Open-access Falar com sotaque: identidade e alteridade em contextos migratórios de brasileiros(as) na Alemanha

Speaking with an Accent: Identity and Otherness in the Migratory Contexts of Brazilians in Germany

Resumo

Este artigo apresenta uma investigação em andamento sobre as percepções de brasileiros(as) sobre a recepção de seus sotaques ao falar alemão, tomando como foco profissionais de enfermagem que migraram para a Alemanha na última década. A partir dos aportes da sociolinguística de contato e da glotopolítica, o estudo analisa o sotaque como fenômeno social e simbólico que articula língua, identidade e poder. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa e interpretativa, fundamentada em entrevistas semiestruturadas e na análise temática de relatos de experiência. Com base em autores como Selinker, Labov, Bourdieu, Revuz, Blanchet e Paviani, o trabalho discute como a diferença sonora é percebida e avaliada socialmente, revelando ambivalências entre estigmatização e reconhecimento. Os resultados indicam que o sotaque funciona, simultaneamente, como marca de pertencimento e como possível fonte de discriminação, influenciando processos de integração e autoimagem dos(as) falantes. Ao compreender o sotaque como lugar de escuta e reconhecimento, o estudo propõe uma reflexão sobre o papel ético da escuta na convivência intercultural, defendendo que a valorização da diversidade linguística é condição para uma educação linguística mais justa e inclusiva.

Palavras-chave
sotaque; identidade; migração; glotopolítica; percepção linguística

Abstract

This article presents an ongoing investigation about how Brazilian migrants perceive the reception of their accents when speaking German, focusing on nursing professionals who have moved to Germany over the past decade. Drawing on sociolinguistics of contact and glottopolitical studies, the research examines accent as a social and symbolic phenomenon that intertwines language, identity, and power. Methodologically, the study adopts a qualitative and interpretive approach, based on semi-structured interviews and thematic analysis of personal narratives. Building on authors such as Selinker, Labov, Bourdieu, Revuz, Blanchet, and Paviani, it discusses how phonetic difference is socially perceived and evaluated, exposing the ambivalence between stigmatization and recognition. The findings indicate that accent functions simultaneously as a marker of belonging and a potential source of discrimination, influencing processes of integration and self-perception among speakers. By conceiving accent as a site of listening and recognition, the study advances an ethical reflection on the act of listening in intercultural interactions, arguing that the appreciation of linguistic diversity is essential for a more just and inclusive language education.

Keywords
accent; identity; migration; glottopolitics; language perception

1 Introdução

Em um mundo cada vez mais globalizado, no qual mobilidade e migração se tornaram experiências comuns, fronteiras nacionais e linguísticas tornam-se porosas e sujeitos em trânsito passam a habitar zonas de contato onde diferentes repertórios linguísticos coexistem, interagem e se transformam mutuamente. Nas relações que surgem desse contato, as questões linguísticas assumem um papel central: falar passa a significar, de forma profunda, situar-se no mundo, afirmar pertencimentos e negociar reconhecimentos.

A língua, longe de ser um simples instrumento neutro de comunicação, é um espaço simbólico no qual se inscrevem histórias pessoais e coletivas. Cada escolha lexical, cada entonação e cada traço de pronúncia carrega marcas de trajetórias sociais, afetivas, culturais. Quando um indivíduo aprende e usa uma nova língua, ele pode carregar consigo sons, ritmos e modos de dizer que revelam sua língua materna, sua origem, sua história e suas formas de estar no mundo. É nesse cruzamento que o sotaque emerge como uma das manifestações mais visíveis da heterogeneidade linguística contemporânea.

Os sotaques, ao evidenciarem a presença do outro na língua, despertam reações complexas. São, ao mesmo tempo, índices de identidade e gatilhos de julgamento. Basta pensar em situações cotidianas: um estrangeiro que fala “com sotaque” pode ser percebido como simpático ou exótico, mas também como menos competente. Essas avaliações, muitas vezes inconscientes, revelam o quanto a fala é um marcador de pertencimento social. Ao ouvirmos alguém falar, não captamos apenas o conteúdo de suas palavras, mas também inferimos origens, trajetórias e até supostas competências. O sotaque, portanto, torna-se uma marca identitária.

Longe de ser um detalhe marginal ou um erro a ser corrigido, o sotaque expressa a tensão entre diversidade e norma. Ele evidencia que a língua é um mosaico de vozes e que a busca por uma pronúncia pura, idealizada, homogênea, sem marcas (cf. Brum e Bolacio Filho, 2025) é, em si mesma, uma construção cultural e ideológica. O sotaque denuncia o mito da “língua perfeita” e nos lembra que falar é sempre um ato situado, resultado de um encontro entre sujeitos e histórias. Reconhecer isso é reconhecer que cada variação de pronúncia carrega não apenas sons, mas mundos.

Por isso, estudar o sotaque é também investigar as formas pelas quais as sociedades definem quem pertence ou não a elas. É observar como a diferença linguística é percebida para ser então acolhida ou rejeitada. E é compreender que, em tempos de intensa circulação de pessoas, línguas e culturas, refletir sobre o sotaque é refletir sobre as fronteiras nem sempre visíveis da inclusão e da alteridade.

