Resumo
A Escala de Conexão no Esporte (ECE) é um dos instrumentos para avaliar a conexão no modelo dos 5C’s do desenvolvimento positivo de jovens. Em estudo anterior, a escala apresentou uma solução de dois fatores, apesar da teoria sugerir uma estrutura unifatorial. Este estudo teve como objetivo comparar o modelo unifatorial da ECE, com e sem controle de aquiescência, ao modelo de dois fatores e testar a invariância da escala entre praticantes de modalidades coletivas e individuais, em uma amostra de jovens brasileiros. Os resultados indicaram a solução unifatorial como aceitável para o modelo controlado e que o instrumento não é equivalente entre os dois grupos. Constatou-se a adequação do instrumento e a influência de viés nas respostas aos itens.
Palavras-chave:
psicologia do esporte; psicometria; viés do teste; avaliação psicológica
Abstract
The Sports Connection Scale (ECE) is one instrument to assess the connection of the 5C’s model of positive youth development. In a previous study, the scale presented a two-factor solution, despite the theory suggesting a unifactorial structure. This study aims to compare the ECE unifactorial model with and without acquiescence control to the two-factor model and to test the scale invariance between collective and individual modalities practitioners in a sample of young Brazilians. The results indicate the unifactorial solution is acceptable for the controlled model and that the instrument is not equivalent between the two groups. The adequacy of the instrument and the influence of response bias in the item's answers were verified.
Keywords:
sports psychology; psychometrics; test bias; psychological assessment
A prática esportiva está associada a diversos benefícios sociais (e.g., relações interpessoais), psicológicos (autoconfiança) e físicos (desenvolvimento motor; Galatti et al., 2017; Reverdito et al., 2017). Pesquisas direcionadas para compreensão do ambiente, relacionamentos e atividades esportivas tem avançado, principalmente entre a população jovem (e.g., Côté et al., 2010; Fraser-Thomas et al., 2005; Kavussanu & Boardley, 2009; MacDonald et al., 2012; Panza et al., 2020; Turnnidge et al., 2012; Vierimaa et al., 2017). Dentre as perspectivas para analisar a participação dos jovens no esporte e seus benefícios, o Desenvolvimento Positivo de Jovens (DPJ; Holt, 2016; Holt et al., 2020), apresenta princípios e premissas de diferentes propostas de mensuração do construto. O modelo teórico 5C’s é uma das premissas que tem como intuito avaliar o DPJ, por meio de cinco características (competência, confiança, conexão, cuidado e caráter; Lerner et al., 2005). O C correspondente a conexão está associada a habilidades fundamentais para a manutenção dos outros C’s, como por exemplo, as habilidades sociais, partindo da ideia de que os atletas estão em constante interação com os treinadores ou colegas de equipe (Goldenberg et al., 2016; Santos et al., 2016; Vierimaa et al., 2017). Compreendendo as diversas possibilidades de mensuração desse construto, esta pesquisa propõe a investigação das propriedades psicométricas da Escala de Conexão no Esporte (ECE).
A conexão, é um termo guarda-chuva, que abarca diferentes construtos, por exemplo, identidade social (Bruner et al., 2014), relacionamento com outros atletas (Weiss & Smith, 2002) e coesão (Eys et al., 2009). Além disso, refere-se à qualidade dos relacionamentos construídos dentro de um ambiente. No contexto esportivo o atleta pode construir e estabelecer vínculos com treinadores, outros atletas, adversários, árbitros ou até mesmo com a instituição (e.g., centro esportivo). As relações dentro do ambiente esportivo, se significativas e positivas, podem ser um componente importante para promover o DPJ (Vierimaa et al., 2012), visto que a maioria das pessoas possui a necessidade de pertencer e se sentir aceita em algum grupo (Baumeister & Leary, 1995).
Dentre todos os relacionamentos, a relação com o treinador exerce um papel fundamental para o funcionamento da relação com outros atletas (Compton, 2005; Tavares et al., 2021). O papel do treinador está associado a responsabilidade de auxiliar no desenvolvimento de um ambiente mais saudável, de suporte, aprendizagem e acolhimento (Tavares et al., 2021); possibilitando um clima positivo, estimulando a cooperação e contribuição dos atletas, proporcionando o desenvolvimento e fortalecimento dos outros relacionamentos no ambiente (Compton, 2005; MacDonald et al., 2010; Tavares et al., 2021; Weiss & Stuntz, 2004).
