RESUMO
Este artigo investiga o legado teológico do Papa Francisco a partir da articulação de três eixos: (1) o conceito de legado proposto por Marlon Reikdal, entendido como processo de autodescobrimento, compromisso e entrega ao coletivo; (2) a dialética entre preservação da tradição e urgência de reforma, analisada por João Décio Passos; e (3) o núcleo cristológico do pontificado, expresso nos temas da encarnação, kénosis, misericórdia e esperança, a partir da autobiografia Esperança e da Bula A esperança não decepciona. A pesquisa sustenta que o pontificado de Francisco constitui uma práxis teológica humanizadora, na qual a tradição é tratada como fonte viva, a realidade como lugar teológico e a misericórdia como forma concreta do amor divino. Conclui-se que o legado de Francisco é uma teologia encarnada, marcada pela proximidade, pela reforma legítima e pela centralidade do humano como lugar da revelação.
PALAVRAS-CHAVE
Papa Francisco; Legado;
Kénosis
; Encarnação; Esperança
ABSTRACT
This article examines the theological legacy of Pope Francis through the articulation of three axes: (1) the concept of legacy proposed by Marlon Reikdal, understood as a process of self-discovery, commitment, and dedication to the collective; (2) the dialectic between the preservation of tradition and the urgency of reform, analyzed by João Décio Passos; and (3) the christological core of the pontificate, expressed in the themes of incarnation, kénosis, mercy, and hope, based on the autobiography Esperança and the Bull A esperança não decepciona. The study argues that Francis’s pontificate constitutes a humanizing theological praxis, in which tradition is treated as a living source, reality as a theological locus, and mercy as the concrete expression of divine love. It concludes that Francis’s legacy is an embodied theology, marked by proximity, legitimate reform, and the centrality of the human as the place of revelation.
KEYWORDS
Pope Francis; Legacy;
Kénosis
; Incarnation; Hope
Introdução
A reflexão contemporânea sobre o sentido da vida tem sido marcada por um crescente mal-estar existencial, descrito por Marlon Reikdal como uma experiência difusa de insatisfação, esvaziamento interior e desconexão subjetiva. Para o autor, tal sensação não constitui mero fenômeno psicológico individual, mas um sintoma de uma sociedade que perdeu o eixo de consciência, consistência e conexão, substituindo-o por compensações imediatistas e por um “sistema de recompensa” que anestesia a interioridade, como o autor assinala:
Além de manter a mente distraída e ocupada, os recursos da atualidade ativam nosso sistema de recompensa com os aplicativos e as mídias sociais, que mais nos alienam do que nos trazem para a realidade, do mesmo modo que os vícios de toda ordem, como álcool, drogas, sexo, alimentação, jogos, exercícios físicos, entre tantas “ferramentas” construtoras de uma falsa realidade que nos anestesia da vida concreta, de quem somos, do que sentimos e do nosso lugar no mundo (Reikdal, 2022, p. 13).
É nesse horizonte, entre outros, que emerge a pergunta estruturante de sua obra: qual é o seu legado? O termo, frequentemente associado às grandes personalidades ou às realizações extraordinárias, é deslocado por Reikdal para o campo da existência comum. Trata-se menos de feitos monumentais e mais de um processo de autodescobrimento que reconfigura o modo de ser-no-mundo. Perguntar-se sobre o próprio legado representa, já em si, o início de uma transformação, pois desperta o sujeito para novas possibilidades de vida e para a consciência de sua dimensão gregária (Reikdal, 2022, p. 26). O legado, assim compreendido, é inseparável de um processo de entrega e compromisso que rompe com a lógica egocentrada predominante na cultura do desempenho.
Tal diagnóstico pode ser aprofundado à luz de Byung-Chul Han, que identifica na sociedade contemporânea uma lógica de desempenho que conduz à autoexploração e ao esgotamento existencial (Han, 2017). Nesse cenário, o sujeito torna-se simultaneamente explorador e explorado de si mesmo, o que intensifica a sensação de vazio e fragiliza a capacidade de estabelecer vínculos autênticos.
A obra sublinha que o ser humano é constitutivamente “bio-psico-social”, sendo atravessado por discursos, expectativas e valores que moldam suas percepções, escolhas e modos de existir:
Todos reconhecemos que o ser humano é BIO-PSICO-SOCIAL. Há inúmeras ampliações desse modelo, mas todas concordam em pelo menos duas coisas: que somos compostos por pelo menos três dimensões – a biológica, a psicológica e a social – e que precisamos considerar a interação entre essas dimensões para compreender o ser humano
(Reikdal, 2022, p. 17).
Assim, ninguém vive isoladamente nem deixa de afetar o meio em que está inserido: cada gesto, omissão ou palavra participa da construção, ou desconstrução, da vida comum. O legado deixa de ser, portanto, uma decisão tardia ou um gesto intencionalmente excepcional, para tornar-se o efeito inevitável das formas pelas quais o sujeito se relaciona consigo, com os outros e com a sociedade. Mesmo a ausência de reflexão sobre o legado configura-se como legado da indiferença ou da vaidade, ambos atravessados pela lógica do egoísmo (Reikdal, 2022, p. 33).