Nesse cenário em que as fronteiras linguísticas se tornam permeáveis e os sotaques se revelam como marcas da pluralidade humana, torna-se imprescindível observar como diferentes comunidades linguísticas lidam com essa diversidade sonora. Se em algumas línguas a variação pode ser reconhecida como parte constitutiva de seu funcionamento social, em outras, a norma ainda exerce um peso considerável, delimitando o que é legítimo ou correto. O caso da língua alemã ilustra de maneira exemplar essa tensão entre diversidade e padronização, entre a multiplicidade de vozes e o ideal de uniformidade.

O alemão, outrora concebido como um sistema linguístico homogêneo e rigidamente normatizado, tem sido progressivamente compreendido como uma língua pluricêntrica, isto é, uma língua que se manifesta em múltiplas formas legítimas, distribuídas entre diferentes espaços nacionais e regionais (Savedra e Meirelles, 2020; Voerkel e Huang, 2020). Cada uma dessas variedades traz consigo especificidades lexicais, sintáticas e fonéticas que refletem contextos históricos, sociais e culturais distintos. Esse reconhecimento amplia as fronteiras do aceitável, permitindo compreender o alemão não como um bloco monolítico, mas como um campo dinâmico de negociações identitárias e normativas.

Entretanto, essa abertura teórica nem sempre se traduz em práticas sociais inclusivas. Persistem fortes tendências de padronização e uma contínua valorização do chamado Hochdeutsch (alto-alemão) ou Standarddeutsch (alemão-padrão), associado ao norte da Alemanha e às elites educadas como modelo de referência e, muitas vezes, como medida de competência linguística. O prestígio desse ideal de fala cria, para quem aprende alemão como língua estrangeira, uma tensão constante entre o desejo de pertencimento e a sensação de inadequação. O sotaque estrangeiro, nesse contexto, é frequentemente percebido como uma marca de diferença que precisa ser corrigida ou superada.

Para aprendizes, especialmente aqueles que passam a viver e trabalhar em países germanófonos, essa expectativa de neutralização da própria voz pode gerar uma insegurança linguística, um sentimento de inferioridade ou autocensura diante da norma idealizada. Não raramente isso se manifesta em situações cotidianas: o medo de falar por receio de ser corrigido, a evitação de interações mais complexas, a tentativa de imitar padrões nativos de pronúncia a qualquer custo. Essas práticas, ainda que motivadas pelo desejo de integração, revelam o poder simbólico das normas linguísticas e o quanto elas podem se converter em instrumentos de exclusão.

O caso dos(as) brasileiros(as) lusófonos(as) que aprendem alemão como língua estrangeira ganha particular relevância. Ao atravessar a fronteira linguística, esses sujeitos levam consigo as sonoridades do português brasileiro (vogais abertas, ritmo silábico, entonações melodiosas), que se inscrevem de modo audível em sua fala alemã. Tais traços tornam-se objeto de interpretações diversas: ora podem despertar simpatia e curiosidade, ora suscitar estranhamento ou julgamento. Em interações cotidianas, essas percepções extrapolam o plano estritamente linguístico e podem afetar dimensões concretas da vida social, desde o modo como o(a) falante é recebido(a) em um ambiente de trabalho até sua própria construção de identidade e pertencimento.

Essas reflexões tornam particularmente relevante investigar como os sotaques são percebidos, interpretados e avaliados em situações reais de contato linguístico. Se o sotaque evidencia o encontro entre línguas e trajetórias pessoais, ele também revela os limites simbólicos do pertencimento em sociedades que, embora multiculturais, ainda hierarquizam modos de falar. É nesse ponto de convergência entre a dimensão social e a dimensão subjetiva da linguagem que se insere o presente estudo.

O objetivo desta pesquisa é compreender como brasileiros(as) lusófonos(as) percebem a recepção de seus sotaques em alemão – isto é, como vivenciam o modo como sua fala é ouvida, interpretada e julgada por falantes nativos(as) e por instituições. A escolha desse foco parte da constatação de que, na migração contemporânea, a língua é um dos primeiros espaços em que se negocia reconhecimento. Falar “com sotaque” não é apenas pronunciar de outro modo, é expor-se à escuta do outro e, muitas vezes, enfrentar os estereótipos e as expectativas que se projetam sobre a fala.

Para tornar essa discussão empiricamente concreta, o estudo concentra-se em um grupo específico: profissionais brasileiros(as) de enfermagem que migraram para a Alemanha nos últimos dez anos. Essa escolha não é fortuita. A enfermagem representa um campo de trabalho intensamente atravessado por interações linguísticas e afetivas, no qual a comunicação não se restringe à transmissão de informações técnicas, mas envolve escuta, empatia e negociação intercultural. Nesse contexto, o sotaque pode adquirir significados múltiplos: pode ser interpretado como traço de simpatia e humanidade, mas também como indício de inexperiência ou falta de competência profissional. Ao investigar as percepções e experiências desses(as) profissionais, buscamos compreender de que modo as marcas fonéticas associadas ao português brasileiro são socialmente significadas no contexto germanófono e como essas interpretações impactam a integração, o reconhecimento e a autoimagem dos(as) falantes.

