Resumo
O objetivo deste artigo é analisar a estrutura da representação social dos facilitadores acerca das expectativas em relação a uma oferta formativa destinada a gerentes de saúde bucal no âmbito do Sistema Único de Saúde. Trata-se de um estudo descritivo e exploratório com dados quantitativos e qualitativos, no qual a coleta foi realizada por meio de formulário estruturado com evocação livre de palavras, permitindo apreender os elementos constitutivos das representações sociais dos participantes. Os dados foram processados pelo software EVOC 2000, que organiza os termos segundo a frequência de evocação e a ordem média de evocação, possibilitando a construção do quadro de quatro casas e a identificação do núcleo central e dos sistemas periféricos da representação social. Os resultados evidenciaram que os facilitadores associam a formação principalmente ao aprendizado e ao desenvolvimento profissional, complementados por dimensões como compartilhamento de experiências, prática e crescimento. Na análise, a oferta foi percebida como espaço de fortalecimento técnico e construção coletiva, reafirmando o potencial da Educação em Saúde para qualificar a gestão e o cuidado em saúde bucal. Conclui-se, portanto, que a iniciativa constituiu um espaço de desenvolvimento profissional, que pode subsidiar políticas de educação continuada.
Palavras-chave:
Saúde bucal; Capacitação profissional; Avaliação
Abstract
This article aims to analyze the structure of social representations held by facilitators regarding expectations for a training program designed for oral health managers within the Unified Health System (SUS). This is a descriptive, exploratory study utilizing both quantitative and qualitative data; data collection was conducted via a structured form employing the free word association technique, allowing for the identification of the constituent elements of the participants’ social representations. Data was processed using EVOC 2000 software, which organizes terms based on frequency and mean order of evocation, enabling the construction of a four-quadrant matrix and the identification of the social representation’s central core and peripheral systems. The results revealed that facilitators primarily associate the training with learning and professional development, complemented by dimensions such as experience sharing, practice, and growth. The analysis showed that the program was perceived as a space for technical strengthening and collective construction, reaffirming the potential of health education to enhance oral health management and care. It is concluded, therefore, that the initiative served as a venue for professional development capable of informing permanent education policies.
Keywords:
Oral health; Professional training; Evaluation
Introdução
No campo epistemológico, a Saúde Bucal Coletiva (SBC) configura-se como fenômeno sócio-histórico e surge como crítica às práticas mercantilistas e às “Odontologias Alternativas”, correspondendo, também, a um referencial teórico para as políticas e as práticas de saúde bucal no âmbito do SUS. Sua proposta fundamenta-se na intervenção sobre os determinantes sociais, admitindo-se práticas sociais de naturezas distintas, como as técnicas, ideológicas e políticas (Soares et al., 2017).
No contexto das políticas públicas, a saúde bucal tem seu ponto de mudança em 1952, quando o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) implementou os primeiros programas de odontologia sanitária do país (Narvai, 2006). A consolidação desse processo ocorreu com a implementação da Política Nacional de Saúde Bucal, o Programa Brasil Sorridente, que resultou na expansão das Equipes de Saúde Bucal na Estratégia de Saúde da Família (eSF) e estruturou uma rede de atenção especializada, além da ampliação das ações de vigilância em saúde (Lucena; Júnior; Sousa, 2011).
Apesar desses avanços, persiste um hiato entre as diretrizes políticas e a formação profissional em saúde bucal. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) preconizam um egresso generalista, com sensibilidade social e capacidade de aprendizagem contínua. Entretanto, observa-se que a maioria das instituições de ensino mantém suas práticas pedagógicas centradas em modelos tradicionais, com limitações à incorporação nas áreas de gestão e epidemiologia e no desenvolvimento de habilidades para atuar na perspectiva de cuidado integral (Lima; Oliveira; Noro, 2021; Rodrigues; Saliba; Moimaz, 2006).
Por outro lado, a construção socioeconômica do processo de trabalho do cirurgião-dentista (CD) impôs novas formas de inserção profissional. Esse descompasso entre formação e mercado de trabalho pode indicar uma fragilidade na organização dos processos de trabalho em saúde bucal nos serviços públicos, incluindo a dificuldade de integração das equipes de saúde bucal com as demais, ausência de gestão participativa, ocasionando superlotação da agenda, sobrecarga dos profissionais e insatisfação dos usuários (Morita; Haddad; Araújo, 2010; Oliveira et al., 2022).
