Open-access Sofrimento das pessoas em situação de rua em Salvador, Bahia, Brasil e a produção do cuidado em um serviço de saúde

Resumo

O número de pessoas em situação de rua (PSR) no Brasil e mundialmente vem aumentando, em sociedades desiguais e excludentes, levando a demandas crescentes, em serviços de saúde, de pessoas em extremo sofrimento. Este artigo objetiva refletir sobre o sofrimento das PSR, suas repercussões nos/as trabalhadores/as de saúde e no cuidado, num Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas, em Salvador-BA, Brasil. Utilizou-se uma abordagem qualitativa, com orientação cartográfica, realizando encontros individuais, não agendados, com a equipe e usuários do serviço, registradas em Diários Cartográficos, e cinco encontros agendados com a equipe para refletir sobre o cuidado em saúde, que foram gravados e transcritos. A análise envolveu a leitura do material empírico, dialogando com autores que fundamentaram epistemológica e metodologicamente a investigação. Esta aponta para a complexidade do sofrimento das PSR, para além da droga e do transtorno mental, marcado pela exclusão, violências, racismo e humilhação social. Sugere que reconhecer e analisar os efeitos desse sofrimento nos/as trabalhadores/as de saúde e usuários/as contribui para diminuir o distanciamento e cegueira em relação às suas existências, e construir serviços de saúde com condições objetivas de conformar trabalhadores/as de saúde que possam produzir um cuidado mais alinhados às necessidades dessas pessoas.

Palavras-chave:
Pessoas em situação de rua; Centros de Atenção Psicossocial; Angústia psicológica.

Abstract

The number of Homeless People in Brazil and worldwide has been increasing in unequal and exclusionary societies, leading to increasing demands on health services from people in extreme suffering. This article aims to reflect on the suffering of the Homeless people, its repercussions on health workers and care, at a Psychosocial Care Center for Alcohol and Other Drugs, in Salvador, Bahia, Brazil. A qualitative approach with cartographic orientation was employed, involving individual, unscheduled encounters with staff members and service users, which were recorded in Cartographic Diaries, and five scheduled meetings with the staff to reflect on health care practices, which were recorded and transcribed. The analysis comprised reading the empirical material in dialogue with authors who provided the epistemological and methodological foundations of the investigation. The findings point to the complexity of the suffering experienced by homeless people, which goes beyond substance use and mental disorders and is marked by exclusion, violence, racism, and social humiliation. The study suggests that recognizing and analyzing the effects of this suffering on health workers and service users can help reduce distance and blindness toward their existences and support the construction of health services with objective conditions that enable health workers to provide care more closely aligned with the needs of these individuals.

Keywords:
Homeless people; Psychosocial Care Centers; Psychological distress.

Introdução

O número de pessoas em situação de rua (PSR) aumentou progressivamente em todo o mundo. No Brasil, em 2022, cresceu de 38% em relação a 2019 e 211% em relação a 2012; em números absolutos, 281.472 pessoas estão nessa situação (IPEA, 2023).

Na gênese desse cenário, existem sociedades desiguais, com exclusão, violências e fraturas sociais, que levam à fragilização ou ruptura dos mecanismos de pertença social de parte da população: precariedade de moradia, emprego e acesso à renda, insegurança alimentar, baixo acesso à educação e saúde de qualidade. Esse processo modula a produção do desejo e restringe perspectivas para um número crescente de pessoas.

Nesse cenário, carências materiais trazem prejuízos psicológicos, produzindo o habitus precário (Souza, 2012) - indisposição sociopsicológica para frequentar ambientes considerados exitosos; no contexto capitalista, o mercado e a educação. Assim, suas possibilidades de vida, inclusive o estar na rua, envolvem contextos pessoais, familiares e sociais, ausência do Estado e de direitos em uma sociedade desigual (Silva, 2020).

Em muitos territórios, os serviços de saúde, especialmente os que acolhem pessoas mais vulnerabilizadas, como os Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPSad) e os Consultórios na Rua, são raras interfaces entre essas pessoas e o Estado, excluindo as forças policiais/de repressão.

Os CAPSad são serviços de saúde que atendem pessoas em sofrimento psíquico causados pelo uso de crack, álcool e outras drogas, de variadas idades (Brasil, 2011). São pontos estratégicos da rede de atenção elaborada pelo Ministério da Saúde, como uma política de Estado, diante do aumento do consumo de crack e da judicialização da política e da vida, em meio ao proibicionismo; são pensados para funcionar de portas abertas, sem exigir abstinência das drogas, cujo trabalho exige importante plasticidade psíquica e “atletismo” afetivo de suas equipes (Lancetti, 2015).