Metodologicamente, a pesquisa se fundamenta na sociolinguística de contato e na análise qualitativa de relatos e entrevistas, privilegiando a perspectiva dos próprios sujeitos. A intenção não é mensurar a precisão fonética da fala, mas compreender o significado social das diferenças sonoras: como são ouvidas, quais reações despertam, e de que modo influenciam o cotidiano de quem vive entre línguas. Espera-se, com isso, iluminar as relações sutis entre sotaque, identidade e pertencimento, mostrando que a forma como se ouve o outro é também uma forma de posicioná-lo no espaço social.

Ao propor essa abordagem, o estudo busca contribuir para o campo da sociolinguística de contato e para o debate contemporâneo sobre diversidade linguística e inclusão. Ele parte da convicção de que os sotaques não são falhas a corrigir, mas expressões legítimas de trajetórias plurais; são testemunhos vivos de uma experiência linguística situada entre mundos. Compreender e valorizar essas vozes é condição necessária para construir práticas de convivência mais justas e horizontais em sociedades cada vez mais multiculturais.

Este trabalho integra um projeto em andamento, iniciado em 2024, com conclusão prevista para 2028. Trata-se, portanto, de uma investigação ainda em curso, mas já comprometida em dar visibilidade a um fenômeno que se situa na intersecção entre língua e migração.

2 Referencial teórico

O estudo dos sotaques na aprendizagem de línguas estrangeiras está intrinsecamente ligado aos fenômenos de contato linguístico e às dinâmicas de transferência entre sistemas. Desde os primeiros estudos sistemáticos sobre aquisição de segunda língua, o foco deslocou-se da ideia de “erro” como falha individual para a compreensão do erro como parte de um processo natural de reorganização linguística. Foi Selinker (1972) quem introduziu o termo Interlanguage (interlíngua) para descrever o sistema linguístico intermediário que os aprendizes constroem entre sua língua de partida e a língua-alvo – um espaço dinâmico, permeado por interferências, analogias e inovações. Nessa perspectiva, as chamadas “imperfeições” na fala não são desvios acidentais, mas manifestações estruturadas de um sistema em formação.

Autores como Corder (1981) e Krashen (1982) ampliaram esse olhar, introduzindo modelos de transferência linguística que evidenciam o papel ativo da língua materna na construção de novas formas de expressão. Cada aprendiz, ao falar, mobiliza esquemas fonológicos, sintáticos e prosódicos da língua de origem, reinterpretando-os na nova língua de modo singular. O resultado é um repertório híbrido, que escapa à rigidez das fronteiras entre línguas – e é justamente nesse ponto que o sotaque se inscreve. Aquilo que o senso comum tende a identificar como “erro” ou “marcação estrangeira” é o vestígio sonoro desse processo de mediação entre sistemas linguísticos e experiências de mundo.

Mas a dimensão do sotaque ultrapassa em muito a esfera da fonética ou da fonologia. Sob uma perspectiva sociolinguística, o sotaque constitui uma prática social: ele não apenas revela o modo como alguém pronuncia, mas também como é ouvido e avaliado por outros. Como demonstram Labov, Weinreich e Herzog (2006), a variação é constitutiva da linguagem: não um ruído ou exceção, mas o próprio motor de sua vitalidade. Monteiro (2000) e Bagno (2007) reforçam essa ideia ao mostrar que cada forma de falar carrega um peso simbólico, sendo continuamente interpretada e julgada pelos(as) interlocutores(as). Certos modos de falar são investidos de prestígio e autoridade; outros, de estigma e suspeita. Assim, o sotaque torna-se um terreno de disputa, um espaço em que se negociam identidades e pertencimentos.

Essa tensão entre norma e diversidade adquire contornos específicos no caso do alemão. Durante muito tempo, o ideal linguístico esteve associado à Standardaussprache (a “pronúncia padrão”), rigidamente normatizada e vinculada a determinados centros de poder cultural. Contudo, estudos mais recentes, como os de Savedra e Meirelles (2020) e Voerkel e Huang (2020), propõem compreender o alemão como uma língua pluricêntrica, dotada de múltiplos polos normativos, cada um com seus próprios padrões lexicais, sintáticos e fonéticos. Essa perspectiva plural amplia as fronteiras do aceitável e convida a reconhecer que não há uma única forma legítima de falar alemão.

Entretanto, esse reconhecimento teórico nem sempre se traduz nas práticas concretas de ensino ou nas percepções cotidianas dos(as) falantes. Persiste, mesmo em contextos contemporâneos, um certo purismo linguístico que tende a valorizar a pronúncia próxima ao padrão idealizado e a marginalizar as variações percebidas como “estrangeiras” (Brum e Bolacio Filho, 2025). Cursos de línguas e materiais didáticos podem explorar a promessa da “eliminação do sotaque” da língua alemã, reproduzindo, ainda que de forma sutil, uma ideologia de correção que transforma a diferença em defeito. A mensagem subjacente é clara: falar “sem sotaque” equivaleria a falar “bem”, o que implica considerar o sotaque como um sinal de imperfeição, não como expressão de uma trajetória linguística legítima.