Quando os relacionamentos acontecem de maneira saudável, seja com o treinador ou com outros atletas, o jovem tende a se engajar mais e ficar satisfeito com a prática (Tavares et al., 2021; Weiss & Stuntz, 2004). Isto propicia ao atleta autoconhecimento, responsabilidade e autocontrole, facilitando o aprimoramento e manutenção das habilidades sociais (e.g. liderança, comunicação; Goldenberg et al., 2016; Sanches & Rubio, 2011), bem como a promoção da moralidade e integridade (Kavussanu & Stanger, 2017; Shields & Bredmeier, 2007).
É importante destacar que quando o jovem está comprometido com outras pessoas, criando vínculos afetivos e de confiança, as habilidades sociais e pessoais também podem ser desenvolvidas (Bruner et al., 2014). Contudo, essa conexão atleta-atleta vai depender da atuação do treinador no ambiente (Lorimer, 2009). Em suma, os resultados das relações saudáveis no ambiente esportivo, estimulam sentimentos e pensamentos direcionados ao grupo (e.g. clareza de papéis, empatia e aceitação social) (Jowett & Poczwardowski, 2007).
Nesse sentido, existem diferentes indicações de instrumentos para compreender a conexão no esporte. Ao propor uma bateria de testes para avaliar o modelo dos 5C’s do DPJ de acordo com a proposta teórica elaborada por Côté et al. (2010), Vierimaa et al. (2012) indicaram as escalas Coach-athlete Relationship Questionnaire (conexão treinador-atleta) e Peer Connection Inventory (conexão atleta-atleta) para avaliar a conexão no esporte.
O instrumento Coach-athlete Relationship Questionnaire, que mede a relação entre treinador e atleta, é composto por três dimensões: proximidade (emoções), comprometimento (cognições) e complementariedade (comportamentos). E constituído por duas versões, sendo elas, para o treinador e para os atletas (Jowett & Ntoumanis, 2004). O instrumento Peer Connection Inventory propõe-se a mensurar a relação entre atletas, a partir da escolha do atleta por três companheiros de equipe que gosta de trabalhar; e esse tipo de avaliação caracteriza duas classificações oscilométricas (impacto social e preferência social; Coie & Dodge, 1983).
Apesar dos avanços ao oferecer uma medida para avaliar os 5C’s, o Peer Connection Inventory tem uma proposta de avalição intragrupo, dificultando a compreensão da conexão em pesquisas com grandes amostras (Vierimaa et al., 2012). Em função dessa limitação, o estudo de Silva & Peixoto (2021) sugeriu uma nova escala para avaliar conexão entre os atletas, denominada Teamwork Scale for Youth (TSY; Anderson-Butcher et al., 2014). Esta, tem como objetivo mensurar a capacidade percebida de adolescentes para trabalhar e contribuir com outros membros da equipe, em prol de um objetivo comum. Porém, o instrumento é voltado apenas para a relação entre atletas que fazem parte da mesma equipe, não considerando outras relações presentes no esporte.
No entanto, nenhum dos instrumentos propõem mensurar mais de uma perceptiva da conexão. O que pode dificultar pesquisadores da área na avaliação das relações dos atletas com treinadores e com outros atletas, uma vez que será necessário aplicar mais de uma medida, com objetivos e estruturas divergentes. Nesse sentido, Campos et al. (2022) propuseram uma escala para mensurar os dois tipos de relacionamentos (treinador-atleta/ atleta-atleta), denominada de Escala de Conexão no Esporte (ECE), como parte de uma bateria para mensurar os 5C’s do DPJ. A bateria tem como intuito avaliar a presença de habilidades positivas fomentadas no ambiente esportivo, em jovens com idades entre 12 e 24 anos. Os resultados pela análise fatorial exploratória sugeriram uma estrutura unifatorial para cada subescala, com exceção da ECE, que apresentou estrutura composta por dois fatores. Contudo, foi interpretado que esta configuração pode ter decorrido da organização dos itens em função dos conteúdos positivos e negativos.
