Resumo
O tema do Aleitamento Materno (AM) é pouco abordado nos cursos técnicos e de graduação em Odontologia. O objetivo desta revisão foi pesquisar conteúdos odontológicos relacionados à amamentação para promoção do AM desde o pré ao pós-natal. O método adotado foi a estratégia PICO, com os descritores: “amamentação” e “odontologia”. A busca foi realizada dos últimos 10 anos até outubro de 2023 em cinco bases de dados e outros estudos incluídos. Dos 209 artigos, 101 foram selecionados sob critérios de inclusão e exclusão de acordo com o tipo de estudo e conteúdo abordado. Os resultados obtidos foram: promoção de políticas públicas em AM; sua importância e benefícios para a saúde oral e geral; alimentação; respiração; distúrbios do sono; atendimento odontológico pré e pós-natal; uso de medicamentos e drogas durante a amamentação; aconselhamento materno; manejo e técnica adequada de amamentação; trabalho multidisciplinar; treinamento profissional; fatores sociodemográficos, risco de cárie e má oclusão; desenvolvimento craniofacial; funções orais; microbiota oral; casos especiais: anquiloglossia; fenda palatina; dentes neonatais, hipomineralização, autismo, transmissão vertical; hábitos prejudiciais e sucção não nutritiva. Conclui-se que existem evidências na perspectiva odontológica para orientar mães e familiares sobre o Aleitamento Materno. Esse conteúdo deverá fazer parte de cursos de formação na área da saúde.
Palavras-chave:
Amamentação; Odontologia; Saúde bucal; Pré e pós-atendimento odontológico
Abstract
Breastfeeding (BF) is rarely covered in technical and undergraduate Dentistry courses. This review aimed to research dental issues regarding breastfeeding to promote BF from pre- to post-natal dental care. The method adopted was the PICO strategy with the descriptors: “breastfeeding” and “dentistry”, and the search was carried out over the last 10 years until October 2023 in five databases and included studies. Of 209 articles, 101 were selected under inclusion and exclusion criteria according to the type of study and subject covered. The results show the promotion of public policies in BF; its importance and benefits for oral and general health; food; breathing; sleep disorders; pre- and post-natal dental care; use of medications and drugs during breastfeeding; maternal counseling; adequate breastfeeding management and technique; multidisciplinary work; professional training; sociodemographic factors, risk of caries and malocclusion; craniofacial development; oral functions; oral microbiota; special cases: ankyloglossia; cleft palate; neonatal teeth, hypo-mineralization, autism, vertical transmission; harmful habits and non-nutritive sucking. We conclude that there is evidence from a dental perspective to guide mothers and families about BF. This content should be part of training courses in the health area.
Keywords:
Breastfeeding; Dentistry; Oral health care; Dental pre and post-care
Introdução
A assistência pré-natal adequada, com a detecção e a intervenção precoce das situações de risco (Brasil, 2013), representa um grande determinante dos indicadores de saúde materno-infantil para diminuição das principais causas de mortalidade materna e neonatal: as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) (WHO, 2015). A cárie, a doença periodontal e o câncer bucal são as doenças reconhecidas como DCNT bucais pela Organização Mundial da Saúde (WHO 2019). Nesse contexto, uma atuação multidisciplinar pode ser determinante para prevenção dos fatores de risco das DCNT, com o cuidado odontológico sendo realizado desde a concepção até os dois anos de idade - os primeiros 1000 dias de vida - período crítico de crescimento e desenvolvimento do bebê (Karakochuk et al., 2018).
O cuidado odontológico na gestação é conhecido como Pré-Natal Odontológico (PNO) e faz parte do cuidado pré-natal. O Pré-Natal Odontológico (PNO) abrange consultas que avaliam a saúde bucal e saúde geral da gestante e orientam de forma educativa a prevenção de agravos bucais e esclarecem quais procedimentos odontológicos não causam malefícios ao bebê durante a gestação (Carmo, 2020). Recomenda-se pelo menos uma consulta odontológica durante todo o período gestacional (Riggs et al., 2019). Espera-se, no mínimo, uma avaliação odontológica a cada trimestre de gestação (Brasil, 2020).
