Open-access Atenção primária à saúde bucal em gestantes no Brasil: scoping review

Primary oral healthcare in pregnant women in Brazil: scoping review

Resumo

Este estudo tem como objetivo mapear as características e tendências da produção científica sobre a atenção em saúde bucal de gestantes atendidas na Atenção Primária à Saúde (APS). Foi realizada uma scoping review com buscas nas bases de dados Medline/PubMed, Scopus, Web of Science, Scielo, Embase, LILACS, Periódicos Capes e na literatura cinzenta pelo Google Acadêmico. Não foi determinado limite temporal. Seguindo a estratégia PCC (População - Conceito - Contexto), elaborou-se a questão norteadora da pesquisa: como se dá a atenção à saúde bucal a gestantes na atenção primária à saúde no Brasil? Foram encontrados 27 estudos que preencheram os critérios de inclusão e exclusão, sendo sistematizados em quatro categorias: ações interprofissionais; atividades de promoção e educação em saúde; acesso e utilização dos serviços de saúde; e o olhar de usuárias ou gestantes e dos profissionais envolvidos nos serviços. Existe uma tendência, na literatura consultada, de publicações sobre o processo de trabalho dos profissionais envolvidos na atenção à saúde das gestantes inseridas no contexto da APS. Aspectos relacionados a estrutura, protocolos de atendimento e educação permanente dos profissionais são raramente abordados. Recomenda-se maior disseminação das informações sobre a importância da saúde bucal na atenção à saúde das gestantes.

Palavras-chave:
Gestante; Saúde Bucal; Atenção Primária à; Saúde.

Abstract

This study aims to map the characteristics and trends of scientific production regarding oral health care for pregnant women attended in Primary Health Care. A scoping review was conducted with searches in the databases Medline/PubMed, Scopus, Web of Science, Scielo, Embase, LILACS, Periódicos Capes, and in gray literature through Google Scholar. No temporal limit was set. Following the PCC strategy (Population - Concept - Context), the guiding research question was formulated: How is oral health care provided to pregnant women in primary health care in Brazil? A total of 27 studies that met the inclusion and exclusion criteria were found and organized into four categories: interprofessional actions, health promotion and education activities, access and utilization of health services, and perspectives of users or pregnant women and professionals involved in the services. There is a trend in the consulted literature toward publications about the work processes of professionals involved in the health care of pregnant women within the PHC context. Aspects related to structure, service protocols, and ongoing education for professionals are rarely addressed. It is recommended that information on the importance of oral health in the health care of pregnant women be more widely disseminated.

Keywords:
Pregnant Women; Oral Health; Primary Health Care.

Introdução

A gestação é um período marcado por diversas transformações, tanto fisiológicas quanto psicológicas na vida da mulher (Hartnett et al., 2016). E por se tratar de um período de maior aceitação e incorporação de hábitos, torna-se favorável para ações de promoção de saúde (Codato et al., 2011). A falta de cuidados com a saúde bucal durante a gestação está associada a desfechos adversos tanto para as gestantes quanto para os neonatos, incluindo maior risco de complicações maternas e impactos no desenvolvimento fetal (Oliveira; Rossi, 2022).

A necessidade de melhoria de sistemas de saúde mundiais e de construção de políticas de saúde materno-infantil amplas, acessíveis e equitativas ficou em destaque após a divulgação da Agenda 2030 (Brasil, 2015), para alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. No âmbito da saúde materno-infantil, a implementação ocorreu por meio de estratégias na Atenção Primária à Saúde (APS), com ênfase na atuação da Estratégia de Saúde da Família (ESF) como eixo estruturante das ações de cuidado e promoção da saúde.

Desde 2011, o Ministério da Saúde instituiu a Rede Cegonha (Brasil, 2011b), que direcionou uma mudança do modelo de atenção obstétrico e neonatal, alertando sobre as práticas invasivas e não humanizadas do modelo biomédico predominante. A relevância do atendimento integral à gestante foi reforçada por documentos do ministério da saúde, recomendando um trabalho de forma integrada e em constante interação entre os profissionais de saúde bucal e os demais profissionais responsáveis pelo atendimento à gestante (Brasil, 2011a; 2022a; 2023).

A Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB) estabeleceu que, no início do pré-natal, as gestantes devem ser encaminhadas para consulta odontológica, momento no qual será realizada avaliação da saúde bucal e quando receberão informações sobre alimentação e higiene bucal, tanto materna quanto do bebê (Brasil, 2022c; 2023).

O acolhimento da gestante na APS é fator essencial na sua incorporação ao serviço de saúde. Uma recepção baseada em uma escuta qualificada favorece a criação do vínculo com um melhor entendimento das vulnerabilidades de acordo com seu contexto social (Mustafa; Moura, 2018). O conhecimento e acolhimento dos sentimentos negativos ocorridos durante a gravidez ajudam a entender melhor seus problemas de saúde bucal, na perspectiva do cuidado centrado na pessoa (Fakheran et al., 2020).

Apesar do aumento da cobertura do pré-natal, a porcentagem de sete consultas ou mais passou de 51,08% dos casos, em 2003, para 71,15% dos casos, em 2018. Ainda se observam no país diferenças no acesso, tanto regionais quanto sociodemográficas, que afetam a qualidade da atenção (Ré; Nascimento; Fonseca, 2022). Isso se mostrou insatisfatório em aspectos como acesso precoce ao pré-natal, busca ativa por gestantes desassistidas, na integração de programas e atividades nas redes de atenção, e no desenvolvimento de ações de educação em saúde (Nunes et al., 2016).

Considerando-se, então, a atenção à saúde bucal das gestantes na perspectiva da integralidade e da resolutividade, surgem algumas indagações: os serviços de saúde bucal na Atenção Primária à Saúde estão sendo acessados pelas gestantes? Em que medida esses serviços atendem às suas necessidades de saúde bucal de forma resolutiva? Os aspectos relacionados a estrutura, processo de trabalho das equipes de saúde bucal na APS influenciam a atenção à saúde bucal da gestante? Assim, este estudo objetiva mapear as características e tendências da produção científica sobre atenção à saúde bucal de gestantes atendidas na Atenção Primária a Saúde (APS).

Método

Esta revisão de escopo (scoping review) foi orientada pelos pressupostos do Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual (JBI, 2015) e apresentada segundo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation (Tricco et al., 2018). Seu protocolo foi registrado no Open Science Framework DOI 10.17605/OSF.IO/F3HE2. A revisão de escopo é um tipo de síntese de conhecimento baseada em uma busca sistematizada da literatura, com o objetivo de responder a uma questão previamente estabelecida (Colquhoun et al., 2014), mapear os principais conceitos e limitações de uma determinada área de pesquisa e identificar as características desses estudos (Salvador et al., 2020; Honório; Santiago, 2021).

Para identificar scoping reviews ou protocolos semelhantes ao objetivo deste estudo, foi realizada uma busca nas bases de dados JBI Clinical Online Network of Evidence for Care and Therapeutics (COnNECT+), The Cochrane Library e International Prospective Register of Ongoing Systematic Reviews (PROSPERO).

Segundo o Protocolo Joanna Briggs, a melhor forma de elaborar uma pergunta efetiva é utilizando a estratégia PCC, P (População), C (Conceito) e C (Contexto). Neste estudo, a população diz respeito às gestantes; o conceito está atrelado à atenção à saúde bucal; e o contexto é a atenção primária à saúde (APS) no Brasil, representada pela estratégia saúde da família (Quadro 1).

Quadro 1
Descrição da estratégia PCC
Quadro 2
Palavras-chave de acordo com a estratégia PCC

Assim, a pesquisa foi orientada pelo seguinte questionamento: como se dá a atenção à saúde bucal a gestantes na atenção primária à saúde no Brasil?

Os estudos foram selecionados com suporte nos respectivos critérios de elegibilidade: foram incluídos artigos científicos publicados na íntegra em meio on-line, nas línguas portuguesa, inglesa ou espanhola; que abordem a atenção em saúde bucal de gestantes no contexto da APS. Excluíram-se estudos do tipo relatos de experiência, ensaios teóricos, reflexões ou estudos de caso, artigos de opinião, editoriais, documentos ministeriais, capítulos de livro, teses e dissertações. Não foi traçado limite temporal para a busca dos artigos.

