Madel Therezinha Luz foi professora do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ), por mais de 40 anos. Sua partida recente significa uma perda inestimável, mas também um legado de profundo rigor e seriedade intelectual. Este editorial é uma justa homenagem a essa mestra que faleceu no dia 2 de fevereiro de 2026, que semeou e produziu tantos frutos para diferentes gerações, com engajamento público em lutas por direitos e na defesa do SUS.
Graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1958-1962). Entre 1965 e 1969, cursou o mestrado na Université Catholique de Louvain, na Bélgica, sob a orientação do sociólogo e professor Pierre de Bie (1917-1996), defendendo em 1969 a dissertação intitulada Fondements idéologiques de la méthode structurelle - fonctionnelle: vision fonctionnaliste de la stratification et des classes sociales dans une perspective de sociologie de la connaissance.
Importante ressaltar que essa formação se deu num contexto social fortemente marcado por dois movimentos, dos quais participou intensamente: a discussão da reforma do ensino da Sociologia na Bélgica, e o levante estudantil de maio de 1968 em Paris, com a conformação de uma nova agenda política, que viria a se constituir como uma “comunidade da diferença”.
No início da década de 1970, Madel retornou ao Brasil, em plena repressão e controle político do regime militar, encontrando nas frestas da contracultura o espaço para acolher suas expressões epistemológicas, sendo o IMS o lugar para o desenvolvimento de seus estudos e pesquisas. Nele, Madel encontrou uma geração de pesquisadores de diferentes formações, desde o campo biomédico por excelência até as vertentes transversais da filosofia, da sociologia das instituições médicas e da epidemiologia, empenhados em compreender as determinações do processo saúde-doença e seus modos de produção social no Brasil.
Ingressou no doutorado em Ciências Políticas da Universidade de São Paulo (1974-1978), sob orientação do professor José Augusto Guilhon Albuquerque, tendo publicado sua tese intitulada As instituições médicas no Brasil: instituição e estratégia de hegemonia em 1979. Nela tomou como objeto central as estratégias de poder adotadas pelas instituições médicas e sua capacidade de produzir hegemonia a partir de um discurso técnico-científico, em momentos conjunturais constitutivos dos projetos de políticas de saúde no Brasil (Luz, 1979).
Em plena retomada das lutas pela democratização e da ascensão dos movimentos sociais, Madel dedicou-se a discutir a condição da mulher, tendo como resultado a organização do livro O lugar da mulher: estudos sobre a condição feminina na sociedade atual, publicado em 1982. No mesmo ano, publicou o livro Medicina e ordem política brasileira (Luz, 1982), uma obra clássica da sociologia da saúde que analisa a relação entre o saber médico, as instituições de saúde e o Estado no Brasil entre 1850 e 1930. A autora demonstra como a medicina institucionalizada foi usada para estruturar a ordem política e social no país.
Sua tese para professora titular, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS-UFRJ), em 1987, resultou no livro Natural, racional, social. Razão médica e racionalidade científica moderna (Luz, 1988), já um clássico, no qual analisou categorias centrais da medicina e da sociologia, revelando como categorias aparentemente naturais ou neutras são, na verdade, historicamente construídas e socialmente situadas. Ali, em sua própria descrição, tratava-se do projeto de uma análise sócio-histórica da racionalidade científica moderna, de seus efeitos políticos, de sua inserção e intervenção na vida social.
Robert Castel, Michel Foucault e François Jullien são citados por Madel como principais referências em sua formação intelectual, e como tendo pavimentado o solo epistemológico para abordar o tema da racionalidade científica com contribuições importantes para a compreensão do campo de prática da saúde.
Com a influência de Roberto Machado, Madel promoveu reflexões sobre o campo de prática da Saúde Coletiva, mas seria Max Weber, dentre os clássicos da sociologia, quem ela nomearia como a principal referência na sua formação e na consolidação das bases para a formulação do conceito de “racionalidades médicas”.