Em contrapartida, autores como Mussalim e Bentes (2009) e Pagotto (2004) enfatizam que a variação é inseparável da identidade. Toda língua é atravessada por forças de heterogeneidade, e todo(a) falante constrói sua identidade discursiva por meio de escolhas linguísticas que o(a) situam em relação aos(às) outros(as). O sotaque, nesse sentido, é simultaneamente expressão de pertencimento e marcador de alteridade: ele remete à origem, à história e à experiência social de quem fala, ao mesmo tempo em que pode servir como base para julgamentos e exclusões. É nessa ambiguidade – entre reconhecimento e rejeição, entre autenticidade e hierarquização – que reside o interesse científico do presente estudo.

No caso dos(as) brasileiros(as) lusófonos(as) que aprendem alemão, essa ambivalência é especialmente perceptível. Seus traços fonéticos funcionam como índices identitários que os(as) distinguem imediatamente entre outros(as) falantes de alemão, podendo despertar curiosidade e simpatia ou alimentar estereótipos de exotismo, informalidade ou mesmo incompetência linguística. Assim, o sotaque brasileiro em alemão torna-se um espelho no qual se refletem tanto as ideologias linguísticas dos(as) interlocutores(as) nativos(as) quanto os próprios processos de construção de identidade dos(as) aprendizes.

Ao propor o estudo da percepção de sotaques, este trabalho se ancora numa concepção epistemológica que entende o conhecimento não como espelho da realidade, mas como construção interpretativa. Inspirando-se em Paviani (2013), parte-se da ideia de que compreender é sempre interpretar, e interpretar é um ato historicamente situado, que envolve tanto a dimensão racional quanto a vivencial do sujeito. Assim, investigar a forma como brasileiros(as) percebem a recepção de seus sotaques em alemão significa considerar a percepção como um processo hermenêutico, no qual se entrelaçam experiência, linguagem e mundo social. Em outras palavras, não se trata apenas de descrever o que os(as) participantes dizem sentir, mas de compreender como esses sentidos se constroem no diálogo entre o vivido e o dito, entre o eu e o outro. Como enfatiza Paviani, nenhum método é puro: toda abordagem científica requer a articulação entre análise, dialética e hermenêutica, de modo que o conhecimento possa dar conta da complexidade da experiência humana e de sua dimensão interpretativa.

Em suma, compreender o sotaque como fenômeno sociolinguístico é reconhecer que ele não pertence apenas ao domínio da fala, mas também ao da escuta. O modo como um sotaque é percebido e avaliado revela, ao mesmo tempo, as fronteiras simbólicas de uma comunidade e suas possibilidades de abertura ao outro. Nesse sentido, o presente estudo se insere na interseção entre a sociolinguística de contato, a análise das ideologias linguísticas e os debates contemporâneos sobre diversidade, preconceito e inclusão, campos nos quais o sotaque deixa de ser um detalhe fonético para tornar-se um sintoma das relações sociais que atravessam a linguagem.

3 Metodologia

A investigação aqui apresentada insere-se no campo das ciências humanas e adota uma perspectiva qualitativa e interpretativa, orientada pelo propósito de compreender as experiências e percepções de sujeitos em contextos reais de interação linguística. Essa escolha metodológica não se dá por mera afinidade de abordagem, mas por coerência epistemológica com o objeto de estudo – a percepção de sotaques – que, por sua natureza, envolve interpretações e significados socialmente construídos. Estudar o modo como falantes brasileiros(as) percebem a recepção de seus sotaques em alemão implica reconhecer que essa percepção não é neutra nem puramente sensorial, mas produto de uma experiência hermenêutica que articula linguagem, cultura e subjetividade.

Inspirando-se em Liberali e Liberali (2011), esta pesquisa parte da premissa de que a metodologia, nas ciências humanas, não é um conjunto de técnicas aplicáveis de modo automático, mas um caminho construído na relação entre sujeito e objeto de investigação. Toda escolha metodológica é, ao mesmo tempo, epistemológica, ética e política: implica uma forma de olhar o mundo e de posicionar-se diante dele. Nesse sentido, a adoção de uma metodologia qualitativa é, aqui, uma escolha que visa dar voz às experiências vividas, valorizando o discurso dos(as) participantes como fonte legítima de conhecimento sobre a realidade social e linguística que habitam.

A pesquisa estrutura-se, portanto, sobre um paradigma interpretativista e crítico. Interpretativista, porque busca compreender significados atribuídos às experiências linguísticas dos(as) participantes, e não quantificar comportamentos; crítico, porque pretende desvelar, nas narrativas sobre o sotaque, dimensões de desigualdade e poder que atravessam as práticas comunicativas. O foco não recai sobre a pronúncia “correta” ou “incorreta”, mas sobre a forma como as diferenças sonoras são percebidas, avaliadas e vividas no cotidiano.

3.1 Contexto e participantes

O estudo concentra-se em um grupo de aproximadamente vinte profissionais brasileiros(as) de enfermagem que migraram para a Alemanha nos últimos dez anos e que atualmente exercem funções na área da saúde. Essa escolha decorre de um duplo critério: teórico e empírico. Teoricamente, trata-se de um grupo inserido em um campo de intensa interação linguística e afetiva, no qual o uso da língua é condição essencial para o desempenho profissional. Empiricamente, esses(as) profissionais representam uma categoria particularmente exposta a julgamentos linguísticos, já que sua atuação cotidiana envolve comunicação com pacientes, colegas e superiores hierárquicos em contextos de alta exigência comunicativa.

