Open-access O CUIDADO E A ESCUTA PSI: O QUE PODE A PSICOLOGIA ESCUTAR NOS ABRIGOS DAS ENCHENTES?

EL CUIDADO Y LA ESCUCHA PSI: ¿QUÉ PUEDE ESCUCHAR LA PSICOLOGÍA EN LOS REFUGIOS CONTRA INUNDACIONES?

PSYCHOLOGICAL CARE AND LISTENING: WHAT CAN PSYCHOLOGY LISTEN IN THE FLOOD SHELTERS?

Resumo

O artigo tem como objetivo refletir sobre o cuidado psi diante do colapso ambiental, social e político relacionado ao capitaloceno e às enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Parte-se das experiências vividas por estudantes e profissionais em práticas de acolhimento nos abrigos humanitários, configurando-se como um relato de experiência atravessado por afetos. Esses afetos são expressos na narrativa ficcional da personagem Yara, concebida como ferramenta ética-estética-política diante da iminência das águas. O texto problematiza a racionalidade moderna e neoliberal que busca domesticar a natureza, reduzindo o colapso a um problema técnico, apartado dos múltiplos ecossistemas do mundo. Em vez de conter as águas, propõe-se “ficar com o problema”, reconhecendo as interdependências constitutivas entre humanos e mais-que-humanos. Defende-se, assim, uma Psicologia implicada, que tensione suas próprias produções e contribua, de modo ético e político, para a construção de uma escuta localizada, interseccional e interespécie.

Palavras-chave:
Psicologia Social; Abrigo; Crise planetária; Escuta; Interseccionalidade; Interespécie

Resumen

El artículo tiene como objetivo reflexionar sobre la atención psi ante el colapso ambiental, social y político relacionado con el capitaloceno y las inundaciones de 2024 en Rio Grande do Sul. Se basa en las experiencias de estudiantes y profesionales en prácticas de acogida en albergues humanitarios, configurando una narrativa experiencial impregnada de emociones. Estos afectos se expresan en la narrativa fictícia del personaje Yara, concebida como una herramienta ético-estético-política ante las inminentes inundaciones. El texto problematiza la racionalidad moderna y neoliberal que busca domesticar la naturaleza, reduciendo el colapso a un problema técnico, separado de los múltiples ecosistemas del mundo. En lugar de contener las aguas, se propuso “quedarse con el problema”, reconociendo las interdependencias constitutivas entre humanos y más-que-humanos. Se defiende, por lo tanto, una Psicología implicada, que cuestione sus propias producciones y contribuya, de manera ética y política, a la construcción de una escucha localizada, interseccional e interespecie.

Palabras clave:
Psicología Social; Refugio; Crisis planetaria; Escucha; Interseccionalidad; Interespecie

Abstract

The article aims to reflect on psychological care in the face of the environmental, social, and political collapse related to the Capitalocene and the 2024 floods in Rio Grande do Sul. It draws on the experiences of students and professionals engaged in humanitarian sheltering practices, configuring an experiential report permeated by emotions. These affects are expressed in the fictional narrative of the character Yara, conceived as an ethical-aesthetic-political tool in the imminence of the impending floods. The text problematizes the modern, neoliberal rationality that seeks to domesticate nature, reducing collapse to a technical problem, detached from the world’s multiple ecosystems. Rather than holding back the waters, the proposal is to “stay with the trouble,” recognizing the constitutive interdependencies between humans and more-than-humans. Thus, we advocate for an implicated Psychology that challenges its own productions and contributes, ethically and politically, to the construction of a localized, intersectional, and interspecies listening practice.

Keywords:
Social Psychology; Shelter; Planetary Crisis; Listening; Intersectionality; Interspecies

1. A água não era para todos

Yara, 25 anos, uma mulher negra e estudante de Psicologia, andava com a sua bicicleta atenta às transformações e aos paradoxos sociais que atravessam a cidade. Nos últimos dias, vivia cercada pela iminência das águas. As enchentes, mais do que um evento climático, irrompem como força que desestabiliza as rotinas, desmonta certezas e escancara desigualdades. A urbe, antes sustentada por um senso frágil de normalidade, se converte em caos, um caos material e simbólico. Ruas e casas alagadas, vidas suspensas.

Após dias imersa em angústia, desidratação e deslocamentos existenciais, Yara decidiu que não podia apenas observar o mundo ruir ao seu redor. Algo em seu corpo pedia ação, não como heroísmo, mas como resposta às forças que a haviam atravessado. Quando soube que um abrigo havia sido improvisado dentro de uma universidade pública, pegou sua bicicleta, colocou seu cachorrinho em uma mochila adaptada e partiu.

O abrigo, no começo, chegou a ter mais pessoas voluntárias no primeiro final de semana do que àquelas que efetivamente precisavam do cuidado. No entanto, Yara, enquanto estudante, logo percebeu que ali não havia apenas solidariedade, mas também gestão, vigilância, discursos - inclusive contra seu próprio fazer ali. Mas tinha água e comida aos voluntários e aos animais, inclusive uma cama quente para o seu inseparável amigo. O que permitiu que ela pudesse também receber um certo conforto no desconforto, ainda que seu ímpeto fosse o de ajudar. Yara já não queria voltar para aquele apartamento escuro, e foi ficando, sendo envolta em braços calorosos que também haviam se proposto ao cuidado voluntário. Naquele momento, se sentia um hibridismo de sentimentos, entre a quase psicóloga e quase abrigada no local.

