Resumo
Os desastres socioambientais expressam uma relação multifacetada entre as dimensões sociais e ambientais, sendo compreendidos como causa e efeito de processos históricos de injustiça ambiental, precarização dos territórios e políticas públicas ineficientes. O presente artigo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa sobre a relação entre território, vulnerabilidade e sofrimentos provocados por desastres socioambientais no contexto latino-americano. Para tal, utilizamos as bases de dados Scielo, Lilacs e Redalyc, com um recorte temporal de 2014 a 2024. Ao final dos procedimentos, foram selecionados 35 artigos. Os achados evidenciam a intensificação do sofrimento em decorrência da perda de referenciais afetivos, territoriais e comunitários, além de mostrarem que a pobreza, a violência e as desigualdades ambientais prolongam os prejuízos causados e limitam significativamente as possibilidades de construção de estratégias de enfrentamento.
Palavras-chave:
Desastres; Território; Vulnerabilidade; Sofrimento; América Latina.
Resumen
Los desastres socioambientales expresan una relación multifacética entre las dimensiones sociales y ambientales, entendidas como causa y efecto de procesos históricos de injusticia ambiental, precariedad de los territorios y ineficacia de las políticas públicas. Este artículo tuvo como objetivo realizar una revisión integradora de la relación entre territorio, vulnerabilidad y sufrimiento causado por desastres socioambientales en el contexto latinoamericano. Para ello, se utilizaron las bases de datos Scielo, Lilacs y Redalyc, que abarcan el período 2014-2024. Al final del proceso, se seleccionaron 35 artículos. Los hallazgos destacan la intensificación del sufrimiento debido a la pérdida de referentes afectivos, territoriales y comunitarios, además de demostrar que la pobreza, la violencia y las desigualdades ambientales prolongan el daño causado y limitan significativamente las posibilidades de desarrollar estrategias de afrontamiento.
Palabras clave:
Desastres; Territorio;Vulnerabilidad; Sufrimiento; América Latina.
Abstract
Socio-environmental disasters express a multifaceted relationship between social and environmental dimensions, understood as both the cause and effect of historical processes of environmental injustice, territorial precariousness, and ineffective public policies. This article aimed to conduct an integrative review of the relationship between territory, vulnerability, and suffering caused by socio-environmental disasters in the Latin American context. To this end, we used the Scielo, Lilacs, and Redalyc databases, covering the period 2014 to 2024. At the end of the process, 35 articles were selected. The findings highlight the intensification of suffering due to the loss of affective, territorial, and community references, in addition to demonstrating that poverty, violence, and environmental inequalities prolong the damage caused and significantly limit the possibilities for developing coping strategies.
Keywords:
Disasters; Territory; Vulnerability; Suffering; Latin America.
1. Introdução
Os desastres socioambientais resultam da interação entre uma ameaça, condições desiguais e a capacidade insuficiente para responder a esses eventos, refletindo a degradação ambiental e problemas sociais severos (Carvalho & Oliveira, 2020). Sedrez (2013) destaca a dimensão social dos desastres, uma vez que a dinâmica social influencia em sua ocorrência e impacto. Por esse motivo, neste trabalho, adotamos o termo desastres socioambientais devido à relação recíproca entre as dimensões sociais, políticas e ambientais envolvida nesses fenômenos (Spink, 2014).
Segundo o relatório anual do Intergovernmental Panel on Climate Change (2023), o número de mortes na última década por secas, enchentes e tempestades foi quinze vezes maior em regiões periféricas do que em áreas com maior infraestrutura. Dados do relatório da World Meteorological Organization (2024) mostram que, entre 1970 e 2021, houve mais de 2 milhões de mortes provocadas por desastres socioambientais, sendo que mais de 90% dessas mortes ocorreram em países em desenvolvimento. Isso indica que há uma dimensão histórica e contínua desses fenômenos, não sendo acontecimentos pontuais, mas expressões agudas de um cotidiano marcado pela “violação de direitos e déficits democráticos e de cidadania associados aos eventos [ambientais] extremos” (Cunha et al., 2015, p. 100).
