RESUMO
Este artigo analisa os primeiros discursos proferidos pelos papas na sacada da Basílica de São Pedro após a fórmula habemus papam, momento em que se apresentam ao mundo. Com base na praxiologia de Pierre Bourdieu (2022), especialmente nas noções de campo, habitus, capital simbólico e economia das trocas linguísticas, examinam-se as alocuções inaugurais de João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV, identificando continuidades e deslocamentos. Sustenta-se que esse pronunciamento constitui um rito performativo de legitimação e de instituição do habitus linguístico pontifício. No caso de Francisco, argumenta-se que seu gesto inaugural expressa uma reconfiguração teológica da autoridade eclesial, antecipando categorias centrais de seu magistério, como misericórdia e sinodalidade. Assim, propõe-se que seu legado pode ser compreendido também pela performatividade de sua linguagem, na qual estilo e teologia se articulam no mesmo ato de fala.
PALAVRAS-CHAVE
Para Francisco; Discurso religioso; Bourdieu; Trocas linguísticas
ABSTRACT
This article examines the first speeches delivered by popes from the balcony of St. Peter’s Basilica following the formula habemus papam, the moment in which they present themselves to the world. Drawing on Pierre Bourdieu’s praxeology (2022) – particularly the concepts of field, habitus, symbolic capital, and the economy of linguistic exchanges – the study analyzes the inaugural addresses of John Paul II, Benedict XVI, Francis, and Leo XIV, identifying continuities and shifts among them. It argues that this initial pronouncement functions not merely as a symbolic rite of legitimation, but as a performative act that institutes the pontifical linguistic habitus. In the specific case of Francis, the article contends that his inaugural gesture represents a theological reconfiguration of ecclesial authority, anticipating central categories of his magisterium, such as mercy and synodality. The study therefore proposes that Francis’s theological legacy can also be understood through the performative dimension of his language, in which style and theology converge within a single speech act.
KEYWORDS
Pope Francis; Religious discourse; Bourdieu; Linguistic exchanges
Introdução
O recente falecimento do papa Francisco, seguido da eleição de Leão XIV, fez com que o mundo inteiro voltasse seus olhos para um dos ritos mais emblemáticos do campo religioso: a eleição de um pontífice1. De fato, assim que se anuncia a morte de um papa, dois movimentos emergem quase paralelamente: por um lado, o luto entre os católicos – e também entre muitos não católicos –; por outro, a expectativa de que, em breve, o mundo escutará novamente a icônica fórmula latina Habemus papam. Contudo, mais do que um acontecimento midiático ou litúrgico, esse momento inaugura um ato performativo de grande densidade simbólica e teológica.
O primeiro discurso do novo pontífice, proferido na sacada da Basílica de São Pedro, constitui não apenas uma apresentação formal, mas um gesto de instituição que articula tradição, autoridade e autointerpretação da Igreja diante do mundo contemporâneo.
Se, sob a perspectiva sociológica, trata-se de um investimento na economia das trocas linguísticas (Bourdieu, 2022) que legitima o novo agente no interior do campo religioso, sob a perspectiva teológica esse instante pode revelar algo ainda mais profundo: o modo como o próprio exercício do primado petrino é compreendido e performado. O caso de Francisco é particularmente significativo. Seu discurso inaugural, marcado por deslocamentos simbólicos evidentes, parece antecipar categorias que atravessarão todo o seu magistério, como misericórdia, sinodalidade e fraternidade2.
Nesse sentido, a análise dos discursos inaugurais não se restringe a uma investigação sobre estilo ou retórica, mas permite perguntar se, no ato mesmo da primeira palavra pública, já se manifesta aquilo que poderíamos chamar de uma forma histórica concreta de teologia. O recurso à praxiologia de Pierre Bourdieu não visa reduzir o fenômeno eclesial a suas condições sociais de produção, mas iluminar a dimensão histórica e performativa do exercício da autoridade. Se a teologia se ocupa do conteúdo normativo da fé, ela não pode prescindir das mediações concretas por meio das quais tal conteúdo é comunicado, recebido e reconhecido. A linguagem, nesse sentido, não é mero veículo neutro, mas lugar teologicamente significativo. Analisar o discurso inaugural papal à luz da sociologia das trocas linguísticas permite compreender como a autoridade se constitui historicamente sem, contudo, esgotar sua densidade propriamente teológica.
Essa relação entre a teologia e outras áreas que se debruçam sobre o fenômeno religioso, como a sociologia, ainda que comporte tensões, representa um enriquecimento recíproco: “elas estão postas, uma diante da outra, como delimitadores úteis ao avanço da reflexão de cada uma” (Soares, 2013, p. 659).
Este artigo propõe, portanto, uma análise interpretativa dos discursos inaugurais de quatro pontífices – João Paulo II (1978), Bento XVI (2005), Francisco (2013) e Leão XIV (2025) – à luz da praxiologia de Pierre Bourdieu, especialmente sua teoria da economia das trocas linguísticas. Ao examinar continuidades e deslocamentos no habitus linguístico pontifício, sustenta-se que o discurso inaugural constitui um momento privilegiado de instituição simbólica. No caso específico de Francisco, argumenta-se que tal performatividade linguística não se limita à estratégia de legitimação, mas expressa uma reconfiguração teológica do modo de exercer a autoridade eclesial. É o que procuraremos demonstrar a seguir.
1 A construção de um discurso: o habitus linguístico
A eleição de um novo papa mobiliza enorme interesse e torna seus discursos inaugurais momentos de forte simbolismo e performatividade institucional. Para compreendê-los, é preciso uma teoria que articule linguagem, poder e estrutura social – tarefa para a qual a sociologia de Pierre Bourdieu se mostra particularmente fecunda.
Ao superar dicotomias como sujeito/estrutura e ação/instituição, Bourdieu (2011a) desenvolve uma teoria das práticas – a praxiologia – que dá origem a uma “análise da relação entre as posições sociais (conceito relacional), as disposições (ou os habitus) e as tomadas de posição, as ‘escolhas’ que os agentes sociais fazem nos domínios mais diferentes da prática, na cozinha ou no esporte, na música ou na política” (Bourdieu, 2011a, p. 18).
