Open-access INTERSECCIONALIDADE E PRODUÇÃO DA SAÚDE MENTAL DAS MULHERES QUILOMBOLAS DO GRILO, PARAÍBA

INTERSECCIONALIDAD Y PRODUCCIÓN DE SALUD MENTAL DE LAS MUJERES QUILOMBOLAS DE GRILO, PARAÍBA

INTERSECTIONALITY AND PRODUCTION OF MENTAL HEALTH AMONG QUILOMBOLA WOMEN IN GRILO, PARAÍBA

Resumo

Este estudo, fruto de uma dissertação de mestrado em Psicologia, investigou as condições de produção de saúde mental de mulheres quilombolas da comunidade do Grilo, Paraíba, considerando a interseccionalidade e a determinação social da saúde mental. A pesquisa qualitativa, baseada na Educação Popular e na problematização crítica da realidade, utilizou a interseccionalidade como eixo transversal e adotou a pesquisa participante como metodologia. As estratégias incluíram participação observante, atividades grupais, entrevistas e registros em diário de campo. O Círculo de Cultura foi uma ferramenta central, permitindo a articulação entre experiências singulares e os sistemas de opressão que interpelam seus corpos-territórios. A dialogicidade viabilizou reflexões coletivas, fortalecendo práticas de cuidado e resistência. O estudo evidenciou como a vivência de novas experiências, mediadas pela ação-reflexão-ação, pode transformar consciências e relações, valorizando os saberes locais, o território e as redes de apoio entre as mulheres participantes.

Palavras-chaves:
Mulheres quilombolas; Interseccionalidade; Determinação social da saúde; Saúde mental.

Resumen

Este estudio, fruto de una tesis de maestría en Psicología, investigó las condiciones de producción de la salud mental de mujeres quilombolas rurales de la comunidad de Grilo, Paraíba, desde la interseccionalidad y la determinación social de la salud mental. Con enfoque cualitativo y basado en la Educación Popular y en la problematización crítica de la realidad, adoptó la investigación participante como metodología y la interseccionalidad como eje transversal. Las estrategias incluyeron observación participante, actividades grupales, entrevistas y registros en diario de campo. El Círculo de Cultura fue herramienta central para articular experiencias individuales y sistemas de opresión que afectan sus cuerpos-territorios. La dialogicidad impulsó reflexiones colectivas que fortalecieron prácticas de cuidado y resistencia. El estudio mostró cómo nuevas experiencias vividas, mediadas por la acción-reflexión-acción, pueden transformar conciencias y relaciones, valorizando los conocimientos locales, el territorio y las redes de apoyo entre las mujeres participantes.

Palabras clave:
Mujeres quilombolas; Interseccionalidad; Determinación social de la salud; Salud mental.

Abstract

This study, the result of a master’s thesis in Psychology, investigated the conditions for mental health production among quilombola women in the community of Grilo, Paraíba, considering intersectionality and the social determination of mental health. The qualitative research, based on Popular Education and critical problematization of reality, used intersectionality as a cross-cutting axis and adopted participant research as its methodology. The strategies included observant participation, group activities, interviews, and field diary entries. The Culture Circle was a central tool, allowing the articulation between singular experiences and the systems of oppression that challenge their bodiesterritories. Dialogicity enabled collective reflections, strengthening practices of care and resistance. The study showed how new experiences, mediated by action-reflection-action, can transform consciousness and relationships, valuing local knowledge, territory, and support networks among the participating women.

Keywords:
Quilombola Women; Intersectionality; Social Determination of Health; Mental health.

1 Introdução

Este estudo, fruto de uma dissertação de mestrado em Psicologia, analisou, a partir da interseccionalidade e da determinação social da saúde, as condições de produção da saúde mental de mulheres quilombolas da comunidade Grilo/PB. Historicamente atravessadas por múltiplas vulnerabilidades, as mulheres quilombolas de todo o Brasil enfrentam violências de gênero, racismo e a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado, além das violências externas aos quilombos, especialmente relacionadas ao racismo - ambiental e institucional - e ao sexismo - no contexto de violentas relações cisheteropatriarcais e coloniais de opressão - que transcendem os conflitos fundiários (Almeida & Nascimento, 2022; Fernandes, Galindo, & Valencia, 2020; Held & Campos; 2022; Reis, 2020).

Tais opressões conformam suas experiências de saúde mental e demandam um olhar crítico sobre as políticas públicas de saúde, que ainda desconsideram suas especificidades territoriais e culturais (Dantas, Dimenstein, Leite, Macedo, & Belarmino, 2020). A pesquisa propõe contribuir com o campo da Psicologia Social e da Saúde Coletiva, fomentando práticas comprometidas com a transformação social e a valorização dos saberes locais, em especial, para psicólogos e psicólogas, na perspectiva de reafirmar o seu compromisso social para/com as classes populares: lançar, sobre elas, um novo olhar para os aspectos conjunturais que conformam a saúde mental dessa população (Martín-Baró, 1997).