São serviços nos quais se expressam contradições de uma sociedade predominantemente proibicionista, que criminaliza usuários/as de drogas (ilícitas); onde territórios existenciais encontram-se e intercruzam-se, no olho do furacão antimanicomial (Merhy, 2013), tensões, conflitos, racismos e violências produzem-se; também, onde potências, novas existências e produções de saúde e vida atualizam-se (Oliveira et al., 2022; Cirne et al., 2023; Fraga et al., 2025).

Com o crescimento das PSR nas principais cidades brasileiras, cada vez mais esses serviços têm acolhido as necessidades sociais e de saúde trazidas por essas pessoas, que desafiam as equipes por sua complexidade e multidimensionalidade, convocando a produção de um cuidado ampliado, intersetorial, considerando a multiplicidade das vidas e analisando o “fenômeno das PSR” com contribuições de vários campos de saberes, incluindo as próprias pessoas.

Uma revisão sistemática em 2018 apontou que, no Brasil, há um crescente interesse nos estudos sobre as PSR, com concentração na psicologia (26,13%). Os estudos, assim, categorizam-se: singularidades e diversidades; razões e motivações para a vida nas ruas; diferentes modos de viver e sobreviver em situação de rua; construção social da imagem; interlocuções entre saúde e assistência social; relação com a cidade e os processos de saída das ruas (Sicari et al., 2018).

Esta revisão discute sobre os diferentes modos de viver e sobreviver na rua, trazendo estudos que abordam o estar na rua como forma de criação, aprendizado, resistência, potência, laços afetivos e construção de novas maneiras de viver a cidade (Campos, 2012; Oliveira, 2012; Moura Júnior, 2012; Castiglioni, 2012); e estudos que reforçam o processo de desfiliação (ruptura de vínculos sociais, distanciamento do mercado de trabalho e violações de direitos), de marginalização e opressão (Silva, 2020; Moura Júnior, 2012).

A maioria dos estudos sobre as dificuldades de estar em situação de rua aborda o tema da sobrevivência (Sicari et al., 2018). Alles (2010), Al Alam (2014), Aguiar (2014) e Abreu (2013) colocam que estar em situação de rua produz sofrimento, ligado às dificuldades de sobrevivência física (fome e frio) e relacionado ao preconceito, estigma, desrespeito e violência policial.

O cuidado das PSR provoca uma análise sobre os encontros entre trabalhadores/as de saúde e existências marcadas por vulnerabilidades e violências. Essas marcas geram sofrimentos que precisam ser acolhidos. Em um CAPSad, intensamente acessado pelas PSR, é imprescindível que a produção do sofrimento, como ele afeta os/as trabalhadores/as e a própria produção do cuidado, seja analisada.

Ao buscarmos o termo “Sofrimento” no DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), no site da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), aparece o seguinte: “Sofrimento Fetal”, “Sofrimento Físico”, “Situações de Extremo Sofrimento”, “Sofrimento Emocional”, “Sofrimento Moral” e “Sofrimento Psicológico”. Destes, os que têm alguma relação com o entendimento de sofrimento apontado pelos autores acima são “Sofrimento Emocional” e “Sofrimento Psicológico”. Ao acessá-los, aparece o termo “Angústia Psicológica”. Chegamos, assim, em um descritor que parece conceituar o sofrimento de forma mais ampliada, caracterizado por “estado emocional negativo caracterizado por desconforto físico e/ou emocional, dor ou angústia” (BVS, 2020).

As publicações relacionadas ao sofrimento das PSR com esse enfoque são restritas. Ao pesquisarmos nas bases das principais bibliotecas da área da saúde, como a BVS e Scientific Eletronic Library Online (SciELO), encontramos o seguinte: a) publicações que tratam o conceito de “sofrimento ético-político”, de forma semelhante à discussão neste artigo, como uma produção social e política moduladora das existências (Esmeraldo Filho; Ximenes, 2024); b) que consideram o sofrimento como sinônimo de transtorno mental (Marques et al., 2022; Barros; Peixoto, 2023; Bittencourt, 2021); c) que aborda o sofrimento na dobra entre pesquisador e sujeito da pesquisa, focando nesta (Romanini, 2023); d) que traz a ideia de “sofrimento psicossocial”, dialogando com o objeto deste artigo, mas sem abordar as PSR (Rocha; Falcão, 2023). Quase a totalidade foram publicadas em periódicos da Psicologia; apenas um foi em uma revista da Saúde Coletiva.

Assim, faz-se necessário ampliar a investigação sobre o sofrimento das PSR e suas repercussões no cuidado em saúde; investigações que ampliem o entendimento do sofrimento para além das drogas e do transtorno mental, trazendo para a reflexão aspectos éticos, sociais, políticos e existenciais.

