Open-access Adaptação da Escala de Apoio à Desigualdade Econômica ao Contexto Brasileiro

Adaptation of the Support for Economic Inequality Scale to the Brazilian Context

Adaptación de la Escala de Apoyo a la Desigualdad Económica al Contexto Brasileño

Resumo

Objetivo:  adaptar e obter evidências de validade da Escala de Apoio à Desigualdade Econômica (SEIS) no Brasil.

Método:  1500 participantes (M = 37,98, DP = 12,83) foram divididos aleatoriamente em duas bases de dados (n = 750). Na primeira, foram realizadas análises para evidência de validade de construto e confiabilidade. Na segunda, foram realizadas análises para confirmação da estrutura e evidência de validade preditiva.

Resultados:  Na Base 1, foi identificada uma estrutura unifatorial para SEIS, com confiabilidade satisfatória (α = 0,84). A escala apresentou correlações significativas com justificação econômica, orientação de dominância social e crença no mundo justo. Na Base 2, a SEIS unifatorial previu significativamente atitudes negativas em relação à redistribuição, se relacionando à orientação política, desamparo aprendido e classe social.

Discussão:  o apoio à desigualdade econômica no Brasil pode ser impactado pelo contexto, experiências pessoais e crenças sobre desigualdade, semelhante aos resultados de pesquisas internacionais.

Palavras-chave:
nível socioeconômico; medidas de atitude; psicometria

Abstract

Objective:  To adapt and gather validity evidence for the Support for Economic Inequality Scale (SEIS) in Brazil.

Method:  A total of 1,500 participants (M = 37.98, SD = 12.83) were randomly divided into two datasets (n = 750). Analyses in the first dataset assessed construct validity and reliability, while those in the second assessed the scale’s structure and predictive validity.

Results:  In Dataset 1, a single-factor structure was identified for the SEIS, with satisfactory reliability (α = .84). The scale showed significant correlations with economic system justification, social dominance orientation, and belief in a just world. In Dataset 2, the single-factor SEIS significantly predicted negative attitudes toward redistribution and was associated with political orientation, learned helplessness, and social class.

Discussion:  Support for economic inequality in Brazil may be influenced by contextual factors, personal experiences, and beliefs about inequality, in line with findings from international research.

Keywords:
Socioeconomic status; Attitude Measures; Psychometrics

Resumen

Objetivo:  adaptar y reunir evidencias de validez para la Escala de Apoyo a la Desigualdad Económica (SEIS) en Brasil.

Método:  1500 participantes (M = 37,98, DE = 12,83) fueron divididos aleatoriamente en dos conjuntos de datos (n = 750). En el primero, se analizaron las evidencias de validez de constructo y confiabilidad. En el segundo, se confirmó la estructura y evidencias de validez predictiva.

Resultados:  En la Base 1, se identificó una estructura unifactorial para la SEIS, con confiabilidad satisfactoria (α = 0,84). La escala presentó correlaciones significativas con justificación económica, orientación al dominio social y creencia en un mundo justo. En la Base 2, la SEIS unifactorial predijo significativamente actitudes negativas hacia la redistribución, relacionándose con orientación política, desamparo aprendido y clase social.

Discusión:  el apoyo a la desigualdad económica en Brasil puede verse afectado por el contexto, experiencias personales y creencias sobre desigualdad, similar a los hallazgos de la investigación internacional.

Palabras clave:
Nivel socioeconómico; Medidas de Actitud; Psicometría

Adaptação da Escala de Apoio à Desigualdade Econômica para o Contexto Brasileiro

Segundo o World Inequality Database 2024 (World Inequality Database, 2024), a América Latina apresenta alguns dos maiores níveis de desigualdade no mundo, com os 10% mais ricos representando 60% da renda regional. Em 2020 e 2021, houve uma queda na participação dos 50% mais pobres e o crescimento dos 10% mais ricos na distribuição de renda. No Brasil, o sistema fiscal e o aumento de gastos públicos para saúde e educação reduziram a desigualdade, mas os 10% mais ricos ainda apresentam maior concentração de renda (Flores & Zuñiga-Cordero, 2024). Apesar do aumento de políticas sociais, a desigualdade econômica é um fenômeno crescente. Por esse motivo, pesquisadores investigam os fatores que contribuem na manutenção da desigualdade.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2019) analisa as despesas familiares mensais e permite elaborar um perfil das condições de vida da população, constituindo-se em um exemplo típico de pesquisa que analisa fatores objetivos da desigualdade. Embora seja uma fonte valiosa de dados sobre desigualdade no Brasil, a POF não mensura questões voltadas para os aspectos subjetivos como a percepção, as atitudes ou as crenças sobre disparidade econômica.