Assumimos, desde já, que a forma como a interseccionalidade transversaliza este trabalho não pretende abarcar todos os significados e possibilidades de seu uso, em razão do seu caráter fundamentalmente dialógico (Collins, 2022). Seus modelos de uso são sempre provisórios (Oyěwùmí, 2021; Pereira, 2021), pois devem considerar em suas propostas as localizações sociais distintas de sujeitos(as) e grupos na intersecção das relações de poder e como relacionalmente e de maneira complexa exercem influência sobre a produção de conhecimento (Collins, 2022).

Assim, os objetivos específicos da pesquisa foram transformados em eixos de discussão, a partir dos quais apresentaremos as informações produzidas pelas mulheres durante o Círculo de Cultura, nas entrevistas individuais e nos registros feitos pelo pesquisador, primeiro autor deste texto, em diários de campo, ao tecer um caminho de compreensão que demonstra o quão intimamente e complexamente relacionados estão os próprios objetivos específicos, a saber: levantar os problemas psicossociais mais recorrentes das mulheres quilombolas; investigar os impactos dos sistemas de opressão na saúde mental; e identificar as práticas individuais e coletivas de resistência aos problemas vivenciados no cotidiano.

1.1 Interseccionalidade e determinação social da saúde mental: possibilidades de articulação

Collins (2022), Galvão, Oliveira, Germani e Luiz (2021) indicam que o reconhecimento da teoria da interseccionalidade pelas pesquisas em saúde pública, epidemiologia e sociologia reforça o debate teórico-metodológico em torno da temática e promove a apropriação dessa perspectiva como um paradigma transformador para a saúde coletiva e as políticas de saúde.

Nesta perspectiva, a articulação entre a interseccionalidade e a determinação social da saúde nos fornece subterfúgios teóricos, conceituais e analíticos que desvelam como as intersecções entre os sistemas de poder reverberam em questões que ultrapassam o campo objetivo e observável, mas também em formas e modos de subjetivar as experiências vividas. Além disso, a articulação entre os dois campos a partir de suas ideias centrais e premissas podem abrir espaço para uma mudança na forma como ambos organizam suas práticas, com vista a facilitar o alcance de seus objetivos de resolução de problemas (Collins, 2022).

Dessa forma, faz-se mais do que necessária, assim como aponta Breilh (2010), a articulação da determinação social da vida com outros campos de conhecimento crítico. Apostar nessa abertura nos mobiliza a pensar a interseccionalidade como caminho possível para aprofundar as análises e compreensões sobre como diferentes relações interseccionais de poder, de forma articulada e complexa, moldam as desigualdades em saúde.

Nessa direção, apresentamos cada um dos construtos centrais que fundamentam a teorização interseccional: a relacionalidade, complexidade, contexto social, poder e desigualdade e justiça social, conforme esboçados por Collins (2022). Posteriormente, trazemos as contribuições de James Breilh para o paradigma da determinação social da vida, demonstrando onde e como cada um dos construtos centrais da interseccionalidade apresentados figuram na construção do pensamento paradigmático de Breilh.

As obras de Breilh (2000, 2010, 2021) evidenciam os eixos centrais de poder, justiça social e complexidade, que dialogam com a teorização interseccional. Ambos os paradigmas reconhecem o poder como elemento chave na produção das desigualdades sociais e no acesso à saúde. Ignorar suas inter-relações impede a compreensão crítica dessas opressões. As relações interseccionais moldam modos de vida, acesso ao cuidado e experiências específicas de vivenciar a saúde mental (Dantas et al., 2020; Zanello, Fiuza, & Costa, 2015).

O construto da complexidade, apresenta-se como inerente a ambos os campos teóricos, uma vez que a influência e a forma como as relações de poder operam mutuamente na construção das identidades, práticas sociais, instituições, ideologias e representações culturais são sempre de ordem complexa. Nesse sentido, é preciso abrir mão de formas de análise dos problemas sociais a partir de lentes monocategóricas e que se fundamentam na mera demonstração de vínculos causais, diretos, individualizados ou simples associações (Breilh, 2010; Collins, 2022).

Para a interseccionalidade, não se trata de uma simples soma ou o reconhecimento da multiplicidade dos sistemas e relações de poder, mas sim a compreensão da forma dinâmica de como operam as suas inter relações (Bilge, 2009). A determinação social da saúde segue a mesma direção ao compreender a saúde como um fenômeno conformado por uma rede complexa de iniquidades que se relacionam de forma interdependente e que exigem soluções abrangentes que considerem tal complexidade (Breilh, 2000).