Dias após a sua chegada, tendo passado várias madrugadas acordada na improvisada escala do plantão de psicologia noturno, entre um cochilo e outro começou a estranhar muitas outras coisas no espaço. Assim como ela, aqueles corpos em vulnerabilidade foram recepcionados como “humanos a serem salvos”, como se a condição de humanidade exigisse certa normatividade: higiene, bons modos, “gratidão passiva”, abafar os corpos e sexualidade, quase como se fosse um local pudico. Entre brinquedos e brincadeiras na ludoteca improvisada, escutava com atenção e incerteza algumas alegrias: quando as pessoas conseguiam alugar casas em regiões periféricas para de certa forma retomar a vida, havia comemoração entre os voluntários. Yara não conseguia festejar - “ao menos lá não alaga”. Sabia que esses novos tetos eram apenas camadas tênues da mesma lógica de exclusão, era mais um deslocamento para dentro da precariedade, agora higienizado pelo aluguel e pela autonomia ilusória. Afinal, a água não atingiu a todas de forma igualitária.

Enquanto ajuda a organizar as filas de refeições, Yara se sentia atravessada por uma raiva inesperada. Não contra os abrigados, nem contra os voluntários, mas contra a mentira da “união do povo”. Falava-se de povo unido, enquanto sabíamos de notícias de roubos de lanchas e embarcações, onde acumulavam-se tensões com a polícia e as facções, de igual forma com a volúpia de seus pensamentos: “Como será quando eu voltar pra casa? Ainda terei as minhas coisas? Como será que vai ser o cheiro lá do apartamento?”

Algumas pessoas resistiram por muito tempo em ir embora mesmo com as notícias de que seu bairro já havia secado. Umas das meninas que mais brincou com Yara soltou despretensiosamente: “tia, eu gosto tanto daqui, aqui não tem fome, e se eu quiser tem trakinas à vontade”. Mesmo que o banho muitas vezes fosse racionado, mesmo que fossem olhadas com desconfiança por estranhos que se viam obrigados a compartilhar aquele espaço em um ginásio, mesmo que o auxílio não tivesse saído, mesmo que não tivessem estradas, mesmo que tivesse hora para dormir e não pudesse ser feito muito barulho, mesmo que houvesse muita “humanidade”, a universidade era um corpo tenso: era abrigo e era instituição; era acolhimento e era controle - fechem as salas que têm computador, isolem o laboratório de movimento. O abrigo era melhor.

Aos poucos, o fluxo de voluntários foi minguando. No segundo domingo, muitos não voltaram. No último, eram bem poucos para organizar a farmácia, os plantões de enfermagem, a comida boa, a atenção psicossocial e animal. O abrigo era melhor, um simulacro de Estado de bem-estar. Mas a pergunta que todos se faziam no fundo mas ignoravam, nos corpos, nas entrelinhas era: e depois? Quando o abrigo fosse fechado, como de fato foi, num sábado silencioso e burocrático, para onde iriam? Como reconstruiriam a vida em cima do barro?

Algumas pessoas foram realocadas para outros abrigos, outras simplesmente desapareceram das planilhas. Sabia-se que ainda estavam em situação de abrigamento, mas ninguém as via. Ninguém as nomeava. Os abrigos universitários fecharam - nem todas as famílias foram encaminhadas. A chuva não parava, assim como a vida do capital. Os entulhos, que haviam sido cuidadosamente empilhados, boiaram como um aviso cínico de que nada estava terminado.

Yara ficou até o último dia. Dormia em um colchonete que ela havia levado, revezando àqueles turnos do plantão. Ela e outras voluntárias da “brigada da psicologia” não sabiam exatamente o que fazer. Historicamente, aprendemos que psicologia se apresenta como um lugar instituído de prestar serviço, de plantão psicológico, primeiros socorros, acolhimento. Mas era isso que o contexto demandava? Deveríamos nós enquanto estudantes de psicologia e psicólogas agir somente dentro de um papel duro e mecanizado e psicologizante? Não era isso que aquelas pessoas necessitavam. E talvez esse fosse o maior ato ético: estar ali, mesmo sem saber. Elas escutavam o que ninguém escutava, sentavam junto, choravam junto, brincavam com as crianças. Criavam, em meio à ruína, um laço invisível que não cabia em relatórios e naquilo que era esperado até então.

Em meio a todo o caos, iniciou-se uma narrativa na cidade que as atividades precisavam ser retomadas. Porto Alegre precisava voltar a trabalhar para fazer dinheiro e retomar a ordem. Assim como os muitos afluentes que formam o rio Guaíba, fomos outra vez inundados pelos discursos de que o Rio Grande precisa se reconstruir, com a união e bravura de todos. Os tapumes foram retirados. O saguão, antes cheio de colchões, foi encerrado e dedetizado. Só o cheiro e a umidade da cozinha improvisada persistiam.

