Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar a ambivalência em relação aos estereótipos relacionados à população amarela e seus descendentes no Brasil, que se apresentam ora como negativos ora como “positivos”, por meio da constituição histórica dos conceitos “Perigo Amarelo”, “Massa Amorfa” e “Minoria Modelo”. A pesquisa é um ensaio teórico que articula metodologicamente os marcadores sociais da diferença e a perspectiva sócio-histórica, com vistas a demonstrar o percurso da constituição do racismo antiasiático do século XIX ao XXI, por meio da instauração de um imaginário branco acerca do asiático no Brasil. Concluiu-se que tais estereótipos se evidenciam de diferentes formas a depender do contexto social, político e econômico em questão, e que podem causar sofrimentos para a população amarela, negritando, por fim, a importância de que esta possa constituir uma narrativa crítica a partir de suas próprias histórias.
Palavras-chave:
Racismo; Estereótipo; Preconceito; Discriminação; Asiático
ABSTRACT
This paper aims to analyze the ambivalence regarding stereotypes related to the Asian population and their descendants in Brazil, which are sometimes presented as negative and sometimes as “positive”, through the historical constitution of the concepts “Yellow Peril,” “Amorphous Mass,” and “Model Minority.” This research is a theoretical essay that methodologically articulates the social markers of difference and the socio-historical perspective, aiming to demonstrate the development of anti-Asian racism from the 19th to the 21st century, through the establishment of a white imaginary about Asians in Brazil. It was concluded that such stereotypes manifest themselves in different ways depending on the social, political, and economic context in question, and that they can cause suffering for the Asian population, highlighting, finally, the importance of them being able to construct a critical narrative based on their own histories.
Keywords:
Racism; Stereotype; Prejudice; Discrimination; Asian
RESUMEN
El presente artículo tiene como objetivo analizar la ambivalencia en torno a los estereotipos relacionados con la población asiática y sus descendientes en Brasil, que a veces se presentan como negativos y a veces como “positivos”, a través de la constitución histórica de los conceptos “Peligro Amarillo”, “Masa Amorfa” y “Minoría Modelo”. Esta investigación es un ensayo teórico que articula metodológicamente los marcadores sociales de la diferencia y la perspectiva sociohistórica, con el fin de demostrar la formación del racismo antiasiático entre los siglos XIX y XXI, a través de la constitución de un imaginario blanco sobre los asiáticos en Brasil. Se concluye que estos estereotipos se manifiestan de diferentes maneras según el contexto social, político y económico en cuestión, y que pueden causar sufrimiento a la población amarilla, destacando, en última instancia, la importancia de que puedan construir una narrativa crítica basada en sus propias historias.
Palabras clave:
Racismo; Estereotipo; Prejuicio; Discriminación; Asiático
Introdução
Em 2020, a humanidade esteve sob terror de um vírus, até então desconhecido, pertencente ao grupo dos coronavírus, o SARS-CoV 2, que se apresentou ora provocando sintomas respiratórios leves, como uma gripe, ora como um vírus letal por desencadear uma síndrome respiratória aguda grave. No início a doença contava, de acordo com o governo chinês, com 44 casos, todos detectados na cidade de Wuhan, na província de Hubei, envolvendo comerciantes de um mercado de animais vivos que havia sido fechado. Posteriormente, o surto transformou Wuhan no epicentro de uma pandemia, que deu origem às expressões vírus de Wuhan ou vírus chinês. Oficialmente foi referida primeiramente como novo coronavírus e depois, por fim, como Covid-19 (Ventura, 2020).
O preconceito e os discursos de ódio adotados por líderes globais - incluindo estadunidenses e brasileiros (Urbano et al., 2020) - foram apontados como um dos motivos do aumento das agressões contra os asiáticos e descendentes. Tais discursos tinham como alvo principal a China, onde o vírus foi identificado pela primeira vez, porém a violência atingiu toda a população de origem asiática. Isso porque, segundo Higa (2021), como citado em Tammaro (2021), existe um estereótipo que generaliza diferentes etnias, como se chineses e japoneses, por exemplo, fossem iguais (Tammaro, 2021). Buscaremos demonstrar que a pandemia da Covid-19 não criou o racismo e a xenofobia vistos atualmente contra a população amarela, mas reascendeu discursos que consolidaram o paradoxal lugar ideológico conferido à população amarela no Brasil e no mundo.