Assim, duas noções centrais emergem: campo e habitus. O campo é um “espaço de posições e de oposições entre as posições, um espaço de posições possíveis, antagônicas e incompatíveis de tal maneira que poderíamos quase deduzir quais seriam as tomadas de posição a partir das posições” (Bourdieu, 2021, p. 417), marcado por disputas entre conservação e reivindicação de poder. Já o habitus refere-se a disposições geradoras de práticas, “produzidos pelos condicionamentos sociais associados à condição correspondente e, pela intermediação desses habitus e de suas capacidades geradoras” (Bourdieu, 2011a, p. 21), sendo também “estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores e organizadores de práticas e de representações” (Bourdieu, 2009, p. 87). Campo e agente, assim, agem reciprocamente.
Essa teoria alcança fenômenos como linguagem e religião. Ao propor a economia das trocas linguísticas, Bourdieu afasta-se do estruturalismo de Saussure e Chomsky e compreende o discurso como prática social estratégica, situada em campos atravessados por disputas simbólicas.
Para Bourdieu, o discurso é um ato de fala (Bourdieu, 2022), expressão que revela uma via de mão dupla: toda prática social – o ato – é carregada de simbólico – a fala – e todo discurso produz efeitos concretos no campo social. Em outras palavras, toda fala tem consequências práticas, assim como toda prática é atravessada por linguagem e significado. Antes de analisar os pronunciamentos papais, é preciso, portanto, considerar o que a teoria das trocas linguísticas oferece como categorias de análise e sua relação com a religião.
Se o discurso é um ato e as práticas sociais se vinculam ao habitus, então também há práticas discursivas estruturadas por um habitus linguístico. O discurso, assim, é condicionado pelas estruturas do campo e, ao mesmo tempo, contribui para estruturá-lo, pois o habitus consiste em estruturas estruturadas e estruturantes.
Daí porque, para Bourdieu (2022, p. 24), é possível falar em habitus linguístico: “uma certa propensão a falar e a dizer coisas [...] como capacidade linguística de engendramento infinito de discursos gramaticalmente conformes e como capacidade social que permite utilizar adequadamente essa competência numa situação determinada”. Ou seja, é o habitus linguístico que confere ao falante a capacidade, não apenas de gerar o discurso, mas de fazê-lo bem-sucedido – ou não – dentro de um determinado campo, ou seja, dentro das estruturas do mercado linguístico, com suas regras e restrições.
Será, portanto, na relação entre o habitus e o mercado linguísticos que Bourdieu colocará a sua atenção, afinal, não é possível compreender um discurso sem necessariamente colocá-lo em perspectiva, justamente diante das condições de produção e daqueles que o recebem.
As produções do mesmo habitus linguístico variam conforme o mercado, e toda observação linguística registra um discurso como produto da relação entre uma competência linguística e esse mercado particular que vem a ser a situação de pesquisa, mercado dotado de um elevado grau de tensão
(Bourdieu, 2022, p. 59).
Temos, assim, mais uma vez, a premissa da praxiologia bourdiesiana: a distribuição do poder dentro do campo não é igualitária, fazendo com que haja, dentro dele, uma permanente disputa, tensionando os falantes, atribuindo valores e preços desiguais aos distintos discursos. Não é difícil compreender: em uma sala de aula, por exemplo, o discurso do professor tem um valor – um preço – diferente daquele de um aluno. Isso, segundo Bourdieu, porque dentro de qualquer campo a distribuição de capitais também é diferente.
Avançando na noção marxista de capital, Bourdieu (2023) amplia o conceito para além do aspecto financeiro, entendendo-o como tudo aquilo que pode ser acumulado, transmitido e convertido em poder no campo social. Destaca quatro formas principais: econômico, cultural, social e simbólico. O poder, assim, distribui-se desigualmente conforme a disparidade de capitais entre os agentes. No mercado linguístico, o valor de um discurso depende justamente dos capitais envolvidos nas trocas. Isso explica a relevância da primeira alocução de um novo papa: independentemente de sua trajetória pessoal, ele herda um capital que o ultrapassa – o capital simbólico pontifício. Sociologicamente, o interesse recai menos sobre o indivíduo e mais sobre o capital que ele passa a encarnar.
Podemos afirmar que “o que se exprime através do habitus linguístico é todo o habitus de classe do qual ele constitui uma dimensão, ou seja, de fato, a posição ocupada, sincrônica e diacronicamente, na estrutura social” (Bourdieu, 2022, p. 71). Assim, no ato de fala de um papa estão as marcas de um habitus pontifício – ligado à classe pontifícia e ao seu capital simbólico – articulado ao habitus pessoal de quem ocupa o cargo, em disputa no mercado linguístico do campo social.
A fala papal é marcada pela classe responsável pela manutenção da “língua legítima” (Bourdieu, 2022, p. 45) e pela conservação da doxa, definida como “todo o conjunto daquilo que é admitido como garantido, e em particular os sistemas de classificação que determinam o que é julgado interessante e sem interesse, o que ninguém pensa que mereça ser contado, porque não há demanda” (Bourdieu, 2019, p 81).
Contudo, o habitus pontifício não se reduz à classe: o habitus pessoal também o molda, influenciando o grau de ortodoxia ou heterodoxia. O papa deve conservar a doxa, mas o faz segundo seu próprio manejo, podendo acentuar continuidades ou rupturas.
Desse modo, o habitus pontifício pode ser entendido como habitus clivado, “movido por tensões e contradições [...] feita de rebelião e submissão, de ruptura e esperança, que talvez esteja na raiz de uma relação consigo igualmente ambivalente e contraditória” (Bourdieu, 2005, p. 123). Essa clivagem aparece no habitus linguístico de cada papa, onde se tensionam a linguagem da função e a linguagem da pessoa no mercado religioso.
Tendo já começado a descrever a relação entre discurso e religião, é necessário que apresentemos o modo como Bourdieu entende o campo religioso, espaço em que se dão os discursos que iremos analisar.
Influenciado pela sociologia da religião de Max Weber, Bourdieu explica o campo religioso como uma língua, como um instrumento de comunicação e conhecimento, estruturado a partir de símbolos e ao mesmo tempo estruturando o que está à sua volta. Daí porque ele relaciona a religião com a economia dos bens simbólicos, e igualmente com as trocas linguísticas.
A religião contribui para a imposição (dissimulada) dos princípios de estruturação da percepção e do pensamento do mundo e, em particular, do mundo social, na medida em que impõe um sistema de práticas e de representações cuja estrutura objetivamente fundada em um princípio de divisão política apresenta-se como a estrutura natural-sobrenatural do cosmos
(Bourdieu, 2015, p. 33-34).