A coleta de dados ocorreu nas bases de artigos científicos Medline/PubMed, Scopus, Web of Science, Scielo, Embase, LILACS e Periódicos Capes, bem como na literatura cinzenta pelo Google Acadêmico. As referências dos artigos selecionados foram verificadas para identificar novos estudos não localizados nas buscas anteriores, observados os critérios de inclusão previamente estabelecidos.

Considerando os critérios de inclusão, elaborou-se a estratégia de busca no PubMed, a partir do Medical Subject Headings (MeSH). A busca no Embase ocorreu a partir do Emtree. E para buscas em português e espanhol, utilizou-se a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS).

Os resultados da pesquisa final foram exportados para o Mendeley (https://www.mendeley.com), com remoção dos artigos em duplicata. Para a formulação das estratégias de busca, as palavras-chave foram acrescidas dos operadores booleanos “AND” e/ou “OR”.

Na etapa de seleção dos estudos, avaliaram-se os títulos e resumos, a fim de identificar coerência com os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos, etapa realizada por dois pesquisadores de forma independente, e por um terceiro pesquisador em caso de discordância dos dois primeiros. Foram selecionados, inicialmente, 76 artigos com base nos títulos e resumos, dos quais, 19 foram excluídos por duplicata entre as bases de dados, totalizando 57 artigos para leitura na íntegra.

Os revisores fizeram, então, a leitura na íntegra dos artigos pré-selecionados, identificando com precisão a sua relevância para a pesquisa e se os critérios de inclusão foram contemplados, aqueles que não responderam à questão norteadora da pesquisa delineada foram excluídos. As divergências entre os revisores foram resolvidas por discussão e em colaboração com um terceiro revisor, a fim de alcançar o consenso entre todos. Foram selecionados para análise final 25 artigos, com a inclusão de dois estudos com base nas referências das publicações selecionadas incialmente.

Para análise dos dados, realizou-se uma tabela de extração dos dados dos estudos incluídos na amostra final, de acordo com as variáveis: ano em que o estudo foi publicado, objetivo da investigação, tipo de estudo, abordagem metodológica.

Figura 1
Percurso metodológico para seleção dos artigos integrantes da scoping review

Resultados

Identificaram-se 6.488 publicações disponíveis nas bases de dados selecionadas. Na fase de seleção por título e resumo, foram selecionados 76 estudos. Destes, verificou-se que 19 títulos estavam presentes em mais de uma base de dados, os quais foram então removidos, totalizando 57 publicações selecionadas para leitura na íntegra.

Após a leitura e análise na integra dos artigos, 27 publicações foram incluídas nesta revisão de escopo, sendo duas delas inclusões originadas das referências bibliográficas dos estudos incialmente selecionados. As características dos estudos estão expostas nos Quadros 3 e 4. A análise das 27 publicações apontou que a maior parte do acervo foi publicada em revistas de nacionalidade brasileira, seguidas, em menor número, por publicações de outras nacionalidades.

Quadro 3
Caracterização dos estudos incluídos na amostra da revisão quanto a autoria, ano, título e tipo de estudo
Quadro 4
Caracterização dos estudos incluídos na amostra da revisão quanto aos objetivos do estudo e resultados principais

Após a análise dos textos selecionados, quatro categorias temáticas foram observadas sobre o atendimento em saúde bucal de gestantes na atenção primária: ações interprofissionais, principalmente por colaboração e encaminhamento dos outros profissionais da ESF; atividades de promoção e educação em saúde; acesso e utilização dos serviços de saúde; e a perspectiva de usuárias e dos profissionais envolvidos nos serviços. Houve textos que foram incluídos em mais de uma categoria temática.