Medidas subjetivas sobre desigualdade econômica são úteis para entender como fatores pessoais contribuem para a perpetuação da disparidade (Adler et al., 2000; Jachimowicz et al., 2022). Poucas escalas para avaliação destes fatores estão adaptadas para o Brasil. O objetivo do presente estudo foi adaptar e obter evidências de validade da Escala de Apoio à Desigualdade Econômica para o contexto brasileiro.

Em um estudo que abrangeu 20 países, Bussolo et al. (2021) descobriram que a percepção de desigualdade influencia no apoio a iniciativas destinadas à sua diminuição. Segundo os autores, a exposição cotidiana à desigualdade de recursos, pobreza, desemprego e mobilidade social impacta como os indivíduos compreendem o fenômeno. As evidências indicam associações positivas entre percepção de desigualdade e apoio à redistribuição (Bussolo et al., 2021), bem como associações não significativas entre percepção de desigualdade e atitudes favoráveis a políticas de redistribuição (García-Castro et al., 2020).

Aqueles que vivem em áreas com maior disparidade econômica tendem a identificar mais exemplos de desigualdade (Bussolo et al., 2021; Jachimowicz et al., 2022). Além disso, a condição socioeconômica de cada participante parece impactar sua percepção do fenômeno. Classes sociais mais baixas (i.e., grupo de pessoas que compartilham situação socioeconômica semelhante), percebem a desigualdade econômica de forma mais frequente e rápida, demostrando mais atitudes positivas para diminuição da disparidade e mais apoio à ações coletiva ou redistribuição (Fendinger et al., 2023; Mendonça-Neto, 2022; Piff et al., 2017). Por outro lado, os estratos sociais mais altos apresentam percepção reduzida da condição socioeconômica vigente, atitudes mais neutras ou tolerantes e menor apoio à redistribuição de recursos (Browman et al., 2021; Sánchez-Rodríguez et al., 2019; Shariff et al., 2016).

Atitudes sobre a desigualdade (Wiwad et al., 2019) desempenham um papel crucial no apoio à disparidade. Estudos indicam que, atitudes em relação à desigualdade estão associadas a: (a) exposição a indicadores de desigualdade (Piff et al., 2017), afiliação política (Harnish et al., 2018; Jedinger & Burger, 2019), (b) status socioeconômico (Sánchez-Rodríguez et al., 2019; Shariff et al., 2016), e (c) interesse e crenças sobre a concentração de renda (Brown-Iannuzzi et al., 2021; Du & King, 2021). Todavia, a operacionalização do construto é, na grande maioria dos estudos, realizada por itens de levantamentos transculturais (e.g., “Aumentar a desigualdade de renda é necessário para buscar o desenvolvimento econômico”; (Du & King, 2021) ou instrumentos que medem a concordância com a desigualdade entre grupos, (e.g., “É injusto tentar fazer com que os grupos sejam iguais”; Vilanova et al., 2022). Essas medidas limitam a mensuração do fenômeno a nível individual e restringem a interpretação dos resultados. Em função disso, Wiwad et al. (2019) apresentaram a Escala de Apoio à Desigualdade (SEIS), uma medida unidimensional para mensurar atitudes sobre a desigualdade.

A SEIS foi proposta com o interesse de investigar atitudes sobre desigualdade e para conhecer como os indivíduos avaliam as causas e consequências do fenômeno a partir da própria percepção. Diferente de outras medidas que oferecem um grupo ou uma renda base para comparação, a escala apoia-se na percepção subjetiva do participante sobre desigualdade (Wiwad et al., 2019). A escala unifatorial obteve bons índices de ajuste e consistência interna no estudo original e na adaptação em espanhol (Montoya-Lozano et al., 2023; Wiwad et al., 2019). Por isso, presume-se que a estrutura a ser encontrada para o contexto brasileiro será unifatorial.

