O presente artigo investiga como as contradições formais e discursivas da narrativa de Serenus Zeitblom no Doutor Fausto (1947) constituem o núcleo através do qual o romance articula sua dimensão política. Partindo do debate sobre a confiabilidade narrativa, procuramos compreender o que o entendimento de Serenus sobre a vida de Adrian Leverkühn revela sobre o próprio narrador. Para tanto, primeiramente situamos Serenus na linhagem de narradores autoconscientes do Tristram Shandy (1759-1767), de Laurence Sterne, e do Gato Murr (1819), de E. T. A. Hoffmann. Em seguida, aproximamos essa tradição da leitura que Roberto Schwarz faz de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) em Um mestre na periferia do capitalismo (1990). Dessa forma, compreendemos como a narrativa de Serenus não só opera como um mecanismo de autoexposição involuntária semelhante à dos outros narradores, como também tem um sentido intrinsecamente político. Assim, o contraste entre discurso humanista e inação política diante da ascensão do Nazismo torna-se evidente na própria estrutura narrativa, de modo que a biografia que Serenus escreve encena simultaneamente um aprendizado político e uma crítica à burguesia intelectual (Bildungsbürgertum) da qual ele faz parte.
Palavras-chave
Thomas Mann; Doutor Fausto; Machado de Assis; Roberto Schwarz; confiabilidade narrativa