Em outras palavras, as desigualdades são fatores condicionantes da vulnerabilidade e exposição aos efeitos mais deletérios desses fenômenos (Perez et al., 2020). Por conseguinte, os desastres socioambientais não só agravam os riscos e vulnerabilidades existentes, como também podem criar novos contextos de riscos e vulnerabilidades, a depender das condições ambientais, sociais e sanitárias predispostas no território (Freitas et al., 2014). Configuram-se, portanto, como fenômenos socioambientais complexos e dinâmicos, indicando uma situação coletiva de estresse e a ruptura dos modos de vida de comunidades em suas bases territoriais (Quarantelli, 1998).
Pesquisas apontam a intensificação do sofrimento, do luto, rompimentos afetivos, territoriais e institucionais, a solidão e o desamparo como efeitos dos desastres (Santos, 2018; Torlai, 2010). Tais consequências se estendem para além da destruição material, envolvendo a “decomposição do território como referente espacial do self [grifo nosso], da vida familiar e comunitária” (Vargas, 2009, p. 42). Ou seja, ao compreendermos o território para além de espaços geográficos, capaz de integrar aspectos materiais e imateriais (Haesbaert, 2006), os desastres socioambientais afetam não somente as estruturas físicas, mas as formas como o mundo é dotado de significados.
Nesse cenário, Torlai (2010) argumenta que as perdas provocadas por desastres socioambientais causam rupturas na vida dos(as) sobreviventes, afetando os seus modos de vida e deixando-os(as) abruptamente enlutados(as). Além das perdas territoriais e por mortes, somam-se perdas da identidade, da confiança, da dignidade e projetos de vida (Garcia & Faria, 2021). A sobrevivência ocorre em condições de incerteza (Sandoval-Diaz & Fava Callejas, 2016), se sobrepondo à pobreza, à falta de acesso a políticas públicas, às injustiças ambientais e à violência institucional, elementos já presentes no cotidiano de populações em contextos de desigualdades, agravando e prolongando os impactos dos desastres.
A partir do exposto, este trabalho objetivou realizar uma revisão integrativa sobre a relação entre território, vulnerabilidade e os sofrimentos provocados por desastres socioambientais no contexto latino-americano. Considerando as diferentes realidades sociopolíticas e econômicas dos países da América Latina, este artigo se orientou pela pergunta central: “Como os aspectos psicossociais no cenário dos desastres socioambientais têm sido explorados na literatura científica dos últimos 10 anos?”. Para isso, nos apoiamos nas teorias sociais sobre desastres socioambientais (Quarantelli, 1998; Spink, 2014; Valencio, 2009a; Vargas, 2009), as quais propõem uma concepção crítica, reflexiva e interdisciplinar desses fenômenos.
2. Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que permite aprofundar a compreensão do fenômeno investigado a partir de estudos já publicados (Souza et al., 2022), sendo consultadas três bases de dados: Scielo, Lilacs e Redalyc. A escolha das bases de dados se deve à relação do tema com o conteúdo indexado, especialmente pelo abrangente índice de literatura científica e técnica. Os descritores foram utilizados em inglês, definidos de acordo com o objetivo do trabalho, sendo: disasters; territory, vulnerability, suffering e latin américa. Considerando a falta de consenso de terminologias em torno dos desastres socioambientais (Quarantelli, 1998), os descritores foram estrategicamente selecionados na base Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Cabe destacar que os descritores territory e suffering aparecem apenas em combinações mais específicas no DeCS. Optou-se, portanto, utilizá-los em suas formas amplas, a fim de abranger o maior número possível de estudos.
Em todas as bases foi selecionada a opção de busca por assunto no modo “pesquisa avançada”, com recorte temporal de 2014 a 2024. Os resultados foram obtidos a partir do cruzamento do descritor “disasters” com os demais descritores elencados, utilizando o operador booleano “AND” nas bases Scielo e Lilacs. Em Scielo, a fórmula de pesquisa foi: (*“disasters”) AND (“vulnerability”); na Lilacs: (disasters) AND (vulnerability). Na Redalyc, devido ao número muito expressivo de resultados utilizando apenas dois termos cruzados com o operador booleano “Y”, utilizamos o google acadêmico para refinar a busca, através da fórmula: “Disasters” +”Vulnerability” site:redalyc.org”. Em todas as bases, os descritores territory, vulnerability, suffering e latin américa foram cruzados diretamente com o descritor “disasters”, a fim de restringir a pesquisa a assuntos que abordassem simultaneamente os conceitos. As buscas nas três bases foram realizadas em março de 2025, sem delimitação a campos específicos.