Este artigo objetiva analisar o sofrimento de PSR acompanhadas por um CAPSad localizado no Centro Histórico de Salvador (CHS), Bahia, Brasil, e como ele produz interferências nas relações de cuidado. A investigação que originou este artigo apostou nos encontros com as PSR e com trabalhadores/as do CAPSad, acessado cotidianamente por muitas dessas pessoas. A seguir, apresentamos o território da investigação, o CHS.

O Centro Histórico de Salvador-BA, Brasil: o território da pesquisa

Parte-se de um conceito de “território” vivo, múltiplo, cheio de vidas, relações e sentidos, considerando o espaço geográfico (território usado), como um “território abrigo de todos os homens, de todas as instituições e de todas as organizações” (Santos, 2005, p. 252).

A cidade de Salvador, fundada em 1549 pelos portugueses, é uma das mais antigas das Américas, primeira capital colonial brasileira (1549 a 1763). Ali, estabeleceu-se o primeiro mercado de escravos do “Novo Mundo”, inicialmente para abastecer as plantações de cana-de-açúcar; depois, para a extração de ouro nas Minas Gerais (Portal Educacional, 2024).

O CHS, por muito tempo, foi o centro econômico e cultural da cidade, com importante papel na Bahia e no Brasil. Corresponde “ao núcleo fundador de Salvador, onde, no século XVII, foram construídas as principais edificações da cidade” (Braga; Santos Júnior, 2009, p. 24). Hoje, possui o maior conjunto arquitetônico do período colonial preservado na América Latina (IPHAN, 2024; Espinheira, 2009).

Contrastando com a riqueza arquitetônica, histórica e cultural desse território, afastando-se das ruas principais, veem-se construções precárias e tráfico de drogas. O Pelourinho, que atrai turistas brasileiros e estrangeiros, é marcado pela escravidão dos africanos sequestrados para trabalhar, serem torturados e morrerem nas colônias europeias mundialmente. É um território onde “[...] muitas lágrimas negras rolaram dos rostos infelizes daqueles que foram obrigados a abandonar e a reconstituir, em uma realidade adversa, os referenciais de uma pátria que lhes foi usurpada” (Torreão, 2004, p.154).

Hoje, o CHS é um dos locais de maior concentração de PSR de Salvador, no qual desenvolvem as mais diversas atividades de trabalho informal e precário (Carvalho, 2016).

O CAPSad, localizado nas dependências da Faculdade de Medicina da Bahia (FMB), Universidade Federal da Bahia, até o início de 2021, foi inaugurado em 2012; por 12 anos, funcionou em parceria entre a FMB e a Secretaria Estadual de Saúde da Bahia. Desde 2024, a gestão do serviço passou para a Escola de Enfermagem. Possui uma equipe multiprofissional, com atuação territorializada, composta por psicólogos, psiquiatra, terapeuta ocupacional, oficineiros, enfermeiro, redutores/as de danos e profissional de educação física. Desenvolve atividades ambulatoriais e coletivas (grupos de medicamentos, alcoolismo, apoio a familiares e oficinas diversas), além de atividades territoriais (visitas a usuários/as).

É nesse território, marcado pela escravidão, desigualdade e vulnerabilização das pessoas que nele moram e trabalham, mas também por uma cultura riquíssima e muita produção de vida, potências e resistências, que foi construído o campo da pesquisa que originou este artigo.

Percurso metodológico

Este trabalho considera que a cultura, o período histórico, o território, as relações e as experiências dos sujeitos produtores de práticas sociais atravessam o processo, em ato, da produção do conhecimento. Metodologicamente, aposta que essa produção acontece nos encontros, na relação com os espaços de construção da vida. A experiência é aqui considerada a partir de variadas ofertas conceituais (Foucault, 2010; Deleuze, 2017; Abrahão et al., 2013; Pelbart, 2017; Maturana, 2001), construída quando o pesquisador se relaciona, afeta-se pelo mundo e transforma-se, construindo novas formas de sentir, pensar e agir.

Trata-se de um estudo qualitativo, com orientação cartográfica, oriundo da pesquisa de doutorado de um dos autores, que procurou acompanhar a construção e desconstrução de territórios existenciais, micropoliticamente fabricados, e que podem ser cartografados (Rolnik, 2016).

As seguintes questões presidiram o estudo: como são produzidos os sofrimentos das PSR atendidas no CAPSad? Como esses sofrimentos reverberam nos/as trabalhadores/as e na produção do cuidado? A partir do material empírico e da experiência de sua produção, dialogou-se com a literatura, procurando-se avançar numa perspectiva crítico-analítica, que possibilitasse “olhar” para o cuidado com as PSR como práticas sociais imanentes ao pesquisador afetado nesses encontros, também frutos de sua experiência, não externas a ele.