Considerando a relevância de ter instrumentos adequados para avaliar a relação treinador-atleta e atleta-atleta no contexto esportivo o presente estudo irá empregar a ECE. A ECE é um instrumento breve de dois fatores, que os participantes devem responder sobre a qualidade das relações estabelecidas no esporte. O instrumento aborda a abertura a novas ideias e metas do grupo, relacionamento com treinador e equipe, e sentimentos de pertencimento ao grupo; e apresenta propriedades psicométricas adequadas (Campos et al., 2022).
O fato de a ECE ter sido a única subescala da bateria que não obteve estrutura interna unifatorial, pode decorrer de erro de medida devido a vieses de resposta, visto que os resultados indicaram dois fatores, sendo o primeiro contém itens de conteúdo positivo e o segundo com itens de conteúdo negativo (Campos et al., 2022). Os vieses de respostas dizem respeito a intenção do sujeito em responder a um grupo de itens, com base em uma perspectiva independente ao conteúdo do item (Valentini, 2017). Ou seja, há uma tendência em responder considerando outras questões além do construto, por exemplo, preferência por categorias extremas (estilo de resposta extrema; Baumgartner & Steenkamp, 2001), tendência em responder de maneira positiva e conforme as normas sociais (desejabilidade social) (Uziel, 2010) e tendência em concordar com um item independente de seu conteúdo (aquiescência) (Valentini, 2017; Ziegler, 2015).
Um viés de especial pertinência, no caso da ECE, é a aquiescência. Devido a escala contar com itens de semântica positiva e negativa, o endosso dos itens independentemente do seu conteúdo prejudicará o ajuste do modelo e as cargas fatoriais dos itens negativos (Danner et al., 2015; Maydeu-Olivares & Coffman, 2006; Valentini, 2017). Para controlar este viés de resposta, pode-se empregar um modelo de intercepto randômico, no qual é estabelecido um fator adicional “aquiescência”, ortogonal ao fator “conexão” e com suas cargas fatoriais fixadas em 1 (Maydeu-Olivares & Coffman, 2006). Os escores do fator aquiescência irão corresponder a pontuação decorrente deste viés de resposta (Maydeu-Olivares & Steenkamp, 2018).
Ao avançar com propostas de mensuração com controle de aquiescência por meio do modelo de intercepto randômico, profissionais da área do esporte podem ter ferramentas mais adequadas. Uma vez que o modelo tem demonstrado ser útil na estimação de estruturas fatoriais mais apropriadas (Maydeu-Olivares & Coffman, 2006; Maydeu-Olivares & Steenkamp, 2018). Em outras palavras, o modelo de intercepto impacta de maneira positiva nos processos de avaliação psicológica, ao propor uma medida com maior possibilidade de mensurar o construto alvo, enquanto minimiza os efeitos de vieses de resposta gerado pela amostra (Primi et al., 2019; Valentini et al., 2020).
Adicionalmente, é importante considerar o relacionamento atleta-atleta para os diferentes tipos de modalidades esportivas praticadas. Por exemplo, atletas que praticam tênis de mesa (Fuchs et al., 2019) e taekwondo (Kim & Nam, 2021; Wazir et al., 2019) têm uma relação com outros atletas que não sejam da mesma equipe, justamente, por ser uma modalidade praticada de forma individual. Diferente dos esportes voleibol (Lidor & Ziv, 2010), basquete (Bazanov et al., 2006) ou futebol (Jong et al., 2022), em que os atletas praticam a modalidade em equipe. Estudos anteriores observaram que atletas de modalidades individuais tendem a apresentar maior média no componente amizade, enquanto os atletas que praticam a modalidade coletivas endossam mais o trabalho em equipe (Benar & Loghmani, 2014; Howard et al., 2018; Moradi et al., 2020).
A presente pesquisa tem como objetivo estimar novas evidências de validade com base na estrutura interna para a Escala de Conexão no Esporte, usando o modelo de intercepto randômico para controle da aquiescência. E verificar a equivalência do instrumento entre as modalidades praticadas em equipe e individualmente. Com base na fundamentação teórica, as hipóteses são: (a) a estrutura de dois fatores se ajustará aos dados provenientes da amostra, conforme os achados de Campos et al. (2022), haja vista o conteúdo dos itens (positivo e negativo) para o modelo sem controle de aquiescência; (b) espera-se que no modelo controlado pelo o viés a estrutura unidimensional demonstre ser a mais adequada; (c) o controle da aquiescência irá melhorar os índices de ajustes, indicando que há uma influência de vieses de respostas (Maydeu-Olivares & Coffman, 2006); (d) o instrumento não será equivalente entre os dois grupos (equipe x individual), uma vez que os itens não consideram as relações com outros atletas, mas como relação de equipe.