Os critérios de inclusão foram: (a) artigos originais e completos disponíveis em acesso aberto nas línguas inglesa, espanhola e portuguesa; (b) pesquisas empíricas apresentadas em formato de artigo, tendo como foco a pergunta central que orientou este estudo; (c) artigos publicados entre 2014 e 2024. Foram excluídos: (a) dissertações, teses e reportagens; (b) artigos teóricos e/ou baseados em relatórios estatísticos obtidos de fontes secundárias.
Ao todo, foram encontrados 1.078 trabalhos que faziam referência à associação dos descritores empregados. Após a leitura de títulos, resumo e palavras-chave, considerando os critérios de inclusão e exclusão adotados e a exclusão de artigos duplicados, foram selecionados 55 estudos (23 da LILACS, 18 da Scielo e 14 da Redalyc). Seguiu-se com a leitura na íntegra de todos os 55 artigos, resultando em uma amostra final de 35 artigos, considerados com debates relevantes e que dialogam com o objetivo da presente revisão. Esse processo foi conduzido por dois revisores, autores deste estudo, que realizaram a leitura de forma independente, seguindo os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos, e discutiram conjuntamente a construção da amostra final da revisão.
3. Resultados bibliométricos
A distribuição de publicações ao longo dos anos apresenta variações. Em 2014, foram 4 artigos (11,4%), seguidos por 2 em 2015 (5,7%), 3 em 2016 (8,6%), 2 em 2017 (5,7%) e apenas 1 em 2018 (2,9%). O ano de 2019 contou com 4 publicações (11,4%), enquanto 2020 teve 5 (14,2%) e 2021 atingiu o maior número, com 6 publicações (17,1%). Nos anos seguintes, houve uma redução: 4 artigos em 2022 (11,4%) e 2 em cada um dos anos de 2023 e 2024 (5,7% cada).
Os países da América Latina em que foram realizadas as pesquisas foram diversos, sendo o Brasil o com maior número de publicações, chegando a 18 (51,4%). Em seguida, o Chile apresenta 9 estudos (25,7%), seguido pelo México, com 4 (11,4%), e pelo Peru, com 3 (8,6%). A Argentina teve apenas 1 publicação (2,9%). As áreas de saber também foram variadas, de acordo com os periódicos. Os campos das Ciências Sociais (com duas ou mais áreas diferentes) apresentaram o maior número de publicações, somando 9 artigos (25,7%), seguido da Saúde Coletiva/Epidemiologia com 7 artigos (20%) e pela Psicologia, com 6 publicações (17,1%). A categoria de estudos multidisciplinares apresentou 5 publicações (14,2%). Por sua vez, a Enfermagem contou com 2 publicações (5,7%), seguida por Planejamento Urbano e Regional, que teve 3 publicações (8,6%). O Serviço Social apresentou 2 publicações (5,7%) e, por fim, Demografia e Geografia apresentaram 1 publicação cada (2,9%).
Importante mencionarmos que a maior parte das pesquisas é de natureza qualitativa, representando 27 artigos (77,1%) do total. Estas foram conduzidas utilizando um ou mais métodos, sendo as entrevistas semiestruturadas a principal técnica de construção dos dados, presente em 9 artigos (25,7%), seguidas pelas entrevistas em profundidade, que aparecem em 5 artigos (14,2%). Outro tipos de entrevistas incluíram as biográficas, em 1 artigo (2,9%), episódicas em 2 artigos (5,7%), não diretivas em 1 artigo (2,9%), e entrevistas sem especificação do tipo, em 2 artigos (5,7%). Também foram adotados métodos como pesquisa-ação em 2 artigos (5,7%) e oficinas e grupos em 6 artigos (17,1%), além de abordagens mais específicas, tais como: etnografia, cartografia e foto-documentação, técnicas que aparecem em 1 artigo cada (8,6%).