Para isso, os encontros com as PSR usuárias e com os/as trabalhadores/as do CAPSad foram tomados como dispositivos de produção do campo e dados da pesquisa, entre 2017 e 2019.

Esses encontros dividiram-se em dois tipos: a) com trabalhadores/as e usuários/as, entre 2017 e 2018, quando um dos autores trabalhou como médico do serviço; encontros não programados, ocorridos no cotidiano do serviço, atravessados pelo lugar que ocupava na equipe; b) com trabalhadores/as e usuários/as, ocorridos no primeiro semestre de 2019, quando o pesquisador já não atuava no serviço; realizou visitas semanais ao CAPSad, para acompanhar, por um ou dois turnos previamente acordados, atividades variadas como consultas, acolhimentos, visitas ao campo para busca ativa e interações aleatórias no pátio.

Nos dois períodos, fizeram-se 25 registros nos Diários Cartográficos-DC (EPS em Movimento, 2019), nos quais foram registradas/elaboradas situações vividas pelo autor que o afetaram e produziram transformação, novas formas de compreender as relações com as PSR e a produção do cuidado: novas experiências.

No segundo semestre de 2019, ocorreram cinco encontros programados com trabalhadores/as da equipe, um por mês, para discutir/refletir sobre situações registradas nos DC, escolhidas por trazerem temas recorrentes no serviço. Nesses encontros, todos agendados antecipadamente, de acordo com a disponibilidade da equipe, participaram os/as trabalhadores/as presentes no serviço no dia, numa média de 10 pessoas por encontro. A discussão do primeiro encontro foi gravada, transcrita e enviada previamente para a equipe, antes do próximo encontro; solicitou-se que escolhessem trechos para servirem como disparadores da conversa do encontro seguinte e assim por diante. Todo o material oriundo dos DC e discussões ocorridas nos encontros com os/as trabalhadores/as formaram o corpus empírico da pesquisa.

Ao trazer para o campo de análise as experiências produzidas nos encontros com as PSR e suas reverberações na produção do cuidado, esta foi invadida por existências que se produzem em conexão com a rua (Oliveira et al., 2023), contribuindo para “fazer aparecer os processos próprios de uma experiência em que o sujeito e o objeto se formam e se transformam um em relação ao outro e em função do outro” (Foucault, 2004, p. 631).

O processo analítico ocorreu a partir de uma leitura intensiva e extensiva do material empírico, ancorando-se nos/as autores/as que embasaram epistemologicamente e metodologicamente essa investigação (Foucault, 2010; Deleuze, 2017; Pelbart, 2017; Rolnik, 2017), em diálogo com autores/as que estudam os temas.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Paulo, conforme processo de número 91996918.3.0000.5505 (Certificado de Apresentação de Apreciação Ética-CAAE), através do parecer consubstanciado de número 2.906.748. Na construção do campo da pesquisa, tomou-se cuidado com a confidencialidade, preservação da identidade e respeito à intimidade dos sujeitos, considerando-se as assimetrias nas relações de poder.

Sofrimento das pessoas em situação de rua e a necessidade de enxergá-lo para além das drogas e do transtorno mental

O usuário coloca que as pessoas acompanhadas pelo CAPSad não são normais. Que passavam coisas na cabeça dele que não eram certas [...], que ele nem sabia colocar em palavras. Ele acha que toda a negação de direitos que sofreu na vida causava sofrimento e adoecia; que precisava lidar com isso, tentando crescer, adaptando-se, transformando-se (DC, 4 de fevereiro de 2019).

Esse trecho dos DC, vocaliza um sofrimento profundo e intenso, ligado à negação de direitos durante uma vida. Esse homem, um jovem negro, um dos usuários mais antigos do serviço, em situação de rua e uso problemático de drogas (álcool e crack), é acompanhado pelo CAPSad há anos. O uso de drogas, apesar de atravessar sua vida e produzir sofrimento, em uma sociedade que estigmatiza e marginaliza os/as “drogados/as”, é apenas uma das camadas desse sofrimento.

Um sofrimento que se expressa rotineiramente como demandas para as equipes dos CAPSad Brasil afora, especialmente quando se trata de pessoas em extrema vulnerabilidade. As violências estruturais, alicerces da sociedade neoliberal contemporânea, aprofundam sua exclusão. Têm, para muitas delas, uma relação visceral com a ida e permanência na rua, com a existência nesse território, com a relação com as drogas lícitas e ilícitas, com a movimentação de atores públicos ou privados conectados com a produção dessas violências, gerando e intensificando sofrimentos, desigualdades e exclusão. Uma forma de governar as vidas através da precariedade que destrói e modula perspectivas e sonhos (Lorey, 2018).