Nesse sentido, a qualificação de profissionais responsáveis pela gestão desses serviços se torna estratégica para fomentar mudanças necessárias. As ações de Educação Permanente em Saúde (EPS) contribuem para o desenvolvimento de competências para o fortalecimento do trabalho e o enfrentamento dos desafios do cotidiano (Almeida et al., 2016; Freire et al., 2025). Nesse cenário, o Ministério da Saúde, por meio da Coordenação Nacional de Saúde Bucal e em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), oferta uma formação específica para gerentes de serviços ambulatoriais de especialidades em saúde bucal no SUS, com a perspectiva de iniciar uma mudança de paradigma na atuação do dentista no escopo da gestão de serviços de saúde.
Esse modelo de oferta é baseado em um modelo híbrido de mediação pedagógica, no qual o estudante transita por estudo individual e compartilhamento entre facilitadores e demais alunos. Diante disso, o presente estudo objetiva analisar a estrutura das representações sociais de facilitadores acerca das expectativas sobre o processo formativo após a etapa de seleção.
Metodologia
Tipo de estudo e participantes
Trata-se de um estudo descritivo e exploratório, de abordagem quantitativa e qualitativa. A oferta formativa foi planejada para 1.320 vagas destinadas aos gerentes de serviços ambulatoriais especializados de saúde bucal de todo o país e estruturada em seis módulos educacionais, concebidos na modalidade autoinstrucional, com facilitadores de aprendizagem: Políticas de saúde no Brasil e a Política de saúde bucal; Vigilância em saúde bucal; Planejamento, programação, monitoramento e avaliação em saúde bucal; Informação para saúde; e Processo de trabalho em saúde bucal.
Além dos módulos autoinstrucionais, foi estruturada uma comunidade de práticas, na qual os estudantes puderam trocar experiências e participar de aulas síncronas.
O desenho pedagógico foi fundamentado nos princípios da andragogia e da EPS, o que resultou em um modelo flexível e modular. O percurso de aprendizagem incluiu atividades assíncronas e síncronas mediadas e atividades práticas (aplicação imediata dos conceitos através de situações-problema (SP) que simulam os desafios reais da gerência dos serviços), conforme pode ser observado na Figura 1.
Esse modelo exigiu uma estratégia de formação para os facilitadores de aprendizagem do curso.
O processo de seleção dos facilitadores foi realizado previamente pela equipe coordenadora do curso, considerando experiência prévia em saúde bucal coletiva, atuação na gestão de serviços de saúde e experiência em atividades de ensino ou formação profissional. Foram incluídos todos os facilitadores selecionados para atuação no curso e que participaram da etapa formativa inicial.
Foram consideradas, ainda, variáveis de caracterização dos participantes, como gênero (feminino/masculino), formação profissional e experiência na área de saúde bucal, com o objetivo de contextualizar a análise das representações sociais. Nesse contexto, a figura do facilitador foi considerada central para a mediação pedagógica e a dinamização da comunidade de práticas, configurando-se como elemento fundamental no processo formativo.
Coleta e análise de dados
Para captar a percepção subjetiva dos facilitadores acerca do modelo de formação e do suporte pedagógico adotado, os participantes foram convidados a responder a um formulário de expectativas do curso, aplicado após o processo de seleção. O instrumento continha a seguinte questão norteadora, respondida em ordem de evocação: “Responda, em 5 palavras, como essa formação afeta sua atuação profissional?”.
As evocações obtidas foram submetidas à análise estrutural das representações sociais, utilizando-se o software EVOC, versão 2000. O procedimento possibilitou a identificação do núcleo central e dos sistemas periféricos a partir da frequência média e da ordem média de evocação dos termos. Adotou-se, como ponto de corte, a frequência mínima de três ocorrências, com exclusão das evocações de baixa frequência.