Nakamura e Terao (2021) relatam dois exemplos da incidência de tal discriminação no Brasil. Fernanda Tagashira, descendente de japoneses, foi contratada em uma empresa no início da pandemia, em março de 2020. Escutou de uma colega de trabalho que japoneses, chineses e coreanos eram “tudo um bando de gente porca”. Em um outro caso, essa mesma colega espirrou álcool no rosto de Tagashira e disse, rindo: “olha o coronavírus, olha o coronavírus” (Tagashira, 2021 como citado em Nakamura & Terao, 2021). Caroline Sassaki, de ascendência japonesa, passou por duas situações constrangedoras no metrô de São Paulo. Na primeira, um grupo de jovens fez comentários relacionados à Covid-19, arrancando risadas de outras pessoas presentes no vagão e incentivando alguém a gritar: “volta para o seu país, coronavírus, porque você não é bem-vinda aqui”. E, na segunda situação, Sassaki estava entrando no vagão e uma mulher segurou o filho, afirmando que não entraria no mesmo lugar com alguém “infectado”. “Ela falou alto para todo mundo escutar. Fingi que não escutei, mas percebi que as pessoas estavam se afastando também” (Sassaki, 2021 como citado em Nakamura & Terao, 2021). Curiosamente a imagem de tais violências no metrô remontam a uma das passagens mais centrais de Pele negra, máscaras brancas, onde Frantz Fanon (1952/2020) percebe o efeito violento da racialização tanto quando lhe apontam num vagão em Paris “mamãe, um negro”, quando percebia que as pessoas dele se afastavam deixando lugares vagos a seu lado. Ainda que grandes diferenças marquem a racialização e as violências contra a população negra e asiática no Brasil, buscaremos demonstrar como a branquitude vale-se de métodos semelhantes na constituição de imaginários estereotipados de outras etnias.
Por outro lado, existe um estereótipo de que principalmente os japoneses e seus descendentes, no Brasil, são um povo inteligente, sério, dedicado ao trabalho e com habilidades principalmente na área de exatas. São percebidos como uma minoria que serve como modelo para outras minorias, algo que, a princípio, pode ser visto enquanto um elogio tanto para quem diz quanto para quem escuta. Veremos que os reflexos nos sujeitos não se dão necessariamente dessa forma (Nakamura, 2023).
O estereótipo da Minoria Modelo é um termo desenvolvido por autores como Cohen (1992), Delener e Neelankavil (1990), em referência aos estereótipos “positivos” - trabalhadora, séria, ética, detentora de conhecimentos acima da média nos campos da matemática e tecnologia e, em geral, intelectualmente talentosa (Santos & Acevedo, 2012) - relacionados à comunidade asiática nos Estados Unidos. No Brasil, Lesser (2008) exemplifica o mito da Minoria Modelo, relatando piadas que circulavam após a ascensão dos nikkeis na área acadêmica: “Garanta seu lugar na Universidade de São Paulo amanhã: mate um japa hoje” ou a frase grafitada no banheiro das universidades, que dizia: “Enquanto você está aí cagando, tem um japonês estudando”. Trajadas de um aparente humor, essas falas carregam um teor supostamente positivo e concomitantemente agressivo para com o “japa”, bem como as “qualidades” ressaltadas da Minoria Modelo simultaneamente aos discursos de ódio no período da pandemia (Nakamura, 2023), sendo um exemplo de racismo recreativo (Moreira, 2019).
Contudo é necessário perguntar-se: de onde surgiram tais estereótipos acerca da população amarela no Brasil e quais fatores podem ter influenciado nesse imaginário? Como explicitar as particularidades locais que devem ser consideradas em comparação com os estudos asiáticos estadunidenses? Dessa forma, o presente artigo pretende desenhar categorias analíticas que organizam o imaginário social acerca da população amarela e seus descendentes no Brasil, trazendo reflexões sobre a ambivalência desses estereótipos, ora “positivos”, ora negativos, entendendo-a enquanto um conjunto paradoxal de incidências estereotípicas sobre a população amarela.
Método
Seguindo a definição metodológica de Arakcy Martins Rodrigues que se trata, na psicologia social, de analisar a constituição recíproca entre pessoa e contexto (Sato, 2017) e, ao mesmo tempo, considerando a potencialidade inerente à fractalidade da psicologia social (Cordeiro, 2017), o presente artigo tem como enfoque, por um lado, uma análise de determinações históricas do sujeito - um levantamento bibliográfico de produções relativas à história das migrações amarelas no Brasil e, por outro, uma análise sócio-histórica da constituição paradoxal dos estereótipos e suas consequentes discriminações que se embasam, igualmente, em determinantes psíquicos.