Outro trecho dos DC traz a história de um jovem negro em situação de rua:

Ele precisou vir para aquele território porque, onde morava, seria assassinado por uma das facções dominantes do tráfico ou pela polícia; explicou que, por ter protestado contra o assassinato de um amigo por policiais, um destes sussurrou: “você vai morrer!” Disse que, nesse bairro, os policiais, muitas vezes, matam a pessoa e plantam a droga no local para justificar o assassinato (DC, 07 de janeiro de 2019).

Ele expressa um sofrimento produzido pelo exercício do necropoder, “formas contemporâneas de submissão da vida ao poder da morte” (Mbembe, 2018, p. 71) e de governar as vidas através das políticas de morte. Em um contexto que se morre por ser jovem, periférico e preto, no qual assassinatos são naturalizados e quase não são sentidos por parte da população, prepondera a ausência de empatia, fruto da identificação narcísica da branquitude (Müller; Cardoso, 2017; Ribeiro, 2019). No senso comum, as pessoas assassinadas são justamente a ameaça: perigosas, marginais, drogadas; se morreram, é porque estavam envolvidas com o crime, tráfico ou uso de drogas e “mereceram” esse destino que já estava traçado.

Em outro trecho dos DC, está descrito um episódio no qual um dos usuários, negro, agrediu uma funcionária da Faculdade de Medicina:

Ao ser questionado (sobre a agressão), colocou que ele e outros usuários estavam na frente da faculdade antes de abrir as portas, desejando ir ao CAPSad. Os seguranças não permitiram; quando a secretária chegou, ela pôde entrar. Instantes após, abriu as portas e, sem se dirigir ou dialogar com eles, permitiu que os cachorros entrassem. Nesse momento, ele a agrediu [...]. A frase que ele repetia: “Até os cachorros valem mais do que eu?!!” Para quem o conhece um pouco, sabe que esse tipo situação frequentemente desencadeia crises nele; a sensação/percepção de que está sendo descriminado produz muita revolta e indignação e ele sofre com isso. Eu mesmo já ouvi ele contando situações na qual pessoas atravessaram a rua para não terem que cruzar com ele, achando que ele ia assaltá-las; ou saírem de um ponto de ônibus no momento em que ele chegou. Esse episódio foi bem significativo para mim! Já presenciei ele se cortando, se furando com cacos de vidro ou agulhas e dizendo: “faço isso em mim para não precisar fazer nos outros”. Já vi ele ameaçando agredir colegas de equipe e eu mesmo, mas nunca o vi chegar as vias de fato. (DC, 14 de fevereiro de 2018).

Uma violência simbólica que o lembra que, nessa sociedade, sua vida vale pouco, às vezes, menos que a de um cachorro; uma autoviolência percebida como necessária, que escancara o pouco valor dessa vida: uma vida nua (Agamben, 2002; Pelbart, 2016). Sofrimentos que gritam sem serem ouvidos. Esse pedido de ajuda de um homem negro, no CAPSad, que se autoviolenta para poder “falar” de sua dor, em uma linguagem marcada em seu próprio corpo, pede uma escuta que precisa se deslocar do instituído e do racismo, que leva ao não reconhecimento do Outro, de suas perspectivas, de seus sofrimentos, mesmo nos serviços de saúde.

Os racismos estrutural, institucional e individual são estratégias atuais de produzir exclusão, violências e morte, legitimando a ideia de quais corpos podem ou não ser eliminados, quais vidas importam e quais não importam. O racismo institucional desempenhado historicamente pelo Estado brasileiro constrói essa seletividade a partir da fabricação da imagem do negro como delinquente (Almeida, 2019; Lancetti, 2015; Moço, 2018).

A construção da precariedade e vulnerabilidades pelo neoliberalismo, associada às mortes simbólicas e físicas características do necropoder, à coisificação e invisibilidade dos corpos pretos, pobres e periféricos (ou visibilidade seletiva), levam a um sofrimento crônico, intenso e cotidiano. Um mal-estar intenso e difuso, expressão do sofrimento social, “uma noção política (...)indispensável para descrever todos os aspectos da injustiça contemporânea” (Tradução nossa) (Renault, 2010, p.221).

Neste sentido,

O neoliberalismo também é caracterizado por um processo geral de exclusão social onde as dimensões sociais e psicológicas estão novamente entrelaçadas. Para aqueles que são vítimas de desemprego de longa duração, por exemplo, os sentimentos de vergonha e os efeitos depressivos são consequências de uma situação social, bem como fatores que agravam a sua situação (Tradução nossa) (Renault, 2010, p. 224).

Encontros como o relatado a seguir afetaram-nos intensamente, produzindo deslocamentos no sentido de entendermos melhor o sofrimento acolhido pela equipe:

Enquanto conversava com um usuário do CAPSad no pátio do serviço, um homem negro e engajado no movimento das PSR, ele colocou, indignado, que a escravidão não havia acabado! Que só mudou a forma; que a democracia é para os destruir! É para poucos! Que o pessoal bota muita desculpa nas drogas, mas essas coisas vêm antes das drogas e elas só exacerbam as coisas que já estavam lá! (DC, 07 de janeiro de 2019).