No que diz respeito as evidências de validade convergente e discriminante, a medida administrada em uma amostra Norte-Americana apresentou correlações negativas com: percepção da disparidade, culpa em relação à própria riqueza, apoio à redistribuição e comportamentos pró-sociais (Wiwad et al., 2019). Apresentou correlações positivas com: crença na desigualdade como inevitável, conservadorismo geral e econômico. No contexto espanhol, a SEIS apresentou correlações negativas com: intolerância à desigualdade, percepção de desigualdade e correlações positivas com: crença no mundo justo, orientação à dominância social e justificação de sistema econômico (Montoya-Lozano et al., 2023). Espera-se que a versão brasileira da SEIS apresente correlações positivas e significativas com a justificação de sistema econômico, orientação à dominância social e crença no mundo justo.

Embora os estudos da SEIS não apresentem evidências de validade discriminante, outras medidas utilizadas em seus estudos (e.g., justificação de sistema econômico) demonstraram. Nos Estados Unidos, China e Espanha, foram identificadas associações indiretas entre percepção de desigualdade e ansiedade de status (i.e., manter o próprio status; Du et al., 2022; Jost & Thompson, 2000; Melita et al., 2021). No Brasil, a correlação entre justificação de sistema econômico e estabilidade emocional não foi significativa (Silva, 2021). Por isso, supõe-se que a SEIS não apresente uma correlação significativa com neuroticismo.

Por fim, a medida também apresentou evidências de validade preditiva. No estudo experimental de Mercier et al. (2020), os indivíduos relataram maior apoio à desigualdade quando manipulados os contextos. A SEIS também foi uma preditora negativa e significativa na intenção de doação (Wiwad et al., 2019). Por isso, presume-se que a SEIS será uma preditora negativa no apoio à redistribuição.

Método

Participantes

A amostra total foi composta de 1500 participantes que passaram na checagem de atenção. Para adaptação da SEIS, a amostra foi dividida aleatoriamente em duas bases de dados com 750 participantes.

Na Base 1, a idade média dos participantes foi de 37,64 anos (DP = 12,54). A amostra foi majoritariamente branca (51,06%), parda (37,06%), preta (8,8%), amarela (1,73%) e indígena (1,33%). A distribuição de gênero foi equilibrada entre o gênero masculino (48,66%) e feminino (51,33%). A região de residência ficou assim distribuída: Sudeste (35,60%), Nordeste (26,53%), Sul (20,40%), Centro-Oeste (10%) e Norte (7,46%). O nível de escolaridade da amostra concentrou entre o ensino médio completo (25%), superior incompleto (12,53%), superior completo (38,13%) e pós-graduação (13,86%). A distribuição de classes foi equilibrada com a Classe A = 23,33%, Classe B = 28%, Classe C = 25,73% e Classe D/E = 22,93%.

Na Base 2, a idade média dos participantes foi de 38,32 anos (DP = 13,14). A amostra foi majoritariamente branca (50,26%), parda (36,66%), preta (10,26%), amarela (2%) e indígena (0,80%). A distribuição de gênero foi equilibrada entre o gênero masculino (47,73%) e feminino (52,26%). A região de residência ficou assim distribuída: Sudeste (34,40%), Nordeste (27,86%), Sul (21,60%), Centro-Oeste (8,26%) e Norte (7,86%). O nível de escolaridade da amostra concentrou entre o ensino médio completo (29,46%), superior incompleto (10,53%), superior completo (37,60%) e pós-graduação (13,46%). A distribuição de classes foi de Classe A = 21,86%, Classe B = 26%, Classe C = 27,20% e Classe D/E = 24,93%.

Instrumentos

Devido a maioria das escalas de resposta das medidas utilizadas ser Likert entre quatro a sete pontos, as medidas foram padronizadas e respondidas em uma escala Likert de 11 pontos, com extremos ancorados em Discordo Totalmente (0) e Concordo Totalmente (10). Essa estratégia foi adotada para melhor compreensão da distribuição dos dados e para trabalhar as variáveis como métricas (Hair et al., 2019). Os instrumentos a seguir foram utilizados na Base 1, para as evidências de validade de construto e confiabilidade.

Apoio à Desigualdade Econômica (SEIS; Wiwad et al., 2019).

A versão adaptada foi usada para mensurar o nível de suporte ou rejeição da desigualdade. A versão original é composta por cinco itens em escala Likert de 7 pontos e os participantes indicam o seu nível de concordância com afirmações como “as consequências negativas da desigualdade têm sido amplamente exageradas”. O estudo original apresentou confiabilidade satisfatória, com alfa de Cronbach α = 0,94 (Wiwad et al., 2019).