Assim, o ensaio busca uma convergência entre a perspectiva sócio-histórica, a análise dos marcadores sociais da diferença e, por fim, da psicanálise enquanto anteparo teórico e epistemológico. Dito de outro modo, o objeto em questão justifica uma metodologia que retome a pluralidade dos tensionamentos constituintes da psicologia social (Silva Jr., 2017), na medida em que assumimos que a identidade asiática não se resume a uma subjetividade supostamente substancial, mas é constituída a partir da marcação social da diferença enquanto processo relacional (Ribeiro, 2017).
Ao mesmo tempo, nossa hipótese de uma ambivalência estereotípica requer a consideração de determinantes inconscientes que articulam sujeito e sociedade, razão pela qual justifica-se o uso da psicanálise, tendo por inspiração metodológica o movimento realizado por Lélia Gonzalez (1984) em relação ao racismo antinegro. A báscula que permite uma constituição de relações sociais permeadas por estereótipos que, por vezes, parecem exaltar e, por outras, discriminar merece, assim, uma análise oriunda do campo da psicologia social que não reduza tal fenômeno nem a uma questão sociológica, nem a uma análise exclusivamente intrapsíquica. Na esteira de Frantz Fanon (1952/2020), as análises das relações etnicorraciais desenvolvidas aqui utilizam-se, de maneira cruzada, teorias psicológicas e análises das relações sociais tendo por objetivo fazer justiça à complexidade histórica e psíquica do objeto ora em questão.
A seguir apresentaremos categorias operacionais - como a de Perigo Amarelo e o estereótipo da Minoria Modelo - com vistas à compreensão da ambivalência dos estereótipos aos quais o presente estudo se propõe a refletir. Isso porque, de acordo com Colleen Lye (1967/2005), o Perigo Amarelo e o estereótipo da Minoria Modelo são dois aspectos da mesma forma racial de longa duração. Uma forma cuja característica é mais saliente e foi feita com base na exclusão ou assimilação, e a outra está relacionada à eficiência econômica.
As origens do preconceito: o perigo amarelo
Até anteriormente às Guerras do Ópio (1839-1860), a China era percebida enquanto a maior potência do extremo leste. Essa concepção mudou radicalmente após a derrota chinesa nas guerras (Kebbe, 2021), o que culminou numa transformação do imaginário acerca do sujeito chinês, passando a ser caracterizado enquanto folgado, preguiçoso, incivilizado, bárbaro, e como uma raça inferior (Shimabuko, 2022), estereótipos que se assemelham àqueles impostos à população negra e indígena pelo colonialismo.
Ao mesmo tempo, em 1868, o Japão vivenciava a Restauração Meiji, onde o país passava por um momento de expansão territorial e industrialização e militarização muito intensas. Foi com a Guerra Sino-Japonesa (1894-1895) que a China perde seu lugar milenar de poder regional em favor do país vizinho (Shimabuko, 2022).
Em 1905, o Japão venceu a guerra Russo-Japonesa, e em 1910 anexou a Coreia ao seu território. Nesse momento, os interesses japoneses se confrontavam com os das potências ocidentais, ocasionando um clima de tensão com a França, Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Sakurai (2000) prossegue:
Essa tensão se traduz sob diferentes formas, sendo a emigração um dos pontos da controvérsia. Sob o manto da eugenia, as potências ocidentais têm em mira, como seu ponto de discórdia com o Japão, não a questão racial, mas a concorrência econômica. A estratégia japonesa que alia a conquista de espaços econômicos com o militarismo é o que configura o conceito do perigo japonês (p.215).
Assim, é a partir da vitória do Japão contra a Rússia que o Kaiser Guilherme II utilizou a noção de Perigo Amarelo, afirmando que essa derrota era uma ameaça para a raça branca, e que os países brancos deveriam se unir para proteger a própria raça. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e, principalmente, após o ataque a Pearl Harbour (1941), o Japão consolidou seu “lugar” enquanto o Perigo Amarelo do momento. A partir de então, foram os imigrantes e seus descendentes que sofreram essas consequências (Shimabuko, 2022). “Praga amarela” e “ratos do Oriente” definiam os conceitos pelos quais os imigrantes japoneses tinham de fazer frente durante a Segunda Guerra Mundial.
É importante ressaltar que existe uma dificuldade em traçar uma linha de desenvolvimento do conceito de “amarelo”, pois, assim como outros estereótipos, é impossível reduzir a uma simples cronologia, já que são produtos de noções vagas sobre diferenças físicas, especificidades étnicas e hereditariedade. Assim, o Perigo Amarelo é uma categoria instável, pois transita dos chineses para os japoneses. No Brasil, as incidências do discurso do Perigo Amarelo foram mais comuns entre 1900 a 1940, principalmente se referindo aos japoneses e ao Japão (Higa, 2022).