Método
Os dados estão disponíveis mediante solicitação aos autores.
Participantes
A amostra, por conveniência, foi composta por 377 jovens atletas, com idades entre 12 e 24 anos (M = 17,9 ± 2,84), de ambos os sexos (54,6% masculino). A maioria dos atletas descreveram praticar a modalidade esportiva em equipe (52,5%), sendo alguns exemplos o futebol, basquete, voleibol, handebol, entre outros. Os demais atletas descreveram praticar individualmente, por exemplo, tênis, atletismo, taekwondo, judô, entre outros. Em relação ao nível competitivo, 30% assumiram não competir na sua modalidade, 24,9% descreveram estar em nível nacional, 18% em nível estadual e regional, sendo o restante de 9% em nível internacional. Em geral, os praticantes afirmaram ter pelo menos três anos de experiência na sua modalidade (65,8%), além de não ser o primeiro esporte praticado (65,5%). Adicionalmente, descreveram ter treinado com outros técnicos (76,7%).
Instrumentos
Questionário Sociodemográfico
Elaborado especificamente para a presente pesquisa, teve o objetivo de obter informações pertinentes a respeito dos participantes. Para isso, foram elaboradas perguntas referentes a idade, sexo, tipo de modalidade praticada (coletiva ou individual), nível competitivo, tempo de experiência e se já praticaram o esporte com técnicos diferentes dos atuais.
Escala de Conexão no Esporte
A ECE faz parte de uma bateria para avaliar o modelo teórico 5C’s (competência, confiança, conexão, cuidado e caráter) do Desenvolvimento Positivo de Jovens no Esporte, desenvolvida inicialmente por Campos et al. (2022). Tem como objetivo mensurar o C conexão, ou seja, investiga a qualidade das relações dentro do ambiente esportivo. O instrumento é composto por 15 itens, em que os participantes devem responder sobre a qualidade das relações estabelecidas no esporte, por meio de uma escala Likert de cinco pontos (1, discordo totalmente, a 5, concordo totalmente). O conteúdo dos itens aborda, em geral, abertura para novas ideias, metas do grupo, bom relacionamento com treinador e equipe, e sentimentos de pertencimento ao grupo. A análise paralela demonstrou a retenção de dois fatores (fator 1 = 44%; fator 2 = 17%) dada a variância dos itens, pelos respectivos dados aleatórios 15% e 13%. Além disso, os índices de ajuste da estrutura com um fator obtiveram valores abaixo do esperado para Comparative Fit Index (CFI = 0,894) e Tucker-Lewis Index (TLI = 0,879), e apresentou valores superiores ao esperado para Root-Mean-Square Error of Approximation (RMSEA = 0,140; Campos et al., 2022).
Procedimentos
Aspectos Éticos
A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade São Francisco (CAAE: 50705221.3.0000.5514). Para os participantes foi assegurado o direito do sigilo sobre os dados coletados e a possibilidade de desistir a qualquer momento da participação, atendendo à Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.
A coleta foi realizada em instituições esportivas e por meio das redes sociais dos pesquisadores, sendo compartilhado um link desenvolvido pelo Google Forms. Somente participaram da pesquisa os atletas que concordaram com o termo de consentimento livre esclarecido e o termo de assentimento livre esclarecido.
Análise de Dados
Com objetivo de estimar a estrutura fatorial foi realizada uma Análise Fatorial Confirmatória (AFC), sendo empregado o método de estimação Diagonal Weighted Least Square (DWLS). Para interpretação dos índices de ajustes, usou o seguinte parâmetro de corte: χ2 /gl ≤ 3; RMSEA ≤ 0,08; CFI ≥ 0,9; e TLI ≥ 0,9 (Brown, 2015).