Nesse contexto, Reikdal critica a ilusória neutralidade das relações cotidianas, evidenciando como a indiferença estrutura comportamentos aparentemente banais: a incapacidade de se afetar pelo sofrimento coletivo, o fechamento em interesses estritamente pessoais e a dificuldade de reconhecer o outro como portador de alteridade. Da mesma forma, desmonta os mecanismos da vaidade, inclusive sua forma “espiritualizada”, quando esta instrumentaliza as ações de cuidado ou compromisso social como modos de autopromoção (Reikdal, 2022, p. 38). Em ambas as dinâmicas, o sujeito abdica do encontro autêntico e contribui para a reprodução de uma sociedade autorreferencial, marcada por solidão, vazio e performatividade.
A análise de Marlon Reikdal encontra ressonância na interpretação de Charles Taylor sobre a modernidade tardia, na qual o sujeito vive sob o signo da fragmentação e da “busca por plenitude” em um horizonte marcado pela imanência (Taylor, 2010). Nesse contexto, a perda de referências transcendentes não elimina o desejo de sentido, mas o desloca para formas difusas e, muitas vezes, insuficientes de realização existencial.
Assim, o conceito de legado elaborado por Reikdal oferece um marco teórico fecundo para compreender trajetórias individuais e até coletivas, em chave de responsabilidade e entrega. Ao situar o legado como fruto do compromisso consigo e com o outro, de um processo de autoconhecimento e de superação das defesas egóicas, sua perspectiva permite interpretar a ação humana como mediação transformadora do mundo.
O conceito de legado elaborado por Reikdal, ao situar a existência no horizonte da responsabilidade e da entrega, constitui um marco teórico-antropológico fecundo para a análise do pontificado de Bergoglio. Deste modo, a interrogação sobre o legado, compreendido como um processo de autotransformação e superação da lógica autocentrada, funciona como uma chave hermenêutica que permite decifrar a ação teológica e pastoral do Papa Francisco. Seu pontificado se revela, assim, como um movimento de oferta de si, de descentralidade e de responsabilidade para com a humanidade, ecoando a kénosis necessária tanto para a trajetória individual quanto para a conversão institucional.
Nas próximas seções, procuraremos articular este marco antropológico com a dialética institucional apresentada por João Décio Passos e com o núcleo cristológico e kenótico da teologia de Francisco, construindo uma interpretação sistemática sobre seu legado teológico. Nas próximas seções, articularemos este marco antropológico com a dialética institucional apresentada por João Décio Passos e com o núcleo cristológico e kenótico da teologia de Francisco, construindo uma interpretação sistemática sobre seu legado teológico.
Além disso, o enquadramento de Reikdal permite iluminar a dimensão relacional do legado, entendida não apenas como transmissão de valores, mas como engendramento de espaços de encontro capazes de reorientar práticas sociais. A ênfase na responsabilidade mútua desloca o eixo interpretativo para além das realizações individuais, destacando os vínculos que sustentam trajetórias humanas. Tal perspectiva revela que o legado não é resultado de gestos excepcionais ou iniciativas heroicas, mas se constitui no cotidiano, quando a pessoa se permite afetar pelo real e responde a ele com disponibilidade ética. Esse horizonte relacional torna-se decisivo, sobretudo em tempos marcados pela fragmentação social e pelo recrudescimento de lógicas meritocráticas que isolam os indivíduos.
Outro aspecto relevante da proposta de Reikdal é sua crítica às formas de autopreservação que operam como barreiras subjetivas à entrega e ao compromisso. Esses mecanismos de defesa, que incluem desde o cinismo até o cálculo estratégico nas relações, comprometem a capacidade de reconhecer a historicidade das próprias escolhas e de perceber o impacto concreto que elas exercem no mundo. Ao situar o legado como um processo que envolve vulnerabilidade e exposição ao outro, Reikdal sublinha que nenhum projeto de vida verdadeiramente significativo se sustenta no fechamento; ao contrário, exige abertura contínua, disposição ao diálogo e coragem para rever convicções estabelecidas. Trata-se de uma antropologia da responsabilidade que se confronta diretamente com o narcisismo estrutural típico das sociedades contemporâneas.
Essa leitura antropológica fornece instrumentos particularmente úteis para compreender a marca singular do pontificado de Francisco, cuja atuação tem sido orientada pela restituição do primado do encontro na vida eclesial e nas relações sociais. A insistência do Papa na cultura do cuidado, na proximidade pastoral e na conversão missionária pode ser compreendida, à luz de Reikdal, como expressão de uma subjetividade que se entende chamada a sair de si para gerar vínculos transformadores. Não se trata apenas de um estilo pessoal, mas de um modo teológico de habitar o ministério petrino, que reposiciona o exercício da autoridade eclesial no horizonte da entrega e da abertura à alteridade. Nesse sentido, o legado de Francisco emerge como prática que rompe com lógicas autorreferenciais e devolve centralidade às periferias existenciais e geográficas.