Justificação de Sistema Econômico (ESJ; Jost & Thompson, 2000).

A escala adaptada por Lima (2016) foi utilizada para avaliar tendências ideológicas de legitimação da desigualdade. A escala contém 12 itens em três fatores (Mobilidade Social, Mudança Social e Naturalização das Diferenças) em escala Likert de concordância de 7 pontos. Um exemplo de item é “a distribuição igualitária de recursos econômicos é uma possibilidade para a nossa sociedade”. A sua análise fatorial exploratória (AFE) indicou dois fatores, com o item 8 excluído devido à carga cruzada acima de 0,10. O primeiro fator agrupou itens de Mobilidade e Mudança Social, o segundo agrupou itens sobre Naturalização de Diferenças Sociais. Ambos apresentaram índices de confiabilidade aceitáveis no presente estudo (Fator 1: α = 0,68 e Ω = 0,75; Fator 2: α = 0,71 e Ω = 0,74).

Orientação à Dominância Social (SDO; Pratto et al., 1994).

Foi utilizada a versão reduzida adaptada por Vilanova et al. (2022) para mensurar a preferência por hierarquias sociais estratificadas. Esta consiste em 8 itens entre dois fatores em escala Likert de concordância de 7 pontos. Um exemplo de item é “o princípio de que um grupo deve dominar outro é ruim”. A confiabilidade da escala neste estudo foi aceitável (Dominância α = 0,80 e Ω = 0,80; Anti-igualitarismo α = 0,70 e Ω = 0,69).

Crença no Mundo Justo com Ditados Populares (CMJ; Linhares, 2017).

A escala unidimensional composta por sete itens foi utilizada para avaliar a percepção de justiça no mundo. Esta é respondida em escala Likert de concordância de 5 pontos, um exemplo de item é “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. A escala apresentou valores de confiabilidade satisfatórios no presente estudo (α = 0,87; Ω = 0,87).

Neuroticismo (ER5FP; Passos & Laros, 2015).

A dimensão de Neuroticismo da Escala Reduzida de Diferencial Semântico para Avaliação de Personalidade, composta por oito adjetivos comparados em pares de diferencial semântico foi utilizada para avaliar o desajustamento emocional. Um exemplo de item é “Impaciente Paciente”. A dimensão apresentou índices de confiabilidade satisfatórios (α = 0,88; Ω = 0,88).

Os instrumentos abaixo foram utilizados na Base 2 para a evidência de validade preditiva.

Atitudes Sobre Redistribuição

Foi utilizado o item 12 da ESJ, “Não faz sentido tentar uma distribuição de renda mais igualitária”, para mensurar as atitudes sobre redistribuição.

Status Socioeconômico Subjetivo (SSS; Adler et al., 2000)

Foi avaliada a percepção do próprio status socioeconômico dos participantes por meio de um item pictórico (uma escada), onde os participantes indicam sua posição socioeconômica em relação a outros indivíduos no Brasil. A instrução do item é “onde você se colocaria nesta escada? Por favor, escolha o degrau onde você acredita estar atualmente na sua vida em relação a outros indivíduos nos Brasil?”.

Desamparo Aprendido (LHS; Quinless & McDermott Nelson, 1988)

Foi utilizada a versão reduzida adaptada (Couto & Pilati, 2023) para medir a sensação de impotência dos participantes. A versão reduzida consiste em uma escala unidimensional com seis itens respondidos em escala Likert de concordância de 4 pontos, um exemplo de item é “Eu sinto que tenho pouco controle sobre os resultados do meu trabalho”. A AFE do presente estudo sugeriu uma estrutura de dois fatores, próxima da estrutura hipotetizada pelos autores originais com três fatores (F1- Desamparo Universal e Pessoal, F2- Desamparo Global ou Específico, F3- Atribuições Estáveis ou Instáveis). Com base nisso, nomeamos os fatores como Senso de Amparo Pessoal e Atribuições Estáveis (F1, α = 0,70; Ω = 0,72) e Senso de Desamparo Global com Atribuições Instáveis (F2, α = 0,70 e Ω = 0,71).

Afiliação Política

A afiliação política foi usada para investigar a influência do posicionamento político no interesse sobre redistribuição. Foi mensurada por um item em escala Likert de 10 pontos com as âncoras “Esquerda” e “Direita”. A instrução do item é: “Por favor, selecione a opção que melhor descreve suas crenças e preferências políticas. Qual o seu posicionamento político?”