A partir desses encontros, procurou-se produzir lentes para olhar o sofrimento das PSR. Encontros com o sofrimento experienciado singularmente, mas produzido socialmente, marcado pela maneira como a miséria, exclusão, racismo, entre outros, expressam-se nessas vidas e conformam existências dentro de certos limites de liberdade e escolha. Encontro com pessoas que chegam ao CAPSad, muitas vezes, em crise, agitadas, marcando suas presenças através da violência; frequentemente, sob efeito de drogas ou com transtornos mentais também precipitados ou agravados pelo uso.

No entanto, na gênese dessas crises, e como consequência delas, existem sofrimentos que, em hipótese alguma, como apontado no relato dos DC, poderiam ser compreendidos pela ótica apenas do uso de drogas e do transtorno mental; são compostos por camadas mais profundas, que travessam tanto os corpos biológicos como os “corpos sem órgãos” (plano de produção e expressão do desejo), deixando marcas, afetando e produzindo abalos constantes nesses territórios existenciais (Deleuze; Guattari, 2004; Rolnik, 2016).

Para construir essas lentes, dialogamos com o conceito de sofrimento social (Renault, 2010), articulada com o sofrimento ético-político (Sawaia, 2002) e a humilhação social e política (Gonçalves Filho, 2007). Nesta perspectiva, “o mal-estar não pode ser observado e explicado independentemente das dinâmicas sociais e dos interesses políticos e econômicos que o constroem, reconhecem e nomeiam” (Pussetti; Brazzabeni, 2011, p. 468), imbricados em um contexto local de relações de poder.

O sofrimento social implicaria em “dores profundas, às vezes, indizíveis”, que atravessam muitas PSR e é:

[...] o resultado dos danos consequentes a contextos de desigualdades sociais e pobreza extrema, das violências e relações sociais injustas; é uma força avassaladora que atinge o humano e sua subjetividade, causando profundas dores e marcas corporais que não deixam silenciar o que, muitas vezes, é indizível para aquele que sofre. É uma experiência eminentemente social [...] consequente às situações cotidianas de violência vivenciadas por determinados grupos sociais que não têm poder para negociar sequer as condições da própria existência (Von Flach, 2019, p.31).

O sofrimento social “resulta de uma violência cometida pela própria estrutura social e não por um indivíduo ou grupo que dela faz parte: o conceito refere-se aos efeitos nocivos das relações desiguais de poder que caracterizam a organização social” (Pussetti; Brazzabeni, 2011, p. 469). Por ser causado pela exclusão, mediado pelas injustiças sociais, e estar submetido à fome e à opressão, é um sofrimento ético-político, que “pode não ser sentido como dor por todos” (Sawaia, 2002, p. 102). Um sofrimento que grita sem ser ouvido e

[...] abrange as múltiplas afecções do corpo e da alma que mutilam a vida de diferentes formas(...). Portanto, [...] retrata a vivência cotidiana das questões sociais dominantes em cada época histórica, especialmente a dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade. Ele revela a tonalidade ética da vivência cotidiana da desigualdade social, da negação imposta socialmente às possibilidades da maioria apropriar-se da produção material, cultural e social de sua época, de se movimentar no espaço público e de expressar desejo e afeto (Sawaia, 2002, p. 104-105)

Nesta mesma perspectiva, o conceito de humilhação social e política amplia o olhar sobre a exclusão para além da perspectiva econômica, apontando que a igualdade implica a dissolução da dominação e não das diferenças culturais ou econômicas (Gonçalves Filho, 2007).

A humilhação social, assim, seria o

[...] sofrimento longamente aturado e ruminado. É sofrimento ancestral e repetido. Um sofrimento que, no caso brasileiro e várias gerações atrás, começou por golpes de espoliação e servidão [...]. Índios expostos à violação da terra e negros desterrados expostos ao racismo. [...] Cidadãos pobres expostos a emprego proletário, ao desemprego e à indigência. [...]. A violência que machuca o humilhado nunca é meramente a dor de um indivíduo [...]. A dor sempre de longa duração, coletivamente padecida. O humilhado não sabe bem por que chora e nunca chora apenas por si próprio, chora a dor enigmática e chora a dor somada (Gonçalves Filho, 2007, p. 194-195).

São essas as dores profundas, socialmente produzidas, que chegam ao CAPSad e que, apesar de serem experiências singulares de cada PSR, não são individuais; acontecem atualmente, mas são ancestrais, pois carregam história de uma humilhação social e política que marcam gerações das parcelas mais oprimidas da sociedade.