Por fim, ao articular o conceito de legado com a dimensão histórica da vida eclesial, pode-se reconhecer que a proposta de Reikdal oferece critérios para avaliar não apenas sujeitos individuais, mas também instituições em seu processo de autotransformação. A Igreja, como comunidade marcada por tensões e ambiguidades, encontra no horizonte da responsabilidade e da entrega um caminho para reconfigurar suas estruturas e dinamizar sua presença no mundo. Nessa perspectiva, o pontificado de Francisco não apenas encarna essa dinâmica, mas a provoca institucionalmente, convocando a Igreja a assumir um legado que não se reduz à conservação do passado, mas se projeta na construção de um futuro mais evangélico. Assim, o conceito de legado funciona como um mediador teórico entre antropologia, eclesiologia e prática pastoral, abrindo espaço para compreender a teologia do Papa Francisco como expressão concreta de um processo permanente de conversão.
1 A tensão institucional no pontificado de Francisco
A partir da compreensão de Reikdal sobre o legado como movimento de entrega e responsabilidade para com a coletividade, torna-se possível interpretar o pontificado de Francisco como expressão eclesial dessa mesma lógica antropológica. O papa argentino encarna um modelo de liderança cuja marca fundamental é a tensão entre conservar e transformar, descrita por João Décio Passos como a “dialética do pontificado” (Passos, 2025, p. 51). Trata-se de uma posição estrutural e não apenas estratégica: Francisco age simultaneamente como preservador e reformador, articulando fidelidade à Tradição com sensibilidade aos desafios contemporâneos (Passos, 2025, p. 37).
Para Passos, nenhuma reforma eclesial é legítima quando se coloca fora da continuidade histórica do cristianismo. Renovar não significa romper; ao contrário, significa aprofundar a própria fonte: “toda reforma deve ser inserida na linha da tradição […] ainda que portadora de elementos novos e, até mesmo, radicalmente novos” (Passos, 2025, p. 25). Francisco, segundo o autor, “encarnou em sua personalidade essa ambivalência que busca permanentemente a postura legítima, capaz de renovar sem romper” (Passos, 2025, p. 52). A dialética não é, portanto, mero impasse, mas método teológico, forma de discernimento e chave hermenêutica do seu estilo pastoral. A reflexão de João Décio Passos encontra sólido fundamento na tradição teológica, especialmente em Yves Congar (2002), para quem toda verdadeira reforma eclesial deve conjugar fidelidade à Tradição e abertura ao Espírito que renova a Igreja na história. Assim, a tensão entre conservar e transformar não constitui um problema a ser resolvido, mas uma dinâmica constitutiva da própria vida eclesial.
Essa ambivalência estruturante revela que, para Francisco, a conservação não é um gesto de defesa identitária, mas uma atitude de fidelidade dinâmica ao Evangelho, que permanece vivo apenas quando traduzido em práticas concretas de misericórdia e justiça. Em sua perspectiva, a tradição não funciona como âncora que impede o movimento, mas como raiz que permite à árvore crescer em novas direções sem perder sua seiva vital. É por isso que seu magistério combina referências constantes aos Padres da Igreja, ao Concílio Vaticano II e ao magistério de seus predecessores com diagnósticos agudos da realidade socioambiental contemporânea. A dialética aparece, portanto, como processo espiritual que permite reconhecer a continuidade na mudança, mostrando que a verdadeira fidelidade não é repetição estéril, mas criatividade pastoral orientada pela fonte.
Essa compreensão dialética fundamenta uma prática de governo que se caracteriza pela escuta, pelo discernimento e pela gradualidade. Francisco não concebe a reforma como ruptura abrupta, mas como conversão processual, na qual a Igreja aprende a reconhecer, ao longo do tempo, os chamados do Espírito que emergem da história. Dessa forma, a tensão entre conservar e transformar torna-se critério de maturidade eclesial: reformas que ignoram a tradição perdem profundidade, enquanto conservadorismos que desprezam a realidade perdem relevância missionária. A liderança do papa argentino busca, assim, sustentar esse equilíbrio delicado, no qual a estabilidade da fé e a criatividade pastoral se iluminam mutuamente, configurando seu legado como um dos mais consistentes esforços contemporâneos de unir continuidade e renovação na vida da Igreja.
1.1 A Igreja em saída: o movimento que reforma
O eixo visível desse dinamismo é a imagem da “Igreja em saída”, que Passos (2025, p. 31) identifica como a síntese da intenção reformadora de Francisco. Sair não é apenas deslocar-se espacialmente, mas romper com a autorreferencialidade, compreendida como o maior perigo eclesial. Uma Igreja fechada em si “dispensa duas realidades que justificam sua existência: a origem em Jesus Cristo […] e a realidade presente para a qual ela é enviada” (Passos, 2025, p. 82). A reforma surge, assim, como consequência direta do encontro: a Igreja se reforma quando evangeliza, quando toca o mundo real, quando redescobre Cristo no outro. É por isso que Passos (2025, p. 31) identifica como núcleo da renovação “a volta ao querigma” e ao Cristo vivo na história.