Defendemos que o conceito de Perigo Amarelo nos auxilia a entender que o aumento dos discursos de ódio durante a pandemia, principalmente contra a China, a população chinesa e seus descendentes no Ocidente, tem raízes em processos históricos, políticos e sociais anteriores. A repetição do sentimento antiasiático se atrela ao imaginário a respeito da China que, enquanto potência mundial, teria produzido o vírus da Covid-19 como estratégia de dominação. O então Presidente da República, Jair Bolsonaro, comentou a respeito da Covid-19, como sendo “um plano deliberado chinês para abaixar os mercados do mundo, comprar empresas a preços baixos e dominar o mundo” (Urbano et al., 2020). A disseminação dessas fake news contribuiu para agravar o cenário (Nakamura, 2023) não só sanitário, mas, principalmente, de discriminação contra a população amarela.
De acordo com Higa (2022), é em momentos de crises financeiras, econômicas, guerras, epidemias e pandemias, que há uma escalada do racismo e da xenofobia, o que corrobora com a noção de Perigo Amarelo como sendo um conceito plástico que depende de seu contexto. Nesses momentos de crise armam-se condições propícias para circularem discursos de ódio como esses. No caso da pandemia da Covid-19, o retorno do sentimento antiasiático foi nítido.
No século XIX, por exemplo, os jornais no Peru levantavam a tese da infusibilidade (ou inassimiláveis), segundo a qual chineses não se fundiam com a sociedade peruana, norte-americana (Canadá e Estados Unidos), cubana etc. Eram, nesses discursos, inassimiláveis, pois os costumes e valores eram muito diferentes. Alguns estudos se referiam aos chineses como uma raça imunda, corrompida e com costumes depravados (Kebbe, 2021). Vejamos como tal discurso ressurge na atualidade nas fake news sobre a sopa de morcego.
O estudo de Kohatsu, Saito e Andrade (2021) buscou em sites de jornais e revistas, matérias em que o assunto principal era a xenofobia contra os asiáticos no contexto da pandemia da Covid-19, publicadas entre janeiro e maio de 2020. Nesse estudo, selecionaram diversos comentários de leitores. Na reportagem “Eu não sou racista, diz Weintraub após usar cebolinha”, publicada pela Uol no dia 6 de abril de 2020, houve 11 comentários, em que:
O comentário de JZ, um dos mais “populares” da segunda reportagem apontou: “descobriram que o vírus pode ter vindo de sopa de morcego? Esses chineses comem até fezes. por isso que todo vírus são made in China” (JZ, como citado em Kohatsu et al., 2021), recebeu 69 curtidas e 15 reprovações.
Na mesma matéria, o comentário de JV com 106 curtidas e 8 reprovações, busca demonstrar conhecimento sobre doenças epidemiológicas, indicando a falsa origem: “China, a maior exportadora de pestes do mundo. Peste suína, gripe aviária, h1n1, febre asiática, tudo vem de lá” (JV, como citado em Kohatsu et al., 2021, p.137).
Vale relembrar a postagem em uma rede social do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub: “Geopolíticamente, quem podelá sail foltalecido, em telmos lelativos, dessa clise mundial? Podelia sel o Cebolinha? Quem são os aliados no Blasil do plano infalível do Cebolinha pala dominal o mundo? Selia o Cascão ou há mais amiguinhos?” (Falcão et al., 2020). Weintraub troca o “R” pelo “L” em seu depoimento, ridicularizando o fato de que alguns chineses, ao falarem português, efetuam a mesma troca de letras. Isso demonstra o preconceito linguístico, o estigma, a exotização e o estrangeirismo para com esse povo (Kohatsu et al., 2021). Sabemos, desde Gonzalez (1984), que a troca de letras não é um movimento qualquer nas expressões sintomáticas das relações racializadas no Brasil.
Retornando ao século XIX, nos Estados Unidos disseminava-se o discurso racial e a competição, publicando em jornais a ideia de que os chineses eram atrasados, uma civilização ultrapassada (Kebbe, 2021). A imprensa estimulava esse sentimento xenófobo, retratando as Chinatowns (bairros chineses, tradução nossa) como redutos perniciosos, de prostituição, drogas, negócios obscuros e que disseminavam doenças (Corrêa, 2020).
Vejamos como os pressupostos básicos de tais estereótipos atualizam-se na contemporaneidade. No dia 18 de março de 2020, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente da República, escreveu em seu Twitter:
Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa
Mais uma vez a ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas
A culpa é da China e a liberdade seria a solução (Bolsonaro, como citado em Souza, 2020)
Um dia após essa postagem, foram identificados 94 mil tuítes e retuítes de perfis automatizados no Twitter com a hashtag #VirusChines (Souza, 2020). O expresidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, comentou, no dia 5 de maio de 2021:
É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu o seu PIB? Não vou dizer para vocês (Bolsonaro como citado em Aos Fatos, 2021).