Houveram 4 artigos (11,4%) de pesquisas quantitativas e 4 artigos (11,4%) de abordagem mista (quali-quantitativa), ambas representando uma menor proporção da amostra. Neste tipo de metodologia, foram utilizadas escalas e questionários em 8 artigos (22,9%) e análise de dados através do software SPSS em 2 artigos (5,6%), destacando que algumas dessas pesquisas aplicaram ambos os métodos em simultâneo.
Dos 35 artigos analisados, 17 (48,5%) enfocaram as experiências de sobreviver em territórios considerados de risco socioambiental, seguidos de 9 artigos (25,7%) que discutiram os efeitos dos desastres geológicos (terremotos, tsunamis, vulcões e deslizamentos de terra). Os desastres hidrometeorológicos (inundações, tempestades, secas e fenômeno El Niño) foram o foco de 7 estudos (20%) e 5 artigos (14,2%) refletiram sobre os desastres tecnológicos e industriais (rompimento de barragens e derramamento de petróleo). Por fim, desastres relacionados a incêndios foram contemplados em 1 artigo (2,9%). Cabe destacar que alguns artigos abordaram mais de um tipo de desastre simultaneamente.
Quanto à população estudada, poucos artigos apresentaram um foco em uma população ou grupos sociais específicos. Cinco artigos (13,9%) abordaram sujeitos e grupos sociais em processo de vulnerabilização socioambiental, e apenas dois artigos (5,6%) discutiram a realidade de mulheres e mães afetadas por desastres socioambientais. Em seguida, 2 artigos (5,6%) trataram dos idosos(as) e outros dois (5,6%) discutiram as comunidades rurais. Outros grupos mencionados foram os(as) imigrantes, pescadores(as), estudantes e comunidades tradicionais, com 1 publicação cada (11,2%).
A partir da análise realizada sobre os 35 artigos selecionados, foram construídas duas categorias de análise: a) desastres socioambientais e sofrimento psicossocial em territórios vulnerabilizados; e b) experiências de (sobre)viver em “territórios de risco” no cotidiano sociocomunitário.
4. Desastres socioambientais e sofrimento psicossocial em territórios vulnerabilizados
A partir dos artigos analisados, é possível notar que os efeitos deletérios dos desastres socioambientais somam-se às demais vulnerabilidades presentes no cotidiano (Cunha et al., 2015; Freire, Bonfim & Natenzon, 2014; Lopes et al., 2022; Murgida, 2021; Rubio Aguilar, 2019; Sandoval-Díaz et al., 2020; Sandoval-Díaz & Fava Callejas, 2016; Santos et al., 2024; Santos & Modena, 2022; Sepúlveda-Hernández, Úcar & Rodríguez-Flores, 2022; Sousa & Silva, 2023; Zhouri & Azevedo, 2024). A pobreza, falta de acesso à moradia e infraestrutura adequadas, injustiças ambientais e de gênero bem como a violência institucional são elementos que, imbricados aos desastres socioambientais, prolongam os prejuízos causados e limitam as possibilidades de construção de estratégias de enfrentamento (Barros & Martins-Borges, 2018; Mancal, Lima, Khan & Mayorga, 2016; Oliveira, Portella, Yoshikawa, Lobosco & Oliveira, 2021; Rojas-Páez & Sandoval-Díaz et al., 2020; Santos, Sol & Modena, 2020; Younes-Ibrahim, Pinheiro & Pardo, 2019).
Diante de perdas parciais ou totais, a sobrevivência se dá em condições de incerteza (Alfie Cohen & Cruz-Bello, 2019; Sandoval-Diaz & Fava Callejas, 2016). Nessas circunstâncias, a perda da casa representa uma ruptura simbólica e material que sustentava a vida cotidiana, considerando que “o poder do laço territorial revela que o espaço está investido de valores não apenas materiais, mas também … espirituais, simbólicos e afetivos” (Haesbaert, 2006, p. 72).