A escolha desse grupo também dialoga com a perspectiva segundo a qual as pesquisas em linguagens devem privilegiar práticas discursivas concretas e socialmente situadas (Paviani, 2013; Liberali e Liberali, 2011). O ambiente hospitalar e o trabalho de cuidado constituem espaços privilegiados para observar como se negociam identidades, pertencimentos e fronteiras simbólicas por meio da linguagem. A voz do(a) enfermeiro(a) estrangeiro(a) é, nesse contexto, um espaço de encontro entre mundos, lugar onde o sotaque adquire espessura social e afetiva.

3.2 Procedimentos de coleta de dados

A coleta de dados baseia-se em entrevistas semiestruturadas, conduzidas de forma a permitir tanto a comparabilidade entre os depoimentos quanto a liberdade narrativa dos(as) participantes. Essa modalidade de entrevista foi escolhida por possibilitar o diálogo e a emergência de sentidos inesperados, algo fundamental em pesquisas de caráter interpretativo. As perguntas foram organizadas em torno de eixos temáticos: (1) percepção da própria pronúncia em alemão; (2) feedback recebido de colegas, pacientes e superiores; (3) experiências de mal-entendidos, discriminação ou exclusão; e (4) momentos de reconhecimento ou valorização do sotaque.

Mais do que recolher “dados”, o processo de entrevista é aqui concebido como um ato de escuta e cointerpretação, em que o(a) pesquisador(a) e o(a) participante constroem juntos o campo de significação. Essa concepção compreende o ato de ouvir o outro como parte integrante do processo de conhecer, reconhecendo que toda fala é expressão de uma experiência situada. Além disso, foram observados todos os procedimentos éticos de pesquisa com seres humanos, com aprovação pelo Comitê de Ética em 2025, garantindo anonimato, confidencialidade e consentimento informado.

3.3. Concepção de percepção

Para compreender as falas dos(as) participantes, adota-se o conceito de percepção desenvolvido por Penna (1973), que a entende como uma forma de conhecimento mediado pelos sentidos e pela interpretação. A percepção é, portanto, um processo ativo e socialmente moldado, não um reflexo imediato da realidade, mas uma leitura do mundo atravessada por história, cultura e linguagem. Assim, investigar a percepção dos sotaques é também investigar as condições sociais e simbólicas que tornam certos modos de falar aceitáveis ou rejeitados.

Um aspecto metodologicamente sensível nesta pesquisa diz respeito à distinção entre dificuldades reais de inteligibilidade e a recepção social do sotaque. Em situações de interação oral, mal-entendidos podem decorrer tanto de fatores fonético-articulatórios quanto de atitudes, expectativas e ideologias linguísticas dos(as) interlocutores(as). Como o presente estudo se baseia em relatos e percepções dos(as) próprios(as) participantes, não é possível – nem é seu objetivo – estabelecer uma separação objetiva e técnica entre esses dois níveis. O que se analisa aqui não é a inteligibilidade acústica da fala, mas a forma como os(as) falantes vivenciam e interpretam as reações à sua pronúncia.

Mesmo quando um problema comunicativo possa ter origem em dificuldades fonéticas reais, ele só se torna socialmente relevante quando é experimentado como julgamento, rejeição ou desvalorização. Assim, a percepção do sotaque constitui, ela própria, um dado sociolinguístico legítimo, pois revela como as diferenças sonoras são socialmente significadas no contexto migratório. Nessa perspectiva, o foco desloca-se da pergunta “o que foi realmente compreendido?” para “como essa interação foi vivida e interpretada pelas pessoas envolvidas”, isto é, o modo como o sotaque é percebido não é um ruído metodológico a ser eliminado, mas o próprio lugar onde a experiência social da língua se manifesta.

3.4 Análise dos dados

A análise das entrevistas será realizada por meio da análise temática, conforme proposta de Bardin (2011), articulada a pressupostos da análise qualitativa de Flick (2009). As categorias de análise emergirão de modo indutivo, a partir da leitura e releitura dos relatos, buscando identificar núcleos de sentido recorrentes relacionados à percepção dos sotaques, às experiências de reconhecimento e às vivências de exclusão ou estigmatização. Essas categorias serão posteriormente interpretadas à luz dos conceitos teóricos discutidos – como variação, identidade, preconceito linguístico e pluricentrismo –, compondo um quadro compreensivo das relações entre linguagem e percepção social.

A análise, contudo, não se limita à identificação de padrões discursivos: pretende captar os movimentos de sentido, as ambiguidades e os silêncios que atravessam os relatos. O(A) pesquisador(a), nesse processo, assume papel ativo, não como observador(a) neutro(a), mas como intérprete implicado(a) na construção do conhecimento.

3.5 Alcance e contribuições metodológicas

O enfoque qualitativo adotado não busca generalizações estatísticas, mas aprofundar a compreensão de um fenômeno complexo e multifacetado. A intenção é dar visibilidade às vozes de sujeitos que vivem a experiência do contato linguístico e das fronteiras identitárias, e que, por isso, produzem saberes sobre o que significa “falar com sotaque” em um contexto estrangeiro.