Essa dinâmica de saída conecta-se diretamente ao conceito de legado trabalhado na seção anterior. Assim como o legado, segundo Reikdal, não é uma construção egocentrada, mas um movimento de descentralidade e entrega, também a instituição eclesial só reencontra sua identidade quando abandona o autocentramento e volta-se à missão. A superação da autorreferencialidade, portanto, não é mero ajuste pastoral, mas conversão institucional.
Nesse horizonte, a dialética entre encontro e reforma proposta por Passos permite compreender que a “Igreja em saída” não opera apenas como um slogan mobilizador, mas como uma lógica teológica que reorganiza a própria autocompreensão eclesial. Trata-se de recuperar a consciência de que a identidade da Igreja é dinâmica, relacional e missionária, e que somente no movimento, histórico, pastoral e espiritual, ela se mantém fiel ao Evangelho. A saída, portanto, não é fuga nem ativismo, mas participação no dinamismo do próprio Deus que se comunica, se aproxima e se doa. Ao assumir esse movimento, a Igreja torna-se capaz de engendrar novos modos de presença, ampliar sua capacidade de diálogo e responder criativamente aos desafios contemporâneos, configurando um legado institucional que se expressa em práticas concretas de misericórdia, justiça e acolhida.
1.2 A Tradição como fonte, não como museu
A dialética do pontificado se expressa igualmente em sua compreensão da Tradição. Passos (2025, p. 169) explicita que, para Francisco, tradição não significa acúmulo de normas ancestrais, mas dinâmica vital: “fonte e não museu”. Essa clarificação teológica corrige uma tendência interna à Igreja de absolutizar formas históricas particulares, confundindo continência doutrinal com rigidez disciplinar. A preservação, em Francisco, não significa congelamento, mas proteção da fonte que sustenta a vida espiritual e missionária. A partir disso, o papa pode manter firme a continuidade dos fundamentos e, ao mesmo tempo, admitir “modos de interpretar essa realidade” (Passos, 2025, p. 264). A dialética se resolve aqui não como oposição, mas como complementaridade dinâmica: conservar a fonte para permitir sua fecundidade no presente.
Essa concepção dinâmica da Tradição permite compreender por que Francisco insiste em que a fidelidade cristã não pode ser confundida com repetição mecânica do passado. A Tradição, enquanto realidade viva, exige discernimento histórico, sensibilidade pastoral e capacidade de reconhecimento das mediações culturais que moldam cada época. Nesse sentido, a hermenêutica proposta pelo Papa impede tanto o imobilismo quanto o voluntarismo: não se trata de alterar o núcleo da fé ao sabor das circunstâncias, nem de sacralizar expressões contingentes, mas de permitir que a mesma fonte – o Evangelho vivo – encontre novas formas de presença e inteligibilidade. Assim, a Tradição se revela como força de atualização, orientando a Igreja a responder às urgências contemporâneas sem perder sua identidade.
Portanto, essa leitura da Tradição confere à Igreja uma postura de humildade histórica, reconhecendo que a verdade revelada se expressa sempre de modo humano, situado e perfectível. Tal perspectiva abre espaço para processos de escuta, revisão e purificação, elementos essenciais em uma eclesiologia marcada pela sinodalidade. Ao admitir que a compreensão da realidade pode se ampliar, Francisco reitera que o Espírito continua a conduzir a Igreja através do tempo, iluminando caminhos antes não percebidos. Dessa forma, a dialética entre conservação e renovação transforma-se em critério de autenticidade: quanto mais a Igreja retorna à fonte, mais é chamada a avançar, recriando sua presença no mundo com a mesma ousadia missionária que caracterizou suas origens apostólicas.
1.3 Método: discernimento, sensibilidade e historicidade
Como explica Passos, o método operativo que estrutura o pontificado é o discernimento, pessoal, comunitário e institucional. Francisco faz emergir uma sequência espiritual que orienta sua ação: “sensibilidade-realidade-discernimento-decisão-ação” (Passos, 2025, p. 49). Não se trata de pragmatismo, mas de uma espiritualidade institucional que integra a tradição e a realidade. A prática reformadora é inseparável do método “ver-julgar-agir” (Passos, 2025, p. 172) e da permanente leitura dos sinais dos tempos (Passos, 2025, p. 46 e 211).
Essa chave hermenêutica coloca o magistério numa relação viva com a história, evitando tanto o imobilismo quanto o progressismo acrítico. O critério normativo, insiste Passos (2025, p. 98), é sempre “o coração do Evangelho”, que mantém a doutrina moral “relacionada com a vida e a serviço dela” (Passos, 2025, p. 174). Assim, a renovação não enfraquece a tradição; ao contrário, permite que ela cumpra sua finalidade: gerar vida.
Essa perspectiva permite compreender por que o discernimento, no pontificado de Francisco, não é um mecanismo técnico de tomada de decisões, mas uma atitude teológica que reconhece a ação do Espírito na trama concreta da história. O método não parte de conceitos abstratos, mas da escuta da realidade como lugar teológico, onde Deus continua a falar e a convocar à conversão. Tal escuta envolve afetividade, racionalidade e prudência pastoral, integrando dimensões que tradicionalmente foram separadas na prática institucional. Desse modo, o discernimento impede respostas automáticas e convoca a Igreja a uma postura de responsabilidade diante de situações novas e complexas, especialmente aquelas que desafiam categorias pastorais clássicas.