Discussão

A saúde bucal na gestação é uma temática amplamente estudada, com achados relevantes, como a relação entre doença periodontal e bebê de baixo peso (Porto et al., 2021, Daalderop et al., 2018), influência das crenças no atendimento odontológico (Codato; Nakama; Melchior, 2008; Santos et al., 2012; Pegoraro et al., 2021) e associação do número de consultas do pré-natal e do aleitamento materno exclusivo com experiência de cárie em crianças (Santos; Gangussu; Andrade, 2023). Ainda assim, a revisão evidenciou uma escassez de estudos sobre o atendimento odontológico de gestantes na APS.

As publicações apontaram uma tendência em destacar a importância do trabalho em equipe, ressaltando a colaboração entre profissionais na ESF e na atenção à saúde bucal. Isso melhora a produção de cuidado em saúde visando à integralidade e à resolutividade (Franco, 2006; Santos et al., 2015; Agreli; Peduzzi; Bailey, 2017; Peduzzi et al., 2020). Destaca-se o papel fundamental da comunicação entre os profissionais que fazem parte do cuidado pré-natal convencional e os do acompanhamento em saúde bucal.

Na gestação, a indicação de consulta odontológica deve ser realizada por toda equipe na ESF (Brasil, 2022a). Ressalta-se que as cadernetas da gestante e da criança contém informações gerais sobre a saúde bucal, inclusive com um odontograma a ser preenchido. Há que se reforçar com as eSB que o instrumento seja usado e os registros sejam feitos (Baum et al., 2024).

A primeira consulta de pré-natal representa uma oportunidade estratégica para a integração do cuidado odontológico, possibilitando o encaminhamento da gestante ao cirurgião-dentista. Esse direcionamento é fundamental para favorecer a adesão ao tratamento, contribuindo para a promoção da saúde bucal materno-infantil e a prevenção de complicações associadas (Saliba et al., 2019).

A Nota Técnica nº 3/2022 do Ministério da Saúde (Brasil, 2022b) aponta que a captação precoce é responsabilidade compartilhada da equipe, favorecida pelo cadastro contínuo dos pacientes e pelo acompanhamento longitudinal das gestantes. Destaca-se a necessidade de ampliar as eSB vinculadas à ESF e de aprofundar a discussão sobre seu processo de trabalho (Sousa et al., 2025), promovendo práticas colaborativas interprofissionais para um cuidado integrado e resolutivo em saúde bucal coletiva. É fundamental avançar na perspectiva das práticas colaborativas interprofissionais, favorecendo uma abordagem integrada e resolutiva no cuidado em saúde bucal coletiva.

Encaminhamentos somente diante de queixas, como dor, são mais frequentes na prática da enfermagem, cujos profissionais relatam problemas na comunicação com os dentistas (Venancio et al., 2011; Oliveira et al., 2023). Por outro lado, os dentistas frequentemente experimentam um sentimento de exclusão e falta de envolvimento com relação às atividades realizadas pela equipe da ESF (Peruzzo et al., 2018).

A falta de envolvimento e interação entre os outros membros da equipe e da eSB, na discussão de casos, construção de planos de cuidado, reuniões de equipe, planejamento e execução de ações voltadas para as gestantes e suas famílias, acarreta prejuízos ao desenvolvimento de ações interprofissionais, fragmenta o cuidado e tem um impacto adverso no encaminhamento das gestantes, comprometendo o cuidado integral e de qualidade (Schwab et al., 2021, Oliveira et al., 2023).

Elementos como a comunicação, escuta ativa e respeito às singularidades de cada profissão são fundamentais na construção de práticas colaborativas (Peruzzo et al., 2018). O trabalho em equipe possui o potencial de gerar melhores resultados na prestação de cuidados de saúde aos usuários, suas famílias e à comunidade, ao mesmo tempo que contribui para aumentar a satisfação dos profissionais que participam do serviço (Peduzzi et al., 2020).

Com base nos resultados encontrados, as atividades de educação e promoção da saúde emergem como estratégias essenciais no cuidado às gestantes, sendo o foco central de quatro dos 27 estudos analisados (Reis et al., 2010; Garbin et al., 2011; Herval et al., 2019; Schwab et al., 2021). Além disso, também foi ressaltada a relevância dessas ações na atenção à saúde materna, evidenciando seu papel na prevenção de agravos e na ampliação do acesso aos cuidados em saúde bucal.