O contexto social, espaço onde se materializam as relações interseccionais de poder, é também tomado na determinação social da saúde como central, ao enfatizar que as experiências dos(as) sujeitos(as) não podem ser dissociadas de seus contextos históricos, políticos, sociais e culturais que determinam as relações de poder e constroem os(as) sujeitos(as), os quais se configuram relevantes para a compreensão dos processos de saúde-doença-cuidado. A determinação social da saúde tem sua gênese na compreensão de que nascemos, crescemos, adoecemos e morremos sobre as determinações de um contexto de estratificação social injusta e insustentável (Breilh, 2021).

Tanto a relacionalidade proposta por Collins (2022) quanto a interdependência entre condições de vida e saúde formulada por Breilh (2000) convergem na necessidade de analisar as conexões entre diferentes sistemas e relações de poder. Para as autoras do campo da interseccionalidade (Akotirene, 2022; Collins, 2022 Crenshaw, 2002; Vigoya, 2023), a compreensão da realidade se dá por meio da análise conjunta e contextualizada das múltiplas relações interseccionais de poder que moldam a vida dos(as) sujeitos(as).

Similarmente, Breilh (2010) e outros(as) autores(as) (Fleury-Teixeira, 2009, Dimenstein, Siqueira, Macedo, Leite, & Dantas, 2017) defendem a análise interdisciplinar das formas de organização da sociedade, de sua estrutura social e econômica, entendendo que esta subordina a dimensão natural da produção da saúde, da doença e do cuidado, assim a saúde pode ser compreendida a partir da interação dinâmica entre as experiências individuais, os processos estruturais e os sistemas ecossociais que as influenciam.

Ambas as perspectivas rejeitam análises isoladas e superficiais, buscando uma compreensão profunda e interconectada dos fenômenos sociais e de saúde. A aposta de Breilh (2010) ao centrar as reflexões e análises em torno das relações de poder, os processos sociais e a saúde enquanto interdependentes, alinha-se à premissa orientadora da interseccionalidade de que a intersecção das relações de poder produz desigualdades sociais complexas e interdependentes que determinam os fenômenos sociais (Collins, 2022). A desigualdade social destaca como as relações de poder operam na sua criação e dos problemas sociais que delas resultam, além de examinar os movimentos de resistência contra tais desigualdades (Collins & Bilge, 2021).

A interseccionalidade e a determinação social da saúde, ao convergirem também na compreensão deste construto central, complementam-se na análise da desigualdade social, fornecendo ferramentas teórico-metodológicas e conceituais para a compreensão e teorização crítica de suas raízes estruturais. Essa perspectiva convoca ações que transcendem o modelo biomédico tradicional, enfatizando a interconexão entre relações de poder na produção da saúde mental das populações.

Assim, ao articular os dois campos paradigmáticos, defendemos uma compreensão de saúde mental como construção intersubjetiva histórica e culturalmente situada, de experiências de bem-estar ou mal-estar, expressas através dos nossos corpos, dos nossos pensamentos, dos nossos afetos, dos nossos discursos e das nossas ações em relação a nós próprios, aos outros e às ecologias onde - e por meio das quais - existimos como sujeitos(as) (Capella, 2023).

Nessa perspectiva, nos parece ser possível a construção de um paradigma de saúde mental coletiva metodologicamente pluralista que a práxis privilegie o olhar para as subjetividades e seu contexto de produção, ao integrar diferentes saberes, inclusive aqueles gerados pelos(as) próprios sujeitos(as) em suas comunidades.

2 Percurso metodológico:

2.1 Caminhos teórico-metodológicos

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa de caráter qualitativo, desenvolvida aos moldes da pesquisa participante, pautada nos pressupostos teórico-metodológicos da educação popular de Paulo Freire (1980) e da práxis crítica interseccional como fio condutor da ação.

A primeira etapa de realização do trabalho com as mulheres consistiu na inserção do primeiro autor na comunidade, ao lançar mão da participação observante, que tornou possível o conhecimento do território, a aproximação do cotidiano e a construção de laços. A participação observante aconteceu simultaneamente a todas as demais etapas da pesquisa e as percepções do pesquisador foram registradas em diário de campo (Minayo, 2001).

A segunda etapa do trabalho consistiu na realização de um Círculo de Cultura com as mulheres participantes, a fim de que os processos dialógicos da prática grupal nos ajudassem a identificar os impactos dos diversos sistemas de opressão na saúde mental das mulheres, tornando possível a investigação de como estes sistemas podem se inter relacionar e conformar modos de produção de saúde mental neste contexto.