Fica evidente que o discernimento, enquanto processo comunitário, favorece uma eclesiologia marcada pela corresponsabilidade e pela participação. Ao convocar a Igreja a discernir sinodalmente, Francisco rompe com a lógica de centralização decisória, devolvendo ao povo de Deus a tarefa de interpretar conjuntamente os caminhos do Evangelho no presente. Essa abertura não relativiza o magistério; ao contrário, o insere em um movimento de escuta mútua que enriquece sua autoridade e o torna mais aderente à vida concreta das comunidades. Assim, o método do discernimento se configura como o eixo motor da reforma: ele possibilita que a tradição, iluminada pelo Evangelho e interpelada pela realidade, gere decisões que promovam justiça, misericórdia e cuidado, sinais efetivos do Reino em meio à história.
1.4 Implicações: uma instituição que assume seu legado público
A dialética entre preservação e renovação confere ao pontificado um caráter profundamente relacional e histórico. Francisco considera que a missão da Igreja só se realiza quando se encarna na realidade concreta e plural, reconhecendo no diferente uma obra de Deus (Passos, 2025, p. 140). A instituição, assim, assume seu “legado público” por meio da proximidade com a história humana: acolhendo os pobres, defendendo a casa comum, promovendo a misericórdia (Passos, 2025, p. 112, 195, 212).
Esse movimento continua a lógica antropológica proposta por Reikdal: um legado só se constrói quando se abandona a centralidade do eu para abrir espaço ao outro. Do mesmo modo, a Igreja de Francisco abandona a segurança da autorreferência para entrar na vulnerabilidade do encontro. A dialética institucional é, portanto, expressão teológica de uma espiritualidade de entrega. Essa compreensão relacional da Igreja encontra respaldo na eclesiologia trinitária de Bruno Forte (1995), que entende a Igreja como comunhão que nasce do dinamismo do Deus trino e se expressa na participação, na missão e na abertura ao outro. Tal perspectiva ilumina o pontificado de Francisco como atualização histórica de uma Igreja essencialmente relacional e missionária.
Nesse sentido, o caráter histórico-relacional do pontificado não se reduz a um estilo pastoral, mas expressa uma concepção teológica da missão como participação no movimento encarnatório do próprio Deus. Ao insistir que a realidade é superior à ideia, Francisco afirma que a graça opera na história concreta e que a Igreja precisa interpretar suas práticas, estruturas e prioridades a partir desse chão encarnado. Isso implica reconhecer que cada contexto humano porta possibilidades de revelação e de conversão, de modo que a missão não consiste apenas em transmitir conteúdos doutrinais, mas em permitir que o Evangelho ilumine e transforme as realidades sociais, culturais e ambientais. Desse modo, a renovação eclesial se articula diretamente com a ética do cuidado, que se torna eixo transversal de todo o pontificado.
Por outro lado, ao entender o encontro como espaço teológico, Francisco oferece uma correção crítica às formas de autorreferencialidade que historicamente geraram distanciamentos, exclusões e rigidezes institucionais. A vulnerabilidade do encontro, que supõe escuta, humildade e disposição para aprender, torna-se critério de autenticidade espiritual para a Igreja. Assim, a dialética institucional não é apenas um método de governo, mas um modo de compreender a própria identidade eclesial como realidade sempre inacabada, chamada a uma conversão permanente. A espiritualidade de entrega, portanto, revela-se não apenas como experiência individual, mas como horizonte estrutural de uma Igreja que deseja ser sinal vivo do Evangelho no mundo.
2 O núcleo teológico do pontificado: kénosis, encarnação e humanização
A partir da dialética entre preservação e renovação destacada por Passos, o núcleo teológico do pontificado de Francisco revela-se profundamente enraizado na lógica cristológica da encarnação e da kénosis. O papa não formula essa teologia em categorias acadêmicas abstratas; ao contrário, sua reflexão emerge da experiência espiritual, pastoral e humana, expressa tanto em sua autobiografia (Esperança) quanto nos documentos magisteriais, como a Bula Spes non confundit (2025).
A partir desses textos, torna-se evidente que a chave interpretativa de seu legado teológico é a convicção de que Deus se revela não fora, mas na carne, nas fragilidades humanas e nos dramas concretos da história, e que a Igreja só pode ser fiel ao Evangelho quando assume essa mesma lógica de encarnação.
2.1 A kénosis como estrutura espiritual e pastoral
A autobiografia de Francisco deixa transparecer uma espiritualidade marcada pela descentralização do eu, coerente com o movimento kenótico do Filho de Deus em Filipenses 2. Ao afirmar que “aproximar-se realmente dos outros […] significa não ter medo de entrar nem mesmo em suas trevas” (Bergoglio, 2025, p. 114), o papa descreve a própria dinâmica da encarnação: Deus entra nas sombras humanas, não permanece fora delas. A kénosis deixa de ser conceito a ser ensinado e torna-se gesto a ser vivido, movimento de descida e proximidade.