A atuação dos profissionais da odontologia poderá ser determinante no processo saúde/doença através do acompanhamento das gestantes com maior risco de cárie e doença periodontal. Porém, as consultas odontológicas não se restringem à redução de cárie e doença periodontal. Em relação às doenças gengivais, quando não tratadas, pode-se ter o agravamento da gengivite para a periodontite, resultando em efeitos adversos na gravidez, como o parto prematuro, pré-eclâmpsia e baixo peso ao nascer (Escobar-Arregoces et al., 2018). Quanto à saúde geral, o cirurgião-dentista deverá relacionar as alterações fisiológicas (Soma-Pillay et al., 2016) da mulher, fatores dietéticos e ambientais (Karakochuk et al., 2018), e se houver, as alterações patológicas (Williams, 2003) que podem causar complicações obstétricas, como diabetes gestacional, hipertensão, pré-eclâmpsia, eclâmpsia, depressão. Para isso, o profissional da saúde precisa acompanhar a gestante, identificando sua classificação de risco ao longo deste período e o estado emocional em que se encontra, o que torna o aconselhamento materno imprescindível. O aconselhamento é uma forma de atuação do profissional com a família e a mãe, em que ele a escuta e procura compreendê-la, oferecendo, com seus conhecimentos, ajuda para que a mãe possa desenvolver sua autoconfiança e autoestima (WHO, 1993).
Quanto aos cuidados do bebê no pós-parto, as orientações odontológicas para as mães têm sido cada vez mais voltadas para a criança de baixa idade, havendo também orientações para vida intrauterina, visando dentições futuras sadias, tais como: o início da higienização bucal, a primeira consulta ao dentista, o tempo de amamentação e o conhecimento sobre cárie dentária (Rigo; Dalazen; Garbin, 2016). É imprescindível orientar a mãe que aleitamento materno é fator protetor para a cárie (WHO, 2019). Por isso, se faz necessário ter conhecimento sobre o desenvolvimento estomatognático do bebê, hábitos nocivos como o uso de chupeta e mamadeira e promoção da alimentação saudável, incluindo estímulo à amamentação e efeitos deletérios do açúcar (Brasil, 2022).
O desenvolvimento craniofacial do bebê envolve estímulos funcionais, tais como respiração, sucção, deglutição e ordenha. A amamentação requer sincronização de todas essas funções, gerando ação de músculos específicos que, ao serem mobilizados, levarão ao correto desenvolvimento das estruturas craniofaciais. O aprimoramento da prática da amamentação orientada pelos profissionais da saúde é de extrema importância para que as mães amamentem seus filhos com sucesso. É de responsabilidade social que instituições de ensino em saúde ofereçam capacitação adequada aos profissionais, bem como subsídio para políticas da saúde pública que incentivem o AM (Valerio et al., 2018). Entre esses esforços, está a formação do profissional de saúde bucal (Brockveld; Venâncio, 2022).
Em relação à atuação dos profissionais da equipe de saúde bucal, as orientações odontológicas para amamentação podem ocorrer por meio de atividades em grupos; interconsultas; consulta programada; planejamento de ações; registro das consultas na Caderneta da Criança, entre outros. Deve-se avaliar o aleitamento materno através da observação da mamada, a fim de identificar problemas como uma pega inadequada e, ainda, reforçar os benefícios da amamentação para o desenvolvimento adequado da cavidade bucal do bebê, além de oferecer apoio para a continuidade do AM (Estado de SC, 2022).