Nesse sentido, é possível compreender o alcance da religião em toda sociedade, seja ela qual for, justamente porque, a partir das crenças e de suas explicações, entre outros fatores, o conjunto da sociedade tende a se organizar. Isso significa que os princípios sobrenaturais dos sistemas religiosos incidem diretamente na concretude ordinária da vida das pessoas, assumindo uma expressão “mais ou menos transfigurada das estratégias dos diferentes grupos de especialistas em competição pelo monopólio da gestão dos bens de salvação e das diferentes classes interessadas por seus serviços” (Bourdieu, 2015, p. 32).
A questão é que, ainda segundo essa perspectiva, a “empresa religiosa”, para que funcione bem, precisa recalcar o seu funcionamento paradoxal, não evidenciando o seu caráter eminentemente humano, secular e ordinário. Ou seja, existiriam nela duas verdades, por exemplo: a econômica e a religiosa, essa última recusando a primeira.
Assim, realiza-se uma espécie de transfiguração que, segundo Bourdieu (2011b, p. 187), “é essencialmente verbal: para poder fazer o que se faz, acreditando (se) que não se faz, é preciso dizer (se) que se faz outra coisa, diferente da que se faz, é preciso fazê-la dizendo (se) que não a estamos fazendo, como se não a fizéssemos”. Para ele, tudo isso gera um processo de “eufemização” das relações, escamoteando-se a razão íntima delas e negando as situações de exploração.
Esse modo de funcionamento só pode ser mantido mediante um coletivo e bem fundamentado mecanismo de habitus, isto é, disposições herdadas e transmitidas entre gerações, “um acordo não intencionalmente firmado ou concluído entre as disposições dos agentes direta ou indiretamente interessados” (Bourdieu, 2011b, p. 193). Na relação entre o papa e os fiéis, logo após o habemus papam, estabelece-se um assentimento de trocas linguísticas que legitima aquele que passa a governar a Igreja.
Para que a regularidade do campo se sustente, são necessárias crenças e princípios tidos como “óbvios” e “naturais”, que orientam as práticas cotidianas, isto é, “ou seja, essa espécie de experiência do mundo social puramente disposicional, pré-explícita, pré-tética, infraconsciente, infraverbal, que orienta a maioria das ações ordinárias” (Bourdieu, 2020, p. 94-95). Esse “é assim” produz a impressão de estabilidade.
Tal estabilidade, contudo, não é definitiva. O habitus é dinâmico e as estruturas sociais – estruturadas e estruturantes – mantêm-se em constante correlação. Em contextos de crise, quando se abrem fissuras políticas, econômicas e culturais, tornam-se possíveis os questionamentos dos “a priori”; a doxa se fragiliza e emergem disputas entre conservação e transformação. Nesse cenário, as trocas linguísticas tornam-se decisivas, cabendo ao pontífice articulá-las para preservar a relevância da Igreja no campo social.
Evidencia-se, assim, a pertinência do quadro conceitual-metodológico de Bourdieu para compreender linguagem e religião como expressão de um habitus linguístico, preparando o terreno para a análise do rito de eleição papal e de seus pronunciamentos inaugurais.
2 O rito como consagração: do vere papa mortuus est ao habemus papam
A eleição de um novo papa e sua primeira aparição na sacada da Basílica de São Pedro configuram um momento de forte performatividade simbólica e linguística. O conclave e o discurso após o habemus papam constituem uma cena regulada por disposições que moldam e legitimam a fala do novo pontífice.
Na perspectiva bourdieusiana, o conclave é espaço de consagração simbólica onde se atualizam as regras do campo religioso (Bourdieu, 2015). O papa herda alto capital simbólico, mas precisa ativá-lo linguisticamente. Seu primeiro discurso funciona como investimento na economia das trocas linguísticas, articulando habitus pessoal e posição recém-assumida (Bourdieu, 2022).
Esse ato ocorre sob um habitus linguístico pontifício já estruturado, com fórmulas de humildade, oração e comunhão, ainda que historicamente dinâmico. Tais marcas confirmam e negociam o capital simbólico do papa, revelando o discurso como incorporação institucional – “estrutura estruturada” que se torna também estrutura estruturante (Bourdieu, 2009).
Assim, o conclave não apenas escolhe um novo líder, mas o insere numa cadeia discursiva que tensiona tradição e singularidade, consolidando seu habitus linguístico como referência de autoridade religiosa.
Tendo isso presente, gostaríamos agora, antes de analisar os discursos em si, apresentar alguns dos ritos e símbolos presentes na escolha de um novo papa, que lhe conferem esse capital simbólico e autoridade legítima.
Seria equivocado pensar que o rito de eleição papal se restringe ao conclave. Desde o momento em que o cardeal camerlengo atesta a morte do pontífice com o vere papa mortuus est – “realmente o papa está morto” – iniciam-se as especulações e as congregações gerais, nas quais os cardeais tratam do funeral e do perfil do sucessor.
Com o anúncio da sé vacante, o capital simbólico ligado ao papado entra em atenção e disputa, exigindo ritos carregados de símbolos. As reuniões dos cardeais, marcadas por confinamento, sigilo e fórmulas litúrgicas, criam um espaço sacralizado, restrito à mais alta hierarquia clerical. Tal separação ritual dramatiza a solenidade do ato e reforça o caráter sagrado do processo, preservando o capital simbólico da Igreja como autoridade que transcende a política comum.
O juramento na Capela Sistina intensifica essa sacralização, apresentando a eleição como gesto realizado diante de Deus e para o bem da Igreja. Nesse contexto, o uso do latim em momentos-chave atua como linguagem tradicional e desindividualizadora, autorizando simbolicamente o discurso. Afinal, a língua é instrumento de “dominação simbólica que ocorrem em qualquer troca linguística” (Bourdieu, 2022, p. 59). O latim, como capital linguístico consagrado, reforça a hierarquia e o caráter transcendental da eleição.
Após cada rodada de votação, as cédulas com os nomes dos votados são queimadas e produzem fumaça branca – caso o papa tenha sido eleito – ou preta, quando não houve ainda consenso3. A fumaça branca é o primeiro sinal visível para o povo e para o mundo de que uma nova autoridade foi legitimamente constituída. É um símbolo reconhecido globalmente, uma forma de legitimação indireta, altamente performativa, e, ao mesmo tempo, um gesto que reforça o mistério e o poder do campo religioso.
Após ser eleito, o novo papa escolhe o nome com o qual será conhecido. Essa escolha é sempre carregada de significado simbólico e remete a papados anteriores, o que é importante para um campo altamente referendado pelo argumento da legítima sucessão. O nome pontifício vincula o novo papa a uma linhagem simbólica específica, funcionando como um marcador de pertença e posicionamento no campo. É um recurso de distinção, mas também de aliança ou ruptura. É parte da economia simbólica do cargo.
