Open-access Desinformação e saúde: o papel da linguagem precisa na era digital

Em uma sociedade cada vez mais conectada, a desinformação desponta como um dos maiores desafios da era digital, caracterizada pela rápida e ampla propagação de informações falsas ou distorcidas (Posetti; Bontcheva, 2020). Esse fenômeno enfraquece a confiança em instituições e na ciência, além de ameaçar a saúde pública, a coesão social e a integridade dos sistemas democráticos (Floss et al., 2023).

A disseminação de teorias da conspiração, notícias falsas e manipulação de dados assume proporções ainda mais preocupantes em momentos de crise, como tem sido observado durante a pandemia de Covid-19. A circulação de informações falsas - muitas vezes buscando parecer como estratégias de prevenção e mitigação da doença - gerou uma sobrecarga informacional e abalou a confiança nas instituições de saúde (Rocha et al., 2023). Esse cenário reforça a urgência de enfrentar a desinformação no contexto da saúde pública.

Embora o termo "desinformação" seja amplamente utilizado no Brasil, na língua inglesa há distinções importantes: disinformation, misinformation e malinformation são conceitos distintos, que variam conforme a intenção envolvida. De acordo com Floss et al. (2023), disinformation refere-se à disseminação deliberada de informações falsas com o objetivo de enganar, enquanto malinformation corresponde ao uso estratégico de informações verdadeiras - distorcidas ou não - para gerar vantagens pessoais ou institucionais. Já misinformation, segundo Wardle e Derakhshan (2017), diz respeito a informações falsas compartilhadas sem a intenção de enganar, geralmente quando quem as compartilha acredita na veracidade do conteúdo.

No português brasileiro, o termo "desinformação" tende a englobar essas diferentes nuances, o que pode gerar imprecisões na análise e no enfrentamento do problema. Assim, seguindo as recomendações de especialistas, propõe-se a adoção de traduções específicas:

  • Desinformação para disinformation, quando há a divulgação ou o compartilhamento de informação falsa com intenção de enganar;

  • Informação incorreta para misinformation, quando ocorre a divulgação ou o compartilhamento de informação falsa sem intenção de enganar;

  • Má informação para malinformation, quando há a divulgação ou o compartilhamento de informação verdadeira - muitas vezes distorcida - com o objetivo de prejudicar pessoas, instituições ou gerar vantagens pessoais.

Essa diferenciação permitiria maior precisão na caracterização dos conteúdos e na formulação de estratégias de combate, possibilitando respostas mais eficazes e adequadas ao tipo de desinformação enfrentada.

Além disso, compreender essas nuances é essencial para o fortalecimento da alfabetização midiática. Nesse cenário, a promoção de habilidades críticas para avaliar a veracidade das informações consumidas, reconhecer padrões de manipulação emocional e analisar as intenções por trás dos conteúdos compartilhados torna-se fundamental. A capacidade de identificar não apenas a falsidade, mas também o contexto e o propósito da informação, é vital para a formação de cidadãos mais resilientes frente às ameaças digitais.

Exemplos concretos de má informação - como o vazamento de dados pessoais verídicos para prejudicar a imagem pública de indivíduos - ilustram como a informação, mesmo sendo verdadeira, pode ser instrumentalizada de maneira prejudicial. Esses episódios ressaltam a necessidade de vigilância ética e de regulamentações que coíbam práticas danosas sem comprometer a liberdade de expressão.

Como conclusão, salienta-se que o enfrentamento da desinformação exige mais do que iniciativas multissetoriais para a checagem de fatos: requer o uso consistente de terminologias corretas, o investimento em alfabetização midiática e a construção de políticas públicas que promovam a transparência e a responsabilização no ambiente digital. Em um ecossistema informativo cada vez mais complexo, proteger a saúde pública, a confiança social e a democracia passa, necessariamente, pela precisão conceitual e pelo fortalecimento da capacidade crítica da sociedade.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ao Ministério da Saúde pelo apoio financeiro à realização deste estudo.

Referências

  • Todos os dados da pesquisa estão disponíveis no texto.
  • Editora responsável:
    Jane Russo

Disponibilidade de dados

Todos os dados da pesquisa estão disponíveis no texto.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2025
  • Aceito
    21 Nov 2025
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