diferentes formas, dependendo de como se encontra o mundo interno e como está estruturada a personalidade da pessoa que teve contato com ela. Participantes de diversos estudos (Firkins et al., 2019; Hilton, 2018; Smethurst & Kuss, 2016; Williams et al., 2003) relataram que, ao lerem postagens relativas a alertas e prevenção de TAs, faziam uma utilização oposta à pretendida, incorporando os conteúdos como inspiração, ou seja, tomando-os como modelos a serem seguidos para perpetuar estratégias de manutenção dos sintomas dos TAs: “Se uma revista dissesse: ‘A bulimia arruinou minha vida’, eu leria a matéria apenas para obter ideias. Eu queria pegar as ideias das pessoas e descobrir o que Karen Carpenter fez, porque eu preciso fazer a mesma coisa” (Williams et al., 2003, p. 129).

Este tema analítico também revela que o uso que a pessoa com TA faz das mídias sociais pode variar ao longo do tempo, conforme seu momento de vida e também de acordo com seu estágio do transtorno, de modo que essa questão não se restringe apenas à divisão bipolar de malefícios ou benefícios. Isso reforça a importância de não se fazer uma interpretação linear sobre as repercussões das mídias sociais sobre indivíduos com TAs:

As pessoas não desenvolvem um transtorno alimentar a partir de um site. Transtornos alimentares são doenças mentais que não ocorrem da noite para o dia. Às vezes levam anos para se desenvolverem. Agora, a pessoa pode aprender dicas e truques aqui? Claro que sim, mas ela não pode desenvolver um transtorno alimentar apenas visitando esse site ( Hilton, 2018 , p. 868).

Discussão

As redes sociais virtuais e os websites pró-TAs parecem oferecer uma sensação de apoio, validação e conforto para aqueles que enfrentam um TA, porém, ao mesmo tempo, podem reforçar e manter os sintomas e comportamentos compensatórios e disfuncionais em relação à alimentação e à perda de peso (Gale et al., 2016). De acordo com os autores, a experiência de frequentar esses sites pode suscitar um sentimento de orgulho e realização experimentado por meio da perda substancial de peso. As comparações com outros usuários podem acirrar a competição, intensificando os sintomas e a gravidade do quadro. Além disso, frequentemente os sites são utilizados para apoiar e incentivar a restrição alimentar, promovendo um envolvimento superficial com os serviços de tratamento. Em algumas situações, as próprias plataformas virtuais são utilizadas como método de punição quando os indivíduos se aproximavam de uma autocrítica acerca do que estava sendo propagado ou flertavam com a busca por tratamento. Para aqueles que estavam em recuperação, os websites causavam um temor que se refletia em um esforço consciente para evitá-los, ao reconhecerem o impacto negativo que tinham em seu processo de recuperação (Firkins et al., 2019; Gale et al., 2016; Hilton; 2018; Saunders et al., 2020).

Segundo o estudo de Smethurst e Kuss (2016), o processo de recuperação é permeado pela percepção de que a melhora é consequência das escolhas que os indivíduos devem fazer conscientemente para recuperar sua autonomia. No decorrer da reabilitação, eles adquirem um senso de empoderamento sobre seus comportamentos e reconhecem que, para alcançar benefícios significativos e resultados duradouros, a maior responsabilidade recai sobre eles próprios. O indivíduo deve perceber que, para restaurar a sensação do controle perdido, é necessário abandonar os comportamentos prejudiciais e adotar escolhas mais saudáveis. Smethurst e Kuss (2016) concluem que a capacidade dos indivíduos de se libertarem do domínio exercido pelos TAs permitiu-lhes reconquistar a autonomia perdida e decidir de que maneira desejavam conduzir suas vidas.

Auxiliar mulheres com TAs a analisar o tipo de uso que elas fazem das plataformas e suas satisfações e insatisfações relacionadas ao uso das mídias pode ser mais terapêutico do que atribuir a causalidade a uma força sobre a qual elas têm pouco controle (Hilton, 2018). Além disso, o tratamento precisa oferecer possibilidades de desenvolver ferramentas e recursos internos que facilitam intervenções voltadas para o cuidado de outras vulnerabilidades psicológicas que afetam a maneira como as mulheres vivenciam e interpretam a cultura midiática (Smethurst & Kuss, 2016; Williams et al., 2003).

As intervenções com objetivo de reduzir o sentimento de vergonha, manejar melhor as emoções, reconhecer e interpretar sinais do corpo, adquirir habilidades de resolução de problemas baseadas na realidade e encontrar soluções para problemas interpessoais podem contribuir para a redução da dependência dos conteúdos midiáticos (Smethurst, & Kuss, 2016). Os estudos também apontam benefícios em ajudar as mulheres a processarem e interpretarem de forma mais crítica as mensagens midiáticas relacionadas ao ideal de magreza, principalmente quando se trata de atenuar suas vulnerabilidades e sentimento de impotência e incompetência pessoal (Hilton, 2018; Saunders et al., 2020; Smethurst & Kuss, 2016; Williams et al., 2003).