Logo após, o papa é conduzido à Sala das Lágrimas, onde veste os paramentos pontifícios. A troca da veste comum pelo paramento branco é um ato simbólico de transformação, um clássico rito de passagem – marca o momento liminar entre as posições sociais e simbólicas. O uso da vestimenta é capital simbólico materializado, visível, cuja função é consagrar a distinção: era um cardeal, agora é um papa.
Os cardeais, então, aproximam-se um a um para prestar obediência ao novo papa. Essa cena ritualiza a hierarquia e legitima publicamente o novo líder, uma ratificação interna ao campo. Os detentores de capital religioso reconhecem a validade da transição. A autoridade do papa não é apenas conferida pelo Espírito Santo – segundo a teologia católica – mas também pelo reconhecimento daqueles que partilham o mesmo campo.
Segue-se, assim, o anúncio na sacada da Basílica de São Pedro pelo cardeal protodiácono. A famosa fórmula Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam consagra o eleito aos olhos do mundo. O uso do latim, a figura do cardeal como porta-voz e a posição arquitetônica da sacada – acima da praça – são elementos simbólicos de elevação. Trata-se de um investimento performativo de autoridade. O papa é nomeado e reconhecido como tal – um ato de instituição, como diria Bourdieu.
Quando, então, o novo papa aparece pela primeira vez e fala ao povo se dá início ao primeiro momento em que ele começará o seu investimento próprio ao capital recebido. O silêncio ritualizado que precede o discurso, os gestos de bênção, a escolha do tom de voz e do conteúdo – todos esses elementos configuram a construção da imagem simbólica do pontífice. João Paulo II, por exemplo, rompeu com a tradição ao falar espontaneamente antes de dar a bênção, um gesto de aproximação. Francisco pediu que o povo rezasse por ele antes de ele o abençoar – invertendo momentaneamente o jogo simbólico e reconfigurando a autoridade.
A linguagem aqui é altamente performativa. O papa está exercendo o ethos (Bourdieu, 2022) que se espera dele, mas também pode remodelá-lo, dependendo do seu habitus pessoal. O discurso inaugural é uma apresentação de si que mobiliza capitais simbólicos herdados e se investe naquele a que se pretende.
3 Metodologia
Para a análise comparativa dos discursos inaugurais dos papas João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV, pronunciados após suas eleições à Cátedra de Pedro, fundamentamo-nos na teoria das trocas linguísticas de Pierre Bourdieu (2022). Essa metodologia compreende que os discursos são como atos de fala performativos, inseridos em um campo específico — neste caso, o campo religioso — e, como tais, constituem práticas discursivas em que se realiza a produção e a legitimação de um novo capital simbólico (Grenfell, 2018).
A investigação parte da posição dos agentes no campo religioso, entendendo-o como uma estrutura relacional de posições em disputa (Bourdieu, 2021), em que a autoridade discursiva não depende apenas da forma do enunciado, mas sobretudo da posição ocupada por quem fala e do reconhecimento social da legitimidade de seu ato de fala. Afinal, o sentido do discurso, não é uma questão meramente gramatical. Na verdade, “há primeiramente o valor distintivo, que resulta do relacionamento operado pelos locutores, [...] entre o produto linguístico oferecido por um locutor socialmente caracterizado e os produtos simultaneamente propostos num espaço social determinado” (Bourdieu, 2022, p. 24-25).
O discurso papal inaugural constitui-se, desse modo, em uma espécie de rito de instituição (Bourdieu, 2022), ou seja, trata-se do momento em que o antes cardeal apresenta-se agora como autêntico sucessor do papa anterior. Ele é apresentado, confirmado e constituído como novo pontífice. Porém, ainda que seja fundamental, no rito de consagração, aquilo que a instituição – a Igreja – diz sobre ele, é igualmente necessário perceber como ele se autorepresenta. Por isso, o primeiro ponto sobre o qual vamos nos debruçar é justamente o modo como o novo papa se posiciona em relação à tradição e à herança recebida: menciona seu predecessor? Invoca a continuidade ou a renovação? Evoca a instituição – a Igreja, o colégio dos cardeais, a Sé Apostólica – em tom de deferência ou em chave pessoal?
A segunda dimensão a ser analisada é a do habitus linguístico pontifício, isto é, as disposições linguísticas e simbólicas que informam o modo como o novo papa fala no momento de sua instauração pública. Segundo Bourdieu (2021), o habitus se manifesta em esquemas de percepção, avaliação e expressão linguisticamente estruturados, interiorizados ao longo de trajetórias sociais singulares. Assim, o tom do discurso (formal, austero, afetivo, acadêmico, pastoral) é revelador da trajetória do agente dentro do campo eclesiástico e das formas pelas quais ele se adaptou às expectativas da instituição.
Também se observará o vocabulário mobilizado – doutrinal, litúrgico, bíblico, metafórico – e a eventual improvisação, enquanto sinais do grau de espontaneidade permitido pela incorporação do habitus institucional. A escolha dos idiomas (latim, italiano, outras línguas modernas) também será analisada como índice de disposições mais amplas.
A terceira dimensão aborda a produção e legitimação do capital simbólico, compreendido como a forma de poder que se exerce com a colaboração daqueles que reconhecem a autoridade como legítima, afinal, “toda dominação simbólica supõe, por parte daqueles que sofrem seu impacto, uma forma de cumplicidade que não é submissão passiva a uma coerção externa nem livre adesão a valores” (Bourdieu, 2022, p. 37). Aqui se examinam as estratégias de legitimação utilizadas: a evocação da eleição colegiada e da vontade divina; os gestos performativos de humildade ou superioridade; e o apelo à oração dos fiéis como forma de consagração recíproca.
A seguir, para melhor compreensão do discurso de cada papa, vamos analisá-los, primeiro, separadamente, procurando desenvolver cada um dos itens analíticos apresentados acima, começando sempre com a íntegra das mensagens. Após isso, procuraremos colocá-los em relação uns com os outros, traçando possíveis comparações entre si. É importante dizer que as alocuções foram retiradas das transcrições oferecidas pelo site oficial do Vaticano. Porém, tendo em vista que o discurso ultrapassa as palavras ditas, assistimos aos vídeos desses momentos, a fim de observarmos gestos, indumentárias, entre outros aspectos que enriquecem este debate.