Foram consideradas as variações morfológicas dos radicais das palavras, sem a realização de agrupamentos semânticos, com o objetivo de minimizar interferências na distribuição dos dados e preservar a homogeneidade das frequências (Fernandes et al., 2023; Sousa; Tonello; Pinho, 2021).
Entende-se que a técnica de evocação livre pode refletir percepções imediatas dos participantes, podendo não contemplar a totalidade das representações sociais. Além disso, o número de participantes pode limitar a generalização dos resultados, sendo, contudo, adequado ao tipo de análise estrutural proposta.
Este estudo seguiu a Resolução n. 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA), sob o parecer 6.330.816.
A identidade dos participantes foi protegida pelo anonimato e todos tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) digital.
Resultados e Discussão
Os resultados aqui apresentados dialogam com os pressupostos da educação na saúde, que compreende os processos formativos como estratégias de qualificação do trabalho em saúde (Falkenberg et al., 2014).
Entre os participantes, observou-se predominância do gênero feminino (65,5%), seguido do masculino (31,5%). Esse achado converge com o processo de feminilização da força de trabalho em saúde no Brasil, fenômeno que não deve ser compreendido apenas em termos quantitativos, mas também como expressão de transformações nos modelos de cuidado, nas relações de trabalho e nas formas de gestão das profissões da saúde (Wermelinger et al., 2010).
No campo da odontologia, essa tendência se articula com mudanças no padrão de inserção profissional, marcadas pela transição do modelo liberal-autônomo para formas de trabalho assalariadas, especialmente no setor público (Cardoso; Vieira; Machado, 2010). Esse cenário reforça a necessidade de desenvolvimento de competências relacionadas à EPS, especialmente para atuação em processos formativos voltados à qualificação da gestão em saúde bucal.
Essas transformações ajudam a compreender a diversidade observada nas áreas de atuação dos facilitadores. Do total, 40% atuam como docentes do ensino superior, 35% exercem atividades assistenciais na rede pública, 10% ocupam funções de gestão, 5% atuam na docência no ensino técnico, 5% desenvolvem atividades de pesquisa em saúde coletiva e 5% atuam no apoio institucional.
A expressiva presença de facilitadores com inserção simultânea ou complementar na docência e na assistência corrobora a análise de Cardoso, Vieira e Machado (2010), que apontam uma dinâmica profissional diversificada e estratégica no campo da saúde. Essa configuração se mostra particularmente relevante para cursos de formação de gerentes, ao favorecer a articulação entre saberes acadêmicos e práticas do serviço, compondo uma proposta formativa alinhada às necessidades de qualificação da força de trabalho em saúde, conforme destacado por Carvalho et al. (2022).
Representações sociais e expectativa em relação ao curso
Da questão delimitada, o software EVOC® indicou 92 termos evocados, sendo 58 sem repetição, com o ponto de corte definido, o núcleo central foi composto por um único termo e o sistema periférico por 29 termos.
A análise prototípica, realizada a partir da frequência e da ordem média de evocação dos termos, permite compreender a forma como os facilitadores estruturam suas representações sociais acerca da formação ofertada. A identificação do núcleo central assume papel fundamental nesse processo, uma vez que ele corresponde ao elemento mais estável, consensual e resistente à mudança da representação, sendo responsável por conferir sentido e coerência aos demais componentes do sistema representacional (Sá, 1996).
No presente estudo, o núcleo central é composto pelo termo “aprendizado”, que se destacou tanto pela elevada frequência quanto pela evocação precoce. Tal centralidade indica que a formação é percebida prioritariamente como um espaço de desenvolvimento profissional, marcado pela valorização da aquisição de conhecimentos e saberes aplicáveis à prática. Esse achado dialoga com os resultados de Sousa, Tonello e Pinho (2021), que também identificaram o termo “aprendizado” como elemento central em um contexto formativo voltado à atuação na gestão dos serviços de saúde bucal no SUS, reforçando a recorrência desse significado em processos educativos dessa natureza.
Considerando que esta investigação permite delinear aspectos do perfil dos facilitadores, a centralidade atribuída ao “aprendizado” pode ser interpretada como indicativa de uma percepção positiva quanto à eficácia pedagógica da formação, bem como de uma expectativa de qualificação contínua vinculada à prática profissional.