A água baixara em algumas regiões e Yara voltou para casa. À noite, sonhava com os rostos dos que ficaram. Não sabia seus nomes completos, nem onde estavam. E era isso que doía: não saber. Como poderiam desaparecer da cidade? Que história é essa que os invisibiliza?

Na última noite no abrigo, imersa pelas dúvidas e revolta, Yara escreveu em seu caderno:

“ As cidades coloniais são indiferentes ao Rio Guaíba, por isso boa parte de seu território está inundado. Se eles realmente se importassem, os terreiros não teriam afundado. As mulheres negras ribeirinhas não teriam perdido seus mundos.

A solidariedade que vivemos foi potência, mas não redime o Estado. O que a Psicologia faz nesses contextos? Como cultivar novos possíveis?”

2. Entre sacos de areia e as águas que nos inundam

As águas começaram a subir no Rio Grande do Sul no dia 26 de abril de 2024. Apesar de o sujeito economicus-neoliberal insistir em negar/domesticar/separar a natureza, fazemos parte dela. Somos, também, a própria chuva. É diante das tempestades, dos deslizamentos de terra, de diferentes modos de existir encontrando-se em sua fragilidade e impotência, que nos vemos mergulhados num colapso não apenas hídrico, mas também social e político. Nossas vidas e afetos também são constantemente modulados por essa lógica. Talvez tenhamos, nós também, nos acimentado.

Entre sacos de areia colocados para conter as águas e nos “proteger” uma das ações propostas pelo atual prefeito e pelo governador do Estado como soluções “inovadoras” importadas da Europa revela-se a violência estrutural perpetuada pelo Estado diante da destruição ambiental e das desigualdades sociais. Não se trata somente de mitigar os efeitos de uma catástrofe, mas de reconhecer a negligência histórica que nos trouxe até aqui. Não é novidade que os problemas ambientais estejam entre os maiores desafios para os modos de vida terrestre. Mas há algo novo: o modo como essas águas nos atravessam e nos interpelam. Como comenta Krenak (2019), o rio é também corpo, e a terra, mãe. O colapso não é algo exterior a nós, ele nos constitui, nos decompõe, nos exige - e o futuro ancestral urge, afirmando há tempos essa incongruência do modo colonial de habitar.

Foi nesse cenário que, enquanto discentes do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, começamos a nos perguntar: como a Psicologia Social escuta, e com quem ela escuta? Como a Psicologia Social pode produzir uma escuta implicada que se faça com as águas, compondo com o humano e o não humano, reconhecendo sua agência e suas potências de vida?

Como comenta Haraway (2019), criando conexões múltiplas, humanas e mais-que-humanas, capazes de alargar as possibilidades interdependências e de mundo. Ou seja, não precisamos conter as águas: precisamos seguir com o problema que a emergência climática nos apresenta. Isso implica romper com o paradigma que busca soluções descoladas de nossos territórios e vivências. Em vez de solucionar o problema a todo custo, deveríamos (re)aprender a habitá-lo.

Enquanto sacos de areia estavam sendo colocados, também lidamos com a falta de água, energia e comida em territórios que foram mais afetados. O bloqueio de estradas e a enchente dificultaram a chegada de doações. Tivemos que ser tanto abrigo um dos outros quanto fazer abrigos físicos temporários, para o acolhimento às pessoas atingidas diretamente. Toda a rede de acontecimentos, entre abrigos e desabrigamentos, entre urgências e destruições, entre resgates e trabalho voluntário, entre animais de pequeno e grande porte sendo salvos, entre doações e solidariedades, entre a continuidade e descontinuidade das políticas públicas, escancarou o caráter de interdependência constitutiva das relações entre seres viventes na Terra. Relações que envolvem rios, montanhas, solo, plantas, estruturas sociotécnicas e modos de vida historicamente silenciados.

Nesse contexto, emerge Yara, uma das narrativas coletivas produzidas pela turma como recurso ético, estético e político de escuta e elaboração diante do colapso. Uma personagem-conceito que faz colocar em análise o acontecimento das enchentes no Rio Grande do Sul e a emergência do cuidado em psicologia diante do colapso ambiental, social e político. Uma fabulação (Haraway, 2019) coletiva da experiência, atravessada por afetos, pela cidade e pelas perguntas que surgiram nos corpos. Ela sente medo, raiva, impotência. Se questiona. Ela permanece. Falar de Yara é falar da psicologia e de seus limites, da invenção de outros modos de escutar, de cuidar e de habitar o presente.

3. Perspectivas sobre os abrigos: o cuidado e a escuta psi

Quando foram construídos abrigos para o acolhimento das pessoas afetadas, nos deparamos com diferentes possibilidades e desafios: construímos acolhimentos e formas de abrigar novos mundos com base em quê e em quem? “ É preciso reconstruir o Rio Grande do Sul”, era o que mais se dizia no momento, mas estamos abertos a não reproduzir a noção dicotômica entre natureza e humano, cunhada pelo Ocidente?

A Psicologia que se atreve a escutar os abrigos é, muitas vezes, subsidiada pelo modelo de racionalidade das ciências naturais, nutrido por conhecimentos teóricos da sua formação em psicologia, uma formação carregada de constructos “colonizadores” e alicerçados em modelos “enraizados” que precisam ser desconstruídos no modelo de saúde mental homogeneizante (Tuxá, 2022).