Ao adotar essa metodologia, o estudo reforça a perspectiva de que a pesquisa em linguagem é, antes de tudo, um exercício de escuta. Escutar, no sentido hermenêutico defendido por Paviani, é reconhecer o outro como produtor de sentido e, ao mesmo tempo, reconhecer-se na alteridade. É nesse gesto que reside o potencial emancipador da metodologia: compreender o sotaque não como ruído, mas como expressão legítima de uma experiência humana e social.

4 A escuta do sotaque como experiência de alteridade

Há algo profundamente humano em perceber o sotaque, e mais ainda em ser percebido por ele. O som da voz não é apenas uma vibração no ar, é também uma memória do corpo, uma marca da trajetória, um registro involuntário de pertencimentos. Escutar um sotaque é, de certa forma, escutar um passado que se atualiza no presente. Por isso, o sotaque carrega uma espessura temporal: nele ressoam afetos e deslocamentos.

Essa dimensão temporal e simbólica da voz torna-se especialmente visível na experiência de quem vive entre línguas. Ao falar em uma língua estrangeira, o sujeito migrante empresta à nova língua uma sonoridade que não lhe é própria, mas que, no entanto, passa a ser sua. A fala torna-se um espaço de negociação entre o que se foi e o que se está sendo. Christine Revuz (1998) lembra que, ao aprender uma língua estrangeira, o sujeito não adquire apenas um novo repertório de palavras, mas se confronta com a possibilidade de “ser outro em si mesmo”. Esse encontro entre o eu e o outro se dá não só nas palavras, mas nos timbres, nos ritmos e nas hesitações que fazem da fala um ato sempre singular.

Mas essa singularidade é, muitas vezes, posta à prova por expectativas de homogeneidade. Pierre Bourdieu (1977) mostrou que o valor de uma forma de falar é determinado por relações de poder, não por sua inteligibilidade. Assim, o sotaque estrangeiro é escutado como falta, não porque o(a) falante diga mal, mas porque sua voz não corresponde à norma idealizada do grupo dominante. O ouvido social é treinado para reconhecer o que pertence e rejeitar o que destoa.

Nesse ponto, entra o que Guespin e Marcellesi (2021) chamam de ação glotopolítica difusa: o conjunto de pequenas decisões e reações cotidianas que regulam, de maneira quase invisível, a legitimidade das vozes. Um comentário bem-intencionado sobre a “boa pronúncia”, uma risada diante de um erro, um elogio condicionado à ausência de sotaque, tudo isso participa da administração simbólica das fronteiras linguísticas. A glotopolítica, nesse sentido, não está apenas nas leis ou nos exames oficiais, mas também na escuta.

Escutar é um ato político. A forma como ouvimos o outro revela o tipo de sociedade que estamos dispostos a construir. Uma escuta que hierarquiza e mede compara; uma escuta que acolhe, compreende. Rajagopalan (2013) lembra que toda política linguística é, antes de tudo, uma política do reconhecimento: quem tem o direito de ser ouvido e de ser compreendido? Nesse horizonte, o sotaque é uma forma de presença. Ele lembra que o(a) falante não é uma abstração neutra, mas um sujeito situado, com corpo, história e afetos.

Há também, contudo, uma dimensão de resistência nessa voz marcada. Como observou Kostiučenko (2022), muitos migrantes aprendem a reapropriar-se do próprio sotaque como sinal de pertença múltipla. Falar “com sotaque” passa a ser, para alguns, um gesto de afirmação uma recusa silenciosa às normas que impõem pureza e apagamento. O sotaque deixa de ser ruído para se tornar estilo. É nesse movimento que o estigma se transforma em símbolo: o que antes era visto como falha passa a ser vivido como traço de autenticidade.

Em perspectiva hermenêutica, Paviani (2013) diria que compreender o outro é também compreender-se na relação com ele. A escuta do sotaque, portanto, não é apenas um exercício de tolerância, mas uma experiência de alteridade que nos devolve à consciência de nossa própria finitude. Escutar o sotaque do outro é confrontar o próprio lugar de fala, a própria historicidade. É aceitar que toda compreensão é parcial, situada, marcada por preconceitos – no sentido gadameriano do termo –, mas ainda assim aberta à fusão de horizontes.

Essa abertura implica, inevitavelmente, uma mudança de postura epistemológica. Em vez de buscar eliminar a diferença para alcançar a clareza, trata-se de reconhecê-la como condição da compreensão. Liberali e Liberali (2011) afirmam que o conhecimento nas ciências humanas não se constrói pela neutralização do sujeito, mas por sua implicação. O(A) pesquisador(a), como o(a) falante, participa do mundo que interpreta; é atravessado(a) por ele. O sotaque, nesse contexto, torna-se metáfora de toda produção de sentido: sempre há um resíduo de singularidade que escapa às regras, um timbre que denuncia a presença de quem fala.