A Caderneta da Gestante, elaborada pelo Ministério da Saúde (edições de 2014 a 2020), é um importante instrumento de acompanhamento da gestação, parto e pós-parto para qualificar a atenção e o cuidado pré-natal. É um instrumento interativo, que contém espaços para a gestante registrar impressões sobre o momento que está vivendo, além de ajudar a esclarecer as dúvidas mais frequentes. O documento tem como objetivo apoiar o profissional de saúde no diálogo e continuidade do atendimento à gestante e nas ações de educação em saúde. Inclui os registros das consultas clínicas e odontológicas, classificação de risco gestacional, os resultados dos exames e vacinas, entre outras informações. Ressalta a necessidade de consultas periódicas ao dentista durante o pré-natal, além de ser um material educativo que orienta as gestantes em relação à amamentação e no incentivo às boas práticas para uma vida saudável.
Em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) dos Cursos de Graduação, falta um currículo formal de educação em aleitamento materno em todas as áreas - Enfermagem, Fonoaudiologia, Medicina, Nutrição e Odontologia (Pinton, 2021; Portal MEC, 2023). Faz-se necessário desenvolver habilidades e competências preconizadas pelas DCN em temas que ampliem a promoção da saúde e a prevenção de doenças, contemplando os interesses do SUS (Sistema Único de Saúde), compatibilizando e valorizando as necessidades sentidas pela população e pelos profissionais de saúde (Brockveld; Venâncio, 2020). No Brasil, a formulação das Políticas Públicas sobre Aleitamento Materno envolve o apoio à atualização periódica em instituições formadoras dos currículos dos profissionais da saúde quanto ao AM por parte da esfera federal e, nas esferas estaduais e municipais, a de capacitar profissionais de saúde e difundir conhecimento sobre o AM para a população em geral (Brasil, 2017).
Todos os profissionais de saúde engajados no incentivo ao aleitamento materno (AM) podem conscientizar as gestantes sobre o desenvolvimento das estruturas do sistema estomatognático durante a primeira infância. É necessário que eles forneçam as orientações sobre o AM, direcionando as dúvidas e dificuldades surgidas durante a gravidez, para que a mulher chegue ao período puerperal mais preparada, segura, conscientizada e incentivada a iniciar e manter o aleitamento materno exclusivo até os seis primeiros meses pós-parto (Castelli; Maahs; Almeida, 2014).
Este artigo teve como objetivo realizar um levantamento da literatura científica que envolve conteúdos odontológicos sobre amamentação e que devem ser abordados pelos profissionais de Odontologia durante o pré-natal e o pós-natal odontológico para promover o aleitamento materno nas capacitações de profissionais, pacientes, famílias e sociedade.
Métodos
Esta revisão integrativa foi desenvolvida nas seguintes etapas: definição do tema e aporte teórico sobre a questão norteadora do estudo; realização de buscas na literatura científica; estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão de estudos; avaliação dos estudos selecionados para a revisão em tabela e quadros; identificação dos assuntos abordados; discussão das evidências científicas coletadas; conclusões. O protocolo foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF) - Identificador: DOI 10.17605/OSF.IO/HUPRN, link de acesso em: https://osf.io/yjfuv/
Para a definição do tema, a questão norteadora do estudo foi: “Quais são os conteúdos a serem abordados pela equipe de saúde bucal durante o pré-natal e o pós-natal odontológico sobre aleitamento materno/amamentação?” A partir disso, os descritores foram elaborados conforme a estratégia PICO: Problema/Intervenção/Controle/Objetivo (Santos; Pimenta; Nobre, 2007) para a busca das questões clínicas estabelecidas:
Os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH) empregados foram: “aleitamento materno”, “breastfeeding”, “odontologia”, “dentistry”. Já as buscas de pesquisa foram realizadas nas bases de dados Cochrane, Pubmed, Lilacs, Portal CAPES, SciElo e estudos incluídos, até 30 de outubro de 2023, considerando artigos com textos completos dos últimos 10 anos.
No total, as pesquisas nos bancos de dados selecionaram 196 artigos: Cochrane (14), SciElo (4), Pubmed (119), Lilacs (39), Portal CAPES (20). Foram incluídos 13 artigos que se enquadravam na temática, embora não mapeados na base de dados, conforme os descritores pré-selecionados. Todas as referências duplicadas (14) foram excluídas e realizou-se a aplicação dos critérios de inclusão /exclusão, o que resultou no quantitativo de 101 artigos válidos.