Muito se falou sobre as diretrizes de primeiros socorros psicológicos; parecem ter delimitado a atuação do psicólogo em situações de emergência, com o intuito de evitar que o trauma adquirisse a dimensão de um transtorno psicológico. No entanto, cabe perguntar: quando provocada a “ficar com o problema”, a Psicologia, em sua razão humanitária, centra sua contribuição apenas em permanecer com (ou tentar evitar) o trauma? Não estaríamos, nesse movimento, deslegitimando o lugar do sofrimento, apagando memórias e inviabilizando a denúncia das negligências do Estado? Estaríamos, assim, tornando tudo sobre o humano novamente, psicologizando e patologizando?

A Psicologia implicada deve escutar, junto aos territórios, o sofrimento compartilhado, fortalecendo uma cultura coletivista e solidária, incluindo e reconhecendo que a própria comunidade produz soluções (Conselho Federal de Psicologia, 2021, 2023). Se há negacionismo quanto às mudanças climáticas, há também negligência sobre modos de vida. Os povos indígenas sempre alertaram que o planeta não está sendo prejudicado apenas para os humanos, mas também para outros seres.

O vetor moderno-colonial de produção de inimizades múltiplas (Mbembe, 2020) e da separação sujeito/objeto, o cogito da conquista “ego-conquiro” (Gorsfoguel, 2018) se torna olhos do ódio, inferiorizando aquilo que é da ordem do não branco, humano ou não. Através dessa inimizade, como cita o autor camaronês, o outro é sempre alocado no lugar de inimigo, e sua constante desumanização facilita que o extermínio seja autorizado. Com isso, a matabilidade o outro, ou o fazer morrer colonial se atualiza, posto que aquilo que não é espelho rapidamente se torna ameaça, pela falta de educação da branquitude em não respeitar a diferença - um jogo de inversão projetiva do ego narcisístico (Gonzalez, 2020). Assim, como sublinha Narahara (2020) em diálogo com Krenak e Ani, os “desastres” ambientais são fruto dessa lógica colonizadora: sempre uma relação de uso e inferiorização. Não há desastre; é a forma de operar da máquina de morte moderno-capitalista que aloca o corpo do outro como inimigo.

Nesse sentido, seria justo pensar que os abrigos, suas condições e formas de existência de vida, só podem ser ampliadas por meio do acesso a políticas públicas? A quem interessa continuar considerando pessoas como “recursos” e utilidades, lógica preponderante na relação humana com a Terra, a ponto de engendrar a destruição da nossa própria condição de existência? E se as pessoas, os bichos, a terra e a água não forem recursos/coisas/objetos, escutar e produzir cuidado pela via do compartilhamento, como diz Bispo dos Santos (2023), deixa de ser troca de favores.

Quando os abrigos foram erguidos para acolher pessoas afetadas pela enchente, nos deparamos com uma questão: em quem e em que estamos baseando essas formas de acolhimento? Não bastava construir espaços físicos ou institucionais; era preciso repensar o acolhimento, indo além da lógica dicotômica humano vs. natureza historicamente imposta pelo Ocidente. Muitos cuidados produzidos acabam sendo objetivados, deslocados da realidade local (Süssekind, 2018; Tuxá, 2022). Considerar a catástrofe apenas como fenômeno humano oculta a destruição mais ampla da teia de vida, que envolve rios, animais, solo, plantas e múltiplos ecossistemas que compõem a trama existencial.

Aqui, a escuta da Psicologia Social se faz necessária de maneira localizada, interseccional e interespécie, ‘interespécie’ refere-se às relações de escuta e cuidado para além da espécie humana, incluindo animais resgatados e o próprio território afetado pelas águas. Escutar as pessoas afetadas pela enchente e habitar o presente, assim como escutar os rios, as plantas, os animais, é um gesto ético-político fundamental, pois, como lembra Krenak (2019), não somos separados da terra. O que fazemos ao rio, fazemos a nós mesmos. A psicologia precisa perceber o colapso não como algo externo de nós, mas como algo que nos atravessa e nos constitui coletivamente, a partir de cada diferente localidade. O que escutamos e acompanhamos não são apenas corpos humanos, mas a interdependência de todos os seres no planeta, em sua complexidade histórica e ecológica.

É neste ponto que o pensamento de Malcom Ferdinand (2022) nos ajuda a aprofundar a crítica. Para ele, a luta ecológica falha quando ignora os efeitos do colonialismo, ao apagar a dupla fratura colonial que instaurou, simultaneamente, a cisão entre humanos e natureza e a separação entre humanos colonizadores e humanos colonizados. Ou seja, a destruição do mundo natural não pode ser compreendida sem a destruição das vidas negras, indígenas, escravizadas, das populações colocadas como descartáveis nos projetos de colonização e exploração. A fratura ecológica é também uma fratura colonial.