Atividades de promoção da saúde possibilitam às pessoas, de forma individual e coletiva, a melhoria da sua saúde, baseada, principalmente, no aumento do controle sobre os determinantes da saúde (Nutbeam; Muscat, 2021). Essas ações não devem abranger apenas práticas para desenvolvimento de capacidades e reforço de suas competências, mas, também, ações dirigidas à mudança dos determinantes sociais, ambientais e econômicos da saúde, potencializando seu impacto positivo na vida dessas pessoas.

A elaboração de planos de cuidado centrados nas usuárias, suas famílias, comunidades e territórios deve ser reconhecida como a principal abordagem, uma vez que incentiva a autonomia, mobiliza e valoriza os atores locais, prioriza ações que reconhecem especificidades, expõe os contextos sociopolíticos e estimula soluções para a resolução de problemas relacionados ao seu contexto, história e pertencimentos (Moyses; Franco, 2014). A falta desse conhecimento impede que as orientações dos profissionais de saúde sejam incorporadas à rotina materna, pois muitas vezes entram em conflito com sua realidade e suas condições de vida (Herval et al., 2019; Baum et al., 2024; Sousa et al., 2025).

O fortalecimento do vínculo entre gestante e profissionais também é fator relevante para a adesão às ações de promoção da saúde, com a implementação de práticas que promovam autonomia e apoio, tais como oferecer informações de maneira não controladora e a demonstração de empatia no cuidado à paciente (Contatore; Malfitano; Barros, 2018).

A literatura revelou que os temas mais abordados nas atividades de educação e promoção da saúde são: benefícios do aleitamento materno, hábitos de higiene bucal, cuidados com a dieta, risco de bicos artificiais e uso de fluoretos (Silva et al., 2018; Herval et al., 2019; Ruiz et al., 2021). As orientações sobre saúde bucal são raramente abordadas em consultas com enfermeiros e médicos, ficando, em grande parte, sob a responsabilidade da eSB. Essa fragmentação do cuidado pode limitar a integração das ações em saúde e reduzir as oportunidades de promoção e prevenção no cotidiano dos atendimentos (Oliveira et al., 2013).

No âmbito da saúde bucal, a realização de atividades de educação, prevenção e promoção da saúde ainda representa uma barreira a ser superada por conta da supervalorização e priorização do atendimento clínico. Nesse cenário, o modelo de reorganização da APS pela ESF proporciona melhores condições para o desenvolvimento de práticas educativas em saúde (Schwab et al., 2021).

A implementação do pré-natal odontológico é recomendada pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2022c) como estratégia para qualificar o acompanhamento gestacional na APS. O Programa Previne Brasil (Brasil, 2019), embora represente avanço na estruturação da APS, limita-se ao estabelecer apenas uma consulta odontológica como indicador para o monitoramento da saúde bucal das gestantes, o que se mostra insuficiente frente às seis consultas previstas com outros profissionais da eSF.

De acordo com os resultados obtidos por Gonçalves et al. (2020), com dados originados do PMAQ-AB, a prevalência de utilização de serviço de saúde bucal no pré-natal no período de 2011 a 2012 foi de 45,9%, elevando-se para 51,9% no período de 2013 a 2014, evidenciando a baixa utilização desse tipo de serviço por parte das gestantes, o que se agrava ainda mais quando se analisam municípios de pequeno porte populacional.

De forma geral, os resultados do PMAQ revelaram que apenas 25% das equipes de saúde bucal participantes alcançaram um nível considerado satisfatório em termos de qualidade da atenção odontológica no Brasil, sendo a dimensão infraestrutura a mais bem avaliada, enquanto a coordenação do cuidado apresentou o pior resultado. Esses achados indicam a necessidade de uma avaliação da qualidade dos serviços de saúde bucal por parte de profissionais de saúde, gestores, formuladores de políticas, governo e sociedade civil (Arrais; Roncalli; Rosendo, 2021).