Para este estudo, os critérios de inclusão e exclusão foram construídos da seguinte forma: Critérios de Inclusão - artigos com texto completo dos últimos 10 anos; artigos que envolvem a temática aleitamento materno/amamentação, odontologia; artigos e teses de estudos primários e secundários. Critérios de Exclusão - artigos duplicados; livros e documentos e, por fim, artigos que fugiram do tema proposto.
A avaliação dos estudos selecionados está descrita no Apêndice (Tabela 1), de acordo com autores e ano de publicação, tipo de estudo e quais os assuntos abordados quanto ao Aleitamento Materno e Odontologia. Foi criada uma versão adaptada do Fluxograma PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-analyses) e a forma de análise foi subjetiva conforme o tipo de estudo encontrado.
Resultados
Dos 101 estudos selecionados (Quadro 2 - PRISMA), 48 são estudos primários e 53 secundários. Em relação aos estudos primários: 7 eram casos clínicos; 23 estudos transversais; 2 longitudinais; 4 de coorte; 1 coorte e transversal; 1 caso-controle e 10 experimentais randomizados. Quanto aos estudos secundários, foram obtidas: 5 revisões; 3 revisões de literatura; 8 narrativas; 5 integrativas; 19 sistemáticas e 13 sistemáticas e metanálises. Dos 107 estudos excluídos: 14 eram duplicados; 1 livro; 15 informativos e 77 fugiram do tema.
Distribuição das referências encontradas e selecionadas de acordo com as bases de dados e os descritores utilizados
Para análise e identificação dos assuntos abordados para AM e Odontologia, elaborou-se um quadro sinóptico para o registro das informações obtidas nos artigos (Quadro 2). Os conteúdos abordados foram definidos de acordo com as informações detalhadas por artigo e comparados entre si.
Com os assuntos definidos, foi possível identificar os conteúdos sobre aleitamento materno para serem abordados pelos profissionais da saúde bucal e que se enquadram dentro da saúde bucal e geral da mãe e do bebê.
Discussão
Os assuntos abordados sobre Aleitamento Materno e Odontologia foram identificados e demonstraram a importância de construir uma formação em aleitamento materno do ponto de vista odontológico, conforme descrito a seguir.
Políticas públicas em aleitamento materno
Dentre os artigos encontrados, muitos esforços estão sendo feitos para implementar políticas de apoio à amamentação em programa odontológico educativo e preventivo (Chrisostomo; Cunha, 2021). O desafio consiste em aprimorar estratégias como mudanças nos sistemas de serviço de saúde, promovendo colaborações interprofissionais e programas educacionais inovadores. Profissionais da saúde bucal e geral devem colaborar para apoiar as diretrizes de amamentação da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante o aconselhamento e acompanhamento clínico individual do paciente (Peres et al., 2018; Moynihan et al., 2019; Feldens et al., 2023). Foram encontrados estudos utilizando os aplicativos dos smartphones que têm o potencial de ser um ponto de entrada inovador para promover a utilização de cuidados bucais durante o pré-natal odontológico em nível individual (Wang et al., 2020). Outras alternativas de instrumentos de comunicação estudadas foram: websites (Corrêa et al., 2013; Rizatto et al., 2020) e telemonitoramento (Galvan et al., 2021; Gavine et al., 2022). Deve-se considerar, também, o acompanhamento pós-parto por paciente (Chaves et al., 2019); a introdução adequada de alimentação complementar (Brockveld; Venâncio, 2022); a Iniciativa Hospital Amigo da Criança - IHAC (Kimani-Murage et al., 2021; Samburu et al., 2020); programas sobre tempo de amamentação (Lemos, 2013) e políticas públicas de AM específicas para pacientes com fissura palatina (Saikia et al., 2022).