Essa lógica se estende à dimensão moral e antropológica. Quando Francisco diz que “Deus está na vida de cada um […] mesmo que a vida da pessoa seja um desastre” (Bergoglio, 2025, p. 147), está afirmando o núcleo da fé cristã: a graça antecede a conversão, e o amor divino precede qualquer mérito humano. A kénosis de Deus se expressa, portanto, como solidariedade radical com a condição humana, inclusive com suas zonas de ruína.
Ao interpretar o pecado como “pobreza a ser redimida, escravidão a ser alforriada” (Bergoglio, 2025, p. 150), Francisco retoma a tradição patrística que vê o pecado como enfermidade e o Cristo como médico da alma. A ênfase não recai na acusação moral, mas na possibilidade de libertação, outro desdobramento kenótico, no qual a misericórdia constitui o verdadeiro poder de Deus. O deslocamento da rigidez, “uma heresia cotidiana” que “confunde a Igreja com uma fortaleza” (Bergoglio, 2025, p. 355), é também expressão dessa espiritualidade. A kénosis implica renunciar ao controle e à pretensão de segurança total: “a liberdade é risco” (Bergoglio, 2025, p. 356). Em termos teológicos, trata-se de reconhecer que o encontro com Deus acontece na vulnerabilidade, não na autorreferência.
2.2 A encarnação como método: ver Deus na carne do mundo
Se a kénosis é o eixo espiritual, a encarnação é o método teológico fundamental para Francisco. A insistência na “diversidade que se faz harmonia na unidade” (Bergoglio, 2025, p. 56) e na “diversidade reconciliada” como antídoto contra toda uniformidade impositiva (Bergoglio, 2025, p. 65) mostra que a lógica do Verbo feito carne inclui a pluralidade como valor teológico.
Encarnação significa, para Francisco:
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Entrar nas trevas dos outros, sem medo (p. 114);
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Ver antes a pessoa, não as ações (p. 56);
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Ouvir o grito dos pobres e da casa comum (p. 359-360);
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Reconhecer Deus presente em toda vida humana (p. 147).
Trata-se de uma hermenêutica teológica: a imanência torna-se lugar da transcendência. A Bula A esperança não decepciona (Spes non confundit – SNC) reforça esse princípio ao afirmar que a esperança se alimenta dos “sinais dos tempos” e do “abundante bem que existe no mundo” (SNC, n. 7). O método encarnacional, portanto, exige atenção contemplativa à realidade, acompanhada de paciência, peregrinação e silêncio (SNC, n. 4-5). A realidade, especialmente a realidade ferida, é o lugar onde Deus acontece.
Essa insistência na carne como lugar teológico converge com a antropologia espiritual da autobiografia, onde o papa afirma que “só o coração é capaz de unificar e harmonizar a nossa história pessoal” (Bergoglio, 2025, p. 349). Contra o narcisismo e a autorreferencialidade, que “roubam o futuro” e “matam a esperança” (Bergoglio, 2025, p. 359), o cristianismo propõe uma abertura radical ao outro. A fé cristã, portanto, é inseparável de uma sensibilidade encarnada.
2.3 A misericórdia: síntese entre kénosis e encarnação
A misericórdia aparece, em ambos os textos, como consequência direta da encarnação e expressão madura da kénosis. Ela é o “amor que se torna próximo e concreto” (Bergoglio, 2025, p. 359-360). Não é uma categoria moral suavizada, mas o próprio modo de Deus ser Deus no mundo. A Bula mostra que toda esperança cristã nasce do amor de Deus que “não decepciona” (SNC, n. 1-2), e que a reconciliação sacramental é o lugar onde esse amor “destrói os pecados, sara o coração e nos levanta” (SNC, n. 23). A misericórdia é força criativa que reconstrói a vida humana e dá acesso ao futuro.
Na autobiografia, isso se torna ainda mais concreto:
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A misericórdia é antídoto contra o clericalismo, “ideologia que toma o lugar do Evangelho” (Bergoglio, 2025, p. 254);
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É princípio de justiça: “não é possível amar com armas em punho” (Bergoglio, 2025, p. 198);
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É princípio de paz, que renuncia à humilhação do adversário (Bergoglio, 2025, p. 299).
A misericórdia é, portanto, a forma teológica primordial do amor encarnado, manifestando-se como um movimento essencialmente kenótico de autodespojamento e descida compassiva em direção ao sofrimento humano. Não se trata apenas de um sentimento ou de uma virtude abstrata, mas de uma ação divina que se concretiza na história, assumindo a fragilidade da condição humana para elevá-la e redimi-la.