4 Da sacada de São Pedro: os papas e seus habitus linguísticos
Passemos, agora, à investigação de cada um dos discursos proferidos por João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV. É importante recordar que estes são os quatro papas que, na época recente, falaram de improviso logo após as suas eleições, ainda na sacada da Basílica de São Pedro. Antes deles, os pontífices restringiam-se a acenar para a multidão e dar-lhe a bênção urbi et orbi. Comecemos, portanto.
a. João Paulo II
Em primeiro lugar, como informado acima, transcrevemos abaixo a íntegra do discurso de João Paulo II, logo após sua eleição:
Louvado seja Jesus Cristo. Caríssimos irmãos e irmãs, todos sofremos ainda depois da morte do amadíssimo papa João Paulo I. Os eminentíssimos cardeais chamaram um novo bispo de Roma. Chamaram-no de um país distante. Distante, mas sempre tão próximo pela comunhão na fé e na tradição cristã. Tive medo ao receber esta nomeação, mas o fiz com espírito de obediência a Nosso Senhor e com confiança total em sua mãe, nossa Senhora santíssima. Não sei se posso explicar-me bem na vossa – na nossa – língua italiana. Se eu errar... se eu errar vocês me corrigem (aqui, aparentemente, há um erro. Ele fala “me corregem”). E assim me apresento a vós todos para confessar a nossa fé comum, a nossa esperança, a nossa confiança na mãe de Cristo e da Igreja, e também para começar de novo a percorrer o caminho, o caminho da História e da Igreja, recomeçar com a ajuda de Deus e com a ajuda dos homens
(João Paulo II, 1978).
No seu discurso inaugural, proferido em 16 de outubro de 1978, João Paulo II revela de maneira eloquente a constituição de um habitus linguístico pontifício que conjuga tradição e deslocamento, conforme as noções de trocas linguísticas de Bourdieu. Sua inserção no campo religioso não é marcada por um gesto de autoridade autodeclarada, mas por uma performance de humildade. É bem verdade que não podemos dar todo ineditismo dessa atitude a João Paulo II, afinal, desde João XXIII, percebemos uma tendência a simplificar a imagem do pontífice4. Mas é preciso reconhecer que sua atitude de falar de improviso e no tom escolhido, quando não se esperava que isso acontecesse, quebrando um protocolo, deixa uma marca definitiva. Basta ver que, após ele, todos os papas tiveram a mesma atitude.
Logo ao início, afirma: “Não sei se posso explicar-me bem na vossa – nossa – língua italiana” (João Paulo II, 1978), colocando-se como aprendiz, e não como herdeiro natural da função. Essa hesitação pública – como uma aparente incapacidade – converte-se, segundo a lógica das trocas simbólicas (Bourdieu, 2022), em capital; afinal, para a teologia católica, a humildade é uma virtude, altamente valorizada nas práticas cristãs. Mas João Paulo II (1978) vai além: “Se eu errar... se eu errar vocês me corrigem”. Aqui, ele leva a humildade um tom acima do habitual para um papa naquele contexto, afinal, os pontífices sempre procuraram se mostrar dentro de uma perfeição nos mínimos detalhes. Permitir-se corrigir é um importante deslocamento de habitus pontifício – também linguístico –, inaugurando – ou esforçando-se para continuar – a mudança no novo modo de se colocar como agente pontifício dentro do campo.
A construção de sua autoridade apoia-se também em estratégias de deferência institucional, ao agradecer ao colégio dos cardeais, e em uma vinculação sucessória com os pontífices anteriores – nominalmente, refere-se a João Paulo I – o que reforça a legitimidade de sua posição no campo. Contudo, o que mais marca sua fala é o habitus pastoral, não-curial. O discurso é improvisado, repleto de pausas, gestos e emoções visíveis, e recorre a um vocabulário acessível, espiritual e afetuoso. Esse estilo não é mero acaso, mas expressão de um habitus eclesial moldado por sua experiência como bispo e pastor na Polônia, distante do centro curial romano.
Na lógica da consagração simbólica, João Paulo II inverte a expectativa tradicional. O discurso torna-se, assim, uma oferta de presença e serviço, uma troca simbólica que convoca os fiéis a compartilharem com ele a missão. Para Bourdieu (2022), é exatamente nesse movimento performativo, em que se atualiza a estrutura da instituição por meio da palavra, que o poder pontifício se consolida. De fato, é importante observar que João Paulo II, em seu primeiro ato como pontífice, utilizará justamente do ato de fala para inaugurar seu pastoreio. Parece ficar evidente como o polonês entendia a fala justamente como um ato, ou seja, como carregado de efeitos.
b. Bento XVI
Amados Irmãos e Irmãs. Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações. Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está conosco. Obrigado
(Bento XVI, 2005).
No discurso inaugural de Bento XVI, pronunciado logo após o habemus papam de 19 de abril de 2005, percebe-se uma assimilação do habitus linguístico pontifício inaugurado nessas alocuções por João Paulo II, conforme descrito por Bourdieu. O novo papa se apresenta como um “simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor” (Bento XVI, 2005), uma autodescrição que não nega a autoridade de um papa. Reforça-a simbolicamente, mas de modo atenuado. Trata-se de um gesto típico de acumulação de capital simbólico por meio da humildade institucionalizada – um mecanismo descrito por Bourdieu (2022) como forma de consagração que se dá justamente ao alegar não buscá-la. Como veremos em Bento XVI e nos seus sucessores, a humildade no discurso parece ter se tornado um indispensável rito de legitimação.
A posição de Bento XVI no campo é cuidadosamente construída a partir da continuidade: associa-se imediatamente ao “grande Papa João Paulo II” (Bento XVI, 2005), estabelecendo-se como herdeiro legítimo. Chamando-o “grande”, deixa claro que será uma referência ao seu modo de conduzir a Igreja. O discurso não visa cativar pelas emoções, mas afirmar uma linha de fidelidade. Tal gesto de filiação reforça o habitus de um teólogo, moldado no interior do campo curial e acadêmico, e cuja autoridade deriva da ortodoxia e da estabilidade.
O tom do discurso é sóbrio e denso, refletindo um repertório lexical, com uma linguagem que revela um orador habituado às estruturas simbólicas da Igreja: sua performance nesta mensagem é menos pastoral e mais doutrinal, se comparada à de João Paulo II. Conforme Bourdieu (2022), esse estilo discursivo é parte do investimento simbólico que sustenta a autoridade: ao utilizar um capital de continuidade, Bento XVI oferece aos fiéis segurança e estabilidade diante da transição.