A terceira etapa do trabalho com o grupo de mulheres se materializou por meio da realização de entrevistas individuais, tomadas de modo a complementar as produções do Círculo de Cultura, tornando possível articular as dimensões mais singulares de como as intersecções dos sistemas de opressão se presentificam nos corpos das mulheres a partir de seus relatos individuais, situados nas especificidades das suas histórias, ao passo que também possibilitaram uma reflexão mais coletivizada a partir das trocas e conexões engendradas pelas próprias mulheres participantes no processo grupal.

Vale salientar que todas as etapas da realização do trabalho de campo tornou possível identificar como as mulheres resistem, individual e coletivamente, às relações de poder em seu cotidiano, uma vez que o engajamento dialógico foi tomado como princípio que atravessou toda a experiência.

2.2 Território e participantes

No interior do estado da Paraíba, está localizada a comunidade quilombola do Grilo, área de 140 hectares onde vivem hoje 104 famílias. Atualmente, a comunidade ainda aguarda a regularização de suas terras a partir dos estudos que ainda se encontram em fase de conclusão pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Vale salientar que, historicamente, o processo de mobilização e organização comunitária em torno da luta pelo reconhecimento da comunidade como quilombola e os seus direitos coletivos sobre as terras foi majoritariamente protagonizado pelas mulheres.

No que se refere às protagonistas do presente estudo, participaram 14 mulheres durante a prática grupal do Círculo de Cultura e, desse número, 5 foram entrevistadas individualmente. Quanto à identidade de gênero, todas identificam-se como mulheres cisgêneras; têm entre 19 e 64 anos; em relação à cor, 11 se autodeclaram negras, duas referem-se como pardas e uma como branca; todas nomeiam-se quilombolas; em sua maioria declaram ter concluído o ensino fundamental, uma nunca frequentou a escola e apenas uma concluiu o ensino superior. A grande maioria das mulheres (13) nasceu na comunidade e lá residem até hoje.

No que se refere ao estado civil, a maioria é casada ou vive em união estável e duas são solteiras; apenas duas não possuem filhos(as) e duas são mulheres-mães de crianças com deficiência - ambas com deficiência intelectual. Ocupam-se, em sua maioria, das atividades domésticas, agrícolas e de pequenas criações além do trabalho de cuidado dos seus próprios lares e de familiares, não havendo remuneração para esta atividade de trabalho que, em muitos dos casos, é entendida como obrigação social. Apenas duas mulheres ocupam-se da realização de trabalho doméstico remunerado em casas de pessoas de outras comunidades, também rurais, e outras duas mulheres são aposentadas.

Quanto à renda, a maioria das mulheres vivem em famílias com até um salário mínimo - R$ 1.518,00 (mil quinhentos e dezoito reais) -, remuneração que, em sua maioria, é proveniente do trabalho dos homens-esposos - a maioria com vínculo informal de trabalho, nas ocupações de pedreiro ou servente e motoristas - e duas de suas próprias aposentadorias, além de outras duas que têm suas rendas familiares provenientes de benefícios sociais federais como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Salientamos que as informações descritas acima foram produzidas por meio dos diálogos com as mulheres durante a realização das entrevistas e em posteriores momentos registrados em diários de campo. Esse caminho foi possível a partir da participação observante como horizonte de pesquisa transversal à realização de todo trabalho, a qual exigiu grande respeito à dinâmica interna do grupo de mulheres.

3 Aonde os caminhos das mulheres do Grilo nos levam: um esboço provisório de análises

No primeiro subtítulo desta seção, apresentamos o Círculo de Cultura como uma ferramenta coletiva de diálogo e espaço privilegiado para a construção de saberes e práticas compartilhadas. A partir de uma abordagem interseccional, analisamos essa experiência como uma possibilidade de reinterpretar a metodologia freireana, o que pode influenciar a forma como compreendemos e enfrentamos as relações interseccionais de poder, além de como reconhecemos e promovemos práticas de resistência e cuidado baseadas em diferentes leituras de mundo. Já o segundo, terceiro e quarto subtítulo tratam dos objetivos específicos do estudo, organizados em eixos temáticos.

Metodologicamente, após a transcrição e leitura do material produzido com o campo, como sugere Pereira (2021), realizamos um trabalho de retomada histórica da compreensão e apontamento das características contextuais dos sistemas de poder identificados na leitura do material que orientaram a identificação de elementos que funcionam como articuladores entre tais sistemas no âmbito das condições de produção de saúde mental das mulheres moradoras da comunidade do Grilo.

Os sistemas interseccionais de poder são historicamente constituídos e variam conforme o contexto. Por isso, autoras como Crenshaw (2002), Pereira (2021), Collins (2022) e Vigoya (2023) defendem o uso da interseccionalidade para construir modelos provisórios, baseados em análises contextuais e “de baixo para cima”, ou seja, ancoradas na realidade dos grupos marginalizados, evitando a aplicação de categorias analíticas, predeterminadas, fixas e descontextualizadas.