São necessárias mais pesquisas sobre as implicações clínicas da promoção do AM na prática profissional do cirurgião-dentista (Valerio et al., 2018). Além disso, toda a equipe de saúde bucal deve estar envolvida em promover ações sobre aleitamento materno através de várias estratégias educativas encontradas na literatura. Sugere-se a inclusão de texto educativo sobre a importância do aleitamento materno sob o ponto de vista odontológico nas Cadernetas da Gestante e da Criança do Ministério da Saúde.
Importância e benefícios do AM para a saúde geral e bucal da mãe e do bebê
A importância do AM materno (Zini-Carbone et al., 2021) tem comprovação científica em estudo de metanálises para a saúde geral da mãe e do bebê (Victora et al., 2016). A evidência do AM como fator de proteção para respiração normal é moderada (Park et al., 2018), como efeito preventivo na respiração bucal (Savian et al., 2021) e distúrbios respiratórios do sono (Storari et al., 2021; Vinha; Melo-Filho, 2017). Em relação à saúde bucal, a melhor evidência encontrada foi que a amamentação deve ser praticada por pelo menos 6 meses para o desenvolvimento da oclusão primária (Thomaz et al., 2018). Sua prática favorece e fortalece o apego entre a mãe e o bebê, gerando múltiplos benefícios para a saúde mental da mãe (Zini-Carbone et al., 2021).
Existem comprovações relevantes quanto aos conhecimentos sobre os benefícios específicos da amamentação para o desenvolvimento do sistema estomatognático (Araújo et al., 2020), prevenção de doenças dentárias (Anyanechi et al., 2017), prevenção de hábitos orais (Carminatti et al., 2019) e prevenção de más oclusões esqueléticas e dentárias (Almahrul; Asulaimani; Alghamdi, 2021).
Acompanhamento pré e pós-natal odontológico / Uso de medicamentos e drogas
O pré-natal odontológico (PNO) desmistifica crenças e resgata a confiança da gestante, promovendo uma gravidez mais confortável e saudável (Carmo, 2020). Compete ao cirurgião-dentista informar sobre o uso de medicamentos; uso de drogas como Cannabis; sobre tratamentos odontológicos específicos; sobre doenças como coronavírus; auxiliar mães portadoras de HIV, bem como orientar sobre a higiene bucal da gestante e do bebê (Nardi et al., 2021; Aiabadi et al., 2022; Sharma; Sharma; Sharma, 2020; Samburu et al., 2020; Costa et al., 2021; Lackey et al., 2020; Gavine et al., 2022; Lin et al., 2021; Escobar-Arregoces et al., 2018; Zini-Carbone et al., 2021; Panday et al., 2022). Em se tratando de pós-natal odontológico, estudos demonstraram a falta de conhecimento das mães sobre amamentação e suas dificuldades, o desconhecimento do risco de cárie durante a mamada prolongada, além do risco de o bebê desenvolver hábitos bucais e a instalação de má oclusão (Lira et al., 2016; Castelli; Maahs; Almeida, 2014; Peres et al., 2018). Neste contexto, o cirurgião-dentista deve estar capacitado para acolher e dar apoio desde o pré-natal até o tempo que for preciso (Costa et al., 2021), através das orientações odontológicas voltadas para amamentação (Rigo; Dalazen; Garbin, 2016; Valerio et al., 2018). Fatores pré-natais, perinatais e pós-natais podem interferir na formação dos dentes dos bebês (Butera et al., 2021; Lima; Ramos-Jorge; Soares, 2021). Os dentistas também devem estar cientes de que a prematuridade pode ser um fator de risco para o atraso na erupção dental (Dadalto et al., 2014).