Além do porte populacional, a literatura avaliada aponta outros fatores que influenciam o acesso das gestantes aos serviços oferecidos pela equipe de saúde bucal. São eles: cobertura de saúde bucal, idade da gestante, presença do registro de consulta odontológica, participação da equipe em programas de educação permanente, falta de transporte, flexibilidade do horário de funcionamento, dificuldade na marcação dos atendimentos, medo e a baixa percepção da necessidade de atenção (Codato; Nakama; Melchior, 2008; Lampert; Bavaresco, 2017; Mustafa; Moura, 2018; Gonçalves et al., 2020).

Uma das barreiras apontadas na atenção das gestantes se refere à sua forma de ingresso ao serviço de saúde, fator importante para o fortalecimento dos hábitos de saúde do binômio mãe-filho (Brasil, 2011a). Os profissionais precisam estar alertas à dinâmica da comunidade, auxiliando na identificação logo no início da gravidez, para que essas mulheres possam iniciar o pré-natal o quanto antes. Saliba et al. (2019) recomenda que a busca ativa deve ser o meio de ingresso, e não a livre demanda, para que haja oportunidade de prevenção de agravos, e não apenas de recuperação dos danos.

Conhecer o perfil sociodemográfico das usuárias, a fim de identificar as características que influenciam no acesso, foi observado na maioria das publicações selecionadas. Variáveis como idade, renda, escolaridade e primeira gestação são algumas delas. As mães primíparas são mais receptivas às informações de saúde e sentem necessidade de orientação, valorizando a opinião tanto de profissionais quando de mães mais experientes (Herval et al., 2019). Já as que não são de primeira gestação são consideradas um público mais difícil para desmistificar crenças e preocupações sobre o tratamento odontológico (Limeira et al., 2022).

Com relação às percepções das usuárias sobre a atenção à saúde bucal, as publicações demonstraram percepções positivas sobre o pré-natal odontológico entre as gestantes. Prioridade no atendimento, conhecimento e acolhimento dos profissionais, orientações que irão melhorar a saúde tanto da mãe quanto do bebê e capacidades comunicativas das equipes são elementos que favorecem a adesão ao serviço (Lopes; Pessoa; Macedo, 2019; Esposti et al., 2021; Ruiz et al., 2021; Brito et al., 2022).

Observou-se que as publicações mais recentes apresentam resultados mais favoráveis no que se refere às percepções das gestantes sobre atendimento em saúde bucal (Herval et al., 2019; Lopes; Pessoa; Macedo, 2019; Ruiz et al., 2021; Brito et al., 2022). Publicações do início do ano 2000 ainda trazem o medo, a ansiedade e a influência das crenças e dos mitos como elementos que influenciam fortemente a procura do cirurgião-dentista (Codato; Nakama; Melchior, 2008; Rodrigues et al., 2018). O PNO é a oportunidade para desmitificar, a partir do diálogo, as crenças sobre uso de medicamentos, tratamentos odontológicos, doenças sistêmicas e suas repercussões bucais, na higiene bucal do bebê, de forma a fortalecer o vínculo entre a eSB e a gestante (Baum et al., 2024).

Poucos são os estudos que abordam a percepção dos profissionais de saúde bucal, em especial, o dentista, sobre o atendimento a gestantes. Rodrigues et al. (2018) destacaram que as gestantes têm acesso e recebem assistência odontológica na rede pública de APS. Além disso, Limeira et al. (2022) evidenciaram que os profissionais demonstram um grau de conhecimento satisfatório e uma vasta experiência acerca do atendimento a esse grupo de usuárias.

A respeito da organização do serviço por meio de protocolos, apenas dois estudos fazem referência a esse tema (Figueiredo; Brião, 2014; Moimaz et al., 2019), destacando a ausência de protocolos. Assim, há adoção de diversas abordagens terapêuticas por profissionais pertencentes à mesma equipe, diminuindo a precisão na implementação de ações relacionadas à saúde materno-infantil. Essas circunstâncias podem comprometer a efetividade de acompanhamento do pré-natal pela equipe de saúde.