Orientados(as) pelas proposições de Pereira (2021), durante as análises, questionamos que elementos discursivos, simbólicos, imagéticos e morais presentes nas interações e discursos das mulheres participantes referiram-se simultaneamente a gênero e raça ou a outras relações de poder e como foram mobilizados nas suas interações, de modo que tornou possível a identificação dos seus efeitos para a produção de saúde mental.

3.1 Círculo de Cultura: leituras interseccionais de mundo

A atividade grupal ocorreu em abril de 2024, com a presença de 14 mulheres e durou pouco mais de duas horas. A perspectiva adotada do Círculo de Cultura favoreceu a construção de um espaço dialógico que permitiu às mulheres quilombolas do Grilo narrarem suas experiências.

O Círculo de Cultura foi conduzido com base em princípios metodológicos que prezam pelo respeito às participantes, pelo fortalecimento da autonomia e a dialogicidade. A estrutura da ferramenta seguiu o que Paulo Freire (2020) nomeou como itinerário de pesquisa, composto pelas etapas de investigação temática ou tematização, codificação e decodificação (problematização) e desvelamento crítico.

Durante a investigação temática, as participantes foram convidadas a levantar temas relacionados à saúde mental, a partir de suas próprias vivências na comunidade. Nesse momento, emergiram relatos acerca da sobrecarga de mulheres-mães com filhos(as) que exigem cuidados intensivos, o uso excessivo de álcool, o desejo por liberdade, preocupações cotidianas, acúmulo de tarefas domésticas, experiências de isolamento social, convivência com pessoas constantemente insatisfeitas, sintomas físicos de adoecimento, ansiedade, medo, uso contínuo de medicamentos e situações de racismo na escola.

Esses relatos e temas, originados das vivências singulares e coletivas das mulheres, possibilitaram identificar os principais problemas psicossociais enfrentados por elas em seu dia a dia. Dentre os temas abordados, o racismo na escola foi eleito o foco central de aprofundamento no Círculo de Cultura. A partir dessa escolha, as discussões do grupo desdobraram-se em reflexões críticas sobre a luta pelo território, as relações afetivo-sexuais entre pessoas negras e brancas heterossexuais, e as violências simbólicas e físicas direcionadas aos corpos negros - incluindo características como cor da pele, cabelos, formato do nariz e outros traços associados à negritude. A partir das palavras e temas geradores que emergiram no momento da tematização, trabalhamos a codificação e a descodificação - momentos indissociáveis na prática do Círculo de Cultura. No primeiro - codificação -, as mulheres narraram suas leituras de mundo sobre o tema gerador, contextualizando-o: “Eu fui chamada de negra do cabelo duro e muitas outras coisas também na escola” (Tereza de Benguela, 39 anos - Registro de áudio da prática grupal).

maioria das pessoas aqui sofreu muito com o racismo, né? Principalmente, começando nas escolas. Chegou o dia de a gente chegar em casa chorando ... era muito xingamento, muito mesmo! Chamavam a gente de todo tipo de coisa ... Era muito xingamento por ser negra. Chegávamos na escola com muita fome, às vezes não tinha nem o que comer [em casa], coitada. (Dandara dos Palmares, 45 anos - Registro de áudio da prática grupal) [grifo nosso]

Os relatos das mulheres sobre o racismo na escola atuaram como “temas dobradiças” (Freire, 2005), pois, embora não tenham surgido inicialmente como centrais, emergiram ao longo do diálogo, impulsionados pelo respeito às experiências e pela construção coletiva do conhecimento. Esses relatos articularam saberes individuais e coletivos que apontam características contextuais dos sistemas e relações interseccionais de poder, que referem-se, simultaneamente, à raça, classe e gênero expressas nos corpos das participantes e em sua relação com o território.

Desse modo, o confronto com a forma como representam e falam sobre suas experiências, no transcurso do diálogo entre as mulheres e o pesquisador - mediador da prática grupal -, ampliou de forma crítica o reconhecimento dos aspectos que conformam as suas realidades - descodificação.

Nestas etapas, as discussões nos ajudaram a desvelar os impactos do racismo, do sexismo e das opressões de classe articuladas aos processos de luta pelo território enquanto sistemas e relações de poder que operam na produção da saúde mental das mulheres participantes, o que tornou possível a investigação de como se inter relacionam e determinam os modos de produção de saúde mental nesse contexto específico.

Numa postura de aposta na capacidade transformadora, crítica e reflexiva das participantes, por meio do processo de ação-reflexão-ação, o Círculo de Cultura ofereceu um espaço de problematização que levou à etapa do desvelamento crítico. Nesse momento, as mulheres, ao partilharem suas vivências, construíram coletivamente uma consciência crítica e coletiva sobre suas realidades, a partir de novas perspectivas, ideias e possibilidades de atuação (Freire, 1981). Essas possibilidades foram entendidas como formas de resistência diante dos impactos dos sistemas e relações interseccionais de poder, sendo aprofundadas no terceiro subtítulo desta seção.