Ignorar isso é produzir uma política ecológica despolitizada e supostamente “neutra’. Por isso, é urgente que catástrofes como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul não sejam lidas como fenômenos isolados ou imprevistos, mas como expressões das composições complexas do capitaloceno, como Haraway (2019) assim como outros propõe. Não estamos apenas em uma era do “Antropoceno”, termo que generaliza responsabilidades humanas, mas em um tempo de colapso produzido por um modo específico de ser humano: colonial, patriarcal, capitalista e extrativista.

A psicologia social precisa se engajar na luta descolonial, pois não se trata apenas de cuidar de traumas individuais, mas de escutar os efeitos prolongados e reincidentes da colonialidade na vida material e simbólica de mundo. A psicologia precisa ser elaborada e não se conformar com a ideia de que o sofrimento é um fenômeno isolado. Ela parte da ideia de que o sofrimento social é constituído por relações de poder e pela subordinação das vidas humanas às lógicas econômicas do capitalismo e do neoliberalismo. O uso da psicologia, muitas vezes, acaba psicologizando e patologizando a dor, ao invés de questionar suas tramas estruturais.

Além disso, ao refletir o papel da psicologia nos abrigos, devemos considerar a crítica neoliberal à gestão da vida. O modelo neoliberal propaga a ideia de que o bem-estar humano é alcançado através das liberdades individuais e da responsabilidade sobre si mesmo, ignorando as condições estruturais de desigualdade e a violação dos direitos humanos (Harvey, 2008) e os impactos para além do humano. Nesse cenário, muitas vezes a psicologia, enquanto campo de saber, reitera-se enquanto uma ferramenta para regular e controlar as emoções e comportamentos das populações em situação de vulnerabilidade, sem questionar a desigualdade social, as políticas públicas de habitação e as condições de vida.

Como destacou Harvey (2008), a lógica neoliberal não apenas fragmenta a coletividade, mas também cria muros que segregam o “Outro”. O abrigo, então, se torna um mecanismo de gestão, onde as pessoas são tratadas como recursos a serem manipulados, e não como sujeitos complexos e dignos de cuidado. A psicologia, nesse contexto, falha quando limita seu posicionamento frente à psicologização do sofrimento e não amplia sua escuta para outras formas de produção de cuidado, como as experiências coletivas de solidariedade, autogestão e resistência.

Ampliar as possibilidades de compreensão sobre o que foram e como funcionaram os abrigos durante as enchentes, também podem ser vistos como territórios de resistência à lógica neoliberal de segregação e controle. Eles são, ao mesmo tempo, espaços de deslocamento de vidas e de experimentação de autogestão. Nos abrigos, a escuta das múltiplas formas de vida é importante, pois a interseção entre as necessidades humanas e não humanas são múltiplas. Pensando com Haraway (2019), os abrigos deveriam se tornar locais de fabricação de mundos, onde se reconfiguraria o cuidado.

São nesses momentos de colapsos que surgem linhas de reorganização coletiva que tensionam a normatividade imposta pelo Estado e pelo capital. Nesse contexto, é possível reconhecer nos abrigos populares, criados a partir da urgência e da solidariedade, expressões uma forma ancestral de resistência: o quilombo. Mais do que um local de refúgio físico, o quilombo é uma tecnologia político-afetiva de reexistência, de criação de mundo em meio à violência estrutural do racismo, da colonialidade e da expropriação de corpos e territórios. Beatriz Nascimento (2021) nos lembra que o quilombo não foi apenas uma fuga da escravatura, mas uma forma de organização social e simbólica que reconfigurou o tempo, o espaço e os modos de existência.

Paradoxalmente à experiência de vigilância punitivista que muitas vezes produziu fraturas na lógica de oferta de cuidado eurocêntrico e dos perigos da razão humanitária como citam Noal, Rabelo e Chachamovich (2019), os abrigos também poder ser pensados como espaços instituintes. Esses espaços também nos permitem problematizar a força da ética do quilombo, onde o cuidado, a escuta e a partilha tensionam os modos hegemônicos de gestão da vida. Abdias do Nascimento (2021) via no quilombo uma expressão de tempo espiralar, uma territorialidade negra que funda sua existência não na linearidade do progresso ou do acúmulo, mas na recriação constante de espaços compartilhados. Essa perspectiva permite pensar os abrigos como territórios provisórios de insurgência, que escapam à funcionalidade do Estado e ao planejamento racional das políticas públicas.

Não se trata de romantizar os abrigos, atravessados por precariedade, sobrecarga e improvisação, mas de reconhecer neles uma potência de elaboração coletiva, onde o cuidado se dá não por delegação institucional, mas pela presença comprometida entre corpos. Como quilombos, os abrigos produzem um “corpo-território”, no sentido de Beatriz (2021), onde cada gesto de cuidado é também um ato de resistência e criação de novas formas de habitar o mundo em ruína.

Portanto, é fundamental que a Psicologia Social amplie sua compreensão sobre o que significa cuidar e escutar. Não devemos ver o cuidado somente pela perspectiva da tutela e a escuta apenas como um processo de acolhimento psicológico dos traumas, mas como um gesto de transformação das estruturas que produzem essas catástrofes, se posicionando contra o poder do capital, que destrói múltiplos modos de existências, e ser capaz de se engajar em processos de resistência e reinvenção de mundos em coexistência. O cuidado deve ser um processo de acolhimento mútuo, que multiplique os pontos de referência no mundo, que respeite as diferenças, que não subordine a dor, mas que atue de forma a abrir possibilidades de transformação radical da vida comum, uma vida que, como nos lembra Ferdinand (2022), não pode mais se sustentar sobre os escombros da fratura colonial.