O ex-presidente não mencionava que estava se referindo à China, mas deu diversas pistas de que esse era o país em questão (Aos Fatos, 2021). Ainda, por mais que o sentimento antiasiático tenha se dado, principalmente, contra a população chinesa e seus descendentes, vimos anteriormente que as agressões verbais noticiadas em sites jornalísticos se deram contra descendentes de japoneses. Existe uma generalização e um estereótipo a respeito da população amarela no Brasil, como se todos viessem de um mesmo lugar de origem, devido ao seu fenótipo. Iremos denominar isso de Massa Amorfa.
Generalização da população amarela: a massa amorfa
Não é difícil encontrar alguém que confunde uma pessoa japonesa com uma coreana e/ou chinesa e, ao tentar justificar o erro, certamente responderia “é tudo a mesma coisa”. Isso pode ser visto como um reflexo da representação que o Ocidente constrói sobre o Oriente, onde nessas representações discursivas as comunidades leste-asiáticas são colocadas como uma espécie de complexo cultural quase homogêneo, representado por uma população de pele não branca mais próxima ao amarelo e de “olhos puxados” (Corrêa, 2020).
É possível perceber o apagamento da diferença no interior da outra etnia, bem como a elevação de alguns traços ao estatuto de generalidades. Esses dois elementos são simultâneos, pois, ao se elevar um traço à categoria de gerais e definidores de uma etnia, já não se vê mais nada além desses supostos traços. Ou seja, podemos dizer que uma etnia enxerga a outra como uma Massa Amorfa, em que os integrantes não se distinguem entre si, mas se diferenciam de outra por traços gerais. É como se dissesse: “eles se diferenciam de nós, mas não diferem entre si” (Reino & Endo, 2011, p.25). Tal ideia materializa-se na expressão ainda comum no Brasil “japonês é tudo igual”, onde o termo japonês não faz referência a pessoas nascidas no Japão e descendentes, mas ao conjunto de indivíduos com traços amarelos.
Ueno (2020), em sua tese, traz o relato de Paula, uma de suas entrevistadas, brasileira de ascendência japonesa, que conta de uma experiência em que foi a uma festa de família do namorado (branco) onde os parentes juntaram todos os asiáticos no sofá para tirar uma foto. Na situação estavam Paula, uma japonesa e um chinês casados com outros familiares. Paula insistiu que não queria tirar a foto, mas foi rebatida com a fala “seria muito legal todos os china” na foto. Paula descreve:
Sentamos os animais do zoológico lá no sofá com uns cinco celulares tirando foto nossas. Eu era a única dos três que não tava levando na esportiva. Eu tava me sentindo tão ridicularizada como nunca na vida que perdi a classe e levantei e gritei pra todo mundo parar de tirar as fotos, apagar todas e que se eu visse uma foto minha não autorizada no Facebook eu ia pedir indenização. Disse também que eu não trato o meu namorado igual bicho exótico de zoológico quando ele tá com a minha família e não junto todos os brancos do rolê pra tirar uma foto deles... ... Ficou um silêncio mortal lá e eu saí pisando duro e pra qualquer quarto lá e chorei pra caralho. [...] E eram os mesmos tios que me perguntam toda vez que a gente se encontra sobre o mesmo assunto: se falo japonês, sou nissei ou não sei, etc., se eu já fui pra lá... não se dirigindo a mim como Paula e sim como takanakara, como eles chamam todos os asian da família. ...
Quando uma mulher branca se irrita e fala alto num grupo, é porque tá impondo respeito. Quando é a gente, é porque tá perturbada... (Paula, como citada em Ueno, 2020, p.83).
Paula comentou nesse relato ter sido a primeira vez que reagiu ao invés de exibir um sorriso amarelo, algo que sempre se espera de uma mulher asiática. Comentou, ainda, que foi a melhor coisa não permanecer no lugar de “pet de branco”, um bicho curioso e estranho dentro de uma família branca (Ueno, 2020). Está em jogo, portanto, um achatamento das identidades, da diversidade e das trajetórias individuais, um apagamento da singularidade de um sujeito ou de sua etnia, colocando-os em uma massa generalizada, indiferenciada e estereotipada.
Os estereótipos agem de tal forma que o mero conhecimento de que um estereótipo existe a respeito de um grupo social pode afetar negativamente a performance dos membros desse grupo em atividades em que os estereótipos se tornam um fator relevante. Pérez-Nebra e Jesus (2011) exemplificam: “ter um estereótipo de que japoneses são bons em matemática pode alterar negativamente o fator de que ele seja bom gerente, já que são bons apenas em matemática” (p.225).