3.2 Problemas psicossociais mais recorrentes

O enfoque metodológico da participação observante, o engajamento e os laços afetivos construídos com as mulheres foram centrais para a inserção do pesquisador na comunidade, tornando possível a vivência de muitas experiências entre o pesquisador e as mulheres, extrapolando os espaços da prática grupal e das entrevistas individuais. A participação e os diálogos espontâneos surgidos durante o cotidiano foram registrados nos diários de campo do pesquisador, possibilitando a compreensão dos sentidos atribuídos pelas mulheres às suas experiências e ações (Lüdke & André, 1986), o que permitiu identificar os problemas psicossociais mais recorrentes em seus cotidianos.

Os relatos revelaram experiências marcadas pela sobrecarga e naturalização do trabalho doméstico e de cuidado, além de vivências de sofrimento associadas ao cuidado e à convivência com familiares que fazem uso abusivo de álcool e outras substâncias psicoativas. Também foram apontadas situações de violência doméstica e familiar contra as mulheres e seus impactos, bem como a falta de autonomia financeira, produtora de dependências e mantenedora de complexas relações desiguais de poder.

Durante as entrevistas individuais as mulheres reforçaram as reflexões construídas de maneira coletiva, enfatizaram as temáticas que se desdobraram no tema central do Círculo de Cultura e trouxeram, a partir de suas experiências individuais, como vivenciam tais problemas.

Assim, reconhecemos que são diversos os sistemas de opressão que operam cotidianamente na realidade das mulheres, no entanto, a forma como narram tais problemas referem-se às relações de poder que, nesse contexto específico, ao se interpelar, dizem respeito simultaneamente a gênero e raça, interpeladas por vulnerabilidades sobrepostas, especialmente atreladas aos seus territórios e às suas localizações de classe. Tal afirmação se dá por compreendermos, a partir das reflexões e ações das mulheres, gênero e raça como sistemas de significado e regimes de representação construídos e reforçados teórico e ideologicamente (Oyěwùmí, 2021).

Desse modo, como sistemas de significado e regimes de representação, gênero e raça não podem ser compreendidos de maneira isolada, uma vez que dispõem de histórias, características e conteúdos morais, vocabulários e lógicas de sentido na realidade social brasileira que lhes são próprios, pois convergem em vários pontos de maneira complexa, mutuamente referidos e mesmo indissociáveis (Carneiro, 2011; Gonzalez, 2020a; Pereira, 2021) e seus efeitos reverberam nas formas como a saúde mental é produzida e experimentada pelas mulheres.

3.3 Impactos dos múltiplos sistemas de opressão na saúde mental

Ao apresentar e examinar contextos, dinâmicas e formas de interação entre os sistemas e relações interseccionais de poder de raça e gênero, percebidos durante a etapa de análise das informações, optamos por compreender como tais relações, a partir de suas localizações históricas, características contextuais e como os sistemas interseccionais de poder foram mobilizados na especificidade das histórias e do contextos das mulheres, combinados ou a se interpelar, operam em situações concretas do cotidianos e produzem efeito na saúde mental.

Beatriz do Nascimento (2021) denuncia a genealogia colonial e escravista dos mais de trezentos anos em que as estruturas sociais brasileiras foram erguidas com base na exploração do povo negro que, via de regra, por meio das mais diversas formas de exploração, os desumanizou, produzindo um tecido social conformado por complexas e inseparáveis relações de poder que ainda operam no presente, sustentando iniquidades e perpetuando injustiças na vida da população negra.

Frente à brutalidade do sistema escravagista, hooks (2019) evidencia como o sexismo agravou ainda mais as condições de vida das mulheres escravizadas, cujos corpos eram constantemente violados, sobretudo por meio da violência sexual. Essas mulheres não tinham respaldo nos valores morais nem nos sistemas legais - projetados e operados pela branquitude - para se proteger, vivendo sob constante vigilância e temor de serem assediadas ou violentadas por qualquer homem - branco ou negro (hooks 2019).

Em vista de tal contexto, durante o Círculo de Cultura, ao refletirem sobre vivências de racismo no ambiente escolar, algumas mulheres compartilharam experiências de relacionamentos inter-raciais heterossexuais com homens brancos ocorridas nesse período de suas vidas:

Alguns homens olhavam o meu corpo e eu recebia propostas, “quer ir comigo ali?”... aquelas propostas todas e eu dizia não. ... mas só que ele não queria compromisso, só queria usar o corpo da mulher negra, mas o compromisso ele não queria. ... a maioria dos homens brancos não procuravam compromisso para a negra. O branco não tinha amor para a mulher negra, só tinha atração sexual mesmo (Dandara dos Palmares, 45 anos - Registro de áudio da prática grupal).