Aconselhamento materno / Manejo e técnica da amamentação
É papel dos profissionais de saúde desmistificar a ideia de que a mulher é a principal responsável pelo cuidado com seu filho pelo fato de ser quem pode engravidar e amamentar, visto que a rede familiar de apoio à mulher é essencial na assistência à puérpera. O aconselhamento pode ser melhorado através de habilidades de comunicação, o que facilitaria as conversas para mitigar os danos potenciais adquiridos pela família assistida, reconhecendo, ao mesmo tempo, os benefícios percebidos pelos pacientes (Castelli; Maahs; Almeida, 2014; Costa et al., 2021; Panday et al., 2022).
Existem complicações que podem impactar no AM, por exemplo: doença Riga-Fede e dentes neonatais (Jamani; Ardini; Harun, 2018), onde o manejo pode ser considerado um desafio. Assim como em recém-nascidos com fenda palatina (Goyal et al., 2014), que necessitam de um uso combinado de diferentes intervenções alimentares. Alternativas como alimentação por copo são recomendadas pela OMS e pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Abordagens inovadoras de alimentação com copo são necessárias para otimizar a adesão e aumentar a duração da amamentação (McKinney et al., 2016; McKinney et al., 2019).
Trabalho multidisciplinar
Qualquer profissional engajado no incentivo ao AM (fonoaudiólogo, odontólogo, médico, enfermeiro, nutricionista, entre outros) pode ser o responsável em conscientizar a mulher sobre o desenvolvimento do sistema estomatognático durante a primeira infância, atuando de forma integral à saúde do indivíduo (Anyanechi et al., 2017; Peres et al., 2018; Feldens et al., 2023; Wang et al., 2020; Yamakami et al., 2014). Uma avaliação multidisciplinar pode identificar a anquiloglossia (situação que pode interferir na amamentação) e, portanto, deve ser feita o mais precocemente possível para que a sua intervenção seja resolutiva e eficiente (Nogueira; Gonçalves; Roda, 2021; Gonzalez-Garrido et al., 2022).
Capacitação profissional em AM
As informações corretas repassadas pelo profissional da odontologia sobre amamentação esclarecem dúvidas e dificuldades que envolvem a prática da amamentação para que a futura mamãe se conscientize sobre a amamentação natural e tenha boas condições para amamentar (Brockveld, 2020; Brockveld; Venâncio, 2020; Brockveld; Venâncio, 2022; Castelli; Maahs; Almeida, 2014). É necessária a formação acadêmica e capacitações/atualizações para que o dentista possa, efetivamente, atuar na promoção e apoio ao AM e à alimentação complementar saudável, ajudando mulheres e familiares quanto aos desafios que o AM traz (Valerio et al., 2018) desde o pré-natal até o tempo que for preciso (Costa et al., 2021).
Fatores sociodemográficos / Risco de cárie / Risco de má oclusão
Os determinantes sociais de saúde são fatores que influenciam, fortemente, na saúde oral, bem como o pré-natal e o aleitamento materno (Kimmie-Dhansay et al., 2022). Envolvem idade; condições socioeconômicas; variações demográficas; escolaridade; atitudes dos pais e responsáveis; renda familiar; acesso ao atendimento integral; uso de smartphone; saúde física e mental da criança, entre outros (Cruvinel et al., 2016; Frota; Gavião; Aguiar, 2015; Santos et al., 2023; Rigo; Dalazen; Garbin, 2016; Maia et al., 2022; Wang et al., 2020). Sobre as evidências e os desafios metodológicos sobre amamentação e saúde bucal (Peres et al., 2018), os resultados envolveram o risco de cárie (Ávila et al., 2015; Branger et al., 2019; Maia et al., 2022; Moyhinan et al., 2019; Panchanadikar et al., 2022; Pereira et al., 2022; Riggs et al., 2019; Somavilla et al., 2021) e o risco de má oclusão (Abate et al., 2020; Abreu et al., 2016; Amahrul; Asulamani; Alghamdi, 2021; Boronat-Catalá et al., 2017; Carminatti et al., 2019; Rosa et al., 2021; Feldens et al., 2023; Peres et al., 2015; Thomaz et al., 2018). Embora os profissionais de saúde tenham o dever de promover a amamentação, devido à etiologia multifatorial das más oclusões, as pacientes devem estar cientes de que as crianças ainda podem desenvolvê-las, mesmo tendo recebido a amamentação ideal (Dogramaci; Rossi-Fedele; Dreyer, 2017. Os dentistas e ortodontistas devem desempenhar um papel proativo na prevenção de distúrbios craniofaciais adquiridos e no apoio ao crescimento craniofacial ideal. Todos os profissionais médicos e dentistas têm a responsabilidade de rastrear disfunção bucal no início da vida e, também, distúrbios respiratórios em pacientes de todas as idades (D’Onofrio, 2019).