A atriz sino-brasileira, Lian Tai, comenta sobre o que vem sofrendo. Esse relato nos torna relevante para que possamos perceber, para além das piadas, que o incômodo em relação à generalização da Massa Amorfa não se dá apenas com uma etnia específica e seus descendentes:
Até hoje, na rua, enfrento dedos que me apontam com deboche e caricaturas, como era na infância. Arigatô! Xingling! (...) Há a amiga que imita o sotaque chinês de forma caricata, dizendo “pastel de flango”. (...) Nos últimos meses, com a pandemia, tenho visto o racismo contra asiáticos mostrar-se com mais veemência; ele começa contra os chineses e se estende a todos os povos do extremo oriente, até porque, no Brasil, “é tudo a mesma coisa” (Tai, 2020, como citada em Kohatsu et al. 2021, p.131).
A “positivação” do preconceito: o estereótipo da minoria modelo
“... Agora japonês... Em geral não acho eles muito bonitos, são todos muito parecidos, iguais aos índios, mas os japoneses me atraem porque são mais determinados e menos malandros que os brasileiros” (Entrevista concedida a Schucman, 2015, p.121).
Como efeito da Massa Amorfa, a lógica estereotípica da Minoria Modelo não afeta apenas descendentes de japoneses no Brasil: os coreanos também relatam, no estudo de Yang (2011), uma necessidade de terem que se provar enquanto qualificados para determinado cargo profissional, o que nos parece estar igualmente relacionado a uma exigência externa e a internalização intrapsíquica - já que, para Crochík (1996), o estereótipo justaposto ao objeto do preconceito é concomitante à estereotipia que o próprio sujeito se atribui - de uma boa performance para que haja algum tipo de reconhecimento.
Hung (2016) afirma que a tese da Minoria Modelo difunde a crença de que, em contraste com outros grupos raciais minoritários, os asiáticos estadunidenses - Asian Americans - alcançaram um alto nível de sucesso acadêmico e escolar na América (se aproximando e até superando os brancos). Nesse esquema, pessoas de descendência asiática são posicionadas precariamente como uma espécie de minoria branca. Ocorre aqui uma dupla negação que construiu silenciosamente um não lugar: a eles são negados o status total de “minoria” (devido às percepções de sucesso acadêmico e econômico) e negado o status total de “brancos” (por conta da diferença racial hierarquizada).
Pela análise crítica do mito da Minoria Modelo, tem-se que a pessoa asiática é colocada no meio - o servo asiático contratado como tampão social entre o escravo negro e o senhor colonial branco - e exemplifica alguns dos padrões de longa data pelos quais a figura do imigrante asiático e o trabalhador colonial têm, historicamente, triangulado entre a dinâmica global branca-negra (Eng & Han, 2018). Assim, os asiáticos não são brancos, porém pagam impostos e contribuem para a economia do país. Concomitantemente, ao fazerem parte de uma Minoria Modelo, é preciso passar por cima das demais minorias, havendo então uma dicotomia entre minorias “boas” e “ruins” (Kebbe, 2021).
Ueno (2020), cita Bita Zakeri (2015), ao afirmar que o mito da Minoria Modelo tem impactos psicológicos tais como: ansiedade e estresse em razão da constante vigilância para cumprir as exigências; crises de identidade quando os altos padrões normativos em termos educacionais não são atingidos, ou em relação aos comportamentos e status social estabelecidos; e sentimentos de rebeldia e vergonha contra a cultura de origem, dificultando o pertencimento e os laços com o grupo étnico. Ademais, em situações cotidianas em que há hostilidades entre brancos e negros, os asiáticos e sua presumida passividade são colocados como bodes expiatórios desses conflitos.
Enquanto à primeira vista o estereótipo da Minoria Modelo parece positivo ou até inofensivo, esse rótulo torna a minoria mais vulnerável. Isso porque os indivíduos do grupo que não correspondem ao estereótipo sentem-se pressionados socialmente a moldarem sua forma de interação com o mundo e sua personalidade, a nível de algumas pessoas vivenciarem baixa autoestima, depressão e outros distúrbios ligados à essa situação (Santos & Acevedo, 2013).