Finalmente, o ato da bênção urbi et orbi, solene e sereno, completa o ritual performativo da consagração. A fala de Bento XVI, portanto, não só reflete um habitus linguístico específico, mas encarna uma forma de autoridade eclesial que se apresenta como serviço a partir da consolidação da própria tradição que a legitima.
c. Francisco
Irmãos e irmãs, boa-noite!
Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo… Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado! E, antes de mais nada, quero fazer uma oração pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e Nossa Senhora o guarde.
[Recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai]
E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!
E agora quero dar a Bênção, mas antes… antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim.
[…] Agora dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade. [Bênção] Irmãos e irmãs, tenho de vos deixar. Muito obrigado pelo acolhimento! Rezai por mim e até breve! Ver-nos-emos em breve: amanhã quero ir rezar aos pés de Nossa Senhora, para que guarde Roma inteira. Boa noite e bom descanso
(Francisco, 2013).
No discurso inaugural de Francisco, em 13 de março 2013, observamos uma mudança significativa com o habitus linguístico pontifício tradicional. Desde a primeira frase – um simples “boa noite” – o novo papa sinaliza um considerável reposicionamento no campo. Ao invés de adotar a linguagem solene de seus antecessores – especialmente de Bento XVI – Francisco se apresenta com informalidade e afetividade, características de um habitus pastoral mais próximo ao campo religioso latino-americano, onde o capital simbólico é construído na relação direta com o povo. Podemos dizer que Francisco vai acrescentar ao habitus linguístico pontifício o habitus linguístico latino-americano5.
A referência afetuosa ao “bispo emérito Bento XVI” (Francisco, 2013) legitima a sucessão e preserva a continuidade institucional. Porém, o gesto mais eloquente de Francisco é a inversão da lógica simbólica tradicional: antes de conceder a bênção, ele pede ao povo que reze por ele. Esse momento ilustra bem o que Bourdieu (2022, p. 41) chama de consagração a partir da “inversão das relações de força simbólicas e da hierarquia”, pois a autoridade não é imposta, mas solicitada e recebida como dom. A autoridade pontifícia, nesse caso, é redistribuída na troca simbólica com os fiéis, uma operação que reforça seu capital carismático e pastoral.
O tom do discurso é predominantemente oral, relacional e pouco doutrinal. Francisco evita jargões teológicos, privilegiando palavras como “irmãos”, “caminho” e “oração”. A escolha do italiano com sotaque castelhano, sem menção direta à própria origem, mas falando ser do “fim do mundo” (Francisco, 2013), revela um deslocamento estratégico: ele é o papa, carrega o capital simbólico que lhe corresponde, mas o faz intitulando-se “bispo de Roma” (Francisco, 2013), reduzindo a carga centralizadora de expressões como sumo pontífice. Na mesma direção, devemos mencionar o fato de que, ao contrário de seus antecessores, Francisco se apresenta apenas com a veste talar branca, e não com a mozeta, uma capa curta que cobre os ombros e parte do peito e das costas do papa, sinal de autoridade.
Por fim, o gesto de silêncio e oração coletiva antes da bênção performa aquilo que Bourdieu define como investimento simbólico eficaz: o discurso não apenas anuncia uma nova lógica, mas já a realiza. A autoridade de Francisco nasce da dessemelhança, ou seja, por reconfigurar o modo de ser do agente papal no campo religioso – e é por isso mesmo que se consagra.
A análise do discurso inaugural de Francisco permite avançar além da descrição sociológica do habitus linguístico, já que é o nosso maior objetivo. Se o novo pontífice reconfigura a economia das trocas simbólicas no interior do campo religioso, tal deslocamento performativo pode também ser compreendido como expressão de um núcleo teológico.
O pedido de oração dos fiéis antes da bênção antecipa, de forma concentrada, uma eclesiologia relacional que atravessará seu pontificado, por exemplo, em temas como “Igreja em saída”, em que o dinamismo missionário e a proximidade concreta serão encontrarão espaço privilegiado. A autodefinição como “bispo de Roma”, inclusive, reinscreve o primado papal em chave pastoral e colegial, em sintonia com a posterior ênfase na sinodalidade. A linguagem simples e relacional manifesta ainda uma teologia da misericórdia e do encontro ao ampliar o horizonte da fraternidade para além do âmbito intraeclesial.
Assim, o habitus linguístico de Francisco não é mera variação estilística, mas forma histórica concreta de exercer o primado, na qual autoridade e reciprocidade se rearticulam. O gesto antecede o tratado; a prática inaugura a reflexão; a palavra já contém a teologia que depois será sistematizada.
d. Leão XIV
A paz esteja com todos vós!
Caríssimos irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação de Cristo Ressuscitado, o Bom Pastor, que deu a vida pelo rebanho de Deus. Também eu gostaria que esta saudação de paz entrasse no vosso coração, chegasse às vossas famílias, a todas as pessoas, onde quer que se encontrem, a todos os povos, a toda a terra. A paz esteja convosco!
Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente. Conservamos ainda nos nossos ouvidos aquela voz fraca, mas sempre corajosa, do Papa Francisco que abençoava Roma, o Papa que, naquela manhã de Páscoa, abençoava Roma e dava a sua bênção ao mundo inteiro. Permiti-me que dê prosseguimento àquela mesma bênção: Deus nos ama, Deus vos ama a todos, e o mal não prevalecerá! Estamos todos nas mãos de Deus. Portanto, sem medo, unidos de mãos dadas com Deus e uns com os outros, sigamos em frente! Somos discípulos de Cristo. Cristo vai à nossa frente. O mundo precisa da sua luz. A humanidade precisa d’Ele como ponte para poder ser alcançada por Deus e pelo seu amor. Ajudai-nos também vós e, depois, ajudai-vos uns aos outros a construir pontes, com o diálogo, o encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz. Obrigado, Papa Francisco! Quero também agradecer a todos os meus irmãos Cardeais que me escolheram para ser o Sucessor de Pedro e para caminhar convosco, como Igreja unida, procurando sempre a paz, a justiça, esforçando-se sempre por trabalhar como homens e mulheres fiéis a Jesus Cristo, sem medo, para anunciar o Evangelho, para ser missionários. Sou agostiniano, um filho de Santo Agostinho que dizia: “Convosco sou cristão e para vós sou bispo”. Neste sentido, podemos caminhar todos juntos em direção à pátria que Deus nos preparou. Uma saudação especial à Igreja de Roma! Devemos procurar juntos o modo de ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, que constrói o diálogo, sempre aberta para acolher a todos, como esta Praça, de braços abertos, a todos aqueles que precisam da nossa caridade, da nossa presença, de diálogo e de amor. E se me permitem uma palavra, uma saudação [em espanhol] a todos e especialmente à minha querida Diocese de Chiclayo, no Peru, onde um povo fiel acompanhou o seu bispo, partilhou a sua fé e deu tanto, tanto, para continuar a ser uma Igreja fiel a Jesus Cristo. A todos vós, irmãos e irmãs de Roma, da Itália, de todo o mundo: queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que procura sempre a paz, que procura sempre a caridade, que procura sempre estar próxima, sobretudo dos que sofrem. Hoje é o dia da Súplica a Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. A nossa Mãe, Maria, quer sempre caminhar conosco, estar perto, ajudar-nos com a sua intercessão e o seu amor. Gostaria, por isso, de rezar convosco. Rezemos juntos por esta nova missão, por toda a Igreja, pela paz no mundo e peçamos a Maria, nossa Mãe, esta graça especial: Ave Maria...