As vivências descritas indicam que, neste contexto específico, raça e gênero se entrelaçam de forma indissociável, mediados por referências da moralidade sexual branca, que se conectam à estética do corpo da mulher negra. Essa articulação contribui para sua objetificação e gera sofrimento em sua relação com o próprio corpo. O relato a seguir ilustra essas reflexões:

O branco quando é preconceituoso, ele sente vergonha, ele não vai se apresentar com uma negra do lado. ... Quantas negras do quilombo não se apaixonaram por brancos? Quantas delas não se entregaram para os brancos? E por quê? ... muitas das vezes foram iludidas, se entregaram [relacionaram-se sexualmente com homens brancos] à toa, porque o branco só se aproveitou do corpo delas. Quando a gente é negro e a gente sente atração pelo branco, a gente acha que vai dar certo. Às vezes não dá porque você [mulher negra] tem o sentimento limpo, mas o cabra macho branco não tem, ele só quer se aproveitar, justamente por isso, para não se apresentar com uma negra (Luísa Mahin, 40 anos - Registro de áudio da prática grupal) [grifo nosso].

... um dia eu falei assim, “eu não quero ser preta”, eu queria ter nascido branca. ... Eu ia para a escola e via um menino branco me chamando de negra, e aí eu falei para mim mesma, “é por isso que eu não quero ser negra, eu quero ser branca”. Chegou até o tempo de a gente ter aqueles corantes de botar na pele para deixar a pele mais clara, água sanitária também, eu usava aquilo para deixar a minha pele mais clara, porque tinha na mente que negro era um bicho feio e de pouco valor. ... (Tereza de Benguela, 39 anos - Registro de áudio da prática grupal)

Os relatos acima corroboram a análise de Pereira (2021), ao evidenciar que as relações inter-raciais entre homens brancos e mulheres negras são marcadas por desigualdades, sustentadas pela percepção da mulher negra como “diferente” e por um imaginário que associa seu corpo à satisfação sexual.

Essas experiências dialogam com Gonzalez (2020a), ao retomarem a construção da figura da mulher negra como “mulata” - versão hipersexualizada da mucama - símbolo de um erotismo exótico que reforça o mito da democracia racial. Seu corpo é transformado em objeto de consumo recaindo na categoria “erótico-exótico”, e aquelas que não se enquadram nesse estereótipo são excluídas. Para Pereira (2021), a estética envolve tanto a imposição de um ideal de beleza às mulheres quanto a associação entre negritude e feiura presente no imaginário social brasileiro. Observa-se, assim, a articulação entre racismo e sexismo como sistemas entrelaçados que geram violências específicas nos corpos e subjetividades das mulheres negras (Gonzalez, 2020b).

Pereira (2021) destaca que a relação inter-racial representa uma transgressão às fronteiras raciais estabelecidas. Embora relações sexuais sejam toleradas, o casamento é rigidamente controlado para manter a separação entre grupos. Como afirmou uma participante: “O homem branco só quer se aproveitar da mulher negra, mas é com a mulher branca que ele vai casar” (Tereza de Benguela, 39 anos - Registro de áudio da prática grupal).

3.4. Resistir na intersecção dos sistemas de opressão: práticas individuais e coletivas de resistência

Viver os complexos efeitos das relações interseccionais de poder é também resistir a elas, seja de forma individual ou coletiva. Durante as análises das informações produzidas pelas mulheres, conseguimos identificar estratégias de cuidado, enfrentamento e práticas de resistências individuais e coletivas mobilizadas pelas mulheres frente aos problemas vivenciados no cotidiano.

No que se refere às estratégias individuais de cuidado, algumas poucas mulheres recorrem à realização de atividades físicas, como caminhadas, e a produção de labirintos (tipo de bordado), sendo essas práticas mobilizadas como forma de cuidado e escape da rotina exaustiva de trabalho doméstico. No entanto, majoritariamente, as mulheres referem-se à aposta na espiritualidade como via de fortalecimento, amparo e esperança.

As mulheres também referem-se ao trabalho com a terra como forma de cuidado e de enfrentamento aos problemas vivenciados no cotidiano, sendo essa não somente uma forma de cuidado, mas de resistência à sobrecarga de trabalho doméstico, uma forma de impor limite ao tempo dedicado para as atividades domésticas e de cuidado, mas também uma forma de fortalecimento de redes solidárias de cuidado entre as próprias mulheres.