Por isso, o estudo da percepção do sotaque não é apenas uma questão técnica ou fonética, mas uma reflexão sobre o modo como nos relacionamos com a diferença. Ele convida a repensar o que significa “entender” alguém: compreender não é simplesmente decodificar sons, mas reconhecer a humanidade que fala através deles. Talvez, então, o verdadeiro desafio não seja eliminar o sotaque, mas aprender a ouvi-lo.

5 Resultados parciais

A análise de algumas das entrevistas realizadas já revela que o sotaque é percebido pelos(as) participantes não apenas como um traço fonético, mas como elemento de identidade e como ponto de fricção na experiência migratória. As narrativas mostram o quanto a pronúncia, a entonação e o “modo de falar” em alemão se tornam centrais para o sentimento de pertencimento, para a credibilidade profissional e para a construção de vínculos no trabalho.

Entre os(as) participantes, há uma consciência clara de que o sotaque é algo persistente, mesmo após anos de vivência na Alemanha. Uma das entrevistadas reflete: “Claro que eu vou querer falar sem sotaque (…) Mas o meu lado sensato sabe que o sotaque sempre vai existir. No Brasil, quando eu vou pro Brasil e falo em português, eu falo com sotaque. Quando eu falo inglês (…) eu tenho sotaque. Então, isso sempre vai existir.”

A fala evidencia a internalização de um ideal de neutralidade fonética, simultaneamente reconhecido como inalcançável. O sujeito parece oscilar entre o desejo de adaptação total e a aceitação de uma marca sonora que o acompanha em qualquer língua. Essa ambivalência se reflete em gestos de humor e autoafirmação, como quando a mesma entrevistada cita uma amiga descrita como “bem carioca”, pois a sua origem é reconhecida nas marcas do sotaque carioca ao falar em alemão. Ela diz que a amiga fala “Lapadeutsch” (uma junção de “Lapa”, em referência ao bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, e de “Deutsch”, alemão), e é perfeitamente compreendida: “Ela fala Lapadeutsch. Mas todo mundo entende ela, e ela tem trocentos amigos.”

O termo inventivo sintetiza a criatividade identitária de falantes que convivem com a diferença fonética sem apagá-la. No plano interpretativo, trata-se de um movimento de reapropriação: o sotaque deixa de ser apenas desvio e passa a funcionar como marca de estilo comunicativo, coerente com a ideia de “assinatura sonora” discutida no referencial teórico.

Nos relatos sobre o processo de aprendizagem do alemão, aparecem menções diretas ao ensino da pronúncia. Uma das entrevistadas recorda que, no curso preparatório, havia ênfase especial na sonoridade e na entoação: “Treinavam bastante a gente também… entonação das frases; a diferença entre entoação de pergunta no Brasil e na Alemanha.”

Apesar desse treinamento, a mesma entrevistada reconhece os limites do aprendizado formal: “O curso foi uma porta de entrada pra gente chegar na Alemanha e começar a trabalhar. Mas a parte da fluência só é adquirida com o tempo.”

A consciência de que a correção fonética não garante uma integração comunicativa plena reforça o argumento do artigo de que a escuta social pesa tanto quanto a emissão. O “falar bem” é construído socialmente, na relação com quem ouve, uma dimensão que o ensino de línguas raramente alcança.

As experiências negativas narradas por algumas participantes mostram que o sotaque, especialmente nos primeiros anos na Alemanha, pode ser alvo de discriminação explícita. Uma entrevistada descreve o início de sua trajetória profissional como um período “terrível”: “Eu era perseguida no trabalho porque eu não conseguia falar a língua direito e não conseguia entender direito o que falavam comigo.”

O trecho revela o entrelaçamento entre fala e credibilidade: as dificuldades com a língua são convertidas, na percepção da interlocutora, em justificativa para o tratamento hostil. A percepção de inferiorização linguística – “não falar direito” – traduz-se em desigualdade simbólica. Nesse sentido, o sotaque aparece como gatilho de exclusão, operando na fronteira entre o que é audível e o que é socialmente aceito. Essas experiências de exclusão deixam marcas duradouras, perceptíveis mesmo após o domínio da língua e a consolidação da vida na Alemanha.

Mesmo após anos de residência e fluência comunicativa, a sensação de não falar “como eles” permanece. Uma entrevistada, que reside há oito anos na Alemanha, sintetiza: “Eu não vivo de forma autêntica aqui. Muita coisa eu ainda tenho que adaptar.” Em outra passagem, relata ter ouvido de uma colega: “Se você soubesse falar mais alemão, a gente te conheceria muito melhor.”

A percepção de que a fala ainda limita o acesso a relações mais plenas indica que a língua funciona como fronteira simbólica persistente. A entrevistada identifica a origem do comentário “por causa do meu sotaque ou por causa da minha aparência”, sugerindo que língua e corpo se entrelaçam na experiência do estigma. O sotaque, nesse caso, não é apenas uma diferença sonora: é também um marcador de diferença social percebida.

Ao mesmo tempo, há experiências que mostram que o sotaque pode ser ouvido de forma positiva, funcionando como elemento de identificação e proximidade. O exemplo da amiga que fala “Lapadeutsch”, “bem carioca”, ilustra como a diferença sonora pode conviver com a fluidez comunicativa e até se tornar signo de simpatia e vínculo. A fala marcada, quando reconhecida e acolhida, perde o peso do desvio e ganha o valor de presença.