Escolaridade

Para entender a influência dos anos de escolaridade nas atitudes sobre redistribuição, os participantes escolheram seu nível de escolaridade entre as opções “Ensino Fundamental Incompleto” até “Pós-Graduação”.

Classe Social

A Offerwise utiliza as perguntas do critério Brasil para definir o status socioeconômico dos participantes a priori da coleta. O levantamento contém perguntas sobre bens e consumo que permitem classificar a renda familiar do domicílio, agrupando a população em quatro níveis sociais: “Classe A”, “Classe B”, “Classe C” e “Classe D/E”. Um examplo de item é: “No domicílio tem __ quantidade de geladeiras”.

Procedimentos

A adaptação da SEIS seguiu as diretrizes da International Test Comission (2017) para tradução e adaptação de testes.

Primeiro, foi realizada a tradução do inglês para o português brasileiro com dois tradutores nativos do Brasil, mas fluentes em inglês. Uma síntese da escala foi construída após a comparação das duas traduções e uma pequena modificação no item 3 foi realizada. Ambas as traduções do item foram “Eu estou muito perturbado pelo tanto de desigualdade econômica no mundo de hoje”. O adjetivo perturbado foi alterado para ‘incomodado’ para evitar a conotação extremamente negativa. Em seguida, foi realizada a retrotradução e enviada novamente ao autor para aprovação. Nenhum aspecto deste estudo foi pré-registrado, mas todos os dados foram disponibilizados publicamente na OSF e podem ser acessados pelo link https://osf.io/x4u32/.

O levantamento foi conduzido com a empresa Offerwise, utilizando sua plataforma e painel de respondentes, perfazendo diversas características típicas da população brasileira. Os participantes foram apresentados ao levantamento com uma breve descrição do estudo, o tempo de duração estimado e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo garantida a confidencialidade dos dados. Após aceite, completaram as informações sociodemográficas como gênero, etnia, idade, escolaridade e região de residência. Posteriormente, os instrumentos foram apresentados em ordem aleatória.

Na Base 1, uma Análise Fatorial Exploratória (AFE) foi realizada no programa FACTOR versão 12.04.01 para identificar a estrutura fatorial da SEIS. Primeiro foram apurados se os dados atingem os pressupostos da AFE. As estatísticas descritivas e o teste de Mardia indicaram a distribuição assimétrica dos dados, com valores de curtose acima de 2 (p < 0,001). Por isso, foi adotada a matriz policórica, o método de extração Squares Robust Diagonally Weighted Least Squares (RDWLS; Asparouhov & Muthen, 2010) e procedimento de bootstrapping com 500 reamostragens. A determinação de fatores a serem retidos foi avaliada através da Análise Paralela Otimizada e do Método Hull (Lorenzo-Seva et al., 2011; Timmerman & Lorenzo-Seva, 2011). A estrutura e alocação dos itens foram obtidas por meio da rotação Promin (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2019). Itens com cargas fatoriais inferiores a 0,30 foram removidos (Hair et al., 2019).

Índices de ajuste também foram avaliados seguindo as sugestões de Brown (2015). Para avaliar a adequação da SEIS foram adotados: valores acima de 0,90 para CFI e TLI, RMSEA menor que 0,08, unidimensionalidade UniCo acima de 0,95, ECV acima de 0,85 e MIREAL abaixo de 0,30, bem como o índice de H para estabilidade acima de 0,80 (Ferrando & Lorenzo-Seva, 2017). Por fim, valores de Alfa e Ômega de McDonald acima de 0,80 foram adotados para confiabilidade satisfatória da SEIS.

Para reunir evidências de validade de confiabilidade (convergente e discriminante), o programa JAMOVI versão 2.3.28.0 (The jamovi project, 2023) foi utilizado para calcular as correlações entre a SEIS e outros construtos (SDO, CMJ, ESJ e Neuroticismo) usando a correlação de Rho de Spearman. Coeficientes de correlação entre 0,20 e 0,50 foram considerados adequados para validade convergente. Para a validade discriminante, correlações abaixo de 0,10 e sem significância foram consideradas adequadas (Field, 2017). Além destas, foi adotado o valor abaixo de 0,90 para o Heterotrait-Monotrait-Ratio (HTMT) reforçar a validade discriminante (Hamid et al., 2017).