Eng e Han (2018) comentam ser uma dificuldade constante para pacientes e estudantes asiáticos articularem ou reconhecerem seus desejos. O estereótipo da Minoria Modelo demanda não só uma autossuficiência rígida, mas também passiva e conformada. Os autores sublinham o forte componente psíquico dessa questão ao evocar a noção lacaniana de “sujeito de desejos”, movimento observado também na hipótese de Antonio Viego (2007) que descreve o processo de colocar a necessidade acima do desejo como uma produção psíquica de um “sujeito morto”, morto para seu desejo. Assim, à medida em que as pressões sociais e parentais enfatizam a necessidade e não o desejo, a melancolia e a pulsão de morte não ficam muito distantes.
A necessidade de romper com o estereótipo da Minoria Modelo, para além do nível individual, é relevante a nível social. Compreende-se que responder a esse lugar é também se manter em um campo relativo de privilégios que nos foi concedido pela branquitude (quando comparado, por exemplo, àquele lugar concedido à população negra e indígena), aceitando então uma espécie de domesticação e corroborando com o estereótipo da docilidade. Aceitar esse lugar é também reproduzir o racismo antinegro e nos coloca contra outros imigrantes, refugiados e minorias, por ser a que “deu certo.” Reproduzir o mito da Minoria Modelo é validar a ideologia liberal, na medida em que o discurso meritocrático se vale da separação das populações não brancas, visando a produção de uma lógica individualista que apaga as ambivalências do lugar estereotípico dado ao grupo social. Assim, nos tornamos o fetiche e o argumento da supremacia branca e capitalista. “A militância asiática deve ser aliada da luta negra, não um instrumento da branquitude” (Kemi, 2016).
Do perigo amarelo à minoria modelo: a ambivalência
A visão sobre os asiáticos estadunidenses como uma Minoria Modelo gerou uma mudança em relação a atitudes positivas, uma inversão em relação aos estereótipos hostis do século XIX. No entanto, o sentimento do Perigo Amarelo não desapareceu completamente. Semelhante a um palimpsesto, o discurso sobre a Minoria Modelo foi escrito em cima do discurso do Perigo Amarelo, e os dois discursos continuam sendo complexos e intimamente correlacionados no panorama racial da contemporaneidade. Kawai (2005) propõe uma relação dialética entre o Perigo Amarelo e os discursos sobre a Minoria Modelo, que se mostra mais ou menos saliente dependendo do contexto internacional, doméstico e racial (Kawai, 2005, como citado em Hung, 2016). Esses dois discursos entrelaçados também servem como função de proteção para a integridade da nação estadunidense no sentido de imigração e raça. Isso porque o mito da Minoria Modelo neutraliza o temor do Perigo Amarelo e faz com que os grupos de asiáticos estadunidenses sejam vistos como não ameaçadores, logo, podem continuar no país sob os termos de aceitação condicional. Ao mesmo tempo, a identidade dos asiáticos estadunidenses também é usada como uma ferramenta para preservar a integridade das hierarquias de domesticação racial, pautadas em daltonismo racial (colorblindness), e corrobora para o mito da meritocracia (Hung, 2016).
Tais movimentos não são exclusivos da população estadunidense. O Yo Ban Boo, um canal no YouTube com conteúdos voltados para a experiências asiático-brasileiras, publicou, em 2017, um vídeo com o título “A Participação Asiática no Racismo Anti-Negro” baseado no texto “Anti-negritude é global: a participação asiática no racismo anti-negro”, de Kemi (2016). Uma das falas no vídeo ilustra de forma clara a questão:
Minha família não veio de Taiwan nos anos 60, pobres, sem falar a língua, depois de meses em um navio para chegar no Brasil, batalhar para dar uma vida boa aos filhos e netos, só pra décadas depois ter toda a sua luta utilizada como instrumento de banalização e inutilização de lutas de outras famílias que também querem o mesmo para os seus filhos e netos. Só que hoje é um tremendo desrespeito a eles. Eu sou muito grato ao que a minha família me deu, mas a luta deles não se compara ao que os negros sofreram e sofrem, são histórias diferentes, lutas diferentes (Hwan, 2017).
Os discursos sobre a Minoria Modelo e o Perigo Amarelo também operam de forma mais abrangente e de maneiras ironicamente insidiosas. Hung (2016) cita Kim (1999), que esquematiza o mecanismo da ambivalência de inclusão a respeito do asiático americano em seu modelo de triangulação racial entre brancos e negros. Ela elabora um campo de posições raciais que mapeia os asiáticos estadunidenses, brancos e negros em dois polos: superior/inferior e local/ estrangeiro.