Reconhecida como uma das maiores referências no Brasil na articulação entre ciências sociais, humanas e políticas na saúde, Madel defendia que a interdisciplinaridade vai muito além de apenas juntar diferentes disciplinas (multidisciplinaridade). Nutria o entendimento de que, como prática teórica na produção de conhecimento na Saúde Coletiva, a interdisciplinaridade é fundamental para superar a fragmentação do conhecimento científico tradicional, unindo biociências e ciências humanas para analisar criticamente o processo saúde-doença.
Nos anos 90, criou o Grupo de Pesquisa do CNPq Racionalidades Médicas, atuando como pioneira na produção de conhecimento sobre RACM e práticas das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), reconhecendo a presença de outros tipos de racionalidades biomédicas, que entendem a saúde e a vida a partir de outra perspectiva, de um ponto de vista mais alargado, ou seja, mais humano, integral e em harmonia com o ambiente.
Nos anos 2000, Madel dedicou-se a refletir sobre as racionalidades no campo da medicina e da Saúde Coletiva. A partir de suas pesquisas de campo e de sua dedicação à formação de toda uma geração de pesquisadores e profissionais de saúde dedicados a pensar novas práticas de cuidado, tornou-se realidade concreta a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, oficializada em 2006. A liderança de Madel Luz na defesa dessas modalidades de conhecimento e de práticas integrativas e complementares foi vital na discussão da humanização, do acolhimento e da promoção integral do cuidado humano.
Segundo registro feito pela colega e amiga, a socióloga e professora emérita do IMS da UERJ, Maria Andrea Loyola:
Uma obra densa e fundadora dessa área de estudos sobre a saúde. Formou inúmeros alunos, atuou administrativa e politicamente, integrando o grupo de sanitaristas que construíram o Sistema Único de Saúde do país, o nosso SUS (02 fev. 2026).
Como professora, a mestra Madel sempre manteve um posicionamento de crítica ao produtivismo dentro da atividade científica, acadêmica e universitária, que notoriamente privilegia a performatividade e a competição. Também considerava vital pensar em como criar espaços para a troca de saberes e conhecimentos num processo que envolva pesquisadores titulares, professores, pesquisadores em iniciação e alunos.
Não era incomum encontrar a mestra Madel cercada de alunos, ouvindo-os com atenção, paciência e generosidade, sem deixar de ser autêntica na defesa de suas posições nos debates com eles, ofertando perspectivas instigantes de análise. Buscava incessantemente um modelo diferente, respeitoso e solidário em relação ao outro e aos seus pares. Um modelo, se possível, construtivo, que auxiliasse as pessoas a construir seus próprios caminhos neste mundo, sem invisibilizar o crescimento de outrem.
Sem dúvida, uma qualidade incontornável da mestra Madel, como professora e pesquisadora, foi o permanente compromisso ético que sempre manteve com as pessoas com quem conviveu e com o SUS, defendendo a participação na democracia, nas instituições de saúde e nos espaços políticos.
Sua partida significa um momento provisório de sua existência, o que nos deixa muito saudosos, mas suas ideias, valores e obras redobram nossa responsabilidade com as gerações futuras da Saúde Coletiva.
Referências
- LUZ, M. T. As Instituições médicas No Brasil: instituição e estratégia de hegemonia. Rio de Janeiro. Editora Graal, 1979.
- LUZ, M. T. Medicina e ordem política brasileira. Rio de janeiro. Editora Graal, 1982.
- LUZ, M. T. Natural, racional, social. Razão médica e racionalidade científica moderna. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.
- LUZ, M. T. A arte de curar e a ciência das doenças. São Paulo: Dynamis Editorial, 1996.
- LUZ, M. T. Novos saberes e práticas em Saúde Coletiva: estudos sobre racionalidades médicas e atividades corporais. São Paulo: Editora Hucitec, 2003.
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Editora responsável:
Jane Russo