Em relação à prevenção de cárie, dá-se através do acesso à água fluoretada (Moynihan et al., 2019) e da limitação do uso de açúcar na dieta (Ávila et al., 2015; Riggs et al., 2019). Notou-se um aumento na cárie dentária com períodos mais longos de amamentação quando não houve uma higiene bucal adequada (Victora et al., 2016).
Desenvolvimento craniofacial e funções orais / Microbiota oral
Para a criança obter o leite materno, é necessário um grande estímulo da língua e músculos periorais, o que contribui para a formação do complexo craniofacial, através da execução de atividades funcionais rítmicas e coordenadas, tais como sugar, engolir e respirar. É importante avaliar a cavidade bucal, hábitos não nutritivos e higiene oral durante o primeiro ano de vida (Abate et al., 2020; Zini-Carbone et al., 2021). É preciso aprimorar os estudos sobre metodologias e protocolos de avaliação das funções orais por parte da equipe multiprofissional (Nogueira; Gonçalves; Roda, 2021) em associação aos fatores de alimentação infantil, aleitamento materno, hábitos orais (uso de mamadeira e dedo) e respiração (Corrêa et al., 2013; Rizatto et al., 2020) para assegurar que a criança esteja exercendo a atividade fisiológica muscular das estruturas craniofaciais de forma eficaz.
O risco de transmissibilidade bacteriana entre mãe e filho também deve ser considerado pelos profissionais da odontologia (Azevedo et al., 2020). Fatores ambientais e hereditários podem afetar as trajetórias de desenvolvimento da microbiota oral de lactentes e crianças (Kaan; Kahhrova; Zaura, 2021). Fazem-se necessários mais estudos sobre a transmissibilidade bacteriana no binômio mãe/filho com a divulgação e uso de guias educativos para o público em geral, pediatras e odontopediatras com as recomendações de prevenção e o impacto na atitude das mães (Cararí et al., 2021).
Casos especiais
Alterações anatômicas e funcionais do bebê podem afetar a amamentação, tais como: anquiloglossia (Silva et al., 2021; Walsh; McKenna-Benoit, 2019; AUuychai; Neff; Pitak-Annop, 2022; Colombari et al., 2021; Manipon, 2016; Nogueira; Gonçalves; Roda, 2021; Gonzalez-Garrido et al., 2021; Ingram et al., 2015; Arena et al., 2022; Almeida et al., 2018; Simão, 2016; Oliveira et al., 2019); fissuras palatinas (Goyal et al., 2014; Murthy; Deshmukh; Murthy, 2020) e o surgimento de dentes neonatais (Delgado et al., 2021; Rocha et al., 2017; Triches et al., 2018) ou ocorrência de hipomineralização (Butera et al., 2021; Lima; Ramos-Jorge; Soares, 2021; Taylor, 2017). Em relação ao aspecto comportamental da criança, a amamentação reduz o risco de transtorno do espectro do autismo (Ghozy et al., 2020). Quanto à transmissão vertical, encontramos relação entre fungos orais e parto vaginal (Azevedo et al., 2020). E, no pós-parto, a ocorrência de fungos, úlceras orais e a presença de dente neonatal que podem interferir na amamentação (Jamani; Ardini; Harun, 2018). Em relação à transmissão vertical por vírus, foram encontrados estudos de mães portadoras do vírus da imunodeficiência humana (HIV) (Samburu et al., 2020), coronavírus (Carbone et al., 2022; Costa et al., 2021; Fu et al., 2022; Gavine et al., 2022; Lackey et al., 2020) e varíola dos macacos (Gaeta et al., 2022).