Os relatos evidenciam, portanto, que o sotaque atua simultaneamente como obstáculo e como emblema identitário. Para os(as) enfermeiros(as) brasileiros(as), ele marca o início das dificuldades de inserção, mas também acompanha os momentos de conquista e de ressignificação. As percepções mostram que o julgamento da fala é relacional: muda conforme o contexto, o interlocutor e a autoconfiança do(a) falante. O sotaque, portanto, não é apenas uma característica fonética, mas uma experiência de escuta e de autoescuta.

Ao valorizar essas percepções, a análise metodológica reafirma a relevância de compreender o sotaque como fenômeno interpretativo e vivido, e não apenas como variação acústica.

6 Considerações finais: o sotaque como lugar de escuta e reconhecimento

O estudo dos sotaques em contextos de contato linguístico e migração revela que a variação linguística nunca é apenas uma questão de sons, mas de significados. O sotaque, longe de ser um simples traço fonético, emerge como um fenômeno social complexo, situado na intersecção entre língua, identidade e poder. Ele é, ao mesmo tempo, vestígio e criação: traz consigo a memória de uma língua de origem, mas também testemunha o esforço de habitar uma nova língua.

Esta pesquisa, realizada junto a profissionais brasileiros(as) de enfermagem na Alemanha, está permitindo vislumbrar esse espaço de tensão e de construção identitária que se forma entre línguas. Para esses sujeitos, o ato de falar em alemão não é apenas um exercício técnico, mas uma travessia simbólica: é o corpo que se adapta, é a voz que busca ser compreendida, é o olhar do outro que confirma ou desestabiliza o pertencimento. A língua, nesse processo, torna-se também uma forma de trabalho emocional: instrumento de cuidado, mas também de resistência.

As reflexões teóricas e empíricas convergem para mostrar que o sotaque pode ser simultaneamente recurso e obstáculo. Ele favorece a comunicação intercultural ao introduzir nuances de empatia e singularidade, mas também pode servir de base para julgamentos e exclusões. A mesma diferença que desperta curiosidade pode, em outros contextos, acionar estereótipos ou suspeitas. Essa ambivalência, porém, é reveladora: ela expõe o quanto as normas linguísticas estão imbricadas em ideologias de pureza, prestígio e homogeneidade, ideologias que, como mostram autores como Bourdieu (1977) e Blanchet (2016), sustentam desigualdades simbólicas sob o pretexto da correção linguística.

A investigação propõe, portanto, que o sotaque seja compreendido como lugar de escuta e de reconhecimento. Escuta, porque é nele que se revelam as atitudes sociais diante da diferença, o quanto uma comunidade está disposta a acolher vozes que não se conformam à norma. Reconhecimento, porque aceitar o sotaque do outro é também aceitar a legitimidade de sua presença, sua história e seu direito de significar o mundo na língua que fala. O desafio não é linguístico, mas ético: deslocar o ouvido da vigilância para a compreensão, da hierarquia para o diálogo.

O recorte empírico deste estudo permite uma análise aprofundada de um grupo que encarna de modo exemplar as contradições entre integração e diferença. A enfermagem, profissão pautada na escuta e no cuidado, mostra-se um terreno sensível para observar as implicações do sotaque nas relações humanas. A limitação do foco, contudo, é também convite: pesquisas futuras poderão estender essa análise a outros contextos profissionais, a outras comunidades migrantes e, sobretudo, à perspectiva dos(as) falantes nativos(as), que são parte constitutiva do fenômeno de percepção e julgamento.

Mais do que oferecer respostas fechadas, o estudo busca abrir caminhos. Ele sugere que compreender o sotaque é compreender o outro; e que escutar o outro é, inevitavelmente, transformar-se. Quando o sotaque deixa de ser um sinal de falta e passa a ser reconhecido como traço de humanidade, a língua se torna, de fato, espaço de encontro. Essa mudança de perspectiva tem implicações diretas para a educação linguística, para as políticas de acolhimento e para a convivência multicultural: ela desloca o foco da correção para a comunicação, do erro para a diversidade, do ensino para o diálogo.

Em síntese, o trabalho convida à construção de uma escuta mais justa, uma escuta que reconheça o sotaque não como ruído, mas como eco da pluralidade que compõe a experiência humana. Ao dar visibilidade às percepções e vivências de brasileiros(as) que falam alemão em terras estrangeiras, esta pesquisa pretende contribuir para o debate sobre o preconceito linguístico e, sobretudo, para a valorização da diferença como elemento constitutivo da linguagem.

Em última instância, este estudo reafirma o papel das ciências da linguagem na promoção de uma educação linguística crítica e inclusiva. Ao articular teoria e experiência, propõe-se não apenas a descrever um fenômeno, mas a interpelar práticas e sensibilidades, contribuindo, assim, para a construção de uma cultura de escuta que reconheça, na diversidade das vozes, a própria riqueza da condição humana.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados que fundamentam esta pesquisa podem ser obtidos sob consulta com o autor.

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  • Editor
    Ebal Bolacio Filho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Dez 2025
  • Aceito
    09 Jan 2026
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