Em seguida, para identificar a influência do viés de resposta, empregou-se o modelo de Intercepto Randômico (IR) para controle da aquiescência. O que possibilitou estimar os parâmetros mais aprimorados da estrutura fatorial do instrumento (Zanon et al., 2018). A análise usou o método de estimação Diagonal Weighted Least Square (DWLS), considerando os parâmetros já descritos no parágrafo anterior. Seu objetivo foi moldar as diferenças individuais não consideradas nos modelos fatoriais comuns, assim, sendo uma extensão do modelo fatorial confirmatório comum (Maydeu-Olivares & Coffman, 2006).
Para verificar a invariância dos parâmetros dos itens empregou-se o método de Análise Fatorial Confirmatório Multigrupo (AFCMG), usando como método de estimação Diagonal Weighted Least Square (DWLS). Optou-se por comparar três modelos para verificar a equivalência da ECE em atletas de modalidades de equipe e individuais, a saber, modelo configural (estrutura interna), métrico (peso das cargas fatoriais) e escalar (interceptos). A interpretação dos resultados considerou a variabilidades dos índices RMSEA (ΔRSMEA < 0,01), CFI (ΔCFI < 0,01), McDonald (ΔMcDonald < 0,02) e Gamma-hat (ΔGamma-hat < 0,001; Cheung & Rensvold, 2002). Todas as análises foram realizadas usando o software RStudio na linguagem R, por meio do pacote lavaan (Rosseel, 2012).
Resultados
A AFC estimou duas estruturas fatoriais, sendo elas, um fator e de dois fatores correlacionados. Dentre as estruturas, a de dois fatores se ajustou melhor aos dados, visto que apresentou índices de ajustes considerados bons (χ2 = 145,00; gl = 89; CFI = 0,972; TLI = 0,967; e RMSEA = 0,041, IC 90% [0,028; 0,053]). Embora, os itens apresentem a proposta de avaliar um único construto, a estrutura de um fator não demonstrou ser adequada por apresentar índices abaixo do esperado pela literatura em relação a CFI e TLI, além de um valor substancialmente superior para RSMEA (χ2 = 352,72; gl = 90; CFI = 0,871; TLI = 0,849; e RMSEA = 0,088, IC 90% [0,079; 0,098]). As cargas fatoriais para ambas as estruturas carregaram de maneira significativa, para um fator (λ < 0,38) e para dois fatores (primeiro fator: positivo λ < 0,59; segundo fator: negativo λ < 0,44). Com exceção do item 11, que não carregou significativamente em ambos os casos.
Entendendo que o instrumento tem o objetivo de avaliar um único construto, foi empregado a AFC com intercepto randômico, buscando melhorar os parâmetros da estrutura unifatorial, a partir de um controle de aquiescência. Os índices de ajustes ficaram mais adequados, dando suporte a fundamentação teórica ao corroborar com uma estrutura unifatorial (χ2 = 176,26; gl = 88; CFI = 0,957; TLI = 0,948; e RMSEA = 0,052, IC 90% [0,040; 0,063]). Apresenta-se as cargas fatoriais do modelo sem e com controle de aquiescência da ECE (Tabela 1).
As cargas fatoriais dos itens de conteúdo negativo aumentaram substancialmente, em relação aos itens positivos também é possível observar essa melhora, com exceção dos itens 1 e 14. Embora os resultados tenham ficado mais adequados com o controle da aquiescência, o item 11 demonstrou não carregar significativamente ao fator (Tabela 1). Adicionalmente, foi empregado uma AFCMG para testar a equivalência da ECE entre atletas que praticam seu esporte em equipe e atletas que praticam individualmente (Tabela 2).
A variabilidade dos índices ficou acima do esperado, com exceção do modelo métrico para o modelo escalar no RMSEA (Tabela 2). Dessa forma, os resultados sugerem que a ECE não é equivalente entre os dois grupos de atletas (praticantes de modalidades em equipe x praticantes de modalidade individual), indicando que os escores são variantes e que os parâmetros dos itens são enviesados.
Discussão
O objetivo do presente estudo foi buscar novas evidências de validade a respeito da estrutura interna da ECE. Os resultados demonstraram que o modelo controlado a partir do intercepto randômico apresentou índices mais adequados para a estrutura unifatorial, corroborando a hipótese b, ao indicar que há vieses de respostas que influenciaram a interpretabilidade dos dados (Maydeu-Olivares & Coffman, 2006). A AFCMG, conforme esperado, indicou que o instrumento não funciona de forma equivalente entre atletas de modalidades coletivas e individuais (Cheung & Rensvold, 2002).