(Leão XIV, 2025).
No primeiro discurso de Leão XIV, proferido em 08 de maio 2025, temos um habitus linguístico pontifício marcado por equilíbrio entre tradição e atualidade, caracterizando-se como uma autoridade institucional que visa receber o capital simbólico do campo a que pertence, herdado especialmente de Francisco, a quem sucedeu e menciona mais de uma vez, em gratidão. O novo papa inscreve-se numa posição que busca legitimação pelo serviço e pela humildade, valores reforçados no pontificado do seu antecessor, reafirmando expressões que lhe eram caras, como “pontes” e “sinodal”.
Essa autorrepresentação, contudo, não nega a tradição, ao citar que foi escolhido como “sucessor de Pedro” (Leão XIV, 2025). O mesmo se pode dizer da retomada do uso da mozeta, sinal de autoridade, e que Francisco havia dispensado. Essa busca pela articulação entre um carisma pastoral e autoridade pontifícia parece ficar mais clara quando cita a frase de Santo Agostinho, de cujo capital se apropria para dizer: “convosco sou cristão e para vós sou bispo” (Leão XIV), posicionando-se linguisticamente – e, portanto, como agente dentro do campo – como síntese de dois estilos distintos, mas aparentemente convergentes.
Seu discurso se apresenta com um tom mais formal, principalmente no início, reforçado pela leitura das suas primeiras palavras em um papel que traz consigo, algo que nenhum dos papas anteriormente analisados fez. Mais uma vez, parece intercalar o habitus pontifício formal e um outro mais espontâneo. O vocabulário revela algo igualmente interessante, como se assumisse uma espécie de habitus linguístico sinodal – teria Francisco conseguido instaurar um novo habitus pontifício? – com termos como “procurar juntos”, “Igreja que caminha” e “diálogo”, indicativos de uma linguagem eclesial sensível às mediações contemporâneas.
A escolha de idiomas também expressa seu investimento simbólico: é o primeiro papa a falar em espanhol em uma ocasião como esta, dirigindo-se à sua antiga diocese de Chiclayo, no Peru. Mas é ainda mais relevante a sua escolha quando se trata do primeiro papa nascido nos Estados Unidos, cujo presidente de então, Donald Trump, lidera uma forte política de deportação de imigrantes, especialmente latino-americanos. Leão XIV não fala em inglês em nenhum momento, mas em italiano e espanhol.
Considerações finais
A sucessão dos discursos papais aqui analisados revela uma oscilação estratégica entre a reafirmação e o deslocamento do habitus linguístico pontifício tradicional, aquilo que Bourdieu (2019) chamou de movimentos ortodoxos e heterodoxos no campo religioso. João Paulo II, o primeiro não italiano em séculos6, já marca um deslocamento importante nesse campo. Sua linguagem permanece bastante respeitosa das formas tradicionais, mas investe simbolicamente no capital pastoral, a fim de gerar afinidade entre ele e os fiéis. Podemos dizer, inclusive, que o papa polonês inaugura um habitus linguístico, especialmente com suas palavras revestidas de humildade para falar de si e na legitimação da sucessão, invocando a memória do seu antecessor. Essa será, como vimos, uma estratégia permanente nos primeiros discursos pontifícios: afirmar a autoridade a partir da humildade e da continuidade com o antecessor.
Bento XVI retoma fortemente o habitus da estabilidade, com um discurso que invoca sobriedade e tradição, sem apelar para espontaneísmos, e uma autorrepresentação modesta, que reforça uma autoridade simbólica.
Francisco, por sua vez, redefine o rito de consagração, nos dizeres bourdiesianos: seu gesto inaugural – pedir a oração do povo antes da bênção – subverte o esquema tradicional de autoridade vertical. Ele investe em um capital simbólico alternativo, baseado na humildade, na linguagem cotidiana e na identificação com as pessoas comuns. De certo modo, recupera aquilo que havia feito João Paulo II na sua intervenção, porém, com maior intensidade de palavras e gestos. Leão XIV, eleito em 2025, parece buscar uma síntese em seu discurso: preserva a solenidade do rito e o vocabulário técnico, mas adota um tom pastoral e acessível, como se conjugasse os registros de seus antecessores.
A alternância entre esses discursos pode ser lida como uma disputa simbólica no campo religioso, com pelo menos dois intuitos. O primeiro está ligado ao fato de que, no campo, não há língua legítima perene, ou seja, para manter-se válida no campo, a língua deve rearticular-se nas correlações de forças, a fim de permanecer autêntica. O segundo tem a ver com as tensões que se opõem entre os distintos agentes justamente para tornar-se detentora do poder legítimo de dizer o que é correto.
Assim, cada papa, ao compor sua performance inaugural, participa dessa luta simbólica pela legitimação de uma forma particular de exercer a autoridade pontifícia. Essa disputa pela autoridade legítima passa necessariamente pela capacidade de manejar os signos do sagrado de modo eficaz, o que implica, segundo Bourdieu (2022, p. 56-57), “a capacidade estatutariamente reconhecida a uma pessoa autorizada, uma ‘autoridade’, de empregar, em ocasiões oficiais (formal), a língua legítima, quer dizer, oficial (formal), língua autorizada que tem autoridade, fala autorizada e digna de crédito”.
Na perspectiva bourdieusiana, o discurso religioso só é eficaz se for reconhecido por aqueles que o escutam – é um ato performativo que depende da posição de quem fala e da estrutura que o legitima. Nesse sentido, vemos como a sacada da Basílica de São Pedro se torna uma espécie de palco simbólico, onde o novo papa precisa ratificar sua autoridade através da linguagem.