4. Gestos metodológicos em tempos de colapso

Os gestos metodológicos deste artigo emergem da experiência situada, da presença encarnada e da disposição em sustentar uma escuta que nos implicasse ética, política e afetivamente. Partem da experiência como estudantes de doutorado na disciplina Teorias e Métodos III do programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional (PPGPSI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), voltada à identificação de temas emergentes e à elaboração de escritas a partir da conversação com diferentes saberes de projetos de intervenção e pesquisa. Durante esse período, fomos direta e indiretamente afetados pelas enchentes e pelos desafios de atuação enquanto profissionais da Psicologia Social.

Ao longo da disciplina da pós-graduação do doutorado, o coletivo revisitou experiências compartilhadas e problematizadas sobre a fratura e a incompatibilidade do social na Psicologia Social contemporânea. Esse espaço institucional se tornou um importante continente para compartilhar afetos e emoções, abrigando e, de certa forma, aquilombando o coletivo (Nascimento, 2019).

Não se trata de aplicar um método, mas de ser afetado e produzir questões éticas diante do colapso. A crise hídrica no Rio Grande do Sul não produziu apenas perdas materiais: ela escancarou a falência das categorias rígidas da modernidade e a insuficiência das respostas técnico-instrumentais. Diante disso, o que fizemos foi compor gestos. Gestos de escuta, de escrita, de cuidado, de permanência. Como propõe Haraway (2019), “ficar com o problema” não é buscar respostas universais e rápidas, mas se manter no desconforto, habitar a densidade do presente, criar alianças interespécies e fabulações comprometidas com o mundo por vir.

A escrita da personagem-conceito Yara é parte dessa fabulação. Ela traz para o debate o colapso e o coloca em análise através da vivência no abrigo, desde uma perspectiva ética, estética e política, o acontecimento das enchentes no Rio Grande do Sul e o atual momento de crise climática e humanitária. Como cita Haraway (2019), fabular é criar mundos possíveis a partir da ruína, tecer narrativas que não apenas descrevem, mas que fazem mundos existirem. Sua construção coletiva é um gesto de elaboração de um real excessivo. Uma ficção atravessada por escutas múltiplas e camadas afetivas. A personagem nos permitiu dar corpo à experiência, e não por acaso. Como afirma Saidiya Hartman (2022), em sua escrita de reconstituição e “fabulação crítica”, há uma potência em fazer do corpo um documento, quando os arquivos oficiais falham ou silenciam. No caso da enchente, o que escutamos e vivemos também não cabia em planilhas, relatórios ou discursos institucionais. O corpo de Yara exausto, com sede, com medo, em luta, em grupos é um corpo-arquivo. Um corpo-território, como nos ensina Beatriz Nascimento (2021), que carrega as marcas da história, da terra, da cidade inundada, da violência estrutural, mas também da resistência e da imaginação coletiva.

Estar no abrigo foi outro gesto. Não sabíamos exatamente o que fazer, mas sabíamos que não podíamos não estar ali. Estar no abrigo foi compreender que a escuta não é apenas uma técnica, mas uma forma de habitar o mundo. Escuta que se dá quando se estende um lençol, quando se senta ao lado, quando se aceita não saber o que dizer. Isso também é cuidado. Essa escuta que experimentamos foi radicalmente interseccional e interespécie. Interseccional, como nos alerta Akotirene (2019), por compreender que classe, raça, gênero, território, deficiência, história e ancestralidade se entrelaçam na constituição de cada corpo e de cada situação de vulnerabilidade. Interespécie, porque o colapso não atingiu apenas humanos. Os animais de companhia, o solo, o rio, os alimentos, os fluxos de energia: tudo estava implicado.

Yara escuta, no abrigo e na cidade alagada, esses múltiplos ecossistemas de existências. A escuta torna-se, nesse gesto, um ato político e ético. Um modo de nos deslocarmos do paradigma do sujeito universal, branco, cisheteronormativo, urbano, racional, e reconhecermos outras formas de vida, outros saberes, outras existências que sustentam o mundo como trama. Como afirma Bispo dos Santos (2023), é preciso produzir encantamentos, abrir-se para modos de viver e conhecer que não cabem na episteme eurocentrada da ciência moderna. Glissant (2021) também nos convoca à opacidade, ao reconhecimento daquilo que não será traduzido nem capturado, mas que exige escuta, convivência e respeito.

A escrita foi também parte do método. Nos reunimos como podíamos, entre e-mails, chamadas de vídeo, mensagens no WhatsApp. A construção do texto foi coletiva, atravessada por pausas, silêncios, lágrimas e risos. Às vezes, não conseguíamos escrever. Outras vezes, uma frase abria caminhos inesperados. Foi assim que Yara emergiu e fomos compondo este texto. Ao experimentarmos a escrita como forma de escuta, e a escuta como forma de cuidado, reconfiguramos também o lugar do conhecimento. Não mais o saber distanciado e autorizado, mas o saber situado, implicado, encarnado, que acontece entre o silêncio e a palavra, entre o gesto e a espera. Os métodos não estavam prontos: foram sendo inventados no encontro com acontecimentos disruptivos. E é justamente essa abertura ao não saber, ao inacabado, ao sensível, que nos parece fundamental para o nosso presente. Porque diante das catástrofes do nosso tempo, não basta compreender o social, é preciso escutá-lo, habitá-lo, ampliá-lo e conectá-lo.