Na Base 2, foi realizada uma análise fatorial confirmatória (AFC) no programa JASP versão 0.17.2.1 (Jasp Team, 2023) para avaliar a estrutura unidimensional. Primeiro foram apurados se os dados atingem os pressupostos da AFC. Devido a distribuição assimétrica dos dados, o método de estimação adotado foi o Diagonally Weighted Least Squares (DWLS), procedimento de bootstrapping com 1000 reamostragens e os critérios de ajuste para um modelo adequado foram: o CFI e TLI acima de 0,90, RMSEA abaixo de 0,08, razão de qui-quadrado e graus de liberdade < 5 e SRMR abaixo de 0,06 (Brown, 2015).

Por último, foi conduzida uma análise de Regressão Linear Múltipla com o método Backward e bootstrapping com 1000 reamostragens no JASP. Primeiro foram apurados se os dados atingem os pressupostos e em seguida explorado o efeito das variáveis escolaridade, posicionamento político, desamparo aprendido, classe social, status socioeconômico subjetivo e apoio à desigualdade econômica nas atitudes sobre redistribuição. Esta abordagem foi escolhida devido a retirada de variáveis ser feita com base nos valores de significância e contribuição para o coeficiente de regressão do modelo (Hair et al., 2019).

Resultados

Evidências de Validade de Construto e Confiabilidade da SEIS na Base 1

Evidências de Validade da Estrutura Interna: Análise Fatorial Exploratória

Sete participantes (0,009% da amostra) foram identificados como Outliers acima do intervalo quartil e mantidos nas análises por representarem menos de 5% da amostra. O teste de Kaiser-Meyer-Olkin confirmou a adequação da matriz (KMO = 0,75). A análise Paralela e o Método Hull indicaram a estrutura unifatorial, entretanto, a avaliação de unidimensionalidade sugeriu uma estrutura de mais fatores, com UniCo = 0,78 e ECV = 0,70. O modelo unifatorial inicial, com cinco itens, apresentou ajuste razoável, mas com índices de ajuste de resíduos acima do ponto de corte, RMSEA = 0,15, 95% IC BCa [0,10, 0,20]; RMSR = 0,10; CFI = 0,97; TLI = 0,93; BIC = 161,646.

Na Tabela 1, é possível observar que todos os cinco itens foram alocados em um fator, mas o primeiro item apresentou a carga fatorial abaixo de 0,30, sendo excluído das análises subsequentes. Uma nova análise fatorial com os quatro itens mostrou resultados satisfatórios, com a matriz de dados mais adequada (KMO = 0,79) e unidimensionalidade (Unico = 0,90; ECV = 0,80, MIREAL = 0,32). Os índices de ajuste do modelo melhoraram, RMSEA = 0,01, 95% IC BCa [0,00, 0,06]; RMSR = 0,01; TLI = 0,99; CFI = 0,99; BIC = 55,416 e a variância total comum observada foi acima de 60%. A estrutura com os quatro itens apresentou boa replicabilidade, com o Índice-H-Latente = 0,91 e H-Observado = 0,80 e a confiabilidade da SEIS satisfatória, com o Ômega de McDonald (Ω = 0,85) e o Alfa de Cronbach (α = 0,84) dentro dos valores delimitados.

Tabela 1
Resultado da Análise Fatorial Exploratória da Support for Economic Inequality Scale Adaptada
Evidências de Validade Convergente e Discriminante

A escala apresentou correlações significativas com Justificação de Sistema Econômico (Mudança e Mobilidade Social; r = 0,40, p < 0,001, Naturalização da Desigualdade; r = 0,33, p < 0,001), Orientação à Dominância Social (Anti-igualitarismo; r = 0,42, p < 0,001, Dominância, r = 0,37, p < 0,001) e uma correlação negativa pequena com a Crença no Mundo Justo (r = -0,11, p < 0,01).

Na análise discriminante, foi observada uma correlação significativa entre a SEIS e Neuroticismo (r = -0,07, p = 0,04). Por isso, foram exploradas as correlações entre a SEIS e as quatro diferenças semânticas com o objetivo de identificar quais os itens (Nervoso-Calmo, Impaciente-Paciente, Ansioso-Tranquilo, Instável-Estável) estiveram mais relacionados ao instrumento adaptado. Apenas Ansioso-Tranquilo foi significativo (r = -0,11, p = 0,003; Ver Tabela 2). Por último, o índice de HTMT corroborou a validade discriminante da SEIS em relação ao neuroticismo da ER5FP (HTMT = -0,15).