João Paulo II faz isso com carisma e empatia; Bento XVI, com sobriedade e estabilidade; Francisco, com deslocamento e identificação; Leão XIV, com síntese e proximidade. Cada um realiza o que Bourdieu (2022, p. 50) chama de “estratégia de distinção”, procurando ativar capitais específicos para garantir a eficácia simbólica do discurso inaugural. Tal investimento se dá conforme as posições ocupadas e os habitus internalizados.
Este ato de nomear e instituir-se no campo está vinculado à ideia de uma “autoridade performativa”, capacidade fundamental nas disputas dentro dele, segundo Bourdieu (2022, p. 82), a fim de produzir efeitos sociais por meio da palavra autorizada: “um percipi, um ser conhecido e reconhecido, que permite impor um percipere, ou melhor, de se impor como se estivesse impondo oficialmente, perante todos e em nome de todos, o consenso sobre o sentido do mundo social que funda o senso comum”.
Além disso, apesar das diferenças evidentemente presentes nos discursos, há um habitus comum: a representação de si de modo humilde, o que para Bourdieu (2022, p. 160) é uma estratégia permanente na dialética sacerdotal, “pontuada pela combinação entre declarações de humildade [...] e marcas de ênfase”; a invocação de elementos tradicionalmente católicos, como a oração e a bênção urbi et orbi, que funcionam “exatamente para evidenciar que o agente age na qualidade de depositário provido de um mandato e não em seu próprio nome ou de sua própria autoridade” (Bourdieu, 2022, p. 93); a relação com a missão de bispo de Roma, o que lhe dá a “competência legítima e da constituição do mercado onde se estabelece e se impõe esta definição do legítimo e do ilegítimo” (Bourdieu, 2022, p. 30); e o reconhecimento da sucessão apostólica, o que Bourdieu (2022, p. 27) chama de “deferência recíproca” como estratégia para a manutenção do consenso. Esses elementos formam o que podemos chamar de habitus linguístico pontifício, presentes na primeira alocução papal – um conjunto de disposições discursivas que orientam o que é esperado e permitido dizer naquele momento inaugural.
Esse habitus – todo ele, e também o linguístico – longe de ser fixo, é o resultado de um permanente embate na transmissão dos mecanismos dentro de um campo, que “tendem a garantir a reprodução da defasagem estrutural entre a distribuição (aliás bastante desigual) do conhecimento da língua legítima e a distribuição (muito mais uniforme) do reconhecimento desta língua” (Bourdieu, 2022, p. 50), sendo justamente isso o que constitui um dos fatores determinantes da dinâmica do campo linguístico e, por essa via, das próprias mudanças da língua, também aquela religiosa.
O modo como cada papa modula esse habitus – seja reforçando, seja desviando de certos padrões – revela como ele é também historicamente construído e disputado. O caso de Francisco é emblemático: ele desloca a lógica de poder simbólico para o povo, mas sem abandonar por completo o campo tradicional. Leão XIV, ao reinscrever um gesto mais ortodoxo, mostra como o habitus pode se adaptar sem se dissolver.
O que se evidencia no caso de Francisco, na verdade, é que o habitus linguístico não é mera estratégia retórica, mas pode ser portador de uma reconfiguração teológica. A autoridade que se pede antes de se exercer, a bênção que nasce da oração do povo, a autodefinição como bispo de Roma – todos esses elementos apontam para uma teologia da reciprocidade, da sinodalidade e da misericórdia como categoria estruturante. Nesse sentido, é razoável falar na mútua interdependência entre o estilo teológico de Francisco e a sua performance linguística, sendo possível, ao observar o primeiro ano de pontificado de Leão XIV, apontar como ele – Francisco – deixou um legado teológico manifestado, entre outros, na performance linguística assumida pela Igreja.
Além, é claro, das particularidades de Francisco, é possível observar como o habitus linguístico pontifício opera em um campo marcado por forças conservadoras e transformadoras, em que os agentes disputam a definição legítima da linguagem. A análise dos discursos inaugurais à luz da teoria bourdieusiana revela não apenas a performatividade estratégica do ato inaugural, mas a própria historicidade das formas simbólicas que sustentam o poder papal. Como afirma Bourdieu (2022, p. 168), “a autoridade se afirma, por assim dizer, afirmando-se”.
Permanece, portanto, a convicção anteriormente apresentada: toda fala é um ato. O pontífice que desejar imprimir sua identidade em seus atos deverá começar necessariamente pela linguagem. Seu primeiro discurso – após o habemus papam – serve como primícias, como ensaio.
Siglas- MM Carta Apostólica Misericordia et misera
- QA Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia
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1
Para um estudo mais detalhado sobre os ritos de eleição de um papa, inclusive como eles se estruturaram com o passar dos séculos, pode-se recorrer ao trabalho de Lesourd e Paillat (1971).
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2
Este trabalho é um desdobramento da pesquisa que o seu autor tem realizado a respeito do pensamento do papa Francisco sobre a relação entre tradição e inovação (Marquim, 2026)
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3
Interessante notar a evolução desse costume. Para não comprometer ainda mais os afrescos da capela sistina, optou-se por colocar uma chaminé para fora. Assim, as pessoas saberiam da eleição, mas sem produzir fumaça no interior do recinto (Lesourd; Paillat, 1971, p. 267).
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4
Na verdade, de acordo com Lesourd e Paillat (1971, p. 281), a soberania temporal do papado finda com Pio IX, e “com Leão XIII começa o aggiornamento a adaptação ao mundo moderno de tudo o que, nas instituições e nos costumes eclesiásticos, podia ser modificado, rejuvenescido, e ao mesmo tempo permanecendo fiel à doutrina”.
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5
Entre os muitos exemplos de como isso vai se dar em seu pontificado, podemos recordar das palavras desbordar (QA, n. 105) – ultrapassar – e misericordear (MM, n. 16), um neologismo que Francisco utiliza para falar da misericórdia como uma atitude que Deus tem pelas pessoas.
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6
Antes de João Paulo II, o último papa de fora da Itália havia sido o holandês Adriano VI, que governou a Igreja pouco mais de um ano, entre 1522 e 1523.
Disponibilidade de dados
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Referências
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» https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2005/april/documents/hf_ben-xvi_spe_20050419_first-speech.html - BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Linguísticas: O que Falar Quer Dizer. 2. ed., 2. reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2022.
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Editado por
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Editores:
Franklin Alves Pereira e Márcia Eloi Rodrigues