Isto posto, Freitas, Bessa, Ferreira, Vieira e Mourão (2021) apontam que o deslocamento compulsório em cenários de desastres socioambientais impacta as formas de vida e os sentidos de pertencimento. As famílias deslocadas passam a habitar um “não-lugar” (Rojas-Páez & Sandoval-Díaz, 2020, p.63), contribuindo para a intensificação do sofrimento e vulnerabilidade, dada a perda de referenciais afetivos e comunitários. Essas experiências se traduzem em processos de desenraizamento, provisoriedade e invisibilidade, em um cotidiano marcado por desigualdades e situações extremas, revelando, assim, “a construção social e histórica de uma tragédia anunciada, como desastres planejados que se colocam cotidianamente (Cunha et al., 2015, p. 100).
Há, portanto, uma dimensão histórica e contínua dos desastres socioambientais, não se tratando apenas de eventos isolados, mas acontecimentos críticos que descortinam as injustiças que vulnerabilizam as comunidades situadas em contextos de pobreza (Valencio, 2009b). Considerando as desigualdades relacionadas ao gênero, raça/cor, território e corte geracional, Spink (2014) destaca que mesmo pequenas mudanças no clima podem ter impactos catastróficos sobre os modos de vida e meios de subsistência dos(as) sobreviventes. Apesar disso, são expressivos os relatos de desconfiança, omissão e abandono do Estado na tomada de providências (Alcota & Aravena-Reyes, 2020; Cunha et al., 2015; Cuba-Sancho, Durand, Batista, Zeladita-Huaman & Huamán Salazar, 2023; Freire et al., 2014; Murgida, 2021; Rubio Aguilar, 2019; Sandoval Díaz & Fava Callejas, 2016; Santos et al., 2024; Younes-Ibrahim et al., 2019; Zhouri & Azevedo, 2024).
Frente ao exposto, são recorrentes as narrativas de sofrimento e adoecimento psíquico. Notou-se a presença de sintomas relacionados à ansiedade, depressão, transtornos de estresse pós-traumático, estado de alerta e luto não elaborado, além de sofrimento social diante da ruptura de vínculos afetivos, identitários e de pertencimento (Alcota & Aravena-Reyes, 2020; Arteaga & Ugarte, 2015; Barros & Martins-Borges, 2018; Murgida, 2021; Rubio Aguilar, 2019; Santos & Modena, 2022). Ademais, somam-se prejuízos à saúde física, como a exposição tóxica, contaminação hídrica e doenças infecciosas, insegurança alimentar e nutricional, doenças respiratórias, dermatológicas, fadiga e insônia (Cunha et al., 2015; Freire et al., 2014; Romero Pérez & Millán Malo, 2014; Sousa & Silva, 2023; Soares Moraes, Murillo Licea, Lopes et al., 2022).
Na dimensão comunitária, os impactos dos desastres socioambientais se estendem à fragmentação das redes de apoio, ao aumento do isolamento, ao deslocamento compulsório e à perda de modos tradicionais de vida (Arcaya-Moncada et al., 2021; Arteaga & Ugarte, 2015; Murgida, 2021; Rojas-Páez & Sandoval-Díaz, 2020; Sandoval-Díaz et al., 2020; Sousa & Silva, 2023; Younes-Ibrahim et al., 2019; Zhouri & Azevedo, 2024). Apesar disso, Botelho et al. (2024) destacam que as comunidades em contextos de desigualdade tendem a ser excluídas dos processos de tomada de decisão sobre questões ambientais que afetam seus territórios, o que dificulta a construção das condições necessárias para a recuperação.
Assim, pode-se extrair que ao provocar uma ruptura abrupta da rotina, os desastres socioambientais não só intensificam o sofrimento, mas configuram-se como causa e efeito “daquilo que o poder político, econômico e institucional faz às pessoas e, reciprocamente, de como tais formas de poder podem influenciar as respostas aos problemas sociais” (Farmer, 2004, p. 317). Desse modo, os sofrimentos provocados por desastres socioambientais não são apenas respostas emocionais às perdas, mas constituem uma experiência contínua, incorporada ao cotidiano e manifestada no corpo, na linguagem e nas relações sociais (Das, 1996).