Tabela 2
Estatísticas Descritivas e Matriz de Correlação das Variáveis com a SEIS

Evidências de Validade de Construto e Preditiva da SEIS na Base 2

Confirmação da Estrutura da SEIS: Análise Fatorial Confirmatória

Foi realizada uma Análise Fatorial Confirmatória (AFC) para avaliar a estrutura unidimensional da SEIS original (com cinco itens) e a estrutura observada na AFE com quatro itens. Novamente o item 1 apresentou uma carga fatorial baixa (SEIS1 = 0,14), enquanto os outros foram acima de 0,40. Ao analisarmos os índices de ajuste na Tabela 3, constatamos que não atendiam aos critérios. Através dos índices de modificação identificamos uma covariância residual entre os itens 1 e 4 acima de 50. Após inserir a covariância no modelo, os índices de ajuste foram mais adequados (χ2 /gl = 0,91; RMSEA = 0,001, 90% IC BCa [0,00, 0,05]; SRMR = 0,02; CFI = 0,99; TLI = 0,99). Por fim, o modelo de quatro itens demonstrou índices de ajuste satisfatórios, podendo ser utilizado.

Tabela 3
Comparação dos Índices de Ajuste dos Modelos para Análise Fatorial Confirmatória da SEIS
Evidências de Validade Preditiva

Os resíduos do modelo apresentaram um padrão linear e a estatística de Durbin-Watson sugeriu a autocorrelação dos resíduos. O pressuposto de homocedasticidade foi atingido, visto que os valores de VIF e Tolerância estavam abaixo de 5 e próximos de 1 respectivamente. Não foram encontrados participantes que pudessem estar influenciando de maneira negativa os resultados do modelo, pois a Distância de Cook esteve distante de 1 para todos os participantes.

A regressão linear múltipla com método Backward calculou três modelos até o modelo final. O modelo final foi significativo (F (5, 744) = 46,180, p < 0,001), retirando o status socioeconômico subjetivo (β = 0,06, p = 0,12) e o nível de escolaridade (β = -0,07, p = 0,06). Este explicou 24% das atitudes sobre redistribuição (R2 = 0,24; R2 ajustado = 0,23), com o apoio à desigualdade econômica sendo a variável de maior influência nas atitudes negativas (β = 0,39, p < 0,001). Além disso, o Amparo Pessoal e Atribuições Estáveis (β = -0,16, p < 0,001), o senso de Desamparo Global e Atribuições Instáveis (β = 0,17, p < 0,001), o Posicionamento Político (β = 0,12, p < 0,001) e a Classe Social (β = 0,11, p < 0,001) também influenciaram significativamente nas atitudes negativas sobre redistribuição.

Discussão

O presente estudo forneceu evidências de validade para a SEIS no contexto brasileiro. Através das análises da Base 1, foi identificada a estrutura unifatorial da SEIS com bons índices de ajuste e consistência interna. A performance do item 1 (“As consequências negativas da desigualdade econômica têm sido amplamente exageradas”) foi insatisfatória, possivelmente por sua escrita. No estudo original, o seu desempenho esteve similar aos outros quatro itens, mas na versão em espanhol a carga fatorial do item 1 (Item 1 = 0,52 e 0,56) esteve abaixo das outras (e.g., Item 4 = 0,62 e 0,73). Uma possível explicação para o baixo desempenho do item no Brasil é a dúvida sobre quem estaria exagerando as consequências negativas da disparidade (mídia, comunidade ou o governo).

A escala apresentou uma relação significativa com crenças, ideologias e características sociodemográficas, reforçando a rede nomológica de influências para atitudes negativas sobre a desigualdade econômica. No estudo de Wiwad et al. (2019), os participantes apresentaram mais atitudes negativas sobre desigualdade econômica e os mesmos discutem que a filiação política mais liberal da amostra possa ter influenciado. No presente estudo, houve uma concentração de participantes de centro (13,9%) e direita (23,1%) em comparação à esquerda (12,9%), o que se alinha a reflexão do autoritarismo de direita estar associado ao conservadorismo econômico e a atitudes positivas sobre desigualdade econômica.