Nesse esquema, os negros são inferiores e locais, e os asiáticos são percebidos como superiores e estrangeiros. Ao longo da análise, a autora demonstra que a racialização dos asiáticos estadunidenses ocorreu em relação aos negros e brancos através dos processos de “valorização relativa” em comparação com os negros e “ostracismo cívico” em comparação com negros e brancos. Portanto, o público americano simultaneamente elogia os asiáticos estadunidenses como a Minoria Modelo e marginaliza-os como eternos estrangeiros. Ao mesmo tempo que são bem-vistos por terem alcançado o sonho americano, eles falham ao alcançar a assimilação porque são vistos como exóticos, inassimiláveis, impenetráveis e marcados pela diferença racial (Hung, 2016).
No Brasil, a ascensão social tende a causar mudanças nas categorizações raciais e étnicas e os nipo-brasileiros, de forma geral, alcançaram certo êxito econômico, quando comparados à população negra. Na década de 1930, era comum que os nikkeis fossem transferidos da categoria “amarelo” para a categoria “branco” (Lesser, 2008). Ainda que haja importantes diferenças entre a incidência do racismo na população negra e amarela no Brasil, a coexistência de expectativas ambivalentes é também um traço característico do lugar social da população afrodescendente. Retomemos Lélia Gonzalez (1984) quando discorre sobre a noção de “objeto a” em relação à figura da mulata. De acordo com a autora:
Quando se diz que o português inventou a mulata, isso nos remete exatamente ao fato de ele ter instituído a raça negra como objeto a; e mulata é crioula, ou seja, negra nascida no Brasil, não importando as construções baseadas nos diferentes tons de pele (p. 240).
Ambra (2019) comenta sobre essa citação afirmando que a abjeção em jogo é a invenção discursiva da mulata que está, simultaneamente, no domínio de uma grande opressão e de um lugar estruturante da constituição do sujeito brasileiro. Para a psicanálise, o objeto a - Lacan considera-o como sua única contribuição à psicanálise - é, por um lado, um objeto/dejeto, já que é expulso do domínio do partilhável, da inteligibilidade, do compreensível e do humano, mas, por outro, é também percebido como objeto causa do desejo. Ou seja, é ele quem está por trás de toda empresa que movimenta o sujeito, tanto histórico quanto do inconsciente.
O paralelo pode ser realizado em relação aos nipo-brasileiros que eram percebidos enquanto um perigo amarelo (especialmente no período de 1900 a 1940), inassimiláveis à população brasileira, vistos como eternos estrangeiros, mas ao mesmo tempo são exaltados como a Minoria Modelo trabalhadora e dedicada. São etnicamente impenetráveis e rígidos (e, logo, não verdadeiramente brasileiros) e, por outro lado, considerava-se que a nação brasileira se tornaria melhor ao se tornar “mais japonesa” (Lesser, 2008).
Considerações finais
Conclui-se que, assim como uma gangorra, os estereótipos a respeito da população amarela e seus descendentes pendem para o sentimento antiasiático ou para a evidência de atributos “positivos”, e se destacam a depender de todo um contexto que diz respeito a condições sociais, políticas e econômicas. Porém, tais estereótipos têm como base comum e originária um olhar branco acerca dessa população, tanto em relação ao Perigo Amarelo quanto ao mito da Minoria Modelo.
É importante que possamos compreender de onde somos falados; dos discursos do Outro que nos são impostos, para que então possamos nos desalienar, nos destituir desse lugar e termos a liberdade de ser para além do que a branquitude nos impõe enquanto esses imaginários que não necessariamente nos representam.
Ainda, ressalta-se a grande discrepância em relação à luta contra o racismo antinegro, compreendendo que aceitar o lugar em que os amarelos são colocados pela branquitude é também ser conivente com a domesticação pela mesma, que nos “concedeu” tal lugar, nos colocando como a “melhor minoria”.
Isso nos afasta de outras minorias e nos torna instrumento de justificativa da ideologia liberal meritocrática. Aceitar esse lugar é, portanto, compactuar com o racismo e a xenofobia.
A presente pesquisa trata-se primordialmente de uma contribuição teórica e crítica para a Psicologia Social, que tem como um grande objeto de estudo as relações interétnicas e os fenômenos sociais em decorrência dessas interações. Acredita-se, também, que a familiarização com o tema pode propiciar uma escuta mais cuidadosa na práxis clínica acerca dos sofrimentos aos quais a população amarela é marcada.
A escassez de estudos em psicologia e psicanálise a respeito do tema é percebida, por nós, enquanto um sintoma social, em que a necessidade de maiores estudos nessa área se torna imprecindível para a possibilidade de mudanças significativas. Por fim, ressaltamos a importância de vozes amarelas para transmitirem essas histórias, dores e angústias, entendendo que tais relatos apresentam um grande potencial transformativo a nível individual e coletivo.
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Editor científico
Dr. Adolfo Pizzinato