Isto significa dizer que as rupturas sofridas não são vivenciadas “dentro” ou “fora” dos(as) sobreviventes de desastres socioambientais, podendo assumir formas de resistência e apoio (Carvalho, 2008). Nessa perspectiva, Estrada-Flores et al. (2021) e López-Cepeda, Tosetti e Aravena (2017) destacam que a preservação dos laços com a família, os(as) amigos(as) e a comunidade, bem como as ações da mídia, do Estado e de organizações não governamentais, são fatores que contribuem para a reestruturação dos(as) sobreviventes.
5. Experiências de (sobre)viver em “territórios de risco” no cotidiano sociocomunitário
O termo “área de risco”, segundo Torres, Marques, Ferreira e Bitar (2003), integra os piores indicadores socioeconômicos e a maior vulnerabilidade aos desastres socioambientais. Nesses territórios, a persistente ausência de saneamento básico, pavimentação, transportes coletivos, equipamentos de saúde e de proteção social, somados aos riscos ambientais, contestam o direito das comunidades de morar e de pertencer ao território urbano de forma digna (Pereira, Garziera, Santos & Alves, 2025; Valencio, 2009b).
Silva e Menezes (2020); Sandoval, Soares e Munguía (2014) e Chaves e Andrade (2017) destacam que a percepção e a compreensão dos riscos ambientais são fortemente mediadas pela pobreza, gênero, raça/cor e a necessidade de manutenção das atividades de subsistência. Em consonância, Soares Moraes, Murillo Licea, Romero Pérez e Millán Malo (2014) e Oliveira et al. (2021) mostram que a falta de planejamento urbano, o analfabetismo e a falta de acesso a informações qualificadas agravam as desigualdades e limitam a capacidade de mitigação dos riscos. Nesse cenário, o risco socioambiental se apresenta “apenas como mais um elemento componente do cenário de dificuldades e demandas imediatas, numa condição de quase insignificância frente a outros elementos presentes - mostra-se contornável e passível de convivência” (Vargas, 2009, p. 83). Assim, a mitigação demanda um conjunto de ações, estratégias e políticas públicas com o objetivo de reduzir a ocorrência de desastres socioambientais e minimizar seus impactos sobre a população (Torres, Freitas & Costa, 2024).
Chaves e Andrade (2017) apontam que 82,5% das pessoas que vivem em áreas de risco não desejam ser deslocadas. Em consonância, Sandoval-Díaz, Monsalves Peña, Vejar Valles e Bravo Ferretti (2022) apontam a relação afetiva estabelecida com o território, vizinhança e práticas comunitárias como motivadores para permanecer no território. Nessas circunstâncias, “o risco é reinterpretado a partir de outra natureza de ameaça: a de expulsão” (Vargas, 2009, p. 84), a qual se torna aterradora na medida em que ameaça os arranjos sociais e territoriais construídos.
Permanecer no território, ainda que precarizado e degradado ambientalmente, representa para muitos(as) uma forma de segurança e abrigo (Haesbaert, 2006). Diante da falta de opções de moradia e infraestrutura adequadas, somada ao pavor de não dispor dos recursos básicos, resta como opção a convivência diária com o risco como parte “natural” da vida. (Valencio, 2009b). Ou seja, “não é apenas uma questão de localização geográfica desfavorável, é também resultado de um legado de políticas discriminatórias que se traduzem em menor acesso a infraestrutura, serviços de saúde adequados e opções de moradia segura e acessível” (Barbosa et al., 2024, p. 2-3).
Com efeito, os autores Silva e Menezes (2020) destacam que a busca por moradia em locais classificados pela defesa civil como “áreas de risco”, é marcada pela exposição à inúmeras outras vulnerabilidades, perdas e violências. Não se trata, portanto, da incapacidade de compreender o perigo iminente do teto desabar sobre a cabeça ou os pertences pessoais, memórias e dignidade serem levados pela correnteza. Trata-se, sobretudo, da urgência em sobreviver (Sandoval-Díaz, 2022).
Considerando que o Estado falha reiteradamente com ações paliativas, a pesquisa de Soares et al. (2014) aponta que 58% da população não confia na capacidade dos equipamentos públicos para gerir os riscos ambientais. Marchezini e Forini (2019) mostram que, em sua grande maioria, as estratégias de redução de riscos e danos adotadas pelo Estado deslegitimam os modos de vida, as práticas locais, os vínculos afetivos e a participação comunitária. Assim, sair dos territórios considerados de risco é, frequentemente, significada como a possibilidade de ficar sem nenhum tipo de apoio (Vargas, 2016).