5. Compondo Possibilidades Interseccionais e Interespécie

A psicologia e as ciências em termos gerais, em muitos de seus modos hegemônicos de existência, reiteram um sujeito eurocentrado, branco, masculino, racional e separado da natureza. Sustenta, por vezes, um ideal de intervenção tecnicista, individualizante e “curadora”, mesmo diante da catástrofe. Mas há outras possibilidades. Quando a psicologia permite escutar o colapso, deixar que se afete, transforme, ela percebe que é apenas uma entre muitas perspectivas possíveis. Não há universalidade hegemônica possível em meio à lama, à perda e à água que transborda. Há histórias, há dores, há modos de resistir. E há relações de diversas ordens e escalas jamais percebidas antes.

Diante das catástrofes da atualidade, somos convocadas à transformação. Não para oferecer um novo protocolo de intervenção em emergências, mas para descolonizar seus próprios fundamentos. Para se perguntar, como propõe Antônio Bispo dos Santos (2023), o que ainda pode nos encantar. E como podemos deixar que a palavra, não a palavra técnica, mas a palavra viva nos revigore. Como sugere Glissant (2021), trata-se de habitar a relação sem pretender totalizá-la, acolhendo a opacidade e a alteridade como princípios éticos da escuta.

Portanto, é preciso abandonar o pensamento separador de mundos para produzir novos modos de imaginar o mundo, em uma ética do encontro. É necessário interpelar esse social demasiadamente humano, como insiste Bispo dos Santos (2023), e acoplar o debate descolonial ao exercício interseccional que propõe Carla Akotirene (2019). Interseccionalidade, aqui, não é apenas uma análise de marcadores identitários, ela é ampla, um exercício constante de estar no mundo e interpelar as coisas. É uma prática ontológica e epistemológica: é perceber que cada corpo carrega consigo camadas de mundo, e que cada fenômeno precisa ser lido em sua complexidade, nas tramas históricas, afetivas, ancestrais, etárias, geográficas e materiais que o constituem. A interseccionalidade está no modo como habitamos o mundo, como nos deixamos afetar por ele, e como nele coabitamos com outros modos de existência. Produz-se, assim, uma ampliação da cosmopercepção (Oyěwùmí, 2021): cosmoperceber o mundo como relação, e não como recurso.

Oyěwùmí (2021) nos convoca a inquietações epistemológicas a partir das dinâmicas relacionais de sua comunidade e de sua ancestralidade. Assim nos é apresentado um mundo Yorubá pré-colonial, onde a vida é dinâmica, fluida e atravessada pela multiplicidade de sentidos possíveis para cada situação. Ao diferir do pensamento racional, estático e singular, a cosmopercepção nos convida a um profundo mergulho num horizonte sensorial de apreensão da realidade e a desnaturalizar afirmações centradas em um único modo de percepção de mundo e de suas categorias ocidentais que sustentam a realidade colonial e seus discursos hegemônicos.

As catástrofes climáticas não pedem escuta técnica apenas, mas também presença e colapsos em nossas sensibilidades. E a presença, como nos mostra Yara, pode ser um gesto ético de permanência. Não sabíamos exatamente o que fazer no abrigo. Não tínhamos as melhores respostas, nossos corpos sabiam estar ali: escutar sem pressa, sentar junto, chorar junto, brincar com as crianças, sustentar a densidade da noite. Criar laços que nem sempre cabem em relatórios, produzir um tempo que não se mede em produtividade.

Nesse contexto, é necessário abraçar o não saber como possibilidade de reinvenção. Compreender que não há respostas prontas. Que os afetos são políticos. Que todo cuidado é interseccional. E que escutar é permitir que o mundo atravesse o nosso corpo. Como nos diz Somé (2007), o íntimo é coletivo e ele se constrói no gesto de partilhar, cozinhar, tocar um instrumento, cantar uma música, cuidar do fogo e da terra. Nesses gestos que o espírito da coletividade se ergue.

Conforme aponta a Nota Técnica CFP Nº 22/2024, é justamente sobre essa possibilidade de invenção de futuros que a nossa atuação pode ser fomentada nos primeiros cuidados psicológicos, uma vez que uma parcela pequena das pessoas abrigadas irá precisar de atenção especializada de saúde mental. Nesse sentido, na resposta imediata é importante validar e acolher as experiências enlutadas e ansiosas que são ensejadas pela crise sem necessariamente que esta escuta seja realizada em um setting de uma clínica tradicional. A maior parte desse primeiro cuidado será exercido na oferta de espaços de segurança, higiene e proteção para familiares e animais de estimação. Ou seja, a escuta se transversaliza em movimentos de cuidado ampliado. Um lençol estendido, uma garrafa d’água, uma cebola picada, um caderno com anotações noturnas, esses gestos carregam o que há de mais sensível no cuidado do coletivo.