O Brasil é um país extremamente desigual. Os privilégios no acesso à Universidade, ainda muito elitizada, aprofundam os abismos sociais e as relações de poder desiguais. Um campo fértil para o poder/saber médico e psiquiátrico produzir anormais, inclusive, “anormais do desejo”, estigmatizar e excluir (Merhy, 2012).

Considerando que esse sofrimento não necessariamente é sentido como dor por todos (Sawaia, 2002), questionamos: como o sofrimento das PSR afeta os/as trabalhadores/as de saúde, já que é estranho a eles/elas e, de maneira geral, não faz parte de suas (nossas) experiências/existências? De que forma interferem no cuidado?

Efeitos do sofrimento das PSR nos/as trabalhadores de saúde e na produção do cuidado

[...] ele falou que os trabalhadores não entendem o que é estar na rua; deviam ser preparados para lidar com as crises dos usuários, pois, quem tinha problemas com drogas e moravam na rua eram eles e estavam ali para serem cuidados; não nós, trabalhadores, que tínhamos dinheiro, acesso a comida e moradia [...] (DC, 28 de setembro de 2017).

Iniciamos com essa fala-análise de um usuário que nos convida a nos colocarmos em análise e refletir sobre a forma que acolhemos as PSR e o tipo de cuidado que conseguimos produzir.

O trecho abaixo relata uma cena corriqueira no serviço aponta para essa exclusão, para uma interdição produzida nas relações, no detalhe, na delicadeza (ou desvio) de um olhar. O não reconhecimento da vida de qualquer pessoa como potente e merecedora de respeito já é uma violência; quando esse não reconhecimento vem explicitamente na forma de violência institucional e simbólica, termina gerando mais revolta, ódio e sofrimento, sentimentos que, frequentemente, tornam-se visíveis através de mais violência (Oliveira et al., 2022).

Um usuário, na assembleia, disse [...] que alguns trabalhadores não se conectavam com os usuários, passavam direto sem olhar, sem dar bom dia, só falando com eles para pedir para não usar as drogas; não procuravam saber como foi a noite, se estavam bem, não se conectavam. [...] faltava vínculo, conversa, chegar junto, não para fiscalizar o uso de drogas e impor a regra, mas para ouvir (DC, 28 de setembro de 2017).

Sentimentos como o deste relato, produzidos na relação entre equipe e usuários, abalam a confiança, impossibilitam a construção de um bom vínculo, diminuem a potência vital desse Outro que busca cuidado. Um sofrimento revivido na relação com trabalhadores/as de saúde em um serviço com função social de assistir essas pessoas, garantindo os seus direitos de cidadania; ao não ser enxergado para além da droga, ao se perceber como um corpo que autoriza o/a trabalhador/a exercer uma postura policialesca, de recriminação pelo uso da droga e imposição do não uso, o sofrimento social e ético-político se atualiza nesse corpo, reforçando o lugar de inferioridade, de menor valor. Uma cena que mostra, sutilmente, uma faceta da necropolítica, que aprofunda as iniquidades e leva à “morte a conta-gotas”.

Para essas pessoas que nascem com a morte grudada no corpo (Von Flach, 2019), reduzir a desigualdade extrapola o acesso físico aos serviços de saúde. O racismo estrutural e o Estado necropolítico continuam a se expressar de forma violenta nos corpos dos/as matáveis e “morríveis”. A morte continua grudada a seus corpos. Na atenção básica, por exemplo, estudos mostram arranjos onde, para serem atendidas, é necessário que as PSR “se comportem adequadamente” (Sá Dultra, 2018). Se assim não for, o acesso a qualquer direito está barrado.

Os encontros com a equipe do CAPSad possibilitaram que os/as trabalhadores/as trouxessem suas angústias em relação ao cuidado das PSR. Um cuidado tão delicado, artesanal, complexo e difícil, que lida com situações tão extremas, dramáticas, de vidas que, apesar de potentes, estão cada vez mais sofridas, violentadas e adoecidas; que trazem demandas que extrapolam o campo da saúde, mas que são canalizadas para a saúde pela enorme capilaridade do Sistema Único de Saúde, pela sua extensa superfície de contato com as pessoas vulnerabilizadas. O trecho abaixo nos fez refletir sobre esse cenário:

A equipe tenta dar conta de todas as demandas que o usuário traz para o serviço, quando não deveríamos, né? [...] Às vezes, a angústia que o usuário traz também é nossa angústia! É a angústia de não poder resolver tudo para aquele indivíduo [...] A gente querer dar conta de tudo para aquela pessoa, quando a gente não é isso tudo, e não tem como ser isso tudo. Então, é, também, aí um disparador de sofrimento, para eles e para a gente! Para eles, pela decepção e pela angústia de não resolver tudo aqui dentro[...] (Primeiro encontro com a equipe do CAPSad, 11 de julho de 2019).