Conforme os resultados observados no estudo de Campos et al. (2022), a estrutura de dois fatores demonstrou ser mais adequada aos dados da amostra, ao apresentar índices de ajustes adequados. Nessa direção, aplicou-se o modelo de intercepto randômico com intuito de controlar a aquiescência, uma vez que os itens da escala avaliam a conexão, ou seja, apenas um construto. A comparação entre os modelos unifatorias com e sem controle de aquiescência ressaltam o impacto do viés de resposta na estrutura interna do instrumento.
No modelo sem uso do intercepto randômico as cargas fatoriais dos itens negativos foram subestimadas. Além disso, o ajuste do modelo foi enviesado, resultando em índices não admissíveis. Em contraste, o modelo com uso de intercepto randômico, apresentou melhora das cargas fatoriais dos itens negativos e o modelo obteve índices de ajuste aceitáveis (Ziegler, 2015). Dessa forma, os resultados indicam que os vieses não devem ser ignorados na estimação dos escores fatoriais (Valentini et al., 2020).
No que concerne as cargas fatoriais, o item 11 demonstrou um valor inferior em relação aos outros itens, não apresentando valor mais adequado nem no modelo controlado. A baixa carga fatorial do item 11 possivelmente decorre de seu conteúdo, que diferente dos demais itens que se referem especificamente a equipe ou ao treinador, utiliza da expressão “participantes”. Desta forma, os respondentes podem interpretar “participantes” como qualquer sujeito que pertença ao contexto da sua prática esportiva (e.g., treinador, atletas da equipe, adversário, juízes, torcedores etc.). Devido a isso, a carga fatorial do item pode ter sido extremamente penalizada.
A partir do controle de aquiescência os dados apresentaram escores mais confiáveis, com parâmetros mais adequados (Zanon et al., 2018). Tais achados estão alinhados com a perspectiva de que controlar a aquiescência é um procedimento significativo, por reproduzir uma estrutura interna mais adequada que não influencia os dados e não prejudica as evidências de validade do instrumento e fidedignidade dos escores (Valentini, 2017; Zanon et al., 2018).
Os resultados da AFCMG indicam que a escala não funciona de forma equivalente entre os grupos. Isto indica que o instrumento não é capaz de captar diferenças reais entre praticantes de modalidades esportivas coletivas e individuais no que tange a conexão dentro do ambiente esportivo. Devido a invariância ter sido acatada apenas no modelo restrito (configural) diferenças entre os grupos podem refletir apenas erro de medida (Fischer & Karl, 2019; Milfont & Fischer, 2010).
Os resultados, portanto, corroboram com a hipótese “d” do presente estudo, ao sugerir que embora a ECE apresente invariância configural entre os grupos, ou seja da estrutura fatorial, não apresenta estabilidade quanto ao peso dos itens no fator latente (cargas fatoriais) bem como do intercepto dos itens (dificuldade de endosso). Uma das possibilidades para a não invariância pode decorrer do conteúdo dos itens, que quando se referem a relação dos atletas com outros atletas, tem conteúdo voltado para a equipe. Atletas que praticam uma modalidade individual, podem treinar com outros atletas, criar um vínculo e estabelecer confiança, ou seja, uma conexão com outro atleta. No entanto, seu foco não é fazer frente aos desafios competitivos por meio das potencialidades da equipe, visto que tende a competir sozinho.
O conteúdo do item influencia nas cargas fatoriais e no intercepto, prejudicando a equivalência do instrumento para atletas dos dois tipos de modalidade. Na modalidade individual os itens não estariam avaliando o que propõem mensurar, ou seja, a conexão entre atletas. As cargas fatoriais, portanto, tendem a ser inferiores para o grupo de modalidade individual comparado ao grupo de modalidade coletiva, assim, não sendo possível comparar as relações entre os construtos (Brown, 2015), além de indicar que os itens não apresentam a mesma relevância para o construto (Byrne, 2010). No que concerne os interceptos, os resultados sugerem que não há igualdade dos itens, visto que as médias latentes estão distantes entre os dois grupos (Steenkamp & Baumgartner, 1998).