No que se refere aos sistemas periféricos, Wachelke e Wolter (2011) destacam que esses elementos exercem papel fundamental na concretização das representações sociais no cotidiano, ao possibilitar a articulação entre o núcleo central e as experiências vividas pelos sujeitos. Na primeira periferia, encontram-se os termos “compartilhar”, “crescimento” e “prática”, que, apesar de serem evocados de maneira menos imediata, mantêm significativa relevância. Esses achados sugerem que a expectativa de atuar não apenas no desenvolvimento individual, mas também na troca de experiências e na construção coletiva do conhecimento, reforçando o caráter colaborativo e integrador do processo formativo.
Essa configuração representacional orienta a compreensão de um modelo de formação contínua, alinhado aos princípios da EPS, no qual os facilitadores assumem papel ativo na construção do conhecimento, enquanto os momentos de troca e vivência coletiva assumem centralidade, e os conteúdos mais teóricos cumprem uma função de suporte, oferecendo subsídios para a reflexão e qualificação das práticas (Falkenberg et al., 2014).
Nesse sentido, observa-se uma ressignificação do papel da mediação pedagógica, que passa a ser atribuída à figura do facilitador. Diferentemente do tutor em modelos tradicionais de educação a distância, o facilitador deixa de ocupar a posição de detentor exclusivo do saber acadêmico, assumindo a função de mediador de processos coletivos de aprendizagem, ancorados na experiência, no diálogo e na reflexão crítica sobre o trabalho.
A zona de contraste reúne termos como “colaboração”, “contribuição”, “dedicação”, “desafio”, “engajamento”, “formação” e “leveza”. Apesar de menos frequentes, foram lembrados de maneira precoce, sugerindo a presença de subgrupos de participantes que valorizam aspectos mais subjetivos, como motivação pessoal e engajamento, ou percebem o curso como um desafio a ser superado.
Já a segunda periferia abrange palavras como “construção”, “inovação”, “curiosidade”, “empatia”, “experiência”, “gestão”, “humanização”, “integralidade”, “motivação”, “realização”, “rede”, “rigorosidade” e “transformar”. Esses termos, menos frequentes e evocados mais tardiamente, representam dimensões complementares e contextuais da representação social, associadas a valores éticos, à inovação e ao fortalecimento de redes profissionais.
Assim, a análise prototípica revela a percepção da formação como um espaço voltado ao aprendizado e ao crescimento profissional, em que o compartilhamento de experiências surge como aspecto fundamental. Além do núcleo central ligado ao desenvolvimento técnico, destacam-se valores associados à humanização, inovação e gestão, que, embora periféricos, enriquecem a compreensão da experiência formativa. Dessa forma, a estrutura obtida evidencia o potencial da capacitação em promover transformações no âmbito da saúde bucal, conciliando necessidades comuns aos participantes com dimensões mais subjetivas e individuais.
Conclusão
A análise realizada demonstra que a formação destinada a gerentes de Centros de Especialidades Odontológicas constitui uma estratégia relevante para o fortalecimento da saúde bucal no SUS, ao articular aprendizado técnico-científico, desenvolvimento profissional e construção coletiva do conhecimento.
A análise prototípica evidenciou o aprendizado como núcleo central da representação social dos facilitadores, complementado por valores de compartilhamento, colaboração e prática profissional, além de elementos periféricos relacionados a humanização, gestão e inovação.
Esses resultados demonstram a centralidade da educação na saúde como dispositivo estratégico de qualificação do cuidado e de indução de práticas mais integrativas, evidenciando que os facilitadores desempenham papel fundamental na mediação do conhecimento e na consolidação das experiências coletivas.1
Agradecimentos
Agradecemos às instituições que contribuíram para o financiamento deste estudo, bem como a todos os colaboradores diretamente envolvidos na elaboração e execução da pesquisa. Manifestamos também nosso reconhecimento à equipe responsável pela coleta de dados e a todos os participantes que concordaram em integrar o estudo. Agradecemos, de forma especial, à Coordenação-Geral de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, pelo apoio institucional e colaboração no desenvolvimento das atividades formativas que fundamentaram esta pesquisa.
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Fonte: elaboração própria (2026).