Nessa chave, os abrigos populares podem ser vistos como práticas de recusa ao abandono institucional e à lógica neoliberal que transforma vidas em “recursos”. Cabe salientar que os abrigos populares também operam a partir das lógicas e dinâmicas duras de instituições como os campus universitários ou escolas municipais e estaduais que resolveram abrir as suas portas em um momento tão sensível para a população. Yara nos permite cosmoperceber mundos de lógicas que às vezes se tornam incompossíveis em suas lógicas de operação. Ainda assim, em suas linhas de diferenciação, abrigos populares podem ser espaços de pedagogia social, onde se aprendem formas de existir e cuidar sem roteiros instituídos, mas que dizem muito sobre o valor da presença, da escuta, da improvisação e da solidariedade entre mundos diversos, humanos e não humanos. Ao ativar o quilombo como conceito vivo, é possível deslocar o sentido do abrigo da sua função emergencial e funcional, para compreendê-lo como um laboratório de práticas de construção de mundos compartilhados.

No abrigo-quilombo, as fronteiras entre natureza e cultura são questionadas e se embaralham, as hierarquias de saber são desmontadas, e o cuidado não se restringe ao “psicológico”, mas se estende aos vínculos, aos bichos, às memórias, as forças ancestrais, aos territórios e os afetos se atravessam. O abrigo, como o quilombo, não é apenas um espaço de proteção, mas de invenção, um refúgio em meio ao colapso, uma experimentação coletiva de escuta e cuidado partilhado. Portanto, trazer a noção de quilombo para pensar os abrigos diante das catástrofes climáticas é também um chamado ético e político: lembrar que a luta por abrigo é também uma luta por mundos.

6. O que pode a Psicologia escutar nos abrigos das enchentes?

O excepcionalismo humano e o individualismo, que tentamos romper ao longo desta travessia vivência-escrita das enchentes, foram tensionados, ainda que persistentemente reinscritos pelas lógicas ocidentais, capitalistas e neoliberais. Esta escrita também se constituiu como um convite a exercitar uma escuta com as ruínas, uma escuta que cultiva respons-habilidades no sentido de se vincular e, ao mesmo tempo, se descolar dos saberes hegemônicos. É preciso contar e escutar histórias, parciais, situadas, que nos enredem e nos coloquem em jogo com o devir-com outras formas de vida e nos permitam compor futuros habitáveis ainda que em tempos precários.

Yara, enquanto corpo de ficção e escuta, foi nosso abrigo. Um modo de expressar o que circulava entre nossos corpos, entre as ruas de Porto Alegre e os abrigos. Um gesto de resistência e de imaginação radical em meio às águas do Guaíba. Talvez seja esse o convite que ela nos faz: não normalizar a catástrofe. Mas escutá-la. Não produzir respostas, mas sustentar perguntas. É precisamente a partir dessa perspectiva expandida de “abrigo” que a Psicologia Social deve se reposicionar.

Como Bispo dos Santos (2023) afirma, o cuidado não deve ser reduzido a uma troca de favores, mas sim expressar um processo que acolha as diversificadas formas de vida e de produção existencial para a multiplicação das mesmas. Ou seja, redimensionar a cosmopercepção sobre o cuidado e ampliar a noção de social da psicologia como possibilidade de novas alianças, arranjos e agências, se apresenta como uma travessia possível. Em momentos de colapso, as bases ontoepistêmicas que sustentam nossas práticas precisam se questionar. O espaço do não saber é potente e também pode ser fértil: nele florescem novos modos de estar em presença, novas linguagens, práticas e pontos de referências. E frente aos desafios climáticos e às violências ocasionados pela lógica colonial, a Psicologia Social busca se configurar como um saber em movimento, desde diferentes relações e posicionalidades entre-mundos.

Ao retomar este relato de experiência e articulado teoricamente, nosso objetivo foi deslocar o lugar da Psicologia Social em contextos de colapso ambiental, propondo uma escuta que vá além da intervenção técnica e psicologizante. Através da fabulação da personagem Yara, a análise conclui que a catástrofe escancara a fratura colonial (Ferdinand, 2022) a indissociabilidade entre a destruição ecológica e a negligência histórica com certas existências, demandando da Psicologia um gesto ético radical: o de ‘ficar com o problema’, na acepção de Haraway (2019). Isso significa abandonar a pretensão de cura individual e se comprometer com uma escuta interseccional e interespécie, que reconhece os abrigos como territórios de aquilombamento e reexistência, onde o cuidado emerge como prática coletiva de mundo. O ensaio, portanto, aposta em uma Psicologia Social descolonial e aquilombada, que se permita ser atravessada pela crise, transformando-se em ferramenta que tensionam as linhas de força de normalização, e possam fabular futuros possíveis a partir das ruínas.

  • Financiamento
    Não houve
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica
  • Aprovação, ética e consentimento
    Não se aplica

Referências Bibliográficas

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  • Editor científico
    Dr. Jáder Ferreira Leite

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Jul 2025
  • Revisado
    13 Set 2025
  • Aceito
    28 Set 2025
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