No ambiente esportivo os relacionamentos são componentes essenciais para o desenvolvimento e aprimoramento de habilidades (Santos et al., 2016; Vierimaa et al., 2017). O papel do treinador influencia a relação do atleta com outro atleta, como também está associado a aprendizagem e acolhimento. Nesse cenário, o atleta tende a desenvolver questões de dentro e fora do esporte, por exemplo, liderança, desempenho escolar e relação familiar (Bean et al., 2018). A relação com outros atletas, por sua vez, está associada a motivação e engajamento. Quando os atletas se sentem parte de um grupo, constroem uma conexão com o outro e vivenciam um ambiente de apoio, suas habilidades sociais e pessoais são estimuladas (Bruner et al., 2014).
Diante do exposto, evidencia-se a importância da proposição e refinamento de medidas que mensurem a qualidade dos relacionamentos no contexto esportivo. Tais medidas são capazes de identificar a qualidade das conexões, assim, identificar quais necessitam de intervenções para que sejam aprimoradas e resultem na construção de relações benéficas e de um ambiente que fomente o desenvolvimento positivo dos atletas (Scott et al., 2021; Silva & Peixoto, no prelo; Van Yperen et al., 2021; Yukhymenko- Lescroar, 2021).
Em suma, avançar com instrumentos que têm o objetivo de avaliar os relacionamentos no ambiente esportivo proporciona aos profissionais (e.g., técnicos, educadores físicos e psicólogos do esporte) a compreensão dos sentimentos, emoções e comportamentos do atleta com os outros. Além de auxiliar no planejamento de estratégias para facilitar a conexão, por consequência, estimular que habilidades sejam aprimoradas, como, empatia, liderança, tomada de decisões (Holt et al., 2017; Santos et al., 2016; Vierimaa et al., 2017).
Dessa forma, tais profissionais podem fazer o uso do instrumento considerando uma avaliação mais adequada do construto em diferentes circunstâncias, a depender da demanda da equipe, do atleta individual ou das especificidades do esporte. Um exemplo de aplicação seria em momentos de competição, visto que os atletas estarão mais propensos aos vieses de resposta, dado aos estressores do ambiente e a pressão interna para o desempenho (Coakley et al., 2009; Elendu & Dennis, 2017). Nesse caso, a aplicação da ECE controlada pelo modelo IR possibilita que quem esteja realizando uma avaliação, consiga interpretar as qualidades das relações de maneira mais apropriada e com baixos indícios de vieses de resposta (Maydeu-Olivares & Coffman, 2006; Primi et al., 2019).
Os resultados indicam a adequação do instrumento ao mensurar a conexão em geral. Eles também sugerem que há influência de viés para responder aos itens. Assim, dando suporte para proporcionar uma ferramenta que auxilia profissionais da psicologia e ciências do esporte. Adicionalmente, os resultados contribuem para que a avaliação no contexto esportivo avance, considerando aspectos adaptativos e potencialidades dos atletas, para além dos ganhos competitivos e alta performance, ao operacionalizar uma ferramenta capaz de identificar as relações e habilidades sociais. Contudo, embora os achados sejam relevantes e demonstre avanços para mensuração dos relacionamentos no ambiente esportivo, o presente estudo apresenta algumas limitações.
Não foi possível estimar as diferenças de médias entre os grupos, visto que o instrumento demonstrou não ter equivalência entre os grupos, ou seja, as comparações poderiam estar associadas ao erro de medida, em vez do traço latente. Neste sentido, investimentos para o desenvolvimento de propostas de normatização devem ser realizadas separadamente para atletas de modalidades coletivas e individuais. Recomenda-se que em futuros estudos a ECE passe por adaptações ou sejam incluídos novos itens, pensando em adotar o controle dos vieses de respostas por meio de outras técnicas, por exemplo, a desejabilidade social. Sugere-se adaptar ou construir novos itens empregando quadruplas, neutralização de itens (Costa & Hauck-Filho, 2017; Ziegler, 2015) e na exclusão do item 11, uma vez que não apresentou valores considerados adequados na carga fatorial, em ambos os modelos: sem e com controle da aquiescência.
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Os dados da pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.