2.4 A humanização do divino: Deus como proximidade
A teologia de Francisco tem uma tese implícita: Deus se humaniza para que o humano seja autenticamente humanizado. Há uma profunda convergência entre essa tese e o conceito de legado de Reikdal, que aponta a autotransformação e a responsabilidade como modos de impactar o mundo. Essa lógica da humanização, central na teologia franciscana, não constitui apenas uma formulação doutrinal, mas um princípio hermenêutico que orienta o modo como Francisco lê a realidade, interpreta o Evangelho e conduz a Igreja. A encarnação deixa de ser um mero dado dogmático para tornar-se critério de discernimento pastoral: toda ação eclesial que aproxima, dignifica e cuida da vida humana corresponde ao movimento de Deus; toda prática que afasta, endurece ou desumaniza contradiz o próprio coração do Evangelho. Nesse sentido, a misericórdia, entendida não como concessão moral, mas como forma divina de se relacionar com a fragilidade, aparece como eixo teológico que sustenta a reforma proposta pelo papa. A humanização é, assim, o ponto de encontro entre a cristologia encarnatória e sua visão antropológica e social.
Nesse horizonte, a convergência com Reikdal torna-se ainda mais evidente: se o legado exige que o sujeito se transforme para transformar, Francisco propõe que a Igreja, para ser fiel à sua missão, também se deixe transformar pelo encontro com os rostos concretos da humanidade. O processo de autotransformação pessoal, descrito por Reikdal, ganha aqui dimensão eclesial e missionária: a Igreja só deixa um legado significativo quando supera suas formas de indiferença, revisa suas estruturas e assume uma postura de saída, cuidado e responsabilidade. Assim, a humanização operada por Deus em Cristo torna-se paradigma da humanização que a Igreja é chamada a realizar no mundo, um legado que não se expressa em monumentos ou documentos, mas na capacidade de gerar vida, proximidade e justiça.
A humanização de Deus aparece de várias maneiras:
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Deus está “em cada vida”, mesmo nas mais destruídas (Bergoglio, 2025, p. 147);
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A esperança é virtude para quem “não se fecha na escuridão” (Bergoglio, 2025, p. 359);
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A fé cristã gera alegria: “um cristão triste é sempre apenas um triste cristão” (Bergoglio, 2025, p. 323);
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A ternura é método teológico e antropológico (Bergoglio, 2025, p. 359-360);
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A educação é ato de esperança e gesto encarnado que prepara o futuro (Bergoglio, 2025, p. 334-335).
A humanização do divino não nega a transcendência: torna-a acessível. Deus se aproxima para levantar, libertar e recriar. Essa proximidade, longe de diluir o mistério, revela que a transcendência de Deus é amor ativo, capaz de entrar na história sem perder sua soberania. Em Francisco, essa verdade se traduz em uma espiritualidade que recusa tanto o espiritualismo desencarnado quanto o imanentismo reducionista: Deus é maior do que tudo, mas sua grandeza manifesta-se justamente na disposição de compartilhar a vulnerabilidade humana. A kénosis não diminui a divindade, mas a revela como força de serviço, compaixão e cuidado.
Por isso, a transcendência divina, ao se fazer próxima, redefine também a forma como o humano é chamado a existir. A fé cristã, na leitura de Francisco, não conduz a uma fuga do mundo, mas a uma presença transformadora nele. A dinâmica de aproximação divina torna-se modelo para a aproximação humana: assim como Deus se inclina para restaurar, também o cristão e, em sentido mais amplo, a própria Igreja, é convocado a inclinar-se diante do sofrimento, das periferias e da criação ferida. A transcendência acessível torna-se, assim, fundamento de uma ética da responsabilidade e do cuidado, na qual a experiência de ser alcançado por Deus gera o compromisso de alcançar os outros com a mesma ternura que se recebeu.
2.5 Convergência com Reikdal e Passos: o legado teológico de Francisco
A convergência entre Reikdal e Passos torna-se especialmente clara quando se observa que o legado teológico de Francisco não se limita a conteúdos doutrinais, mas se expressa como forma de ser, de agir e de interpretar a missão. Reikdal ilumina a dimensão antropológica dessa dinâmica: toda transformação autêntica nasce de um movimento de descentralização, de entrega e de responsabilidade. Essa lógica encontra eco direto na prática pastoral de Francisco, cujas iniciativas rumo à sinodalidade, à ecologia integral e à cultura do encontro visam precisamente romper os mecanismos de autopreservação e produzir vínculos capazes de gerar vida e renovação. O legado, nesse sentido, é o traço espiritual que permanece quando a Igreja se deixa mover pelo outro, o pobre, o vulnerável, o esquecido e, descobre aí, sua própria verdade mais profunda.
Ao mesmo tempo, a leitura de Passos evidencia que essa entrega transformadora não ocorre fora da Tradição, mas brota de sua fonte mais originária: o Cristo encarnado. A reforma empreendida por Francisco é inseparável de sua cristologia kenótica, que vê na humildade de Deus o critério último para interpretar a autoridade, a doutrina e a missão. O que emerge, então, é uma teologia em que a kénosis não é apenas um tema, mas um método: a Palavra se faz carne, a misericórdia se faz critério, a doutrina se faz vida, a Igreja se faz próxima. Nesse horizonte, o legado teológico de Francisco consiste em integrar fidelidade e criatividade, tradição e reforma, transcendência e proximidade, oferecendo à Igreja do século XXI uma forma de testemunhar o Evangelho que une profundidade espiritual e impacto histórico.