Os participantes do estudo de Nikolova e LaMarre (2023) associaram a postura reflexiva à sua recuperação. Esse movimento os coloca como usuários ativos do Instagram, fazendo com que estejam atentos a gatilhos e possíveis “armadilhas” armadas nas mídias sociais. Esses usuários devem ser mais criteriosos na seleção dos sites que visitam e entender que a responsabilidade é deles próprios, no sentido de criarem uma esfera de conteúdos e imagens adequadas às suas necessidades e desejos durante o processo de reabilitação de um TA. É verdade que as mídias sociais podem funcionar como um espaço propício para a comparação social e a reincidência de “armadilhas” que já fizeram parte de um passado doloroso, o que exige que os usuários fortaleçam sua consciência crítica e se posicionem como consumidores ativos e experientes dos recursos midiáticos, em vez de simplesmente consumirem conteúdos sem o receio de que eles se tornem problemáticos para eles (Nikolova & LaMarre, 2023; Saunders et al., 2020). Segundo os estudos revisados, não resta dúvidas de que a exposição às mídias sociais por si só não desencadeia os TAs, visto que sua etiologia é complexa e multifatorial, mas podem contribuir para intensificar o sofrimento e encorajar o desenvolvimento dos sintomas. A literatura mostra que, além dos comentários de usuários que expressam a opinião de que seus TAs se desenvolveram independentemente do acesso às comunidades pró-Ana ou pró-Mia, também foram produzidas reflexões que reconheciam o potencial desses sites em favorecer a manutenção de comportamentos alimentares prejudiciais. Com frequência, os indivíduos com problemas alimentares demonstraram estar cientes dos riscos inerentes ao uso maciço desses sites e do adiamento do tratamento, mas argumentavam que essa era uma “escolha consciente”. Simultaneamente a essas discussões, alguns comentários sugeriam que os problemas associados ao consumo de conteúdos online eram consequência do uso que se fazia das mensagens e não dos sites em si. Os entrevistados discorreram abertamente sobre questões de autonomia e responsabilidade pessoal na decisão de acessar essas informações e fazer mau uso delas (Hilton; 2018; Saunders et al., 2020; Smethurst & Kuss, 2016; Williams et al., 2003).

Albano et al. (2023) destacaram alguns bons usos das mídias sociais, como funcionar como um meio de obter informações acerca do que é um TA e de como buscar ajuda, sobre a necessidade de conversar com alguém que sabe sobre o assunto, além de registros sobre locais como centros de tratamento e reabilitação. Esses serviços disponibilizam informações qualificadas sobre o acesso ao tratamento e como manejar de maneira efetiva a família nesses casos, de modo a ajudar o membro acometido.

Considerações finais

Os resultados deste estudo ofereceram elementos que são relevantes para o planejamento da assistência às pessoas com problemas relacionados ao comportamento alimentar que são usuárias contumazes das redes sociais. Os participantes dos estudos revisados relataram adquirir um senso de comunidade e pertencimento após se envolverem em sites nos quais interagiam com pessoas com “pensamentos semelhantes” em relação aos hábitos alimentares, acreditando que podiam se expressar nos ambientes virtuais sem temer o julgamento alheio.

Os dados ressaltam a importância de que os profissionais de saúde se convençam da relevância de adotarem uma atitude acolhedora, oferecendo uma atmosfera permissiva em relação ao uso desses sites, a fim de promover aberturas para que os pacientes tragam para o processo psicoterapêutico seus hábitos de navegar no mundo online. É preciso discutir abertamente com os pacientes o uso que fazem das redes digitais. Também é pertinente conduzir novas pesquisas empíricas que explorem as oportunidades de incorporação das redes sociais no tratamento das pessoas com TAs, inclusive como um recurso que pode potencializar os benefícios terapêuticos e a recuperação.

As comunidades virtuais de apoio e troca de experiências podem fornecer às pessoas que enfrentam esses transtornos um espaço seguro para expressar seus pensamentos e emoções. Os resultados deste estudo têm o potencial de abrir novas perspectivas sobre o papel das mídias e plataformas digitais no tratamento dos TAs, ao invés de considerá-las apenas como um problema. O ambiente fora das telas, que inclui família, escola e círculo de amigos, geralmente deseja a recuperação plena da pessoa acometida, mas muitas vezes não compreende como pode contribuir nesse processo. Potencializar a rede pessoal de apoio social dos usuários pode levar a um uso mais parcimonioso e proativo das plataformas digitais.

Estudos de metassíntese podem ampliar o olhar para a necessidade de desenvolver recursos alternativos para enfrentar as complexas demandas contemporâneas em saúde mental, buscando o equilíbrio entre a necessidade de promover mudanças urgentes e as condicionantes práticas. Uma limitação relevante diz respeito à qualidade e heterogeneidade dos estudos primários incluídos na análise. Como esse método se baseia na interpretação e integração de resultados provenientes de pesquisas qualitativas previamente publicadas, está sujeito às restrições metodológicas e teóricas apresentadas pelos estudos originais. A inclusão de investigações com delineamentos pouco robustos, perspectivas conceituais divergentes ou amostras pouco diversificadas pode comprometer a consistência interpretativa e a profundidade analítica dos achados sintetizados. Além disso, a predominância de estudos com características semelhantes quanto ao contexto, população ou fundamentação teórica pode limitar a abrangência e a transferibilidade das interpretações resultantes.

Espera-se que, com os conhecimentos disponibilizados, os profissionais que atuam no campo clínico dos TAs possam se sentir mais amparados em sua prática, possibilitando um diálogo mais compreensivo e alinhado com a realidade vivenciada pelos pacientes na contemporaneidade. Também se espera que as contribuições desta pesquisa possam agregar à área, chamando a atenção da comunidade científica para a urgência de pautar novos estudos e promover debates relacionados ao assunto, fomentando reflexões e alavancando novos métodos interventivos nessa área.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa não estão disponíveis.

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Editado por

  • Editor:
    Dr. Lucas de Francisco Carvalho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Dez 2023
  • Revisado
    24 Maio 2025
  • Aceito
    13 Jun 2025
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