Outra diferença entre os estudos foi a correlação negativa entre o apoio à desigualdade e a crença no mundo justo. A correlação do estudo original foi positiva (r = 0,33, p < 0,001), enquanto no presente estudo foi negativa. No estudo de García-Sánchez et al. (2022), a crença no mundo justo foi uma preditora significativa da legitimação da desigualdade, apresentando um efeito indireto no apoio a redistribuição para os 10% mais pobres. Assim como os estudos de Bruckmüller et al. (2017) e Dietze e Craig (2021), os participantes deste estudo podem perceber a desigualdade econômica como a desvantagem de recursos entre grupos, avaliando a condição vigente como injusta e inadequada. Além disso, nota-se que as medidas de CMJ no estudo original e espanhol foram distintas da utilizada no presente estudo, havendo a possibilidade da medida original ser mais adequada para a desigualdade.

No que diz respeito à correlação entre a SEIS e neuroticismo, participantes que se identificaram como ansiosos apresentaram mais atitudes negativas sobre a desigualdade. Este resultado pode ser produto da ansiedade de status mencionada por Du et al. (2022) e Melita et al. (2021) sobre o receio de piorar de condição socioeconômica ou de não melhorar a condição financeira.

Os resultados com a Base 2 forneceram a confirmação da estrutura e evidências de validade preditiva para a SEIS. A estrutura unifatorial obtida na Base 1 foi replicada com bons índices de ajuste, garantindo sua confiabilidade e replicabilidade. O item 1 novamente apresentou cargas fatoriais ruins, mas ambas as versões de quatro itens e de cinco itens podem ser utilizadas, desde que inserida a covariância no último modelo.

No que se refere as evidências de validade preditiva da SEIS, a diminuição do interesse em ações coletivas daqueles com maior privação relativa observada no estudo de Mendonça Neto (2022) pode ser comparada neste estudo. Menores níveis de autoconfiança na própria habilidade (Desamparo Pessoal e Atribuições Estáveis; LHS), maior inclinação a avaliar outros como melhores que ele (Senso de Desamparo Global e Atribuições Instáveis; LHS) e maiores níveis de apoio ao status socioeconômico atual refletiram em atitudes negativas sobre redistribuição.

A tolerância à desigualdade atual e os menores níveis de interesse por estratégias de redistribuição são efeitos observados no exterior (García-Sánchez et al., 2022; Harnish et al., 2018; Shariff et al., 2016) que também foram relevantes no presente estudo. Apesar de o Brasil ser um país com alto nível de desigualdade, o apoio aos níveis de desigualdade vigente sugere que o conservadorismo econômico e atitudes negativas para redistribuição em locais com mais desigualdade podem ser comuns a maioria dos extratos sociais, não estando reduzido somente às classes baixas, sendo necessário conhecer mais dos aspectos culturais.

Este estudo apresenta algumas limitações, incluindo o uso de versões reduzidas de instrumentos ou um item só para a maioria dos construtos. Apesar das associações significativas, o conhecimento sobre a interação entre medidas esteve limitado (e.g., o neuroticismo e o apoio à desigualdade econômica), sendo necessários instrumentos maiores para uma visão ampliada. Futuras pesquisas podem replicar este estudo com outras medidas ou usar manipulações experimentais para aprofundar as relações observadas, expandindo para temas tangentes (e.g., a interação entre estereótipos de raça e atitudes sobre desigualdade econômica). Ademais, a SEIS pode ser adaptada para diferentes contextos, como, por exemplo, a nível regional (e.g., “A desigualdade econômica está causando muitos dos problemas do Distrito Federal”), viabilizando estudos mais locais. Logo, a escala demonstrou ser um instrumento adequado para mensurar as atitudes sobre a desigualdade no Brasil. A presente pesquisa indicou que o tipo de atitude em relação à desigualdade influencia como uma pessoa entende a redistribuição, destacando também a influência das crenças individuais e interesse pessoal na manutenção do status atual. Por ser uma medida versátil, poderá ser promissora em pesquisas que precisam investigar como os indivíduos interpretam a disparidade sem precisar da comparação de grupos.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa não estão disponíveis.

Referências

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  • Nota dos autores:
    A presente pesquisa foi realizada com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) para a primeira autora e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologia (Processo 305259/2022-9) para o segundo autor. Declaramos não haver conflito de interesse com pares e instituições políticas ou financeiras relacionados a este estudo. O trabalho faz parte da dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília.

Editado por

  • Editor:
    Dra. Ariela Raissa Lima

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2024
  • Revisado
    21 Mar 2025
  • Aceito
    23 Mar 2025
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