Esses encontros também são permeados pelas expectativas sociais em relação ao serviço, que se atualiza nas formas dos/as trabalhadores/as de saúde entenderem seu papel. Leva, frequentemente, à construção de um devir salvacionista no cuidado, mas, também, colonial (por trazer a perspectiva de “resolver” a vida do Outro de acordo com perspectivas alheias a ele), devir colonial-salvacionista (Oliveira, 2021). Esse devir pode manifestar-se como violência institucional e simbólica, mais revolta, ódio e sofrimento, e tornar-se visíveis através de mais violência, em um ciclo interminável (Oliveira et al., 2022).

Esse sentimento é a expressão, também, de uma violência construída pelo lugar de privilégio dos/as trabalhadores/as de saúde, pois “a posição social do privilégio vem marcada pela violência, mesmo que determinado sujeito não seja deliberadamente violento” (Ribeiro, 2019, p.33), e por uma relação de poder bastante assimétrica estabelecida com as PSR, legitimada social e politicamente pelas universidades, demarcado pela classe social da qual fazem parte (Akotirene, 2019).

A pesquisa colocou em análise um descompasso entre o que as PSR demandam para a equipe e o que ela pode e/ou consegue produzir/ofertar. Reconhecer esse conflito e perceber-se movido por esse devir colonial-salvacionista, associado à sua não superação, também gera sofrimento e angústia no/a trabalhador/a, que tem dificuldade de produzir o cuidado de outros jeitos.

Aprofundar o desenho de estratégias que ajudem a superar esse desafio pede um olhar para os sofrimentos que atravessam as PSR, que considere o sofrimento reproduzido e aprofundado na relação com as equipes de saúde, em cada serviço; também pede um olhar para o que é construído como respostas às necessidades sociais de saúde expressas nestes encontros. Uma construção que vai além da postura ou esforço individual de cada trabalhador/a.

Considerações finais

Não é simples os/as trabalhadores/as de saúde “enxergarem” os sofrimentos das PSR com lentes diferentes das hegemônicas, tão arraigadas no saber/poder instituído nas práticas de saúde: o atravessamento das drogas e do transtorno/doença mental. É desafiador perceberem seu papel na produção e reprodução desse sofrimento e da violência que permeiam essas vidas.

O exercício crítico-analítico a partir dos referenciais do sofrimento social, sofrimento ético-político e da humilhação social e política procurou, ao mesmo tempo, analisar e refletir sobre a produção dos sofrimentos das PSR acolhidas num CAPSad e como esses sofrimentos reverberam nos/as trabalhadores/as de saúde e na produção do cuidado.

Reconhecer e analisar os efeitos desses atravessamentos nos (nossos) corpos de trabalhadores/as de saúde e nos/as usuários/as ajudou a visibilizar sua produção nos encontros e contribuiu para diminuir o distanciamento e a “cegueira” em relação ao sofrimento das PSR, nos fazendo avançar na produção de um “entre”.

Um movimento que possibilita não tomarmos as necessidades das PSR, nos serviços de saúde, a partir de perspectivas alheias às suas existências, às violências e opressões que vivem cotidianamente; a não as analisar por uma perspectiva representacional, asséptica e moral; a produzirmos outros devires, diferentes do colonial-salvacionista. Ajuda a construirmos um “comum”, em uma dobra “sofrimento das PSR-efeitos desse sofrimento nos corpos (também nossos) de trabalhadores/as de saúde”, exercitando jogar nossos corpos no mundo e nos deixarmos atravessar por esses Outros (Merhy, 2004).

Faz um convite para produzirmos outras lentes e perspectivas; para encontros que nos permitam ser afetados pelo Outro e, numa espécie de efeito bumerangue, também passarmos a habitar esse Outro de forma diferente (Pelbart, 2014). Um convite para a construção de serviços de saúde com condições objetivas de conformar trabalhadores/as de saúde que se afetem com as iniquidades, violências e diferenças que atravessam as pessoas com quem se relacionam, no registro da potência e criatividade na produção do cuidado em saúde como produção de mais vida.

Agradecimentos

Agradecemos a todos(as) as pessoas em situação de rua do Centro Histórico de Salvador e aos(às) trabalhadores(as) dos serviços que participam na produção do cuidado e da produção de mais vida com essas pessoas, cotidianamente, nesse território.

  • Pareceristas:
    Ana Machado e Beatriz Brandão
  • Todos os dados da pesquisa estão disponíveis neste texto.

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  • Editor responsável:
    Martinho Silva

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Jan 2025
  • Revisado
    28 Set 2025
  • Aceito
    11 Nov 2025
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