Hábitos nocivos em crianças / Sucção não nutritiva
É crescente o número de crianças alimentadas por bicos artificiais, por inúmeras razões. A falta de uma sucção eficiente proporcionada pela amamentação pode levar a criança a hábitos nocivos, como sugar lábios, dedos, chupetas, entre outros objetos (Abreu et al., 2015; Cruvinel et al., 2016; Freire; Ferrari; Percinoto, 2015). A manutenção desses hábitos orais pode afetar diretamente a saúde bucal e a qualidade de vida da criança (Rocha et al., 2013; Cardoso et al., 2014; Carminatti et al., 2019; Chrisostomo, 2020; Rosa et al., 2020; Feldens et al., 2023; Moimaz et al., 2013; Pegoraro et al., 2022). É imprescindível que o cirurgião-dentista perceba e adote medidas terapêuticas e preventivas (Alencar et al., 2021) sobre hábitos deletérios (Corrêa et al., 2013; Maia et al., 2022), e principalmente, considerar a falta de apoio da mulher para amamentar.
A proposta desta revisão integrativa foi identificar os conteúdos abordados nas pesquisas científicas sob um contexto geral, limitando-se a responder à pergunta elaborada através da estratégia PICO. Não foi feita a avaliação da qualidade do estudo quanto ao rigor científico. Essas constituem limitações deste estudo. A expectativa deste estudo é que cada tema identificado inspire e incentive novas pesquisas com outras metodologias.
Conclusões
De um modo geral, existem evidências, sob o ponto de vista odontológico, para orientar as mães e famílias sobre AM. Os conteúdos encontrados foram: promoção de políticas públicas em AM; sua importância e benefícios para a saúde oral e geral; alimentação; respiração; distúrbios do sono; atendimento odontológico pré e pós-natal; uso de medicamentos e drogas durante a amamentação; aconselhamento materno; manejo e técnica adequada de amamentação; trabalho multidisciplinar; treinamento profissional; fatores sociodemográficos, risco de cárie e má oclusão; desenvolvimento craniofacial; funções orais; microbiota oral; casos especiais: anquiloglossia; fenda palatina; dentes neonatais, hipomineralização, autismo, transmissão vertical; hábitos prejudiciais e sucção não nutritiva. Esses conteúdos devem fazer parte dos cursos de formação na área da saúde, conforme várias estratégias educativas apontadas na literatura, valorizando a atuação da equipe de saúde bucal no incentivo ao AM.
As equipes de saúde bucal devem incentivar as consultas de acompanhamento odontológico da gestante e promover a prática do aleitamento materno para garantir uma vida saudável para a mãe e o bebê. Sugere-se o registro do número de consultas de acompanhamento odontológico por trimestre no prontuário ou nas Cadernetas da Gestante e da Criança do Ministério da Saúde, situação e controle de risco em saúde bucal da gestante, e a inclusão de texto educativo sobre a importância do planejamento e aconselhamento da prática da amamentação, levando em consideração a saúde mental da mãe.1
Agradecimento especial
Agradecemos à Profª. Drª. Ana Lucia Schaefer Ferreira de Mello, da UFSC, pelas contribuições valiosas acrescentadas durante a revisão crítica deste artigo.
Referências
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L. R. Baum: concepção e planejamento do estudo, coleta, análise, interpretação dos dados, redação do artigo e responsabilidade pública pelo conteúdo do artigo. F. G. Schaidhauer e M. R. de Carvalho: concepção e planejamento do estudo, revisão, aprovação da versão final e responsabilidade pública pelo conteúdo do artigo. L. Brockveld e L. da S. Tavares: revisão, aprovação da versão final e responsabilidade pública pelo conteúdo do artigo.



Fonte: elaboração própria.
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