Embora as estratégias individuais de cuidado e enfrentamento das situações sejam referidas como saídas possíveis, é unânime que as práticas coletivas de resistência e cuidado são as mais mobilizadas pelas mulheres na comunidade. Desse modo, as mulheres relatam sobre momentos de encontros e conversas entre elas nas calçadas, nos roçados, mas, principalmente, na Casa da Mulher Quilombola, espaço tomado pelas mulheres da comunidade como referência de cuidado e produtor de práticas de resistência.

No decurso do processo grupal, ao refletirem sobre as diversas violências que atingem os seus corpos-territórios durante o desvelamento crítico, as mulheres refletiram sobre as possibilidades de resistir a tais opressões, construindo uma compreensão que resistir na intersecção dos sistemas de opressão e mudar a realidade só é possível de forma coletiva.

4 Considerações finais: “refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar”

A experiência apresentada, ao utilizar o Círculo de Cultura como método de investigação, criou espaços de troca entre mulheres quilombolas e o pesquisador, rompendo com hierarquias e valorizando saberes locais como formas legítimas de produzir conhecimento e cuidado em saúde mental. Essa abordagem democratizou o saber e articulou cuidado, resistência e conhecimento. O diálogo entre pesquisa participante e educação popular, guiado por uma ética da justiça social, revelou-se eficaz na construção de autonomias e práticas de resistência, sem abrir mão do rigor metodológico (Moretti & Adams, 2011).

A interseccionalidade, enquanto práxis crítica, reafirma seu potencial transformador. A partir da pesquisa, emergiu uma compreensão coletiva sobre a importância da auto-organização e da mobilização política das mulheres para fortalecer redes de cuidado e enfrentar desigualdades. O uso do Círculo de Cultura, ancorado na interseccionalidade, contribuiu para uma possível releitura da metodologia freireana, ampliando o entendimento sobre as relações de poder e a construção coletiva de práticas de resistência, mobilizando o “esperançar” frente às violências interseccionais que atravessam seus corpos-territórios.

Na pesquisa participante, o(a) pesquisador(a) também é sujeito(a) do processo. Nesse sentido, é preciso destacar a necessária tarefa de que nós, pessoas brancas, possamos não apenas identificar nossos privilégios, mas, a partir da identificação, quebrar com o pacto narcísico da branquitude, como denunciado por Cida Bento (2022), e construir caminhos para, de fato, atuar como aliadas na luta pela destruição das estruturas racistas, patriarcais, de classe e dos diversos outros sistemas interseccionais de opressão e isso não passa somente pelo reconhecimento individual do problema - isso não é suficiente -, é preciso desfazer os sistemas hierarquizados e isso se faz com comprometimento ético e político nessa luta que é coletiva.

O estudo apresenta contribuições para o campo da Psicologia, especialmente ao se alinhar com os princípios da Psicologia social crítica e da Psicologia da Libertação, ao propor uma prática comprometida com os problemas concretos das maiorias populares. Ao utilizar o Círculo de Cultura como ferramenta de escuta, reflexão e ação coletiva, o estudo rompe com posturas distanciadas e hierárquicas da produção de conhecimento, valorizando os saberes e forças que emergem dos territórios. Nesse sentido, reafirma-se a importância de uma Psicologia que “pense onde os pés pisam” (Frei Betto, 1997), ou seja, comprometida com os contextos reais de vida e com os(as) sujeitos(as) que os habitam.

Mais do que descrever realidades, o estudo atua na sua transformação, contribuindo para a construção de uma nova práxis e epistemologia situada, crítica e coletiva. Ao fortalecer o protagonismo político e comunitário das mulheres quilombolas da comunidade do Grilo, a Psicologia se torna instrumento de resistência e libertação, comprometida com a justiça social via superação das violências produzidas pelas relações interseccionais de poder. Trata-se, portanto, de uma Psicologia que se propõe a deixar de falar sobre o povo para caminhar com eles e elas - construindo com as comunidades práticas concretas de cuidado, autonomia e transformação social.

Os caminhos e propostas apresentados aqui são provisórios, sem pretensão de serem definitivos, pois estão situados em contextos específicos. Assim, dialogam com as questões teóricas sobre a produção de saúde mental entre as mulheres quilombolas do Grilo e, principalmente, refletem o processo coletivo que possibilitou esta pesquisa. Juntos(as) entendemos que ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, sem aprender a refazer, a retocar o sonho que nos move (Freire, 1992).

  • Financiamento Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, por meio da Bolsa de pós-graduação concedida ao primeiro autor e Bolsa de produtividade em pesquisa concedida ao segundo autor.
  • Consentimento de uso de imagem Não se aplica
  • Aprovação, ética e consentimento O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte sob o protocolo CAAE 75841723.1.0000.5537

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS

Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.

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  • Editora científica Dra. Carolina dos Reis

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Ago 2025
  • Aceito
    04 Set 2025
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