Conclusão
A articulação entre o conceito de legado apresentado por Marlon Reikdal, a dialética institucional analisada por João Décio Passos e o núcleo cristológico da teologia de Francisco revela uma coerência estrutural que permite compreender o pontificado atual como um processo de humanização teológica. Em Reikdal, o legado não se reduz a feitos extraordinários, mas corresponde a um movimento de autodescobrimento, descentralidade e compromisso que transforma o sujeito e o contexto no qual ele está inserido. Essa compreensão desloca a atenção do indivíduo para o comum, e destaca a responsabilidade como elemento constitutivo de uma existência significativa.
Em Passos, o pontificado de Francisco aparece como expressão institucional dessa mesma lógica: uma liderança que preserva e reforma, que mantém a continuidade da Tradição ao mesmo tempo em que ousa renová-la. A dialética entre fidelidade às fontes e sensibilidade aos sinais dos tempos constitui não apenas um método de governo, mas um modo de existir eclesial. O dinamismo entre conservação e atualização mostra que a tradição viva não é estática, mas fonte perene de discernimento e ação histórica (Passos, 2025).
Por fim, na teologia de Francisco, especialmente visível em sua autobiografia e na Bula A esperança não decepciona, esse movimento ganha sua fundamentação mais profunda: a encarnação e a kénosis como modos de Deus ser Deus e como critérios normativos da ação cristã. O papa insiste que Deus se faz presente “na vida de cada pessoa”, inclusive na vida “destruída” (Bergoglio, 2025, p. 147), e que a misericórdia é a forma concreta pela qual esse amor se traduz na história. A esperança cristã, assim, não é otimismo ingênuo, mas virtude escatológica que mantém o coração aberto ao futuro mesmo em meio à escuridão (SNC, n. 25; Bergoglio, 2025, p. 359).
Dessa convergência emerge uma compreensão específica do legado teológico de Francisco: trata-se de uma práxis encarnatória, que integra espiritualidade, discernimento institucional, sensibilidade pastoral e compromisso sociopolítico. Seu legado é kenótico porque renuncia à autorreferência e busca a proximidade; é encarnacional porque reconhece Deus na carne do mundo; é eclesial porque reforma sem romper; e é profundamente humano porque vê no sofrimento, na alegria e nos dramas concretos da história os lugares privilegiados da revelação.
Na perspectiva de Reikdal, Francisco encarna o movimento de descentralidade que abre espaço para o outro e, ao fazê-lo, reconfigura seu próprio sentido de missão. Na chave de Passos, seu pontificado é lugar de tensão fecunda entre tradição e novidade, no qual a reforma brota não da ruptura, mas do retorno às fontes. E, no testemunho do próprio papa, o cristianismo só se torna credível quando assume a lógica de Deus: ternura, proximidade, misericórdia, esperança e alegria. Assim, o legado teológico de Francisco pode ser compreendido como um convite, dirigido à Igreja e ao mundo, para reencontrar, no coração da fé cristã, a força transformadora de um Deus que se faz próximo, pobre e humano. Seu pontificado propõe que somente uma Igreja que assume sua própria kénosis poderá anunciar a esperança que não decepciona; somente uma tradição que se deixa fecundar pela vida poderá permanecer viva; e somente um cristianismo encarnado poderá oferecer ao mundo o futuro que ele tanto necessita.
Em síntese, o legado de Francisco é o de uma teologia que toca a carne da realidade e, por isso mesmo, a transforma, uma teologia cuja fidelidade se mede não apenas pela ortodoxia das palavras, mas pela humanidade das práticas. É nesse ponto que convergem antropologia, eclesiologia e cristologia: no chamado a construir, com os gestos concretos da misericórdia, um mundo no qual Deus possa novamente tornar-se visível.
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Referências
- BERGOGLIO, Jorge Mario. Esperança: autobiografia. São Paulo: Fontanar, 2025.
- CONGAR, Yves. Verdadeira e falsa reforma na Igreja São Paulo: Paulinas, 2002.
- FORTE, Bruno. A Igreja da Trindade São Paulo: Paulinas, 1995.
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FRANCISCO. Spes non confundit. Bula de proclamação do jubileu ordinário do ano 2025. 09 de maio de 2024. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/20240509_spes-non-confundit_bolla-giubileo2025.html Acesso em: 27 nov. 2025.
» https://www.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/20240509_spes-non-confundit_bolla-giubileo2025.html - HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço Petrópolis: Vozes, 2017.
- PASSOS, João Décio. O pontificado do Papa Francisco: entre a preservação e a renovação. São Paulo: Paulinas, 2025.
- REIKDAL, Marlon. Qual é o seu legado? Entrega, compromisso, autodescobrimento. Petrópolis: Vozes Nobilis, 2022.
- TAYLOR, Charles. Uma era secular São Leopoldo: Unisinos, 2010.
Editado por
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Editores:
Márcia Eloi Rodrigues e Franklin Alves Pereira