Esta revisão evidencia a heterogeneidade das ações de saúde bucal voltadas às gestantes, com registros de atividades realizadas apenas por algumas equipes de saúde. Em 2022 foi publicada a Diretriz para a prática clínica odontológica na Atenção Primária à Saúde: tratamento em gestantes; e, em 2023, foi publicada a Lei 14.572, que institui a Política Nacional de Saúde Bucal no âmbito do SUS, as quais orientam e organizam a Rede de Atenção à Saúde Bucal (RASB) no Brasil (Brasil, 2022c; 2023). Importantes ferramentas estratégicas para qualificação da RASB, especialmente na organização do cuidado e superação de barreiras de acesso. No entanto, é fundamental que tais instrumentos sejam acompanhados de investimentos financeiros, estruturais e de educação permanente, de forma a garantir a efetividade na redução das desigualdades em saúde bucal.

Outros países da América Latina, como, por exemplo, a Colômbia, onde a saúde bucal faz parte do cuidado pré-natal desde o ano de 2008, dispõem de um guia de atenção à saúde bucal da gestante. Esse país apresenta uma taxa de não utilização dos serviços odontológicos pelas gestantes de 17% (Corchuelo-Ojeda; Pérez, 2014). No Brasil, a prevalência de não utilização de serviços odontológicos na gestação foi de 51% entre as mulheres com 12 anos ou mais de escolaridade (Konzen Júnior; Marmitt; Cesar, 2019).

A escassez de estudos com informações sobre a influência da cor da pele das gestantes nos atendimentos deve ser enfatizada, dada a sua importância para a equidade em saúde. Evidências apontam que indivíduos pretos apresentaram piores condições de saúde bucal, com maior prevalência de cárie e doença periodontal, além de a cor da pele influenciar na indicação de tratamentos por dentistas (Schwendicke et al., 2015; Dalazen et al., 2016).

Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 (IBGE, 2020) revelaram disparidades no acesso e nos desfechos em saúde bucal, indicando que, apesar de pretos/as realizarem menos consultas a perda dentária é mais prevalente entre pardos/as e pretas/os com 18 anos ou mais. O cenário é ainda mais preocupante entre mulheres negras, que apresentam uma taxa de perda dentária 26% superior à das brancas, e 14% maior em relação aos homens pretos (Souza et al., 2022).

Conclui-se que há uma tendência crescente nas publicações sobre o processo de trabalho dos profissionais envolvidos na atenção à saúde das gestantes na Atenção Primária à Saúde (APS). Como potencialidade e como barreira, o encaminhamento de outros profissionais da ESF para o atendimento da eSB é frequentemente citado como um aspecto central no trabalho em equipe.

Os estudos sinalizaram, também, a necessidade de trabalho em equipe para proporcionar as melhorias das ações de promoção e educação em saúde, de forma a ampliar e qualificar o acesso aos serviços. Todavia, observaram-se lacunas com relação às características da atenção odontológica sob a ótica dos CD, apontando a necessidade de investigações mais detalhadas nesse campo. Elementos relacionados à infraestrutura, aos protocolos de atendimento, vínculos empregatícios e à educação permanente também são pouco explorados. Em especial, à luz das recentes publicações do Ministério da Saúde sobre saúde materno-infantil e a organização da RASB, é fundamental aprofundar o debate sobre estratégias que qualifiquem a produção de cuidado. Reforça-se, ainda, a recomendação de intensificar a vigilância em saúde bucal, com o intuito de identificar e enfrentar iniquidades sociais e raciais, assegurando uma abordagem mais equitativa e integral nos cuidados prestados.1

Nota

  • 1
    M. C. C. S. Ferraz e F. D. S. Forte: concepção, análise e interpretação dos dados; redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual; aprovação final da versão a ser publicada. B. R. F. Teixeira: análise e interpretação dos dados; redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual; aprovação final da versão a ser publicada. Os autores são responsáveis por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra.
  • Todos os dados da pesquisa estão disponíveis neste texto.

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  • Editora responsável:
    Fernanda Mattioni
  • Pareceristas:
    Edmar Galiza dos Santos e Fernanda Mattioni

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Out 2024
  • Revisado
    20 Maio 2025
  • Aceito
    22 Ago 2025
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