A partir do exposto, nota-se um cenário marcado por ambivalências: de um lado, a perda, o sofrimento e o medo constante de ver desfeitas todas as conquistas diante das fortes chuvas, enxurradas e/ou deslizamentos de terra; do outro lado, a construção coletiva de estratégias para o enfrentamento à omissão e abandono do Estado. Tais estratégias incluem a autogestão, os cuidados coletivos em saúde e saúde mental, o resgate de práticas culturais, saberes tradicionais e espiritualidades (Cuba-Sancho et al., 2023; Freitas et al., 2021; Lopes et al., 2022; Martínez Leina et al., 2021; Oliveira et al., 2021; Sousa & Silva, 2023).
6. Considerações finais
A experiência dos sobreviventes de desastres socioambientais se dá na convivência diária com riscos e prejuízos, condicionados aos enredamentos sociais, econômicos e políticos que vão além dos desastres oficialmente reconhecidos. Refletir sobre essas realidades implica considerar os recursos disponíveis (ou a ausência desses) para a construção de estratégias, deslocando a discussão do âmbito individual para lançar luz sobre os processos históricos de injustiça ambiental, de precarização dos territórios e políticas públicas ineficientes, que perpetuam e criam novos contextos de riscos e vulnerabilidades. Observa-se ainda que o fato de ter sido encontrado um maior volume de publicações em Ciências Sociais pode refletir esse entendimento, embora as análises e metodologias empregadas carecem de um maior aprofundamento da natureza multidimensional, e não apenas natural, dos desastres socioambientais.
Soma-se a isso a ausência de artigos que abordassem as especificidades da população LGBTQUIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais, não binárias) e/ou de crianças que atendam aos critérios desta revisão, o que constitui uma limitação deste estudo. Considerando que são esses sujeitos que, historicamente, têm ocupado posições subalternizadas em nossa dinâmica social, tal lacuna evidencia a urgência de futuras pesquisas sensíveis às suas demandas, visando subsidiar práticas mais equitativas em contextos de desastres socioambientais.
No debate sobre os efeitos psicossociais desses fenômenos em contextos de pobreza, afirmar o acaso da natureza, dificulta articular a importante reflexão sobre a diversidade das experiências e relações que os produzem. Ao definirmos com clareza as concepções de desastres com as quais trabalhamos, torna-se possível indagar “o quê?”, “onde?”, “quando?” e “com quem?” - nomeando a raça/cor, gênero, classe social e faixa etária dos corpos que, historicamente, são arrastados(as) pelas correntezas, soterrados(as) nos escombros e/ou sobrevivem às margens dos córregos ou aos picos das ladeiras.
Embora tenham sido analisados artigos de diferentes países da América Latina, observou-se que, em todos eles, as desigualdades expressas na pobreza, na violência e no desamparo é determinante para a manutenção dos efeitos mais deletérios dos desastres socioambientais. Além disso, esteve presente a necessidade de reconhecimento das formas de usos, vivências e relações estabelecidas com o território como fundamentais para a tomada de providências na mitigação dos riscos, danos e perdas provocadas por esses fenômenos.
A esse respeito, é possível depreender que o aspecto que une as diferentes realidades analisadas é a pobreza que, incorporada à dinâmica social excludente e desigual, atua como organizadora desse cenário. Nesses termos, a escassez imposta pela pobreza, somada à escassez imposta pelos prejuízos provocados pelos desastres socioambientais, faz com que os(as) sobreviventes experienciem a superposição de desigualdades e, consequentemente, se veem enfrentando maiores sacrifícios na tentativa de se recuperarem. Assim sendo, é importante maior investimento em pesquisas e intervenções que compreendam as singularidades e favoreçam a construção de políticas de cuidados circunscritos às experiências vividas por sujeitos em distintas realidades.
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Financiamento CLSF é bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. FSP é bolsista de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (Nível 2).
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Editor científico Dr. Jáder Ferreira Leite


Fonte: Os próprios autores (2025).